segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Belém 399 anos: cadê o povo Tupinambá que morava aqui?


fundação da cidade de Santa Maria de Belém do Grão-Pará (quadro de Theodoro Braga).


CADÊ O POVO TUPINAMBÁ QUE MORAVA AQUI?


Vésperas...

Ao fim da jornada dos últimos seis dias de dezembro de 1615
mais os primeiros onze do ano de 1616 
dezessete dias e dezessete noites a marear a costa, 
tomar profundidade de canais e assinalar porto 
das trinta e tantas baias de São Luís do Maranhão ao Grão-Pará.

Eis enfim os três caravelões do capitão-mor Castelo Branco
à boca da noite surtos na baia de Caratateua.

O guia da jornada foi o piloto francês Charles des Vaux
até ali ele e seu compatriota intérprete da língua dos índios raramente precisaram tomar contato com os povoadores nativos, 
porém agora chegava a parte mais delicada da missão: 
obter permissão do tuxaua local para o capitão-mor levantar
forte da posse portuguesa que ficaria sendo Feliz Lusitânia.

Primordial condição da trégua da batalha de Guaxinduba
entre portugueses e franceses, 
e o preço da vida de La Ravardière caído refém 
na tomada da França Equinocial: um passo em falso
poderia ser o desastre da jornada do Pará e de tudo mais...
Por isto foi exigida a bárbara diplomacia costumeira
entre Itajubá ("braço de ferro"), como o espadachim francês
era chamado pelos índios; e os rixentos murubixabas do Grão-Pará
para aceite sem rejeição por parte dos senhores da conquista
da antiga terra dos Tapuia por outra voz, o Maranhão
aportuguesado do Marañon falado pelos castelhanos.

Todo mundo sabe que os bravos tupinambás comedores de gente
e os brutos perós ("papagaios", portugueses) se odiavam ferozmente que nem cão e gato:
a histórica baia da Guanabara conta mais que ninguém 
essa mortal desafeição hereditária da concorrência colonial. 

O que vale na mudança da história é o cunhadismo providencial: 
o casamento de Jaguaribe (Ceará) entre a filha de Jacuúna, 
a índia Paraguassu; pintada de Iracema na literatura alencarina
e o astuto cristão novo Martim Soares Moreno,
enredo imprevisto que selou o destino nordestino do caminho 
da brava nação Tupinambá no Maranhão e Grão-Pará
já em guerra avançada das margens do Guajará até Cametá
por onde desciam dos sertões pelas barrancas do Tocantins
ondas de milhares e milhares de guerreiros sedentos de fama, 
paresque um tigre sem pressa, em busca da Terra sem Mal
já forçando portas do grande rio das Amazonas acima do Pará
rumo ao baluarte holandês 
na aldeia nheengaíba de Mariocai, no fim da história Gurupá
lugar do segundo fortim da conquista luso-tupinambá.

Sem que os agentes da história do futuro soubessem do amanhã,
exceto pajés-açus pela boca do Jurupari amaldiçoado pelos padres,
a nascente união entre armas lusas e arcos tupi
possibilitaria dia seguinte ereção do forte chamado do Presépio:
porém a nova estrela de Belém longe da paz prometia
a guerra da Terra sem Mal longamente esperada pelos caraíbas 
tal qual conquistadores europeus
caçavam a ferro e fogo o lendário tesouro do El-Dorado.

Era dizer ali no anfiteatro do Guajará, de parte a parte, encontravam-se diversos enganados do fado sebastiano 
misturado ao messianismo tupi-guarani
querendo ocultar uns aos outros seus íntimos desejos
todavia todos a escrever, sem saber, certo por linhas tortas a invenção da Amazônia...

Charles des Vaux foi aquele celebrado aventureiro francês
dentre corsários que varriam as costas das Guianas
desde Trinidad até Tapuitapera (Alcântara) abordando
povos indígenas para se acamaradar deles de boa fé
a serviço real dos interesses dos reis da França.

Foi assim que os caraíbas Tupinambás convidaram
a Braço de Ferro, segundo a historiografia da França Equinocial
para morar com eles em boa amizade e comércio de escambo
deixa estar que a amizade entre o Mair ("louro', francês)
e o Bom selvagem era interesseira de ambas partes:
a França contestava, de direito e de fato, o "testamento de Adão"
como eles chamavam à bula papal homologando 
o tratado de Tordesilhas dividindo o mundo entre Espanha 
e Portugal.

