quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Metáfora transcontinental da ponte do Oiapoque

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ponte sobre o rio Oiapoque ligando o Norte do Brasil e a Guiana através da fronteira entre as duas regiões da Amazônia Oriental.





"as fronteiras são uma forma de medo" -- Isabel Alende




A Christian José Piat, in memoriam.



A ponte do Oiapoque não é a maior obra de engenharia do "plateau" das Guianas: todavia, sua expressão histórica e geográfica faz desta obra uma das maiores 'pontes" entre o primeiro e o terceiro mundo... No velho rio de Vicente Pinzon a América do Sul e a Europa ficam próximas apenas a 15 minutos de distância...  você sabia? 

Pena que, em 1994, quando o maire de Sinnamary Elie Castor (Caiena 1943 - Clermont-Ferrand 1996) convidou o padre Giovanni Gallo (Turim 1927 - Belém do Pará 2003), criador do sui generis Museu do Marajó (1972); com uma importante delegação de autoridades municipais do Marajó a visitar a Guiana francesa; nós não soubéssemos até então do revolucionário trabalho pedagógico comunitário empreendido por Hugues de Verine, nos anos 70, na criação de ecomuseus por todo mundo a partir da velha França. 

Imagino como poderia ter sido o encontro do marajoara que veio de longe com o francês que conquistou o mundo, de uma maneira que os generais de Napoleão jamais poderiam fazer. Gallo e Verine, juntos, dois cidadãos do mundo que poderiam ter construído, por certo, a "ponte" do Oiapoque unindo o Museu do Homem em Paris ao Museu do Marajó, bem antes que arquitetos e engenheiros tivessem dado o primeiro risco na prancheta a fim de materializar a ponte em concreto que muitos almejavam, desde o passado lendário, das migrações parikur conduzidas pelo cacique Anakayuri desde o Caribe para a baia do Oiapoque. Por que é de pontes, e não de muros; o espírito da construção do novo mundo está clamando.

Acredito eu que, lá mesmo na pátria natal de meu querido amigo Robert Marigard que com esmero organizou a excursão pela parte francesa, antes de terminar a formidável degustação do saboroso bouillon d'awara (Bouyon Wara em crioulo guianense), pronunciar "buiun d'auarrá" (cozido de tucumã); o prato nacional da Guiana francesa feito à base do fruto da palmeira tucumã (Astrocarium vulgare), quando na presença de todos monsieur le maire convidou o padre Gallo para organizar um museu semelhante ao Museu do Marajó de Sinnamary. Presente lá estivesse Hugues de Verine a parceria seria, provavelmente, feita na hora. 

Todos ficaríamos a par da revolução em educação comunitária através de ecomuseus em curso desde os anos 70, quando às margens do lago Arari, que viu nascer a Cultura Marajoara, foi inventado do Museu do Marajó, e, imediatamente, talvez o ecomuseu de Sinnamary estaria prontamente inaugurado em presença da delegação marajoara. O arquiteto Paulo Chaves, àquela hora delegado do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) no Estado do Pará, e o arqueólogo Marcos Magalhães do Museu Paraense Emilio Goeldi (MPEG), ambos participantes do ágape de Sinnamary, ouvindo o museólogo do Louvre falar sobre museus ao ar livre, poderiam compreender e valorizar mais a obra de Giovanni Gallo: por acaso, criador do primeiro ecomuseu da Amazônia e, certamente, do Brasil.  

De qualquer modo, os marajoaras de Cachoeira do Arari ali presentes perceberam que nossa tradicional Canhapira é, simplesmente, um "buiun d'auarrá" simplificado. Robert organizou na municipalidade de Caiena o Festival das Guianas de 1986, foi quando eu o conheci e ficamos amigos até a sua morte: sua última vontade já em estado adiantado da enfermidade que nos privou de sua leal amizade e contagiante cultura crioula, foi a de vir a Belém do Pará por avião acompanhado de sua família para se despedir dos amigos brasileiros e retornar a Guiana pela rodovia Macapá - Caiena. 

Até então, nós havíamos conhecimento limitado da Guianidade que o festival de Caiena revelou. Sob iniciativa de Robert tivemos em Belém a Semana de Cultura Guianense,  a geminação entre Caiena e Salvador da Bahia aconteceu, uma delegação escolar da municipalidade de Sinnamary realizou em Ponta de Pedras atividade dita classe de découverte, dentro do Protocolo de Cooperação celebrado entre a Associação dos Municípios do Arquipélago do Marajó (AMAM) e a Associação das Municipalidades da Guiana (AMG). As pequenas sociedades periféricas da vasta região das Guianas começaram a se ver umas nas outras, micro nações locais no dizer de Edgar Morin; fazendo parte de seus respectivos países-estado no seio da Terra-Pátria. Urge preparar o Futuro e o futuro está aí batendo a porta com aviso prévio da Agenda 2030. A mudança climática virá pelas beiras do Planeta, pelas pequenas comunidades ultraperiféricas com seu longo passado histórico pré-colombiano e colonial. As Memórias de Michel, com as de Atipa de Parepou, de militantes do terroir como o nosso irmão Cristian Piat e muitos outros de um lado e de outro das fronteiras geopolíticas e linguísticas, a exemplo do griô de Muaná, Agostinho Batista, da Universidade da Maturidade (UMA), no estado do Tocantins; vão tecendo a rede neuronal de museus comunitários e ecomuseus da Amazônia.

Mais cedo ou mais tarde, a Região Guiana - "última colônia da América" excetuando o status neocolonial de Porto Rico - será plenamente autônoma, quiçá até 2030, passando daí em diante a pais independente. A história do projeto espacial europeu Ariane, com sua base de lançamento de foguetes em Kuru, não pode esquecer a mitologia tupi-guarani dos índios de Camopi, nem as lendas saramacás que se integram aos sonhos do desenvolvimento cientifico e tecnológico da humanidade toda. Permitindo o milagre da era da inteligência coletiva de que fala o filósofo da internet Pierre Levy. Um pedreiro-livre autêntico como Cristian Piat tem muito a ver com a construção de catedrais e pontes iguais a estas. Antes que o Grande Oriente da França (GOF) fosse chamado a Guyana francesa para observar a embaraçante questão da fronteira do Oiapoque e da imigração dita clandestina; Cristian foi aquele São Tomé que quis ver de perto para contar de certo. Falante de português fluente como qualquer libanês do contrabando, ele vinha frequentemente a Belém e Macapá para andar livre pelas ruas misturado ao povão, descobrindo as novidades da terra e ensinando a Guianidade transamazônica para todos: dos subúrbios de Paris até a feira de Caruaru...

Ninguém iria contar a Cristian Piat o que se passa com um brasileiro "clandestino" já no Amapá e Pará para atravessar a fronteira e se refugiar no eldorado francês da Guiana... Ele entrou "clandestino" em seu próprio país, depois de se passar por brasileiro junto a gateiros de aliciamento de trabalhadores escravos. Embarcou em canoa-motor tapouille (tapuia), pagou passagem e comida, viu mulheres a carregar e amamentar bebês, desembarcar no rio Aproaga em horas mortas, andar em trilhas pela floresta noite adentro e chegar à estrada antes que os gendarmes (policiais) comecem a ronda... E depois: onde ir arranjar serviço se não achar patrões ilegais tanto quanto os trabalhadores "clandestinos"? O mesmo vale para garimpos "selvagens" que vendem ouro tão civilizadamente como se vê em obras trabalhadas de finas joias nas vitrines de todo mundo.

No natal de 2005, o então presidente da Comissão de Relações Exteriores da Assembleia Nacional Francesa e presidenciável, atual presidente do Instituto do Mundo Árabe (IMA) Jack Lang, atendeu a convite especial do atual Secretário de Estado de Turismo do Estado do Pará, Adenauer Góes, que o havia visitado em Paris no ano anterior, para conhecer a cidade de Belém e a ilha do Marajó. A ideia consistia em prestigiar a Feira Internacional de Turismo da Amazônia (FITA), aproveitando que o deputado e prefeito municipal de Saint Laurent do Maroni, Léon Bertrand, estava Ministro do Turismo sob a presidência de Jacques Chirac; abrindo desde Paris uma rota alternativa mais curta - como se fosse uma ponte transatlântica - passando pela Antilhas e Guiana francesa até entrar pelo Norte do Brasil.

Minha passagem pela Guiana francesa (1985-1990) ainda agora desde a história do cacique bandoleiro Guamã e de seu parente Ajuricaba dos Manaus continua a me questionar: descobri no serviço da Comissão Brasileira de Limites a "grande oval insular das Guianas" do geógrafo brasileiro Raja Gabaglia, a "grande ilha das Guianas" com Eliseu Reclus; Ciro Flamarion Cardoso com sua tese Guyane française demostrou a grande área cultural guianense que se estende das ilhas do Marajó, no delta-estuário do rio Amazonas, até a ilha de Trinidad, no Caribe. Este espaço enorme adentra a bacia do Orenoco, na Venezuela, passa através do canal de Cassiquiare para o Rio Negro, no estado do Amazonas; para descer o Baixo Amazonas, no Pará, até sair novamente ao oceano Atlântico: nós temos, então, uma Guiana brasileira (Rio Negro, Rio Branco, Baixo Amazonas (amazonense), Baixo Amazonas (paraense), Marajó e Amapá) no "plateau" das Guianas (Brasil, Guiana francesa, Suriname, Guiana e Venezuela).
  O folclore da Guiana francesa coletado pelo folclorista e memorialista crioulo Michel Lohier, "Légendes et contes folkloriques de Guyane", fala do casamento mítico entre o príncipe Caiena, filho do rei Ceperu; e da princesa Belém, filha do rei Brasil. Evidentemente, o príncipe é índio kalina (caribe ou galibi) e a princesa tem sangue português. Moça de sangue nobre, muito vaidosa; que submete o apaixonado a uma prova mortal para transpor as águas perigosas sobre as duas margens de um lago misterioso e profundo. O jovem guerreiro Caiena vai se aconselhar com o grande pajé de sua nação, chamado Montabo. Este então na savana de Iracubu escolhe um grande touro selvagem e chama o príncipe para ensiná-lo a domar o animal alimentando-o religiosamente com ervas mágicas da iniciação dos pajés. 

