quarta-feira, 11 de abril de 2018

TERRITÓRIO E COMUNIDADE: Academia do Peixe Frito no histórico empoderamento cultural e socioambiental do Ver O Peso.

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Sentados da esquerda para direita Paulo de Oliveira, Euclides Fonseca e Edgar Souza Franco. De pé Clóvis de Gusmão, Farias Gama, Bruno de Menezes e De Campos Ribeiro. Principais confrades do grupo Vândalos do Apocalipse, anos 20 do século passado, precursores do Modernismo na Amazônia e da Academia do Peixe Frito, fonte: blogue História e Natureza, de Wesley Kattle.



Luta marajoara para empoderar a Criaturada grande

Já se sabe que o Ver O Peso é umbigo ribeirinho da capital parauara ligando-a à verde placenta da Hileia amazônica: Campina e Cidade Velha são irmãs-gêmeas no parto telúrico da terra Tapuia antropomorfizada e transformada em espaço civilizatório. Lugar de encontro onde, diariamente, muitas gentes da cidade e das ilhas trocam valores materiais e simbólicos; assim como num formigueiro humano vão movimentando a economia popular e desenvolvendo a cultura regional do Norte brasileiro, a ver o peso que a vida dá ao vai e vem da maré. 

Agora, com as águas grandes da chamada mudança climática e a Agenda 2030 dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) em curso, é hora de dar um monumental banho de cheiro ao nosso amigo Veropa. Evocar Eduardo Angelim na convocação dos filhos de Ajuricaba e dos Nheengaíbas; não mais para guerra mas a chegança bacana de novos cabanos sumanos com alegria, paz e muita fé na Virgem de Nazaré para reconstrução solidária da república popular de Ossaim-São Benedito da Praia: Conjunto dos Mercedários restaurado e restaurando a ocupação do rio de Guamá pela UFPA, extensão multicampi do Solar da Beira refeito como centro de culturas amazônicas, ecomuseu comunitário na academia do peixe frito, cidade educadora, terapia comunitária integrativa etecetera e tal...

Não que antes eu já não estivesse engajado na ancestral luta marajoara da ocupação do Ver O Peso. No Pará velho de guerra a gente resiste e luta com constância pra descolonizar a Amazônia desde o histórico dia 7 de Janeiro de 1619, dia da Revolta Tupinambá do cacique Cabelo de Velha, primeiro grito de protesto e aviso prévio da desconforme Cabanagem de 7 de Janeiro de 1835... Masporém, os sumanos estão cansados de guerras sem fim, nós queremos amor, justiça e paz: foi a partir do Centenário de nascimento de Dalcídio Jurandir (2009), com o renascimento da Academia do Peixe Frito que estava em recesso desde a morte de Bruno de Menezes (1963); que eu, bem ou mal, tenho no seio da comunidade mais me esforçado a dar testemunho da Criaturada grande de Dalcídio, "índio sutil" chamado por Jorge Amado na Academia Brasileira de Letras, em discurso oficial da solenidade de entrega do Prêmio Machado de Assis, de 1972, pelo conjunto da obra do romancista da Amazônia. 

Oh, ano mil novecentos e setenta e dois da Era Cristã!... Ano da premiação da obra literária do escritor marajoara: o caroço mágico de tucumã (Astrocarium vulgare) levou Alfredo até a Academia Brasileira de Letras, no Rio de Janeiro, com a Criaturada toda do ciclo Extremo Norte para dar o Prêmio Machado de Assis a Dalcídio Jurandir: cumpriu-se o fado do preto velho Bibiano a seu neto mulato no romance Passagem dos Inocentes

Coincidência boa, em 1972, depois de andar só pelo mundo eu me casei com a minha senhora de Nazaré mãe amorosa dos filhos meus. Foi, por acaso, também o ano que o sumano padre Giovanni Gallo chegou ao Marajó; lá onde a antiga Cultura Marajoara nasceu ele inventou o "ecomuseu" de Santa Cruz do Arari (1973-1983) e depois o museu comunitário de Cachoeira (1984); escreveu três livros, plantou árvores no Arboreto que hoje tem seu nome e o filho que o padre fez não foi filho de boto, mas sim o inusitado museu para ver "com as pontas dos dedos": então o padre dos pobres pescadores implodiu sob o excessivo peso dos multifacetadas contradições da sua inusitada missão marajoara, Gallo, Galinho, Lalá enterrou seus ossos (2003) na imitação de teso arqueológico que ele mesmo fez à ilharga do museu. 

1972 foi o mesmo ano que começou a guerrilha do Araguaia no mês de abril, em maio em Santiago do Chile surgiram as diretrizes para a Nova Museologia e em setembro, na Amazônia, foi inaugurado o primeiro trecho da rodovia Transamazônica. Então, o Centenário de Dalcídio Jurandir 37 anos depois do Prêmio Machado de Assis, 46 após o súbito falecimento do fundador da revista modernista Belém Nova e criador da Academia do Peixe Frito, em Manaus, o poeta Bruno de Menezes.

Digo que neste contexto tomei força e vigor no cumprimento de minha sina. Mas, na verdade, há mais de 60 anos deste meu humilde porém sincero percurso de caboco militante. Cada um sumano ou cada uma sumana em sua lida faz a longa estrada que leva à inifinita estrada da vida de todas gerações... Que nem um igarapezinho que nasce jitinho nas cabeceiras da solidão da terra e vai pouco a pouco confluir com o rio até, enfim, chegar ao grande Mar-Oceano... 

Antes de chegar à nova Academia do Peixe Frito junto com o Centenário de Dalcidio eu dei os primeiros passos em busca da mítica yvy marãey (terra sem mal) ou o paraíso na terra, na demanda de libertação do cativeiro das tribos perdidas. A bem dizer, desde quando, bem matuto ainda, migrei da minha aldeia de Ponta de Pedras do Marajó para a pávula Cidade Velha em Belém do Pará. No caso, migrar é força de expressão. Aqui a gente das ilhas e da terra-firme sempre atravessa a fronteira do Ver O Peso de um lado a outro, sob mil e um pretextos; entre os quais a saudade da terrinha é o mais presente. Então, em vez de migrar melhor seria dizer morar: desde o tempo em que eu passei a morar na Cidade... Morar, na boa língua paraense, é mais que apenas residir ou passar um par de tempos em determinado lugar. Morar faz a gente criar raízes e deixar saudade.

Na ilha do Marajó, eu morei com meus pais na antiga vila do Itaguari (Ponta de Pedras) e no interior do município. Na mocidade fui morador ainda com os meus pais e uma irmã no sítio chamado Serrame, herança deixada por meu finado avô materno a suas cinco filhas e um único filho, localizado à margem do rio antigamente chamado Carapanaoca e depois Rio do Canal, entre o Ourém e o Curral Panema. Os amigos vejam que cada nome de lugar é uma porta que se abre ao vasto território da memória de cada comunidade. 

A gente que vem do interior morar na cidade grande do Pará tem no Ver O Peso o ponto certo, lugar preferencial de reencontro: lá todo mundo se acha com todo mundo... Pelo menos era assim na cidade das mangueiras até cerca dos anos 60 quando o poeta da negritude Bruno de Menezes morreu (1963), a Academia do Peixe Frito que existia ao ar livre fechou as suas "portas" metafisicas e a Ditadura Militar de 1964 apareceu tal qual a cobra grande Maria Canina. Antes da demolição adoidada do Grande Hotel e dos casarões da belle époque da Borracha; da febre dos shoppings centers, nome complicado de centros comerciais globalizados pra inglês ver. A cobra grande mãe do rio, bicho do fundo inconsciente, é o tempo deste mundo de águas turvas e profundas.

Os jovens da periferia da Periferia (Amazônia neocolonial), hoje em dia, vivem cercados de luxuosos condomínios fechados e de espigões de concreto; os sub-urbanos vão com nada no bolso ou nas mãos, paresque, fazer tour de fim de semana sonhando estar na Disney americana. E voltam do ilusório conforto do supermercado para o bang-bangue da vida real nos insalubres bairros-dormitórios cochilando, bêbados e cansados de nada; a bordo de velhos ônibus sujos e chechelentos; sujeitos sempre ao cartel dos transportes e a qualquer instante ao assalto de moços maconheiros doidos pelo vício e a desesperada falta de grana e oportunidade na vida. Morrem aos montes em confronto com a polícia mal paga e mal educada, pardos matando pardos sem escola boa para todos, cadeia vira escola do crime organizado. Ai Jesus! Salve-se quem puder.

No 'veropa' papa-chibé também agora tem assalto a toda hora no meio do pitiú com namoro de garça e urubu. Masporém, antigamente, a gente se encontrava ali quase todos dias com amigos, parentes e conhecidos que tinham ficado lá no outro lado do grande rio-mundo. Comia-se peixe frito no excelente azeite de patuá, pirão de açaí barato com farinha d'água vinda de Bragança pela estrada de ferro. Por aí também mandavam-se encomendas, cartas, lembranças e recados através de passageiros e tripulantes da infinidade de barcos e canoas que cruzam noite e dia as duas baías, do Guajará e do Marajó deveras perigosa... A alquimia caboca a preço módico, sempre pronta a nos oferecer e dar sorte no amor e nos negócios. 

