domingo, 7 de novembro de 2010

DE VOLTA AOS GADOS DO RIO

o futuro da Amazônia ribeirinha já começou há mais tempo do que cogita nossa vã filosofia. Depois de longo período colonial, entre 1615 (conquista do Maranhão) e 1823 (adesão do Pará ao império do Brasil) e período neocolonial até recentemente com a carta magna de 1988; sempre beirando ao desastre humano e ecológico; eis que ao nos aproximar dos 400 anos de Belém do Grão Pará, em 2016, o Brasil descobre sua antiga ecocivilização amazônica fundada no peixe nosso de cada dia e mais recursos aquáticos do trópico úmido.

é claro que a Floresta Amazônica e os povos da floresta, miseravelmente atacados e pilhados durante o "milagre" econômico da década de 1970 e seus mártires tendo Chico Mendes à frente, continuarão no centro dos debates. Porém, ultimamente os povos das águas entraram em cena, notadamente com a criação do Ministério da Pesca e Aquicultura do Brasil; apesar de estarem aí grandes populações tradicionais ribeirinhas há milhares de anos e ter carregado às costas o desenvolvimento regional, há séculos, debaixo duma das piores tiranias da Terra.

com vista ao horizonte futuro até 2030, tangidas pela mudança climática e a crise econômica global as principais economias do mundo começam a proteger seus mercados com reflexos negativos sobre imigrantes e o protecionismo comercial antes deplorado pela globalização. No eixo metropolitano brasileiro, economistas notáveis pregam a favor do mercado interno como plataforma de crescimento nacional e advertem a respeito da vulnerabilidade externa baseada na exportação de alimentos e matéria-prima.


como há de ficar a nossa Amazônia em tal cenário com seus 25 milhões de habitantes? Acredito que poderá, inclusive, melhorar. Periferia da periferia, nós alimentamos um tremendo complexo de inferioridade de marisco entre o mar e o rochedo: condenados a ser "celeiro do mundo" ou "almoxarifado" da pátria amada.


A Zona Franca de Manaus, por exemplo, conquistou seu lugar ao sol na história da Amazônia central e terá, cada vez mais, que focar na floresta sem contudo poder esquecer os gados do rio donde tirou e tira ainda sustento da população; pois gente não come computador e motocicleta. Já o Amapá e Pará, por sua vez, hão de focar a Amazônia azul e seus recursos ictiológicos e de energia mais do que outra coisa, sem esquecer as florestas, com prioridade para o mercado interno.


Se o futuro do Brasil é a Amazônia, tal futuro já começou mas ainda está inseguro. Se a Floresta é rica, ainda mais ricos são os rios, lagos e a plataforma marítima. Portanto, é hora de investir nas regiões amazônicas tendo, principalmente, o Ministério da Pesca e Aquicultura como peça-mestra do mercado interno regional, necessário à sobrevivência e desenvolvimento humano sustentável de algo já em torno de 30 milhões de cidadãos brasileiros no ano 2030. O amparo do bolsa família não pode ser eterno e as promessas do mercado de captação de carbono e serviços ambientais são interessantes mas não podem ser a solução econômica das regiões periféricas.


nos centros políticos e acadêmicos em Belém e Manaus poucos sabem que foram peixes a base econômica de sustentação da civilização amazônica. Desde seus primórdios pré-colombianos e que até metade do século XVIII arrobas de peixe moqueado eram moeda corrente para pagamento de salários, soldos e côngruas. Portanto, os "gados do rio" (peixe-boi, pirarucu e tartaruga) foram a "salvação da lavoura" na Amazônia. 

A praça Amazonas, em face ao São José Liberto (antigo convento e presídio), chamou-se em príscas eras "Comedia do Peixe-Boi" indicando que até lá chegavam piscosas lagunas e igarapés das várzeas do rio Guamá, porém nas poucas vezes que o topônimo foi lembrado confundiram-no com certa "comédia", que na verdade foi tragédia do pacífico mamífero aquático quase extinto pela enormíssima ganância e matança ao longo de três séculos. Escreveu o padre Antônio Vieira que, todos anos, colonos holandeses em comércio de escambo com índios do Marajó levavam cerca de 20 navios carregados com tonéis de carne de peixe-boi conservada em "mixira".

Em Brasilia, por suposto, na Esplanada dos Ministérios menos se conhece este capítulo da história econômica da Amazonia. O turismo receptivo nesta região, depois do terminal pesqueiro, perde tempo em redefinir a função sócio-cultural do mercado do peixe no Ver O Peso e da construção de grande aquário amazônico de rio e mar em Belém, capazes de promover o desenvolvimento urbano ribeirinho.


de todo modo, deve ser o homem amazônida o centro do ambicionado desenvolvimento regional sustentável. Este homem, como a arqueologia e antropologia provam, sustentado por cardumes costeiros e peixe do mato, foi inventor da primeira cultura complexa da região - a famosa e abandonada Cultura Marajoara de 1500 anos de idade - , hoje seus descendentes são vítimas de trabalho semi-escravo com que a gastronomia amazônica brinda o paladar dos turistas. A cadeia produtiva da pesca é talvez umas das mais desiguais da nação.

portanto, o Presidente Lula começou uma revolução sócio-econômica da pesca quando, em 1º de janeiro 2003, criou a Secretaria Especial da Aquicultura e Pesca, vinculada diretamente à Presidência da República. No Dia do Pescador, 29 de junho, ano de 2009, Lula sancionou a lei de criação do Ministério da Pesca e Aquicultura, o maior anseio dos pescadores do Brasil.

agora as esperanças da Amazônia ribeirinha se voltam para a Presidente eleita Dilma Rousseff no sentido do Ministério da Pesca e Aquicultura levar adiante essa revolução iniciada por seu famoso antecessor. A produção de proteínas para segurança alimentar do povo brasileiro, erradicação da fome e da pobreza das populações tradicionais, reclama um forte mercado interno com investimentos em educação científica e tecnológica na transformação de "gados do rio" em produtos de nutrição, turismo e cultura. Alguma dúvida?

Um comentário:

  1. adendo ao post. Em 1963 pela primeira vez subi o rio Amazonas até Faro, no rio Nhamundá, divisa do Pará com o estado do Amazonas. Residi ali durante 5 anos. Então assisti o "boom" da juta e à incrível escassês de mandioca para fabricação de farinha. A lembrança vem para frisar o assunto da falta de segurança alimentar das regiões em benefício de lucros de produtos de exportação.

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