Chegou o grande dia e uma delegação chefiada pelo rei Ceperu atravessou o mar para apresentar-se com o príncipe ao rei Brasil a fim do jovem pedir a mão da princesa em casamento submetendo à prova imposta por ela. Muitos pretendentes vindos de diversas partes pereceram nas águas misteriosas e profundas. O pajé Montabo conduziu o grande touro ao centro da arena, cercada convidados com as duas delegações lado a lado; Montabo entregou o animal selado cerimoniosamente às mãos do príncipe Caiena que, com um aceno galante dirigido a sua amada Belém; saltou sobre a sela. O animal partiu a galope e deu um enorme pulo que alcançou as nuvens, a voar, e diante do povo pasmo atravessou a larga extensão do lago mortal. De volta ao chão, casamento aceito, foi a vez do rei Brasil ir ao país de Ceperu entregar a princesa Belém ao noivo e passar uma temporada em festa. Claro está que o conto folclórico revela a história oral do povo.

Esta e outras histórias de Lohier, como o livro "Les Mémoires de Michel" (as memórias de Michel) que o amigo Christian Piat presenteou-me; como também o primeiro romance escrito em língua crioula guianense Atipa (tamuatá), de autor anônimo sob pseudônimo Parepou (pupunha), presente afetuoso do meu amigo Robert Marigard; fazem parte da descoberta que fiz do país crioulo da Guiana. Descobri que entre o Marajó e a Guiana há mais coisas do que imagina nossa vã academia.

Estava eu vice-cônsul em Caiena entre os anos de 1985 a 1990, quando por força do serviço consular vi de perto como funciona um dos mais antigos e duradouros regimes colonias nas Américas. Com meu amigo e confrade Odacyl Catete fizemos uma primeira tentativa de aproximar a mídia atuando em Belém e Caiena revelando um país amazônico com a cabeça na Europa e o coração na África. Uma viagem de prospecção comercial a Guiana, Guadalupe e Martinica foi conduzida pelo Secretário de Estado da Indústria, Comércio e Mineração (SEICOM) do Pará Nelson Ribeiro, com apoio do Consulado de Caiena. Parte dos esforços brasileiros de mostrar na região ultramarina francesa outra imagem diferente do tráfico ilegal, imigração selvagem, prostituição, narcotráfico. Encontrei ajuda da igreja católica e da igreja Assembleia de Deus junto aos imigrantes, mas principalmente da maçonaria republicana francesa, a qual o irmão Christian Piat franqueou-me as portas. 

Operário na Europa, inclusive Alemanha; Christian era um sábio crioulo muito orgulhoso de sua Guiana: um pedreiro-livre exemplar que acreditava que, depois da simbologia da pedra e dos metais; a velha instituição medieval dos maçons operativos construtores de catedrais chegaria ao século XXI pronta a trabalhar a metafísica da madeira (para não dizer a matéria orgânica) e do barro (reciclagem da pedra bruta).

Eu com minha esposa e nossos filhos fizemos bons amigos na Guiana, aprendemos uma maneira diferente de ver o mundo que afinal de contas não nos era estranha, exceto no que diz respeito à língua. Posso dizer que me tornei um brasileiro melhor junto a compatriotas refugiados econômicos, haitianos, latino-americanos e metropolitanos saturados da Europa. Ciro Flamarion Cardoso teve razão em considerar a Guiana francesa como espelho da colonização. Michel Lohier, que, postumamente, me foi apresentado por Christian como um sábio da sua terra não era apreciado pelos independentistas; amava o Brasil e a França ao mesmo tempo. Ele tinha saudades de seus amigos brasileiros, como o poeta Serge Zaou que morou e Belém e Soure, eses guianenses era solidários aos brasileiros pobres explorados por guianenses ricos e insensíveis. Conheceram a Guiana francesa do tempos das vacas magras durante o regime de Vichy, quando Hitler ocupou a França e isolou a Guiana. Foi quando o cônsul do Brasil em Caiena, Doutor Pacheco (dentista, pai da família Chalu Pacheco de Belém do Pará) viabilizou o abastecimento e sobrevivência da Guiana. Getúlio Vargas preocupado com a possibilidade alemã de invadir a Guiana francesa mandou reforçar a fronteira. Começou assim o famoso "contrabando" das Guianas e também projetou-se na imaginação dos guianenses o primeiro pilar da Ponte do Oiapoque. No tempo das vacas gordas, com a construção da base de Kuru, primeiro os trabalhadores foram aliciados para baratear a mão de obra, depois foram mandados embora com a cumplicidade do governo militar de Brasília, com o repatriamento em massa dos brasileiros de Caiena. De volta ao país natal, os repatriados foram despejados nos acampamentos insalubres de construção da Transamazônica.

No imaginário popular do Pará não se fala em Guiana, mas em Guianas plural. Reciprocamente, um guianense raramente dirá sobre o nosso lado da fronteira o nome local, mas quase sempre Brasil; mesmo que esteja se referindo à cidade do Oiapoque ou Clevelândia, por exemplo. As "Guianas", em Belém do Pará, por volta dos anos 60 e 70 eram sinônimo contrabando.

Já do outro lado da fronteira, na Guiana francesa, o fluxo de mercadorias proveniente do Brasil (Belém e Macapá) era aparentemente inconveniente pela concorrência aos produtos metropolitanos, mas não configuravam contravenção. O que as autoridades francesas declaravam combater era a imigração e os garimpos clandestinos. Para normalizar as relações de fronteira Brasil e França resolveram entre outras coisas abrir consulados em Belém, Macapá e Caiena.

Embora sendo eu nativo do Marajó e tendo notícias frequentes de Abaetetuba e Vigia onde é corrente viagens de pessoas e embarcações "pro Norte" (Oiapoque, Caiena e Paramaribo) o tema "contrabando" só começou a me interessar, efetivamente, quando ingressei no Jornal do Dia, era a época de contrabando de cafe: raramente alguém se daria conta de que, em busca "vivo ou morto", do bandoleiro Guamá, cacique dos Aruã e Mexiana; em 1723 a tropa de guarda costa comandada pelo sargento-mor Francisco de Mello Palheta, nascido na vila da Vigia, trouxe furtado o café de Caiena que havia sido furtado de Paramaribo e foi produzir cafezais em São Paulo...

Ora os paraenses cantamos belamente a canção de Paulo André Barata e Ruy Barata, Porto Caribe, que diz: Sou de um país que se chama Pará / Que tem no Caribe o seu porto de mar. Pois a licença poética parece subverter a geografia para explicar o contrabando de ritmos musicais que animam as noites de Belém. Não sabe o campus e cidade universitária do Guamá que o nome do rio se deve ao dito cacique bandoleiro. E Cuba, provavelmente, inspiração dos autores, pai e filho, tem lá o seu Guamá como em Belém um bairro em Santiago e um parque ecológico. Nome do guerreiro taino que levou a guerra de guerrilhas contra o conquistador espanhol sucedendo ao primeiro rebelde da América, o índio Hatuey.
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forte Ceperu (Caiena, Guiana francesa), do nome do cacique galibi que segundo a tradição teria cedido o lugar para França em troca de comércio e amizade. Daí, cerca de 1604, o calvinista Daniel de La Touche, senhor de La Ravardière, seguindo o aventureiro Charles Des Vaux que havia camaradagem com os Tupinambás do Maranhão, fundou, em 1612, o forte de São Luís na França Equinocial, entrando em guerra com portugueses vindos do Ceará perdeu a colônia no ano de 1615. Desde então a disputa entre França e Portugal, este sucedido pelo Brasil, pelo controle do rio Amazonas; envolveu populações indígenas, colonos e escravos que se acham à origem da fronteira do Oiapoque.

sábado, 18 de fevereiro de 2017

Viagem a Caviana






na boca da noite quisera eu partir do Porto do Sal
Cidade Velha portas e quintais 
sono ferrado na fachada fechada e vitrais da Sé
sair a remo rumo ao meu velho Itaguari em busca de mim
caminho da façanha dos Aruãs além Caripi
canal do Carnapijó baía afora para o Marajó velho de guerra
da mea avó
passar uma semana ou talvez um mês na ilha Caviana.

quisera eu quisera ter a calma da praça do Carmo
em horas mortas
ficar sentado à ilharga da memória da aldeia enterrada
espiar ossamentos da história daquilo que já era
mas nunca se foi:
subir à riba da garupa pelo ar da garça morena
retardatária do último raio de sol que vai dormir
ao ninhal de sonhos da terra sem mal
Araquiçaua
Arari rio de araras invisíveis: aqui voavam outrora...
pra nunca mais
voar agora apenas com as penas da imaginação
seguir viagem em canoa doida movida a remo de ilusão
ao romper do dia eu estaria varando o furo Anajás Mirim
adentro do Anajás Grande
antigo reinado de índio brabo transformado em jebre
roubo de gado, fome e febre malárica
tão diferente hoje em dia daquela brava gente
ao tempo do valente Guamá cacique dos Aruã e Mexiana 
procurado vivo ou morto desde o Pará até Caiena
antiga capital da Paricuria e cacicado do galibi Ceperu.

