domingo, 29 de setembro de 2013

ALDEIAS URBANAS OU ECOS DO DIRETÓRIO DOS ÍNDIOS (1757-1798) NO SÉCULO 21


Ajuricaba, Cacique dos Manaus, Herói da Pátria Amada Brasil,
 guia libertário e protetor do desenvolvimento humano da Amazônia.


O Homem, "animal político" segundo Aristóteles, ser social por excelência (portanto, vivendo em comunidade ou na Pólis) saiu da história natural a cabo de milhões de anos desde a primeira célula orgânica no berço da Biosfera - lendária primeira noite do mundo na mitologia amazônica - para habitar a História da humanidade filha da animalidade, no dizer translúcido de Edgar Morin ao vencer a barreira escura da ignorância e da complexidade. 

Ao contrário de Nietzsche, para Morin Deus não está morto, muito pelo contrário: porém, no fim da história moderna o vencedor é o deus de Espinoza. Este judeu panteista excomungado de Jeová, para ser fiel à verdade, abraçou o velho Oriente e o moderno Ocidente construindo o primeiro pilar da ponte entre estes dois mundos diferentes. Desta maneira, antecipou o acordo da neurociência e o fim da guerra metafísica entre o Coração e a Cabeça. 

Isto é, Emoção e Razão habitantes dos respectivos hemisférios do mundo que se chama cérebro. O troféu da disputa poderá ser a Ecocivilização paratodos, a partir da Amazônia, segundo profecia racional do ecossocioeconomista Ignacy Sachs.

Segundo Sachs, "o desenvolvimento ambiental não pode ser dissociado das questões sociais e econômicas. Mas para haver uma relação de equilíbrio entre essas vertentes, é preciso intervenção do Estado para conter o mercado, que de forma geral não se preocupa com os custos sociais e ambientais" (entrevista à Agência Brasil, em 2012). Esta é a visão defendida por ele aos 85 anos de idade, há mais de 40 anos, considerado o criador do termo "desenvolvimento sustentável".
 
Por conseguinte, com exemplo do pragmático capitalismo de estado made in China ("não importa a cor do gato..." segundo o evangelho de Deng Xiaoping), a História mais que estudo do passado é consCiência (conhecimento compartilhado) do presente: compreende o passado e prognostica o avenir da humanidade, no curso dialético do espaço-tempo, a bordo do planeta Terra.

Todos estamos de acordo com o "desenvolvimento sustentável" da Amazônia. Desde o Papa Francisco até o pajé Chico, por suposto, na aldeia dos Tembé, no Alto Guamá, próxima à divisa do Maranhão e Pará. Porém, a porca torce o rabo quando se trata de saber de que "Amazônia" estamos falando.

Há várias Amazônias. Da pan-Amazônia até cada uma de tantas regiões amazônicas, como demonstrou o Barão de Marajó em sua obra clássica em fins do século XIX. Na minha humilde aldeia na Marambaia ou na antiga aldeia de minha avó na Mangabeira, até os peixinhos da beira do igapó sabem que a parte que me cabe neste latifúndio é a "Criaturada grande de Dalcídio" (populações tradicionais) que mora á margem da história da agora chamada Amazônia Marajoara.

Existe a Amazônia dos pobres cabocos ribeirinhos, dos povos da floresta, das Minas e Energia, do agronegócio, das empresas multinacionais... A Amazônia das Ong's, a Amazônia dos políticos de Brasília e dos empresários de São Paulo. A Amazônia planetária e a Amazônia batendo lata nas periferias da Periferia. E muito mais outras Amazônias reais ou imaginárias como o mito das amazonas.

Temos a Amazônia rural e do pessoal no mato sem cachorro. A Amazônia urbana, onde o asfalto e a selva de pedra vão alienando e a Amazônia suburbana, sem água e esgoto, onde caboco se acaba das "zonas" metropolitanas. Tais quais da Guerra de Iranduba (cf. José Ribamar Bessa Freire, no blogue Taqui pra ti). Na Amazônia, todos ou, pelo menos, a grande maioria de 25 milhões de habitantes, somos cabocos ("saídos do mato", caa bok), filhos de índio. Todavia, filho de peixe é peixinho... Logo, somos "índios" com muito orgulho.

Espera lá, menos verdade: com muito orgulho não! Aí é que mora o verdadeiro problema da Amazônia. Por que a Amazônia somos nós: além da grande floresta chuvosa, do boto cor de rosa, dos grandes rios, da formidável biodiversidade, das riquezas minerais, do "pulmão do mundo", etecetera e tal. 

Como então, na zona metropolitana dos Manaus, onde os filhos de Ajuricaba (outrora idolatrado pelo senado Artur Virgílho e agora esquecido pelo prefeito Artur Virgílio) foram despossuídos de suas terras, língua e cultura? Na zona metropolitana de Belém, também, descendentes dos tuxauas Cabelo de Velha e Guamã tiveram suas aldeias canibalizadas pela tal de civilização Pombalina (lembrai-vos do famigerado Diretório dos Índios!) e agora caras-pálida cariuás têm audácia de considerar esta gente como invasora de baixada, que antes não valia nada para os brancos. 

Com a lição de Eidorfe Moreira, em "Os igapós e seu apoveitamento", igapó morto vira baixada sob pressão demográfica. Invasão ocupada de palafitas por gente aflita pela falta de moradia na várzea onde vivia e donde foi expulsa pela mão pesada da grilagem e do latifúndio. 

Quando, na cidade humana, os igapós de Belém deveriam ser áreas verdes urbanas. Elemento natural da paisagem amazônica em equilíbrio com antigas aldeias preservadas, como seria o caso da Campina, tombada pelo IPHAN. Onde os índios tupinambá que ali viviam conheciam o valor que tinham os igapós como viveiro de peixes, aves, abelhas silvestres e muitos outros recursos da natureza. E hoje, 400 anos depois da conquista colonial, se tornaram problemas de saneamento e casos de polícia.

Enquanto a tragédia fundiária se agigante, juízes de primeira instância, o Judiciário inteiro a passos de cágado, a grande Imprensa puta da vida com embargos infringentes no mensalão, não se toca com a execução sumária de reintegração de posse contra o domínio do fato que está na cara de índio do povo das "invasões" e das "baixadas". A PM cara de índio dando porrada em gente cara de índio, povo invasor de cidades invasoras da Floresta... Fiquem com esta.







As chamadas "aldeias urbanas" ou índios na cidade

Stephen G. Baines (Depto. de Antropologia, UnB; pesquisador CNPq).

