domingo, 27 de abril de 2014

DIA DE ALFREDO

imagem do chalé de Alfredo no romance "Chove nos campos de Cachoeira", de Dalcídio Jurandir (Ponta de Pedras, 10/01/1909 - Rio de Janeiro, 16/06/1979), onde o autor e seu alter-ego iniciam o ciclo Extremo Norte para descobrir o mundo através da educação em Belém do Grão-Pará. (copyright © Casa de Cultura Dalcidio Jurandir).

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INFORMAÇÃO IMPORTANTE
DIA DE ALFREDO / 16 DE JUNHO
 sarau 
Academia do Peixe Frito no mirante do Hotel Ver O Peso.

* neste ano de 2014 a confraria de amigos da ACADEMIA DO PEIXE FRITO está completando sete anos de criação informal (2008) para os preparativos do Centenário de nascimento de Dalcídio Jurandir (2009).

* em 12/01/2014 - aniversário de Belém do Pará - a confraria organizou-se sob nome civil de "Sociedade Amigos da Academia do Peixe Frito" (S.A.PEIXEFRITO) que, no momento, está em vias de concluir registro como pessoa jurídica. Esta entidade sem fins lucrativos será curadora do patrimônio cultural imaterial denominado ACADEMIA DO PEIXE FRITO formado por Bruno de Menezes e seus confrades, entre as décadas de 1930 a 1960, no Ver O Peso e deverá criar selo e logomarca exclusivos para certificação de atividades e/ou produtos sob sua chancela, conforme previsto em seus estatutos.

* como tal vamos solicitar, formalmente, apoio institucional da Secretaria Estadual de Turismo (SETUR), Secretaria de Estado de Cultura (SECULT), da Fundação Cultural do Município de Belém (FUMBEL) e da Coordenadoria Municipal de Belém (BELEMTUR) para parceria nos segmentos de TURISMO LITERÁRIO, CULTURA ALIMENTAR e ECOTURISMO DE BASE NA COMUNIDADE em especial através de ecomuseus, museus comunitários e associações de populações tradicionais e de usuários de unidades de conservação ambiental, tendo como objetivo promover a hospitalidade e desenvolvimento sustentável local da chamada "Criaturada grande de Dalcídio".

* expressão de gratidão da S.A.PEIXEFRITO ao parceiro Hotel Ver O Peso, em apoiar a fase inicial da confraria, tornando-se assim lugar de memória do relançamento da "Academia do Peixe Frito", o sarau ora programado presta homenagem aos proprietários e empregados do estabelecimento - a figurar desde já como ponto de roteiro do DIA DE ALFREDO e do futuro Ecomuseu do Guajará -, doravante "Mirante Ver O Peso de Alfredo".




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Do nascimento, no dia 10 de janeiro de 1909, do segundo filho de Margarida Ramos, jovem mulher negra solteira, provavelmente pouco letrada e desempregada, assistida nas dores do parto por parteira numa casa pobre do pequeno bairro do Campinho, na vila de Ponta de Pedras, ilha do Marajó; conforme declaração de Manuel Eusthaquio Ramos tio materno do recém nascido e registro do tabelião Raimundo Malato, com nome de Darcídio José Ramos. Até a morte, na cidade do Rio de Janeiro, dia 16 de junho de 1979, de Dalcídio José Ramos Pereira (nome civil averbado pelo pai Alfredo Nascimento Pereira, em reconhecimento de paternidade e casamento legal do casal ocorrido em Cachoeira do Arari); a vida do premiado romancista marajoara Dalcídio Jurandir é um extraordinário exemplo de constância à mocidade brasileira que não desiste de sonhar e lutar por melhores dias para todos na coletividade duma sociedade mais justa, livre e feliz. 

A honradez do pai, velho rábula de aldeia, o capitão Alfredo Nascimento Pereira; gráfico artesanal e editor interiorano da gazetilha "O Arary", aficionado pela leitura dos clássicos e fazendeiro de brisa na coleção da revista rural Chácaras e Quintais; mais a altivez de sua mãe, dona Margarida Ramos em buscar igualdade social sem preconceitos; modelaram o caráter do maior romancista da Amazônia, Prêmio Machado de Assis (1972) a par do filósofo Benedito Nunes (2010), até hoje únicos intelectuais amazônicos com tal distinção da Academia Brasileira de Letras (ABL), concedida ao conjunto da obra. Não é pouca coisa para um mulatinho sem eira nem beira, vindo de berço tão pobre; que, a cabo do tempo, com engenho e arte deu vida à criatura do extremo norte, Alfredo

Eis que, na incrível coincidência do 16 de junho, entre a morte de Dalcídio Jurandir e o Bloom's Day de Ulysses de James Joice; a gente resolve sair da beira da história e do canto da feira para ir cantar de galo sem esperar mais pela alta recreação e boa vontade dos donos da festa. Os 400 anos de Belém do Pará ou Belém da Amazônia, vem aí: queremos o DIA DE ALFREDO já! O turismo literário é o que interessa para dar notícia da Criaturada grande de Dalcídio, na paisagem cultural do Ver O Peso, no mundo lá fora. 

Passado o centenário de nascimento do criador de Alfredo, em 2009, reativada a velha academia do peixe frito de Bruno de Menezes, Eneida de Moraes, Abguar Bastos, Tó Teixeira, Rodrigues Pinajé, Jacques Flores, Raul Bopp, Vicente Salles e Dalcídio Jurandir, certamente, além de tantos mais dos primeiros tempos da revista Belém Nova, até a morte do pai da negritude e modernismo no Pará ocorrida em Manaus, 1963; chegamos nós ao ponto certo de formalizar a futura Sociedade de Amigos da Academia do Peixe Frito, que deverá manter viva a velha chama dos Vândalos do Apocalipse, depois Grupo do Peixe Frito e, finalmente, Academia do Peixe Frito.

No rio da vida nosso velho tio Dal se extinguiu - "Dalcídio" - com o última suspiro, mas ele continua vivo em nossas vidas. Rei morto, rei posto. Viva Alfredo! Sucessor imortal daquela vida luminosa cujo brilho agora sua cria leva mundo afora. Farol de navegação em noite escura para travessia da Criaturada grande da margem da história à plena cidadania pelos caminhos da pedagogia da libertação.  Penso eu em Paulo Freire, é claro, como portador da notícia do DIA DE ALFREDO a todos e a todas que ainda não sabem ler nem escrever.  Mas, também ouço o batuque que vem da noite da Martinica com notícias do Amado Cesário e a negritude além da melanina, com Leon Damas da Guiana, Fanom, Senghor e tantos mais...

Portanto, uma luz na escuridão da colonialidade na senzala moderna que não deixa raiar a primeira manhã depois da primeira noite do mundo. Os muitos sumanos marginalizados e impedidos da leitura de seu maior escritor e dos outros libertadores do pensamento. Se a sua mãe dona Margarida e o tio Manuel Ramos o batizaram "Darcídio" acompanhado do José de um outro tio, comum naquela família afroamazônica; o pai capitão Alfredo Nascimento Pereira, entretanto, versado na invenção de neologismos civilizados adoçou o nome do filho em "Dalcídio". Porém, o próprio atingindo a maioridade, preferiu chamar-se Dalcídio Jurandir como ficou conhecido em todo país e mundo afora.  Jurandir significa “boca de mel”, “o que fala palavras doces”... Tem origem no tupi jurandira, pela junção de jura, que quer dizer “boca” e ndieira, “abelha de mel”. Foi, ao que parece, um nome inventado pelo romancista José de Alencar, para uma das personagens da sua obra “Ubirajara”, publicada em 1874.


DIA DE ALFREDO:
pacto da literatura pela alfabetização.

Tudo vale a pena se a alma não é panema. Como querem nossos escritores ser lidos e recepcionados condignamente se o distinto público for em grande parte analfabeto de pai e mãe, analfabeto funcional ou, pior, analfabeto político? Trata-se da economia, estúpido! Diria um conhecido político peso pesado. Pois é certo que a economia do livro e dos meios alternativos de comunicação como a internet é o motor de arranque, que põe em marcha o grande veículo econômico da educação para o desenvolvimento humano sustentável dos tempos modernos.

Para aprender a ler e escrever, vale tudo... Há que se aprender a ler o céu e a terra, descobrir os sinais da chuva e o tempo de verão. Aprender a escrever que nem a pintura rupestre em páginas de pedra nas abas da serra. A escrita ideográfica com sua mensagem de milênios na cerâmica marajoara, tapajônica, maracá... Até o segredo dos átomos e o movimento das marés ou a rota das galáxias no universo. Tudo isto teve começo na escrita das areias do deserto na marcha das caravanas e na historia oral à luz das fogueiras no longo passado da humanidade filha da animalidade.

Mas, doravante, para avançar urge preservar todas escrituras do mundo em letra de forma seguras em arquivos públicos e depositadas em liberdade na nuvem de inteligência coletiva perto das estrelas. Quem não souber ler e escrever não apenas ficará à margem, mas absolutamente fora da História para sempre.

A ideia do DIA DE ALFREDO, em 16 de Junho à imagem e semelhança do dia de Leopold Bloom; para ler o romanceiro dalcidiano e promover o turismo literário; é uma chamada para contemplar a Criaturada grande de Dalcídio na paisagem cultural da Amazônia marajoara, de Belém a Macapá rumo a Porto Caribe.
Na Irlanda, todos os anos em 16 de junho, o país para e celebra Leopold Bloom, personagem de Ulysses, a ficção escrita por James Joyce, que marcou a história da literatura mundial. 

Não é apenas uma celebração, mas um evento de economia criativa. No país que se chama Pará, o DIA DE ALFREDO deverá ser ademais compromisso com a educação popular levando ao engajamento de novos alfabetizados livres das cadeias da exploração das necessidades dos mais pobres pela educação de seus filhos e netos através da leitura em todas escolas - notadamente no maior arquipélago fluviomarinho do planeta - a singular história de Alfredo em busca da escola na cidade grande.

Minha pátria é minha língua”, Fernando Pessoa.

A língua portuguesa do Brasil brasileiro, com certeza (rica de africanidade e a inalienável herança das mil e uma línguas do rio Babel a ser resgatada a bordo da nau da amazonidade, chamada Nheengatu, pelo dedicado estudo da juventude). Para Alfredo não há fronteiras no tempo e no espaço. Ele será capaz de levar com o carocinho mágico de tucumã o chalé do "Chove" para ilharga do Museu do Marajó, perto da Fazendola e da árvore Folha-Miúda plantada no arboreto do padre Gallo, o marajoara que veio de longe para se naturalizar, de tal modo, que ele enterrou os próprios ossos na terra que o acolheu.  

O Brasil e o mundo precisam saber. Com esta notícia, viajantes do mundo hão de ter um motivo a mais para vir conhecer Marajó. Quando a história claudica, a memória fabrica lendas como senhas que levam ao mapa de um tesouro escondido. Deste terreno misterioso surte-se a cultura. O convite que fiz a Saramago, na "Novíssima Viagem Filosófica", para visitar cidades no Pará com nomes portugueses, segue roteiro da "Viagem Philosophica" de autoria do sábio Alexandre Rodrigues Ferreira, este naturalista começou sua viagem à ilha do Marajó por Joanes (Salvaterra) e a terminou em Cachoeira do Arari.

Hoje o turismo literário na ilha do Marajó seria um modo de apressar a viagem do socorro à obra de Giovanni Gallo. Talvez alguns viajantes do mundo tivessem a notícia do Museu do Marajó e quisessem vir até Cachoeira conferir o potencial do turismo como instrumento de desenvolvimento humano para o povo marajoara, querendo ser solidário com esta gente.

O mesmo turismo literário que poderia recuperar a casa de Dalcídio Jurandir tombada ao chão. A ideia de unir esforços em torno dos dois maiores nomes da cultura marajoara foi para o brejo no inferno verde das boas intenções e assim a velha casa de Dalcídio virou fantasma navegando as águas do dilúvio, como os olhos mortos de Eutanazio vagando na escuridão da noite nos campos de Cachoeira... 