Já os caraíbas não vieram eles de tão longe pelo litoral 
a desenhar com sangue sobre a terra em transe o mapa do Brasil
até o Pará-Uaçu ("grande mar") a fim de voltar
sobre os próprios passos antes de achar a cobiçada Yby Maraey
utopia selvagem do sonho de muitas gerações.

Logo,
sem os interlocutores adivinhar nem Jurupari ou o Espírito santo
revelar mais que o necessário para a hora, 
o pernoite do capitão-mor com seus oficiais na aldeia dos Tenoné
foi parto da invenção da Amazônia tendo Itajubá por parteiro:
assim ficou acordado entre as partes 
que a chamada França Equinocial saia do mapa definitivamente
dando lugar ao Maranhão e Grão-Pará 
sob império da União Ibérica na posse de Portugal
conforme a linha de Tordesilhas a 370 léguas de Cabo Verde.

Claro está que este não foi o teor das tratativas exatamente
nas palavras dos negociadores em língua corrente Tupinambá
que, naturalmente, o capitão-mor português e seus oficiais presentes no Tenoné não entendiam bulhufas, 
mas sim o sentido consequente daquele acordo no futuro.

Valia o que os caciques consentissem conforme seus interesses:
assim ficava implícito que os Mair camaradas estavam caindo fora
as pazes com os inimigos Perós deveriam ser feitas
a fim de que a aliança anterior fosse continuada, está na cara:
a vantagem para a grande nação Tupinambá nem carecia dizer.

Já os padres franceses haviam diabolizado a santidade de Jurupari
e em vez de marchar contra os inimigos dos tupis 
rumo ao por do sol, o Araquiçaua sagrado onde por acaso 
se acharia a Terra sem Mal
La Ravardière ponha olhos grandes sobre o distante Rio da Prata
talvez retomando a ambição da França Antártica perdida.

Havia pouco tempo que nas bandas do Igarapé do Pery
e do Juçara, na ilha que veio a ser a Cidade do Pará, os franceses tiveram lugar para fazer a aldeia Mayri perto dali
convinha ao capitão-mor elevar o Presépio no outeiro
dado lhe parecer passar a linha extrema da posse portuguesa
fronteira com à parte espanhola dentro da União Ibérica.
Já na geopolítica Tupinambá viver não era preciso,
mas era preciso navegar o grande mar de água doce
até o fim do rio fosse ao lado francês ou português
escudados por arcabuzeiros a bordo de igaraçus...


Quatro séculos depois...

Onde está o povão tupinambá do Grão-Pará? Aí está ele: na feira, 
na beira dos rios, palafitas, barracas, cabanas do Guamá
Terra Firme, Icoaraci, Paracuri, Pratinha, Jurunas, Tenoné ainda
Esta gente ribeirinha junta e misturada com os antigos inimigos
Tapuias e os pretos vindos escravos antigamente, mais os brancos
de várias extrações
Ver o peso da lida pela hora da morte pra enganar a vida. 

Carece acabar a besteira de ter vergonha de ser descendente ameríndio.
Sem arcos e remos Tupinambás não haveria festa dos 400 janeiros
Não haveria, dizem Montaigne e Rousseau, a revolução francesa
Não haveria 'belle époque' da Borracha...
Não haveria Data Magna da Adesão à Independência do Brasil...
Não haveria entrada de Pedro Teixeira nenhuma...
Não haveria missão do Padre Antonio Vieira e pax do Marajó...
Não haveria Pará nem Amazônia Brasileira sem Tupinambá.

Eu e você não estaríamos aqui: tá ligado mocidade? 

 
  #somostodosTupinambá

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

SUMANOS CABANOS: 180 JANEIROS EM LUTA PELA CIDADANIA DO POVO DO GRANDE PARÁ.


O PARÁ SENTINELA DO NORTE (1835-1836), O POVO NO PODER.




CAMINHOS DA HISTÓRIA DO BRAVO POVO BRASILEIRO NA FRONTEIRA NORTE


Estamos apenas a um ano dos já badalados 400 anos de Belém do Grão-Pará. Como de costume, o povo assistirá bestificado à pletora de discursos e festividades laudatórias aos nossos antigos colonizadores e -- como sempre -- os paraenses originais, ditos "índios" como se não fossem ninguém, não serão lembrados a não para bater palmas e fazer cenário às autoridades e seus grandes convidados oficiais. 

