sexta-feira, 25 de maio de 2012

ILHA DO COATI: O MARAJÓ COMEÇA AQUI

Chegada em Ponta de Pedras pelo Rio Marajo Açu, Por Antonio Ernesto Teixeira da Silva


PATRIMÔNIO NATURAL MUNICIPAL DO RIO MARAJÓ-AÇU
(proposição aos legisladores do município de Ponta de Pedras).

Aos Conterrâneos pontapedrenses:

Data venia, o poeta e filósofo ribeirinho Juraci "O Boto" Siqueira; 
especialista profundo do mundo das águas, 
me ajude neste extravagante pleito ao Senhor Prefeito
e aos Senhores Vereadores Municipais da antiga Vila de Itaguari;
no sentido de declarar a ilha jitinha do Coati chamada
morada da cobra grande Boiúna
porto e estaleiro imaginário do Navio Encantado,
titulo de Patrimônio Natural Municipal do rio Marajó-Açu.

Esta ilha jitinha esconde o mistério do Fim do Mundo
onde por acaso o Marajó começa rico e cheio de garças
que lhe fica fronteira à margem esquerda do rio
na orla da cidade e na terceira margem da paisagem.
Marinheiro de primeira viagem e visitante estrangeiro
não imagina que a ínsula pequenina
fazendo parte do arquipélago do Itaguari
(arquipélago esse, na verdade, parte da "ilha" do Marajó)
guarda tão grande tesouro da nossa antiguidade.

Em certas noites de lua quando o relógio da Matriz
bate as doze badaladas da meia-noite a ilha desatraca
enquanto a cidade dorme o sono da pedra
da primeira noite do mundo
evai a cobra-ilha em riba da maré descendo para a boca do rio
lá fora na correnteza do Amazonas aparece o navio
vai para alto mar todo iluminado com música a bordo
mais de um canoeiro viu
e mesmo na Mangabeira pescador indo pescar
pode jurar que o caso é real.

Outra vez um mariscador panema morto de sono
encostou a montaria na ilharga da ilha Coati
pra esperar a maré,
o pobre diabo adormeceu em riba do banco
e quando deu por si já ia a reboque no além mar
quando acaba o galo cantou lá em terra
o dia amanhecia por riba do Fim do Mundo
o caboco se acordou e achou tudo no lugar de costume
a ilhinha ingênua, remo, matapi, remo e canoa amarrada...

Oh, as mil e uma noites do Fim do Mundo!
Passado e futuro caminham pelas ruas
de mãos dadas inventando estórias deste rio.

Não deixem, meus senhores e minhas senhoras,
se perder a memória do lugar.

Zé Varela

terça-feira, 22 de maio de 2012

O Chalé de Alfredo em "Chove nos campos de Cachoeira"




TEMPO DE MENINO


Asa de garça
passou por cima de minha cabeça ao entardecer...
Chuva encheu a lagoa.


Me lembro de Cachoeira
ao entardecer, no tempo do inverno
O quintal da casa, cheio d'água,
para minha alegria de menino levado,
doidinho pela água como filhote de pato brabo.
Alegria de brincar com meus navios de miriti
E de espantar as sardinhas.
Me lembro das piaçocas,
das marrecas,
Dos tuiuiús passando muito alto.
Indo embora para os lagos desconhecidos.
Me lembro daquele moinho de vento
Parado no meio das águas.
Montarias levando meninos para as escolas.
O velho Mané Leão, surdo e trôpego,
subia a torre da igreja para bater a ave-maria.
Gaviões, colhereiras, marrecas, piaçocas, tuiuiús
passavam por cima da igreja...
Eu não pensava nos reinos encantados
que há nos livros caros dos meninos ricos
(quando eu conhecia os contos de Perrault)
Sabia histórias que a Sabina, cria da casa, me contava,
Pensava nas canoinhas de miriti bubuiando nas águas,
nos matupiris que comiam os miolos do pão,
nos cabelos verdes da mãe d'água, nos choques dos puraqués,
no ronco dos jacarés, nos sucurijus que podiam vir buscar a gente
quando estivesse descuidada, tomando banho no quintal da casa...
(quando eu pensava nas fábulas de La Fontaine).
Eu tinha a Sabina, cria da casa,
Para me ensinar a linguagem dos bichos marajoaras.
E me mirava horas e horas, no espelho das águas,
E quando o vento vinha arrepiando as águas,
O meu retrato se arrepiava também, se desmontava,
[perdia,
o sério de um retrato bem tirado
para ser uma criatura que o vento bolia
nos espelhos das águas...


Não vejo mais nenhuma asa de garça...
Não vejo mais nenhuma paisagem de água e mururé
[em volta de mim


Infância, tempo de menino,
Sucuriju te levou p'ro fundo das águas
Com todas histórias de Sabina
As canoinhas de miriti, os cabelos da mãe d'água
O acalanto da rede no balanço bom demais que
[mamãe me fazia... 
É por isso com meu velho dicionário
Leio os contos de Perrault
E compreendo a fala dos bichos de La Fontaine.


*****


(Revista Terra Imatura, março de 1939)
Segundo Profª Marli Furtado, este poema apareceu pela primeira vez na Escola em 1935 Fonte:Casa de Cultura Dalcídio Jurandir

quarta-feira, 16 de maio de 2012

NOSSA UNIVERSIDADE FEDERAL COM A CARA E A CORAGEM DA BRAVA GENTE DO MARAJÓ




ACHO que estamos todos de acordo. A gente quer uma nova universidade federal no Marajó... Porém carece deixar bem claro: a gente não quer "mais uma" e sim uma universidade capaz de fazer caboco se tornar doutor sem jamais se envergonhar e deixar de ser caboco.

