terça-feira, 30 de abril de 2013

HISTÓRIA DO MARAJÓ: SALVE 30 DE ABRIL!

Nossa Várzea - povos das águas: Criaturada grande de Dalcídio Jurandir






Na linha do tempo, hoje a terra natal do romancista Dalcídio Jurandir, Ponta de Pedras, completa 135 anos de emancipação. Na capital do Pará, no conjunto dos Mercedários, lugar de memória da Cabanagem, o Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (IPEA), órgão da Presidência da República; e a Secretária do Patrimônio da União (SPU), do Ministério do Planejamento; reunem-se para concluir oficina de nivelamento de informações consolidadas e implantar projeto piloto para Observatório Socioambiental do Projeto Nossa Várzea no Pará.

Na ACADEMIA DO PEIXE FRITO, a primeira ideia que passa por nossas cabeças é que esse Observatório deveria prestar homenagem ao idealizador da regularização fundiária das populações ribeirinhas do Pará, Neuton Miranda. Patriota dedicado à causa da emancipação social das classes marginalizadas da sociedade brasileira, Neuton dedicou seus últimos dias de vida ao sucesso do Projeto NOSSA VÁRZEA; quando a morte o supreendeu no rio Tapajós, sem aviso prévio, cortando subitamente o entusiasmo com que ele e a força-tarefa de abnegados servidores públicos bem há pouco haviam começado árdua missão republicana da regularização fundiária de terras da União nas ilhas do Marajó.

Confrade carola da ACADEMIA DO PEIXE FRITO, Neuton Miranda, foi atraído a ela em 2009 pelas comemorações do primeiro centerário de nascimento do "índio sutil" marajoara (como Jorge Amado saudou Dalcídio Jurandir, na Academia Brasileira de Letras, como orador oficial para outorga do Premio Machado de Assis de 1972). 

Interessante verificar coincidências de datas e fatos históricos da história do povo marajoara. O ano de 1972, por exemplo. O jovem Neuton na cladestinidade da resistência ao golpe militar de 1964 lutava no movimento estudandil com a UNE. Dalcídio, levado pelo amigo e camarada Jorge Amado, obtinha da Academia Brasileira de Letras reconhecimento do conjunto da obra iniciada, em Gurupá (começos dos anos 30) e Salvaterra (1939), com a elaboração do romance seminal "Chove nos campos de Cachoeira" e "Marajó". Este último, recepcionado por Vicente Salles (derradeiro membro da primeira fase da ACADEMIA DO PEIXE FRITO que aconteceu entre 1930 e 1950, aproximadamente) como "o primeiro romance sociológico brasileiro". 

Na série romanesca Extremo-Norte, "Marajó" ambientado no intercurso dos rio Marajó-Açu e Arari com o lago Arari suas vilas, sítios e fazendas é o único no qual Alfredo, alterego do escritor, não está presente. No Extremo-Sul figura aquele romance do Rio Grande do Sul, "Linha do Parque", mal recebido pela direita e pela esquerda, por motivos obviamente opostos. Os primeiros por ver no romance uma obra "comunista" encomendada e os segundos, por discrepar do chamado realismo socialista exaltando a figura heróica dos trabalhadores. De todo modo, ao sentar a poeira da aventura gaúcha do romancista marajoara a obra acaba sendo, de verdade, "o primeiro romance proletário brasileiro, digno deste nome". No qual, em conflito com o capitalismo, homens e mulheres obrigados a alugar sua força de trabalho para não morrer de fome sofrem e nutrem esperanças de liberdade como qualquer outro ser humano no planeta.

Anos de chumbo. As forças de resistência atuavam de diferentes modos, no exterior com diversos exilados políticos e no país em meio à clandestinidade em ações armadas ou não, com exemplo maior da guerrilha do Araguaia que, vista ao longo do tempo, acaba sendo continuidade da Cabanagem até os dias de hoje pela democratização da chamada democracia "representativa" da vontade popular.

Pois bem, nesta quadra, os meios católicos tradicionalmente conservadores viram-se sacudidos pelos ventos do Concílio Vaticano-II, onde a Teologia da Libertação com sua opção preferencial pelos pobres deitou raízes recuperando a antiga militância de padres e freiras pelos direitos humanos indígenas, com nomes de nomeada. Como frei Bartolomeu de Las Casas no espaço colonial espanhol e Antônio Vieira, no mundo português. Ora, no Marajó na década de 60 até a virada do século, Vieira teve um seguidor da Teologia da Libertação, que foi o bispo da Diocese de Ponta de Pedras, Dom Angelo Maria Rivatto S.J. e na prática menos provável, o insubmisso e turrão padre Giovanni Gallo S.J., pároco de Santa Cruz do Arari, inventor por necessidade e acaso do sui generis MUSEU DO MARAJÓ naquele estranho ano de 1972.

Na distância, auto exilado em seu retiro numa mansarda em Laranjeiras, no Rio de Janeiro, Dalcídio era ele mesmo em pessoa algo como um "Observatório" de tudo que dizia respeito a sua Criaturada grande... Auxiliado nas margens plácidas do Guajará pela fiel correspondente Maria de Belém Menezes, filha dileta do fundador da ACADEMIA DO PEIXE FRITO, o poeta Bruno de Menezes; logo ele se deu conta de que algo diferente estava acontecendo no Marajó velho de guerra: no lago Arari (berço da civilização marajoara), o padre italiano além de inventar o museu e a pastoral do pescador; fazia-se repórter do fim do mundo publicando na imprensa fotos espetaculares e textos impactantes sobre a desigual luta diária pela sobrevivência em condições de extrema pobreza da população em meio à rica biodiversidade

O escritor agnóstico mandava recados ao padre dos pescadores, "reúna artigos e publique um livro": nasceu assim o agora clássico "Marajó, a ditadura da água".  Um exemplar desta obra imprescindível, que não poderá faltar agora ao futuro Observatório socioambiental, foi mandada de Soure ao Presidente da República, em Brasília, com autógrafos dos presentes ao seminário de integração do PLANO MARAJÓ e programa Território da Cidadania - Marajó, realizado em 2008, devendo-se esperar que o livro em apreço esteja agora na biblioteca do Instituto Lula, em São Paulo. 

