quinta-feira, 28 de junho de 2018

Rio Grande do Norte e Grão Pará: 100 anos do Manisfesto de Córdoba e as águas emendadas da Corrente Equatorial Marítima.

Forte dos Reis Magos
Forte dos Reis Magos, Natal, Rio Grande do Norte.



 boca da noite, no fim da jornada, os três caravelões portugueses com homens vindos da jornada do Maranhão acabam de entrar no Rio Pará. Chegam em vias de conquistar o "rio das amazonas". O comandante da expedição é o português Francisco Caldeira de Castelo Branco, capitão-mor do Rio Grande do Norte, que manda as ditas naus dobrarem a ilha do Sol (Colares) a fim de recolher as velas e fundear às ilhargas da aldeia dos Tenoné, junto à Ponta do Mel (depois Vila do Pinheiro, Icoaraci). Ali os navegantes foram pernoitar. Tudo se encontrava estranhamente calmo e parecia ter esperado , há séculos, por esta hora." 

José Varella [José Marajó Varela], "Amazônia Latina e a Terra sem Mal": Belém do Pará, 2002. 


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Forte do Presépio (forte do Castelo), Belém do Pará.






o primeiro Marco colonial de Portugal em terras brasileiras, erguido em 1501 pelo cristão-novo Gaspar de Lemos, em Touros (Rio Grande do Norte). Foi removido pelo IPHAN, em 1974, e se encontra na Fortaleza dos Reis Magos, em Natal.



O presente comentário manifesta meu interesse pessoal pelo sucesso do oitavo Congresso Brasileiro de Extensão Universitária (CBEU), de 27 a 30 de junho de 2018, na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), cidade de Natal, Estado do Rio Grande do Norte. Sei que é muito difícil derrotar a colonialidade que habita a História de mais de 500 anos das relações entre a Europa e suas antigas colônias, mas não será impossível se jovens historiadores do mundo inteiro despertarem para a urgente necessidade de reinventar o mundo.

É claro que esta dificílima missão reclama o que, no passado recente, foi o sonho da juventude acadêmica da nossa América Latina exposto no Manifesto de Córdoba (Argentina), de 1918. Cujo espírito veio à luz novamente na revolta de Maio de 1968, em Paris, cinquenta e oito anos depois. Agora estudantes brasileiros estão reunidos em Natal, Rio Grande do Norte, aos 100 anos do Manifesto de Córdoba! 

A história acontece como tragédia e se repete como farsa. Já repetimos isto um milhão de vezes... E estamos sempre a consultar o passado sem ver suas consequências no presente, que muitas vezes se projeta, cegamente, ao futuro. A oportuna presença da ONU, através do Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA), realça temas como comunicação social, mídia comunitária, cultura, assistência jurídica, qualificação de recursos humanos, educação básica, preservação do meio ambiente, promoção de saúde e qualidade de vida. 

Alguns dos temas que serão trabalhados no 8º Congresso Brasileiro de Extensão Universitária (CBEU), que acontece do dia 28 ao dia 30 de junho, na Universidade Federal do Rio grande do Norte (UFRN). O encontro vai reunir estudantes, professores e especialistas, e também será uma oportunidade para a comunidade acadêmica se integrar aos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS)O evento bienal traz como tema “Extensão e Sociedade: Contextos e Potencialidades” e tem como objetivo discutir os desafios da extensão universitária no Brasil e sua relação com a sociedade. Essa é uma oportunidade para que a academia trabalhe mecanismos de interação que promovam mudanças expressivas em suas comunidades.
Para somar aos cenários e às competências da extensão universitária, o Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA) participa da mesa que discute os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável - Agenda 2030. Na ocasião, o representante, Jaime Nadal, falará dos temas abordados nos ODS, assinados por mais de 150 líderes mundiais e suas interrelações com as questões populacionais emergentes. Segundo Nadal, os objetivos e metas traçados nesta agenda são fundamentais para garantir um mundo mais justo e igualitário com acesso a direitos para todas as pessoas.
É de suma importância que as Instituições Públicas de Ensino Superior conheçam e se comprometam com a Agenda 2030. É com a participação de todos e todas, em especial dos e das estudantes que futuramente serão os gestores deste país, que o Brasil pode alcançar as metas estabelecidas e avançar rumo a um Estado comprometido com o bem-estar social”, ressalta o representante da ONU. 