ENTÃO deixa ver se me explico bem: a base da universidade dos nossos sonhos está expressa na Carta do CODETEM assinada em Portel no último dia 30 de março.

na dita Carta sobre educação ribeirinha o que mais se destaca é a condição geocultural da nossa várzea repartida em 1700 e tantas ilhas com mais de 500 comunidades locais. A bem dizer, tendo o futuro doutor desde a barriga da mãe começado com o pré-natal bem feito, passando pela assistência materno-infantil inclusive creche comunitária bacana, escolinha, saúde da família e daí pra frente...

quer dizer, esta nossa universidade é que nem uma casa que a gente começa de baixo pra cima e não sentando logo a cumeeira... A cumeeira, neste caso, é a própria universidade sonhada por nós.

NÃO BASTA TROCAR A PLACA DA UFPA E METER EM RIBA PLACA MANEIRA DA QUERIDA UnM 

diz o caboco, quem tem pressa come cru! Então, vamos fazer a coisa certa... Em nossos corações e mentes já existe, de fato, a nossa UNIVERSIDADE FEDERAL DO MARAJÓ (UnM). 

onde está? Em Soure, desde 1986, e em Breves: é, pois, o campus Marajó da Universidade Federal do Pará (UFPA). Vamos, então, numa boa, fazer o Occupy UnM nos campi da UFPA no Marajó e Belém. 

nós não temos dúvida de que a UFPA foi, é e será sempre parceira do Marajó. Mas, como todo mais nivel federal, estadual ou municipal atuando no Marajó, ainda deixa muito a desejar...

em primeiro lugar há de se mudar a mentalidade do Professor e da Professora ribeirinha desde jitinha, com muito orgulho em ser caboco ou caboca descendente, se for o caso, dos antigos e diversos povos indígenas das Ilhas.

sem esta mudança fundamental não adianta fazer obras, discursos, propaganda institucional e soltar foguetes.  Portanto, não vamos simplesmente aceitar um adeus da UFPA, muito obrigado e passe bem. Temos muitos que dialogar e pressionar no sentido de todas entidades federais, estaduais e municipais no Marajó começarem a se entender entre elas mesmas...

temos a UFPA, a UFRA, o IFPA, o Museu Goeldi, o ICMBio, a Embrapa... Acho que o Protocolo de Cooperação entre estabelecimentos de ensino e pesquisa no Estado do Pará, incluindo a UEPA e SEDUC precisa de um Anexo Específico para cada região do interior, a começar naturalmente pelo Marajó prevendo, expressamente, a perspectiva de desmembramento da UFPA para dar lugar à UnM.

tal Protocolo para o Marajó deveria, então, se debruçar com um Grupo de Trabalho (GT) sobre a Carta de Portel supracitada. Para que a EDUCAÇÃO RIBEIRINHA comece a responder às demandas desde o ensino infantil e a saúde materno-infantil. Pois será ponto pacífico que, desde o primeiro dia de funcionamento da UnM, será seu ponto forte a PESQUISA EM SAÚDE e EDUCAÇÃO RIBEIRINHA (de tal modo que, assim como já se diz hoje tema socioambiental, para significar que o social é inseprável do meio ambiente, também ficará entendido doravante que nas comunidades ribeirinhas a coisa é 'saúd'educação' dos pés à cabeça...

ALDEIAS, PALAFITAS E TESOS DO FUTURO 

OUTROSSIM, nós entendemos que a tradicional "universidade" pés descalços dos primórdios da Cultura Marajoara é raíz da nova e moderna universidade multicampi que queremos: naturalmente, os conhecimentos das comunidades tradicionais deverão ser estudados e protegidos na UnM, da mesma maneira como a C&T do trópico úmido deverá ser apanágio da mesma.

Deste engenhoso casamento se inventará o futuro de aldeias pós-modernas refeitas do desastre do malfadado Diretório dos Índios com o esquecimento e a solidão de rios e igarapés panemas. Queremos uma universidade-arquipélago, os municípios articulados por sistema multicampi com extensão direta ao interior em 500 e tantas localidades em geral onde escola, posto de saúde e centro socioambiental sejam "unha e carne" funcionando todos os dias da semana, e lá as famílias do lugar sintam-se em casa ligadas ao mundo ao mesmo tempo.

neste futuro imaginado, o saber popular fará boa companhia à Ciência: o caboco reapreenderá a construir aldeias sobre tesos, como jardins suspensos, que nem seu bisavô indígena. A palafita antiga receberá progresso da moderna tecnologia, e os saberes locais e a economia ribeirinha ainda terão a sua vez e sua hora para admiração geral.

Se alguém nos disser que tudo isto é uma desconforme utopia, nós concordaremos sem pestanejar. Pois, se fosse pra chover no molhado quem seria o besta a sair de seus cuidados para se deixar embrulhar em tamanho engano? Não, senhores; a gente ribeirinha sem eira nem beira quer dar um basta à Pobreza e à mediocridade pra sempre. Cuidar da vida numa região magnífica, como o delta-estuário do maior rio do mundo, onde há mil anos nasceu a ecocivilização amazônica cuja resiliência ainda poderá se salvar para o bem de todo vasto mundo. 

Acorda Pará! Desperta Brasil, nós estamos aqui fazendo a nossa parte!