atrás de mim a tropa guarda-costa capitão Palheta ao comando
quem manda eu me meter a besta?
sustentar esta velha guerra perdida
pega que pega cacique bandoleiro, soldado desertor
pretos fugidos... um terror
aí de mim! careço dar no remo e chegar depressa ao Cajari
pegar igarité de meu compadre poeta Antônio Juraci Siqueira
não é bandalheira, esta gente
preciso me aviar em Afuá pra atravessar a Vieira Grande
escuro que nem breu: vamos que vamos, sumano Juraci
a tropa já vem aí perto da boca do rio Cajari
o que dá pra rir dá pra chorar: amoitado no Charapucu
no ventre da lenda da primeira noite do mundo
que nem dentro do negrume dum caroço de tucumã
seu Raymundo de Moraes, homem do Pacoval 
nos mostre o caminho imaginário da Terra sem mal
Alfredo com medo dos olhos mortos de Eutanazio
refeito em vagalumes
fugindo pelos campos de Cachoeira a saber o segredo
do teso dos Bichos: hoje esta noite grande já é primeira manhã...
Içar a vela e aproar ao Cajuúna a fim de embarcar
o sumano Franklin piloto da canoa lendária até Caviana.

quisera eu quisera me transformar em ave guará...
caruana encantado da Caviana a fazer amanhecer
que nem o Farol da Caridade alumia a navegação 
pondo pescador a salvo da tenebrosa mundiação
da iracunda boiúna Maria Caninana
a escuridão avulta fantasmas do passado obscuro
banzeiro tamanho: a barca virou deixou de virar...
por causa deste menino que não sabe navegar
Nossa senhora vai dentro indiozinhos a remar
rema rema remador que estas águas são de amor...

o piloto Franklin tem nome de gringo só pra chatear
Franquilim para os parentes
está na cara que o cara é aruã desde sempre
na cidade grande o tapuio põe banca de advogado dativo
dum povo altivo que nunca se rendeu ao invasor
do qual é embaixador
caboco criador de caso, fazendeiro do ar dono de gado do vento
grande pescador tradicional de linha e rede social
conhece como ninguém antigos lugares secretos
de índios rebeldes, pretos de mocambo e desertores do regime.

O poeta Juraci jura que ele é boto que virou gente
disto eu não duvido: masporém desconfio também
o sumano é profeta descendente de caraíbas
por parte de seringueiro nordestino cujo destino
é inventar o Norte brasileiro por conta dos Tupinambá.

vou pra Caviana com estes dois super-heróis a paisana
descendentes de antigas tribos inimigas reconciliadas
em Mapuá por artes de Malazarte 
(ou seja, o mago payaçu Antônio Vieira)
me esconder da guarda-costa que vem perto da Contracosta
além disto há tantos perigos nesta ribeirinha vida
estirão do equador, Ilhas de Fora
ponta do Maguari, Bailique, Maracá, Cabo do Norte
a morte rondando pelo céu, terra e mar...
gente na lida fazendo e lutando pela própria vida
A Pororoca troando que nem um deus pagão de muita antiguidade
capitão Palheta também ele a tremer como vara verde
a tropa toda se borrando pegando-se com frei Bernardino
terço de Nossa senhora dos navegantes
missa e confissão dos pecados na madrugada...

quisera eu quisera ter a fé lírica do poeta-boto
que se não há de perder de vista o Farol da Caridade
certeza de Franquilim que a gente há de cruzar
o canal da Pororoca antes do primeiro dos três vagalhões
três pretinhos da Guiné fumando cachimbo de birra
surfando o banzeiro debaixo de pampeiro de vento e chuva
paresque zumbi da flotilha de caiaques do rei mandinga Abu Bakari
passagem da corrente equatorial marítima 
para as Guianas e a mágica ilha do Haiti nas Antilhas
meu medo é não saber a hora certa que dá maré de sigízia
pra travessia entre a noite grande e o grande dia.

Zeus é grande mas o Mar-Oceano é maior
viajar é preciso viver não é preciso já dizia o tal Pessoa...
quisera eu quisera me gerar em caruana e restar na Caviana
deixar o capitão Palheta com a tropa passar em frente
ir furtar o café Caiena e voltar sem jamais encontrar a gente
escondidos nesta ilha filha da Cobragrande.

Tartarugueiro e o seu segredo guardado a medo.



chegar ao Tartarugueiro e Santana é descobrir um pedaço da África mãe, entre chuvas e esquecimento, perdida na boca do Arari. O visitante não vá lá procurar tartarugas ou araras nem saber do antigo engenho dos frades Mercedários, que outrora existiu ali. Bichos de casco ou de couro que antes havia em quantidade foram comidos pela necessidade dos antigos moradores e o velho engenho real com moenda de cana, movida à maré motriz, foi gostosamente devorado pela ferrugem do tempo e a desmemória da gente. 

em compensação, vagamundo das margens da civilização que lá chegar há de ter uma boa safra de história de griô da melhor qualidade a par de uma xícara de café quente com aroma de erva doce torrado e moído em casa... Fazia tempo que nhô Raimundão, patriarca do Tartarugueiro; estava cego e velho centenário; ele pouco andava devidamente a uma desconforme quebradura que lhe restou da queda ribanceira abaixo na maré seca causada por sua vista curta. 

Masporém, mui gentil, o preto velho se comprazia de verdade com a chegada de quem ali fosse de alma pura o visitar e escutar o que esta gente da diáspora africana ainda tem a dizer pela graça do Divino Espírito Santo, libertada do cativeiro mediante a lei áurea da Princesa... Graças a Deus! Ele não se esquecia de agradecer levantando as mãos ao alto. 

O caso é que aquela família ribeirinha de Santana e Tartarugueiro recebera documento em papel passado assinado de próprio punho pelo próprio governador da província, o Barão de Marajó; em gerações passadas doando a terra ao pai de dona Dulce, mulher de Raimundão, todos eles já falecidos... Que Deus os tenha na sua santa glória...  

que nem a rainha de Sabá, Dulce enquanto viveu guardava junto do oratório do Divino o papel do terreno dentro de um baúzinho feito de folhas de Flandres de azul celeste pintado e que ia desbotando ao compasso dos dias que passavam. Era, paresque, para os de Santana e Tartarugueiro, a arca da eterna aliança com as tábuas da lei e a esperança das futuras gerações... Desgraçadamente, porém, com a doença e morte da Zeladora da irmandade e precisão de arranjar a vida o viúvo Raimundão careceu cair no mundo. Aí ele calhou de viajar lá pras bandas das Guianas, metido já em traficâncias com uns certos brancos do contrabando falado. Acreditando ele que o tempo, paresque, nestas paragens do inferno verde era que nem na Bíblia a prece poderosa do guerreiro Josué, estancando a marcha natural do dia e da noite; enquanto a gente ia lá fora viajar e trabucar pra arranjar a vida.

infelizmente, pra sô Raimundão, o tempo não parou nem mesmo naqueles ermos da margem esquerda da história. E quando o velho abriu os olhos já estava ficando cego devido pegar muita chuva e sereno da noite suportando a navalha do vento mar afora, a bom pilotar embarcação carregada de muamba desde porto Caribe, em Paramaribo, até as quebradas do 40 Horas, no Pará, onde o barco do patrão desovada automóvel cotia, centenas de caixas de uísque e rumas de sandália japonesa, rádios de pilha e muito mais. 

Foi só quanto escassiou o negócio das Guianas que ele se alembrou do baúzinho azul da finada Dulce. Aí, meu senhor, catita tinha feito estrago com ninho dentro da arca roendo tudinho que havia ali; até a bandeira encarnada do Divino ficou esburacada como se ela tivesse saído da guerra debaixo de tiros de artilharia... Além do mais, meu amigo, não lhe digo nada: deu cupim no que, zinho, sobrou do papel passado que as letras se corromperam por demais... Paresque formiga de fogo passeando na vista da pessoa quando quem sabia ler tentava decifrar o estúrdio letrume empastelado... Ai de mim!... Gemeu o preto velho com uma dor profunda dentro do peito, lá dele.

Àquela hora morta no Tartarugueiro da baía soprava um vento geral, paresque, de muita antiguidade. Era, paresque, um arrepio de febre depois de pegar muito sol na viagem. Sô Raimundão contava quando o pai de dona Dulce chegou de fora mandado cuidar do farol; aquele sítio ainda estava despovoado e devoluto. As tartarugas vinham desovar no tabuleiro da praia aqui pouco acima de Santana... E, diz-que, as ondas de maré cheia traziam cadáveres de náufragos pra beira. Haja o povo a comer ovo de tartaruga e dar sepultura aos mortos que encostavam, rezavam ladainha ao Divino para os vivos viver em paz na terra e os defuntos repousar no céu... Antão, dizia o velho, quando era trovoada banzeiro resmungava nas pedras da beira da baía que nem o Padre eterno ralha lá em riba das nuvens. 

O visitante calado que nem um clarinete quebrado deixado ao canto: só e só se escondia da ventania pelas ilhargas da porta a fim de se defender da pancada que vinha de fora da casa que nem um potro brabo. Evém a chuva! Dizia Maria, uma moreninha cheia de graça, cria da casa, trazendo café fumegante no xarão estampado deixando cheiro bom na varanda... O danado vento, porém, varava pelas brechas da parede de madeira dando coice às costelas do camarada. 

A voz do vento e a do contador da história, pouco a pouco, foram se confundindo numa coisa só. Parecia música de órgão. Completamente cego da vista para o exterior o preto velho enxergava bastante por dentro de suas lembranças.  De modo que ele era sempre em sua memória um rapagão de dezoito e poucos anos de idade recém-casado com a filha mais velha do faroleiro da boca do Arari, dono de papel passado daquele chão. Dulce era rainha da festa e zeladora do Divino no Tartarugueiro, filha do rei bijogó talvez naquele singelo terreiro, oriundo da Guiné-Bissau no além mar.