Este evento no Nordeste brasileiro deve ser visto como oportunidade para revigorar a Extensão Universitária não apenas como uma prosaica "ponte do futuro", mas um profundo mergulho no rio de Heráclito a fim de redescobrir o Brasil, donde a originalidade brasileira possa vir a contribuir, sobremaneira, a suscitar a resiliência planetária. Uma nova historiografia descolonial deverá ser convocada pela provocação da ancestralidade brasílica que a Cerâmica Marajoara, de mais de 1500, dentre outras fontes deve nos servir de farol de navegação.

Oxalá, a cidade de Natal - geneticamente ligada a Belém do Pará - possa assinalar neste momento um ponto de virada em relação aos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS), com a memória do doutor Onofre Lopes da Silva na criação inovadora da Extensão Universitária, através do CRUTAC, conjuntamente com seu colega médico paraense Camilo Martins Vianna, vice-reitor e pro-reitor da Universidade Federal do Pará (UFPA) nos anos 70 e 90; entusiasta e militante do CRUTAC na Amazônia paraense.

A Amazônia e o Nordeste tem ligação umbilical que explica o gigante da América do Sul. Os mais Brasis da república federativa, longe de ser lesados pela ancestral "esquina" do continente sul-americano; mais depressa encontram na bifurcação da corrente equatorial marítima, a razão do "achamento" do Brasil e a sustentação história do direito territorial brasileiro, que se amplia ao Mar Territorial e ao enorme desafio da chamada "Amazônia Azul" hoje em perigo pela cobiça estrangeira aos nossos recursos naturais. Eis por que o passado continuamente se faz presente e desafia o futuro:


"Escrivão da frota de Pedro Álvares Cabral, Caminha redigiu a carta para o rei D. Manuel I  a comunicar-lhe a descoberta das novas terras. Datada de Porto Seguro, do dia 1 de Maio de 1500,  Gaspar de Lemos, comandante do navio de mantimentos da frota, trouxe-a para Portugal.
Em 2005 este documento foi inscrito no Programa Memória do Mundo da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO).
Este é um documento essencial e curiosíssimo de um momento supremo da História e da cultura portuguesas, e, como tal, um paradigma da literatura de viagens do Renascimento e da cultura nova, de base experimental e tendência crítica, na qual, segundo Jaime Cortesão, está contido o «fermento crítico» responsável pelo espírito filosófico do século XVIII.Trata-se de uma verdadeira carta-narrativa, na qual são descritos a geografia, a fauna, a flora do Brasil, a aparência e a psicologia dos nativos, os métodos e experiências de contacto dos portugueses e as reações mútuas, obviamente a partir de uma perspetiva etnocêntrica que estuda a nova terra e a população com o objetivo de colher algum proveito: «[Nesta terra] não pudemos saber que haja ouro, nem prata, nem coisa alguma de metal ou ferro, nem lho vimos. A terra, porém, em si é de muito bons ares [...]. Mas o melhor fruto que dela se pode tirar me parece que será salvar esta gente».
A própria «salvação» religiosa da população nativa é capitalizável, na medida em que os portugueses acalentavam então a noção de que a grandiosidade dos seus empreendimentos derivaria do facto de os feitos da sua História se relacionarem com a expansão da fé cristã, e portanto beneficiarem sempre da proteção de Deus. É a mesma conceção providencialista da História portuguesa que encontramos em Os Lusíadas. A expansão era encarada, não só como o alargamento da civilização e da cultura em que o Homem de então mais perfeitamente realizava as suas potencialidades - a portuguesa -, mas também Deus mais dilatava no mundo a sua lei. Numa perspetiva humanista e neoplatónica, portanto, era através da expansão portuguesa que o Homem se aproximava cada vez mais do estatuto divino, o qual, aliás, se cumpre metaforicamente nos cantos finais de Os Lusíadas.
Deste modo, a Carta do Achamento do Brasil é um documento fundamental para a compreensão do Renascimento português, logo, também da História do mundo". (fonte: Carla Brito, blogue Estórias da História).