Na festa Paris n'América dos 400 Anos ninguém vai dar pela falta dos negros com corda e baraço arrancados do seio da mãe África para vir derrubar mata virgem, cavar a terra bruta, queimar coivaras medonhas e plantar cana dos engenhos de açúcar moreno e aguardente. Nenhuma lembrança dos indesejáveis lusitanos filhos de Viriato, degredados e deportados da velha Europa por ser inconvenientes ao domínio romanizado da imperial aliança entre o Trono e o Altar; mandados os infelizes para cá a fim de clarear a raça inferior dos nativos e pretos. Sequer haverá um pífio pensamento de gratidão aos pobres casais dos Açores enganados com falsa promessa do paraíso na conquista do antigo Maranhão, que ainda se achava em odor selvagem, e os imigrantes deram a prole ultramarina da nossa nobreza brancarana papa chibé. 

Nossa honorável intelligentsia mantém ainda, depois de 'tonto' tempo; nota zero de admiração aos libertos engajados na luta da Abolição da escravatura, importada do Haiti através de Caiena ocupada (1809-1817) por tropas crioulas paraenses sob comando anglo-português, de regresso ao Pará. Pouco se há de falar da mestiçagem dos brancos que aqui adotaram pátria nova no berço de um novo povo, sob o sol do equador, através da mistura fina física, espiritual e cultural com negros e indígenas que, juntos e misturados, deram origem ao genuíno "parauara".

Pois é disto que se trata na Cabanagem geral desde os primórdios da revolta dos Tupinambás de Cabelo de Velha e Pacamão, em 1619, no Maranhão e Grão-Pará até ultimamente, na integração da Pátria grande latino-americana rumo ao futuro dos povos libertados do colonialismo acidental.


No fim da longa história da exploração do Homem pelo homem, quem somos nós de fato, os Paraenses? De que lado da História nós jogamos? Donde viemos e onde iremos agora em meio ao desnorteio global do século XXI?  

Esta é a Cabanagem que nos interessa para além do rancor e da dor na memória dos mortos do passados e pesadelo do apartheid social presente, onde se debatem os marginalizados e humilhados da ufana 7ª maior economia do mundo egoísta e desigual. Doravante, o que mais nos interessa é a justiça social e a paz a fim de superar todo inútil pensamento de vingança, animados pelo desenvolvimento solidário dos povos da África e da América Latina com redobrada fé no progresso dos Direitos Humanos Universais.

Não, não digam a seus filhos e netos que a Cabanagem se acabou no passado perdido, miseravelmente, com 40 mil mortos dentre escassa população de 100 mil almas nos idos de 1840. Desarticulada em meio a uma anistia de mentira e cheia de falsidades historiográficas, negada de pronto pelo relançamento do trabalho escravo oficial, do chamado "Corpo de Trabalhadores", recrutado manu militare.


Sim, o liberal paraense Bernardo de Souza Franco deve ser lembrado como pacificador do Pará. Todavia, o conluio neocolonial anglo-português da "data magna" de 15 de agosto ainda lança sombras sobre o destino manifesto do grande Estado do Pará, do Brasil sentinela do Norte. Foi lá, no Palácio do Governo [Palácio Lauro Sodré, atual Museu Histórico do Estado Pará], que o movimento paraense de 14 de Abril para Adesão à Independência do Brasil foi miseravelmente traído.

A tragédia do Brigue Palhaço, a mortandade de parte a parte, o genocídio cabano, a palhaçada traiçoeira do agente imperial inglês e a covardia dos coloniais portugueses; seriam evitados se o Rio de Janeiro conhecesse o verdadeiro Brasil do Oiapoque ao Chuí... Ou seja, se em vez da corte carioca mandar seus esbirros para oprimir e reprimir, houvesse confiado o governo das províncias a súditos naturais das mesmas regiões, como o caso do paraense Bernardo de Souza Franco, instruídos mais a ouvir o povo do que para reinar sobre ele.