O projeto NOSSA VÁRZEA vem de 2005, anterior aos ditos plano (2007) e programa (2008). Todos juntos formam o mais importante instrumento de desenvolvimento territorial sustentável que jamais existiu no Marajó, em todos os tempos, há mais de 350 anos desde a pacificação dos Nheengaíbas (povos rebeldes nuaruaques do Marajó), em 1659.

De seu exílio carioca Dalcídio também viu à distância, através da correspondência de Maria de Belém, a ação do bispo Rivatto com as duas cooperativas de feição kibutzianas, que existiram em Ponta de Pedras. Era notável a improvisação de lideranças, de uma maneira prática de aprender fazendo. Por isto ainda uma referência de concretude da teologia da libertação na terra natal do "índio sutil". Aquilo bem que poderia lembrar a criativa ficção do romance "Marajó", com a inverossímil "reforma agrária" de Missunga, herdeiro do rico latifundiário Coronel Coutinho, no rio Paricatuba fronteiro à vila de Ponta de Pedras...  Um rio paradigmático, na primeira sesmaria e terras da fazenda São Francisco (1686), doada ao contemplado sargento-mor Domingos Pereira de Moraes, em 1759, vindo a ser parte do território do município de Ponta de Pedras (1878); onde o célebre Diretório dos Índios (1757-1798) fez um dentre diversos outros laboratórios da caboclização mediante casamentos forçados de índias catecúmenas e colonos portugueses tangidos pela pobreza de Portugal, notadamente imigrantes das ilhas dos Açores, da Madeira e norte de Portugal; para ocupar o "espaço vazio" (em realidade, esvaziado) do Grão-Pará.

O bispo Rivatto afinal de contas, ao contrário do atilado padre Vieira que ele tanto venerava, se revelaria mau aluno de economia, desperdiçando recursos captados no exterior. Seu mais contundente crítico não se achava entre os duros fazendeiros, mas dentro da ppria Socieade de Jesus e da Diocese, na figura do padre Gallo, dizendo este que o dinheiro para obras sociais enviado pela igrejas-irmãs na Itália, Suiça e Alemanha saiam em maior parte do bolso de trabalhadores imigrantes (vide "O homem que implodiu", autobiografia de Giovanni Gallo", Secult: Belém, 2002). 


Nas cooperativas assistidas pela Diocese de Ponta de Pedras, a sustentabilidade econômica era manga de colete, qualquer coisa comparável a uma bela canoa furada... Todavia, do ponto de vista socioambiental o sucesso ainda pode ser medido até hoje com uma simples visita às cerca de quatorze comunidades remanescentes, indo de Praia Grande próximo à foz do rio Marajó-Açu até Porto Santo, no Baixo Arari; percorrendo a antiga Costa-Fronteira do Pará com faixa de terras, indubitavelmente, do patrimônio da União

Portanto, no desenvolvimento pragmático do projeto NOSSA VÁRZEA, o Observatório do IPEA/SPU no Pará não poderá desconhecer este significativo "case" de insucesso acompanhado em procissão por outros semelhantes fracassos, num cruel rosário de esperanças que perderam a fé nos poderes da terra e do céu. Tais como o badalado Programa Pobreza e Meio Ambiente na Amazônia (POEMA), da UFPA em cooperação internacional, em Praia Grande; o projeto piloto de Agricultura Familiar Sustentável, da EMBRAPA, em Jaguarajó e o famigerado e, finalmente, amputado e fraudado Projeto de Execução Descentralizado (PED Guaianá). 

No caminho para o futuro, não devemos esquecer os fracassos do passado. Pois eles nos ensinam a não repetir a história. O anterior bispo de Ponta de Pedras fundava agrovilas, buscava mais e mais recursos no exterior, comprava terras improdutivas e assentava sem-terras espancados pela pobreza no êxodo rural, tudo por conta da igreja e fiado na fé em Deus.  O calcanhar de Aquiles do projeto social de Dom Angelo foi a má gestão dos recursos e a falta capacitação técnica dentro de uma perspectiva real de cooperativismo. Na verdade, as "cooperativas" de Ponta de Pedras não passaram de associações de agricultures tutelados por prepostos de escolha pessoal do bispo, ele mesmo sem conhecimento prático daquilo que pretendia fazer de boa fé. A personalidade extrovertida e dominadora do bispo foi causa de sucesso e derrota desta interessante experiência, comparável ao voo da galinha quando queria ir mais alto do que gavião-real. Um assunto que deve ser melhor estudado como base para projetos de inclusão social com sustentabilidade econômica e ambiental.

No dia 25 de julho de 1995, Dia do Produtor Rural; Dom Angelo celebrou missa campal na agrovila Antônio Vieira, que fora outrora aldeia dos índios "Guaianases" (segundo Alexandre Rodrigues Ferreira, na "Notícia Histórica" de 1783). E que, conforme carta de Vieira; foi nome de uma das sete nações nheengaíbas (marajoaras), cujos caciques fizeram as pazes de Mapuá de 27 de Agosto de 1659 com os portugueses e aliados tupinambás. Depois da ruina da identidade do território e apagamento da memória nativa pelo Diretório dos Índios (1757-1789) - quando índio "tirado do mato" foi transformado em "caboclo" - a extinta aldeia dos Guaianás ou Guaianazes deu lugar ao povoado Pau Grande (referência a uma alta samaumeira, que de longe se avistava desde a baía, servindo de rumo aos navegantes). 

Neste lugar simbólico, cheio de história, a induzida falta de memória da Criaturada grande deu morada a retirantes das grandes secas do Nordeste. Aqui, homens e mulheres flagelados no Ceará e Rio Grande do Norte vieram recomeçar a vida com a agricultura familiar, acolhidos e incentivados com justo interesse econômico coletivo pelo operoso "prefeito de tamancos" Fango Fontes, que desprezava pompas do cargo e amava ir para beira do roçado animar os parceiros, na hora do expediente. O magnífico Fango foi fundador sem discurso nem foguete da colônia da Mangabeira. 