Gaspar de Lemos foi, provavelmente, um cripto-judeu entre tantos outros de sua época, a se esconder das diabruras do Santo Ofício, que estiveram ligados ao "descobrimento" e colonização das Índias Ocidentais. Foi ele um navegador do século XVI, a serviço da coroa portuguesa e comandou um navio da frota de Pedro Álvares Cabral, que, em 22 de abril de 1500, tomou posse das terras que viriam ser o Brasil. Pouco se sabe sobre suas origens. Ele descendia de família abastada do reino de Leão (Espanha) e foi para Portugal no reinado de Afonso IV (1325-1357) onde recebeu terras e privilégios sob o trono João I

Como comandante do navio que transportava mantimentos, Gaspar de Lemos foi mandado por Cabral retornar ao reino após curta demora em terras de Vera Cruz, para levar a dom Manuel I as notícias do descobrimento. Assim, o navegador retornou levando a carta de Pero Vaz de Caminha. Já no ano seguinte, Gaspar de Lemos voltou ao Brasil, certamente autorizado pelo rei, agora em viagem exploratória trazendo a bordo o primeiro marco de Portugal em terras brasileiras, plantado em Touros (Rio Grande do Norte). 

O dito Marco foi removido de Touros pelo IPHAN, em 1974, e se encontra hoje na Fortaleza dos Reis Magos, em Natal. Com o navegador da frota de Cabral estava aquele que ficaria famoso como dando nome ao novo continente, Américo Vespúcio - na verdade, os nativos conheciam a grande terra como Amerik ("o país do vento", em língua maya, localizada na região montanhosa em torno do lago Nicarágua). Gaspar de Lemos p
artiu de Lisboa em sua segunda viagem ao Brasil, em 10 de maio de 1501 e retornou a Europa em 7 de setembro de 1502. São creditados a esta expedição os seguintes feitos:

  • a descoberta do arquipélago de Fernando de Noronha;
  • a descoberta da Baía de Todos os Santos, em primeiro de novembro de 1501;
  • a descoberta, em primeiro de janeiro de 1502, da baía da Guanabara, que confundiu com um rio e batizou de Rio de Janeiro:
  • Angra dos Reis, em 6 de janeiro do mesmo ano;
  • a descoberta da ilha de São Vicente, em 22 de janeiro de 1502.

Autores portugueses atribuem a Gonçalo Coelho essa viagem de 1501/1502, no entanto, Gonçalo Coelho só partiu de Lisboa em 1503, também acompanhado de Américo Vespúcio. Outras fontes confundem Gaspar de Lemos com Gaspar da Gama, judeu que se encontrava na Índia quando da viagem de Vasco da Gama e foi levado por este a Portugal como informante. Estou lembrando estes acontecimentos passados que moram em nosso inconsciente coletivo. 

Aquilo que na antiga língua da Índia oriental, o sânscrito; misteriosamente chamam de "carma"... O carma não é um fado ou sina, mas um antigo nome da longa cadeia de ações e reações que tecem a história de indivíduos, famílias e comunidades. Pelo fio da História nordestina chegamos à supimpa invenção do Crutac, Centro Rural Universitário de Treinamento e Ação Comunitária, pelo médico humanitário Onofre Lopes da Silva (1907-1984), instalado em 02 de agosto de 1966, em Santa Cruz-RN, no Hospital geral da cidade, local que serviu de apoio às principais ações na fase inicial do recém-criado programa da UFRN. 

Santa Cruz e as pequenas cidades vizinhas estavam em festas e ansiosas, à espera da presença da Universidade e dos seus diversos setores e atores, dispostos a participarem na promoção da qualidade de vida da região do Trairí. Ou seja, esperavam chegar ao interior a EXTENSÃO UNIVERSITÁRIA, aquilo que para o povo que trabalha e paga impostos é o que mais interessa. Quem era o ator principal de toda aquela jornada humana? Quem era o cavaleiro andante que andava com os pés firmes no chão, cheio de sonhos e ideais certos para conquistar?  Óbvio, era Onofre Lopes da Silva, fundador e primeiro Reitor da UFRN, que se tornou um dos maiores benfeitores do seu Estado.

A sigla CRUTAC se afirmou e o nome do Programa expressava a ideia central de envolver a Universidade em ações na área rural, por meio de um grande projeto de extensão acadêmica. Longe de abrigar objetivos assistencialistas, às vezes movidos por metas eleitoreiras, o Crutac trazia o foco único da promoção social. As ações cresciam em relevância por reunir alunos das diversas áreas da UFRN, na busca de torná-los cidadãos mais conscientes e mais aptos para lidarem com suas responsabilidades sociais, não somente na fase de graduação, mas também – e sobretudo – após receberem seus diplomas e passarem a exercer as diversas profissões. 