É muito comum ouvir a pergunta: "As aldeias urbanas são positivas ou negativas?" Parece-me uma pergunta mal-formulada, pois a questão das chamadas aldeias urbanas e índios citadinos abrange uma multiplicidade de situações diferentes, com histórias diversas de contato interétnico com as populações regionais, desde situações em que índios foram expulsos das suas terras até outras situações em que índios optaram pela vida na cidade em decorrência da falta de oportunidades de educação e atendimento adequado de saúde nas suas aldeias. A migração indígena para os centros urbanos ocorre de maneiras muito diversas, desde o traslado de grupos familiares para bairros onde já há um contingente grande de índios organizados politicamente até casos de migração de indivíduos para a cidade em busca de empregos, tratamento de saúde, educação ou um novo estilo de vida. Em outras situações a própria organização social indígena se configurou para formar grandes aldeias urbanas, como é o caso de alguns grupos Tikuna, no Alto Solimões, no estado do Amazonas. Também a pergunta popular quanto a "Se se consegue preservar a comunidade indígena no contexto da cidade ou se a comunidade é engolida no meio urbano" é, em grande parte, enganadora, baseada no preconceito humilhante de que o índio pertence à mata e deve permanecer na sua aldeia na mata. A situação dos povos indígenas no Brasil é marcada por preconceitos historicamente enraizados e situações de relações sociais de dominação-sujeição altamente assimétricas entre "índios" e "brancos".

Tentativas populares de argumentar que o índio na cidade "deixa de ser índio" são fruto de um preconceito altamente pejorativo quanto ao índio, que o congela no tempo e no espaço, colocando-o em oposição à vida urbana e relegando-o ao atraso, à pobreza e à ignorância. Preconceito que muitos índios têm internalizado em relação a si mesmos, como revela, por exemplo, o fenômeno do caboclismo na Amazônia (Cardoso de Oliveira 1964) e as três dissertações de Mestrado orientadas pelo Professor Roberto Cardoso de Oliveira, sobre índios na cidade, escritas dentro do Programa de Pós-Graduação em Antropologia da UnB, em 1982, sobre Índios do Alto Rio Negro em Manaus (Figolí), Apurinã na cidade de Manacapuru (Lazarin), e Sataré-Maué em Manaus (Romero). Atualmente os Sateré-Maué, em Manaus, são bem organizados e um grupo, que mora na área verde do Conjunto Santos Dumont, está reivindicando uma escola indígena diferenciada. O livro do Professor Roberto Cardoso, Urbanização e Tribalismo (1968), sobre os Terêna de MS, aponta para a complexidade da situação do índio na cidade, onde hoje há grandes comunidades indígenas em Campo Grande e Dourados.

De fato, muito pouco se sabe sobre os índios citadinos no Brasil e falta realizar mais pesquisas etnológicas de longa duração sobre as múltiplas facetas desta questão. Nem se dispõe de dados confiáveis sobre o número de índios na cidade. Estimativas da população indígena nas cidades do Brasil variam muito. Estatísticas recentes do Instituto Socioambiental estimam que haja cerca de 350 mil índios (Ricardo 2000:15) no Brasil e, segundo Márcio Santilli, "Talvez sejam uns 50 mil os índios urbanos, ou mais..." (2000:15-16). A dificuldade de estimar a população indígena nas cidades está diretamente relacionada aos critérios usados. O Artigo 3 do Estatuto do Índio (Lei No. 6.001, de 19 de dezembro de 1973) define o índio como "todo indivíduo de origem e ascendência pré-colombiana que se identifica e é identificado como pertencente a um grupo étnico cujas características culturais o distinguem da sociedade nacional", e a Constituição de 1988 reconhece as "sociedades indígenas" como coletividades situadas entre os índios, enquanto indivíduos e cidadãos brasileiros, e o Estado. Contudo, apesar do índio ser uma identidade legal acionada para obter reconhecimento de direitos específicos, a identidade nas cidades é freqüentemente escamoteada como estratégia adotada para escapar dos preconceitos e estigmas. A identidade indígena nos centros urbanos configura-se nitidamente como uma identidade social contextual. A mesma pessoa pode se considerar indígena em alguns contextos, e não em outros, ou apelar a outras identidades genéricas geradas historicamente em situações de contato interétnico, como caboclo, índio civilizado, descendente de índio, remanescente, índio misturado etc.

Acelerou-se, nas últimas duas décadas, o processo de emergência de novas identidades e a reinvenção de etnias já reconhecidas, sobretudo no Nordeste do Brasil, mas também em outras regiões. Embora a maioria destas populações habitem áreas rurais, outras, como os Tapeba de Caucaia, um bairro de Fortaleza, são citadinos. Com um processo de reidentificação indígena de populações urbanas, a população total de indígenas citadinas está crescendo muito rapidamente. Na cidade de São Paulo, estima-se que haja mais de 1.000 Pankararu, do estado de Pernambuco que vivem em favelas como a Real Parque e Paraisópolis, no bairro de Morumbi. Os Pankaruru iniciaram sua migração de cerca de 2.200 km para a cidade de São Paulo depois que populações rurais não indígenas invadiram suas terras, no município de Tacaratu, interior de Pernambuco. Conforme um líder urbano, apesar de haver migração Pankararu para a cidade de São Paulo desde as décadas de 1950 e 1960, em 1990 eram apenas 150, com o número crescendo rapidamente em conseqüência da expulsão de suas terras. E, assim, como muitos nordestinos pobres que buscavam vida melhor na cidade, viram-se obrigados a juntar-se à massa de subempregados das favelas, a maioria dos homens vivendo da renda obtida na construção civil, as mulheres como empregadas domésticas. Uma Associação SOS Pankararu foi criada em São Paulo em 1994.
A própria política indigenista tem contribuido à migração para as cidades. A ideologia do SPI visava a uma pressuposta integração rápida dos índios à sociedade nacional, o que favorecia o estabelecimento de áreas reduzidas para os índios e a liberação das demais terras para ocupação pelos brancos. Afirma João Pacheco de Oliveira que em muitas regiões do Sul do país, como em Mato Grosso do Sul, "as áreas estabelecidas pelo SPI são muito menos uma reserva territorial do que uma reserva de mão-de-obra, passando a ser uma característica dessas regiões formas temporárias de trabalho assalariado..." (1998:34). A falta de terras adequadas para sua sobrevivência é um dos fatores que leva à migração indígena e à busca de trabalho assalariado em fazendas e cidades.

Em 1981, o líder Tukano Álvaro Sampaio denunciou os salesianos no Alto Rio Negro por estimularem a migração para as cidades da Colômbia, por falta de oportunidades de trabalho na região e por não aceitarem a dominação salesiana (1981:25). Além disso, Sampaio denunciou o envio de meninas indígenas, pelas freiras, para trabalhar no colégio de freiras em Manaus e como empregadas domésticas nas casas dos oficiais da FAB, algumas das quais se envolviam em prostituição (1981:38-41).