Cujas origens históricas se reportam à primeira aldeia da missão dos jesuítas no Marajó, assentamento de índios catequizados levados das aldeias de Gebiré e Samaúma (Barcarena), para dar começos à efetiva ocupação e uso da sesmaria de 1686 no rio Marajó-Açu (fazenda São Francisco, ou Malato). Concedida aos padres da Companhia de Jesus pelo donatário da capitania hereditária da Ilha Grande de Joanes. Assim, a "aldeia das Mangabeiras" (1686) a meia légua da aldeia "nheengaíba" dos Guaianás; veio a ser freguesia de Nossa Senhora da Conceição (1737) e Lugar de Ponta de Pedras (1758). A vizinha aldeia dos Guaianás ou Guianases, seria elevada a Lugar de Vilar, decaída depois em povoado Pau Grande, para ser festejada agrovila Antonio Vieira. 

Assim, no tempo o espaço humanizado se faz história por obra coletiva da memória dos lugares. Dom Angelo na homilia da missa do Dia do Produtor Rural disse ter sido, exatamente, naquele sítio que ocorreu o esquecido encontro do Padre Vieira com os sete caciques do Marajó para celebrar a paz. Os ouvintes nunca tínhamos escutado falar em semelhante coisa. Os cabocos ali presentes, muitos deles provavelmente descendentes dos Guaianases ou Guaianás, como hoje se deve grafar o nome indígena da velha aldeia pontapedrense, "elevada" a Lugar de Vilar (1758), no campo "Mangueirão" à beira da baía do Marajó, ouviram aquela "estória" estúrdia por um ouvido e a deixaram sair pelo outro lado... 

Dom Angelo aparentemente fez leitura apressada do maçudo tomo da "História da Companhia de Jesus no Brasil", do historiador jesuíta Serafim Leite; na parte referente à pacificação dos Nheengaíbas. O tal encontro de paz reportado em carta, fantasioso em grande parte para impressionar a viúva do rei na regência do reino; não aconteceu às ilhargar da extinta aldeia e igarapé do Vilar, em Ponta de Pedras. Sim no rio Mapuá, município de Breves, que hoje depois de séculos de esquecimento e saque é a Reserva Extrativista Florestal Mapuá. Mas, valeu a dica de Dom Angelo. Como se acaba de ver.


http://patrimoniodetodos.gov.br/pastaimagem.2009-07-02.4357058635/conjunto-dos-mercedarios/image_preview
 Mercedários - patrimônio histórico da União


quinta-feira, 25 de abril de 2013

UMA HISTÓRIA DE RESISTÊNCIA DUMA GENTE QUE RI QUANDO DEVIA CHORAR

Alfred Wallace sentenciou: "o caboclo marajoara é tremendo"... Queria se referir à astúcia desta gente descendente de índio para se defender e sobreviver no vasto mundo das Ilhas do Pará-Amazonas. 

Quando ele visitou Marajó, na segunda metade do século 19, depois da guerra-civil que por mal comparação cometida por Basílio de Magalhães, do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB), ficou sendo a Cabanagem (1835-1840); o naturalista plebeu não podia adivinhar que, um século mais tarde; a retumbante teoria que ele intuia com o nobre Darwin iria achar uma comprovação particular na invenção do primeiro ecomuseu da Amazônia: "O Nosso Museu" (Santa Cruz do Arari, 1972), germe do incrível Museu do Marajó, nascido do casamento entre a necessidade de desmemoriados remanescentes de antigas populações marajoaras e o acaso no destino de um jesuita do Concílio Vaticano-II, largado no terceiro mundo que nem cego em meio ao tiroteio. 

Este um chamava-se Giovanni Gallo e, sem querer, acabou seguindo rastros do "payaçu" dos índios, Padre Antônio Vieira, na ilha do Marajó para no fim da história enterrar os próprios ossos na terra encharcada que escolheu para se naturalizar. Está num teso feito por ele mesmo à ilharga do museu, agora transformado em mausoleu numa maneira exemplar que nenhum outro missionário beatificado pelos devotos ou cacique adotado pela tribo jamais conseguiu igualar. Numa coisa pelo menos o padre Gallo foi profeta, dizendo ele que depois de morto seria um grande homem. Dito e feito, ou quase.

Todavia, apesar de todo extraordinário lendamento que se vai fazendo em torno do homem que implodiu, duvido que o padre dos pescadores da vila Jenipapo soubesse antes da aventura onde estava se metendo... O lago Arari foi berço de uma civilização ameríndia cujos começos vem do ano 400 depois de Jesus Cristo. Depois do apogeu cerca de 1300 entrou em decadência, supostamente, por motivo da invasão dos belicosos Aruãs extintos mais tarde em conflito com os colonizadores. Provavelmente foram Aruãs, em janeiro de 1500, os primeiros "negros da terra" (escravos indígenas) da América do Sul capturados e levados do Marajó pelo navegador Vicente Pinzón.

De fato, o "milagre" da resiliência da milenar Cultura Marajoara é vista pela gente como obra da Divina Providência. Porém a mentalidades exigentes das luzes da razão e a devotos de São Tomé a melhor explicação se acha sob ótica da complexidade das relações entre Homem e Biosfera, nos diversos biomas do planeta funcionando como ilhas de biodiversidade. 

A arqueologia cultural da ilha do Marajó informa que o golfão amazônico com seu vasto arquipélago de mais de 1700 ilhas, foi percorrido há 5000 mil anos por nômades pescadores e mariscadores cuja fome congênita os levaria a parir uma singular ecocivilização sob a ditadura do sol e da chuva.

