quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

ELEGIA: TUDO VALE A PENA SE A ALMA NÃO É PANEMA


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 ÍCONE DA VIRGEM DE GUADALUPE (MÉXICO)


à memória de minha mãe Othilia de Nazareth
e de meu pai Rodolpho Antonio.


zenBubuia, Aleluia!

A teus pés, Senhora, seja eu humilde que nem o plácido caboco
Do igarapé que encontrou no Grão-Pará
A santa imagem da Virgem de Nazaré aparecida a caminho do Una.

Patrimônio da humanidade o Círio de Nazaré
Com a mãe da Amazônia, seu manto verde e rosa
Como se fora a biosfera placentária
Berlinda tão bela puxada pelos devotos na corda da fé.

Mãe de todos os deuses de Tepeyac
Seja eu neste tímido pensamento poeta e profeta tal qual
O índio de vosso afeto Juan Diego batizado e catequizado na igreja
(ma non troppo)...

A loucura de Erasmo seja louvada pelo mistério profundo
Que ela encarna
E a libido de Freud perdoada na hora da cama a fazer carne
O transe que se converte em espírito santo.

Sim, não é segredo tenho medo do Mal vindo de ultra Mar
Ou mesmo de dentro de mim, Senhora minha.

Que a Mulher seja libertadora da humanidade filha da animalidade
E o Filho do Homem redentor de todos e todas criaturas
Em todas nossas vidas e mortes pelos séculos dos séculos.
 
Afinal de contas não é de hoje que Bartolomeu de Las Casas
Escreveu a todo mundo aquelas coisas horrendas 
Da destruição das Índias acidentais pelos bons cristãos.

E o senhor deste vasto mundo imundo - ídolo de Ouro
Desde a Antiguidade até a Modernidade não se saciou
De sangue, suor e lágrimas.

Todavia apesar de tudo há auroras que ainda não brilharam
Se as rosas falassem diriam elas do perfume que exala de ti, 
Maria Compadecida.

Sim, eu creio (como disse o índio da heresia dos índios na Bahia):
Deus ou Natura fez o Homem pra dormir e sonhar
Com a Terra sem males...

Oh, minha Mãe
Ainda que eu invocasse todos nomes do milagroso amor
Da Vida
Para te dar um nome amoroso não se esgotaria a infinita maravilha
Eterna fonte de maternidade e bondade da vida
Em todas as línguas e na eternidade dos bons sentimentos.

Amém.

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

ECOMUSEU ITAGUARI: DESPERTANDO CONSCIÊNCIAS PARA O PATRIMÔNIO NATURAL E CULTURAL DA GENTE MARAJOARA.


Rio Marajó-Açu, porto da cidade de Ponta de Pedras - 1ª Porfia de Canoagem Tradicional Marajoara.


ECOMUSEU, QUE BICHO É ESSE?

Lá vem esse cara outra vez? Imagino quem adora saber que estou afastado ler uma coisa destas... Faz tempo que não vou mais à terrinha (em parte por motivo de saúde e em parte por falta de motivo que valha a pena). Confesso que ontem me bateu saudade... Foi a notícia com imagens da porfia de canoagem no rio Marajó-Açu. 

Não escondo nem me envergonho de ser um sonhador graças a Deus... Se não fossem meus sonhos eu não falaria nunca mais em Marajó nem que fosse pra remédio de meus males... Tirando à parte o tempo da infância, quando a gente não se governa, quem de verdade me conhece sabe que raro é o dia que eu não lembre ou não fale de Ponta de Pedras.

Para mim, se eu pudesse, Marajó seria a melhor parte do mundo e Ponta de Pedras o melhor lugar do Marajó. Já que não posso fazer grande coisa me alegro quando vejo alguém realizar aquilo que eu gostaria de fazer: daí minha adesão total ao Movimento Marajó Forte (MMF) com o sonho da UNIVERSIDADE FEDERAL DO MARAJÓ (UnM). 

