segunda-feira, 27 de junho de 2011

INTEGRAÇÃO SOLIDÁRIA AMAZONAS-PARÁ

Há trinta anos, o caboco que vós fala em conversa de compadres (Cleo Bernardo, Jaime Beviláqua, Antístines Pinto, Jorge Tufic, Max Carpentier, Arthur Engrácio, Mário Rocha e outros intelectuais de Belém e Manuas, pelas páginas de jornais regionais da época) apelou para que amazonenses e paraenses abrindo caminho a todos mais estados amazônicos brasileiros e paises amazônicos, deixem de banda velhas rixas, preconceitos e intrigas. 

O debate de ideias, timidamente, se fez em torno de boa provocação lançada por Jaime Beviláqua em resposta a meu quixotismo assumido pela união combativa de "ajuricabas e cabanos" contra a alienação regional, com nome para movimento amazônico e/ou projeto AJURICABANO (junção do nome do herói antiescravagista do Rio Negro, Ajuricaba, cacique dos Manaus; e dos combatentes cabanos contra o neocolonialisto luso-brasileiro com corte imperial do Rio de Janeiro). A palavra-chave é "ajuri", que na fala amazonenses oriunda do Aruak significa o mesmo que "mutirão" na fala paraense através do Nheengatu, 'cooperação' no vernáculo.

Até as pedras e as sujidades da Ladeira do Castelo, em Belém-PA, e o velho marco encardido de fronteira Portugal-Espanha, de 1750, fincado na praça de Barcelos-AM; sabem que unidos o gigante Amazonas e o grande Pará fariam do Brasil orgulho planetário em ser o maior país amazônico do mundo. Porém separados e brigando entre si os dois estados abrem a região Norte às piores desgraças, deixando a nação brasileira envergonhada perante a opinião pública internacional.

Ora, o problema amazônico "é a economia, estúpido!", gritaria um valente homem de negócios com investimento na bolsa de futuros e seus representantes políticos e aliados na mídia em face de sonhadores ambientalistas e militantes sociais dos direitos humanos. Esse notável homem prático, sabe mas não lhe interessa que outros saibam o fato de que sim - nós também acreditamos na Economia como base desta questão - , mas o problema da conservação compatível com o desenvolvimento é onde a porca torce o rabo. Melhor dizendo, falta política econômica mais calibrada. E no arsenal de ferramentas um dos principais instrumentos constitui o fomento econômico do turismo receptivo e do mercado da cultura criativa como salvação da lavoura, em qualquer parte do mundo, mas principalmente em uma região sensível tal qual nossa verdejante Amazônia... 

Agora que já sabemos como salvar a lavoura do trópico úmido com valor de mercado, também será preciso, para tirar o discurso do desenvolvimento sustentável das calendas gregas; que os responsáveis pela Cultura e o Turismo nacional saíbam que uma cooperação estratégica entre a FAO, OTCA e EMBRAPA, por exemplo, poderia oferecer a Amazônia oportunidade de ouro a fim de demonstrar de fato novo paradigma de desenvolvimento regional economicamente competitivo, ambientalmente sustentável e socialmente justo.  

E não nos digam, pelo amor de Zeus!, que a exportação bruta de minérios com baixo valor agregado, produção hidrelétrica, 'plantation' de soja e logo mais de arroz em campos naturais, extração devastadora de madeira de escala industrial é pensando na melhoria da qualidade de vida de 25 milhões de habitantes das regiões amazônicas. Arranjem outra lorota boa!


Como assim? A lavoura pode salvar a Amazônia sustentável... Sim, desde que a FAO pelo voto majoritário dos países-membros (notadamente América Latina e o G-77 dos países não alinhados, com destaque asiático e africano) acaba de dar um recado ao primeiro mundo com a eleição do pai do programa brasileiro FOME ZERO, doutor José Graziano da Silva; para comando geral da luta internacional pela segurança alimentar e erradicação da pobreza, a qual sem arranjo produtivo de base toda indústria e comércio de escala é insustentável e perigoso à convivência dos povos com crises recorrentes e bolhas de prosperidade feito soluços sem fim.