O diabo é que apesar da materialidade dos tesos (sítios arqueológicos), museus nacionais e estrangeiros com peças raras de cerâmica marajoara, estudos científicos, exposições no país e no exterior; nomes famosos que se juntaram ao clamor da pobre gente, tais como o sábio de Coimbra, Alexandre Rodrigues Ferreira, que atesta o achado do sítio Pacoval (o primeiro que se tem notícia, descoberto pelo capitão Florentino da Silveira Frade, em 20 de Novembro de 1756); o Barão de Marajó (presidente da Povíncia do Pará), Domingos Soares Ferreira Penna (fundador do Museu Paraense Emílio Goeldi), Ladislau Netto (diretor do Museu Nacional), Heloisa Alberto Torres (diretora do Museu Nacional), diversos arqueólogos norte-americanos incluindo Betty Meggers e Anna Roosevelt; e recentemente a brasileira Denise Pahl Schaan. Nada disto significa grande coisa (com rara exceção) para os mais de 500 mil marajoaras vivendo hoje no Marajó ou na diáspora que o êxodo rural fomentou.

Por outra parte, salvo poucos pesquisadores dedicados, a intelligentsia brasileira não quer saber de conversa de leigos ou militantes da causa marajoara. Fechados em suas redomas de cristal e ar refrigerado não apenas não querem dialogar com pobres mortais, como também não sabem como começar a conversa. Na opinião dos doutos, o Brasil é um "jovem país" do Futuro, com uma dívida pública que consome 40% dos impostos arrecadados e os investimentos para crescimento do PIB levam uma fatia de 30% do mesmo bolo fiscal. Como gastar o verbo se a verba é pouca? Farinha pouca, meu pirão primeiro: neste ponto concordam com os cabocos.

Marajó está no rol da caridade pública, dentre 120 territórios de baixo IDH, na teoria estes territórios pobretões recebem além de assistência para diminuição da pobreza, alguns investimentos econômicos sob a perspectiva da sustentabilidade. Na prática, todavia, o desenvolvimento socioambiental fica a ver navios... A conservação ambiental ainda é vista como heresia e estorvo aos olhos do desenvolvimento econômico. E a cultura, coitadinha, só dá despesa com folguedos na pior tradição de pão e circo. É o que pensam, mas muitos não ousam dizer. Já os cabocos, estes sabem que os brancos não sabem onde canta a saracura. Portanto, como os patrões não lhes ensinam o que poderia ser uma libertação geral de parte a parte; as fronteiras culturais nas ilhas longe de se aproximar, ficam mais distantes entre si. Wallace que não nos deixa mentir, no retiro de suas observações naturais na ilha dos Mexiana. 

PLANO MARAJÓ: MUDAR A HISTÓRIA OU REPETIR A FARSA?

 O homem põe e Deus dispõe, dizem os cabocos. Que Deus é este que esta gente não arreda uma palha sem repetir o mantra "graças a Deus", "se Deus quiser"? É tabu: vaga noção de perigo caso deixe de pronunciar as palavras rituais que regula a co-existência dos poderes da vida e da morte na vida das criaturas. Quanto acaba, na hora do aperto a Criaturada corre ao pé do oratório diante de imagem de santo ou vai se pegar com caruanas (espíritos telúricos) por intermédio do pajé.

o choque cultural entre colonos e colonizadores deixou marcas. Nas aldeias missionárias do século 17 uma dupla de catequistas exercia tutela legal dos índios com obrigação de "civilizar" a estes últimos. Todavia, o risco que corre o pau também corre o machado... Alguns padres, com exemplo de João Daniel, chegam a ponto de revelar uma condição de aprendizes antes que propriamente mestres. Podemos dizer, então, que as condições reais da região das ilhas se ainda hoje é um desafio, nos inícios da colonização constituiu a Esfínge amazônica.

em tal contexto, o Museu do Marajó - primeiro ecomuseu da Amazônia - feito principalmente de "cacos de índio"; recupera o 'continuum' da história do índio e do caboco. Não espanta que a igreja particular, cujas origens ficaram na floresta de Mapuá, nas pazes de 27 de Agosto de 1659; haja tomado as dores da "Criaturada grande de Dalcídio" (conforme Eneida de Moraes, da Academia do Peixe Frito). Desta forma, na Quaresma de 1999 so bispos do Marajó lançaram o grito dos ribeirinhos excluídos. E, em 2006, foram ao Presidente da República como porta-voz desta mesma gente sem vez nem voz.

A tecnoburocracia ao tentar refazer agora o PLANO MARAJÓ, que em primeira versão (2007-2012) ficou muito aquém das expectativas da Criaturada; precisaria perder mais um "tempinho" para anotar estas coisas estúrdias, A fim de, realmente, fazer o novo em benefício deste povo. Como reza o Parágrafo 2º, VI, Artigo 13 da Constituição do Estado do Pará, letra morta até hoje. 

Um Museu no Marajó?

texto de Giovanni Gallo, copy by site www.museudomarajo.com.br 
Quantas pessoas disseram que foi uma loucura montar um museu no meio dos campos do Marajó, ainda mais que a localidade escolhida, Cachoeira do Arari, não é conhecida e badalada como Soure ou Salvaterra, e sim bastante modesta. De fato, quando começamos, a cidade tinha um precário acesso pelo rio, não adequado para um projeto turístico deste porte.

O serviço telefônico era mais que precário, o abastecimento de água também, a energia elétrica só poucas horas por dia, e com muitos blecautes .

Para completar: falta de hotel e outras estruturas complementares, e qualquer estrutura turística.


Mas o MUSEU DO MARAJÓ escolheu Cachoeira, recusando ao longo destes anos outras opções tentadoras, porque a nossa filosofia sempre foi dominada por aquele mesmo princípio: a preocupação fundamental pelo Homem, não somente como assunto de pesquisa, mas também como meta e objetivo.

A PA-154, estrada de ligação por terra de Cachoeira com a baía e as cidades de Salvaterra e Soure, não passava de um sonho. Agora, só falta um gesto de carinho do Governo para salvar o MUSEU DO MARAJÓ e garantir um futuro melhor para as comunidades da bacia do Arari.

No nosso Museu o Homem marajoara é doador e receptor. Ele é a maior fonte de informação e ao mesmo tempo o maior beneficiado.