Ontem, o que me fez balançar foi o evento denominado Porfia de Canoagem Tradicional Marajoara. Deu-me vontade de estar lá em Ponta de Pedras, minha velha Itaguari... Aproveitar ocasião para plantar ideia de um ecomuseu com que eventos iguais se reproduzam e possam dar bons frutos a um excelente destino turístico justo "onde o Marajó começa". De fato, com apoio da história, no Itaguari ("ponta de pedra" na tradução à lingua portuguesa) o Marajó teve início na crônica paraense... Hoje a Coluna do farol de navegação - dita Itaguari - é lugar de memória do passado longínquo que muitos poucos ainda tem vaga lembrança. E estes mesmos estão se acabando sem deixar registro às novas gerações...

Agora que o Estado do Pará, depois de tanto tempo, vem de reconhecer a Cerâmica Marajoara como patrimônio cultural imaterial, é preciso dar significado prático ao discurso. No vácuo criado pela ignorância acontecem coisas inacreditáveis, como por exemplo, admitir o Búfalo como se fosse o símbolo ancestral Cultura Marajoara de mais de mil anos...

 A FAZER PARTE DUMA COMUNIDADE INTERNACIONAL

Sob assistência do Instituto Brasileiro de Museus (IBRAM), do Ministério da Cultura; o IV Encontro Internacional de Ecomuseus e Museus Comunitários (EIEMC) aconteceu em Belém (PA), de 12 a 16 de junho de 2012. Um evento que teve como tema Patrimônio e Capacitação dos Atores do Desenvolvimento Local, voltado para o público que atua em ecomuseus, museus comunitários, museus de território, museus de percurso, museus vivos, museus de periferia, museus de rua e outros processos. Mais informações ainda podem ser encontradas na página web da Associação Brasileira de Ecomuseus e Museus Comunitários ou junto ao Ecomuseu da Amazônia, pelo endereço eletrônico ecomuseuamazonia@gmail.com ou pelo telefone (91) 3267.3055.

Também em 2012 aconteceu a 1ª Conferência Internacional sobre Ecomuseus, Museus Comunitários e Comunidades, na cidade de Seixal (Portugal), de 18 a 21 de setembro de 2012.

Voltado para estudantes, pesquisadores e profissionais atuantes na área de ecomuseus e museus comunitários, evento ao encontro de grande interesse internacional pelo tema da museologia social. A cidade de Seixal abriga o ecomuseu mais antigo de Portugal.  
ECOMUSEU ITAGUARI


Como sabem, são diversas as estruturas de ecomuseus. O básico é que se trata de um museu aberto podendo ter ou não um ou vários centros. No caso ora proposto, a própria Secretaria Municipal de Turismo ou de Cultura poderia ser considerada sede administrativa. Ou, na falta desta, uma entidade qualquer da sociedade local. 

A cidade inteira com seus bairros, distritos municipais e comunidades locais tornam-se um "livro" aberto onde os visitantes irão encontrar a história viva da gente marajoara. Logo, o rio Marajó-Açu estará sendo o "museu" vivo com sua coleção de árvores, aves, peixes e animais. Mas, sobretudo, pela sua própria gente celebrada na literatura de Dalcídio Jurandir onde modos de vida, gastronomia e artesanato se oferece com componente sócio-econômico através do ecoturismo na geração de emprego e renda local com qualidade de vida das comunidades.

Claro que isto é utopia! Uma utopia que está sendo concretizada em diversas partes do mundo e inclusive em nosso País.

O romance "Marajó", escrito em Salvaterra em seguida a "Chove nos campos de Cachoeira"; tem cenário no Rio Paricatuba. E no Paricatuba independente do romance, o sítio "Recreio", por exemplo, no mesmo ecomuseu se tornará referência da festividade de São Francisco de Borja com seu lendário que remete à Cabanagem e à primeira sesmaria dos Jesuítas, na fazenda São Francisco (Malato)... Logo o visitante vai querer subir o Marajó-Açu para ver de perto a fazenda Rosário... Ou, passar pelo Canal em direção ao Rio Arari.