O lendamento do padre dos pescadores não demorou após sua morte. Segundo relato não confirmado, certo dia um estranho visitante entrou mudo e saiu calado do museu só abrindo a boca diante do retrato do falecido no salão de reunião, dizendo ele, alto e bom som, "este padre noutra encarnação foi um grande cacique marajoara"... Feita a mágica revelação que faria inveja a Gabriel Garcia Marques, o desconhecido desapareceu da cidade sem deixar traços.

Além desta fantástica notícia, começaram timidas especulações populares sobre poderes milagrosos atribuídos ao "homem que implodiu", o que faz dele um potencial beato a modo do padre Cícero Romão Batista no sertão de Juazeiro. Nada mal para um padre rebelde que em vida gostaria de ser santo depois de morto. Visto isto pelo ângulo da merecendência do céu, acho até que São Giovanni marajoara ficaria melhor na foto canônica que São José de Anchieta aos olhos dos descendentes de índios cristãos feitos presas fáceis a bandeirantes medonhos.

São Giovanni do Arari, pelo menos, fez o milagre de criar o Nosso Museu do Marajó a partir de simples objetos bizarros, como o bezerro de duas cabeças, por exemplo, na pequena e distante Santa Cruz do Arari à beira do lago Arari plantada junto ao berço da extinta civilização marajoara de 1500 anos de idade. Aí, por acaso, "cacos de índio" que o caboco Vadiquinho lhe confiou a título de provocação, conforme se lê na obra "Motivos Ornamentais da Cerâmica Marajoara", viraram patrimônio material e imaterial do nascente ecomuseu do homem marajoara. 


Além do criativo "Motivos Ornamentais", que salvaguarda o grafismo original copiado dos ditos cacos de índio para aplicativo em artesanato como incentivo a geração de renda familiar; o padre dos pescadores do Arari escreveu também o livro-reportagem "Marajó, a ditadura da água" e a autobiografia "O homem que implodiu". Até aí, tudo bem para se fazer um turismo inteligente com a cara da gente marajoara, contando com a hospitalidade desta mesma gente a ser melhor cultivada.

O diabo é que as pessoas que mais carecem ler o que o índio sutil Dalcídio e o padre Gallo dos pescadores escreveram, para saber do que se trata e entrar no processo dito do desenvolvimento sustentável; são analfabetos de pai e mãe e ninguém se lixa para os ensinar a ler e escrever. Como, por exemplo, Paulo Freire faria. É dizer a boa academia curte o admirável Dalcídio Jurandir e o extraordinário Giovanni Gallo, mas a criaturada grande que lhes deu inspiração fica na mão quando de trata de educação. Então, o maravilhoso produto turístico que faria do Pará uma Costa Rica amazônica, fica só na imaginação de uns poucos sonhadores.

Todavia a trilogia do Gallo explica as razões excepcionais pelas quais o incrível museu foi criado no lugar menos indicado pela museologia. Ela é uma obra necessária à introdução a um ecoturismo educativo com base na comunidade. O qual, incontornavelmente, se deve praticar no polo Marajó a partir de Cachoeira do Arari, tendo por guia principal Alexandre Rodrigues Ferreira, o naturalista de Coimbra, famoso pela "Viagem Philosophica" (1783-1792) iniciada exatamente pela "Notícia Histórica da Ilha Grande de Joanes, ou Marajó" (separata da Viagem Filosófica, cujo fragmento se lê adiante).

É fato que "o homem que implodiu" na ilha do Marajó, para ser fiel à missão humanitária que sua consciência ditou, teve que pisar no pé de muita gente cega daquela grave cegueira, que outro incompreendido jesuíta da época da invenção da Amazônia portuguesa, no século XVII, o célebre payaçu dos índios, Antônio Vieira, verberou no Sermão aos Peixes, em São Luís do Maranhão (1654), a caminho de Lisboa onde foi suplicar ao rei a lei de 1655, abolindo os cativeiros dos índios do Maranhão e Grão-Pará.

Os turistas ficam arredios quando sabem que, ainda hoje, no Brasil e notadamente no Pará; não são poucos casos de trabalho escravo, com municípios ultraperiféricos vegetando em mísero IDH, enquanto a pequena burguesia local com sua oligarquiazinha e representantes eleitos são geralmente acusados de má gestão e dilapidação da coisa pública. Por outro lado, o número de analfabetos é alarmante em contraste com o aumento galopante da violência e do crime organizado, que aproveita a necessidade alheia casada com ignorância de muitos.

Então, se explica por que poucos cabocos se reconhecem descendentes de velhos Nheengaíbas e sabem eles ler e escrever mais ou menos, tal qual o índio sacaca Severino dos Santos, sargento-mor de Monforte; que Alexandre Rodrigues Ferreira encontrou naquela dita viagem filosófica. A leitura atenciosa da obra de Dalcídio mais os livros do Gallo mostra o por quê do sui generis museu causar tanta admiração a visitantes, mas não ser contemplado pelas políticas públicas como deveria ser, e também os motivos pelos quais tão interessante trabalho com caráter inegável de ecomuseu não consegue atravessar o Arari e chegar às mais comunidades ribeirinhas, em mil e tantas ilhas, dos dezesseis municípios da mesorregião.

É claro que o mundo acadêmico ouviu falar muito bem deste museu estranho inventado por um diletante, mais aprendiz que professor. Muitas vezes, o pesquisador diplomado ouviu o Gallo cantar mas não sabe onde. O melhor intérprete que o povo marajoara já teve, com reconhecimento de ninguém menos que Dalcídio Jurandir, em intensa correspondência entre as cidades grandes de Belém e do Rio de Janeiro, graças à fiel amizade da filha de Bruno de Menezes, Maria de Belém Menezes.

O museu do padre é para se "ver com a ponta dos dedos": estamos todos cegos de tanto ver e não entendemos grande coisa... Por isto, através de Maria de Belém, Dalcídio sugeriu a Giovanni Gallo: selecione suas reportagens publicadas nos jornais e faça um livro (cf. "Marajó, a ditadura da água"). Vá que, agora, o azar que aflige a brava gente leve a leniência das autoridades a tombar, ao pé da letra, o museu do Gallo da mesma maneira como foi tombado o chalé de "Chove nos campos de Cachoeira" e de "Três casas e um rio"! ... O glorioso São Sebastião nos livre e guarde!

Salvou-se, virtualmente, o chalé de Alfredo da incúria dos homens e do rigor do dilúvio cachoeirense graças ao romance dalcidiano. Mas, se o museu do Gallo for entregue à própria sorte sobrecarregando a uns poucos abnegados voluntários até esgotá-los? Serão, Deus não queira, o chalé e o museu como repetição da destruição dos tesos entre chuvas e esquecimento? Último recurso de sobrevivência: a leitura dos livros de Giovanni Gallo e romances de Dalcídio Jurandir, completados por João Viana e outros mais que beberam na mesma fonte. Turismo literário pra que vos quero?

Antes que tudo, uma cartilha de Alfredo para iniciar a meninada das escolas a trilhar os caminhos da hospitalidade e da boa convivência pela leitura dos livros a servir de guia do descobrimento do mundo marajoara biodiverso culturalmente original. Segundo, a fim de provocar analfabetos políticos a abrir os olhos sobre a tragédia do IHD deste povo descendente da primeira cultura complexa da Amazônia, herdeiro dos criadores da arte primeva do Brasil (a cerâmica marajoara pré-colombiana espalhada em grandes museus nacionais e estrangeiros, que poderiam nos ajudar caso estivéssemos capacitados a receber esta ajuda técnica, com possibilidade até de sonhar com algum repatriamento).

Mas, o turismo qualquer que seja a modalidade, sem o devido preparado e educação tecnológica é, por certo, morte da galinha dos ovos de ouro. Fica aqui meu grito de alerta, eu disse a palavra mais certa e o DIA DE ALFREDO pode ser o segredo que abre a porta para o desenvolvimento humano desta gente.

Eu sou apenas um engajado da causa da Criaturada grande de Dalcídio... Sei, por isto, que o romancista agnóstico e o jesuíta insubmisso fazem parceria eterna pela recuperação da memória desta gentinha. Quando Marajó desencanta? A resposta aguarda nossa ação. O Marajó pode desencantar o turista que vem esperando maravilhas e bate de cara com uma realidade chocante... Ou o Marajó desencantado de mitos e lendas da cobragrande, poderá encantar os visitantes desde a descoberta iniciática do portal do Museu do Marajó: onde cada um, ao descobrir a antiguidade da Amazônia marajoara, desperta para o afeto desta terra molhada de suor e chuva tornando-se dela a mais nova peça de coleção dos amigos do Marajó profundo. (José Varella Pereira).

sexta-feira, 25 de abril de 2014

pra não dizer que não falei de flores: cravos de Portugal, rosas do Brasil.




Grândola Vila Morena

Zeca Afonso

Grândola, vila morena
Terra da fraternidade
O povo é quem mais ordena
Dentro de ti, ó cidade
Dentro de ti, ó cidade
O povo é quem mais ordena
Terra da fraternidade
Grândola, vila morena
Em cada esquina, um amigo
Em cada rosto, igualdade
Grândola, vila morena
Terra da fraternidade
Terra da fraternidade
Grândola, vila morena
Em cada rosto, igualdade
O povo é quem mais ordena
À sombra duma azinheira
Que já não sabia a idade
Jurei ter por companheira
Grândola, a tua vontade
Grândola a tua vontade
Jurei ter por companheira
À sombra duma azinheira
Que já não sabia a idade


ATITUDE POPULAR 25 DE ABRIL
 DO ESTADO DO PARÁ DO BRASIL SENTINELA DO NORTE
PARA DESCOLONIALIDADE DA NAÇÃO BRASILEIRA


Há 40 anos, em Portugal, a canção patriota de Zeca Afonso, “Grândola, Vila Morena” foi senha da Revolução dos Cravos. O povo fardado e paisano deu-se as mãos nas ruas coroando as armas da nação portuguesa de flores. Assim, na exemplar batalha pacífica tão rara no mundo, o Povo deu fim a uma das mais caducas ditaduras que já houve na Europa.

Ao som desta voz potente as distantes colônias portuguesas em África deram eco à revolução apressando o parto da história. As dores do parto da independência se manifestaram em Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique e São Tomé e Príncipe, países irmãos que ainda hoje lutam por uma verdadeira independência e plena descolonização. E nós, aqui, no país que se chama Pará - periferia da Periferia - como é que ficamos?

O Brasil em 7 de Setembro de 1822 deu o famoso grito do Ipiranga. Dizem os historiadores, que este grito foi antes para abafar gemidos da Inconfidência de 1789 e apagar assim a memória do Mártir Tiradentes que inflamava espíritos republicanos do Brasil cem anos depois do seu cruento e inominável sacrifício determinado pela coroa de Portugal contra um brasileiro súdito seu. A independência do Brasil foi logo seguida pela adesão do Pará e Maranhão. As duas colônias portuguesas na América deram adeus ao velho regime de Portugal, sem de fato o Povo Brasileiro alcançar a liberdade que desejara. 

Esta tremenda contradição acompanhou todo período histórico de nossos dois imperadores, pai e filho herdeiros do trono português sem nenhuma dúvida. Tardia foi a nossa Abolição da escravatura, em 13 de Maio de 1888: quando isto aconteceu o império caiu de pobre e sem mais delongas foi proclamada a falseta da Republica de 1889...  Por seu turno esta caiu de podre na Revolução de 1930 e o povo brasileiro foi chegando com altos e baixos à modernidade. Então, a Ditadura de 1° de abril de 1964... E até hoje o Pará é campeão em números registrados de trabalho escravo e desmatamento da Floresta Amazônica...

A Revolução dos Cravos apanhou o Brasil na contramão atrapalhando o trânsito da democracia no mundo que o português (leia-se a língua de Camões) fez além “Mar Portuguez” de Fernando Pessoa.