Viagem ao Porto Santo

a bordo do navio encantado descendo o rio mar
a todo vapor antes do galo cantar e espantar os mortos
carregamento de lendas do aviamento da Borracha
em marcha para o progresso da indústria mundial
exportação em contrabando de letras tortas a horas mortas
o outro mundo emerge das funduras do Amazonas
batuques de casas de Mina com notícias quentes da Guiné
por destino o Tejo com transbordo em Funchal na Ilha da Madeira
escala de baldeação no Porto Santo
ilhargas do Araquiçaua: lugar mágico da Terra sem mal
aqui mora a Utopia (casamento da necessidade com o acaso)
não há fome, trabalho escravo, doença, velhice ou morte.

trabalhar é bom futuro e engrandece o homem
(contanto que ele não seja forçado a tanto pelo fado
ou rebenque em mão de patrão sem dó nem coração)
sem trabalho das próprias mãos ou alheias ninguém vive
masporém a vida não vale a pena se não há preguiça para todos.

conheci um rico fazendeiro que comprou o ócio 
e virou vagabundo por negócio...
Não antes de proibir em seus domínios todo tipo de opressão
fraternizando todo mundo desde a cozinha ao curral
os peões livres estão para fazer ou não fazer o que der na telha
sendo sócios do negócio de não fazer nada além do necessário,
lá o extraordinário é demais: e o mundo está mui curioso
a saber o que acontece na refazenda com aquela gente estúrdia
que adora não fazer nada
portanto visitantes pagam bom dinheiro 
para aprender a arte de não fazer coisa nenhuma
utilitária além da conta.

o diabo é que se todo mundo se der ao luxo da Preguiça
dos deuses e seus santos representantes na terra
logo os senhores deste mundo demente vão querer reinventar
o ditado furibundo dos campos de concentração 
e baixar o cacete com a lei do Cão.

por isto o civilizador Jurupari instituiu o segredo
da Casa dos Homens sob pena de morte enquanto as mulheres
fariam a educação pelo barro aprendendo elas mesmas
a guardar sigilo, lá delas, de vida e morte
pela arte do remédio e do veneno...

o Sol ata rede a pernoitar no fundo do rio até o galo cantar
Baixo Arari: o que dá pra rir dá pra chorar...
mocambos da Maravilha desta ilha da maré marajoara
senzala por que calas o tambor no negrume da madrugada?
cadê tição mãe de fogo pra inflamar a chama libertária?
por acaso ainda te assombra o terror do Viramundo?
Arrastam-se correntes na varanda e gemidos vem da cozinha
o  rei do gado está morto e o Diabo veio buscar-lhe o corpo
estava paresque montado numa besta cor da meia-noite
as ventas da alimária eram fornalhas do inferno 
de seus olhos acesos faiscavam raios, os cascos fendiam o solo
queimando campos distantes levantando labaredas pelas matas...

a cavalhada cabo-verdiana da fazenda assombrada criou asas
malhada de gado do vento espalhada pelo fantasmal boi selado
afogado em dívidas eternas o senhor morgado
há de empenhar a sesmaria dos arruinados barões assinalados
por dez réis de mel coado.

como vieste cá parar no Pará, ó Porto Santo de Portugal?
terá sido talvez na nau dos turcos encantados
portulanos secretos do infante de Sagres a esconder
no fim do mundo o reino das amazonas da Capadócia
(dentro do caroço de tucumã onde jaz a primeira noite do mundo)
travessia do Atlântico em montaria a remo
pelo rei mandinga Abu Bakari e seus dois mil canoeiros
plano redondo da viagem de circunavegação
antes que soubesse Fernão de Magalhães 
da existência da Terra do Fogo
rio das araras em céu de anil com arariúnas e guarás sem iguais
árvores de pássaros na paisagem de búfalos filosóficos
concerto de sapos em cantochão no igapó.

remessa de juros e dividendos dos séculos do rio Babel
defuntos mil da acidental civilização
tribos extintas no Diretório dos Índios
pletora de línguas e culturas em sepulturas modernas dos museus
vamos sem pressa enfrentar as calmarias e sesmarias caducas
viagem pelo avesso dos caminhos marítimos
encobrimento pétreo do velho mundo 
na contramão da Descoberta do novo.

por mares sempre navegados todavia nunca conquistados
vai a nave de fantasmas d'aquém mar
no timão rompendo procelas do ainda escuro firmamento
o poeta Pessoa bancando o profeta Bandarra sob comando
d'el-rei dom Sebastião morto no Marrocos
à beiramar ressuscitado em Pirabas do Pará
enquanto Padre Antônio Vieira faz o Sermão dos Peixes.


O VELHO PESCADOR DA VIGIA E O MAR DO CABO NORTE


"Do qual fado de índio tupinambá remador cativo da Casa das Canoas; resta, paresque, uma sina que habita a alma dos pescadores do Salgado."


O homem que assoviava mentiras


Esta eu fiquei devendo ao compadre Amadinho – disse Liduíno do Boi – que me convidou pra visitar São Caetano no festival do caranguejo e ver o Boi Tinga dançar... Ótima oportunidade pra Vilarana e São Caetano fazerem as pazes: todo mundo sabe que se não fossem os bons-ofícios da ONU e as rezas do Papa as duas comunidades teriam, paresque, declarado não exatamente nova guerra de Tróia, mas porém a guerra dos Bumbás (dez vezes pior que a rivalidade dos bois de Parintins ou a querela do festival da tribos de Juruti, mais perigosa que a Cabanagem, paresque...). Foi o seguinte. A turma de pescadores ditos da Vigia (na verdade de São Caetano), todos anos atravessa com barco à vela ou a motor-pupupu trezentos e tantos quilômetros, de lés à lés; a boca do rio Amazonas desde a ponta da Tijioca ao cabo Norte: só pra pescar gurijuba...


Caso de honra. Não adianta só a tainha, a serra, a corvina, a pescada amarela, gó em quantidade, sarda e tantos outros peixes de curral na beirada. Pescador macho tem que ir lá fora, passar do norte pra lá... Pescador que sabe como é carece ser, paresque, filho da gurijuba, bagre amarelo de água salobra do largo rio costeiro que corre dentro do oceano com a vasa do Amazonas, adoçando o que era sal puro e tingindo de barro o azul marinho ou os verdes mares. Mui apetitoso cá no Pará salgado pra caldeirada na vinagreira com legumes e lá nas Guianas peixe defumado especial, inclusive pra sanduíche a se comer com cerveja gelada na praça das palmeiras em Caiena – o BBB avisa. E que a bexiga, mais que o próprio peixe, vale ouro como grude mandada até a China... Tu jura? – admirou-se Emérito.



E a aba de tubarão? – indaga o Casemiro Martins. Tá assim de comprador pra mandar pro Japão, diz-que lá fazem sopa que levanta até defunto... Tubarão dá no cardume de gurijuba e estraga tudo. Pescador colhe espinhel e só vem cabeça de peixe atorada... Ah, diacho! – resmunga Raimundão em riba do baeléu de popa, a canoa jogando à beça, e ainda por cima o baita prejuízo. Ele grita ao cozinheiro – haja cozinhar jurumum e jogar quente pra tubarão... Agüenta, corno! O panelão no fogão à lenha na proa, popocando; jerimum rachando na quentura. E zás! Lá vai fogo! Jerimum quente despejado ao mar, o trabalhão medonho em risco do moleque se escaldar com água quente, a onda jogando a canoa. Jerimum quente bate n'água, faz tepei! Pronto. O bicho vem ligeiro e engole direto: a quentura do jerimum espoca o bucho (lá dele!). Antão, deixa tubarão estuporado boiar, primeiro a galha aparece fora d'água; aí o corno revira de bucho pra riba e já o Raimundão fisga e pega faca peixeira afiada, corta as barbatanas do peixão fazendo a conta do ganho, quem manda levar gurijuba do anzol, hem seu pirata? O resto do tubarão vai embora boiando pra outros peixes comer, não dá pra aproveitar a bordo sem roubar espaço de carga da gurijuba... Larga gurijuba, tubarão! E deixa aba pra pagar o prejuízo.  A ver como o mundo é jito – diz o Emérito – nós aqui pescando gurijuba pra dar sopa a chinês e aba de tubarão pra japonês ficar arretado. Olha lá!... Nós, Emérito? – indaga o poeta Janjinha – nós aqui jogando conversa fora e pescando brisa... O Casemiro Martins: eu queria ver era o açaí vendido a dólar!... Por isso não, retruca o doutor Ophir, já tem americano comprando...


Aquilo outro da gente da costa do Pará ir pescar lá fora é coisa muito antiga. Mais velha até do que a tropa de guarda-costa pra barrar ao inimigo a entrada do Amazonas com o comandante Francisco de Melo Palheta na proa, homem-bom da vila da Vigia. Do qual fado de índio tupinambá remador cativo da Casa das Canoas; resta, paresque, uma sina que habita a alma dos pescadores do Salgado. Desde o tempo da rixa velha entre tataravós nheengaíbas e tupinambás, hoje em dia mais extintos que os dinossauros (noves fora o grupo folclórico Nuaruaques, o sonoro elétrico Tremendão Tupinambá e o carismático cacique Pena Verde vindo não se sabe de que aldeia do além descer em terreiros da Mina, searas de umbanda, centros espíritas em transe e ainda pregar um susto danado em Raimundão uma certa noite, quando este um veio meio pau, meio tijolo chegar em casa a horas mortas... Um verdadeiro e imortal cacique brasileiro não esquece seu povo nem depois de morto há trezentos e tantos anos, que nem o rei dom Sebastião não deixa pescador dos Açores morrer sozinho disperso pelo mundo).