No estado de Roraima, que tem 42% de seu território habitado por populações indígenas, que somam cerca de 35 mil pessoas ou 16% da população total, estas enfrentam problemas que se agravaram nos últimos anos, com a política de incentivo à migração desenfreada desenvolvida pelos governos federal e estadual, de colonos não-indígenas. Segundo o líder Makuxi Euclídes Pereira, "A intensidade das migrações pode ser sentida através do número da população que quintuplicou em 20 anos, passando de 40.885, em 1970, para 215.950, em 1991 (IBGE, 1993)" (1996:166), chegando a números que variam entre 250 e 300 mil em 2001. Em 1994, estimou-se a população indígena em Boa Vista em cerca de 12 mil (Namem et.al., 1999), embora o número certo seja desconhecido, e abrange um contingente grande de índios que migrou da República da Guyana. Namem et. al. afirmam que "a grande maioria dos entrevistados disse que os deslocamentos e a migração para Boa Vista se devem à busca de trabalho e estudo (...) uma vez que as condições de vida nas áreas indígenas são precárias e que não existem escolas de 2o grau, (...) Essa busca de trabalho e estudo vem acompanhada por um sentimento de que a vida tende a melhorar a partir da experiência na cidade" (Ibid). Acrescentam que as posturas diferenciadas entre a Igreja católica e as Igrejas protestantes "estariam gerando muitas desavenças entre os indígenas, e levando vários deles à cidade", e que o governo do estado, "em 'troca' de projetos agrícolas (...) estaria logrando cooptar índios em certas áreas indígenas, gerando desentendimentos e provocando deslocamentos e migração para Boa Vista" (Ibid). Além destes fatores, afirmam que "Alguns dos índios entrevistados alegaram que o conflito em torno dos processos de demarcação das áreas indígenas é um fator que influencia no deslocamento e na migração para Boa Vista" (Ibid), além de motivos pessoais, e a vinda para a cidade para participar no movimento indígena. Dados coletados na University of Guyana revelam que "as mulheres que vêm ao Brasil trabalham sobretudo como empregadas domésticas, cozinheiras, garçonetes e babás, (...) quase sempre informalmente" (Ibid), e que aceitam baixos salários, "além de desconhecerem os direitos trabalhistas" e serem estigmatizadas como índias.

Em pesquisa recente iniciada na fronteira do Brasil e a Guyana, e na cidade de Boa Vista, depoimentos de Makuxi, Wapixana, Patamona/Ingarikó e Taurepang revelam que até a independência da Guiana Inglesa havia um processo de migração indígena de Roraima para a Guiana. Após a independência da Guiana em 1966, conflitos políticos naquele país que atingiram a região fronteiriça com Roraima em 1967 e uma deterioração crescente nas condições de trabalho, que coincide com o crescimento rápido da cidade de Boa Vista, a migração se inverteu, com migrações de indígenas, sobretudo da região fronteiriça da Guiana para as cidades de Boa Vista e Manaus. Estimativas mais recentes sugerem que a população indígena em Boa Vista pode ser de 15 ou 20 mil, e a COIAB estima entre 15 e 20 mil índios em Manaus, havendo casos de pessoas de vários grupos étnicos na mesma família e pessoas que se dizem índios mas não sabem dizer de qual etnia. Muitos índios de origem guianesa estabeleceram-se nos bairros mais pobres e periféricos de Boa Vista como Pintolândia e Raiar do Sol, além de uma comunidade sobreviver na lixeira da cidade. Eneida Assis constatou que na cidade de Altamira há cerca de 1.800 índios, de 9 grupos étnicos. Peter Schroeder afirma que na cidade de Lábrea, no rio Purus, a população indígena pode chegar a 25% dos 16 mil habitantes.

A Constituição de 1988, ao reconhecer o direito dos índios de se representarem juridicamente, resultou na criação de dezenas de organizações indígenas e numa mobilização política indígena sem precedentes. Como conseqüência da sua própria mobilização política, um número crescente de líderes indígenas está migrando para as cidades para participar do movimento indígena, e muitos jovens indígenas estão migrando para estudarem e se prepararem para enfrentar a sociedade nacional. Apesar de algumas conquistas em nível local para aliviar as condições difíceis que a maioria das populações indígenas enfrenta e tentativas por parte de muitas sociedades indígenas de se organizarem dentro das suas terras, as tendência atuais de governo impor políticas neoliberais apontam para um crescente desafio para as sociedades indígenas frente ao agravamento das desigualdades econômicas e sociais.

Revista Brasil Indígena - Ano I - Nº 7 Brasília/DF - Nov-Dez/2001

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

DIPLOMACIA POÉTICA DA INFÂNCIA E MATURIDADE DA AMAZONIDADE


poeta Thiago de Mello: cidadão planetário porta-voz da amazonidade
não traz caminho novo para o povo, mas um jeito novo de caminhar com a humanidade


Mensagem dos velhos amigos da Academia do peixe frito à senhora avó do menino Gabriel.


Pré-sal à parte (royalties e dividendos à saúde e educação das novas gerações de brasileirinhas e brasileirinhos), não é segredo que serviços secretos já não saibam, com a CIA e companhia à proa: a "menina dos olhos" da Presidenta Dilma - avó mais famosa e durona dos países em desenvolvimento - é, precisamente, o programa nacional de creches - proInfância - espalhadas em todos municípios deste país-continente. 

Esperando que adversários do governo federal não acusem de "nepotismo" afetivo à Dilma Rousseff, por motivo de seu neto Gabriel fazer parte da infância do país, nem de populismo a preferência presidencial para implantar creches do PAC de olho nos votos de pais e avós da molecada de periferia das grandes cidades e dos sertões do Brasil: a gente se apressa em sugerir ao MEC que promova, na rede de campi das universidades públicas em cooperação com municípios criativos; mini-cidades ou aldeias modelo onde os dois extremos da vida humana se complementem.

Por amor às nossas criancinhas e velhinhos, não poupemos utopia e sonho! A terceira idade sem rendição aos rigores do tempo e desilusões da vida, face à compartilhada inocência da criançada, faça constância do Paraíso na terra. Que idosos indomáveis não deixem jamais apagar a chama da criança que mora em cada ser humano como se fosse, de verdade, um deus vivo no templo mais íntimo do indivíduo protegido pelos Direitos Humanos de todos. 

Por outra parte, na mesma humanidade, todos e todas não se deixem vencer pelo medo da violência e da miséria deixando furtar das crianças o Jardim do Éden; recuperado na poesia humanista de Milton, em Paraíso Perdido. Sim, a tecnoburocracia moderna corrompida por séculos de servilismo, mercantilismo e guerras de conquistas sob tirania do deus-Mercado não tem graça e precisa agora ser empoderada pela poesia e criatividade libertadora do Homem e protetora da Biosfera.

Vejam, por exemplo, a bruta notícia de que seis dos municípios de pior IDH do Brasil não aderiram ao programa Mais Médicos, como é possível? Dentre estes relapsos o município de Chaves, que é remanescente de antiga aldeia dos índios mais valentes do Marajó, os famosos Aruãs que se destacaram na história como lutadores contra tudo isto que fez a pobreza da brava gente marajoara. Como diz a canção "Belém-Pará-Brasil", da banda Mosaico de Ravena, "a culpa é da mentalidade"...