E nós com isto? A Amazônia portuguesa com certeza conquistada pelas armas combinadas de soldados lusos desterrados, mamelucos nordestinos e bravos guerreiros tupinambás, mais bandeirantes façanhudos e missionários desvairados; se fez brasileira para além da linha de Tordesilhas rio acima e sertão adentro por muitas léguas até topar os contrafortes dos Andes e parir da cobra grande Amazonas o "uti possidetis" real de 1750.  

Mas o leitor não sabe do que trata esta doutrina de direito romano, fundamental para defesa dos direitos soberanos do Povo Brasileiro na Amazônia? Nem imagina como, de fato, este direito foi conquistado ao longo do espaço e do tempo? Com efeito! Se o amigo que sabe ler e escrever não pode responder a esta questão, muito menos poderão dizer algumas coisa, além de oferecer suas próprias vidas em defesa do antigo chão de seus antepassados, milhões de brasileiros analfabetos funcionais e políticos que não podem nos acompanhar nesta prosa...

Mas, a falta de leitura a respeito da sofrida desilusão da Adesão pariu a tragédia neocolonial do genocídio amazônico a fim de reprimir a vontade popular manifesta no movimento à adesão para independência brasileira, de 14 de Abril de 1823. Um pacto pela educação da Criaturada grande de Dalcídio seria forte coisa tendo o primeiro passo na erradicação do analfabetismo de adultos nas regiões amazônicas levando ao engajamento destes novos alfabetizados livres das cadeias da exploração das necessidades dos mais pobres pela educação de seus filhos e netos através da leitura de uma cartilha ilustrada, lida em todas escolas do maior arquipélago fluviomarinho do planeta com a história de Alfredo, por exemplo, em busca da escola que não havia no lugar, através do êxodo rural rumo à cidade grande.

O Pará do Brasil sentinela do Norte atravessou as últimas décadas já não mais sob tacão do antigo império anglo-lusitano do Rio de Janeiro. E, para falar a verdade, ainda sofre muitas frustrações causadas pela imperfeita República Federativa do Brasil de 1988. O desafio da lusofonia há que ser compartilhado de uma maneira mais larga, por 200 milhões de falantes de português, com o pacto pela educação para o progresso democrático sustentável da Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP) livre da colonialidade de nossas respectivas elites reacionárias que desmandam as metrópoles.

Minha pátria é minha língua”, Fernando Pessoa.

A língua portuguesa do Brasil brasileiro, com certeza (rica de africanidade e a inalienável herança das mil e uma línguas do rio Babel a ser resgatada a bordo da nau da amazonidade, chamada Nheengatu, pelo dedicado estudo da juventude brasileira). O povo é que mais ordena, terra da fraternidade.

dedico ao estudante João Victor, meu filho que faz aniversário neste dia.

domingo, 20 de abril de 2014

uma estória de caboco em roda de conversa com Gabo em Macondo



O homem que assoviava mentiras


Esta eu fiquei devendo ao compadre Amadinho – disse Liduíno do Boi – que me convidou a visitar São Caetano pra ver o boi Tinga dançar no festival do caranguejo... Ótima oportunidade pra Vilarana e São Caetano fazerem as pazes: todo mundo sabe que se não fossem os bons-ofícios da ONU e as rezas do Papa as duas comunidades teriam, paresque, declarado não exatamente nova guerra de Tróia, masporém a guerra dos Bumbás (dez vezes pior que a rivalidade dos bois de Parintins ou a querela do festival da tribos de Juruti, mais perigosa que a Cabanagem, paresque...). Foi o seguinte. A turma de pescadores ditos da Vigia (na verdade de São Caetano), todos anos atravessa com barco à vela ou motor-pupupu trezentos e tantos quilômetros, de lés à lés; a boca do rio Amazonas desde a ponta da Tijioca ao cabo Norte: só pra pescar gurijuba...

Caso de honra. Não adianta a tainha, a serra, corvina, pescada amarela, gó em quantidade, sarda e tantos outros peixes de curral na beirada. Pescador macho tem que ir lá fora passar do Norte pra lá... Pescador que sabe como é carece ser, paresque, filho da gurijuba, bagre amarelo de água salobra do largo rio costeiro que corre dentro do oceano com a vasa do Amazonas adoçando o que era sal puro tingindo de barro o azul marinho ou verdes mares bravios. Peixe mui apetitoso cá no Pará salgado pra caldeirada na vinagreira com legumes, E lá nas Guianas defumado especial, inclusive pra sanduíche a se comer com cerveja gelada na praça das palmeiras em Caiena – o BBB avisa. A bexiga, mais que o próprio peixe, vale ouro como grude mandada até a China... Tu jura? – admirou-se Emérito.

E a aba de tubarão? – indaga o Casemiro Martins. Tá assim de comprador pra mandar pro Japão, diz-que lá fazem sopa que levanta até defunto... Tubarão dá no cardume de gurijuba e estraga um bocado... Pescador colhe espinhel e só vem cabeça de peixe atorada... Ah, diacho! – resmunga Raimundão em riba do baeléu de popa, a canoa jogando à beça, e ainda por cima o baita prejuízo. Ele grita ao cozinheiro – haja cozinhar jurumum e joga quente dentro d'água pro tubarão... Agüenta, corno!... Panelão no fogão à lenha na proa da canoa, popocando; jerimum rachando de quentura. E zás! Lá vai fogo! Jerimum quente despejado ao mar, o trabalhão medonho em risco do moleque proeiro se escaldar com água quente, a onda jogando a canoa em riba da maresia. Jerimum quente bate n'água, faz tepei! Pronto. O bicho vem ligeiro e engole direto: a quentura do jerimum espoca o bucho (lá dele!). Antão, deixa tubarão estuporado boiar, primeiro a galha aparece fora d'água; aí o corno revira de bucho pra riba e já o Raimundão fisga e pega faca peixeira afiada, corta as barbatanas do peixão fazendo a conta do ganho... Quem manda levar gurijuba do anzol, hem seu pirata? O resto do tubarão vai embora boiando pra outros peixes comer, não dá pra aproveitar tudinho a bordo sem roubar espaço de carga da gurijuba... Larga gurijuba, tubarão! E deixa aba pra pagar o prejuízo.  A ver como o mundo é jito – diz o Emérito – nós aqui pescando gurijuba pra dar sopa a chinês e aba de tubarão pra japonês ficar arretado. Olha lá!... Nós, Emérito? – indaga o poeta Janjinha – nós aqui jogando conversa fora e pescando brisa... O Casemiro Martins: eu queria ver era o açaí vendido a dólar!... Por isso não, retruca o doutor Ophir, já tem americano comprando...

Aquilo outro da gente da costa do Pará ir pescar lá fora é coisa muito antiga. Mais velha até que a tropa de guarda-costa mandada barrar inimigos à entrada do Amazonas com o comandante Francisco de Melo Palheta na proa homem-bom da vila da Vigia. Do qual fado de índio tupinambá remador cativo da Casa das Canoas; resta, paresque, uma sina que habita a alma dos pescadores do Salgado. Desde o tempo da rixa velha entre tataravós nheengaíbas e tupinambás, hoje em dia mais extintos que dinossauros noves fora o grupo folclórico Nuaruaques, o sonoro elétrico Tremendão Tupinambá e o carismático cacique Pena Verde vindo não se sabe de que aldeia do além descer em terreiros da Mina, searas de umbanda, centros espíritas em transe e ainda pregar um susto danado em Raimundão certa noite, quando este um veio meio pau meio tijolo chegar em casa a horas mortas... Um verdadeiro e imortal cacique brasileiro não esquece seu povo, nem depois de morto, há trezentos e tantos anos. Que nem o rei dom Sebastião não deixa pescador dos Açores morrer sozinho disperso pelo mundo.

Basta dizer deste antigo fado das gentes da Vigia que o capitão Palheta, que Deus o tenha! – rezou Emérito; levou à divisa do Oiapoque a guarda-costa do ano de 1723 ou 24, buscar vivo ou morto o tuxaua Guaiamã dos Aruãs e Mexianas, pelo bom motivo que este um fazia contrabando de armas e munições em Caiena a troco de índios escravos dos portugueses pra levar adiante a guerra velha...Os brancos de cá e os brancos de lá ceguinhos de mãos atadas não fossem indios e pretos labutar... Não sabiam porra nenhuma, masporém aproveitavam a desavença dos índios. Isto sim eles sabiam pra caramba, guerra canibal começada Deus sabe quando e onde; desde a hora que o primeiro come-gente tupi meteu o pé na terra dos Tapuias, tamuia, tapuia, tamoio... tamu, povo-avô dos Brasis – Quinquinhas ensinou; e vingava, paresque, o cacique do Marajó a paz traída do rio dos Mapuás pelos homens-bons do Pará, quando estes uns expulsaram e deram ponta pé na bunda do payaçu Antônio Vieira, em 1661. O homem-bom vigiense virou herói nacional, não porque ele, Palheta; tenha preso o tuxaua bandoleiro do Marajó e afastado o perigo dos traficantes de escravos franceses, masporém porque furtou o café de Caiena – tomou emprestado – o BBB corrige e Quinquinhas ensina que o dito café do Palheta antes foi roubado do Suriname pelos franceses... Eita, estória complicada do Norte velho de guerra! Adonde o roubo da cabeça do Resolvido e posterior invenção do boi Tinga vieram se meter, contada e assoviada por seu Homero Patativa, caboco do povoado Mucajatuba. Começada, diz-que, no tempo do ronca, duma banda a outra, do Maranhão até o Orenoco; entre tupis e nuaruaques... Antes mesmo que os brancos viéssem aumentar e os pretos a aturar a confusão. Haja Deus! – gritou o ressentido poeta Janjinha, com ciúmes da pequena – mas, o padre Salvador do Rosário fora de Vilarana!...

Um pirralho quando nasce naquelas beiradas já sabe, paresque desde jitito mamando no peito de sua mãe e depois por conta do caldo de cabeça de gurijuba e estórias da avó, que só vai ser homem feito considerado pescador de primeira se ele for, pelo menos uma vez, à pesca da gurijuba no Norte. Tal qual a sorte do bisavô, do avô, do pai e dos tios.... Esta gente vive atrás de cardume de gurijuba como se fosse a sorte grande. E por esta sina chega às vezes às ilhargas de Caiena nos rastos do patriarca Palheta, sargento-mor da Guarda-costa e contrabandista de cafe; quando se atravessa a baía do Oiapoque e passa por fora do monte da prata, diz-que d'Argent; quase sempre se vai fundear a canoa na boca do Aproaga; compadre Raimundão chama rio Puruaca que nem os pescadores brasileiros e lá os franceses dizem Aprouague – esclarece o atento BBB, Bento Benedito Barbosa, seu criado... Prova de que esses caminhos ribeirinhos são de origem aruaque, diz Quinquinhas (aliás dr. Joaquim Galício) sem que ninguém na casa da beira lhe tenha dado atenção (agora dr. Joaquim, aliás o filho do Agripino e Adélia; pode compreender e urge falar à professora Magda; que os regulamentos que os governadores do Maranhão fizeram às tropas de guarda-costa não podiam ser conhecimento expedito dos próprios portugueses, mas sim um extrato de confessionário das aldeias das missões. Pra você ver a manha dos padres – diz o poeta Janjinha, com verdadeiro ciúme do confessor da bela Paquita. Apropriação subreptícia pelos brancos da sabença de velhos guerreiros tupinambás catequizados e nuaruaques cativos na Casa das Canoas, obtido da mestiçagem das tropas de resgate, conforme usos e costumes antigos de botar capelão embarcado a rezar missa e novenas de Nossa Senhora do Tempo antes de soltar o cabo das canoas e dar nos remos, pastoreio de corpos e espíritos do gado humano. Verdadeira invenção das amazônias pelas beiras da estória-geral...