Se, de fato, recordar é viver conforme diz o velho ditado: bom será, desta feita pelo fio de fibra óptica; conectar memórias, saberes e lugares - isto é, fazer e acontecer a universidade da maré - em redes educadoras populares para promoção da cultura da paz mundial. Padre Antonio Vieira, payaçu dos índios do Grão-Pará, seja louvado! 

Na belle époque existiu no Pará uma tal Paris n'América, agora na época pós-colonial é tempo de construir lá fora a Belem de la Amazonie dans l'Europe através da ponte ecocultural da nova museologia sobre as margens do Atlântico! Claro está que a ponte de concreto do Oiapoque simboliza esta arquitetura virtual transatlântica. Então, o planeta Brasil e o vasto mundo hão de saber o porquê do país que se chama Pará ter antigo porto de mar no Caribe e também a razão que no rio não dá tubarão e no mar não tem jacaré, como ensina nosso venerável Mestre Lucindo. De manguezais e cantorias sebastianas quem mais entendeu foi o meu sumano Mestre Vergara. O professor Ciro Flamarion Cardoso nos deu régua e compasso da cartografia colonial que apagou o círculo caribenho de cultura guianense desde as ilhas do Marajó, na boqueirão do equador amazônico; até a ilha Trinidad confronte ao golfo de Paria, no delta do Orenoco. Mundo mundo, vasto mundo ribeirinho! Quem quiser saber mais faça uma visitinha ao Ver O Peso, participe espontaneamente da Academia do Peixe Frito em plena feira e não esqueça de ler meu livrinho Amazônia latina e a terra sem mal, lançado a bordo do navio-veleiro francês Belem, em visita comemorativa a Belém do Pará, no ano de 2002 cerca de 100 anos depois de sua última viagem como navio mercante.

Naturalmente, eu ainda não havia nascido é já estava umbilicalmente ligado ao Veropa. Sobre isto, cumpre dizer que a Cidade onde eu nasci nasceu ela por sua vez à sombra do forte do Presépio, levantado em 1616, por soldados portugueses e guerreiros tupinambás amigos destes e inimigos dos "hereges" holandeses e bárbaros nheengaíbas (marajoaras) localizados nas ilhas do outro lado do Guajará. O sítio do forte foi acordado de véspera entre o capitão-mor Francisco Caldeira de Castelo Branco e o cacique da aldeia dos Tenoné (Icoaraci), ao qual o piloto francês Charles Des Vaux levou o fundador da cidade a pernoitar e pactuar a necessária amizade em consequência da trégua de São Luís do Maranhão (1615) havida entre portugueses e franceses em luta.

No alto do outeiro junto à boca do Igarapé do Piry lusos e tupis ergueram a simples paliçada à modo indígena premeditando levar a guerra para as ilhas no outro lado do rio Amazonas: logo à margem direita do igarapé desaguando na baía do Guajará havia a praia costumeira onde índios da aldeia da Campina encostavam e guardavam suas canoas de pesca. Os brancos do povoado que se formava perto da aldeia de Mairy (largo do Carmo) na margem esquerda; iam comprar produtos de caça e pesca dos índios. Então ali a feira se esboçou assim como a futura Casa das Canoas das tropas de resgate e o convento dos frades das Mercês onde os moradores da Cidade Velha podiam ir, mais tarde, pela Rua da Praia (15 de Novembro). 

Minha avó dizia que a avó dela, portanto minha tataravó indígena morando na aldeia das Mangabeiras (fundada por padres jesuítas em 1686, depois lugar de Ponta de Pedras em 1758); atravessava a baía do Marajó em igarité de pesca a vela de jupati para ir à cidade grande no outro lado do Pará. A velha índia marajoara lembrava quando ela era moça ainda ter saltado alguma vez em terra, no Ver O Peso, de maré seca passando por riba de estiva de troncos de miritizeiro (Mauritia flexuosa), como ainda se vê hoje em qualquer porto de sítio na beira do rio. Foi assim que, em 1625, dez anos depois da tomada do Maranhão os portugueses instalaram o Haver do Peso (fiscalização alfandegária de pesos em medidas) no Pará.

No ano de 1937, minha mãe grávida de nove meses pela primeira vez, comigo na barriga atravessou as duas célebres baías do Grão-Pará em igarité (canoa a vela), ela coitada veio "se pegando" (rezando) a todos os santos e desembarcou na doca do Ver O Peso. Então, mamãe foi dar a luz na maternidade da Santa Casa de Misericórdia do Pará à sua primeira cria, aqui presente contando de memória esta singela estória. Era outubro, mês de vento de verão no longinquou ano de 1937. No Brasil vigia o Estado Novo e a II Guerra Mundial vinha roncando e levantando banzeiros pela proa... Foi assim que eu, ainda jitinho e apenas batizado cristão na igreja da Santíssima Trindade; voltei depressa à ilha grande de meus antepassados. Abri os olhos cheios de espanto e ensaiei os primeiros passos no bairrozinho do matadouro chamado o Fim do Mundo, beira do rio Marajó-Açu, confronte a uma ilhota chamada ilha do Quati onde a cobra grande Boiuna mora e costumava transformar-se em navio encantado certas noites de lua. Noite destas eu sonhei ver com uns parentes o rebujo sinistro da "monstra" se rebolando no fundo do rio e botar a cabeça pra fora d'água pra vir bubuiando com o barranco abeirando a ribanceira metendo medo. Eu sei que Freud explica a fundo a alma humana, masporém os pajés sabem o que fazer nesses casos estúrdios e justificam melhor a coisa para gente caboca que nem eu.


Invenção d'O Nosso Museu': um jeito de ecomuseu por acaso.

Eu fico pensando como seria hoje O Nosso Museu do Marajó se, por acaso, o padre italiano Giovanni Gallo e o museólogo francês Hugues de Varine tivessem se conhecido há cerca de cinquenta anos passados. Ainda que esse conhecimento mútuo tivesse acontecido à distância no mesmo tempo que Verine na França e Gallo no norte do Brasil começaram a botar em prática suas ideias de educação patrimonial para enraizar a comunidade local no território da memória. Claro que os eternamente do contra hão de dizer o padre só queria achar um motivo para congregar seus simplórios paroquianos, na maior parte famílias de pescadores artesanais e vaqueiros ou criadores da pecuária tradicional. Sim senhor, o "museu" era uma curiosidade para chamar a gentinha para missa. Não contavam com a obra da necessidade e do acaso que são os pais da invenção. O caboco Vadiquinho (por suposto filho de Vadico, apelido de Osvaldo nestas paragens) entrou na história do museu do Gallo, mais ou menos, como Pôncio Pilatos no Credo. Masporém, eu acho que sem a provocação dos tais "cacos de índio" dados pelo caboco ao padre que amava "coisas que não prestam", a história do nosso museu perderia toda graça hoje em dia.

Também acho que por obra miraculosa de São Pedro Safadinho ou talvez o Divino Espírito Santo a ideia revolucionária do francês pousasse a tempo na vila do Jenipapo, município de Santa Cruz do Arari; um lindo ecomuseu cobriria logo o território marajoara inteiro, desde as paragens do Igarapé do Francês - que coisa estúrdia, hem? - abarcando o lago Arari de lado a lado e seguindo rio abaixo até a baía do Marajó. Com tamanho ecomuseu, o prefeito nada teria que reclamar ao bispo contra o vigário. Nem o bispo prelado, nem ninguém pensaria fechar um "museu" desses, que não tem sede nem coleções em sala fechada. Portanto, a história seria outra e o padre dos pescadores não precisaria se mudar para Cachoeira nem virar o homem que implodiu no altar do museu.

Pois é disto que trata a nova museologia e foi, exatamente, o que aconteceu lá e cá naqueles idos dos anos 70. E já é passado meio século! Tempo suficiente para duas gerações saberem do que estamos falando... Dalcídio Jurandir e Giovanni Gallo também nunca se viram pessoalmente. Todavia, Maria de Belém Menezes fielmente interligou Marajó ao Rio de Janeiro com remessas regulares de reportagens do padre da paróquia de Santa Cruz do Arari e Jenipapo levadas ao ávido conhecimento do "índio sutil" deixando estremecendo as raízes marajoaras do romancista da Amazônia

Da mansarda na rua das Laranjeiras veio, então, como resposta a sugestão do velho agnóstico comunista ao pároco católico, balila da escola militarizada na Itália fascista e soldado de Cristo na missão da diocese de Ponta de Pedras. Para, afinal, ser inventor de museu rural no fim do mundo e repórter inconveniente ao mando do latifúndio. O premiado autor de Chove nos campos de Cachoeiraescreveu ao padre: faça uma seleção de seus artigos nos jornais e publique "um livro que será retrato da terra e da gente de Jenipapo": o resultado foi o livro-documento Marajó, a ditadura da água, Giovanni Gallo (1ª edição de "O Nosso Museu", Santa Cruz do Arari, agosto de 1980). Masporém, Dalcídio não chegou a ver o livro do Gallo, pois aos 70 anos de idade vencido pelo Mal de Parkinson, o índio sutil faleceu no Rio de Janeiro um ano antes, em 16/06/1979, longe de sua amada Cachoeira onde na juventude ele desejou ser enterrado quando morresse. Esta honra, entretanto, coube ao marajoara adotivo que nasceu em Turim (Itália).