Consequentemente, se a Amazônia na verdade é tão importante assim como dizem para equilíbrio ecológico planetário, mesmo já se sabendo da patranha do tal "pulmão do mundo", com que o santuarismo esperto das velhas potências industriais quer manter as populações amazônicas em jejum e castidade num novo jardim do Éden com crescimento zero em favor das novas gerações civilizadas; será justo pagar pela prestação de serviços ambientais e financiar pesquisas de inovações em ciência e tecnologia próprias para regiões do Trópico Úmido planetário.
 
Que melhor recurso tem a Amazônia além de seu capital humano para o desenvolvimento sustentável? Além do óbvio patrimônio genético e savoir faire de "índios", "quilombolas" e "caboclos" (uma diversidade étnico-cultural de milhares de anos, que resiste à estúpida colonização e redução de milhares de linguas e culturas únicas na Terra) há ainda que considerar saberes da população amazônida oriunda de migrações dos Açores, Galiza, norte de Portugal, Líbano, Marrocos, Japão, etc., sobretudo descendentes de meio milhão de "soldados da borracha" (nordestinos) descendentes de antigos conquistadores tupinambás e mamelucos aliados aos brancos invasores.
 
Para obter a mais valia do capital humano amazônico, carece dar voz a esta brava gente a fim de fazer contraponto ao recalcitrante iluminismo e bandeirantismo doutras eras. Não vale a pena declarar guerra à tecnoburocracia que avassala os Brasis... É preferível baratinar o discurso da resistência cultural para refundar a República Federativa mediante uma dialética fundada nos direitos humanos universais e na soberania nacional, capaz de conquistar corações e mentes para plantar a rosa rubro-verde da amazônidade no seio da pátria amada Brasil.

Então, cairão as escamas dos nossos olhos: veremos como o Turismo é indústria e comércio; que ele não vive do vento nem se alimenta só de marketing e propaganda; sem agricultura moderna e tradição gastronômica não há rede de resorts, bandeiras hoteleiras e vôos charters que se sustentem. O turismo na agricultura familiar não pode ser uma presepada para angariar votos a caciques políticos, mas ser prioridade para conferir responsabilidade social a eventos como, por exemplo, o Festival de Parintins onde a gastronomia regional não deve ficar ausente da massa de turistas do Bumbódromo ansiosos para assistir a ópera ribeirinha amazônica...

No Pará, o pólo Marajó tem mais do que Boi-Bumbá e, portanto, a criatividade deve ser chamada para dar concretude ao "Inventário Nacional de Referências Culturais - MARAJÓ" que o IPHAN já entregou ao público. O estado do Pará se ele quiser liderar processo de desenvolvimento regional sustentável terá, necessáriamente, que apostar no Turismo economicamente competitivo, ambientalmente sustentável e socialmente justo... Pará isto só a PARATUR, relegada ao segundo ou terceiro escalão administrativo, separada do HANGAR como usina de eventos; não dá nem pra começo de conversa. Teria que ser criada a todo vapor a Secretaria de Estado de Turismo e Desenvolvimento Sustentável, que todos governos passados evitaram não se sabe bem por que cargas d'água e sempre tecendo as maiores loas à "indústria sem chaminés". Claro que para tal a impessoalidade de programas e projetos deve se impôr às incompatibilidades de personalidade entre dirigentes de áreas afins, tais como a economia, a cultura e o meio ambiente.
Estas questões são de interesse público, mas a conhecida carência de empregos, insufiente aperfeiçoamento profissional e o caciquismo partidário conspiram para perpetuar a cultura que ensina que na prática a teoria é outra...

O diabo é que tudo isto a gente sabe num discurso mais velho do que a Sé de Braga, porém a tal vontade política dos governos de direita ou esquerda é manga de colete, com as manhas de sempre para favorecer certos financiadores de campanha que ridicularizam coisas tais como Bolsa Família, PRONAF, Fome Zero e torcem descaradamente pelo setor minerário bruto, guseiras, soja, madereiras como única via de "desenvolvimento"... Pelo menos, não há ilusão quando a maioria de eleitores revoltada com as promessas de mudança refuga candidatos ditos de esquerda para se vingar elegendo a direita. Então, fazer o quê?