Mas a gente tem que se levantar: avós unidos pelo futuro dos netos e netas do Brasil jamais serão vencidos! E a arma da velhice seja antes de tudo a Poesia. Uma arma poderosa como provam descendentes de Ajuricaba e Cabanos, tais como o invencível Thiago de Mello e muitos outros poetas amazônidas.

quando a arte do diálogo é mais forte que as muralhas

A China e o Japão, como muitos outros países fronteiriços, durante muito tempo tiveram uma vizinhança conflituosa. Ao mesmo tempo que juntos os dois países asiáticos desenvolveram maravilhas do mundos, também se flagelaram mutuamente com diversas guerras e ódios recíprocos levando destruição e humilhação um ao outro, o que culminou com os horrores da II Grande Guerra Mundial.

Pois bem, em todo mundo o ano de 1968 deixou marcas profundas. Para muitos, no Brasil em 1968 com o AI-5 começou de fato Ditadura que o grupo liderado pelo general-presidente Humberto de Alencar Castello Branco pretendera fosse limitado a breve intervenção militar a fim de convocar eleições democráticas devolvendo o poder aos civis. Nos Estados Unidos, naquela década, o movimento hippie com seu lema de 'Amor e Paz' ("faça amor, não faça guerra") promovia uma revolução sem precedentes, que iria determinar inclusive o fim da guerra do Vietnã. E na França jovens estudantes amotinados nas ruas iriam levar o gaulismo centralizador ao fim.

No mesmo tempo, no outro lado do mundo, um jovem advogado japonês crítico do militarismo em geral e particularmente do imperialismo nipônico, chamado Daisaku Ikeda; iria modernizar a organização não-governamental de budismo laico dita Soka Gakkai ("sociedade criadora de valores") dizendo que o verdadeiro budista não deve "fugir" do mundo, mas sim mudá-lo. Aquele jovem idealista e corajoso tornou-se herdeiro de uma escola de reformadores da Educação que pagaram com a própria vida e a perda de liberdade pela ousadia de pensar diferente do establishement de sua nação e do resto do mundo. Ideologia de uma época de terror que ficou na memória das nações pelo crime de lesa humanidade no Holocausto e a indignidade das bombas atômicas de Nagasaki e Hiroxima.

Acreditando nas qualidades do Diálogo e do internacionalismo como instrumento de entendimento mútuo e cooperação entre os povos, o jovem Ikeda conseguiu projetar internacionalmente a outrora doméstica e controversa "Sociedade Criadora de Valores", desde então Soka Gakkai Internacional (SGI), hoje creditada junto à ONU dentre outras ONGs como consultora de voluntários para a Paz mundial. 

Mas a prova de fogo do jovem poeta e advogado Daisaku Ikeda foram as seculares relações inamistosas entre a China e o Japão, fazendo com que a diplomacia da SGI para a Paz e amizade entre os povos se destacasse de maneira extraordinária. Contribuiu particularmente para isto o fato de Chou Enlai, o primeiro-ministro chinês na época; ser profundo conhecedor da cultura japonesa convergindo nos mesmos propósitos em mostrar a face pacífica do gigante amarelo.

A amizade pessoal e admiração mútua entre Chou Enlai e Daisaku Ikeda foram o esteio soft onde a pesada herança das fronteiras sino-japonesas se apoiaram a fim de mudar as piores perspectivas de desconfiança e competição irracional. 40 anos desta história, que merece ser conhecida em todo mundo, foram contados em livro originalmente em chinês e depois traduzido, em 2011, em japonês. Entretanto, Ikeda e a SGI foram duramente criticados no Japão e em meios estrangeiros militaristas, todavia, em 1972 - quando o anticomunismo na América Latina atiçava e alimentava diversas ditadura militares com a famigerada Operação Condor, violadora contumaz dos Direitos Humanos Universais, e a repressão militar no Brasil atingia o paroxismo - a China comunista e o Japão capitalista, quatro anos após a iniciativa Chou Enlai - Daisaku Ikeda; restabeleciam relações diplomáticas.

" ... Somos todos humanos, partilhamos uma humanidade comum que é a mesma em russo ou chinês. É importante ser capaz de compartilhar sinceramente pensamentos sobre questões como a paz, a educação, o mundo. De outra maneira a discussão torna-se puramente política, uma questão de poder, de quem é fraco e quem é forte. É fundamental que, de alguma forma, quebremos este ciclo destrutivo”. (Dasaiku Ikeda).

Tal é o cerne do pensamento de Ikeda à frente da SGI em sua forma de pensar a diplomacia humanista cidadã do pós-Guerra. Desde cerca de 1960, o premier Chou Enlai instruíra seus assessores a buscar informações sobre a SGI. Foi assim que Ikeda visitou a China pela segunda vez e se reuniu com Chou Enlai, embora o primeiro-ministro chinês estivesse internado com câncer terminal naquele momento. O teor do diálogo entre os dois humanistas deixou clara a disposição de ambos em prosseguir sem descanso na causa da paz entre os dois antigos povos da Ásia. Uma amostra do sucesso dos esforços empreendidos para a Paz foi a criação da Associação de Amizade China-Japão. 

A memória deste feito vem aqui a lembrar, mais uma vez, que se uma região do mundo separada por ódios de fronteira tão graves pode estabelecer pontes de reconciliação e amizade, como o caso sino-japonês, por exemplo. Menos difícil será construir a cooperação e amizade entre diferentes regiões dos países amazônicos, se houver diplomatas da amizade e da paz como o poeta da amazonidade, Thiago de Mello, membro proeminente da SGI, com sede em Manaus-AM. Isto que nós chamamos, por acaso, ajuricabano: movimento de união e amizade dos filhos de Ajuricana na nova Cabanagem que é a democracia solidária (novo jeito de encaminhar a História).

cada cidade seja um campus e cada campus uma cidade humana onde juntos crianças e velhos façam escola.

O Ministério da Educação (MEC) pretende acelerar a construção de creches e pré-escolas do programa federal ProInfância. A meta de construir 6.427 estabelecimentos de educação infantil até 2014. O investimento será de R$ 7,6 bilhões, recursos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). Devemos aplaudir o MEC, porém não podemos perder ocasião de dizer que as universidades federais não podem perder de vista que o ProInfância e UNATI dialogando entre si podem reunir o útil ao agradável. Ou, como se diz no popular, reunir a fome com a vontade de comer.

Já dissemos que o nosso pobre Marajó deve ser visto em todo Brasil como oportunidade de um campus-arquipélago inter-universitário. As grandes cidades da Amazônia Legal ligadas pelo programa "Universidade Aberta à Terceira Idade - UNATI" praticar o Diálogo entre velhas gerações da amazonidade com o pensamento fixado nas futuras gerações. Que creches e pré-escolas possam ser beneficiadas pelo savoir faire dos idosos numa convivência amorosa entre as duas idades - o começo e o fim - do ser humano. Deste modo, "aldeias" e mini-cidades criativas possam ser laboratórios vivos da Educação do cidadão do amanhã.




segunda-feira, 23 de setembro de 2013

POBRE MUNDO DESENVOLVIDO


Nelson Mandela: símbolo mundial de Paz e Reconciliação.