Houvesse alguém que nem a filha do poeta Bruno de Menezes, cerca de 1973, para fazer meio de campo entre Belém e Paris, talvez o Museu do Marajó e o Ecomusée du Creusot Montceau tivessem estabelecido frutuosa geminação. Mas, isto não aconteceu. Nem mesmo quando padre Gallo foi estrela de uma delegação da Associação de Municípios do Arquipélago do Marajó (AMAM) a visitar a Guiana francesa, cerca de vinte anos depois da fundação do Museu do Marajó. E o deputado do Partido Socialista Guianense (PSG) à Assembleia Nacional de Paris e prefeito da comuna de Sinnamary Monsieur Elie Castor, anfitrião daquela jornada sem precedentes; convidou publicamente o "Père Gallo" a ser conselheiro de um projeto de museu comunitário naquela municipalidade.

O honroso convite de um afrodescendente eleito representante político da França a um padre jesuíta italiano dissidente de seu bispo diocesano e compatriota não pôde ser confirmado. Pois, Monsieur Castor sofreu processo penal que o tirou do poder por razões administrativas supostamente cometidas no exercício do cargo de presidente do Conselho Geral da Guiana. No curso do processo ele morreu, subitamente, numa prisão na França metropolitana no ano seguinte. No lado brasileiro pouco se sabe do caso onde não faltou especulação política sobre a iniciativa guianense para melhorar as relações de vizinhança com o norte do Brasil.   

É fato que Brasília e Paris pisam em ovos quando o assunto diz respeito à fronteira do Oiapoque: mais que os limites amazônicos entre o Brasil e a França ultramarina, trata-se de um obscuro trecho dos contérminos sócio-econômicos entre o Mercosul e a União Europeia. Eu não creio em bruxos, masporém eles existem... Fernando Henrique Cardoso e Jacques Chirac tentaram transformar a fronteira em ponto de união franco-brasileira, depois foi a vez dos presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Nicolas Sarkozy dar um passo avante na cooperação de fronteira, a construção da ponte sobre o rio Oiapoque, a criação da universidade binacional e outras coisas mais. A ponte está lá firme, porém Dilma Rousseff e François Holande não se encontram lá na inauguração sinalizando que as coisas não se normalizaram tanto quanto o desejado pelos dois governos. Garimpos ilegais e imigração clandestina continuam sendo uma pedra no caminho das Guianas.

Ah, está claro que a vizinhança entre Oiapoque (Brasil) e Saint-Georges de l'Oyapoc (Guiana francesa) continua na boa desde sempre naquela comunidade intermunicipal. Melhor será quando a Universidade Binacional do Oiapoque, anunciada no encontro Lula - Sarkozy em 2009 e inaugurada em 2014; chegar a sua plena vocação de desenvolvimento fronteiriço. Quem sabe, então, a rede internacional de ecomuseus e museus comunitários chegue até lá com um criativo ecomuseu binacional?

Com a geopolítica colonial ultramarina são complicadas as relações transfronteiriças, desde o século XVIII. No passado o Norte brasileiro e a Guiana Francesa não se falavam bem e até foram à guerra durante o Contestado do Amapá, com agravante das línguas oficiais diferentes: coisa que não aconteceu entre as colônias espanholas. Até hoje, por exemplo, não se acha com facilidade tradução do francês para o português da obra do pai da Negritude Aimé Cesaire, da Martinica. Por outra parte, não existe tradução Bruno de Menezes, do Pará, para língua francesa: mas, curiosamente, o paraense é célebre pelo poema Batuque, enquanto o magistral martiniquense tenha um Batouque também... Embora exista acordo de geminação entre as duas capitais, Belém e Fort-de-France; e o Estado do Pará e a Região francesa da Martinica tenham celebrado protocolo de cooperação.

Indiscutivelmente, estudos comparativos da arqueologia e da história colonial da Amazônia, Guianas e Caribe são muito instigantes. São regiões complexas do chamado circum-Caribe. Marajó e Baixo-Amazonas fazem parte da grande área cultural guianense que se estendeu desde a ilha de Trinidad até o delta-estuário do Amazonas. No ano 400 depois de Cristo, mais ou menos, o povo dos Camotis (Camotins, vulgo "igaçabas") inventou o primeiro teso (sítio arqueológico) da Cultura Marajoara. Era um povo de mariscadores nômades com uns cinco mil anos de existência nos costados: a necessidade é a mãe da invenção... A cabo da lenda da primeira noite do mundo, aquela escuridão original que, diz-que, dormia no fundo do rio, dentro de um caroço de tucumã escondido pela cobra grande mãe do rio. Eis que um novo sol reapareceu sobre as águas do grande lago e agora a gente já não maldizia mais aquele infindável dia cujo o sol não adormecia nunca. Naquela primeira manhã depois da primeira noite do mundo, brilhou a luz da inteligência desta gente e assim inventou-se a primeva Cultura Marajoara.

A historiografia das Guianas relata a existência de povos de pescadores e mariscadores, chamados Mayé; vivendo sobre mutá (estrado sobre árvores) nos mangues da costa, vem daí a arquitetura ribeirinha de barracas de palha em estacas de madeira (pilotis). A cidade de Cametá tem origem na aldeia de Camutá-Tapera, como a indicar território antigo Aruak invadido pelo Tupinambás, no Tocantins, como em Tapuia-Tapera (Alcântara), no Maranhão. Arqueologia e antropologia pré-colombiana ainda tem muito a contribuir com a história do futuro das regiões amazônicas.

Para entender melhor esta fabulosa estória é indispensável ler o livrão Cultura Marajoara, de Denise Schaan; não antes de começar a introdução à amazonidade pela Criaturada grande a partir do romance seminal Chove nos Campos de Cachoeira e seguir os passos do menino Alfredo no chalé a bisbilhotar a estante de livros do major Alberto. Onde, entre catálogos e traças, jaziam compêndios de história e folclore. Daí talvez a criteriosa escolha do caroço de tucumã pelo menino, entre tanto outros carocinhos que crianças de todo mundo escolhem para brincar e jogar. Por que, exatamente, aquele? Porque era fruto da palmeira espinhosa que dá a divina canhapira e, sobretudo, aquele um que aos seus olhos era mágico. Havia, paresque, poderes secretos dos pajés sacacas iniciados no lago encantado do Guajará. 

Com tal carocinho preso em sua imaginação Alfredo podia correr livre pelos campos de Cachoeira, chamar a chuva para apagar as queimadas e voar até os verdes prados da Holanda a fim de dar uma espiada e comparar as diferenças de classes sociais e regiões geográficas do vasto mundo. Menos afortunado que Alfredo com o caroço mágico, eu me criei ouvindo minha mãe contar casos da fazenda Diamantina e do rico sítio Porto Santo, meu pai pintava em minha imaginação a linda Cachoeira de seus sonhos onde ele costumava visitar meu avô Alfredo, dona Margarida Ramos e seus irmãos do segundo casamento do pai. Uma viagem digna de cinema ao rio Caracará na exuberância da natureza me levava a galopar sob chuva e vento na campina imensa.

Minha primeira leitura do tio Dal foi o romance Marajó recomendado a mim por minha avó Sophia, na verdade tia, pois a legitima era a índia mangabeuara Antônia, morta no parto de nascimento de meu pai caboco. Leitor despreparado fiz uma leitura incipiente, diga-se de passagem. Todavia, aos trancos e barrancos, o caboquinho que vos fala leu "tudinho" de um fôlego só... Caíram-me as escamas dos olhos... Depois de Dalcídio já me atrevi a encarar Os Sertões, de Euclides da Cunha. E não foi sem assim que, enfim, aos 19 anos de idade no ano de 1956 subi, pela primeira vez, o caudaloso e lendário rio Arari; encostei no porto em Cachoeira de madrugada como um ladrão de gado que ninguém viu quando chegou ou partiu; fui com o sumano canoeiro até a vila do Jenipapo e retornamos rio abaixo no fim do mesmo dia em canoa montaria (a remo), três dias e três noites. Lugar esse onde, mais tarde, o padre Giovanni Gallo iria inventar O Nosso Museu de Santa Cruz que nasceu, em 1973. Ecomuseu melhor dizendo, o primeiro do Brasil, embrião do Museu do Marajó (1984) por acaso no berço da Cultura Marajoara de 1600 anos de idade! Masporém, naquele tempo eu não sabia nadinha, nem mesmo da eleição que houve para o governo estadual, motivo pelo qual ficamos sem a lancha que rebocava canoas até o lago Arari na ida e na volta o sumano errou o pulo, caiu n'agua no meio da escuridão e nós ficamos a ver navios isto é, a lancha-vapor Aida se afastar com a penca de geleiras atrás. Remos pra que vos quero? Na baixada da correnteza do rio todo santo ajuda o remador...

No dia 20 de novembro de 1756, o fundador da freguesia de Nossa Senhora da Conceição da Cachoeira do rio Arari , capitão inspetor da Ilha Grande de Joanes (Marajó), Florentino da Silveira Frade; achou o primeiro sítio arqueológico encontrado na ilha do Marajó, o teso do Pacoval do rio Arari, fronteiro posteriormente à vila do Jenipapo. Uma bela aldeia suspensa da fase Joanes que suscitou a obra O Homem do Pacoval, de Raymundo de Morais: do teso arrombado e saqueado saíram coleções cerâmicas pré-colombianas para o Museu Nacional do Rio de Janeiro e o Museu Paraense Emílio Goeldi, em fins do século, e também as peças enviadas à Exposição Universal de Chicago (EUA) de 1893.