Da foz do Aproaga o pescado fresco pegado pelo pessoal da ilha Maracá, Bailique, Vigia, Chaves e Soure, diz-que todos eles clandestinos desde meninos na própria casa de seus pais; passa às mãos de marreteiros brasileiros de Caiena com carta-de-seju. Estes uns já sabem como são as modas, pois comeram o pão que o diabo amassou sem passaporte: andam na linha e são eles que vão buscar o peixe na beira pra revender aos compadres crioulos donos de talho no mercado da beira do dique Leblond. Dai em diante a taínha se chama parreci, a pescada amarela acupá, o filhote vira torche, a gurijuba manchuarron-jaune atravessa a praça do Galo e chega ao mercado pra dar brilho a pratos bacanas em restaurante chinuá. Mais longe d'água o preço do peixe fica salgado e a porção diminui... Tudo gira em torno da base de Kurru quando decola pro espaço um foguetão daqueles. E assim serão felizes pra sempre os pescadores do cabo Norte. Esta gente malandra que consegue, diz-que fácil-fácil; larjant pra trazer pra casa com a grude e o peixe salgado contratado no comércio da Vigia a certeza de que no outro ano vai estar de volta, até quando Deus quiser... Eu queria que vocês fossem passar uns dias com um compadre meu chamado Françuá, lá em Kurru – declarou BBB – pra saber se eu tô falando certo ou inventando estória...

O pessoal da Vigia (na verdade, São Caetano) não se queixa de nadinha: haja saúde, gurijuba e compadres com larjant na praça de Caiena (o resto é pavulagem, masporém não sabe que se falhar foguetão em Kurru a coisa fica preta...). Na volta pra casa no fim da safra vêm abonados e farreando sempre que podem. Vão desviar caminho e se meter em improvisadas festas nas ilhas, que aqui a gente chama mucura. Isto é, festa arranjada de repente sem frescura, de repente. Os cornos, paresque, nunca tinham visto boi-Bumbá... Uma vez, por acaso, toparam com o Resolvido que foi dançar em Cachoeira na festa do glorioso São Sebastião. Filhos da mãe! – Liduíno esbraveja – na hora que o boi foi se esconder atrás do mato, quando o tripa saiu de baixo e foi tomar uma dose... O pessoal da pesca aproveitou o enredo do roubo e arrancou a cabeça do boi, meteu debaixo do braço e saiu de carreira no rumo do porto...

Aí foi uma merda! Pai Francisco e mãe Catirina (personagens do Bumbá) injustamente acusados de ser ladrões de gado, passaram mau pedaço na peça... Quando acaba, pajé e tribo de índios de faz de conta, delegado mais o amo Liduíno, vaqueiros metidos dentro de cavalinhos de miriti enfeitados de fitas coloridas e chapéus com espelinhos encrustados e tudo mais, foram achar o animal de estimação dentro do mato, degolado... O tripa, a chorar de raiva, que nem bezerro desmamado berrava e esguichava lágrimas de arrependimento por ter ido tomar cachaça deixando o Resolvido no mato sem cachorro; o corno destilava cachaça por todos os poros... Puta merda! Esta patifaria não estava no enredo. Os ladrões da cabeça do boi, velas cheias com vento em popa no rumo da Vigia, Credo!... estavam fora de alcance, lá no meio da baía. Com a afrontosa notícia da morte do boi antes do fim do folguedo, espalhada pela poderosa rádio cipó todo Curralpanema ficou em pé de guerra. Deixa estar, que lá no outro lado do Pará, entre grudes de gurijuba ensacada e arrobas de peixe salgado, a cabeça degolada do Resolvido na proa da vigilenga, num ar de espanto, espiava com seus olhos de vidro a enorme confusão de gente no porto como à espera de uma notícia sem precedentes.

Mas, que porra!.. Por que diabos vocês fizeram uma sacanagem desta? – berrou Raimundão com a mão segura na cana do leme, enquanto os camaradas arreavam a vela vinham de chegar numa vigilenga chapada de peixe salgado do Aproaga depois de três meses de safra. Assim, o piloto deu com o espetáculo que juntava gente no porto. O que era aquilo? Um peixe-boi atorado ao meio? A cabeça do Resolvido degolado espiava, espiava... Paresque um modo estúrdio, tanto podia ser que nem cachorro com rabo entre as pernas ao passar no terreiro vizinho ou, quem sabe, ameaça de tremenda vingança como aquelas antigas do tempo dos índios; que não sossegavam enquanto não quebrassem cabeças e comessem fígado do inimigo assado no moquém, que Deus o livre...

Compadre Amadinho foi ao porto e Raimundão o chamou a um particular, falando baixo: espia só o que estes sacanas fizeram com o boi de Vilarana... Mas, que merda, caralho! – Amadinho sentiu cheiro de pólvora no ar. Por menos disso, antigamente, o pau chinchava... Deixa estar que o pior que podia acontecer era dar sumiço à cabeça do boi sem mais nenhuma consideração à nobre origem vilaranense. Era melhor chamar algum entendido pra aproveitar a cabeça e fazer um novo bumbá. Pois foi o que aconteceu e desse jeito nasceu o Tinga, paresque. Só que em vez de imitar os outros, Raimundão disse, aquele boi de Vilarana paresque é galinha. Reparem que tem só um tripa e um par de pernas... Os outros falaram, é isso mesmo, mano velho; boi de verdade tem quatro patas, vamos meter dois tripas pra fazer quatro patas do Tinga. Tripa é o camarada que dança debaixo do boi. O Tinga carece de dois tripas pra fazer quatro patas dum boi de verdade.  Assim foi e mais: o boi virou um carnaval caetano com cabeções deste tamanho e arlequins, colombinas e pierrôs... Axi! – Emérito desdenhou – boi-bumbá de verdade tem que balançar e dançar. Por conta do bailado é que tem de ser um tripa só e não pode qualquer um se meter à tripa de boi; carece fazer o boi dançar. Tem que ser que nem o finado Luciano, que dava graça ao Resolvido; ele sabia dar marrada, chifrada e rabanada pra abrir a roda quando o povo fechava. Boi-bumbá tem que ter acompanhamento de banda do Antonico Picapau e trombone do mestre Açúcar, pai Francisco e mãe Catirina, vaqueiros e amo que nem o mano Liduíno... Aquilo no outro lado e lá em Parintins é carnaval, vão me desculpar a franqueza. É bacana? É... Mas porém, não é boi-Bumbá nem bumba-meu-boi. Fica paresque açúcar no vinho de açaí, estraga o sabor...

Não eram boas, definitivamente, as relações entre as ilhas e a terra-firme. Assim, o compadre Amadinho querendo fumar o cachimbo da paz ao quanto antes e antes do pau comer, mandou recado por escrito pelo Catumbi convidando Liduíno pra ir a São Caetano levar o Resolvido pra confraternizar com o Tinga em missão de paz, amizade e fraternidade etecetera e tal, justo e perfeito num festival do caranguejo. E lá, muitos casos de parte a parte como é de praxe pra cimentar acordo. Foi aí, na hora da mesa com a travessa de sopa de caranguejo fumaçando, que o Amadinho chamou Raimundão e disse: conta pro Liduíno aquela do cara que assovia mentiras...

Assovia mentira ou mente assoviando? – Liduino fez ar de grande admiração sem tirar o olho da terrina, nem deixar de aspirar o vapor do tempero, sentenciou – pai d'égua! Antão, o pescador não se fez de rogado e passou a contar a estória, tim tim por tim tim. Era uma vez, diz-que, no povoado Mucajatuba um velho pescador aposentado pela força da idade, chamado Homero Patativa por apelido da mania que ele tinha de assoviar, paresque até quando cagava... Seu Homero se pegava no trabalho haja a assoviar diz-que pra não cansar. Mas se ela não fazia nada, assoviava pra ver o tempo passar na flauta. Era o velho um passarinho patativa, a falar sério ou a inventar coversa fiada... Paresque afiava a língua em notas de clarinete imaginário, o qual nunca aprendera a tocar, enquanto ensaiava estória... Enfim, se os casos que ele gostava de contar aborreciam a gente do lugar, o velho paresque levava a vida no bico.

Na mocidade seu Patativa foi pescador do Norte, sempre bafejado pela boa sorte. Masporém, tinha grande defeito de contar lorota por demais da conta... Ora, se já estória de pescador não perde uma pra acrescentar potoca, Patativa extrapolava de tal forma que uma sardinha na linha passava logo a ser tubarão... O pássaro caripirá engolia cardumes e cardumes de sardinha sem mastigar. Com ele, tubarão dava no rio e jacaré nadava em alto mar... Quem gostava de escutar mentira de seu Homero era pescador, por espírito de disputa: haver quem conta a maior! O problema é que nenhum pescador se conforma em perder pra outro. Masporém, os casos do Patativa, com a velhice, começaram a avacalhar a profissão pela elevada invencionice da sua imaginação. Com isto, o velho começou a ficar marcado no povoado. Já não lhe rebatiam mais com outra façanha pra abafar a que, com muito engenho, ele contava.

Ai, em vez de fazerem dele heroi do povoado, o castigo veio a cavalo. A velhice, as pernas bambas, a vista curta e o pobre não pôde mais continuar a viajar e ir pescar no Norte. Seu sofrimento aumentava quando as canoas partiam para o mar e Mucajatuba ficava entregue às mulheres, crianças, meia dúzia de velhos e cachorros pirentos esperando a volta da turma. Sô Homero perambulava à cata de quem lhe escutar um mísero caso. Sabe como é mulher, explica Raimundão; quanto se pegam entre elas é uma risadaria, uma papagaiada danada... Quando já que iam elas aturar o velho Homero contar das suas, dois ou três outros velhos, surdos que nem uma porta... Só arremedando, hum-hum, hem-hem... As ideias apoquentando o velho a ponto dele ter que vomitar pra se livrar de tanta estória a coçar a língua e a querer sair pela boca afora... Pobre homem, antão ele pegava um banquinho na porta de casa e ficava matutando e assoviando, paresque ensaindo estória pra quando a turma voltasse...

Dizque, assoviar estória não é pra qualquer um. Carece ter dom. É coisa mui diferente de caduco que fala sozinho ou mentiroso safado, que só arruma encrenca pra enganar e roubar a gente, não senhor – explica Liduíno do Boi, que ficou fã do assoviador caetanense – o dom de seu Homero Patativa exige arte e bom coração... É, paresque, com dose de engenho e arte, a premeditação da conversa fiada em forma de assobio: maneira de caboco velho quando se pega sozinho botar imaginação pra fora. Dar via de consequência à ideia urdida altas horas da noite: o fruto da insônia no escuro, sem luz de lamparina pra afiar a língua e inventar conversa a contar cedo de manhã. E quando acaba, mingau de bacaba... ninguém quer escutar. Antão haja a solfejar com os beiços e soletrar no pensamento.

São as tais vias de comunicação sustentadas a caldo de gurijuba e pirão de farinha d'água no coração e na cabeça da pessoa. A coisa que vem a furo de qualquer maneira: Contada, cantada, desenhada, representada em auto popular ou pegando santo no terreiro: toda estória carece achar caminho e se comunicar. Contada deste jeito no bar do Emérito a estória assoviada do velho Homero despertou grande interesse em Quinhinhas, que vinha acompanhando de longe certo caso de uns índios isolados cuja fala se passava por meio de assovios, cantos de passarinho, coaxos e outras vozes da natureza. De modo que, privado de quem o quisesse escutar, o velho pescador podia sim, dar curso à imaginação a modo de passarinho. Por que não? Chamar a esse Homero do povo de mentiroso era sinal de ignorância e uma estúpida desconsideração pelo próprio povo donde emana toda estória do lugar.