A URGÊNCIA DE UM PLANO DE RECONSTRUÇÃO DO TERCEIRO MUNDO E REDUÇÃO DAS DISPARIDADES ENTRE REGIÕES NACIONAIS PARA ELIMINAÇÃO DO APARTHEID GLOBAL ENTRE POBRES E RICOS.

A última semana terminou viciada em rock no Rio de Janeiro, com mais fechadura monetária na reeleição sem surpresa na Alemanha de Angela Merkel, a mulher mais poderosa do mundo segundo a Mídia; e terrorismo em Nairobi com enredo pronto para mais um filme do cinema de violência na eterna luta entre o Bem e o Mal (o diabo é distinguir claramente de que lado se encontram os bons e os maus).

No decorrer do período com secas, chuvas e tempestades, a guerra-civil na Síria continuou na ordem do dia com seus crimes contra a humanidade - de parte a parte - a provocar a volta da Guerra-Fria; houve mais um tiroteio maluco com mortes de inocentes desarmados nos Estados Unidos com seu estúpido comércio de armas prêt à porter; as damas de luto da Globo insatisfeitas e ansiosas pela demora em ver Zé Dirceu na cadeia, com culpa ou sem culpa, à força da teoria do Domínio do fato (teoria nazista que nem a Alemanha usa, informa o insuspeito jurista conservador Ives Granda) e o Papa Francisco continua a fomentar o purgatório da Cúria chamando desta feita para rezar juntos em Roma o peruano Gustavo Gutierrez, pai da condenada Teologia da Libertação - ou seja, da opção preferencial pelos pobres -, antes silenciado com seus seguidores por decreto papal de João Paulo II e Bento XVI. E, ato contínuo, Francisco fustigou mais uma vez o "deus Dinheiro"... O Rio de Janeiro continua lindo, todavia a polícia pacificadora carioca continua sem dizer patavina sobre onde o ajudante de pedreiro Amarildo está... E lá vamos nós felizes da vida para a Copa do Mundo de Futebol e as eleições gerais de deputados estaduais à presidente de la república. E Deus nos livre que Dilma venha ser despejada do Alvorada nessa história (mal com ela, pior sem ela).

Mas, em menos de 24 horas, tudo isto já é passado... E a segunda-feira em Nova Iorque começa com a ONU a dizer para a cidade e o mundo entre guerras e recessão, que a Pobreza vai continuar em alta. Até 2030 a previsão de que não serão menos de 300 e tantos milhões de seres humanos abaixo da linha de pobreza extrema. Se o cenário piorar, então, poderemos chegar até a 1 bilhão de párias na Terra. 

Belo espetáculo! A gloriosa Civilização que espiona os confins do sistema solar e aprendeu a medir a temperatura do núcleo do astro do dia chegando até à "partícula de Deus" (bóson de Higgs) com a invenção do acelerador de energia em miniatura do Big Bang; mostra-se, entretanto, política e socialmente incapaz de reduzir a Pobreza a um nível planetário decente para a orgulhosa espécie autodenominada Homo sapiens! Uma vergonha, seja para os tais detentores do prêmio Nobel ou para qualquer pessoa sabendo ler e escrever.

A China e o Brasil são apontados como os dois países que mais tiveram êxito na redução da pobreza extrema. Todavia, mesmo neste caso o resultado está longe de constituir uma vitória. Ali os chineses alcançam o desenvolvimento ao custo de uma expansão industrial que se sustenta da extração de recursos não renováveis na África, América Latina e outras regiões menos desenvolvidas. Aqui os brasileiros vão melhorando ao preço da exportação de minérios e do agronegócio agressivo contra direitos humanos de populações tradicionais e devastação do meio ambiente, um progresso que não é sustentável a longo prazo.



O RICO "CELEIRO DO MUNDO" E SEU POVO EMPOBRECIDO PELO DESENVOLVIMENTO ALHEIO.

A pobreza e a devastação do meio ambiente na Amazônia foram importados do exterior e o crescimento da dita pobreza e devastação continuam sendo reproduzidas pelo "modelo" de desenvolvimento nacional.

O célebre mandamento da Ditadura na construção da rodovia Transamazônica ("homens sem terra para terras sem homens") não é apenas o rompante de um general comovido com o drama secular da seca no Nordeste. Esta frase expressa uma antiga doutrina, também ela importada das assombrações colonizadoras e imperiais do Ocidente e Oriente. A psicanálise da História e arqueologia das ideias podem esclarecer muita coisa do presente e prevenir o futuro.

Os pobres do mundo sempre são os últimos que falam e os primeiros que apanham. Mas, sem os pobres da Terra, os ricos ainda que servidos de um exército de robôs teriam que sofrer uma adaptação dramática em seus hábitos de produção e consumo. A magia do cartão de crédito e da moeda perderia grande parte de seu poder sobre as massas iludidas pela Propaganda do famoso "pão e circo". Uma espuma monetária que não faria mais o menor sentido.

no fim da história do capitalismo Malthus rirá por último ou Marx terá sua última chance ?


A população economicamente ativa da Terra (está na hora de ver que a "riqueza das nações" não é tão nacional assim, desde que a Inglaterra detonou a autonomia econômica do Paraguai, no século XIX, para o que os "voluntários" da Pátria foram convocados a ir à guerra no país-irmão) tem que suportar sobre os ombros, como Atlas ao mundo, carga crescente para sustentar a infância em número decrescente, porém compensada pela longevidade dos idosos. Imaginar que as máquinas controladas por robôs podem substituir a classe dos trabalhadores não é uma utopia, é uma loucura.

Os ridicularizados programas brasileiros Fome Zero e Bolsa Família, pela elite tupiniquim, chamam atenção mundial. A diplomacia do Brasil emplacou a FAO e a OMC respaldada pela maioria de países do sistema da ONU contra votos de países-membros que insistem na velha divisão internacional do trabalho e se opõe, na prática, à reforma da ONU que faz unanimidade no discurso oficial a cada rodada solene da Assembléia-Geral. 

Mas, enquanto a OMC está travada pela pressão das empresas transnacionais, notadamente em matéria de transferência de tecnologia e comércio de produtos agrícolas; a FAO informa que a tecnologia disponível é bastante para alimentar toda população da Terra até cerca de 2050. E aqui os brasileiros precisam ver que, estrategicamente, a EMBRAPA supera a Petrobras, com pré-sal e tudo mais.

Neste horizonte, caso a evolução demográfica atual seja constante, a população humana do planeta estará em torno de 7 bilhões de pessoas e começará a se estabilizar inicialmente e decrescer em seguida. Nada garante que, até lá, não aconteçam bruscos incidentes de percurso (guerra atômica, epidemias por doenças desconhecidas, catástrofes naturais).