Basta dizer deste antigo fado das gentes da Vigia que o capitão Palheta, que Deus o tenha! – rezou Emérito; levou à divisa do Oiapoque a guarda-costa do ano de 1723 ou 24, buscar vivo ou morto o tuxaua Guaiamã dos Aruãs e Mexianas, pelo bom motivo que este um fazia contrabando de armas e munições em Caiena a troco de índios escravos dos portugueses pra levar adiante a guerra velha (os brancos de cá e os brancos de lá, ceguinhos e de mãos atadas não fossem indios e pretos labutar... não sabiam porra nenhuma, mas porém aproveitavam a desavença dos índios. Isto sim eles sabiam pra caramba), guerra canibal começada Deus sabe quando e onde; desde a hora que o primeiro come-gente tupi meteu o pé na terra dos Tapuias, tamuia, tapuia, tamoio... tamu, povo-avô dos Brasis – Quinquinhas ensinou; e vingava, paresque, o cacique do Marajó a paz traída do rio dos Mapuá pelos homens-bons do Pará, quando estes uns expulsaram e deram ponta pé na bunda do payaçu Antônio Vieira, em 1661. O homem-bom vigiense virou herói nacional, não porque ele, Palheta; tenha preso o tuxaua bandoleiro do Marajó e afastado o perigo dos traficantes de escravos franceses, mas porém porque furtou o café de Caiena – tomou emprestado – BBB corrige e Quinquinhas ensina que o dito café do Palheta antes foi roubado do Suriname pelos franceses... Eta, estória tremenda do Norte velho de guerra! Adonde o roubo da cabeça do Resolvido e posterior invenção do Boi Tinga vieram se meter, contada e assoviada por seu Homero Patativa, do povoado Mucajatuba. Começada, diz-que, no tempo do ronca, duma banda a outra, do Maranhão até o Orenoco; entre tupis e nuaruaques... Antes mesmo que os brancos viéssem aumentar e os pretos a aturar a confusão. Haja Deus! – gritou o ressentido poeta Janjinha – mas, o padre Salvador do Rosário fora de Vilarana!...


Um pirralho quando nasce naquelas beiradas já sabe, paresque desde jitito mamando no peito de sua mãe e depois por conta do caldo de cabeça de gurijuba e estórias da avó, que só vai ser homem feito considerado pescador de primeira se ele for, pelo menos uma vez, ao Norte. Tal qual a sorte do bisavô, do avô, do pai e dos tios.... Esta gente vive atrás de cardume da gurijuba como se fosse a sorte grande. E por esta sina chega às vezes até às ilhargas de Caiena nos rastos do patriarca Palheta, sargento-mor da Guarda-costa e contrabandista de cafe; quando se atravessa a baía do Oiapoque e passa por fora do monte da prata, diz-que d'Argent; quase sempre vai-se afundear a canoa na boca do rio Aproaga; compadre Raimundão chama Puruaca que nem os pescadores brasileiros e lá os franceses dizem Aprouague – esclarece BBB. Prova de que esses caminhos ribeirinhos são de origem aruaque, diz Quinquinhas (aliás dr. Joaquim Galício) sem que ninguém na casa da beira lhe tenha dado atenção (agora dr. Joaquim, aliás o filho do Agripino e Adélia; pode compreender e urge falar à professora Magda; que os regulamentos que os governadores do Maranhão fizerram às tropas de guarda-costa não podia ser conhecimento expedito dos próprios portugueses, mas sim extrato de confessionário das aldeias das missões. Pra você ver a manha dos padres – diz o poeta Janjinha, com ódio verdadeiro do confessor da bela Paquita. Apropriação subreptícia pelos brancos da sabença de velhos guerreiros tupinambás catequizados e nuaruaques cativos na Casa das Canoas, obtido da mestiçagem das tropas de resgate, conforme usos e costumes antigos de botar capelão embarcado a rezar missa e novenas de Nossa Senhora do Tempo antes de soltar o cabo das canoas e dar nos remos, pastoreio de corpos e espíritos do gado humano. A verdadeira invenção das amazônias pelas beiras da estória-geral...


Da foz do Aproaga o pescado fresco pegado pelo pessoal da ilha Maracá, Bailique, Vigia, Chaves e Soure, diz-que todos eles clandestinos desde meninos na própria casa de seus pais; passa a mãos de marreteiros brasileiros de Caiena com carta-de-seju. Estes uns já sabem como são as modas, pois comeram o pão que o diabo amassou: andam na linha e são eles que vão buscar o peixe e revender a compadres crioulos donos de talho no mercado da beira do dique Leblond. Dai em diante a taínha se chama parreci, a pescada amarela acupá, o filhote  vira torche, a gurijuba manchuarron-jaune atravessa e chega à praça do Galo pra dar brilho a pratos bacanas em restaurante chinuá. Mais longe d'água o preço do peixe fica salgado e a porção diminui... Tudo gira em torno da base de Kurru quando decola pro espaço um foguetão daqueles. E assim serão felizes pra sempre os pescadores do cabo Norte. Esta gente malandra que consegue, diz-que fácil-fácil; larjant pra trazer pra casa com a grude e o peixe salgado contratado no comércio da Vigia a certeza de que no outro ano vai estar de volta, até quando Deus quiser... Eu queria que vocês fossem passar uns dias com um compadre meu chamado Françuá, em Kurru – declarou BBB – pra saber se eu tô inventando...


O pessoal da Vigia (na verdade, São Caetano) não se queixa: haja saúde, gurijuba e compadres com larjant na praça de Caiena (o resto é pavulagem, mas porém não sabe que se falhar foguetão em Kurru a coisa fica preta...). Na volta pra casa no fim da safra vêm abonados e farreando sempre que podem. Vão desviar caminho e se meter em improvisadas festas nas ilhas, que aqui a gente chama mucura. Isto é, arranjada sem frescura, de repente. Os cornos, paresque, nunca tinham visto boi-Bumbá... Uma vez, por acaso, toparam com o Resolvido que foi dançar em Cachoeira na festa do glorioso São Sebastião. Filhos da mãe! – Liduíno esbraveja – na hora que o boi foi se esconder atrás do mato, quando o tripa saiu de baixo e foi tomar uma dose... O pessoal da pesca aproveitou o enredo do roubo e arrancou a cabeça do boi, meteu debaixo do braço e saiu de carreira no rumo do porto...


Aí foi uma merda! Pai Francisco e mãe Catirina (personagens do Bumbá) injustamente acusados de ser ladrões de gado, passaram mau pedaço na peça... Quando acaba, pajé e tribo de índios de faz de conta, delegado mais o amo Liduíno, vaqueiros metidos dentro de cavalinhos de miriti enfeitados de fitas coloridas e chapéus com espelinhos encrustados e tudo mais, foram achar o animal de estimação dentro do mato, degolado... O tripa, a chorar de raiva, que nem bezerro desmamado berrava e esguichava lágrimas de arrependimento por ter deixado o Resolvido sozinho; o corno destilava cachaça por todos os poros... Puta merda! Esta patifaria não estava no enredo. Os ladrões da cabeça do boi, velas cheias com vento em popa no rumo da Vigia, Credo!... estavam fora de alcance, lá no meio da baía. Com a afrontosa notícia da morte do boi antes do fim do folguedo, espalhada na rádio cipo, todo Curralpanema ficou em pé de guerra. Deixa estar, que lá no outro lado do Pará, entre grudes de gurijuba ensacada e peixe salgado a cabeça do Resolvido na proa da vigilenga, num ar de espanto, espiava com seus olhos de vidro a confusão de gente no porto como à espera de uma notícia sem precedentes.


Mas, porra, por que diabos vocês fizeram esta sacanagem? – berrou Raimundão com a mão na cana do leme, enquanto os camaradas arreavam a vela, vinham de chegar numa vigilenga chapada de peixe salgado vindo do Aproaga depois de três meses de safra. Assim, o piloto deu com o espetáculo que juntava gente no porto. O que era aquilo? Um peixe-boi atorado pelo meio? A cabeça do Resolvido degolado espiava, espiava... Paresque um modo estúrdio, tanto podia ser que nem cachorro com rabo entre as pernas ao passar no terreiro vizinho ou, quem sabe, ameaça de tremenda vingança como aquelas antigas do tempo dos índios; que não sossegavam enquanto não quebrassem cabeças e comessem assado fígado do inimigo, que Deus o livre...


Compadre Amadinho foi ao porto e Raimundão o chamou a um particular, falando baixo: espia só o que estes sacanas fizeram com o boi de Vilarana... Mas, que merda, caralho! – Amadinho sentiu cheiro de pólvora no ar. Por menos disso, antigamente, o pau chinchava... Deixa estar que o pior que podia acontecer era dar sumiço à cabeça do boi sem mais nenhuma consideração à nobre origem vilaranense. Era melhor chamar algum entendido pra aproveitar a cabeça e fazer um novo boi-bumbá. Pois foi o que aconteceu e desse jeito nasceu o Boi Tinga, paresque. Só que em vez de imitar os outros bois, Raimundão disse, aquele boi de Vilarana paresque é galinha. Reparem que tem só um tripa e um par de pernas... Os outros falaram, é isso mesmo, mano velho; boi de verdade tem quatro patas, vamos meter dois tripas pra fazer quatro patas do Tinga. Tripa é o camarada que dança debaixo do boi. O Tinga carece de dois tripas pra fazer as quatro patas dum boi de verdade.  Assim foi e mais: o boi virou um carnaval caetano com cabeções deste tamanho e arlequins, colombinas e pierrôs... Axi! – Emérito desdenhou – boi-bumbá de verdade tem que balançar e dançar. Por conta do bailado é que tem de ser um tripa só e não pode qualquer um se meter à tripa de boi; carece fazer o boi dançar. Tem que ser que nem o finado Luciano, que dava graça ao Resolvido; ele sabia dar marrada, chifrada e rabanada pra abrir a roda quando o povo fechava. Boi-bumbá tem que ter acompanhamento de banda do Antonico Picapau e trombone do mestre Açúcar, pai Francisco e mãe Catirina, vaqueiros e amo que nem o mano Liduíno... Aquilo no outro lado e lá em Parintins é carnaval, vão me desculpar a franqueza. É bacana? É... Mas porém, não é boi-Bumbá nem bumba-meu-boi. Fica paresque açúcar no vinho de açaí, estraga o sabor...