Então, será impossível separar as águas do Arari pelo lado de Ponta de Pedras sem tocar na margem de Cachoeira do Arari. Isto é, ajuntar o Ecomuseu Itaguari com o Museu de Cachoeira (ou seja, o Museu do Marajó, que pode ser considerado sem favor o primeiro ecomuseu da Amazônia). Mas aí o ecoturista já deverá se interessar pelo famoso Lago e município de Santa Cruz do Arari, onde o Museu do Marajó e a antiga Cultura Marajoara nasceram. Para voltar a Belém haverá de passar por Salvaterra. E quem está em Salvaterra não atravessará a Soure? É disto que se trata. Quem encarar tal aventura não se interessará por Muaná? E começando o primeiro capítulo vai desistir de "ler" o arquipélago e a terra-firme até o fim? Eu duvido.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

COMO (AINDA) SE FAZ POLÍTICA CULTURAL NA PROVÍNCIA


Notícia sobre reconhecimento oficial do ofício de Tacacazeiras e da
Cerâmica Marajoara no patrimônio cultural do Estado do Pará.

SEM FOGUETE E SEM BILHETE

Na confraria de amigos da Academia do Peixe Frito, a gente não sabe se ri ou se chora com esta notícia da imprensa... Alegria, sem dúvida nenhuma, em comemorar o reconhecimento oficial da Cerâmica Marajoara e do ofício popular das Tacacazeiras tão constante na paisagem cultural de nossas cidades e significativamente na literatura do nosso Prêmio Machado de Assis (1972), Dalcídio Jurandir, com a sua inseparável Criaturada grande. 

A Cerâmica Marajoara é, sem favor nenhum, o maior símbolo cultural do Pará e da Amazônia brasileira. Não por que os políticos e os marajoaras fanáticos assim queiram, mas pelo fato inegável de sua antiguidade arqueológica sobre as mais culturas amazônicas pré-coloniais (cientificamente comprovada por datação testada em mais de um laboratório de renome internacional). Mais o reconhecimento tácito dos maiores museus do mundo, tendo coleções de cerâmica marajoara, como a obra "Cultura Marajoara" de Denise Schaan informa, deste valioso patrimônio cultural representar a Arte primeva do Brasil. 

Acha pouco tudo isto para uma medida administrativa tardia e um quarto de página de jornal para avisar o distinto público, sem foguete e sem bilhete?

Significativamente, onde a inconsequente imagem do Búfalo usurpou a primazia semiótica do grafismo da milenar Cultura Marajoara - entre chuvas e esquecimento - entregue ao pisoteio dos animais, ao saque e contrabando por muita gente boa de altas esferas; a notícia saiu panema para não fazer barulho. Meio acanhada depois da boa nova dada a milhares de famílias que, sem emprego formal com carteira assinada, vivem da venda de tacacá e tapioca extraída da roça com o suor do lavrador, supostamente toda esta gente disposta a agradecer a generosidade dos donos do poder na Província com muitos votos nas eleições vindouras até o fim dos tempos.

Já o ofício de Tacacazeira em conjunto com o de Farinheiro constitui o topo da cadeia produtiva da preciosíssima Manihot esculenta, nossa popular Mandioca rainha da agricultura familiar que foi para a mãe África e voltou com a maniva em forma de maniçoba trazida pelos escravos. A qual agricultura familiar, graças à FAO e seu Diretor-Geral Dr. José Graziano da Silva em seu ardoroso combate à Fome mundial, terá em 2014 seu Ano Internacional... 

Já estamos refrescando a memória da mídia, acadêmicos de carteirinha, políticos e autoridades legalmente constituídas, etecetera e tal; de que (como se eles não soubessem!!!...) cultura, meio ambiente e economia não se separam na vida real

Portanto, não faz mais sentido "preservar" usos e costumes politiqueiros para colocar fronteira entre personalidades, secretarias de governo e muitos menos entre "esferas" de competência federativa da União, Estados e Municípios. O Povo não é bobo (codinome sociedade civil), mas para viver muitas vezes tem que fazer papel de besta... E sai batucando e cantando: "besta é tu, besta é tu"...

Mas a alegria da Academia do peixefrito se transforma em choro, quando lembra o rompante veto do prefeito Zenaldo Coutinho ao projeto de lei oriundo da Câmara Municipal, reconhecendo a dita cuja no patrimônio imaterial de Belém, de autoria do vereador Iran Moraes (igualzinho, praticamente, ao projeto do ilustre deputado Eliel Faustino, que joga com a bancada de apoio ao governo estadual)... Quando o vereador era do time azul e amarelo será que iriam vetar um projeto desta natureza? Terá sido um recado à velha moda "lei é potoca" manda quem pode?...