O Brasil investe, aproximadamente, US$ 4 mil por pessoa/ano em programas de combate à pobreza, segundo o relatório “Investimentos para acabar com a pobreza”, da organização Iniciativas do Desenvolvimento. Nosso país ocupa o 12º lugar entre 148 países em desenvolvimento. O Brasil aparece, ao lado da China, como país de “grande progresso na redução da pobreza”.
“Durante períodos de crescimento econômico rápido e sustentado, ambos (os países) reduziram dramaticamente o número de pessoas em extrema pobreza. Os recursos do governo também subiram rapidamente, para US$ 4 mil por pessoa no Brasil e US$ 1.760 na China”, diz o relatório, aduzindo que as perspectivas para erradicação da pobreza no Brasil "são boas", lembrando ainda que em 2000 o Brasil gastava US$ 2.730 em programas sociais para reduzir a pobreza.

Do conjunto de 38 países em desenvolvimento com gastos anuais acima de US$ 2 mil por pessoa, o Brasil fica com cerca de um terço da população. Ou seja, 12 milhões sobre 30,1 milhões de pessoas. O documento coloca o Brasil como referência mundial em política de transferência de renda. O foco de tais programas de transferência de renda, segundo o documento, ajudou na redução das desigualdades sociais e regionais. Destaca, no entanto, que apesar dos programas de transferência de renda, os fatores mais importantes para a redução da pobreza foram geração de emprego formal e a política de fortalecimento do salário mínimo.

O que será o amanhã?

Visto de fora para dentro o Brasil está bem na foto, apesar da contra propaganda feita através da "grande" mídia "nacional"... De dentro pra fora - no ponto de vista do povão das periferias, altos rios e sertões - a coisa começou a melhorar, masporém ainda falta muito. Os direitos humanos dos povos tradicionais (índios, quilombolas, ribeirinhos, sertanejos, pescadores artesanais...), por exemplo.

Qualquer país na situação do Brasil poderia escolher uma de suas regiões com pior IDH a fim de dar demonstração efetiva de redução drástica da Pobreza, proteção do Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável. O arquipélago do Marajó, por exemplo. 

Aliás, os chamados Planos de Desenvolvimento da Amazônia imitaram o modelo norte-americano do Tennessee Valley Authority (TVA), corporação federal dos Estados Unidos criada em 1933, para desenvolver a região do Tennessee durante a Grande Depressão. Capitalismo estatal na veia - que nem a invejável China de hoje -, quando até mesmo na terra de Tio Sam o Consenso de Washington ainda não havia imposto sua macumba ao resto do mundo. O TVA foi concebido como agência de desenvolvimento econômico regional para modernizar rapidamente a economia e a sociedade da região. Nunca foi o caso da nossa célebre SUDAM, por exemplo, que fez renúncia fiscal para incentivar empresas estrangeiras, inclusive, derrubar a Floresta Amazônica e fomentou trabalho escravo e outras coisinhas mais.

Uma demanda da sociedade civil através dos bispos católicos da Diocese de Ponta de Pedras e Prelazia do Marajó, em 2006, foi atendida pela Presidência da República mediante o "Plano de Desenvolvimento Territorial Sustentável do Aquipélago do Marajó - PLANO MARTAJÓ", em 2007. Todavia, longe deste plano ter sido uma intervenção federal como era esperada, um TVA marajoara para o maior arquipélago (que é mais que ilhas, posto que metade é faixa continental) fluviomarinho do mundo, no delta-estuário da maior bacia fluvial do planeta; esbarrando em mil e uma dificuldades ele figura até o momento como um parto da montanha. E o resultado deste vacilo federativo está expresso na lista dos municípios brasileiros de pior IDH, o pior de todos eles sendo Melgaço, um município fundado em 1659 pelo Padre Antonio Vieira, como aldeia de Aricará elevada, em 1758, como vila no contexto da expulsão dos Jesuítas de Portugal e suas colônias.

Certamente, a tecnoburocracia de Brasília e Belém ignora estas coisas estúrdias que se caíssem em concursos públicos derrubariam milhares de candidatos. E a Universidade lato senso não tem interesse acadêmico para tanto, sempre ocupada por assuntos mais supimpas para prestígio de carreiras que pouco impacto tem para as populações mais pobres.

Muita gente preocupada com 2014 e a refundação do PT como âncora da coalizão de centro-esquerda que governo o país. Porém é preciso sondar o futuro para além de 2018 e talvez fosse melhor para a Democracia Brasileira refundar o MDB na expectativa de vir sair deste novo MDB lideranças políticas que o Povo Brasileiro reclama: o PMDB que aí está se tornou um partido-ônibus do interior. Mas deveria preparar-se para o "campenonato" mundial numa eventual e até desejável alternância de poder, que hoje está longe de assumir, dentro do governo, em melhores condições que qualquer partido conservador de oposição. 

Voltamos a apontar à oportunidade do pobre, isolado e quase desconhecido Marajó como projeto-piloto de desenvolvimento regional sustentável, capaz de se tornar referência regional e internacional. Dizemos isto, com a larga experiência das últimas décadas, certos de que os arrogantes donos do Poder e seus incompetentes e vaidosos conselheiros não estão nem aí para coisas visionárias como estas. Segundo eles, os cães ladram e a caravana passa. Emendamos nós, segue a carruagem da presunção direto ao fiasco da perda de tempo e dinheiro público. Então, a esperança que venceu o medo perde também a paciência...

Merkel reeleita pela civilizada Alemanha assustada com o naufrágio da Europa segurando as pontas da austeridade, significa dizer que os emergentes BRICAS são a tábua de salvação dos juros altos para manter bancos europeus respirando. O trânsito engarrafado de automóveis pelo crediário nas cidades brasileiras movidas à publicidade remete lucros às donas das marcas no exterior e segura as contas dos jornalões de oposição ao governo... 

Entende? Sem reeleição de Dilma e sua política de transferência de renda, o fator de incerteza aumenta em todas latitudes da globalização sem fronteiras. Tempo para manter rumos - como diria o general-presidente Geisel - para "abertura lenta e gradual" de perspectivas... Se o Brasil chinar demasiado à esquerda haverá choro e ranger de dentes, se cambar demais à direita haverá estouro da boiada... 

Segura peão! Daí que Aécio das Neves quer conversar com todo mundo, mas pouca gente quer conversa com o neto de Tancredo ou com o neto de Arraes. E os outros pretendentes ao Planalto já disseram do que são incapazes... Marina, por exemplo, perdeu o barco da história no primeiro estirão do rio das Amazonas abaixo.

Mas, neste novo mundo pós-colonial em marcha para o multilateralismo, proteção da biodiversidade, diversidade étnica e cultural, há espaço à desconcentração urbana, autogestão local, agroecologia familiar, microcrédito; economia solidária... Em suma, capitalismo estatal para revigoramento dos municípios menos desenvolvidos. Educação continuada e promoção de universidades de terceira idade nos lugares mais carentes em todo mundo. Todas essas utopias possíveis proclamadas pelo Fórum Social Mundial dialogando inteligentemente com Davos.

Não é apenas a direita que tem que descer do salto alto. A esquerda também precisa fazer autocrítica e avançar para um amanhã mais justo e seguro para todos. O povo está farto de guerras e heróis mortos. Carece agora se empoderar da Democracia a fim de que esta, como diz Mandela, deixe de ser uma "concha vazia". Afinal de contas o povo no poder deve ser algo mais que um simples slogan político ou um mote revolucionário.