Não eram boas, definitivamente, as relações entre as ilhas e a terra-firme. Assim, o compadre Amadinho querendo fumar o cachimbo da paz ao quanto antes e antes do pau comer, mandou recado por escrito pelo Catumbi convidando Liduíno pra ir a São Caetano levar o Resolvido pra confraternizar com o Tinga em missão de paz, amizade e fraternidade etecetera e tal, justo e perfeito num festival do caranguejo. E lá, muitos casos de parte a parte como é de praxe pra cimentar acordo. Foi aí, na hora da mesa com a travessa de sopa de caranguejo fumaçando, que o Amadinho chamou Raimundão e disse, conta pro Liduíno aquela do cara que assovia mentiras...


Assovia mentira ou mente assoviando? – Liduino fez ar de grande admiração sem tirar o olho da terrina, nem deixar de aspirar o vapor do tempero, sentenciou – pai d'égua! Antão, o pescador não se fez de rogado e passou a contar a estória. Era uma vez, diz-que, no povoado Mucajatuba um velho pescador aposentado pela força da idade, chamava-se Homero, Patativa por apelido da mania que tinha de assoviar, paresque até quando cagava... Seu Homero se pegava no trabalho haja a assoviar diz-que pra não cansar, se não fazia nada assoviava pra ver o tempo passar na flauta. Era o velho um passarinho patativa, a falar sério ou a inventar coversa fiada... Paresque afiava a língua em notas de clarinete imaginário, o qual nunca aprendera a tocar, enquanto ensaiava estória... Enfim, se os casos que ele gosta de contar aborreciam a gente do lugar, o velho paresque levava a vida no bico.


Na mocidade seu Patativa foi pescador do Norte, sempre bafejado pela sorte. Mas porém, tinha o grande defeito de contar lorota demais da conta... Ora, se já estória de pescador não perde uma pra acrescentar potoca Patativa extrapolava de tal forma que uma sardinha na rede passava logo por tubarão... O pássaro caripirá engolia cardumes e cardumes de sardinha sem mastigar. Com ele, tubarão dava no rio e jacaré nadava em alto mar... Quem gostava de escutar mentira de seu Homero era pescador, por espírito de disputa: haver quem conta a maior! O problema é que nenhum pescador se conforma em perder pra outro. Mas porém, os casos do Patativa, com a velhice, começaram a avacalhar a profissão pela elevada invencionice da sua imaginação. Com isto, o velho começou a ficar marcado no povoado. Já não lhe rebatiam mais com outra façanha pra abafar a que com muito engenho ele contava.


Ai, em vez de fazer dele heroi do povoado, o castigo veio a cavalo. A velhice, as pernas bambas, a vista curta e o pobre não pôde mais continuar a viajar e ir pescar no Norte. Seu sofrimento aumentava quando as canoas partiam para o mar e Mucajatuba ficava entregue às mulheres, crianças, meia dúzia de velhos e cachorros pirentos esperando a volta da turma. Homero perambulava à cata de quem lhe escutar um mísero caso. Sabe como é mulher, explica Raimundão; quanto se pegam entre elas é uma risadaria, uma papagaiada danada... Quando já que iam elas aturar o velho Homero contar das suas, dois ou três outros velhos, surdos que nem uma porta... Só arremedando, hum-hum, hem-hem... As ideias apoquentando o velho a ponto dele ter que vomitar pra se livrar de tanta estória a coçar a língua e a querer sair pela boca afora... Pobre homem, antão ele pegava um banquinho na porta de casa e ficava matutando e assoviando, paresque ensaindo estória pra quando a turma voltasse...



Dizque, assoviar estória não é pra qualquer um. Carece ter dom. É coisa mui diferente de caduco que fala só ou mentiroso safado, que só arruma encrenca pra enganar e roubar a gente, não senhor – explica Liduíno do Boi, que ficou fã do assoviador caetanense – o dom de seu Homero Patativa exige arte e bom coração... É, paresque, com dose de engenho e arte, a premeditação da conversa fiada em forma de assobio: maneira de caboco velho quando se pega sozinho botar imaginação pra fora. Dar via de consequência à ideia urdida altas horas da noite: o fruto da insônia no escuro, sem luz de lamparina pra afiar a língua e inventar conversa a contar cedo de manhã. E quando acaba, mingau de bacaba... ninguém quer escutar. Antão haja a solfejar com os beiços e soletrar no pensamento.


São as tais vias de comunicação sustentadas a caldo de gurijuba e pirão de farinha d'água no coração e na cabeça da pessoa. A coisa que vem a furo de qualquer maneira: Contada, cantada, desenhada, representada em auto popular ou pegando santo no terreiro: toda estória carece achar caminho e se comunicar. Contada deste jeito no bar do Emérito a estória assoviada do velho Homero despertou grande interesse em Quinhinhas, que vinha acompanhando de longe certo caso de uns índios isolados cuja fala se passava por meio de assovios, cantos de passarinho, coaxos e outras vozes da natureza. De modo que, privado de quem o quisesse escutar, o velho pescador podia sim, dar curso à imaginação a modo de passarinho. Por que não? Chamar a esse Homero do povo de mentiroso era sinal de ignorância e uma estúpida desconsideração pelo próprio povo donde emana tota estória do lugar.


O filho de Agripino Ferreira Rodrigues, sem que ninguém soubesse montou tese, fez manuscrito em papel almaço e botou em envelope fechado comunicação pra ser entregue, lá na Cidade, ao Instituto Histórico em mãos da professora Magda Zurita. A tese estúrdia seguiu cedo pelo bote veleiro O Boateiro, pilotado pela mão de Deus e tripulado unicamente pelo tio João Catumbi e o galo proeiro e despertador, apelidado Mucura (porque, diz-que, come galinha...) deu a partida com a viração da maré. Informado porém do raro conteúdo do envelope, o portador comentou que estava sabendo do caso no rio Mucajatuba, pras bandas da Vigia; havia um velho pescador contador de estórias do arco da velha, notável pelo fato de assoviar mentiras... Pelo visto, a grande novidade do Liduíno tinha dois sabedores em Vilarana: Deus e o povo do círio de Nossa Senhora do Tempo...


Como antão, meu tio – Emérito perguntou – assoviar mentira? Era o seguinte. Conhecido por inventar demasiada estória de pescador o velho Homero, quase cego, já não encontrava quem as quisesse escutar. Quando chegava a temporada de pesca da gurijuba lá pro cabo Norte só ficavam no povoado mulheres, crianças e velhos. O velho se agoniava muito nesse período de ouvidos escassos é dava uma de índio Pirahã, as lembranças (lá nele) a boiar da memória e o velho num banquinho sentado na porta da barraca, como não achasse mais quem quisesse escutar estória, passava ele o dia a assoviar casos um a um... Como diz o nome, Pirahã é gente-peixe... Que nem seu Homero pescador é parente vivo de passarinho patativa. Não há espanto por aqui que tenha mulher que vira porca e homem que vira cachorrão brabo ou cavalo doido em noite de sexta-feira, até onça-gente já se ouviu falar por estas bandas e planta tajá se domestica como guarda da porta de casa (noves fora Cobra Norato e sua mana malvada, Maria Caninana; que eram cobras e viram gente; caso de filho de boto com mulher é trivial (ignora-se se alguma vez, estrompada em igarapé, alguma boto-fêmea emprenhou de pescador tarado). Nos princípios deste mundo, a índia Ceucy ficou prenha de tanto comer cucura-do-mato e pariu Jurupari, o espírito senhor do segredo do passado e do futuro; por fim a linguaruda foi castigada pelo filho transformada em estrela das Pleiâdes e o pajé velho cúmplice da curiosidade dela em saber o que há na casa dos homens, virou tamanduá. Quem duvidaria sem perigo de virar bicho?)...


Talvez, porque no fim do mundo esta gente estúrdia tenha se adiantado muito à mudança climática na frente dos bestas civilizados. Ou, pelo contrário, porque ficou no meio do caminho escuro de Dante quando este um foi visitar o inferno e o céu, o povo Pirahã tomou direção diversa. A gente-peixe sobreviveu, paresque, ao dilúvio fora da arca de Noé e se meteu no limbo longe da civilização, que nem escravo fugido no mocambo; enquanto outros salvos das águas trabalhavam como mão-de-obra na construção da arca e depois da torre de Babel, pra pagar passagem por não saber nadar, os homens-peixe nem seu Souza... Isso de trabalhar pros outros não é com índio Pirahã e muito menos com mestre Homero, aposentado pelo Funrural por causa da idade.