Onofre Lopes era um líder ousado e de forte carisma, cuja palavra tinha força de tocar e repercutir na emoção e na mente dos ouvintes. Essa certeza já se provara anos antes, quando ele, com exemplos e com palavras certas, conseguiu empolgar muitos norte-rio-grandenses, na fase da fundação e da instalação da UFRN. Pouco tempo depois, com a Universidade já federalizada, nova campanha Onofre Lopes levou avante, no intuito de convencer os diversos setores da UFRN a se engajarem, de corpo e alma, nessa outra luta para a criação do Crutac. "Vi de perto, na condição de médico do projeto, desde a sua fase mais precoce, o quanto a instituição aderiu e se mobilizou, a fim de atender aquela cruzada a favor do bem comum, sob a guarda de uma universidade com fortes raízes telúricas, mas sem deixar de ser universal".

Há tempo para todo o propósito debaixo do céu.” Meio século já se foi, desde que o Crutac deixou de ser apenas uma ideia e passou à prática, com expansão posterior para grande número de instituições do Brasil. Seu rápido sucesso mostrou o quanto era oportuno. Esse sucesso deve-se também creditar a todos os que se dedicaram ao projeto, aos pioneiros e às gerações seguintes, pela devoção e pelo amor à tarefa. Durante os primevos tempos, na fase heroica do Crutac, registraram-se fatos e histórias memoráveis, com todos os participantes a fazerem o melhor, pois o ideal de servir estava à frente de qualquer ambição de proveito pessoal, como se uma forte mística pairasse sobre aquele ambiente de trabalho. Hoje, adaptado às condições atuais, deve servir de fonte de reflexão sobre o papel das universidades no mundo moderno, e de como elas podem se voltar para o seu meio social. No apagar das 50 velinhas, aplausos para o Crutac, orgulho da Universidade Federal do Rio Grande do Norte."
Daladier Pessoa Cunha Lima Reitor do UNI-RN

Agora vamos dar rápida olhada à política de extensão universitária. O plano 
PROEX/UFPA 2013-2016. Adverte, "programas e projetos de extensão devem criar sinergia no ensino e pesquisa de graduação e pós-graduação e em suas relações com a sociedade em que propicie o conhecimento objetivo da realidade social na qual a instituição se insere e a natureza das demandas sociais às quais precisa e deve responder a fim de cumprir a contento as suas funções. Mais do que isso, a práxis extensionista visa conferir à atividade de formação uma medida da relevância social dos saberes veiculados no ambiente acadêmico e a vincular as ações institucionais à realidade social que circunscreve seus mais expressivos desafios. A indissociabilidade entre a extensão, a pesquisa e o ensino constitui, portanto, uma dimensão essencial da formação para a cidadania, da qual uma universidade pública não pode prescindir."

É por esse caminho que minha memória chega até meu mestre Camillo Martins Vianna, nascido em 14 de abril de 1926, médico, folclorista e ambientalista, ícone da luta pela Amazônia. Formado pela Faculdade de Medicina e Cirurgia do Pará, Vianna tem uma história de luta pela biodiversidade desta região e de seu povo, em suas mais de oito décadas de vida. Seu primeiro emprego foi no Museu Paraense Emílio Goeldi e, dentre suas contribuições, está um acervo de artefatos que coletou relativos às populações tradicionais.

Camilo Vianna foi idealizador das Semanas Amazônicas de Preservação; responsável pelo 1º Encontro dos Povos Indígenas do Xingu; criador da Sociedade de Preservação aos Recursos Naturais e Culturais da Amazônia (SOPREN), em 1968, e coordenador: de saúde, educação e meio ambiente na região do Tapajós; do Centro Rural Universitário de Treinamento e Ação Comunitária (CRUTAC); do Conselho Estadual e Municipal de Saúde e Meio Ambiente; e do Projeto Rondon, propiciando a visita e desenvolvimento de atividades de estudantes com comunidades ribeirinhas, utilizando cordéis para alfabetização e sensibilização destas pessoas, dentre outras estratégias.


Foi vice-reitor e pró-reitor de extensão da Universidade Federal do Pará, criando projetos de extensão e interiorização da instituição. Tendo no currículo viagens a diversas regiões da Amazônia, desenvolve trabalhos de educação ambiental, reanimação cultural e valorização dos habitantes e do próprio bioma. A criação de bosques comunitários e trabalhos envolvendo a recuperação de áreas degradadas estão, também, em seu currículo.