O filho de Agripino Ferreira Rodrigues, sem que ninguém soubesse montou tese, fez manuscrito em papel almaço e botou em envelope lacrado comunicação pra ser entregue, lá na Cidade, ao Instituto Histórico em mãos da professora Magda Zurita. A tese estúrdia seguiu cedo pelo bote veleiro O Boateiro, pilotado pela mão de Deus e tripulado unicamente pelo tio João Catumbi e o galo proeiro despertador, apelidado Mucura (porque, diz-que, come galinha...) deu a partida com a viração da maré. Informado porém do raro conteúdo do envelope, o portador comentou que estava sabendo do caso no rio Mucajatuba, pras bandas da Vigia; havia um velho pescador contador de estórias do arco da velha, notável pelo fato de assoviar mentiras... Pelo visto, a grande novidade do Liduíno tinha dois sabedores em Vilarana: Deus e o povo do círio de Nossa Senhora do Tempo...

Como antão, meu tio – Emérito perguntou – assoviar mentira? Era o seguinte. Conhecido por inventar demasiada estória de pescador o velho Homero, quase cego, já não encontrava quem as quisesse escutar. Quando chegava a temporada de pesca da gurijuba lá pro cabo Norte só ficavam no povoado mulheres, crianças e velhos. O velho se agoniava muito nesse período de ouvidos escassos é dava uma de índio Pirahã, as lembranças (lá nele) a boiar da memória e o velho num banquinho sentado na porta da barraca, como não achasse mais quem quisesse escutar estória, passava o dia a assoviar casos e casos um no rabo do outro... Como diz o nome, Pirahã é gente-peixe... Que nem seu Homero pescador é parente vivo de passarinho patativa. Não há espanto por aqui que tenha mulher que vira porca e homem que vira cachorrão brabo ou cavalo doido em noite de sexta-feira, até onça-gente já se ouviu falar por estas bandas e planta tajá se domestica como guarda da porta de casa (noves fora Cobra Norato e sua mana malvada, Maria Caninana; que eram cobras e viraram gente; caso de filho de boto com mulher é trivial (ignora-se se alguma vez, estrompada em igarapé, alguma boto-fêmea emprenhou de pescador tarado). Nos princípios deste mundo, a índia Ceucy ficou prenha de tanto comer cucura-do-mato e pariu Jurupari, o espírito senhor do segredo do passado e do futuro; por fim a linguaruda foi castigada pelo filho transformada em estrela das Pleiâdes e o pajé velho cúmplice da curiosidade dela em querer saber o que há na casa dos homens, virou tamanduá. Quem duvidaria sem perigo de virar bicho?...

Talvez, porque no fim do mundo esta gente estúrdia tenha se adiantado muito à mudança climática na frente dos bestas civilizados. Ou, pelo contrário, porque ficou no meio do caminho escuro de Dante quando este um foi visitar o inferno e o céu, o povo Pirahã tomou direção diversa. A gente-peixe sobreviveu, paresque, ao dilúvio fora da arca de Noé e se meteu no limbo longe da civilização, que nem escravo fugido no mocambo; enquanto outros salvos das águas trabalhavam como mão-de-obra na construção da arca e depois da torre de Babel, pra pagar passagem por não saber nadar, os homens-peixe nem seu Souza... Isso de trabalhar pros outros não é com índio Pirahã e muito menos com mestre Homero, aposentado pelo Funrural por causa da idade.

Nas paragens do limbo, diz-que, afastadas do paraíso e do inferno a  meia maré de viagem numa direção ou noutra; os intuitivos Pirahã se ilharam e fizeram um mundinho (lá deles) à parte. Aí está a grande diferença entre comer peixe (além de dançar a pirapuracéia longe dos cânones sagrados) e comer gente (inclusive a prostituição e as doenças sexualmente transmetidas): Lá aonde os catequistas do Brasil não se atreveriam a ir antes de domesticar os mais salientes canibais da babel brasílica (o pai português malvado a premetidar a ordem e o progreso do bom filho brasileiro, diz-que). Depois do susto da corda e do baraço debaixo de tiro de arcabuz e dentes de cachorro; amansar com paciência o bárbaro cativo na aldeia de Murtigura: massagada pra servir de boa-vontade à Casa das Canoas mediante ensalmos pelo ouvido adentro com a boa fala Nheengatu (já que falar nheengaíba, com língua travada, é difícil pra caramba e imitar passarinho pra dizer amém muito mais ainda...). A odisséia da linguagem selvagem nas ilhas e sertões das amazonas, por necessidade e acaso, segundo seu Homero Patativa (que não sabia, paresque, patavina do que ele dizia do fundo do seu coração...). Isto tudo pra impor e entupir tupi à patuléia como língua-geral do país do pau-Brasil (até nossa boa língua portuguesa, com certeza, estar pronta pra reinar no império do Brazil). Facilitar extração de almas do limbo a ajudar querubins na faxina celestial... no Céu, no Céu coa mea mãe estarei – dona Adélia canta hinos sacros na procissão de Nossa Senhora do Tempo: a poeira na quentura do caminho descalço se levanta com cheiro de bosta de vaca – na santa glória um dia, junto à virgem Maria, no Céu estarei... Depois da língua-geral, pau no couro por decreto do Diretório Pombalino a fazer a nossa língua portuguesa uma beleza do Oiapoque ao Chuí. Obra magna do capitão-general demarcador de fronteiras, governador do Grão-Pará e Maranhão. Milagre de Santa Férula, a palmatória! Aproveita, antão Raimundão, antes que acabe a madeira – o Emérito aconselha – e os derradeiros Pirahã se calem pra sempre. Pra saber estória do fim do mundo com mestre Homero em extravagantes discursos em sintaxe e cantiga de pássaros, batráquios, marulhos do mar, assovios de curupira etecetera e tal. Os vários sons das florestas tropicais encantadas e os cantos do Mar equatorial amazônico traduzidos, diz-que, em assovios, trombetas de chamar vento, trovoada, rebujo d'água, raz de maré; estalidos do mato como a onça faz na orelha pra atiçar a presa ou ronca no fundo do peito; arfa; suspira e tosse... Nosso avô Jaguar, paresque, antigamente era semi-deus de cuja carne e sangue a gente não comungava (sob pena do matador regredir à animalidade), mas porém o sacrifício do animal sagrado no terreiro conferia áurea de coragem de herói aos conquistadores da terra dos Tapuias. Ahã!

Na grande noite de Vilarana (boca das ilhas pro verdevago desertão medonho e travessia da baía pra Cidade), os pequenos correm a se meter na rede às costelas da mãe com medo das vozes do escuro da varja. Vozerio da primeira noite do mundo: assim falou o povo Pirahã (e fala ainda, enquanto missionários e científicos, mas sobretudo bandeirantes matabugres o deixarem em paz) e o discurso da primeira manhã também, em língua de passarinho uirapuru. Aí que, afobados que nem os primeiros bichos que saltaram à terra quando a arca encalhou na lama do Dilúvio em riba do monte Ararat, diz-que; ancestrais peixes-homens Pirahã cairam n'água e chegaram logo ao rio Amazonas à frente de todo mundo (inclusive dos turcos encantados). As mais antigas navegações do mar-Oceano ao tempo de Ofir quando acharam a passagem de subida, que nem Orelhana atinou, já podiam ter topado com os Pirahã nas cabeceiras do rio Madeira.

Quinquinhas (aliás dr. Joaquim Galício Ferreira Rodrigues), como de costume; nas suas cartas impossíveis da casa da beira comunicou ao instituto histórico do Grão-Pará, dizendo ele que, paresque, esta gente dos primeiros dias e noites da Terra sem mal; mal enxuta ainda do parto da Cobragrande saiu depressa pela beira do rio atrás de cardumes que subiam em piracema. Eram famintos e afobados em demasia, os primeiros homens-peixe: não tiveram tempo ou não quiseram aprender na Turquia com os filhos do velho Noé (problema enormíssimo para o doutor Chomsky resolver depois, a professora Magda Zurita observou em nota de rodapé; que Deus não queira esses uns serem da parte do Cão tão-só pra atentar contra o plano da Criação, padre Navegantes não nos escute e o redador da Gazeta não saiba). Os Pirahã chegaram, diz-que, mudos ao teatro Amazonas sem uma muda de roupa sobre a pele (lá deles). Com quem eles aprenderam a falar, antão? BBB, Bento Benedito Barbosa seu criado, quis saber. Paresque com arara, japiim e jia – caçoou Liduíno do Boi – que nem mestre Homero aprendeu a assoviar estória com passarinho patativa.

segunda-feira, 14 de abril de 2014

AMAZÔNIA E CARIBE NA VIRADA DESCOLONIAL DO SÉCULO 21


      Aimé Cesaire





                  Bruno de Menezes



Neste dia, há 191 anos passados, o Povo do Pará nos quartéis 
e nas ruas manifestou cabalmente seu desejo em dar fim ao colonialismo
a que estava submetido. Pronunciou-se assim a favor da Adesão do Pará
à Independência do Brasil. Viu-se reprimido covardemente: proclamou
sua decisão na histórica Vila de Muaná, na ilha do Marajó, a 28 de Maio.

Traído e humilhado no arranjo anglo-português de 15 de agosto, se
rebelou e foi massacrado como registra a tragédia do brigue "Palhaço",
por fim a guerra-civil dita Cabanagem (1835-1836), debelada com um
genocídio. A anistia de 1840 e suas esperanças tardias de justiça e paz.

A frustração desta vontade popular pelo império neocolonial do Brasil
foi responsável pelos terríveis acontecimentos históricos que, desde 1831
até mais de 1840, enlutaram a briosa sentinela do Norte brasileiro.




Amazônia e Caribe na virada descolonial dos 500 Anos
O GIGANTE BRASIL NO PARÁ EM VERSO E PROSA

O estribilho do hino do Estado do Pará será norte do estado democrático brasileiro na Amazônia. Este bordão papa chibé rege ou regerá nossas relações de vizinhança e cooperação para integração regional no concerto da União de Nações Sul-Americanas (UNASUL) com os mais países amazônicos no quadro do Tratado de Cooperação Amazônica (TCA) e do Mercado Comum do Sul (MERCOSUL) com referência à cooperação com a Associação de Estados do Caribe (AEC), Comunidade do Caribe (CARICOM) e as regiões ultraperiféricas da União Europeia nas Antilhas (Guiana, Guadalupe e Martinica) filhas do descobrimento de infinitos males da Terra sem Males ou o Éden lendário, antevisto por Colombo pela brecha da Terra Firme através das Bocas do Drago, para dentro do Orenoco no país do El-Dorado.

Finalmente, de pé e livres de escravidão, como canta os versos libertadores do poeta pai da Negritude, Aimé Cesaire: Cesário amado de todos, nós, negros da terra alforriados na amada pátria grande latino-americana e confraria de Bruno de Menezes na república popular do Ver O Peso.

Ó Pará, quanto orgulho ser filho,
De um colosso, tão belo e tão forte;
Juncaremos de flores teu trilho,
Do Brasil, sentinela do Norte.

Quem vem ao Sul pelo Norte, o Brasil começa no Oiapoque ou Oyapoc (rio de Pinzón na cartografia portuguesa e pomo da amazônica discórdia entre os primos monarcas da França e Portugal, em inflamada disputa pelo “testamento de Adão” abençoado pelo papa espanhol Alexandre VI). 

A partir deste modesto rio de fronteira o gigante adormecido da América do Sul vai crescendo pela beira do novo continente e pelas margens da História ao longo do Atlântico Sul até o arroio Chuí, na boca do Rio da Prata. Este outro rio grande sul-americano que, a par do Amazonas, mais atiçou a cobiça do velho mundo. 

Daí da volta platina terra adentro, através dos Pampas, o viajante do novo mundo navega o rio Paraná a fim de subir o antigo Peabiru descobrindo o império Inca das quatro partes do mundo (Tawantinsuyu, em quíchua). Para depois descer os contrafortes dos Andes até o Acre ou Rondônia, conquistando com alegria e imaginação o gigantesco Amazonas, pleno de riquezas naturais e tesouros lendários a ser redescobertos pelo turismo de aventura; em meio a desafios tamanhos a ser vencidos com segura inteligência da União de Nações Sul-Americanas (UNASUL) para integração regional e nacional apoiada em cooperação internacional multilateral.