À pobre gente marajoara, do teso cobiçado, sobraram "cacos de índio" que os caruanas "assopraram" ao ouvido do pescador Vadiquinho para o caboco sonso ir cotucar o padre da paróquia com a coleta clandestina de ladrões de gado, acostumados a pilhar os tesos e fazendas nos arredores. Masporém, graças a São Pedro Safadinho e ao Glorioso São Sebastião, o Divino Espírito santo enviou o padre Gallo para inventar o tal museu naquele fim de mundo. E que museu! 

Falta-me ainda dizer como foi que eu conheci Hugues de Varine e como me tornei propagandista do Ecomuseu da Amazônia. Mas agora já falei demais. Fica para próxima oportunidade. 

quarta-feira, 21 de março de 2018

A flauta de Rodolpho

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Hoje Clarinha completa dezoito anos de idade, ela é minha primeira neta entre cinco. Uma linda menina que desde criança revela sensibilidade musical e, inclusive, se sai bem como baterista. Por isto seus tios Ana e Moa a presentearam com uma flauta transversal de particular estimação de ambos. Gesto do casal que muito sensibilizou o avô, a avó e tia que assistiam a significativa oferta durante café da manhã da aniversariante, perfeitamente surpresa e emocionada. Detalhe importante, a avó em apreço e seu filho Moa são padrinhos de batismo de Clarinha.

As circunstâncias do presente decorrem do fato de Ana ter adquirido a flauta com seu primeiro salário do primeiro emprego dela. A fim de surpreender Moa, apaixonado por música que é o segundo grande amor dele, depois da companheira Ana Rosa e suas duas filhas, Ana Beatriz e Ana Sophia. Não foi fácil, pois, Ana e Moa se desprenderem desta flauta tão sentimental. Acontece, que a aniversariante também se chama Ana e é afilhada do compositor e violeiro destas quatro Anas. Tem ele seu violão confidente e a sanfona maneira que era do tio Sebastião e suas primas de Brasilia, filhas do pranteado Tião deram em recordação ao primo parauara cantador. 

Foi aí, então, que me lembrei da flauta de meu velho pai caboco, seu Rodolpho Antonio Pereira. Este, quando jovem, órfão da índia mangabeuara Antônia Silva, comprou de um amigo uma flauta e com ela tirou alguns solfejos e até tocava uma valsinha chamada "Perfeito Amor", segundo me contava com bom humor. Ora, isto por meus cálculos teria ocorrido talvez quando Rodolpho havia, pouco mais ou menos, uns vinte anos de idade. Ou seja, cerca de 1924. 

A antiga vila de Ponta de Pedras é notável por sua tradição musical e sempre teve Banda com famosos mestres e músicos a cada geração até hoje com a excelente Banda Sinfônica Antônio Malato. Da valsa eu apenas guardei o nome e agora, para escrever esta memória, fiz busca no Google: a coisa mais plausível que achei foi "O amor perfeito: Valsa n. 4 distribuída com a Marmota na Corte: Composta por Francisco José Lopes e dedicada a sua consorte (1851)". A Marmota na Corte foi uma revista carioca que circulou entre 1849 e 1852, estampando partituras. Resta saber se, por acaso, foi esta de fato a melodia que o filho adotivo de sua irmã mais velha, dona Sophia Pereira, aprendeu a tocar na flauta.

E tudo estaria bem, quem sabe, se Rodolpho Antônio - Antônio para lembrar o nome da falecida mãe Antônia e Rodolpho de seu padrinho alemão, um certo Rudolf compadre de seu paí Alfredo Nascimento Pereira -, bisavô de Clarinha acabasse se tornando flautista. Porém, quis o destino que o anterior dono da flauta morresse acometido de tuberculose galopante! Já a tuberculose havia marcado a família Pereira, ceifando a vida do avô de Rodolpho, o voluntário da Pátria da vila de Benfica, Raimundo Pereira, patriarca da família. Naquele tempo, a tuberculose era a "peste branca" matava mais que AIDS em nossos dias... 

Sophia aconselhava Rodolpho a se desfazer da flauta, ela tinha medo que o filho pegasse a doença tocando o mesmo instrumento do tuberculoso, ele era um rapaz de saúde frágil com sequelas provavelmente do parto de gêmeos quando morreu sua mãe com o natimorto no ventre, batizado Manuel. A segunda irmã, Lodica (Laudelina Diva Pereira) dizia que o instrumento se poderia botar em água fervente para prevenir a doença. Mas, Rodolpho estava encantado pela música e não queria deixar flauta de nenhuma maneira. 

Em pânico, Sophia tomou decisão drástica e nunca ninguém soube que fim levou a flauta de Rodolpho. Com o tempo, sempre que Rodolpho me contava a história da flauta eu me lembrava do velho chalé de meus avós em Itaguari (Ponta de Pedras), onde esta história se passou. Viajei para longe levando lembranças de dias felizes de infância no enorme quintal que me parecia uma floresta, cheia de sons, odores, cores, formas e mistérios. Lá fora ouvi e conheci a história da ópera do alemão Mozart, A Flauta Mágica. Primeira ópera em língua alemã, uma heresia aos padrões da época e uma rebeldia nacionalista comparável às obras brasileiras de Carlos Gomes e Heitor Villas Boas.

Mais tarde, quando o pai de minha mulher adoeceu, comprei para ele gravação da ópera do nosso irmão alemão maçom Wolfgang Amadeus Mozart, que passou a escutar no leito de hospital com a devida compreensão simbólica, enfim meu sogro Emílio Fernando faleceu em 6 de janeiro de 1990. Desligou-se o aparelho que ficou mudo e nunca mais Mozart foi tocado em nossa casa. Quatro anos mais tarde, foi a vez de Rodolpho Antônio Pereira nos deixar e ficar encantado. Eu não o ouvi mais contar a história de sua flauta e da tocata do Perfeito Amor, que hoje a flauta ofertada à Clarinha me lembrou. Minhas recordações se misturam ao longo de minha vida.

O chalé de meus avós, em Ponta de Pedras, era confortável e austero com amplos quartos e salas, alto pé direito, platibanda, porta alta e dois janelões para a rua, um metro levantado do chão com duas passagens redondas para ventilação abaixo do assoalho onde galinhas e patas chocavam e apareciam com suas no quintal. Um vasto terreno todo arborizado de variadas plantas frutíferas, aromáticas e medicinais; no meio do quarteirão entre dois vizinhos de esquina.

Pelo lado direito o terreno com casarão de dona Domingas Malato e para a esquerda a casa e quintal do Miro Martins, onde veio se levantar depois o Hotel Itaguari; e tudo isto em frente ao campo do Marajoense, que varava para a estrada do Campinho e hoje dá lugar à Catedral da diocese de Ponta de Pedras. Com o passar do largo tempo e a chegada da pobreza da família, o chalé avoengo se arruinou e veio ao chão antes de cair sobre os moradores. No terreno foi feita uma pequena casa de madeira sem pintura no mesmo lugar do antigo chalé. O assoalho da casa ainda era do mesmo acapu recuperado e do antigo telhado deram e sobraram telhas da famosa olaria Arapiranga, compradas no tempo das vacas gordas. 

Quando minha avó Sophia morreu, na verdade tia, meu pai e a tia Lodica mudaram-se de Ponta de Pedras, em 1973, a fim de irem morar comigo primeiro em Brasília e depois em Belém, 1974. A casa de Ponta de Pedras se acabou e a Prefeitura, sem consulta aos herdeiros e indenização, doou o terreno remanescente para construção da sede da Associação Musical Antonio Malato (foto acima). Nada reclamamos dado à finalidade a que se destinava embora nunca ouvimos um muito agradecido a respeito do incidente. Mas não importa, por linhas tortas parece que a flauta do afilhado do alemão Rudolf compatriota do autor da Flauta Mágica encontrou uma saída satisfatória para todas as partes desta curiosa história.


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A opera A Flauta Mágica começa com o personagem Tamino perdido na floresta, onde encontra Papageno, um homem alegre que aprecia os prazeres da vida e trabalha para a Rainha da Noite. Deste encontro Tamino fica sabendo que Pamina, filha da Rainha da Noite, foi sequestrada por Sarastro e, apaixonado pela sua beleza e a pedido da Rainha da Noite, decide resgatá-la. Na sequência, ambos passam por várias provas antes de se encontrar. Papageno também passa por um tipo de prova e este contraponto do homem comum que se comporta de modo diferente do príncipe diante das adversidades é o lado cômico que fez esta ópera tão popular.

Obra repleta de simbolismo. No livro A filha da noite, a escritora Mariom Zimmer Bradley, conta em prosa esta mesma história, em que os apaixonados lutam contra forças do mal e a Rainha da Noite, Mãe de Pamina, para se purificar e alcançar a sabedoria juntos. Metáfora sobre o Iluminismo e a revolução francesa impondo-se contra a Idade Média e o Absolutismo. 