É falsa a versão historiográfica plantada pelo império brasileiro de que o povo paraense queria se separar do Brasil. Pelo contrário, os mais antigos paraenses nativos vieram das ilhas do Caribe em busca da Terra Firme (continente) guiados pelo Arapari (consteleação do Cruzeiro do Sul). O presidente cabano Eduardo Angelim Nogueira repeliu abordagem inglesa, no caso do navio inglês Clio aprisionado pelos cabanos de Salinas com carregamento de armas e munição; típico do comércio das revoluções colônias, com que a pérfida Londres negociava com ambos lados para tirar máximo proveito do conflito. Também não seria difícil aos irmãos João Miguel e Germano Aranha, em contato com os Estados Unidos da América, obter apoio à independência da Amazônia, antecipando assim a república dos Estados Unidos do Brasil a começar pelo Cabo Norte.

Qual foi, então, o verdadeiro problema da Cabanagem paraense em relação ao império do Rio de Janeiro para ser  radicalmente votada ao extermínio? Enquanto, na contemporânea Farroupilha, a separatista República Rio-Grandense mereceu tratamento político e militar diferenciado possibilitando a reconciliação com menos traumas. 

Sabemos que o Império, com seu quartel-general na ilha de Tatuoca; não aceitou jamais negociar com as "classes infames" do Pará, filhas dos "Ajuricabas e Ingaíbas" como reza o proclama de Angelim proferido no átrio da igreja de São João Batista, na Vila do Conde donde mais tarde nasceria a Vila dos Cabanos; segundo o historiador oficial da Cabanagem, Domingos Antonio Raiol; convocando combatentes ao fulminante ataque a Belém.

Era, sem dúvida, o medo colonial duma região-chave da América do Sul, desconhecida, imensa, vista como inóspita e selvagem; que precisava aos olhos imperiais ser "esvaziada" de bárbaros para dar lugar a colonos confiáveis ao poder civilizador. A vizinhança das Guianas inglesa, holandesa e francesa era um perigo permanente. Numa palavra, o grande medo geográfico dos Trópicos na faixa equatorial onde mais carecia a escravidão do índio, depois do negro e por fim de seus descendentes tapuios, mamelucos, curibocas, cafuzos, mulatos, brancaranas, pardos e todas mais nuances racistas da inferioridade "racial" que habita a alma da colonialidade europeizante.

Esse grande medo e estranhamento do Brasil bandeirante a respeito do Norte e Nordeste ainda dificulta a plena integração nacional e promove a recolonização da Amazônia. Até hoje, a verdadeira data maior da Adesão do Pará à Independência se refere à Proclamação de Muaná, na Ilha do Marajó, em 23 de Maio de 1823. Pálida memória local desfocada do calendário cívico estadual ignorado pelo panteão nacional. Quem quer saber? Nem os descendentes dos "Ajuricabas e Ingaíbas" (nheengaíbas)...

Mas será preciso recuperar a verdade histórica para triunfo da reconciliação política com justiça e paz social. Dar lugar de destaque que a brava nação Tupinambá merece na invenção da Amazônia, sem a qual não se levantaria sequer a rústica paliçada chamada Forte do Presépio; levantar a ancestralidade da Cultura Marajoara prenhe de migrações antigas das Guianas além Oiapoque: com que se reafirma, a toda prova, nosso velho Porto Caribe muito antes de Colombo.

Consolidar, enfim, a fratura histórica exposta na arquitetura concreta de Niemeyer, no memorial da Cabanagem. Que o Museu Histórico do Estado do Pará (MHEP) venha a ser incorporado amanhã à Universidade do Estado do Pará (UEPA) e com o museu histórico o Palácio Cabanagem, inclusive, que após mudança da Assembleia Legislativa do Estado para suas futuras instalações, dará lugar a grande centro universitário de estudos da Amazônia sob todos aspectos desde o passado remoto até o próximo futuro desta singular região brasileira e sul-americana.



entre chuvas e esquecimento, que nem os abandonados sítios arqueológicos da milenar Cultura Marajoara -- primeira ecocivilização amazônica --, o Memorial da Cabanagem resiste ao tempo e à indiferença das classes dominantes do País. No entanto, como valente sentinela na guarita do Norte, o 'Dedo Decepado da História' acusa a elite brasileira no tribunal da consciência nacional.  Não importa se foi ou ainda será horrível demais a repressão imperial: a vitória popular é certa. A luta continua, agora, nas etapas elevadas da conquista democrática da participação popular em demanda dos frutos da sociedade a que a brava gente faz direito.