Nas paragens do limbo, diz-que, afastadas do paraíso e do inferno a  meia maré de viagem numa direção ou noutra; os intuitivos Pirahã se ilharam e fizeram um mundinho (lá deles) à parte. Aí está a grande diferença entre comer peixe (além de dançar a pirapuracéia longe dos cânones sagrados) e comer gente (inclusive a prostituição e as doenças sexualmente transmetidas): Lá aonde os catequistas do Brasil não se atreveriam a ir antes de domesticar os mais salientes canibais da babel brasílica (o pai português malvado a premetidar a ordem e o progreso do bom filho brasileiro, diz-que). Depois do susto da corda e do baraço debaixo de tiro de arcabuz e dentes de cachorro; amansar com paciência o bárbaro cativo na aldeia de Murtigura: massagada pra servir de boa-vontade à Casa das Canoas mediante ensalmos pelo ouvido adentro com a boa fala Nheengatu (já que falar nheengaíba, com língua travada, é difícil pra caramba e imitar passarinho pra dizer amém muito mais ainda...). A odisséia da linguagem selvagem nas ilhas e sertões das amazonas, por necessidade e acaso, segundo seu Homero Patativa (que não sabia, paresque, patavina do que ele dizia do fundo do seu coração...). Isto tudo pra impor e entupir tupi à patuléia como língua-geral do país do pau-Brasil (até nossa boa língua portuguesa, com certeza, estar pronta pra reinar no império do Brazil). Facilitar extração de almas do limbo a ajudar querubins na faxina celestial... no Céu, no Céu coa mea mãe estarei – dona Adélia canta hinos sacros na procissão de Nossa Senhora do Tempo: a poeira na quentura do caminho descalço se levanta com cheiro de bosta de vaca – na santa glória um dia, junto à virgem Maria, no Ceu eu estarei... Depois da língua-geral, pau no couro por decreto do Diretório Pombalino a fazer a nossa língua portuguesa uma beleza do Oiapoque ao Chuí. Obra magna do capitão-general demarcador de fronteiras, governador do Grão-Pará e Maranhão. Milagre de Santa Férula, a palmatória! Aproveita, antão Raimundão, antes que acabe a madeira – o Emérito aconselha – e os derradeiros Pirahã se calem pra sempre. Pra saber estória do fim do mundo com mestre Homero em extravagantes discursos em sintaxe e cantiga de pássaros, batráquios, marulhos do mar, assovios de curupira etecetera e tal. Os vários sons das florestas tropicais encantadas e os cantos do Mar equatorial amazônico traduzidos, diz-que, em assovios, trombetas de chamar vento, trovoada, rebujo d'água, raz de maré; estalidos do mato como a onça faz na orelha pra atiçar a presa ou ronca no fundo do peito; arfa; suspira e tosse... Nosso avô Jaguar, paresque, antigamente era semi-deus de cuja carne e sangue a gente não comungava (sob pena do matador regredir à animalidade), mas porém o sacrifício do animal sagrado no terreiro conferia áurea de coragem de herói aos conquistadores da terra dos Tapuias. Ahã!


Na grande noite de Vilarana (boca das ilhas pro verdevago desertão medonho e travessia da baía pra Cidade), os pequenos correm a se meter na rede às costelas da mãe com medo das vozes do escuro da varja. Vozerio da primeira noite do mundo: assim falou o povo Pirahã (e fala ainda, enquanto  missionários e científicos, mas sobretudo bandeirantes matabugres o deixarem em paz) e o discurso da primeira manhã também, em língua de passarinho uirapuru. Aí que, afobados que nem os primeiros bichos que saltaram à terra quando a arca encalhou na lama do Dilúvio em riba do monte Ararat, diz-que; ancestrais peixes-homens Pirahã cairam n'água e chegaram logo ao rio Amazonas à frente de todo mundo (inclusive dos turcos encantados). As mais antigas navegações do mar-Oceano ao tempo de Ofir quando acharam a passagem de subida, que nem Orelhana atinou, já podiam ter topado com os Pirahã nas cabeceiras do rio Madeira.


Quinquinhas (aliás dr. Joaquim Galício Ferreira Rodrigues), como de costume; nas suas cartas impossíveis da casa da beira comunicou ao instituto histórico do Grão-Pará, dizendo ele que, paresque, esta gente dos primeiros dias e noites da Terra sem mal; mal enxuta ainda do parto da Cobragrande saiu depressa pela beira do rio atrás de cardumes que subiam em piracema. Eram famintos e afobados em demasia, os primeiros homens-peixe: não tiveram tempo ou não quiseram aprender na Turquia com os filhos do velho Noé (problema enormíssimo para o doutor Chomsky resolver depois, a professora Magda Zurita observou em nota de rodapé; que Deus não queira esses uns serem da parte do Cão tão-só pra atentar contra o plano da Criação, padre Navegantes não nos escute e o redador da Gazeta não saiba). Os Pirahã chegaram, diz-que, mudos ao teatro Amazonas sem uma muda de roupa sobre a pele (lá deles). Com quem eles aprenderam a falar, antão? BBB quis saber. Paresque com arara, japiim e jia – caçoou Liduíno do Boi – que nem mestre Homero aprendeu a assoviar estória com passarinho patativa...
 

duas aves inseparáveis nas asas da brisa por toda vida.

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Que bom, que bom...
Que bom que você chegou
e me achou, minha Curica.

Eu devia voar louco lá longe
fora do bando
Procurando o que eu nem sabia
o quê e o porquê, minha Curica.

Quando te vi a primeira vez
você parecia uma rosa metade leoa
E eu só na boa querendo
conquistar teu coração, minha Curica.

Ó rima rica no meu bico, socorrei
este poeta cantador da floresta
para que haja festa e sesta de amor
a alegrar rosa-leoa do coração, minha Curica.

Tu ficas mais bonita no seio da maré
És flor, passarinho e és mulher
uma fera quando alguém mexe no ninho
e ameaça nossos filhotes, minha Curica.

Eu quero sempre voar pelo vasto mundo,
e tu a me aconselhar que o melhor
desta vida é a calma paz do igarapé, a vida
e o amor eterno enquanto dura, minha Curica.




quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Viagem a Portugal continuada na Amazônia iberiana.



Torre de Belém - Lisboa, Portugal.

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Forte do Presépio - Belém, Amazônia.



REVISTA IBERIANA
da Amazônia para a CPLP e países iberos-americanos
Nº 1 - Ano I - Belém (Pará), Brasil - outubro de 1999


CARO LEITOR,
A REVISTA IBERIANA vem hoje para focalizar a Amazônia em seu contexto histórico e geográfico, dirigindo-se opcionalmente ao mundo lusofônico e ibero-americano. Traz à reflexão o fenômeno global da civilização ultramarina encetada pela Península Ibérica, na revelação deste espaço amazônico.
Pretende ser iberiano na medida em que os elementos ameríndios, africanos e ibéricos - na América do Sol - se integram e realizam a síntese equinocial.
...........................................................................................................
Belém do Pará, Outubro de 1999
José Varella Pereira

Começou assim, há 18 anos, nossa tímida tentativa de dialogar com viajantes do vasto mundo que os nautas lusíadas descobriram. A Novíssima Viagem Filosófica - da arte iberiana das viagens e aliança pós-colonial afro-ibero-americana, é a nossa garrafa de náufrago lançada ao mar pelos degredados, os pobres casais de Portugal enganados para vir povoar o paraíso na terra bruta do Maranhão; testamento das tribos perdidas e da destruição das Índias Ocidentais: o modesto ensaio iberiano, entretanto, como o sapo no alagado mira o reino da Lua acima das nuvens, viajante atrevido que olha alto e ousa seguir, embora claudicando, a rota de viagem de dois monstros sagrados: 

Primeiro o sábio naturalista de Coimbra Alexandre Rodrigues Ferreira, na Viagem Philosophica , em seguida o memorável Prêmio Nobel de Literatura José Saramago, na Viagem a Portugal, que vai na trilha de Garrett revendo vilas e lugares lusitanos cujos nomes emigraram para colonizar o Rio Babel: Almeirim, Alenquer, Aveiro, Barcarena, Barcelos, Bragança, Caldas da Rainha, Chaves, Óbidos, Oeiras, Ourém, Salvaterra, Melgaço, Portel, Porto de Moz, Santarém, Sintra, Soure, Souzel e outros mais à ordem de Pombal no rescaldo da expulsão dos Jesuítas do Grão-Pará. 

A loucura do viajante da novíssima viagem é comparável a uma pequenina semente crioula que sonha em se transformar num colosso da floresta, ínfimo grão coberto de seda vegetal solto no ar pela altíssima Samaumeira (Ceiba pentandra), que o vento leva e carrega a esmo. Essa ideia de Quixote desterrado talvez ainda encontrará, por sorte, uma nesga de terra fértil onde o sol e a chuva farão nascer e crescer, no seio do mato, a plantinha rasteira até ela crescer e aparecer sobre o cimo da selva. Sabíamos que não era fácil o pequeno grão crioulo do Grão- Pará topar lugar próprio ao sol na densa floresta-mundo. Mesmo assim ela ainda pulsa e não deve perder esperança de vir a florir, tal qual aquelas sementes selvagens que mais resistem a secas e queimadas prontas a brotar com a primeira chuva de estação. 

A palavra mestiça iberiana nasceu, por acaso, no espírito do viajante amazônida ao fim de uma luminosa tarde de verão no Planalto, que não acabava nunca. Operários da construção de Brasília ainda trabalhavam nas fundações do novo Palácio Itamaraty. O poderoso bate-estaca fazia estremecer a poeirenta terra vermelha povoando o espaço do Cerrado de um som antigo e monótono: parecia àquela hora tardia vir de eras pretéritas da Ibéria avoenga, desde um longínquo estaleiro de além mar onde, secretamente, se inventaram caravelas da descoberta do mundo.

Foi então que, imerso na magia do tempo, me ocorreu pensar que a nau capitânia da frota de Pedro Álvares Cabral poderia vencer os limites de Tordesilhas no tempo e espaço para navegar o ribeirão Mestre d'Armas e ir fundear no lago Paranoá. Ó estupenda viagem! Até aí foram parar os nautas de Portugal. E os barões assinalados plantaram, duzentos anos depois, o velho padrão do Tratado de Madri de 1750 no átrio do novo Palácio Itamaraty em Brasília. O qual marco histórico dos futuros países iberianos na América do Sul ficou mergulhado no fundo do Rio Negro, no Amazonas, a se abeberar de mitos fecundadores da terra de Ajuricaba na fantástica inculturação amazônica entre padres, pajés e babalorixás.