No tour do Brasil pós-colonial, antes de deixar o Oiapoque já integrado de margem a margem por sua ponte moderna e rodovia de Caiena a Macapá, o viajante do futuro novo mundo convém saber que a baía do Oiapoque assistiu, por tempos contemporâneos ao nascimento da ecocivilização amazônica chamada Cultura Marajoara, até cerca de 1500 com a desastrada chegada do piloto espanhol Vicente Yañez Pínzón e sequestro de 36 índios da ilha Marinatambalo [Marajó], provavelmente de etnia Aruã, feitos os primeiros “negros da terra” (escravos indígenas) da América do sul; a monumental migração de povos originais aruaques comandada pelo lengendário Anakayuri vindos das ilhas do Caribe, através de Trinidad e Tobago, assentar a aldeia capital da Paricuria, no Mont d'Argent.

Por acaso, o acordo de Cartagena de Índias (Colômbia) que criou a AEC tem sua secretaria executiva em Porto Espanha (capital de Trinidad e Tobago) – “ponte” ancestral de aruaques e caribes entre as ilhas do mar e a terra-firme, em busca do Arapari (país do Cruzeiro do Sul, Brasil) – e, no próximo dia 30, será vez da Martinica oficialmente ser recebida como membro associado da AEC. 

Bela coincidência! 30 de Abril é aniversário de emancipação de Ponta de Pedras na ilha do Marajó, município turístico ainda engatinhando na “indústria sem chaminés”; terra natal do “índio sutil” Dalcídio Jurandir defensor perpétuo da criaturada grande amazônica. Não nos podemos esquecer que a antiga Madinina (“ilha das flores”), doravante região parceira do estado do Pará; foi no passado pré-colombiano cobiçada pela beleza e o saber de suas mulheres. Cenário de guerra antropofágica entre Tainos e Kalinas, resultando em extensas famílias misturadas com “índios pretos” de São Vicente e Granadinas, donde saíram os Garifunas (Karipunas?) e Nuaruaques...

Mais importante: com invejável IDH de 0,904 a Martinica fica bem na foto do século 21 (acima da Dinamarca, que marca cravado IDH 0,901). Já a brava gente marajoara com uma área de proteção ambiental pra inglês ver, a APA Marajó que não ata nem desata;  e a candidatura para reserva da biosfera da UNESCO que não sai do papel, registra mísero IDH pelo qual o povo foi se queixar não a um, mas logo a dois bispos do Marajó e nada de milagre... Nem Lula lá deu remédio com a promessa do esperado PLANO MARAJÓ. E nossa pobre aldeia de Aricará, batizada em 1659 pelo padre grande Antônio Vieira no mesmo ano das pazes de Mapuá (Breves) com os rebeldes Nheengaíbas; "elevada" à sósia ultramarina da vila lusa de Melgaço (1758), sob ditado do malfadado Diretório dos Índios; amarga hoje o último lugar na lista nacional de IDHM entre cinco mil quinhentos e tantos municípios brasileiros...

Então, é hora de despertar a consciência do tempo planetário com o sol desta primeira manhã depois da lenda da primeira noite do mundo. Saber a notícia histórica do antigo porto grande do Pará no Caribe velho de guerra: onde o cacique Hatuey – o primeiro rebelde das Américas – se levantou no Hayti contra a destruição das Índias e o guerreiro Guamá, seu sucessor na luta de libertação, ainda existe na memória do povo de Cuba. Que nem também, no Pará, um outro Guamá famoso fez história em perigosas transações com a Guiana francesa na rota do contrabando: donde veio os primeiros grão e plantinhas de café e depois retornaram muitas e muitas sacas da preciosa especiaria roubada um dia, da Etiópia, no passado longínquo. Este último índio Guamá marajoara, cacique dos belicosos Aruãs, por acaso, deu seu nome ao rio que banha a capital paraense em cujas margens se situa o campus da Universidade Federal do Pará (UFPA), a maior universidade do Trópico Úmido planetário.

Eu sou de um país que se chama Pará
Que tem no Caribe o seu porto de mar
E sei pelos discos do velho Cugat
Que yo, ay yo no puedo vivir sin bailar

O Pará velho de guerra dança Pirapuraceia, dança Siriá, Carimbó e Lundum, vive a bailar pelos bailes da vida... Tem os ritmos do Caribe na alma, o batuque do tambor colado aos ouvidos dia e noite como batida do coração. A canção popular paraense de autoria de Paulo André e Ruy Barata confirma o manifesto parauara do estribilho do hino do Pará: destino nordestino na busca da Terra sem Males, desilusão da conquista do alto mar Salgado pelo caminho do levante. Movimento utópico do Povo Brasileiro em marcha ancestral da nação Tupinambá para norte e oeste, rumo ao Araquiçaua (lugar mítico onde o sol ata sua rede no poente à espera do nascer de novo dia).

REVIRADA DO FIM DA HISTÓRIA

Na virada histórica, após 500 anos de destruição das Índias Ocidentais, há que se prestar quinhentos minutos de silêncio pela enorme montanha de vítimas da Colonização: os índios e os negros primeiramente, mas também imigrantes europeus, hindus, sírio-libaneses, judeus e asiáticos enganados com falsas promessas do paraíso na terra. 

O singelo gesto de assinatura de um protocolo de cooperação descentralizada, a ser firmado no próximo dia 16, na cidade de Belém do Pará, entre os governadores da Martinica e do Pará deve ter a égide de dois poetas da Negritude, respectivamente, Aimé Cesaire, pela Martinica e Bruno de Menezes, pelo Pará. Para encerrar a solenidade, valia a pena comemoração da Academia do Peixe Frito com batuque bacana como ponto final. Louvado seja Ossain, o senhor São Benedito da Praia, tenha dó de mim para sempre, amém.

Este protocolo de cooperação internacional descentralizada Pará-Martinica é um pequeno passo numa longa estrada cujo primeiro passo foi dado lá, distante no tempo e no espaço, pelas funduras do Rio Negro: inauguração do mundo amazônico através do Circum-Caribe. Onde nossos antepassados indígenas, vindos de Norte e Sul se confrontaram no grande mar de água doce, chamado Uêne (rio, simplesmente) pelos aruacos, Pará-Uaçu (mar grande) pelos tupis, Marañon pelos castelhanos, Grão-Pará pelos portugueses. Pará é mar. E este mar profundo, duramente conquistado, agora é parte não menos importante da Amazônia azul que se confunde à verde Amazônia no golfão Marajoara.

Hora, pois, de falar da República Francesa lembrando que ela foi a primeira república dos tempos modernos. Antes disso a história entre brasileiros e franceses, em especial na baía da Guanabara e no Maranhão deu parto ao mito do Bom Selvagem através de filósofos da Revolução Francesa, ocorrida em 1789. Enquanto a nossa trôpega República Brasileira chegou, em 1889, a passos de cágado 100 anos depois... Apesar da antiguidade da história Brasil-França, a concorrência colonial, o antagonismo entre monarquistas e republicanos, a II grande guerra mundial, a independência das colônias; e por fim a ditadura militar no Brasil não raro colocaram brasileiros e franceses em lados opostos. Sem conversa fiada, tudo isto deixaria sequelas.

Nestes cinco séculos o “rio das Amazonas” foi um dos principais pomos de discórdia. Porém, com advento da República Federativa do Brasil de 1988 uma nova história vem sendo construída em bases sustentáveis para o desenvolvimento da ordem mundial e regional tendo Brasil e França lado a lado. Portanto, não podiam ficar indiferentes ao processo histórico contemporâneo os países amazônicos e do Caribe. Onde o Turismo no contexto geral da cooperação descentralizada tem muito a contribuir.

sábado, 5 de abril de 2014

BATUQUE EM PORTO CARIBE: VIA CULTURAL PARÁ-MARTINICA

sob perpétua inspiração de Aimé Cesaire, poeta Pai da Negritude, a Martinica pela educação e a cultura fez firme contraponto ao colonialismo e à luta armada ao mesmo tempo. Em vista da tragédia do vizinho Haiti e a impossibilidade material de imitar a revolução de Cuba; os filhos de Cesaire aprenderam a se equilibrar ao batuque do tambor ancestral entre o mar e o rochedo. Deste modo, tem eles conseguido se afastar dos extremos e também, com a lição de vida de Mandela, ficar longe da revanche que aniquila independências nacionais conduzindo os povos libertados para a violência estéril e a injustiça da pobreza desumana. 


o popular mercado de Fort-de-France, capital da Martinica, lembrando o Ver O Peso
de Belém do Pará, onde a tradição se faz sem contradição à modernidade e a presença
do poeta Bruno de Menezes, promotor da Academia do Peixe Frito, não de desfaz.



Alô Pará do Paranatinga lá vamos nós a Porto Caribe!

Academia do Peixe Frito, boêmios da Campina,
devotos de São Benedito, irmandade do Glorioso São Sebastião,
a Marujada, piratas da Batucada, a Grande Família,
todas tribos da Criaturada grande de Dalcídio são convidadas...

Vamos lá a Martinica em embaixada do samba, siriá e carimbó
levar votos de amizade eterna do Quem são Eles 
e o Rancho Não Posso me Amofiná,
todas escolas de samba, blocos e universidades do carnaval.

Vamos lá a Martinica a ver quem fica melhor na foto,
buscar a rima rica de Madinina bonita diretamente da fonte
a Mi Carème que aqui na terra do pato no tucupi chegou
através da Bahia de todos os santos orixás fantasiada de Micareta

Vamos lá a Martinica pra ver como é bonita
a negritude antilhana
memória de nossas raízes, ervas, frutas e flores tropicais
descobrir cores, sabores, sons e odores tão parecidos aos nossos
mas diferente ao mesmo tempo
de todas outras Américas a caribenha é resumo do velho e novo
continente.

A lua banha-se na baía de Fort-de-France tal tal uma Vênus nua
no espelho d'água do Guajará
sob manto da noite bordado de estrelas sobre mar de água doce
de Belém do Grão Pará no país do Cruzeiro do Sul
enquanto lá no Caribe grande é o mar salgado
vestido de dourado sob sol azul marinho cheio de sal e algas.
Em Madinina relembrada o espelho da lua na lenda das Amazonas,
Uma ilha morena enfeitada de penas verdes e rosa pronta para festa
dos 400 anos de sua cidade irmã das mangueiras amazônicas.

Ilha das flores onde o continente submerso brinca com furacões
e joga com o destino das Américas, Áfricas e Europas no porvir
a negritude é o mapa do tesouro dos piratas do Caribe
a mina velada do El-Dorado no coração das Guianas.
Metade do caminho entre metrópoles d'aquém e além Oiapoque.
Paris, cidade luz, sempre pronta a dizer o que o mundo deve fazer
desta vez há de ouvir o que se não deverá jamais de fazer outra vez.

O retorno ao país natal é caminho certo ao coração da mãe-África,
para toda aldeia do mundo insustentável sem trabalho escravo.
Nós, criaturada grande de Dalcídio e filhos de Bruno de Menezes, também temos que aprender com filhos de Cesaire, Damas, Senghor e muitos outros mestres da Negritude... 
Os primeiros negros da terra foram escravos do cativeiro do Caribe
desde que os bons cristão botaram os pés nas Bahamas.

Saber da incrível travessia do Atlântico pela flotilha de caiaques
do rei do Mali duzentos anos antes da famosa viagem de Colombo,
a malfadada chegada deste último e seus conquistadores malucos,
a rebeldia suicida do cacique Hatuey, Guamá e outros mais
na resistência desesperada dos Tainos e seus descendentes até hoje.