Flauta Mágica lembra também o mito de Orfeu, um dos mitos gregos mais populares. Orfeu era filho da musa Calíope e do deus Apolo, que presenteou o filho com uma lira. Quando Orfeu a tocava, os pássaros paravam para o escutar, os animais selvagens perdiam o medo e as árvores se curvavam para pegar os sons que o vento trazia. Esta a magia da Música que eleva as criaturas e vem do fundo do coração do ser humano inaugurar a Civilização. Humanidade filha da Animalidade. Nada mais natural que o DIA INTERNACIONAL DAS FLORESTAS nos lembre que a vida depende da harmonia e equilíbrio das coisas. Um dia bom para ouvir as Bachianas (1922) do nosso brasileiríssimo Heitor Villa Lobos e pensar na Floresta Amazônica.


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sexta-feira, 16 de março de 2018

A cidade educadora ribeirinha na universidade da maré.

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"Todos os habitantes de uma cidade terão o direito de desfrutar, em condições de liberdade e igualdade, os meios e oportunidades de formação, entretenimento e desenvolvimento pessoal que ela lhes oferece. O direito a uma cidade educadora é proposto como uma extensão do direito fundamental de todos os indivíduos à educação. A cidade educadora renova permanentemente o seu compromisso em formar nos aspectos, os mais diversos, os seus habitantes ao longo da vida. E para que isto seja possível, deverá ter em conta todos os grupos, com suas necessidades particulares".  - CARTA DAS CIDADES EDUCADORAS.




AMAZÔNIA MARAJOARA PEDE MUNDO DE PAZ

Faz  escuro, mas eu canto e ponho fé no progresso da humanidade, na reponta da maré cá no meu recanto na boca do maior rio do mundo. Que nem, lá rio acima na terra de Ajuricaba dos Manaus, o poeta da floresta Thiago de Mello anuncia o dia iluminando o caminho do futuro a todo mundo que presta e até mesmo a quem não presta ele empresta fé, esperança e amor em sua revolucionária poesia.

Com o poeta ajuricaba iluminado eu sou praticante zen-bubuia cabano. Ora viva o ajuri cabano na universidade da maré! Aleluia! Peixe frito no prato, açaí e farinha d'água na cuia. Zen pra mim é meditar sentado na beira do rio à procura de mim mesmo, horas a fio; enquanto espero o peixe do pensamento bater na linha a fim de pescar uma ideia qualquer. 

Ver a paisagem passar no tempo fugaz indo embora de bubuia, flutuando em riba das águas ligeiras do rio de Heráclito: destarte as lições imortais de Buda, Jesus, Marx e Freud não tem contradições graves entre elas, nem são estranhas a quem, porventura, é guerreiro andante de caminhos de bom coração. Porém, o maior problema da crise que ora se apresenta é que os maus se tornaram mais poderosos que sempre, enquanto os bons não sabem pelejar com alma e coração, enfeitiçados que estão pelos próprios costumes de produção e consumo de verdadeiros inimigos da humanidade. 

A ponto do povo norte-americano se achar entregue à epidemia de depressão, obesidade e dependência a drogas viciantes a despencar na lista mundial de felicidade, segundo índice aprovado pela ONU e apoiado pelo Vaticano. Na qual a pequena e fria Finlândia ascendeu ao topo enquanto a Noruega, benemérita da proteção da natureza na Amazônia onde ela dá com uma mão e tira com outra, agora negativamente famosa pelas falhas desconcertantes da empresa norueguesa Hydro Alunorte em Barcarena-Pará, aparentemente foi castigada perdendo o primeiro lugar onde orgulhosamente se achava.

Para entender tamanha guerra morna e difusa - nem quente, nem fria -, carece inteligência natural coletiva. No fim do mundo civilizado - periferia da Periferia, celeiro das multinacionais extrativistas -, há que se considerar a práxis evolucionária da criaturada grande iniciada na arte de sobrevivência da Selva, segundo os antigos profetas caraíbas, condutores da utopia selvagem chamada a Terra sem males. Sem a qual não haveria Amazônia nenhuma, tudo sendo uma grande Columbia estrangeira. 

Sem esta conspícua providência, toda ciência e tecnologia resta humanamente insustentável: não adianta caboco se preparar na escola para o vestibular, passar e entrar na universidade em fagueiras festas de carnaval fora de época. O filho ou a filha das tribos perdidas do cativeiro do Grão-Pará raramente sai diplomado, desiste do curso desempregado e acredita ele ou ela não ter inteligência pra nada. Ou, então, aprende a rezar conforme o catecismo e sai graduado com o canudo na mão, e assim atravessará o mestrado e doutorado com vaga assegurada em academia de letras: todavia, esse caboco envergonhado das raízes indígenas e africanas sai amestrado feito cão guia de cego. Pior que professor doutor idolatrado das capitanias hereditárias. 

Paulo Freire já tinha avisado a esses caipiras danados, comedores de peixe frito e carne seca com pirão de mandioca. Mais cedo Florestan Fernandes tocou alarme, Darcy Ribeiro denunciou sem medo e agora o cidadão planetário Edgar Morin está aí pelas Franças a pregar o evangelho da complexidade e não me deixa mentir na aldeia amazônica, pátria tapuia minha: quanto maior a crise civilizacional, mais forte deve ser o remédio requerido para fugir aos males da sociedade global. 

Foi assim na revolução francesa anunciada, segundo Rousseau, pela visitação de bons selvagens Tupinambás, no ano de 1562, à corte de Ruão, conforme conta Michel de Montaigne nos Ensaios: que enviados da França Antártica (Guanabara), por Villegnon, para fazer marquetingue da colonização huguenote; ao ser perguntado sobre o que mais chamara sua atenção, disse o índio da América do Sul: o escândalo da catedral de Rouen, onde na porta no lado de fora à espera de esmola, mendigos estendiam a mão aos burgueses saindo de dentro. Dissera o selvagem, então, "eu não entendo por que esta gente miserável não salta ao pescoço dos ricos e não toca fogo na cidade"... Olha só, comentou Montaigne, estes selvagens vieram nos dizer o que já devíamos ter feito há muito tempo. Demorou, mas, em 1789, os sans-coullotes sem saber de Rousseau ou Montaigne deram curso à sugestão Tupinambá.

A era das revoluções é passado. Ou não é? Salvo na universidade da maré: onde ondas do mar ou virtuais, vão e voltam, na dança cósmica da pirapuraceia e revolução permanente... Hoje esta gente da terra cabana está cansada de fome, trabalho escravo, doenças, velhice ao deus dará e mortes cruéis... 

Mas, o povo brasileiro não deve esquecer a matriarcal Antropofagia mágica e Yvy Marãey (terra sem mal) continuando a velha busca ancestral, ao mesmo tempo que se deve comer do pão da terra e beber o vinho de açaí consagrados do mito evangelizador do Reino de Jesus Cristo consumado na terra dos Tapuias (por outros nomes, Rio Babel ou Amazônia). Nós não podemos desanimar e nos render à colonialidade, assim como o índio catecúmeno deixou de resistir e lutar na defesa de nossa terra: nossos antepassados viveram o espaço plano de suas crenças, como todos mais que acreditavam que o Sol e todas mais estrelas do firmamento giravam em volta da Terra. 

Mas nós agora não temos mais desculpas da ignorância, pois a utopia do passado poderá ainda ter concretude mediante a Ciência de Einstein, pela espiral evolutiva do desenvolvimento humano sustentável, dia após dia, a Terra sem males sendo renovada e reconstruída - tal qual a resiliência orgânica de todos seres vivos -, por nosso próprio engenho. 

Fome, escravidão, doença, velhice e morte nunca mais! Por que não? Sobre a morte, que parecia irremediável e a maior inimiga da humanidade, já sabemos que "a gente não morre, fica encantado" (Guimarães Rosa). Pois o que vale nesta vida, sim, é a arte do encantamento pela vida. 

Como diz a canção Tocando em frente, de Zé Geraldo; é preciso amor pra poder pulsar, paz para sorrir e a chuva para florir. "Penso que cumprir a vida seja simplesmente compreender a marcha e ir tocando em frente". Um boiadeiro que leva o gado a caminho do matadouro é ele a própria estrada, a multidão anônima na marcha inconsciente da história. O rio sou eu em minha própria sina em procura de quem inventou o mundo e traçou o destino de meu país. Hoje eu só quero ser feliz com minha gente em paz com todas e todos.

Desde a conquista do Maranhão e Grão-Pará - e lá se foram mais de 400 anos! -, a brava nação Tupinambá aliada aos portugueses devassou os confins até a cardinheira dos Andes e os contérminos do Alto Rio Negro: o motor da invenção da Amazônia, o mundo deve saber, foi a utopia do bom selvagem, dita a Terra sem males...  Porém, o mundo esqueceu do que Montaigne e de Rousseau disseram sobre os índios levados a França pelos colonizadores da França Antártica (Guanabara)

Talvez muitos não saibam ainda que as cores marajoaras tradicionais são o vermelho e preto, por causa da milenar arte cerâmica encontrada nos tesos da ilha do Marajó. Veja-se a obra Motivos Ornamentais da Cerâmica Marajoara, de Giovanni Gallo, edição do Museu do Marajó: terceira edição, Cachoeira do Arari, 2005. O conceito de Amazônia Marajoara decorrente do trabalho inovador da arqueóloga Denise Schaan e do historiador Agenor Sarraf afim com o denominado Golfão Marajoara defendido pelo geógrafo Aziz Ab'Saber. 