Aí fica difícil dar crédito ao Turismo que a Amazônia precisa e o Pará se vê ameaçado a ser dividido pelo mesmo tipo de eleitores cansados de esperar por Godot e ficar sempre fora da História. Sem patrimônio  histórico, natural, cultural o que vale nosso Pará velho de guerra? Morrendo de inveja, eu vi na TV os 3 dias de Festival de Parintins . Acho que o Ministério da Cultura deveria estudar com carinho a cultura de fronteiras combinada com a integração solidária da América do Sul e Caribe: para o que os grandes estados do Amazonas e Pará podem dar projeto demonstrativo.
 

Troca de informações entre Parintins e Marajó, por exemplo, seria auspicioso no sentido de criar produto marajoara com base na experiência dos bois Garantido e Caprichoso: uma ÓPERA POPULAR MARAJOARA com base no folclore e na cultura tradicional.

Parintins já chegou num estágio superior, em que o bairrismo está caindo a olhos vistos: o levantador do Garantido fez questão de mostrar e proclamar o folclore do Xingu-PA e de Juruti-PA, telespectadores no Brasil inteiro e no exterior ficaram sabendo que figurantes de proa do boi Caprichoso são paraenses, inclusive filhos de Igarapé-Mirim. O modelo Parintins, permitiria um mix turístico-cultural em Marajó e Belém, nos fins de ano como o antigo Projeto Preamar bolado pelo poeta João de Jesus Paes Loureiro, em que toda produção cultural paraense vinha a Belém, e agora amazônica fará maré cheia no estuário, incluisive Macapá atraindo turistas através das Guiana e Caribe.
Como diria o poeta Thiago de Mello, "faz escuro mas eu canto"...

domingo, 26 de junho de 2011

UM PAÍS CHAMADO PARÁ

a crítica fica capenga quando a autocrítica falece: Onde nós mesmos, como indivíduos, concorremos para falha de alguma coisa que devia ser coletiva?

quem me conhece sabe que sou metido a crítico de certo paraensismo rasteiro alimentado por complexo de inferioridade regionalista. Pra mim, caboco num tem "l" civilizacional enrolando a língua, mea ilha nativa é DO Marajó (não DE Marajó...); o dito cujo é cidadão do mundo, a Cultura Marajoara ARTE PRIMEVA do Brasil e Marajó é "centro" do mundo... neotropical !

Acho legal o projeto "Terruá Pará", mas adoraria ir além e proclamar a independência cultural do nosso Pará velho de guerra. Juntar todas Amazônias e Antilhas em Belém, no carimbódromo da Aldeia Amazônica; pra soltar a voz presa dentro de nós (pena que a gente já dormiu no ponto há muito tempo... Mas antes tarde do que nunca).
aí vai hino "oficial" da Cultura Paraense:

Porto Caribe

Lucinha Bastos

Composição: Paulo André Barata/Ruy Barata
Quem vai querer, vai querer
Vai querer desarrumar
Quem vai querer, vai querer
Vai querer lambadear

Eu sou de um país que se chama Pará
Que tem no Caribe o seu porto de mar
E sei pelos discos do velho Cugat
Que yo, ay yo no puedo vivir sin bailar

Lambada, Nêga, vem cá
Neguita, Nêga me dá
Me dá que eu dou
Te dou aquele fungá
Das ilhas de bom chamar amor

Calar, eu me calei
Agora vou falar
Paris se cheguei vou ficar
New York, Moscou, Berlin e Bogotá
Eu sou mandinga do meu Pará
Lambada, Nêga, vem cá
Neguita, Nêga me dá
Me dá que eu dou
Te dou aquele fungá
Das ilhas de bom chamar amor
Deixa eu bailar, deixa eu bailar, deixa eu bailar...


http://www.souparaense.com/2011/04/musicos-paraenses-se-apresentarao-em-sp.html#comment-form

segunda-feira, 20 de junho de 2011

QUE É SER COMUNISTA NA AMAZÔNIA DE HOJE?