Logo o viajante cristão-novo no país gigante da América do Sul, doravante andarilho bandeirante batizado iberiano pelas Águas Emendadas planaltinas, haveria de fazer infinitas circunavegações pela terra brasílica adentro, grande sertão de João Guimarães Rosa e Ilheus de Jorge Amado da Bahia através dos rios São Francisco; o Tocantins passando para a formidável bacia amazônica, onde a Criaturada grande de Dalcídio mora em palafitas ancestrais. E o rio Paraná a levar de canoa Mário Palmério ao Pantanal a caminho de Chapadão dos Bugres, olhar os Pampas em companhia de Érico Veríssimo a bordo do Tempo e o Vento; varar sem medo para terra do Papa argentino, no Prata.  Com José Mujica na extinta província Cisplatina, levar a paz e reconciliação ao Paraguai, pedir perdão pela guerra injusta da tríplice aliança vassala da pérfida Albion.

Não nos podemos esquecer do fato transcendental de que Deus é brasileiro... Se Ele não existisse precisava-se inventar um qualquer ser supremo em socorro dos fracos, oprimidos e mais sofredores da vida a fim de enfrentar o medonho desnorteio dos donos do mundo ou a loucura da multidão de deuses imortais tão parecidos das paixões humanas. Já dizia o Manifesto Antropofágico, "fizemos Cristo nascer na Bahia ou em Belém do Pará"...

Alguns sinais nos permitem acreditar na utopia iberiana descendente do mito da Terra sem mal e do realismo mágico messiânico judeu-cristão. Entre estes sinais de fim do velho mundo e começo imediato da nova idade do Espírito Santo lembrai-vos do poeta-profeta Pessoa e da filosofia pós-sebastiana de Agostinho da Silva para chegar à inteligência coletiva de Pierre Levy e ao Homo sapiens / demens na complexidade de Edgar Morin, parente talvez do Homo sapiens Tapuya da Viagem Philosophica.

Aí chegamos nós, entre gregos e troianos, à grande Crise de nossos dias a bordo da contraditória revolução tecnológica do ciberespaço, onde 427 milhões de hispanófonos (2ª língua mais falada no mundo) e 202 milhões de lusófonos (6ª língua mais falada) poderão tornar-se internautas praticante do esperanto neolatino na rede mundial de computadores. Nada mal, uma comunidade multinacional e multicultural herdeira do passado ibérico que já ultrapassa a casa de 600 milhões de pessoas. Tudo é viagem... Se as caravelas já podem com tanta gente, haja navios de cruzeiro e super aviões... Quem não pode, embarca na jangada de pedra ibérica ou vai a remo pelos caminhos das águas da novíssima viagem iberiana.

Outra notícia auspiciosa dos novos tempos pós-coloniais, apesar da crise civilizacional em curso e da recessão econômica global desde 2008; foi a eleição do português António Guterres para o alto cargo de secretário-geral das Nações Unidas, quase tão surpreendente quanto o sopro do divino Espírito Santo ao ouvido dos cardeais romanos na escolha do jesuíta argentino Bergoglio como sucessor do renunciante papa alemão. 

Além de justificado orgulho de Portugal, a eleição do socialista Guterres dá oportunidade histórica à Comunidade de Países de Lìngua Portuguesa (CPLP) a ser porta estandarte da ONU no processo do desenvolvimento democrático e sustentável levando à erradicação da pobreza extrema até 2030. Aqui é que a Criaturada grande de Dalcídio (populações tradicionais amazônicas) esperam, enfim, sair da margem da História para se empoderar dos acontecimentos que dizem respeito a sua vida. Pois ao longo de mais de 300 anos já sofreram demais para esquecer a babel de suas línguas nativas "dificultosas" a troco da língua-geral Nheengatu e apanhar de palmatória a fim de falar português depressa, deixar de ser "índio" para ser súdito leal e pau para toda obra de Sua Majestade Fidelíssima.

Neste sonho meu, embarco no turismo responsável que se, deveras, foi inventado, ainda falta assumir maior protagonismo nas teias da economia solidária. Na primeira página da Novíssima Viagem Filosófica a citação de José Saramago dá boas-vindas ao leitor da REVISTA IBERIANA:

"Eis a boa filosofia: tudo é viagem.
É viagem o que está à vista e o que
se esconde, é viagem o que se toca
e o que se adivinha, é viagem o estrondo
das águas caindo e esta subtil dormência
que envolve os montes".
José Saramago "Viagem a Portugal", p. 198.

Saramago, na portada da Viagem a Portugal, dedica a imaginária caminhada a quem lhe abriu portas e mostrou caminhos e também ele viajou guiado pela memória do mestre de viajantes Almeida Garrett. No fim da viagem, o autor se despede do leitor a dizer que volta já. Mas não é verdade, já dizia Fernando Pessoa que o poeta é um fingidor: "O fim duma viagem é apenas o começo doutra ... É preciso voltar aos passos que foram dados, para os repetir, e para traçar caminhos novos ao lado deles. É preciso recomeçar a viagem. Sempre. O viajante volta já". Ao começo o viajante de Portugal advertira aos mais viajantes do mundo sobre o fato de que nenhuma viagem é definitiva.

Dá o primeiro passo ao atravessar a fronteira entre Espanha e Portugal. Deveria ele começar por outro sítio que não fosse esse, tão carregado de memória dos povos que lá viveram e vivem ainda e dos viajantes que lá passaram e dos emigrantes que se dispersaram pelos caminhos do mundo levando a "fronteira" afora? Então, por onde passa a linha invisível da fronteira, na ponte virtual do espaço-tempo sempre em construção, "sobre as águas escuras e profundas, entre as altas escarpas que vão dobrando os ecos, ouve-se a voz do viajante, pregando  aos peixes do rio".

Por acaso mágico, na outra margem do Atlântico distante, o eco daquele sermão caminhando pela paz e fraternidade entre espanhóis e portugueses; da fronteira ibérica chegou até aos antigos contérminos amazônicos da fronteira de Tordesilhas. Onde, certo dia em 1654, o padre grande dos índios Antonio Vieira, escandalizado do trabalho escravo de "negros da terra", partiu de Belém do Grão-Pará a caminho de Belém Ocidental e, parando em São Luis do Maranhão, à maneira apostolicamente contundente de Las Casas, proferiu o elogio do peixinho Quatro-Olhos (Tralhoto, Anableps anableps) no Sermão aos Peixes contra todas cegueiras civilizadas e desumanidades da colonização, levando na mala a Lisboa duras queixas ao rei Dom João IV. 

Aos peixes pois, lá e cá de confundidas águas que irrigaram as duas civilizações abraçadas pela História sejam gratos viajantes e turistas, assim também deem graças aos pescadores que cedo madrugam para por a mesa o peixe frito nosso de cada dia. Amem?  

MEMÓRIA DAS DUAS IRMÃS BARCARENAS:
da Fábrica da Pólvora aos altos fornos do Alumínio.


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Quinta do Filinto - Barcarena (Portugal).


Não posso me despedir sem dar uma palavrinha de afeto e gratidão ao meu amigo Fernando Silva, de Barcarena (Portugal), benemérito editor de "A Voz de Torcena" e zeloso conservador da Quinta do Filinto, herdade de seu pai. Eu nunca lá estive, mas a cada mês eu viajo em pensamento a Portugal só para imaginar uma boa conversa com o Fernando Silva e sua gente, visitar a Quinta do Filinto mais uma vez, rever o museu etnográfico, na biblioteca folhear os livros que meu amigo português escreveu cheio de ternura e saudades dos Açores e, sobretudo, seu transbordante amor camponês aos heróis quotidianos do campo posto à mesa dos burgueses, "Os Filhos da Pátria Saloia" -- Breves lembranças vividas pelo povo da Região Saloia radicado na freguesia de Barcarena, suas histórias, suas aventuras, suas virtudes, traços reais que marcaram uma época e que tendem ano menos ano, a uma precoce extinção.

Em não duvido de que boa parte da história social de Portugal mora nas lembranças do Fernando, na Quinta do Filinto. Aí, então, eu invejo a constância do amigo e me lembro da sua vinda com a delegação de Oeiras a Barcarena e Belém do Pará - já se vão 18 anos! - o mesmo tempo da REVISTA IBERIANA com a "história atrevida" falando mal das arbitrariedades do Marquês de Pombal no Pará, que lhe autografei de lembrança da geminação entre as duas Barcarenas. 

Lembro-me que até dei uns passos de dança, no jardim da Paratur; com uma jovem 'macanita' do Rancho Folclórico as Macanitas. Pena que a festa e a geminação durou pouco. Porém não dizem que água mole em pedra dura tanto bate até que fura? Estou velho e ando devagar, já não vou ao Marajó há tempos. E nunca fui a Portugal e a Galiza de meus avós ibéricos, todavia nunca deixei de lá estar e sei que não morrerei enquanto alguém, em qualquer canto da Pátria-Terra, tiver notícias destas estúrdias divagações. São as minhas pequeninas sementes literárias deixadas para florir no belo jardim do amanhã.

Só espero que a China, Noruega, Holanda, Portugal e todo mundo queira ajudar as Cidades Educadoras a ter pleno sucesso. Quem sabe a Quinta do Filinto com seu museu etnográfico sirva de exemplo a Barcarena do Pará para criar o seu comunitário Ecomuseu dos Cabanos?

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