Já a obra As Regiões Amazônicas (Lisboa, 1895), de autoria de José Coelho da Gama e Abreu (Barão de Marajó) deu esta noção de diversidade cultural e biogeografia que caracteriza a Amazônia como um todo, tanto em sua unidade geomorfológica e quanto em diferenças regionais notáveis, no conjunto da maior bacia fluvial do planeta, donde a floresta equatorial superúmida se destaca com suas populações tradicionais de campos, florestas e ribeirinhas.

Alguma vez descrita como "pan-Amazônia", cumpre ter presente que a nossa Amazônia de cinco mil anos de ancestralidade é cerne da integração da América do Sol, coração pulsante da mãe Terra - com 7 milhões de km² e 35 milhões de habitantes, correspondentes a 10% da população da América do Sul -, somos parte do condomínio de oito países amazônicos (Bolívia, Brasil, Colômbia, Equador, Guiana, Peru, Suriname e Venezuela) e uma região (Guiana francesa). O Brasil é o maior país amazônico dentre todos: donde a Amazônia brasileira (composta integralmente pelos estados do Acre, Amapá, Amazonas, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins; parcialmente pelo Maranhão e Mato Grosso) representa mais da metade do território de nosso País.

Urge descolonizar e amazonizar o Brasil brasileiro, tornar Brasília doravante uma cidade bem amazônida junto ao monumento natural das Águas Emendadas, donde se dispersam fontes das bacias amazônicas, platinas e do velho Chico; capital federal de todos Brasis sob o Cruzeiro do Sul, constelação dos navegantes do mar; antigamente chamada Arapari pelas velhas migrações aruaques das ilhas do Caribe para o continente. 

A eco-civilização amazônica renascida no presente vem da arte e cultura marajoara, mil anos antes do "descobrimento" do Brasil. Hora do Plano Piloto brasiliense com suas asas de avião pousar no chão do Planalto Central do Brasil, deixar um pouco altos planos aéreos e o espaço sideral das imaginações esotéricas para anunciar, enfim, a alvorada de nossa genuína civilização reencontrada pelas águas do São Francisco, do Paraná e do Tocantins. Este rio amazônico que deságua no estuário do grande Rio Pará, braço meridionat do gigantesco Amazonas que abraça a Amazônia Marajoara; face à ilha do tesouro descoberto no maior arquipélago fluviomarinho da Terra.

quarta-feira, 14 de março de 2018

Marinatambalo: os primeiros negros da terra e o romanço iberiano Marajó.

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"negro da terra", assim os escravagistas chamavam ao índio escravizado enquanto
o escravo africano era chamado genericamente "negro da Guiné". Vem do espanhol
"negro" sobre a condição de escravo, preto é a cor da pele de uma pessoa.



"O país real, esse é bom, revela os melhores instintos: mas o país oficial, esse é caricato e burlesco" - Machado de Assis.


Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.
Fernando Pessoa. 

"Na busca por novos campos de estudo no ensino de História, nos deparamos com o conceito de literacia histórica desenvolvido por Peter Lee e seus apontamentos sobre a alfabetização histórica já nos anos iniciais. Vários autores discutem essa temática relacionada à contextualização de vivências locais e configurações identitárias do referido meio, onde se evidencia o desenvolvimento de competências que contribuem para o aprimoramento do pensamento histórico, além de favorecer a elaboração de raciocínios cada vez mais complexos." 
Eliane Candoti / O ensino de história nos anos iniciais: apontamentos no processo de construção do conhecimento histórico.



A GEOGRAFIA SERVE PARA FAZER A GUERRA.
PORÉM A HISTÓRIA PODERIA CULTIVAR A PAZ?


Em primeiro lugar, quero lembrar a Revista Iberiana com meu ensaio Novíssima Viagem Filosófica, publicada pela Secult: Belém, 1999; na qual explico a diferença entre ibérico propriamente dito e aquilo que eu considero iberiano, algo de origem ibérica que se transforma e evolui dialeticamente com a diversidade cultural do, assim chamado, Novo Mundo. O neologismo me ocorreu numa tarde infindável de verão em Brasília, anos 80, quando o som de bate estaca na construção do anexo, apelidado "bolo de noiva", do Palácio Itamaraty quebrava a calma da Esplanada dos Ministérios. Era para mim como o eco distante do trabalho de estaleiro na construção das naus do descobrimento dos caminhos marítimos, que até no Planalto Central do Brasil chegara, quem sabe remontando o rio São Francisco...

O romance Marajó de Dalcídio Jurandir (Ponta de Pedras, 10/01/1909 - Rio de Janeiro, 16/06/1979) - originalmente escrito sob título de Marinatambalo -, foi recebido como o "primeiro romance sociológico brasileiro" por Vicente Salles que também identificou na obra o tema do incesto do romanço medieval ibérico Dona Silvana. Vejo aí o que se pode chamar, então, um exemplo de cultura iberiana. A psicanálise encontra em Marajó prova da teoria da libido elaborada por Sigmund Freud (1856-1939), romance escrito por acaso no ano da morte do descobridor do Inconsciente. 

Na opinião de Willi Bolle, professor de literatura moderna na USP, entre as dez obras do Ciclo Extremo Norte (1941-1978), Prêmio Machado de Assis (1972) de Dalcídio Jurandir, o romance Marajó (1947), contém a maior diversidade de informações sobre a ilha do Marajó. Romance documental duma modalidade de escrita da história, ao mesmo tempo ficcional, que retrata as relações de poder entre senhores de terra e pobres despossuídos de tudo. A obra apresenta um utópico projeto social no rio Paricatuba (Ponta de Pedras), pelo protagonista Missunga (apelido familiar do personagem Manuel Coutinho), herdeiro único do latifundiário coronel Coutinho. Com esta trama o romancista apresenta tema relevante para as ciências sociais, estudos literários e etnográficos.

O nome original do romance abre para histórica passagem na região amazônica, em 1500, do navegador espanhol Vicente Yañez Pinzón (Palos de la Frontera, 1462 - 1514). Piloto e sócio de Colombo no descobrimento da América (12/10/1492), el chegou ao Brasil no dia de São Sebastião, 20 de janeiro de 1500, ao largo do cabo de Santo Agostinho (Pernambuco). Sabia, certamente, que aquela costa caia na posse de Portugal conforme o tratado de Tordesilhas de 1494. Por isto, em vez de tomar posse da terra para Castela, aproou para norte e foi encostar na ponta do Mucuripe (Fortaleza, Ceará), para tomar água e abastecer sua caravela Niña, a mesma que ele comandou na viagem de 1492. Do Ceará prosseguiu a jornada quando viu o grande rio Santa Maria de la Mar Dulce (Amazonas), onde assaltou uma ilha levando dela os 36 primeiros "negros da terra" da América do Sul.

Além dos 36 índios cativos a caravela Niña levou a bordo uma mucura (Didelphis marsupialis ( Linnaeus, 1758) com filhotes, a qual o navegador em seu relato chamou de "animal monstruoso"... O pobre animal e seus filhotes não resistiram a viagem por falta de alimento. A nau entrou no rio Oiapoque, chamado depois "rio de Vicente Pinzón" dentre um longa controvérsia com os franceses sobre limites da Guiana francesa, querendo estes fosse o rio Amazonas, o dito rio de Pinzón. Daí a Niña fez vela rumo à ilha Hispaniola (depois chamada São Domingos e hoje República Dominicana e Haiti), no mar do Caribe. Pinzón escreveu ter compreendido dos índios que levava como escravos que o nome da ilha assaltada na foz do rio Santa Maria de La Mar Dulce (Amazonas) era Marinatambalo

Na cartografia amazônica do século XVI, organizada por Isa Adonias, figura uma sugestiva Punta de los Esclavos que me faz pensar nos "marinatambalos" de Pinzón. Quem sabe numa escola de ensino fundamental de qualquer das Ilhas de Fora do arquipélago do Marajó, uma professora ou professor de História, não faria uma bela provocação de literacia (letramento) a fim de alcançar a alfabetização histórica dos alunos ribeirinhos? Quem deles agora poderia imaginar o passado assalto da Niña, o susto medonho dos índios desprevenidos daquela assombração, pior do que as piores estórias de cobra grande... Essa criança ribeirinha despertada do feitiço da antiga lenda para o desafio da história do futuro, poderia viajar na música de Paulo André Barata e querer saber como, quando e porque o país que se chama Pará houve no Caribe seu porto de mar...


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ilha Hispaniola, no mar do Caribe, onde os espanhóis estabeleceram o centro da conquista e para onde foram os 36 índios marajoaras escravizados por Vicente Pinzón, em 1500.