Para ser considerado "amazônico", carece certo espírito de amazonidade no mundo, antes mesmo do conceito regional "terruá" (terroir) assimilado ao francês "terroir" (se lê terroar), do latim vulgar (terratorium) pelo galo-romano (territorium; territoire). Na origem, o "terroir" significava extensão de terra limitada pela aptidão agrícola, em particular à produção de vinho. O terroir diz respeito à produção de uma determinada área. Geógrafos franceses ampliaram o conceito para um conjunto de terras de coletividade social integrada por relações familiares, culturais e de tradições de defesa comum ou solidariedade da exploração comercial de produtos originários de um determinado território.

Assim, existiria um regionalismo "terruá" no arquipélago de culturas dos brasis ou um amplo sentimento identitário de amazonidade no mundo? Ontem acreditei, mais uma vez, que ainda haverá um amanhã para o homem amazônico. Em plena tarde de domingo, a 12ª Conferência Municipal do Partido Comunista do Brasil (PCdoB) prosseguia além das 18 horas, com intervenções vibrantes desde o começo do dia, na Câmara Municipal de Belém. Por onde passaram quase mil militantes vindos de todos bairros da capital estadual e dos distritos do município.


A Conferência primou pela autocrítica acerca do insucesso eleitoral nas últimas eleições estadual e municipal, tendo como contraponto a renovação de compromissos partidários, novas filiações e a eleição de quadros para direção partidária - 22 novos dirigentes no total de 33.Grande maioria de jovens e significativo número de mulheres, inspiradadas certamente pelo fator "Dilma Rousseff". 

O partido fazia sua autocrítica por não ter eleito nenhum vereador ou deputado, enquanto noutras oportunidades sempre teve representantes no parlamento paraense. Na última eleição majoritária de Belém a chapa Mario Cardoso (PT) e Leila Márcia (PCdoB) foi preterida pelos eleitores em favor da reeleição do atual prefeito.


Então, seria caso dos eleitores de Belém também fazer autocrítica, como o PCdoB tem coragem cívica de fazê-la sem desistir da luta.Fui lá motivado a ouvir, observar e aprender conforme o ditado: "não há ninguém tão sábio que não tenha nada a aprender, nem tão estúpido que não tenha algo a ensinar...".

Já me haviam nomeado delegado para escolha do novo diretório municipal. Acabei proferindo umas palavras, dispondo como todo mundo de três minutos para dar recado. Antes de tudo, louvei a coragem da autocrítica para retomar forças e prosseguir na luta. Depois, observei que a Câmara Municipal de Belém(PA) é a decana das câmaras de vereadores da Amazônia e, aparentemente, nunca fez valer esta condição. Por outra parte, Belém é capital do estado federado amazônico mais o antigo: "do Brasil sentinela do Norte" (conforme canta o Hino do Pará). O qual estado querem dividir a toque de caixas para avançar mais no saque neocolonial da região.

Nesta hora,o que deve dizer um comunista paraense, tendo ou não mandato eleitoral? Acho que antes de tudo é preciso contextualizar a luta do povo trabalhador do Município de Belém na história das regiões amazônicas. Em 2012, a cidade de São Luís(MA) completa 400 anos: começou no Maranhão a invenção da Amazônia brasileira. E, em Belém do Grão-Pará, desde 12 de janeiro de 1616, o deslocamento da fronteira norte irradiada de Olinda (PE)iria chegar até os confins com os mais países amazônicos. 

Depois da fundação de Feliz Lusitânia (Belém do Pará), rebento geopolítico de Nova Lusitânia (Olinda-PE), descendente da velha Lusitânia (Galiza-Espanha e Portugal), a fronteira entre as colônias ibéricas na América do Sul nos termos de Tordesilhas (1494-1750) ficou limitada à Costa-Fronteira do Pará (margem ocidental da baía do Marajó), todo território desde a ilha do Marajó e Amapá inclusive, na foz do Amazonas, até o Pacífico era domínio de Espanha: noção de geografia histórica ausente das pesquisas de nossas universidades e, consequentemente, de espaço nos meios de comunicação social com referência à Amazônia brasileira...