As alegações do veto do prefeito ao reconhecimento de uma manifestação cultural ligada ao Ver O Peso - cartão-postal de Belém em curso para ser declarado Paisagem Cultural Brasileira pelo IPHAN, tendo justamente a dita Academia popular como bem associado à referida paisagem - e que lembra nomes ilustres intelectuais da década de 1930, filiados ao movimento iniciado com a Semana de Arte Moderna de 1922, em São Paulo, poderiam até ter fundamento jurídico. Entretanto, politicamente portas fechadas ao diálogo não condiz com a propaganda de democracia e modernidade. Seria de espera encaminhamento civilizado da demanda desta confraria por via do poder executivo (mais precisamente, a Fundação Cultural do Município de Belém - FUMBEL). Uma atitude estranha do prefeito de Belém que contrasta com o entendimento do governador Simão Jatene ao sancionar as Leis 7.752 e 7.754, supracitadas. 

Um fato que a opinião pública não deve ignorar e que revela mal-estar num setor estratégico do chamado "desenvolvimento sustentável", no qual todos deveriam remar na mesma canoa a favor do Turismo como a famosa "indústria sem chaminés", criando emprego e renda. Que são o melhor remédio para combater a violência quando conjuminado à Educação e Cultura. Achar que a Academia do Peixe Frito só serve para se comer peixe e tomar açaí é opinião infeliz que demonstra ignorância ou preconceito...  Quando na verdade ela é uma bandeira que representa a especificidade da gastronomia tradicional paraense associada a ícones da nossa cultura, tendo à frente Bruno de Menezes (com ele a Negritude amazônica e o folclore do Ver O Peso com a abandonada festividade de Ossain cultuado sob imagem de São Benedito da Praia), Eneida de Moraes (a presença da mulher na Política e na Cultura), Abguar Bastos (intelectual orgânico da amazonidade a mais profunda), Tó Teixeira (mestre de nossa música de raiz), ficando por aqui...

Pois não? E agora, como é fica a cara de nossa política cultural? Quem está certo e quem está errado: o governador, que sancionou lei de iniciativa do Poder Legislativo sobre assunto de reconhecimento do patrimônio cultural. Ou o nobre prefeito que vetou projeto de lei em matéria de reconhecimento de patrimônio cultural imaterial sob alegação de que a Lei veda a iniciativa ao Poder Legislativo? A OAB-PA talvez poderia se manifestar?

domingo, 1 de dezembro de 2013

"vão vender o Ver O Peso" e a Academia do Peixe Frito vai de bonificação.


arte "naif" caboca (foto divulgação por blogue 'Encanto Caboclo' de Marli Braga Dias)

TUPY OR NOT TUPY
"fizemos Cristo nascer na Bahia ou em Belém do Pará"
(Oswald de Andrade, "Manifesto Antropofágico", 1928)
Muito medalhão moderno ainda "não sabe" do que se trata em realidade na tal "Academia do Peixe Frito"... Pensa ou faz pensar que lá só se vai comer peixe e tomar açaí, na verdade não sabem apesar da pose o que é patrimônio imaterial exatamente. A confraria em questão é uma manifestação na paisagem cultural do Ver O Peso na linha do tempo da Semana de Arte Moderna (São Paulo, 1922) a par do Clube da Madrugada (Manaus), na Amazônia. E daí? Para que serve isto? Como vender tal coisa pra turista ver?

Claro, é preciso que o vendedor, pelo menos ele, saiba o que vai oferecer ao comprador. A assessoria do prefeito Zenaldo Coutinho, por exemplo, que prontamente vetou projeto de lei da Câmara Municipal reconhecendo a supracitada manifestação, mas não tomou iniciativa até agora de baixar decreto no mesmo sentido, como diz que deveria ser; nem desconfia do que destratou.

E o célebre alcaide anterior Dudu rifou oportunidade de ouro de fazer de Belém cidade-irmã de Boulogne-Sur-Mer (França), patrimônio mundial da UNESCO e maior centro científico marítimo e pesqueiro francês. Já pensou o que se poderia fazer com a cidade-irmã, onde o aquário Nausicaa é vedete, promovendo nossa Academia do Peixe Frito? Claro que os jornais não publicaram nem uma linha sequer sobre isto. 