O caboquinho como, outrora, eu no bairrozinho Fim do Mundo, da vila Itaguari (Ponta de Pedras) haverá de querer saber quem inventou o mundo. Nesta demanda, antes de entrar na escola o letramento inicial das crianças vem dos senhores e senhoras mais velhos, contadores da história local: "retóricos" de aldeia, no dizer sisudo de meu mestre caboco Agostinho Batista, da vila do Muaná, confrade da Academia do Peixe Frito... Convém dizer que esta nossa universidade da maré é cruzamento da rede neuronal da Criaturada grande com a modernidade da rede mundial de computadores. Daí nasce a educação à distância (EaD), permanente: nela só não aprende e ensina quem não quer ou não está interligado à rede. 

Mas que diabo é esta tal de "literacia"? A palavra inglesa 'literacy' que Paulo Freire mais cedo tratava, brasileiramente, por letramento - a capacidade de ler e escrever - seu significado preciso segundo David Mallows, está sujeito a um debate sem fim sobre a literacia de adultos. A respeito do que realmente querem dizer quando falam de literacia. Eu tenho medo de estrangeirismos que me pelo, pois dessa velha colonialidade sem fim é que nascem as pavulagens acadêmicas pra inglês ver e as piores inglesias que fazem o povo acreditar que não temos cabeça para nos desenvolver a nós mesmos sem as bençãos do velho mundo ocidental.

Quem disse que índios e negros não eram letrados?
Ler e escrever são necessidades fundamentais no mundo de hoje. Não só para estudarmos mais, como também para nos ajudar a entender e a nos envolver com o mundo que nos rodeia. Neste sentido, o letramento ou literacia é a arte contextual, tudo que fazemos é contextualizado dentro de um determinado território como espaço de memória. Todos nós usamos letramentos: mais ou menos, como os fios d'água e igarapés se formam e vão confluindo uns com os outros até formar os rios e todos convergir no Mar-Oceano. Dependendo do nosso grupo étnico, social ou profissional as atividades em que nos envolvemos e os diferentes contextos sociais e institucionais exigem nossa capacidade de ler e escrever.

Dez mil anos de ocupação da Amazônia pelo Homo sapiens tapuya (classificação curiosa do homem amazônico pelo naturalista Alexandre Rodrigues Ferreira (Salvador-Bahia, 27/04/1756 - Lisboa-Portugal, 23/04/1815) mostram que o letramento do paleo-Índio fica provado pelas pinturas rupestres. E a arte cerâmica da ilha do Marajó aponta a um tipo de iconografia dispersa em dez grandes museus nacionais e estrangeiros que ainda desafia a inteligência dos pesquisadores, com sua forma de escrita ideográfica a exemplo de chineses, japoneses e outros povos antigos. O criador do Museu do Marajó - primeiro eco-museu brasileiro em meu entender - , padre Giovanni Gallo (Turim-Itália, 1927 - Belém do Pará, 2003) suspeitou que a iconografia marajoara é uma forma de escrita. A arqueóloga Denise Schaan (Porto Alegre, 1962 - 2018) avançou nesta hipótese aventando ser uma urna funerária de cerâmica marajoara algo semelhante a uma gestalt, na qual a figura individualizada numa pessoa de alto nível, como uma matriarca ou cacique, por exemplo; era homenageada pelo fundo e contexto de sua ecocultura conforme a cosmovisão da sociedade local. É claro que a literácia dos artistas ceramistas de mais de mil anos atrás exigia a "alfabetização" na tradição oral.

Numa sociedade analfabeta numa região como Marajó de hoje, a iconografia marajoara, as recriações do Museu do Marajó, o romance dalcidiano, a história social de Agenor Sarraf e Denise Schaan, são elementos de um letramento indispensável. Voltando à vaca fria, eu penso que, afinal de contas, num rápido exercício de história comparativa a gente poderia pensar que aqueles cativos de Marinatambalo fossem mais prontamente de etnia aruã, da antiga "aldeia dos Aruans", chamada algum dia de Santo Antônio na capitania hereditária da Ilha Grande de Joanes (1665), elevada em Vila de Chaves (1758), por édito do Marquês de Pombal, no Diretório dos Índios (1757-1798). 

O que aconteceu então aos 36 "negros da terra" arrancados da ilha do Marajó - Analau Yohynkaku, Ilha dos Nheengaíbas, dos Aruans ou Ilha Grande de Joanes -, e levados por Pinzón para o cativeiro do Haiti? É claro que o romancista de Marajó conhecia a história de Pinzón em sua passagem pela ilha Marinatambalo, Marinatambal, Maritãbo? Quem sabe a toponímia galibi e conhece a histórica guerra antropofágica destes com os Tainos, deve lembrar de Iracubo, Organabo , Walymapo e outras localidades costeiras das Guianas com terminações semelhantes (na acepção de "lugar de")... O padre Gallo com "cacos de índio", a arqueóloga Denise Schaan decifrando segredos da iconografia marajoara; o diletante José Varella remexendo cacos de história antiga... São artífices do letramento do futuro, visto que o hoje interessa muitas vezes se explica pelo passado distante.

Na irritante universidade da maré, que nem muriçoca que alerta sobre o risco da malária e provoca a pobre gente das palafitas a respeito da necessidade de bom mosquiteiro; os meus humildes apontamentos de alfabetização histórica da Criaturada grande são uma gota d'água no mar do Analfabetismo crônico. Mas eu não desisto nem me furto ao dever de ensinar este pouquinho e também de me esmerar em aprender com quem sabe um pouco mais que eu em qualquer matéria. Sobretudo com os mestre da dita cuja universidade ribeirinha, que são os índios, os pretos mocambeiros e os cabocos mais velhos.

O padre grande dos índios, Antônio Vieira já dizia, em carta ao rei datada de 29/11/1659, que na boca do rio das Amazonas existe uma ilha maior que o reino de Portugal: de fato a "ilha" (mesorregião) do Marajó conta 104 mil quilômetros quadrados e o antigo país dos lusitanos, hoje a moderna República Portuguesa tem lá, em total 92.090 quilômetros quadrados. Em compensação vai muito bem obrigado com a sua população de mais de 10 milhões de habitantes, dos quais 93,3% de alfabetizados. Já o pobre povo marajoara soma cerca de 500 mil moradores, no rico e histórico território com a antiga Cultura Marajoara de 1600 anos de idade flagelada por um mísero IDH com 50% de analfabeto, nove foras os analfabetos funcionais de costume.

Aquela carta do padre Antonio Vieira conta que no dia 27 de Agosto do mesmo ano, fizeram as pazes no "rio dos Mapuaises" [Mapuá, Breves] os bravios Nheengaíbas (umas sete etnias Nuaruaques, confederadas pelo cacique Piié Mapuá, com os caciques dos Aruãs, Anajás, "Guaianases"[Guaianá], Pixi-Pixi, Cambocas e Mamaianás); "índios cristãos" [Tupinambá] e portugueses vindos de Cametá com os padres. Disse o padre que com as ditas pazes e os índios do Marajó por amigos e aliados dos portugueses, o Pará ficava seguro. Ao contrário, tendo os mesmos nheengaíbas por inimigos o Pará seria presa fácil de qualquer reino estrangeiro adverso a Portugal: insinuava a Holanda herege diretamente, que estivera em guerra com os portugueses entre 1623 a 1647. Já se sabe que sem remos e arcos dos antropófagos Tupinambás não teria existido uma Amazônia portuguesa (1615-1823) e, consequentemente, uma Amazônia brasileira.

A história é longa e a correspondente historiografia mais pantanosa de que o "apogeu igapóreo do planeta", conforme Eidorfe Moreira, em Os igapós e seu aproveitamento, com referência à zona úmida da ilha do Marajó, especificamente o município de Breves. Geografia complexa, onde o homem usava braços e remos em lugar de pés e pernas para se locomover (ver História do Futuro, padre Antônio Vieira). Até a velha canuá feita de tronco de árvore dos antepassados aruaques, virou "montaria" (canoa com casco acrescido de duas falcas). A ubá tupi ainda hoje permanece com nome de "casco", a canoa montaria é maior e hoje evoluiu com o motor de popa chamado "rabeta"...

Muito poderá falar um professor de História numa escola ribeirinha. A arqueologia de Denise Shaan, na obra de divulgação Cultura Marajoara (2010), a história social de Agenor Sarraf, À Margem dos "Marajós" (2006), por exemplo; Giovanni Gallo, Motivos Ornamentais da Cerâmica Marajoara e tantos mais autores e obras fundamentais para a alfabetização histórica desta gente desde o ensino fundamental. Ora, Ivo viu a uva, adoeceu de tanto beber refrigerantes industrializados, se duvidar "aprendeu" a misturar açúcar no "vinho" de açaí. Mas não ouviu falar de Paulo Freire e nem sequer de Dalcídio José Ramos Pereira, filho de dona Margarida Ramos e do capitão Alfredo Nascimento Pereira, mais conhecido pelo nome literário de Dalcídio Jurandir.

No ano de 1939, na ilha do Marajó, antiga aldeia de índios Yona (donde a corruptela Joanes) ou Sacaca, transformada em vila de Salvaterra; o "índio sutil" Dalcídio Jurandir depois de curtir cadeia no famigerado Presídio São José por crime político, deu vida a seu imortal alterego Alfredo no romance seminal Chove nos campos de Cachoeira e, no mesmo ano e lugar, concluiu aquele retiro escrevendo também Marinatambalo na mesma fornada. 