Os concorrentes coloniais estrangeiros foram expulsos do estuário amazônico pela união de armas portugueseas a remos e arcos tupinambás, contra holandeses e ingleses parceiros aos valentes índios das ilhas do Marajó e Cabo do Norte (Amapá), de 1623 a 1647, aproximadamente. O capitão Pedro Teixeira, guiado pelo mameluco pernambucano Bento de Oliveira e movido por 1200 remadores tupinambás saiu de Belém (1637) até Quito (Equador) e retornou (1639), mas este fato não alterou o status quo de Tordesilhas nem garantiu passagem franca às canoas das "drogas do sertão" e "tropas de resgate" para dentro do Amazonas, que eram atacadas e pilhalhas na volta pelos ditos "nheengaíbas", parceiros de traficantes europeus nas Guianas, aos quais repassavam as coletas da floresta e índios capturados como escravos.


Desesperados, os colonos portugueses por intermédio da Câmara de Belém declararam os índios marajoaras como "corsários" e rebeldes bárbaros, requerendo ao rei de Portugal a "guerra justa" (extermínio e cativeiro) da confederação de índios "Nheengaíbas" (marajoaras). Deferido o pedido para execução pelo governador do estado do Maranhão e Grão-Pará, André Vidal de Negreiros; o padre Antônio Vieira advertiu (com total razão, que tal decisão seria uma "guerra impossível de vencer", provado anteriormente por três tentativas militares frustradas, apesar da matança de parte a parte... 

Eis que, juntamente com o primeiro levante, a 7 de janeiro de 1619, dos tupinambás de Cabelo de Velha contra o forte do Presépio (Castelo atual) e a brutal repressão que se seguiu desde São Luís (MA) e Belém (PA); a resistência dos marajoaras no século XVII antecede a guerrilha de Guaiamã, cacique dos Aruãs e Mexianas contra os índios aliados aos portugueses (1723), que resultou na expedição da tropa de guarda-costa sob comando do sargento-mor Francisco de Mello Palheta e o furto do café de Caiena que foi formar cafezais de São Paulo; chegou-se à Cabanagem de 1835-1840... Uma cultura de luta que justifica a popular legenda do "Pará velho de guerra".

Por este nexo, quem duvida que o espírito cabano estava presente nas motivações fundamentais da Guerrilha do Araguaia e que, depois da redemocratização, todo este antigo movimento popular continua firme na esperança da Democracia plena, que ainda não se cumpriu em um autêntico e continuado "governo do povo"?


Somente com a pacificação do Marajó, pela abordagem tática dos jesuítas, começada por João de Souto-Maior, em 1656, e depois da morte trágica deste em Pacajás concluída por Antônio Vieira, em 1659, no rio dos Mapuá (Breves); começou efetivamente a ocupação do vale amazônico pela coroa de Portugal. Um movimento rápido de ocupação, favorecido pelo grande rio, depois que as Ilhas foram franqueadas mediante acordo dos ditos índios em romper com os estrangeiros e se submeter ao trono de Portugal: mesmo assim, somente em 1680, vencendo o medo dos "índios bravios, desertores e escravos refugiados" nos centros da ilha levantou-se o primeiro curral de gado trazido de Cabo Verde.


É claro que a hostilidade dos "nheengaíbas" foi reação à aliança dos portugueses a seus inimigos hereditários, os antropófagos tupinambás, a partir de Jaguaribe (Ceará) mediante a astúcia do cristão-novo Martim Soares Moreno (romantizado por José de Alencar) ao se amancebar com a índia Paraguassu, filha do cacique Jacuúna. Martim Soares e seu tio, sargento-mor do Estado do Brasil; sonhavam com a lenda de tesouros no "rio das amazonas" e os caraíbas sonhavam com a mítica Terra sem mal. Ambos convergiam no Caminho do Maranhão para o norte... Mas, os faladores da língua ruim ("nheengaíbas") tinham vindo do Caribe e das Guianas no rumo da constelação do Cruzeiro do Sul (o Arapari)... Quem sabe disto, exatamente, na formulação da política de integração nacional?