Tampouco, mencionaram que Belém poderia ter sido admitida, em 2011, como membro efetivo dentre uma centena de metrópoles no mundo, no congresso da Associação Mundial de Metrópoles de Porto Alegre (RS), a convite do governador da região metropolitana de Paris. Mas, quem pelo lado do exterior, se lembrou de abrir estas portas tomou chá de cadeira na FUMBEL e no gabinete do inefável Duciomar, é um grande amigo francês da APF desde a primeira hora de seu relançamento, em 2008. Participou de almoço de trabalho da APF, como é de costume, adido cultural da embaixada francesa em Brasília e sua esposa funcionária da UNESCO em Paris: com toda simplicidade e informalidade, como convém... De modo que, a aparente panemice belenense não é desconhecimento nem falta de oportunidade: mas algo bem pior ("a culpa é da mentalidade"...)


A EXPRESSÃO GEOGRÁFICA DE BELÉM

A canção-manifesto "Belém Pará Brasil", da banda Mosaico de Ravena, é marco duma proposta de política cultural descolonial que não sai dos muros acadêmicos para chegar junto ao povão embebido pelo tecnobrega e companhia limitada. 

Vemos na imagem acima que ilustra esta postagem pintura "naif" (ingênua) que nada deve, por exemplo, a uma Tarsila do Amaral, companheira de Oswald de Andrade. Esta que foi pintora e desenhista brasileira, uma das figuras centrais do movimento modernista brasileiro, ao lado de Anita Malfatti. Oswald escreveu o "Manifesto Antropofágico" em Paris... E o nosso mestre Eidorfe Moreira aprofundou sua obra sobre a geografia de Belém baseado no geógrafo francês Henri Coudreau, especialmente sobre a tese de "O avenir da Capital do Pará"... Nossa elite saudosista suspira as lembranças da belle époque lamentando a decadência de Paris n'América. Mas não recorda grande coisa da servidão nordestina nos seringais, nem se mostra capaz de encontrar alternativa ao extrativismo madereiro e mineral embora não se ache um único discurso que não fale num tal "desenvolvimento sustentável". Com se alguma coisa insustentável fosse desenvolvimento.

Por motivos óbvios os donos da província - em geral, paraenses de "coração" a bordo da galera da recolonização - elegem e deselegem "representantes" da cultura popular que lhes convenham e tomem a bênção até para dar traque... A utopia civilizadora de Coudreau visava construir uma ferrovia do porto de Belém do Pará até Valparaíso (Chile), unindo o Atlântico ao Pacífico passando pelo Tocantins e Xingu. Para isto, ele pretendia interessar o governo brasileiro a colonizar a Amazônia com um milhão de imigrantes italianos. Ideia curiosa, se tivermos em mente a colaboração italiana na Amazônia brasileira com Landi, Ermano Stradelli e tantos mais. E, cem anos depois, a recolonização através de descendentes de colonos no Sul e Sudeste...

Se não fosse iniciativa da Secretaria Municipal de Cultura de Cachoeira do Arari, em 2008, para comemorar o Centenário de nascimento de Dalcídio Jurandir, não se teria, por acaso, ressuscitado a Academia do Peixe Frito, morta de morte morrida, desde o súbito falecimento, em Manaus 1963, de seu organizador anarquista modernista poeta Bruno de Menezes.

É claro que a morte do poeta, em 1963, por si só não seria suficiente para enterrar junto com ele a APF. O que então conspirou para congelamento daquela confraria que reuniu a fina flor dos seguidores da Semana de Arte Moderna de São Paulo (1922) às margens do Guajará? Uma confraria onde nomes como Tó Teixeira, Eneida de Moraes, Abguar Bastos, Dalcídio Jurandir, Jacques Flores, Rodrigues Pinajé, Vicente Salles entre outros das décadas entre 1930 e 1960 pontificaram no Ver o Peso...

Bruno de Menezes foi poupado da tristeza de assistir acontecimento do Golpe de 1964 e emudecimento das vozes mais salientes da cultura Ajuricabana. Com a redemocratização estamos pelejando para fazer renascer estas coisas. Mas devemos reconhecer que não é fácil nem um pouco.