Alejo Carpentier, Frantz Fanon a dizer não à hegemonia mental
do coloniamismo dementador,
Mas, sobretudo, nosso respeito profundo ao direito à preguiça
Isto é: à Greve...
com aquele mal amado mestiço cubano em cujas veias
se misturaram sangue judeu-francês e de índio caribenho,
chamado Paul Lafargue, marido de Laura Marx
amigo de seu sogro mas nem sempre 100% de acordo com ele:
na verdade a indolência e malandragem dos escravos
tal qual o direito natural dos animais em resistir ao cativeiro
andou mais perto do genro de Marx do que da moralidade laboral
alemã e metódica do seu sogro revolucionário.

Nosso porto Caribe e a ilha das flores Matinik tem mais coisas a mostrar que rum, discos velhos do velho Cugat 
e CD de zuck machine da banda Cassave..
lá no mar das Caraíbas o Pará velho de guerra pode encontrar coisas do arco da velha:
da Jamaica o reggae jamais será deslembrado de suas origens rítmicas de Moçambique e religiosas na Etiópia
Bob Marley se desfez em acordes para renascer em guitarradas mil
pelos cinco continentes do mundo.

Além da poesia revolucionária o teatro descolonial de Cesaire 
nos dirá da tragédia nacional chauvinista tenha ela a cor que tiver
num mundo sem fronteiras 
onde a verdadeira democracia não é uma concha vazia,
apesar de parecer ainda uma tímida criança...
Ela carece florescer a fim de primavera numa primeira manhã
onde todas aldeias do mundo serão conectadas
contra aventuras imperiais várias de norte ou sul
sem deixar perder jamais a singularidade de cada país
face à antropofagia voraz da aldeia global.

No teatro do Ver O Peso da vida precisamos encenar
a tragédia do rei Cristovão como aviso aos navegantes
das águas turvas da colonialidade na cidade grande do Pará
escarmento do destino de um homem e de um país chamado
Haiti 
o qual também é aqui com nossos reizulos dementes
parentes daqueles outros de antigamente, em África, que venderam
a corsários e piratas do Caribe nossos pobres avós negros da terra 
e da Guiné 
a fim de ostentar grandeza e loucuras infernais da realeza.

Tragédia da revolução haitiana traída pela farsa da história
aqui a tragédia do brigue Palhaço sem estardalhaço
repetida até à náusea por todo mundo insustentável, 
nossa cara Cabanagem com seus 40 mil mortos esquecidos
e combatentes negros fuzilados à ordem de Angelim.

Aí de mim! Eu que queria ir em canoa boa de contrabando
da Vigia do Pará pela ponta da Tijioca além do Cabo Norte 
saber da força imperial anglo-luso-brasileira
que a revolução republicana paraense queria combater.
Nunca soubemos que através de Caiena ocupada
o Pará foi contagiado pela República cabana e que a revolução do Haiti
chegou aqui clandestina a fim de abolir a medonha escravidão:
mas lá, 
como no Pará massacrado a mando do império do Brazil
a emancipação humana foi abortada pelo reinado de um homem só
que em vez de libertador, a exemplo de Bolivar, 
morto de inveja que nem zumbie quis igualar em Porto Príncipe
faustos dos reis de França. 

Que nos sirva para sempre a lição da farsa do rei Cristóvão.

quarta-feira, 2 de abril de 2014

AGENDA BELÉM 2016: 400 JANEIROS INVENTANDO A AMAZÔNIA.


navio-escola francês "Belém", conservado no patrimônio histórico marítimo pela Fundação Belém, fez rota comercial entre o Pará, Guiana, Antilhas e França transportando cacau e outras "drogas do sertão" (especiarias) amazônicas, rum, açúcar em troca de produtos importadas da Europa. Em 2002 veio a Belém do Pará e talvez pudesse retornar para festa dos 400 anos da capital do Pará, caso haja convite competente no quadro de uma demanda oficial da cidade para ser admitida à rede mundial de metrópoles com apoio francês. Entre outros motivos, por Belém (Pará) e Fort-de-France (Martinica) serem cidades-irmãs. Evidentemente, o intercâmbio franco-brasileiro na matéria seria inventivo ao turismo marítimo, cultura ribeirinha e esportes aquáticos em geral.

NOTÍCIA SOBRE VIAGEM DO VELEIRO FRANCÊS, EM 2002, A BELÉM DO PARÁ.

Veleiro "Belém" zarpou da França rumo ao Brasil 100 anos depois da 1ª viagem
12h24 - 10/02/2002


Arthur Silva, da Agência Lusa

Paris, 10 Fev (Lusa) - O veleiro francês "Belém" zarpou no início da tarde de hoje do porto de Nantes, na costa atlântica francesa, com destino à cidade brasileira de Belém, onde chegou pela primeira vez em 1897.

Oitenta e oito anos depois de sua última campanha de "comércio", o atual navio-escola, que foi construído em 1896, nos estaleiros de Nantes, voltou a zarpar rumo ao Brasil, Guiana e Antilhas, rotas que fizeram a história deste barco.

Esta operação, que conta com o apoio da Embaixada do Brasil na França e da representação diplomática francesa no Brasil, tem o patrocínio da Secretaria de Estado francesa dos Departamentos e Territórios do Ultramar.

A chegada a Belém está prevista para os meados do mês de março, num périplo que levará o veleiro francês aos portos de Vigo (Espanha), Ilha da Madeira (Portugal), Las Palmas (Espanha), Dacar (Senegal), Belém e Macapá (Brasil), Saint- Pierre de la Martinique e Bermudas.

Na viagem de volta, o "Belém" fará uma escala na ilha atlântica dos Açores (Portugal), e a chegada a Nantes está prevista para o dia 14 de julho, dia da Festa Nacional francesa.

"Além da aventura marítima única, a odisséia atlântica do "Belém" terá um grande significado para todos aqueles que, de perto ou de longe, vão seguir esta viagem", afirmou Alain Le Ray, presidente da Fundação Belém, proprietária do veleiro.

Mas, sobretudo, "as escalas em Belém e Macapá serão ocasiões privilegiadas para reafirmar os elos que unem os dois lados do Atlântico", frisou Alain Le Ray.

Por outro lado, a história deste navio está intimamente ligada às trocas comerciais entre o Brasil e a França.

Entre 1897 e 1907, o porto brasileiro de Belém foi o principal destino do veleiro que, na época era um navio de comércio, que fez 33 campanhas, e trazia para a Europa cacau, rum e açúcar, enquanto levava para o Brasil produtos manufaturados.

A partir de 1907 e até 1914, o "Belém" foi utilizado no transporte de mantimentos para Guiana Francesa, para os colonos e para o campo de refugiados de Caiene, para onde foram deportados milhares de prisioneiros políticos e criminosos franceses.

No dia 08 de maio, o "Belém" escapou milagrosamente à irrupção vulcânica registrada na Montanha Pelada, que fez cerca de 30.000 vítimas na Ilha da Martinica.

A concorrência dos navios a vapor afastou o "Belém" das rotas do comércio, e a partir de 1914 passou pelas mãos de diversos proprietários, principalmente o Duque de Westminster, o "barão" da cerveja, A.E.Guinness, tendo percorrido uma volta ao mundo entre 1923 e 1924.

A II Grande Guerra Mundial obriga o "Belém" a molhar na Ilha de Wight, Reino Unido, até que em 1952 é comprado pela Fundação Cini, e transformado em um navio-escola do Instituto Scilla, em Veneza, Itália, para a formação profissional dos jovens órfãos de marinheiros.

Finalmente, em 1978, uma parceria entre o grupo bancário Union Nationale des Caisses d'Epargne de France e a Marinha National francesa, permite comprar o navio e salvá-lo de uma destruição a curto prazo.

Cinco anos após as obras de restauração, em 1986, "Belém", que, entretanto, foi classificado Monumento Histórico pelo Governo francês, chega a Nova York para participar nas celebrações do centenário da Estátua da Liberdade.

A viagem que o "Belém" iniciou hoje, a "Odisséia Atlântica", pode ser acompanhada pela Internet.

Graças ao site www.belem-odyssée.com, os internautas podem viver o dia-a-dia da tripulação e participar nas observações e descobertas das escalas terrestres, relatadas por testemunhas e peritos em vários aspectos.



Dentre chuvas em verdes campos e marés
1500 anos dos tesos do Marajó nos contemplam no corrido dia a dia de Belém da Amazônia.



Que melhor presente se pode dar à cidade de Belém na festa de seu quarto centenário? Qual o maior tesouro que os fundadores de Feliz Lusitânia poderia achar no cobiçado rio das Amazonas? O reino das icamiabas se desvaneceu entre lendas do lago da Lua e o ouro do El-Dorado foi um terrível engano...

Na utopia selvagem dos caraíbas Tupinambás, a pressa foi inimiga da perfeição. Louvado seja São José de Anchieta, santo canarinho e apóstolo do Brasil varonil, que ensinou o Bom Selvagem a trocar o sangue e a carne do inimigo pelo pão e o vinho consagrados no milagre eucarístico do sagrado coração de Jesus. É 8 ou 80... Faremos a coisa certa ou deixamos rolar carimbó de siá Tereza até acabar a festa e Chico chegar da roça.

Aprendi a dizer não, ver o peso do Norte sem temor. Eu venho lá do mundão de águas grandes e terras encharcadas, e posso não agradar. Mas pra falar a verdade, na festa desta cidade ainda está a faltar muita coisa. Portanto, carece mais imaginação para arrumar a "casa do pão" da terra como a cidade merece... Imaginação é com a literatura. E literatura paraense sem Criaturada grande é arte de Malazarte pra deixar o povo fora da festa, dar o bolo do veropa e só. Deixando a gente na chuva a ver navios.  

O forte do Presépio foi levantado a quatro porradas, em vez de paz, a guerra tribal na terra dos Tapuias. Como se esta gente fosse feita da mesma massa dos filisteus... A barca virou, deixou de virar... Nossa senhora vai dentro, os anjinhos a remar, rema, rema remador... Há quatro séculos, o menino não se encontrava no berço de Belém, Santa Maria vagando pela aldeia da Campina, São José carpinteiro fora tirar madeira para as bandas do Una... Nem mesmo os animais do Presépio haviam chegado de Cabo Verde e os Reis Magos, aparentemente, demoraram uma eternidade à espera do navio dos turcos encantados a fim de atravessar o Mar Português de Fernando Pessoa, e saltar com Dom Sebastião em São João de Pirabas. Valeu a pena? Tudo vale a pena se a alma não é panema... Talvez, comecem eles a chegar a partir de agora para os festejos dos 400 anos.


NATAL

Deixei as ovelhas,
deixei a flauta,
e só vim com o meu cajado
e com a minha bíblica inocência
(quanto era bela a minha adolescência).

E corria e corria pelos prados…
Uma estrela muito branca
me orientava,
uma estrela tão grande!

Depus meu cajado
e ajoelhei-me junto do berço,
pensando que esse menino,
pastor de estrelas, noutro tempo,
viesse pastorear comigo
pelos campos,
ser feliz como eu era,
entre as ovelhas!


Dalcídio Jurandir

Então, já há algum tempo outros que não os Reis Magos, queriam dar de presente a Belém em seu aniversário o 'DIA DE ALFREDO'. Este Alfredo é cria de ficção do mago Dalcidio Jurandir e protagonista do Extremo-Norte, a obra literária mais importante da Amazônia brasileira. Um dia especialmente para discutir e difundir a Cultura Marajoara debatendo cultura amazônica em geral. 

Uma data simbólica que poderia ser o dia de nascimento de Dalcídio, 10 de Janeiro. Ou, talvez, 16 de Junho, que foi o dia da sua morte no Rio de Janeiro, onde ele entregou o corpo à terra fria e foi sepultado na cripta dos imortais da Academia Brasileira de Letras, no cemitério São João Batista. Pois a alma do índio sutil já estava livre há tempos correndo com o gado do vento pelos campos de Cachoeira.
Assim, o Dia de Alfredo lembraria o Bloomsday irlandês, tornando a criatura imortal de Dalcídio Jurandir referência como dia da literatura paraense. Na Irlanda, o “Dia de Bloom” é feriado nacional, em homenagem ao ícone da literatura irlandesa. Todos anos, em 16 de junho, os irlandeses celebram Leopold Bloom, personagem de Ulysses, a ficção de James Joyce que marcou o mundo das letras. 