Trabalha na divulgação deste bioma em nosso país e mundo afora e é membro da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores, tendo diversos artigos sobre o tema. Camillo afirma que seu trabalho é fruto do amor pelo meio ambiente e que este sentimento é necessário e imprescindível para tal." (Por Mariana Araguaia
Equipe Brasil Escola).  

Com isto encerro esta reflexão, enfatizando a sintonia extraordinária entre esses dois médicos humanitários, o potiguar Onofre Lopes da Silva com o hospital da caridade e o parauara Camilo Viana, o conhecido "médico dos porões da Santa Casa". Dois exemplos de vida para a Agenda 2030.

domingo, 24 de junho de 2018

Aliança de tucumã: casamento da Humanidade com o vasto Mundo encantado.

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Oswald de Andrade, enfant terrible do Modernismo brasileiro, talvez não soubesse até onde o Manifesto Antropofágico (1928) poderia ir e Darcy Ribeiro queria apenas compor uma fábula moderna sobre os velhos males do mito da Terra sem Mal quando ele escreveu Utopia Selvagem (1982). Entretanto, ambos iconoclastas sem querer, querendo; tocaram fundo o nervo da identidade multifacetada da brava gente. Eu boto fé no país do futuro, porque descobri com esforço constante o passado sempre presente desta nossa antiga gente brasileira. Mais do que um país tropical abençoado por Deus e bonito por natureza, nós somos diversos Brasis na América do Sol. Uma grande nação multiétnica construída por povos diferentes, através da espiral evolutiva da mesma corrente humana no planeta Terra: 


"A idade de ouro anunciada pela América. A idade de ouro. E todas as girls.
"Filiação. O contato com o Brasil Caraíba. On Villegaignon print terre. Montaigne. O homem natural. Rousseau. Da Revolução Francesa ao Romantismo, à Revolução Bolchevista, à revolução Surrealista e ao bárbaro tecnicizado de Keyserling. Caminhamos.
"Nunca fomos catequizados. Vivemos através de um direito sonâmbulo. Fizemos Cristo nascer na Bahia. Ou em Belém do Pará.
"Mas nunca admitimos o nascimento da lógica entre nós.
"Contra o Padre Vieira . Autor do nosso primeiro empréstimo, para ganhar comissão. O rei-analfabeto dissera-lhe: ponha isso no papel mas sem muita lábia. Fez-se o empréstimo. Gravou-se o açúcar brasileiro. Vieira deixou o dinheiro em Portugal e nos trouxe a lábia.

"O espírito recusa-se a conceber o espírito sem o corpo. O antropomorfismo. Necessidade da vacina antropofágica. Para o equilíbrio contra as religiões de meridiano. E as inquisições exteriores. Só podemos atender ao mundo oracular." (Oswald de Andrade / "Manifesto Antropofágico", 1928).

Nós tínhamos Civilização tropical há mais de mil e quinhentos anos. Eu disse mais de mil e quinhentos anos! Nosso Brasil brasileiro três vezes mais velho que o "descobrimento" do país do pau-brazil pelo fidalgo português da Ordem de Cristo, Pedro Álvares Cabral. Sua rápida e curiosa escala em Porto Seguro, de passagem às Índias Orientais a fim de fazer o cobiçado comércio das especiarias. O diabo é que o reino de dom Manuel havia poucas coisas para trocar com os marajás fortemente parceiros comerciais dos mercadores árabes... A estória das calmarias vinha a calhar para despistar o segredo da corrente equatorial marítima... A nossa certidão de nascimento não foi a célebre carta de Caminha, mas sim a iconografia marajoara na cerâmica arqueológica da ilha do Marajó. Só não vê quem não quer ver as coleções em mais de dez grandes museus listados na obra Cultura Marajoara (2009), da arqueóloga Denise Shaan. A idade do barro na Cultura Marajoara foi atestada por diferentes laboratórios mediante datação por carbono 14. 