Nesta perspectiva, o nosso Museu tem um ciclo completo:

• Nasce da comunidade,

• Cresce com a comunidade,

• E volta à comunidade.

Agora é fácil entender porque o Museu aceitou o desafio de escolher um lugar carente das infra-estruturas essenciais.

Porque assumiu o compromisso de promover estas infra-estruturas, provocando o desenvolvimento do Homem através da Cultura.


quarta-feira, 17 de abril de 2013

A INVENÇÃO DA AMAZÔNIA E A GRANDE "ILHA" DAS GUIANAS




Em um mundo em crise social, econômica e ambiental a Amazônia parece ser a última fronteira da Terra ou paraíso perdido. A região está numa encruzilhada na qual o caminho se bifurca entre o desenvolvimento sem fim, prometendo mais do mesmo; e uma trilha ainda desconhecida com nome ambíguo de desenvolvimento sustentável. Nas comemoração dos 500 anos do descobrimento da América, o Papa em Santo Domingo – antigo QG da Conquista –, pediu o perdão de Índios e Negros aos crimes do Cristianismo ligados aos descobrimentos marítimos.

Mas o gesto retórico de Sua Santidade ficou suspenso no ar e logo caiu no esquecimento midiático. O Caribe continuou com sua história de genocídios, revoluções e tragédias naturais ou políticas em contraste com o panorama explorado pelo turismo e paraísos fiscais. Tampouco deixou de suscitar furações e ciclones que terminam por se abater sobre o País do Vento – Amerik, palavra de origem maya com referência às montanhas do entorno do lago Nicarágua. Com a colonização apagou-se o nome nativo do continente para homenagear o navegador italiano Amerigo Vespucci.

Agora, como o fim do “fim da História”, é hora de lembrar que o “animal político” do velho Aristóteles é parte da natureza e não seu dono. Podemos e devemos estudar as leis naturais para nos beneficiar delas ou em proveito da humanidade: mas jamais poderemos mudar as leis da natureza. Para verdadeiro progresso da ciência é necessário rever o processo histórico compreendendo, com as luzes do presente, as possibilidades do futuro evitando que a história se repita.

Reiventando a Amazônia

Há 400 anos, no Maranhão e Grão-Pará, a improvável aliança entre arcos indígenas e armas lusitanas realizou o impossivel, misturando messianismo tupi com sebastianismo. Isto somente começou a ficar claro ultimamente com novos estudo da história do indianismo brasileiro, na década de 1980; fato que explica o “milagre” da invenção da Amazônia brasileira.

44 anos de guerra lusitana, começada sob pavilhão da União Ibérica (1580-1640) e terminada já na restauração da monarquia de Portugal, contra concorrentes Hereges. A cruzada entre Reforma versus Contra-Reforma abaixo do equador, desde a tomada da França Equinocial (Maranhão) do colonial huguenote Daniel de La Touche, em 1615, até destruição de feitorias holandesas e britânicas no Amapá, Marajó, Xingu e Baixo-Amazonas, de 1623 a 1647, para finalmente concluir a pacificação dos bravos Nheengaíbas (marajoaras) em 1659. Sem estas prelinares, incluindo a entrada de Pedro Teixeira, levado são e salvo pelos mamelucos Bento de Oliveira e Bento da Costa com 1200 índios de arco e remo, do Pará ao Equador, de 1637-1639; hoje não estávamos nós a contar história. Além disto, foi preciso o longo passado nativo de 5000 anos. Cujo apogeu foi a Cultura Marajoara (400 – 1300) tendo o Circum-Caribe como contexto de uma ecocivilização que se acha viva na cultura popular da Amazônia e Antilhas.


A velha 'canuá' tecendo rede de aldeias tibeirinhas


A canoagem e a venerável vela de jupati foram meio ancestrais de comunicação e trocas de produtos entre milhares de aldeias do Rio Negro ao Pará; do Orinoco ao mar das Caraíbas. Doravante, canoagem e vela poderão ser um poderoso instrumento esportivo e indústria ligados à educação ambiental, à cultura e desenvolvimento territorial sustentável das populações tradicionais das regiões e províncias em harmonia com as respectivas sociedades nacionais. O programa da UNESCO “O Homem e a Biosfera” (MaB na sigla em inglês) poderia, em abordagem assim, tirar proveito para obter o impacto necessário ainda não alcançado junto a países-membros e perante a opinião pública mundial, notadamente para conservação do litoral marítimo, com seus berçarios de vida aquática e de ninhais de aves migratórias em zonas úmidas.

Era uma vez a grande área ecocultural guianense, de Trinidad e Tobago ao arquipélago do Marajó... Ciro Flamarion Cardoso, autor de “Economia e sociedade em áreas coloniais periféricas, Guiana Francesa e Pará, 1750-1817”, Rio de Janeiro: Graal, 1984; ensina que fronteiras definidas por rios e outros cursos de água, longe de separar aproximam e integram comunidades confinantes. Não significa que populações vizinhas vivam em boa paz, se olharmos a foz do Amazonas iremos nos deparar com um estado de guerra permanente, antes e depois da presença dos europeus na região. Ainda hoje existem conflitos entre comunidades de vizinhança e certamente irão sempre existir. Todavia, a integração e cooperação regional possibilida a solução de conflitos de maneira mais justa e satifatória para todas partes envolvidas.
Esta experiência de convivênia entre etnias diversas, pela guerra e a paz, correu ao longo do tempo em toda Amazônia, conforme Gastão Cruls observou. Com base em antigas migrações indígenas pré-colombianas e posteriormente negros africanos formando quilombos, Flamarion Cardoso pôde detectar relações históricas e geográficas numa vasta área sul-americana indo do Marajó (Pará) e Baixo-Amazonas até a ilha de Trinidad, no Caribe. Configurou-se assim a grande “ilha” das Guianas, condomínio amazônico compartilhado pelo Brasil, Venezuela, Guiana, Suriname e região francesa da Guiana.
O geógrafo Elisee Reclus teria sido o primeiro ou um dos primeiros a constatar o caráter insular das Guianas, pelo efeito tardivamente estudado, da interligação fluvial do Rio Negro ao Orinoco através do Canal do Cassiquiare (“rio do cacique”, em língua de tronco Aruak). O brasileiro Raja Gabaglia também demonstrou a peculiar conformação geográfica das Guianas ao escrever sobre a “grande oval insular” circundada pelas águas do Amazonas, Rio Negro, Canal de Cassiquiari, Orinoco e oceano Atlântico.