Vindo de Gurupá em projeto, o Chove levou ao Marinatambalo e ambos saíram inéditos de Salvaterra para o Brasil e o mundo na bagagem do escritor a bordo de canoa à vela atravessando a famosa baía do Marajó; deveras perigosa na opinião do naturalista Alexandre Rodrigues Ferreira, célebre autor da Viagem Philosophica (1783-1792), ver a separata Noticia Histórica da Ilha Grande de Joanes, ou Marajó (1783). O jovem Dalcídio vagou com os rascunhos do Chove debaixo do braço entre as Ilhas e Belém do Pará, lugares de memória com os quais ganhou o primeiro prêmio literário, Dom Casmurro. Em 1978 - sua terra natal Ponta de Pedras completava 100 de emancipação municipal - ele publicou Ribanceira, último romance da carreira escrito no exílio do Rio de Janeiro, com as memória de Gurupá e do fim da belle époque da Borracha amazônica. Lá onde iniciou o rascunho da saga de Alfredo, o criador do romance marajoara morreu em 1979, porém a odisseia continua. 

segunda-feira, 5 de março de 2018

entre cacos de memórias e solidões dos tesos saqueados.


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O chalé do romance "Chove nos campos de Cachoeira",
de Dalcídio Jurandir (1909-1979).



“Quando eu morrer levem-me para Cachoeira, enterrem-me debaixo da folha miúda (a minha árvore, de fronte do chalé, toda a minha infância). Quero ficar ali, perto do rio e perto de casa, debaixo daquela sombra, entre ao ninhos e as estrelas.
Parece que todos os meus sonhos ficaram pendurados naqueles ramos, todo o meu primeiro deslumbramento. Eis porque minha saudade me faz ter esse desejo romântico ...”

Dalcídio Jurandir, setembro de 1932




Chove nos campos de Cachoeira e Dalcídio já morreu... Por falta de memória, não o enterraram debaixo da Folha-Miúda na beira do rio em frente ao chale, conforme o desejo romântico de juventude que, por fim, nem o autor de "Chove nos campos de Cachoeira" se lembrou de reiterar. Melhor assim.

Os restos mortais do romancista da Amazônia jazem no mausoléu dos imortais da Academia Brasileira de Letras (ABL), merecendência do índio sutil por ganhar o Prêmio Machado de Assis (1972). Anos da Ditadura, diga-se de passagem, significativo do comunista premiado a instâncias de seu camarada Jorge Amado. 

Ano seguinte do prêmio literário do escritor marajoara, o padre Giovanni Gallo por necessidade e acaso inventou com "cacos de índio" que o caboco Vadiquinho lhe presenteou, um tanto por espírito de provocação, o primeiro ecomuseu brasileiro contemporâneo ao primeiro do mundo, na França. Não é pouca coisa! Masporém, aí reina a ironia da história. O fato inacreditável de que o padre morreu, 30 anos depois de criar O Nosso Museu de Santa Cruz do Arari (1973-1983), sem notícias de Hugues de Verine e vice-versa. Somente agora, entre chuvas e esquecimento, a gente está fazendo arqueologia do tal "ecomuseu" do lago Arari...

A sorte da memória é que o padre escreveu tudo: primeiro em reportagens na imprensa da capital, com que Maria de Belém Menezes, filha do poeta Bruno de Menezes e correspondente fiel de Dalcídio, deu as notícias do que se passava nas funduras do Marajó velho de guerra. 

Lá no Rio de Janeiro distante, as reportagens do Gallo mexeram com as raízes do romancista de Marajó, primeiro romance sociológico brasileiro na abalizada opinião de Vicente Salles. Imediatamente, veio o recado através de Maria de Belém: "Que o padre tire uma coleção de reportagens e faça um livro que será retrato da terra e da gente de Jenipapo", escreveu Dalcídio. Esse livro veio a ser o Marajó, a ditadura da água. Depois saiu o auspicioso Motivos Ornamentais da Cerâmica Marajoara, no qual o visionário se expõe completamente. Para, afinal, extravasar sua enorme amargura na autobiografia O homem que implodiu. Quem era próximo do padre insubmisso teria ouvido confidência dele dizendo que pensou dar título de "o homem que virou bosta" ao livro. Pelo contrário, ninguém pode concordar: o padre dos pobres pescadores acusados de roubo de gado de ricos fazendeiros virou santo por édito de São Pedro Safadinho segundo a voz do povo. E já se sabe que a voz do Povo é a voz de Deus.

Bem que o  preto Bibiano profetizou a seu neto mulato, Alfredo (Passagem dos Inocentes); dizendo na curta caminhada para o igarapé na mata próxima à vila, entre pés de miriti parrudos, que o moleque calçando bostoque (botina) iria longe nos caminhos do mundo. Dito e feito! 

Chove sobre a distante campa carioca de Dalcídio, masporém seu alter ego voa no azul da memória a par de araraúnas extintas no rio das araras. Ó, Arari! Quem te viu e quem te vê? Três casas e um rio numa cidade invisível no território da memória. Uma imensa ilha encantada na boca do maior rio do mundo.  Ilhas, melhor dizendo, que sobem o grande rio-mar e ocupam as varjas de ambas margens da terra-firme. Eita mundão! Geografia da criaturada grande habitante, sobretudo, da terceira margem do rio entre caruanas e o reino encantando da cobra grande.


Resultado de imagem para imagem ala dos imortais da academia de letra no cemitério São João no Rio de Janeiro
Cemitério São João Batista, Rio de Janeiro.

Verdade seja dita: ainda bem que o corpo morto do índio sutil foi entregue à terra fria lá na antiga pátria de Arariboia. Posto que, na desmemoriada terra dos Marajós, sob a estrelada Folha-Miúda face ao velho chalé batido de chuva e vento, arruinado pelo abandono dos homens analfabetos, a dissidia dos letrados e o banzeiro inconsciente da mítica Boiuna; a correnteza do rio teria levado, com beira, a árvore da infância e os restos mortais do escritor. 

Só o espírito libertário de Alfredo, no voo escuro das araras azuis no rio imaginário, vive na magia do caroço de tucumã e poderá quebrar o encanto e vingança da cobra grande mãe da ancestral Cultura Marajoara. 

Canções de Alinhavo

Chove nos campos de Cachoeira

e Dalcídio Jurandir já morreu.

Chove sobre a campa de Dalcídio Jurandir

e sobre qualquer outra campa, indiferentemente.

A chuva não é um epílogo,

tampouco significa sentença ou esquecimento.

Falei em Dalcídio Jurandir

como poderia falar em Rui Barbosa

ou no preto Benvindo da minha terra

ou em Atahualpa.

Sobre todos os mortos cai a chuva

com esse jeito cinzento de cair.

Confesso que a chuva me dói: ferida,

lei injusta que me atinge a liberdade.

Chover a semana inteira é nunca ter havido sol

nem azul nem carmesim nem esperança.

É eu não ter nascido e sentir

que tudo foi roto para nunca mais.

Nos campos de Cachoeira-vida

chove irremissivelmente.
 
Carlos Drummond de Andrade.
Livro Corpo - 2º edição - Editora Record, 1984.


Com esse seu jeito cinzento de cair, a chuva de Cachoeira do Arari cai indiferente sobre a tumba do padre Gallo, o homem que implodiu por causa do Museu do Marajó plantado por acaso como ecomuseu no fim do mundo. Ou seja, na beira do lago Arari, o lugar dos lugares para o prodígio de semear cacos de índio e ver renascer uma cultura perdida... Rebroto da primeira ecocivização amazônida na ilha fantástica do homem "malvado" dito Marajó. Marinatambalo. Ilha dos Nheengaíbas. Ilha dos Aruans. Ilha Grande de Joanes [dos Yona]. Aliás, Analau Yohynkaku na extinta língua aruã.

Agora foi a vez de Denise Shaan dizer adeus a esta gente. Ela foi-se embora, prematuramente, em meio as água grandes de março. Quem há de decifrar a escrita da cerâmica marajoara agora que a gaúcha marajoara foi embora? O ítalo-marajoara Giovanni Gallo no ditame popular foi reencarnado na memória de um grande pajé. Dalcídio Jurandir revive hoje na figura de Alfredo. A ciência de Denise há de florescer na escola de seus alunos, como novas árvores da mata ciliar, pássaros reintroduzidos na futura Reserva da Biosfera Marajó-Amazônia e o sonhado repatriamento da cerâmica marajoara arqueológica. 

O gado do vento corre campo afora, malhada espantada pelo Boi Encantado. Mas, como diz o poeta a chuva não é o fim. Sim, o sol há de brilhar outra vez.

"... a reinterpretação da Arte Marajoara é o maior sinal de que o vínculo entre o presente e o passado foi estabelecido, e que a tradição, agora reinventada, finalmente cumpre seu papel de produzir identidade e história.
Giovanni Gallo era, mais do que um agente da fé, da cultura e da ciência, um visionário."
Denise Pahl Schaan
Belém, fevereiro de 2005.
Prefácio da 3ª edição de Motivos Ornamentais da Cerâmica Marajoara, de Giovanni Gallo.





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A velha casa remanescente do chalé de Dalcídio Jurandir 
com placa alusiva ao Centenário de nascimento do escritor 
e faixa com desejo romântico dele ser enterrado sob a
 árvore Folha-Miúda na beira do rio confronte ao dito chalé.