A volta da democracia, na Constituição-Cidadã (1988), abriu um novo capítulo da integração nacional. A história deste feito resta ainda, em grande parte, a ser escrita malgrado a pletora de historiografias sob ponto de vista colonial e neocolonial.


Mas o trabalho intelectual não pode ser divorciado do chão da realidade quotidiana, onde de fato homens e mulheres trabalhadores, descendentes de emigrantes indesáveis nos "países civilizados", selvagens americanos e escravos trazidos da África; fazem a história real de carne e osso. Para esta gente, do que serve dez minas de Carajás e vinte e tantas hidrelétricas de Belo Monte se o povo sem eira e nem beira fica a ver navios... Se, pelo menos, como cala boca, Belém ganhasse de presente de aniversário, em 2016, um metrô de superfície na região metropolitana para dar mais segurança e conforto à massa operária espoliada desde as origens...

A questão amazônica contemporânea, portanto, não se limita ao desenvolvimento econômico regional ou em evitar a internacionalização da Amazônia. Ela vai além. Trata-se, efetivamente, da nacionalização da Amazônia brasileira pelos seus próprios cidadãos. Mas, então, um outro problema se apresenta. Quem mais deveria conhecer as regiões amazônicas do que os amazônidas? Estes, todavia, em grande número são analfabetos e a quantidade de amazônidas com curso de mestrado e doutorado não deixa dúvida sobre a condição provinciana da região. Isto dito desta maneira não teria tempo para falar perante o brioso plenário do PCdoB, na tarde de ontem. Por isto decidi complementar a fala com estas linhas no blogue.


O COMUNISMO É INTERNACIONALISMO DA CLASSE DE TRABALHADORES

  PCdoB.gif
Partido Comunista do Brasil

Jesus Cristo foi o maior comunista do mundo (apesar dos cristãos o trairem, como Judas por trinta dinheiros, segundo Bartolomeu de Las Casas em "Brevíssima Relação da Destruição das Índias", e o escritor Dalcídio Jurandir ao se referir ao padre Giovanni Gallo, dizer que o padre italiano havia compreendido perfeitamente o caboco marajoara, "cidadão do mundo"... Pois que todo caboco é comunista nato, ainda que não saiba. Esta qualidade do homem "primitivo" vem por uma solidariedade inata e a sociedade complexa implica a perda da comunhão original entre homem e natureza, gerando contradição e paradoxo. O desafio do homem moderno está bem exposto pelo filósofo Edgar Morin quando ele fala em "religar os conhecimentos": daí também deriva a escolha entre a natureza-santuário e o crescimento insustentável. A China com seu pragmtismo milenar sobreviveu e se desenvolveu com a extinção da União Soviética, entre outras coisas pelo "modus vivendi" entre revolução e religião. O estado laico não deve ser contra nem a favor de nenhuma crença em particular. O anticomunismo em grande parte é alimentado por crenças religiosas mal pensadas, além do sabido preconceito de classe social. E o comunismo não faz profissão de fé no ateismo, cada um é livre para crer ou não crer; ter a preferência sexual que quiser, escolher um clube, gostar ou não gostar de futebol, por exemplo.

José Saramago dá excelente pista no sentido de desmanchar o bruxedo anticomunista, com que os reacionários portugueses e brasileiros querem manter os dois povos irmãos em ilusão e ignorância a fim de lhes explorar mais ainda, não importa o avanço técnico alcançado ou o nivel de desenvolvimento econômico em relação ao passado. Sabemos que o Brasil não apenas foi das últimas colônias americanas a abolir a escravidão e proclamar a República, mas também o derradeiro a fundar uma universidade no país. Neste particular, apesar da fama da Universidade de Coimbra, nossa antiga metrópole colonial não foi lá muito brilhante neste campo. Não espanta, por exemplo, que os portugueses longe de se rejubilarem do prêmio Nobel para José Saramago o tenham hostilizado até depois da morte, juntamente com o estamento pontífício romano que não o perdou segundo a doutrina de Jesus Cristo.