Naturalmente, há milhares de anos, o espaço guianense junto ao Circum-Caribe foi uma babel de línguas e culturas ameríndias que deu início à civilização das terras baixas do Novo Mundo até os nosso dias. Na ilha do Marajó ocorreu a primeira cultura complexa, tipo cacicado na Amazônia, cerca do ano 400 da era cristã. A destruição das Índias ocidentais pela conquista e colonização europeia deu fim a esta diversidade humana e cultural reduzindo-a drasticamente até os dias de hoje.
Até aí o caminho das águas como elemento de integração e cooperação. A poluição de rios, lagos, mares e oceanos era impensável. Mormente a excassez de água potável. Porém a mudança de paradigma produtivo, com a hegemonia rodoviária e aeroportuária desviou o olhar do mundo do fato mais evidente do mundo: que somos, tal como o planeta Terra, feitos de sessenta por cento de água.


Caminhos da integração: passado e futuro


A partilha das Américas pelas potências europeias, após o Descobrimento, introduziu fronteiras coloniais à revelia das populações locais. Todavia não necessariamente prejudiciais a elas, visto que em muitos casos os limites adotados pelas cortes imperiais era decorrência de alianças e adesões de povos nativos na sucessão dos acontecimentos. Os grupos indígenas, nas circunstâncias, jogavam o jogo aliando-se oras a um grupo de colonos ou outro conforme interesses e rivalidades locais explorados pelos colonizadores. Foi o caso especial da nação Tupinambá, por exemplo, inicialmente amiga dos franceses no Maranhão e, finalmente, aliada aos portugueses na conquista do Grão-Pará para eles a Tapuya tetama (terra dos Tapuias).


Tapuia (do tupi antigo tamu, avô) era nome genérico para as mais antigas etnias não-tupis; passando depois a “inimigo”, como em Tamoio. É preciso compreender as motivações messiânicas dos Tupinambás – em busca da mítica “Yvy marãey” (terra sem mal) –, com Florestan Fernandes e outros, para se dar conta das enormes migrações desta nação extraordinária, que, inclusive, em contato com os franceses na baía da Guanabara tiveram emissários em viagem à França, recebidos na corte de Henrique IV, quando teria nascimento a legenda do bon sauvage difundida por Montaigne e Rousseau na incitação da revolução de 1789.


Na faixa amazônica tordesilhana, a posse portuguesa (1494-1823) e depois brasileira pela Adesão do Pará à Independência do Brasil (1823) foi estabelecida principalmente graças a arcos e remos tupinambás: Belém do Grão-Pará nasceu como boca de sertão, contando dias para atravessar o largo rio levando a guerra de expulsão aos holandeses e ingleses que andavam pela outra margem. Só assim poderia botar as mãos aos imensos tesouros que imaginavam encontrar. Todavia, havia uma “pedra” no caminho... Esta era a infinidade de índios tapuias, mais conhecidos pelo nome genério de Nheengaíbas (“falantes da língua ruim”, diversos idiomas nuaruaques). Inimigos hereditários dos aliados Tupinambás, que não permitiam a estes ocupar as ilhas e dominar a passagem para dentro do Amazonas, a fim de prosseguir a busca da Terra sem mal.


Longe de agir com prudência para conseguir a confiança dos índios da magem direita e afastar do inimigo Herege (holandês e inglês da reforma) os índios da margem esquerda do Pará, os portugueses desde o Maranhão começaram a vexar e escravizar os orgulhosos Tupinambás: o resultado foi a revolta com morte de casais açorianos, enganados pelo mercador Simão Estácio da Silveira que os trouxera com promessa de vir encontrar o paraíso na terra. Vendo-se mais necessitados que antes e sem conseguir vencer o clima e a aspereza da floresta, estes pobres de Portugal começaram a roubar roças e escravizar índios.
No dia 7 de janeiro de 1619, o cacique Guaiamiaba (Cabelo de Velha) atacou o forte do Presépio sendo morto em combate. No Maranhão, o cacique e pajé Pacamão, da aldeia do Cumã, levou terror aos colonos portugueses vingando-se de ofensas cometidas pelos filhos do capitão-mor Jerônimo de Albuquerque. Então, uma feroz represália comandanda por Pedro Teixeira e Bento Maciel Parente produziu talvez o maior banho de sangue que já houve entre o Gurupi e o Guamá.


Fazia mais de cem anos que Pinzón abordara o Ceará e arrastara 36 negros da terra (escravos índígenas) da ilha Marinambalo [Marajó]. O relato desta viagem ficou guardada a sete chaves. Mesmo quando Orellana passou pelas ilhas, em fuga para o Oceano debaixo de uma nuvem de flechas, quarenta e dois anos depois; os espanhóis não estavam seguros da tal “linha” de Tordesilhas. Mas a geografia dos índios da margem esquerda do Amazonas era outra.
E eles tinham 5000 anos de ocupação destas terras... O Amazonas não existia com tal nome; sequer se chamava Marañón, como os espanhois diziam. Ou mesmo Paraná-Uaçu, conforme os tupinambás, igualmente invasores. Para a massagada aruaca, o rio era simplesmente o Rio (Uene ou wune; donde os derivados Guainia e Guiene, Guyane, Guayana, Guiana).