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Idosos de todo mundo, uní-vos! A Humanidade e o vasto mundo estão em perigo face ao homem.

Thiago de Mello - Poeta universal da amazonidade,
autor do poema 'Os Estatutos do Homem'.                



APOSTILA DE AMAZONIDADE
Amazonizando o Brasil desde a Amazônia Legal




Urge inventar e conjugar o verbo amazonizar. Eu amazonizo, tu amazonizas, nós amazonizamos o Brasil: do Oiapoque ao Chuí, da ponta do Seixas até a serra do Divisor. O Brasil, maior país amazônico da Terra, amazonizará o mundo. Estamos combinados? Então, vamos lutar a fim de colocar nosso país na liderança mundial do Desenvolvimento Sustentável pelo concurso das pessoas idosas nas comunidades amazônidas.

Relançar e interpretar o sonho do seringueiro Chico Mendes apropriado por seu próprio povo sem deixar a bandeira do “empate” em mãos estranhas: bom motivo para fazer valer a rede brasileira de reservas da biosfera, com destaque à Reserva da Biosfera da Amazônia Central, que anda meio no mato sem cachorro. Pelejar pelo reconhecimento futuro da Reserva da Biosfera Marajó-Amazônia, cobrir com esta em sua etapa final a totalidade de manguezais da costa do Nordeste Paraense e das Guianas inclusive.

Claro que as raízes bandeirantes do Gigante estremecem só de ouvir conversa como esta. Mas, é preciso fazer saber que a era negreira da “plantation” já passou. E que o apartheid entre o morro e o asfalto, o sítio e o edifício de condomínio vai acabar. Doravante só o futuro nos interessa e a agricultura orgânica familiar será a salvação da lavoura. Inclusive em meio urbano e periurbano o verde de hortas e pomares há de ocupar o arranha-céu. Segurança alimentar integrada à saúde preventiva em primeiro lugar na sociedade local autogestionária conectada a um milhão de aldeias do vasto mundo.

Carece chamar atenção da gente, por exemplo, para existência pacata até agora da Organização do Tratado de Cooperação Amazônica (OTCA), com sua sede na “ilha” de Brasília – ao pé do monumento natural das Águas Emendadas, que poucos sabem onde se acha e que é área-núcleo da Reserva da Biosfera do Cerrado, fonte do São Francisco irrigando o Nordeste, do Paraná rumo ao Prata e do Tocantins para a Amazônia – que precisa apressar seu passo de cágado e trabalhar depressa ao maior sucesso do programa multilateral da UNESCO “O Homem e a Biosfera” (MaB), no âmbito dos países amazônicos, dando efetivo cumprimento da missão desta agência da ONU em relação à aliança estratégica que deve se aperfeiçoar entre Ciência e Conhecimento Tradicional.

Desta maneira resoluta, seja na luta pelo desenvolvimento sustentável a Amazônia brasileira referência mundial junto ao supracitado MaB. Por que não? O que falta é provar, socioambiental e economicamente, que conservação do meio ambiente é bom para as pessoas que vivem em comunidades locais, para as regiões periféricas escapar da ilusão do subdesenvolvimento. Bom para país e para todo mundo esgotado e consumido de tantas guerras de conquista para suportar o insustentável consumo mundial.

Há que se sair do discurso para a prática. Cair fora da pajelança do marquetingue alienante ou da doutrina fossilizada para poder entrar, de fato, no negócio da mudança de vida sem precisar trocar de lugar e migrar a terras distantes. Como outrora nossos antepassados indígenas da mítica Terra sem males ou estrangeiros assombrados pelo mito do El Dorado.

Enfim, o paraíso terreno (terra sem males sonhada por cada um de nós, pela qual matamos e morremos todos os dias) é aqui e agora!... É preciso ver o peso da vida para dar mais valor a nossos dias.

Quero dizer o seguinte, é preciso dar as mãos e metê-las à obra a fim de cultivar nosso jardim e prevenir os males desta vida. Inaugurar o terceiro milênio sem bilhete nem foguete de propaganda. Andar pelas margens da História descolonizando povos mato adentro. Assim, como quem toma mingau quente pelas bordas, a gente ribeirinha da modernidade haverá de empoderar-se da cidade sem, na verdade, precisar deixar o campo ao abandono.

Fazendo o possível, no próprio lugar em que vive, quando menos pensar a velha guarda da academia da maré terá tomado pé da realidade e feito o impossível em rede nacional e internacional da terceira idade. Quem viver verá? Creio que sim.

A Amazônia é nossa riqueza na grandeza dos oito países do Tratado de Cooperação Amazônica (TCA) – Bolívia, Brasil, Colômbia, Equador, Guiana, Peru, Suriname e Venezuela, mais a região francesa da Guiana – , os Países Amazônicos, florão verde e azul da América do Sul e Caribe. Coração pulsante do planeta Água.

Amazonizar é preciso: ocupar regiões amazônicas, de qualquer jeito, não é preciso nem direito. O povo carece saber, perfeitamente, que são sete os estados amazônicos brasileiros: Acre, Amapá, Amazonas, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins. À Amazônia Legal somam-se ainda Mato Grosso (Centro-Oeste) e, parcialmente, o Maranhão (Nordeste). O Plano Amazônia Sustentável (PAS), do governo federal, o qual não se ouviu mais falar considerava o estado do Maranhão parte integral da Amazônia. A ver como, só pela cúpula não se sustentam planos ainda os mais brilhantes que sejam, se a gente não os habitar e pilotar desde as bases.

O conceito de Amazônia Legal decorre da necessidade de planejar o desenvolvimento econômico e socioambiental da região além do bioma de floresta úmida. A Amazônia Legal corresponde a 59% do território brasileiro perfazendo 5 milhões de quilômetros quadrados com 25 milhões de habitantes, residem nela 56% da população indígena do Brasil, fazendo da região o coração da ancestralidade do bravo povo brasileiro. Ou seja, espaço natural e paisagem cultural da amazonidade em causa. 