E por que, exatamente? Que além de comunista fiel e declarado anti-estalinista, Saramago se cá em Belém do Pará tivesse chagado (como modestamente sugeri, em meu atrevido ensaio "Novíssima Viagem Filosófica" (1999), ele não teria tido dificuldade em comungar com o Círio da Virgem de Nazaré e as mais manifestações religiosas do povo católico ou não católico. O Deus de Saramago é próximo do Deus de Espinoza... (não por acaso, a confraria de rabinos de Amsterdam excomungou Baruch Espinoza e o Vaticano não escomungou a Saramago porque ele já não comungava do catolismo romano, porém lhe excomungou o pensamento no Index). 

Convém estar atento a pescadores de águas turvas. Como assim, todo comunista tem que ser ateu? Se há muitos ateus que detestam o comunismo e que são capitalistas até não mais poder... Saramago e Nietzche, segundo o teólogo Juan José Tamayo, concordam com a ideia de que a morte de Deus não significa que antes disso Deus estivesse vivo... O que ambos querem dizer por aí é que "o conceito de Deus se tornou vazio, passivo, decadente, perdeu vitalidade e potência, ou seja a Vida": 

"Deus é o silêncio do universo e o ser humano é um grito que dá sentido a esse silêncio". 

Sem querer forçar demasiado a barra, acredito que na linha do tempo o silêncio do universo foi rompido por diversas vozes da natureza pré-hominídea até o nascimendo do "animal político" - um cérebro que engendra uma mente, que concebe um cérebro (Morin). Então, o conceito de Sagrado se apresenta e jamais fica arcaico, como concliação progressiva entre sentimento e razão: fonte da Ética.

É claro que as igrejas institucionais, sejam elas monoteistas ou não; suportam mal tal heresia (dissidência). Mas, historicamente, qual é a grande religião que não foi antes uma heresia? Qual a revolução que não foi subversiva?... É fato que Jesus de Nazaré congregou a comunidade de cristãos primitivos na Galiléia, enquanto o convertido apóstolo Paulo, na diáspora décadas depois da morte de Jesus na Cruz; fundou a igreja sob patriarcado de Pedro (sem falar, mais adiante, da concordata com o imperador de Roma e do concílio de Nicéia, fonte de insuperáveis contradições e divergências no campo da cristandade). 

Por comparação, mutatis mutantis; Marx e Engels fundaram a ciência do materialismo histórico e Lênin a experimentou num contexto diverso do previsto na teoria, o chamado socialismo científico.  Desde aí surgiram diversos regimes "comunistas" com diferentes resultados, muitos deles mal podendo ser considerados propriamente socialistas (que é apenas a metade do caminho para a utopia da sociedade de iguais, sem classes...).

A história da Guerra Fria no pós-II Guerra Mundial com a hecatombe de Hiroxima e Nagazaki, pela dialética atômica, mostra como a URSS viu-se obrigada pela OTAN a responder à ameaça atômica numa corrida louca construindo arsenal capaz de enfrentar e refrear o inimigo mortal capitalista: pois é claro que a II-Guerra estava acabada e o Japão já não mais oferecia perigo aos EUA, quando as duas bombas atômica foram lançadas contra alvos-civis. Ou seja, nem bem terminava uma guerra já começava outra, e o alvo não era o Japão e sim a emergente URSS. Tanto é verdade, que agora os inimigos mortais se tornaram parceiros, Japão, EUA e Rússia se acham no G-8...

Em 1988, o Prêmio Nobel dado a um escritor português, tido e havido por demolidor do sagrado, herético, mexeu em casa de maribondo. Saramago com seu espírito satírico e gênio poético fez uma declação que tem hoje sabor de profecia:  

“É necessário aguardar pacientemente que das
circunstâncias possa surgir uma ideia mais profunda de solidariedade”. 

A Amazônia é um campo extraordinário de exercício desta esperada solidariedade, quer na integração nacional, quer na cooperação internacional. Todavia, a questão é como os povos tradicionais amazônicos interagem e se percebem dentro da encruzilhada histórica, premidos entre o mar e o rochedo. O Tratado de Cooperação Amazônica (TCA) perdeu impulso, mas a UNASUL avança. O Mercosul busca parcerias extra-continentais, mas o Norte do Brasil ainda não se vê aí...