Do Arapari tapuia à UNASUL passando pela Adesão do Pará


As Guianas e Caribe foram posse imperial de Espanha, nos termos do “testamento de Adão” (tratado de Tordesilhas (1494-1750), homolago pelo papa Bórgia, Alexandre VI, contestado pelo rei da França, Francisco I. Os caciques indígenas não sabiam ler direito canônico nem tratados de limites, todavia sabiam e sabem ainda ler as estrelas onde moram os heróis ancestrais com suas predições do futuro. Quando das migrações das ilhas do mar para a terra-firme, tal qual a do legendário Anakayuri que fixou seu cacicado no Oiapoque, em recuadas era; a guia de travessia era a constelação do Cruzeiro do Sul (“arapari”, cercadura do sol; os limites do país continental a ser conquistado). Por acaso, num marco divisório da fronteira se acha escrito: Aqui Começa o Brasil...
Talvez os pajés Aruak e Galibi soubessem disto antes mesmo que espanhóis e portugueses plantassem o padrão ou pedrão de fronteira da alegada doação de Filipe II ao donatário Bento Maciel Parente às margens do rio de Pinzón. Na distância de Lisboa e Madri, ou até de Belém do Pará, cidade morena que cresceu de costas para o rio. Quem guardaria o pedrão de limites imperiais com as Quinas e as armas de Castela, assinaladas lado a lado no granito até que o tempo se consumasse no porvir da Independência Americana? Até que a revolução haitiana deitasse fora a escravidão... Até que a República viésse à luz do dia... E ainda lá estão os Palikur, Karipunas, Galibis com seus compadres crioulos e cabocos a contar estórias prenhes de realismo-mágico, onde relatos verdadeiros e lendários tecem a História.
Para que a tese do diplomata luso-brasileiro Alexandre de Gusmão vingasse nas cabulosas negociações de 1750, foi necessário conhecimento geográfico apurado pela parte portuguesa, capaz de iludir os negociadores espanhóis com o famoso “Mapa das Cortes'. Diz a historiografia luso-brasileira que a base cartográfica lançando por terra séculos de arrogância hispânica sobre o pequeno reino portucalense, deve-se à ocupação do Brasil por bandeirantes façanhudos, a devassa dos sertões por sertanistas audazes e a catequesa levada a efeito por missionários temerários até o limite da loucura rios acima e terra adentro. É verdade. Mas tudo isto é só metade da história.


Conhecimento geográfico indígena no mapa do Brasil


O famigerado bandeirante Raposo Tavares com seus comparsas jamais transporia o Tietê para chegar até as barrancas do Madeira e Solimões, numa marcha verdadeiramente descomunal; se não tivesse guias e mateiros índios, malgrado todas vicissitudes e violências, que de fato conhecessem o terreno e convergissem em interesse de chegar aonde chegaram. Fora desta constatação chega ser ridículo acreditar que meia dúzia de matabugres armados de arcabuz arcaico e reduzida munição bastassem para obrigar numerosos índios a mostrar os segredos dos confins. O mesmo vale para a famosa expedição do espanhol Gonzalo Pizarro ao País da Canela (Amazônia equatoriana), quando os aventureiros acabaram morrendo de fome e alguns se salvaram comendo a sola dos próprios sapatos: daí a deserção de Orellana e a descoberta, por acaso, do “rio das amazonas”...


Mas, sobretudo, muito mais que a façanha do capital Pedro Teixeira em viagem de Belém do Pará a Quito (Equador), durante dois anos entre ida e retorno, de 1637 a 1639; o uti possidetis real mediante a catequese dos missionários e a adesão dos povos indígenas. Começa nos anos de 1980, com a luta pela redemocratização, o processo histórico de reconhecimento nacional da contribuição dos povos índigenas na formação territorial do Brasil brasileiro.


Portugueses em contato com índios e mamelucos, através do Peabiru, estrada incaica que vinha dos Andes até o litoral do Brasil em Piratininga (São Paulo) tinham notícia de uma grande migração da poderosa nação dos Tupinambás, em 1538, indo de Pernambuco até a atual Amazônia peruana (cf. Viagem do mameluco Diogo Nunes, em “O Novo Éden”, Nelson Papavero et. al. ed. Museu Goeldi: Belém, 2000). Prova de que muitos povos indígenas percorreram o grande rio e conheciam seus meandros, desde o nomadismo paleo-índio, notamente o Rio Negro e Canal do Cassiquiari (“rio do cacique”, em língua de tronco Aruak) interligando a bacia do Amazonas com a do Orenoco.


O Rio Negro é berço da dispersão indígena dita Circum-Caribe na antropologia americana. Daí os primeiros Aruak ocuparam o Canal do Cassiquiari e rio Orinoco passando, lentamente, às ilhas do mar Caribe através das Bocas do Drago e da ilha de Trinidad donde toparam populações mais antigas, provindas do México e costa da Flórida com as quais teriam se incorporado. Em seguida, povos menos desenvolvidos porém mais belicosos, vindos da Floresta Amazônica com uma cultura guerreira fundada na antropofagia semelhante aos Tupis, subiram o Rio Negro dando inicio a longo conflito étnico pelo território. Estes vieram a ser conhecidos como Karib estabelecendo dicotomia com os Aruak passando os dois grandes grupos étnicos a lutar entre si até as últimas ilhas do mar.


Da guerra antropofágica caribenha, nasceu a palavra amaldiçoada “canibal' e o canibalismo aos olhos dos brancos. Falso como a crença de Colombo em ter chegado a Cipango (Japão) e a Índia... Lá ficamos nós sendo as Índias 'acidentais' e os “selvagens” canibalescos rotulados de índios. A ver que uma mentira civilizada vale mais que uma verdade bárbara. Mas, a verdade diz que o ritual antrofágico é eucaristia bárbara de culto aos heróis (“Manifesto Antropofágico”, Oswald de Andrade, 1928). E tal antropofagia foi a redenção do Outro pela mestiçagem de corpos e espíritos... Sartre diria que o Diabo são os outros: entretanto, pajés-açus ou caraíbas do Jurupari diabolizado pelos padres e agora pelos pastores evangélicos, sabiam que as virtudes do heroísmo não apenas poderiam ser imitadas como na religião de Cristo morto na Cruz para perdão dos pecados do mundo: mas também por arte mágica, como uma viva fé, mediante ingestão da carne e do sangue do inimigo valente e invejado. Menos dramatico, todavia mais sensível a religião de ingestão de cinzas mortuárias dos parentes falecidos misturadas ao mingau de banana, praticada pelos Ianomami.