Os Estatutos do Homem
(Acto Institucional Permanente)

Artigo I
Fica decretado que agora vale a verdade. Agora vale a vida e, de mãos dadas, marcharemos todos pela vida verdadeira.
Artigo II
Fica decretado que todos os dias da semana, inclusive as terças-feiras mais cinzentas, têm direito a converter-se em manhãs de domingo.
Artigo III
Fica decretado que, a partir deste instante, haverá girassóis em todas as janelas, que os girassóis terão direito a abrir-se dentro da sombra; e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro, abertas para o verde onde cresce a esperança.
Artigo IV
Fica decretado que o homem não precisará nunca mais duvidar do homem. Que o homem confiará no homem como a palmeira confia no vento, como o vento confia no ar, como o ar confia no campo azul do céu.
Parágrafo único:
O homem, confiará no homem como um menino confia em outro menino.
Artigo V
Fica decretado que os homens estão livres do jugo da mentira. Nunca mais será preciso usar a couraça do silêncio nem a armadura de palavras. O homem se sentará à mesa com seu olhar limpo porque a verdade passará a ser servida antes da sobremesa.
Artigo VI
Fica estabelecida, durante dez séculos, a prática sonhada pelo profeta Isaías, e o lobo e o cordeiro pastarão juntos e a comida de ambos terá o mesmo gosto de aurora.
Artigo VII
Por decreto irrevogável fica estabelecido o reinado permanente da justiça e da claridade, e a alegria será uma bandeira generosa para sempre desfraldada na alma do povo.
Artigo VIII
Fica decretado que a maior dor sempre foi e será sempre não poder dar-se amor a quem se ama e saber que é a água que dá à planta o milagre da flor.
Artigo IX
Fica permitido que o pão de cada dia tenha no homem o sinal de seu suor. Mas que sobretudo tenha sempre o quente sabor da ternura.
Artigo X
Fica permitido a qualquer pessoa, qualquer hora da vida, uso do traje branco.
Artigo XI
Fica decretado, por definição, que o homem é um animal que ama e que por isso é belo, muito mais belo que a estrela da manhã.
Artigo XII
Decreta-se que nada será obrigado nem proibido, tudo será permitido, inclusive brincar com os rinocerontes e caminhar pelas tardes com uma imensa begônia na lapela. Parágrafo único: Só uma coisa fica proibida: amar sem amor.
Artigo XIII
Fica decretado que o dinheiro não poderá nunca mais comprar o sol das manhãs vindouras. Expulso do grande baú do medo, o dinheiro se transformará em uma espada fraternal para defender o direito de cantar e a festa do dia que chegou.
Artigo Final
Fica proibido o uso da palavra liberdade, a qual será suprimida dos dicionários e do pântano enganoso das bocas. A partir deste instante a liberdade será algo vivo e transparente como um fogo ou um rio, e a sua morada será sempre o coração do homem.

Thiago de Mello, Santiago do Chile, Abril de 1964
 

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

O AÇAÍ É NOSSO!


mulheres debulhando açaí ajudam a seus companheiros e filhos durante "apanhação" (coleta) do precioso fruto das várzeas amazônicas, principal produto agroextrativista da economia familiar local.



A "UNIVERSIDADE DA MARÉ" ENSINANDO A VER O PESO DA CRIATURADA GRANDE DE DALCÍDIO NOS 400 ANOS DE BELÉM DO 'GRÃO' PARÁ.

 Ou seja: 
pra que serve a Academia do Peixe Frito?
 
Setembro começa em meio à safra do açaí (Euterpe oleracea) no verão amazônico fazendo a festa da nossa várzea. Que o povo das ilhas, conservando o velho português mestiçado com o antigo nheengatu, diz com graça e orgulho a "nossa varja"... 

O DIA DO AÇAÍ, devido o costume da gente marajoara, deve ser o dia do Berto em 24 de agosto. Na história dos brancos, esta é uma data estúrdia no Pará velho de guerra hoje se acabando e que outrora lembrava o massacre da noite de São Bartolomeu, em Paris, quando católicos massacraram protestantes e no final da história a culpa, como sempre, foi do Capeta... 

Não era sem fundamento que o romancista do extremo-norte, autor premiado da Academia Brasileira de Letras (Prêmio Machado de Assis de 1972), considerava o caboco marajoara um cidadão do mundo. Ver correspondência de Dalcídio Jurandir e Maria de Belém Menezes citada na obra "Marajó, a ditadura da água", de Giovanni Gallo.

O problema da história é que cada um a conta como quer ou acredita ser verdade. Na verdade verdadeira, o problema é da historiografia (quem conta um conto aumenta um ponto, diz o ditado popular)... A História é uma ciência do Homem (este animal político, na acepção de Aristóteles). 

Para os brancos doutorados, a história da Amazônia começa com a tomada da França Equinocial (Maranhão) pelos portugueses, em 1615. Mas os cabocos velhos, que mal aprenderam a ler e escrever, sabem por ouvir suas avós contar que a nossa verdadeira história é do tempo da "vela de jupati"... T'aqui pra ti: coisa de muita antiguidade... 

E se os padres do Maranhão amaldiçoaram o espírito dos índios nossos bisavós, o chamado Jurupari ("boca tapada"), então a gente, olha... "boca de siri" com a nossa estória. Jurupari fala e ri pela boca dos pajés. Caçoa do Diabo cristão e suas trapalhadas transformado no tal Berto e aproveita pra fazer feriado na varja no dia 24 de agosto: a data mais esperada do ano, quando o dito cujo vai mijar nas touças de açaizeiro pra fazer o açaí pretejar no cacho. 

Aí começa, então,o verão com a safra do ano pra valer... No tal dia do Berto, pernas pro ar, que ninguém é de ferro! Deus te livre de trabalhar no dia do Berto! É certo que se pode sofrer acidente, esta gente... "Te põe com todos aquilos que tu te perde", diz a velha tapuia aos netos dela. E haja a contar potoca e a reinventar estória.


É a economia, estúpido!

Faz um par de tempo que a gente reclama, os Bispos do Marajó foram se queixar ao Presidente da República e, com o perdão da palavra o IDH do Marajó continua uma m. ... No entanto, reza o Parágrafo 2º, alínea VI, do Artigo 13 da Constituição do Estado do Pará, ser o Arquipélago do Marajó considerado "área de proteção ambiental" e que devem as autoridade ter em vista a melhoria das condições de vida da gente marajoara nas decisões a respeito da "vocação econômica" da região... Belas palavras! O diabo é que tudo isto é um "jabuti" constituinte. Dispositivo ali interposto com outra finalidade, dizem os estudiosos das coisas paraenses. Mas, e nós com isto? Vale o que está escrito e o Ministério Público já deveria ter tomado alguma atitude a respeito. Notadamente, que há dez anos passado, em Muaná, a comunidade pediu às autoridades levar em consideração a tal APA no papel, preparando-a, definitivamente, para fins de apresentar candidatura à UNESCO como reserva da biosfera.

A enrolação da vez é o tal PLANO MARAJÓ e a esperança no momento a criação da UNIVERSIDADE FEDERAL DO MARAJÓ. Daí que se não esqueça do açaí e do peixe frito nosso de cada dia, quando, finalmente, a Criaturada foi bater à porta do Palácio Cabanagem, vulgo Alepa; onde se abrigam em gabinetes refrigerados nossos nobres representantes, alguns deles eleitos pelo povo das águas que tira sustento na dura labuta das várzeas sempre a espera de melhores dias.




casarão do centro histórico de Belém restaurado pelo concurso de fundo público em parceria com a iniciativa privada em desenvolvimento dos recursos naturais e do trabalho comunitário das ilhas na cadeia produtiva do açaí nativo. Um exemplo do muito que ainda poderá ser feito no encontro da tradição com a modernidade do Ver O Peso em construção verdadeira da Amazônia Sustentável.