Intelectuais da Amazônia têm dificuldade em dialogar no "plano nacional", embora um deles José Veríssimo foi fundador da Academia Brasileira de Letras (ABL). Dalcídio Jurandir poderia ser comparàvel a Guimarães Rosa, mas este era diplomata, médico, filho de Minas... Aquele apenas um "índio sutil" (Jorge Amado), e por cima comunista! Mas, Portugal não recebeu muito bem a seu primeiro e único Prêmio Nobel: entre o romancista amazônico e o escritor português um traço comum, o comunismo internacional!...

A RESSUREIÇÃO DE SARAMAGO
(por Marco Purita / texto condensado para este blog)


A partir de "O Evangelo segundo Jesus Cristo" (1991), a intenção histórica e política dos textos de Saramago tendem a igualdade e solidariedade entre Deus e o homem, através da re-humanização do Sagrado. Um conjunto de valores fundamentais e irrevogáveis, e de princípios que caracterizaram a orientação crítica dos grandes mestres do pensamento político oitocentista, de Feuerbach a Marx, passando por Renan e pelo teólogo David Strauss, para chegar a Nietzsche e Stirner, consciente de viver na época da morte de Deus, Saramago tenta aproximar a sacralidade de uma percepção histórica e realista do homem.

Inspirando nos filósofos oitocentistas, o poeta português conta histórias baseadas na imaginação, no realismo, na compaixão e na ironia. José Saramago reivindica valores que encarnam numa prosa irreverente em relação à autoridade, profundamente permeados de humanismo, com a intenção de sarar a fratura entreDeus e o homem. A alienação material do homem em relação a Deus, causada em primeiro lugar pela instituição da ordem e do privilégio eclesiástico. A relação vertical entre Deus, o pastor, e os homens, seu rebanho, declina mais lucidamente a relação de poder servo-patrão. Consequentemente, o homem se descobre estranho não só em relação a Deus mas também a si próprio. E, por conseguinte, à natureza...

O Jesus de Saramago revolta-se contra esta fratura, contra a hierarquia, a corrupção, a ordem, a fórmula, contra a divisão dos homens em dominantes e dominados. Na sua visão, o autor respeita e apaixona-se pela figura, não importa se histórica ou imaginária, mas certamente humanizante, de Jesus Cristo. O sentimento e a paixão de Deus assumem em Saramago forma humana na figura de Jesus Cristo, um homem que ama, sofre e tem medo como qualquer homem. Ao contrário dos detentores da autoridade política, religiosa e moral, que no tempo em que viveram, crucificaram a dignidade e a solidariedade de Cristo em nome da Lei, ou daqueles que desde o século XIX até hoje – diria Nietzsche – transformaram as Igrejas em sepulcros de Deus.


Para o Nobel português a esperança tem a ver com algo de tremendamente próximo da liberdade real e efetiva e não aparente da pessoa, com um pensamento crítico em contínua evolução e não dogmático, com a individualidade espontânea educada para viver numa comunidade, com uma ética de solidariedade chamada comunismo. Para Saramago ser comunista no século XXI é uma “questão de ética perante a história, não é ideologia mas sim conceber a solidariedade como um fcto ligado à vida”.

Solidariedade não significa caridade ou forma de altruísmo, mas sim um nobre sacrifício inseparável do desejo de luta pela libertação do homem. Poderia por certo parecer anacrônico – mas talvez não o seja – falar de luta de classes, mas não de capitalismo globalizado e sobretudo de exploração social. Nesta ampla categoria que compreende todos aqueles cujo trabalho é direta ou indiretamente explorado, pode-se procurar analiticamente a formação do proletariado pós-moderno enquanto classe. Talvez fosse aqui que a esquerda se deveria encontrar. Observa Saramago em "O caderno36, em Outubro de 2008", quando compreende que Marx nunca teve tanta razão como hoje, e interroga-se, como muitos: “Onde está a Esquerda?”. Está onde está o silêncio e se é capaz de escutar a voz da justa indignação do homem, diria William Blake. Uma delas é justamente a voz de José Saramago. Outra é a voz de todos aqueles que contam a sua ressurreição.
(tradução de António Fournier).