O Bloomsday ultrapassou fronteiras e é festejado, inclusive, no Brasil. Na Amazônia paraense, a Assembleia Legislativa poderia aprovar projeto de lei declarando 16 de Junho feriado estadual, oficializando o Dia de Alfredo. O mundo inteiro fala de desenvolvimento sustentável e preocupa-se com a conservação da Amazônia como uma das regiões de floresta tropical de maior interesse para a biosfera planetária, mas são raras iniciativas práticas além do discurso ambientalista.
Ressalvados exageros e o jogo geopolítico internacional todo brasileiro deve saber quão séria é de verdade a questão da preservação da biodiversidade e da diversidade cultural para o desenvolvimento renovável da Amazônia. Mas, haverá algo mais renovável que a cultura na economia criativa de mercado, tendo um turismo inteligente e responsável como caixeiro-viajante? Por que não aproveitar melhor a figura do nosso maior escritor e o que ele com o poeta da negritude Bruno de Menezes e seus confrades modernistas da revista Belém Nova e da Academia do Peixe Frito?
O segmento universitário deve ser o primeiro a levar para a sociedade, através da extensão, a informação do que estes mestres da cultura amazônica representam para emancipação social de nossa gente. Assim também aprenderíamos, prontamente, como melhor associar a obra literária do “índio sutil” à arte primeva marajoara – primeira cultura complexa da Amazônia – , como explica a arqueóloga Denise Schaan. Criatividade e concretude devem andar de mãos dadas na “indústria sem chaminés”.
O Círio de Nazaré reconhecido pela UNESCO, por sua riqueza histórica e representatividade cultural, agora é patrimônio imaterial da humanidade e carro-chefe do turismo paraense. O turismo religioso não pode excluir o “carnaval devoto” da fala ingênua e atilada, ao mesmo tempo, de Alfredo em tudo que nele representa a criaturada de Dalcídio, que acompanha as diversas manifestações profanas do natal dos paraenses. A cultura alimentar tradicional, sobretudo, com o famoso pato no tucupi na mesa do Círio integrada na cadeia produtiva do tipiti e os “gados do rio” na agricultura familiar em economia solidária agregada à produção do “made in Amazônia” em geral. Esta mais valia é oportunidade de ouro para indústria cultural que se traduz em empregos e renda para população, seja ela devota ou não.
Mas os formadores de opinião, em geral, ainda tem muitas dificuldades para acabar de demolir velhos muros, cercas e barreiras herdados dos tempos coloniais entre setores produtivos e o vetusto mundo intelectual. Como diria o sociólogo italiano pós-industrial Domenico de Masi, o mundo contemporâneo carece de gerentes intelectuais. São raros os operadores econômicos capacitados a ultrapassar o fosso entre economia, cultura e meio ambiente. Do mesmo modo são poucos intelectuais preparados a entender as complicadas engrenagens do mundo governado pelo mercado. Mesmo no campo institucional, repartições do serviço público dialogam mal umas com as outras, com uma notável perda de tempo e de recursos produtivos.
Não é que se vá propor transformar literatura em mercadoria. Mas estamos diante de um caso patente de desperdício, quando a “Criaturada grande de Dalcidio” retratada em dez festejados romances, foge das páginas dos livros não lidos e nem sabidos para ocupar cidades e campos pressionando em busca de melhores dias e condições de vida. Enquanto isto, a Educação em crise é seguidamente apontada como porta de saída do purgatório da pobreza regional.
Então, o turismo literário integrado na paisagem cultural Belém-Marajó e mais regiões culturais paraenses não chegará jamais a ser a salvação da lavoura, nem do próprio Turismo, mas ele indica o melhor caminho do desenvolvimento social mais equitativo, aproximando a intelligentsia do país ao povo. Com exemplo da Festa Literária Internacional de Paraty como ponte de travessia por onde transitam personagens de ficção, autores, intelectuais, jornalistas especializados, críticos literários, operadores de turismo, formadores de opinião em diálogo aberto com a população local que se beneficia de conhecimentos, empregos e melhor distribuição de renda local.
Neste caso, cursos universitários ou profissionalizantes poderiam se associar a incubadoras de empresa no negócio do turismo, orientados pelo SEBRAE e financiados por bancos de fomento para alavancar o negócio do turismo, com destaque para a modalidade de turismo literário em tela. Os verdes prados da Holanda na ficção de Alfredo, na realidade corresponde a um ideal de desenvolvimento atual que vem das páginas sempre vivas do "Chove" e nos remete à paisagem cultural holandesa com seus velhos moinhos de vento, diques e canais que deram fama e milhões de cartões postais aos ecológicos e desenvolvidos Países-Baixos que de seus símbolos culturais e naturais não se desfez para chegar a altos padrões e vida, ciência e tecnologia e poderiam servir de fonte de inspiração ao desenvolvimento sustentável duma região de terras aluviais, água por todos os lados e vegetação que nem o Marajó.
Em Belém do Pará todo sujeito letrado sabe que a cidade da península do Guamá poderia no passado ter sido a Veneza amazônica, caso as autoridades coloniais portuguesas, que nunca pensaram como Eidorfe Moreira, no ensaio “Os igapós e seu aproveitamento”; por exemplo, não a tivessem aterrado e enfeiado indiscriminadamente e os que as sucederam nos diversos governos, com exceção do jamais esquecido Antonio Lemos, continuado a maltratar o patrimônio histórico. Porém nós acreditamos que melhor seria comparar a cidade das mangueiras a Amsterdã, rainha do Mar do Norte, com seus mais de 100 quilômetros de canais urbanos navegáveis aproveitados pelo turismo, dentre outras metrópoles da Europa.
Certa maneira de repensar a metrópole da Amazônia Oriental em seus 400 anos, poderia ser preparar sua candidatura a fazer parte da Associação Mundial de Metrópoles, onde se acham as cidades de São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Porto Alegre em rede internacional de grandes cidades e cuja reunião de 2015 acontecerá em Buenos Aires. Nesta rede, inclusive, além de rotas já conhecidas poder-se-ia trazer de Paris desde o Sena caminho geoturístico passando pelas Antilhas, Guiana francesa e Amapá. Através de corredor ecológico de Macapá a Belém integrado ao Marajó, um viajante sem pressa, por exemplo, vindo de Paris a Caiena por avião poderia chegar a Macapá por rodovia e pegar barco para Afuá, onde o Parque Estadual Charapucu com área-núcleo da futura Reserva da Biosfera Marajó-Amazônia o aguardaria para orientá-lo a varar os centros, de norte a sul, da maior ilha fluviomarítima do mundo em canoa-motor pelo rio Anajás em direção ao Arari.
No meio do caminho fluvial marajoara habitado de margem a margem pela criaturada grande de Dalcídio, este hipotético ecoturista visitaria a cidade de Anajás, que guarda o nome de seus primeiros habitantes indígenas e passaria ao rio Arari, não sem antes visitar o Rio dos Camutins com seus sítios arqueológicos e conhecer o grande lago Arari, berço da antiga civilização marajoara. Então, neste imenso ecomuseu a céu aberto fazendo parte integrante do sui generis Museu do Marajó, inventado pelo padre Giovanni Gallo, pronto a descer até Cachoeira do Arari onde visitaria o dito museu e a casa de Dalcídio Jurandir.
Esse aventuroso viajante seguindo pegadas de naturalistas das viagens filosóficas, após saber da mais velha peça do Museu do Marajó saberia ter acabado de se converter na mais nova “peça” de coleção do inigualável museu do homem marajoara. E logo ele estaria pronto a continuar a viagem pela conexão rodo-hidroviária, através de Salvaterra – lugar histórico onde o escritor de “Marajó” começou sua obra literária – e, como o autor, também o visitante do caminho atravessaria a baía para, enfim, chegar a Belém do Grão-Pará. Por acaso, talvez, nas festas dos 400 anos da metrópole oriental da Amazônia.

Não por acaso, são cidades-irmãs Belém, capital do Pará, e Fort-de-France, capital da Martinica, região ultramarina da França. Neste mês de abril, os governos estadual do Pará e regional da Martinica assinam protocolo de cooperação internacional descentralizado, no quadro das relações Brasil-França. A ligação aérea de Belém com Paris está assegurada através de escala em Caiena e Fort-de-France, uma frequência com Miami (Estados Unidos) foi inaugurada e no próximo mês de junho será restabelecido o voo Belém-Lisboa agora num ponte aérea semanal incluindo Manaus em operação triangular. Portanto, na nova ordem mundial emergente a expressão geográfica de Belém – assinalada pelas análises de Henri Coudreau e Eidorfe Moreira – , pouco a pouco, vai sendo confirmada. Mas, devem ser os próprios paraenses que devem apressar o parto da nova história e não a ficar na defensiva retardando o passo com saudades do passado belle époque não voltará jamais. O que pode e deve ser feito, no seio da comunidade nacional e mundial em cooperação internacional, é a revitalização deste memorável patrimônio com inegável ambição do futuro da capital do Pará nas regiões amazônicas e do Caribe, notadamente quando Mercosul e União Europeia negociam acordo de livre comércio em risco do Norte do Brasil continuar à margem dos acordos e tratados de integração transfronteiriça. Quando, historicamente, Belém foi sede, e continua ainda, das demarcações de limites da Amazônia: espinha dorsal da integração da América do Sul.
O ingresso da metrópole da Amazônia Oriental na associação mundial de metrópoles será o maior presente que Belém do Pará pode aspirar em seus 400 anos. Tal reconhecimento por comunidade de mais de 100 das maiores cidades do mundo, abrirá muitas portas. Sobretudo, do turismo quando o Círio de Nazaré a exemplo de Santiago de Compostela, passará a ser um grande atrativo do turismo religioso de apelo internacional. Fica claro, todavia, que um caminho turístico sozinho não faz milagre... Mas, ele pode sim produzir muitas mudanças para melhor: por exemplo, gerentes intelectuais capazes de elaborar projetos dando concretude a ideias inovadoras, que ao ser submetidos à aprovação e financiamento estarão ipso facto contribuindo para tirar da margem da História regiões amazônicas isoladas e marginalizadas, contraditoriamente, no maior rio da Terra comparável ao Nilo em sua missão civilizadora. Então, assim, Belém do Grão-Pará terá cumprido seu manisfesto destino geográfico quatrocentos anos depois de sua fundação pelas armas combinadas de valentes soldados portugueses e bravos guerreiros tupinambás.

Para o “país” que se chama Pará, a canção "Porto Caribe", de autoria de Paulo André e Ruy Barata, é manifesto musical sobre nossas raízes étnicas, antropológicas e históricas envolvendo todas as Guianas venezuelana, guianense, surinamense, franco-guianense e brasileira abraçadas pela corrente do Amazonas que se vai juntar à corrente marítima das Guianas com seu extraordinário potencial científico e tecnológico pesqueiro. Belém cresceu de costas para o rio... Mas, doravante, a capital do Pará do Brasil sentinela do Norte volta-se para o grande mar de água doce e o Oceano profundo da Amazônia azul. Coisas iguais a estas emergem no pensamento da amazonidade nesta hora em que o turismo do Pará refaz sua aposta como indutor do desenvolvimento sustentável da Amazônia. Navegar é preciso, mas viver é mais preciso ainda: fazer uma ponte suspensa sobre o "Mar português" de Fernando Pessoa, além do Tejo e cabo Bojador, desta vez também do Sena e o mar das Caraíbas até a baía do Guajará a fim de ver o peso do tempo e do espaço para adivinhar "L'avenir de la capitale du Pará"... Misturar as línguas portuguesa e francesa num patois pato no tucupi bem gostoso e temperado.