Foi assim através de tal complexo civilizatório do mar das Caraíbas que os inimigos hereditários Aruak e Kalina passaram a ser uma única família Nuaruaque dentro da mesma aldeia, com os filhos da invejável mulher Aruak pela ciência secreta que ela tinha em lidar com variada gama de venenos e remédios passando de mães para filhas, e os filhos da trabalhadeira mulher Kalina vivendo como irmãos, compartilhando as duas línguas, usos e costumes de ambas culturas.
Estavam assim, em um complexo processo de guerra e paz em tudo semelhante ao confronto inter-étnico dos Andes que levou à guerra entre Aimaras, Incas e Quitus. Ou, nas terras baixas do Chaco e Paraguai Tupis, Guaranis e Tapuias; quando sucedeu – nas ilhas Guaanani (Bahamas), em 1492 – a fatídica chegada de Cristóvão Colombo. Já os Aruak e os Kalina caribenhos em guerra continuada estavam migrando de volta às Guianas quando os conquistadores com suas matanças inauditas pressionaram tais migrações. Numa de suas viagens à terra-firme, sempre com a crença de haver descoberto o caminho ocidental paras as Índias; Colombo chegou ao delta do Orenoco donde pretendeu ter avistado os rios mitológicos que banhavam o Jardim do Éden... Os castelhanos instalados na ilha Hispaniola (Haiti e República Dominicana) filtravam informações colhidas no novo continente. Assim, Orellana e Carvajal levaram a notícia fantástica do reino das Amazonas e do ouro de Manoa, que passou a povoar os espíritos mais aventureiros dos conquistadores.


Alfred Wallace, parceiro de Darwin na teoria da evolução das espécies; em sua viagem à desconhecida Amazônia (na segunda metade do século 19), foi um dos primeiros a perceber que os índios, apavorados pela fama de perversidade (ástya em Kalina) dos europeus, desenvolveram extraordinária capacidade de dissimulação. Ao ser questionados respondiam de acordo com que os estrangeiros pareciam acreditar, mas sempre no fito de os afastar das aldeias induzindo-os a ir em busca de ouro às mais distantes e fictícias paragens... Assim, diz Wallace; surgiu a lenda das amazonas.


Na verdade, o Ínca vivia cercado das chamadas “Virgens do Sol” comparadas a monjas ou sacerdotisas pelos espanhóis. Na Selva peruana os índios as chamavam simplesmente “mulheres sem marido” (cunhã-teko-yma ou icamiabas, em tupi). Eram servas do cerimonial temidas pelo povo pelos poderes mágicos que acreditavam elas possuiam para proteção do imperador, filho de Inti (o sol). Os Quíchuas adoradores do Sol eram súditos dos Incas (uma elite real) e oprimiam diferentes povos que proviam a economia de subsistência do Império das Quatro Partes do Mundo. O sistema de mitimac (colonização) obrigava remoção de povos hostis ou inimigos para regiões cercadas por populações fiéis ao Inca. Portanto, o perigo de magias contra o imperador era constante competindo então às monjas a inspecionar e provar tudo quanto o Ínca comia ou bebia. Somente elas em seu ofício ritual, além da família real, podiam olhar ou dirigir a palavra ao “filho do Sol”. Comiam e bebiam sobras de comida ou bebida que ele deixasse para não cair em mãos de feiticeiros inimigos. Assim como recolhiam e cremavam cabelo, unha, roupas usadas, tudo por fim que pudesse causar mal ao quase-deus dos Andes. Contra este regime teocrático se chocou a tirania apostólica cujos crimes o padre Las Casas denunciou na primeira hora. O resultado foi uma superposição de mitos e lendas donde nasceu a invenção da Amazônia.


Mais tarde, o aventureiro inglês Walter Raleigh, favorito da rainha; na sua expedição de 1596 pelo Orinoco em busca do El Dorado, colheu informações entre os nativos sobre a interligação de um grande lago salgado. Seria o Parime, em cujas margens se situava a cidade lendária de Manoa. Relatos desta viagem acabou por difundir publicações geográficas da época, que também sugeriam a ligação da bacia do Prata com o Amazonas. O tal lago constava de mapas utilizados pela expedição de Alexander von Humboldt, no começo do século 19. Após Humboldt, autor do “celeiro do mundo”, o lago Manoa continuou nas cartas das Américas.
A primeira tentativa de descrição completa do canal natural entre o Orenoco e o Amazonas, não lago Parime, deve a um relato de 1639, pelo jesuíta Cristóbal de Acuña; sem muita atenção, embora não fossem poucas àquela altura as notícias sobre o Canal de Cassiquiari.
A primeira descrição testemunhal sobre a sua existência do mesmo aconteceu somente em 1744, às vésperas do tratado de limites de Madrí (1750) entre os reinos de Espanha e Portugal; quando o jesuíta Manuel Román ao subir o Orinoco topou caçadores de escravos portugueses vindos do Rio Negro. O padre Román acompanhou-os ao longo do Cassiquiare até ao rio Negro, regressando depois pela mesma via ao Orinoco. A notícia chegou alguns meses mais tarde ao conhecimento de La Condamine que apresentou a novidade à Academia Francesa. Contudo, ainda assim, pouco crédito foi dado ao descobrimento, manifestando-se a maioria dos académicos pela impossibilidade da existência de tão estranho canal. Ainda mais, como veremos, adiante o dito acidente geográfico
A existência do canal Cassiquiare apenas foi considerada como verdadeira quando o mesmo foi visitado, em 1756, Comissão de Demarcação espanhola conforme o tratado de Madri de 13 de janeiro de 1750. Para os tempos da Cooperação Amazônica e da União das nações sul-americanas, que viveram de costas umas para as outras durante cinco século; as artérias e veias do continente merecem uma consideração especial além do imediatismo econômico sob o peso insustentável do mercado global.