O carbono 14 é formado naturalmente pela colisão entre raios cósmicos e o nitrogênio 14 na atmosfera terrestre. Este isótopo liga-se com o oxigênio formando gás carbônico (14CO2), que é absorvido pelas plantas e daí em diante entra na cadeia alimentar de todos seres vivos, inclusive humanos. Estamos todos interligados. "Eu, a grande Terra e todos seres juntos somos o Caminho" (disse o buda Sakyamuni). Quando um ser vivo morre, a quantidade de carbono 14 nos seus restos mortais diminui paulatinamente até se tornar fóssil, este fenômeno implica no decaimento radioativo.

Infelizmente, o ensino da Ciência é deficiente na educação básica e a paleontologia e a arqueologia são tratadas separadamente da história natural e da origem da humanidade filha da animalidade, nos compêndios viciados por décadas de colonialidade. Desta maneira, o "índio" e o "negro" são expulsos da História sonegando a verdadeira idade do país do Futuro, que se deveria ensinar às crianças de todos rincões da pátria, do Oiapoque ao Chuí, da costa da Paraíba até a Serra do Divisor: mas, de fato depois de milhares de anos de nomadismo, a civilização brasileira teve início com a primeira cultura complexa da Amazônia, na ilha do Marajó, a Cultura Marajoara. Curiosamente, a tradição lendária da Mesopotâmia e a mitologia grega não se apartam da História e nem mesmo da ciência, quando nos lembramos da Psicanálise, com os trabalhos de Freud, por exemplo. Mas, os deuses africanos ainda estão banidos do panteão mundial e os caruanas, 'caboclos' e outras entidades indígenas restam no limpo.

O cerne da ancestralidade brasileira se encontra no coração da Floresta Amazônica. Donde saíram as primeiras nações aruaca, tapuia, tupi-guarani, caribe... Sobre a Babel ameríndia vieram fundir-se trânsfugas, indesejáveis, a escória europeia, os pobres perseguidos do velho mundo, miseráveis, vagabundos, a ralé judia e a massagada árabe espancadas por séculos de preconceito e intolerância cristã. O novo mundo foi obra de redenção para muitos de nossos desgraçados antepassados renascidos e esperançados sob a constelação do Cruzeiro do Sul. O país do Futuro pertence aos herdeiros daquela gente do passado longínquo vindos de várias partes do mundo a partir da primitiva Diáspora africana.

O idílio do "descobrimento" de 1500 durou pouco tempo, aliás o escrivão portuense da frota de Cabral, talvez por não ser bem versado nos segredos de estado e ignorar a viagem secreta do cosmógrafo do rei Duarte Pacheco Pereira (1498) ao Pará, escreve "achamento" do país que ainda não se chamava Brasil. Conta ele que a bordo de uma das caravelas vinha um degredado a ser deixado em terra, supostamente em Calicute (Índia), para aprender a língua do país. Todavia, este degredado foi mandado desembarcar em Porto Seguro e seguir os índios, ao ver as índias formosas e inocentes sem cobrir lá suas "vergonhas" um grumete de um dos navios fugiu de bordo e foi viver na nova terra descoberta, conforme está escrito no livro Entre Árvores e Esquecimentos, de Victor Leonardi. Seriam estes os dois primeiros povoadores portugueses do Brasil, recebidos pacificamente pelos índios Pataxó e que talvez se tornaram genitores com as índias dos primeiros mamelucos do Brasil. Cumpre observar o fato de que foram mamelucos os maiores sertanistas e preadores de índios sertão adentro, chamados "portugueses" como os seus pais, fundadores de arraias e fazendas; homicidas de parentes de suas mães... Criptos judeus tiveram papel saliente na invenção do Brasil, com exemplo do navegador Gaspar de Lemos que retornou imediatamente ao reino para levar a notícia do sucesso do descobrimento ao rei e, por certo, à comunidade cristã-nova ansiosa para escapar dos olhos e ouvidos do Santo Ofício...

Pena que não se sabe grande coisa do que sucedeu durante aquelas três décadas após a venturosa passagem de Cabral em Porto Seguro e da primeira missa na Praia Vermelha. Porém cada um é livre de imaginar. Como se sabe, Pedro Álvares Cabral não teve na Índia a boa recepção que ele esperava e o nosso escrivão Pero Vaz de Caminha (Porto, Portugal, 1450 - Calicute, Índia, 15/12/1500), faleceu durante entrevero que se estabeleceu por causa das especiarias cobiçadas há tanto tempo da procura do caminho marítimo.

"... A aventura começa no coração dos navios. Pensava o filho calado", canta Milton Nascimento (Trastevere)... Hoje a cidade é moderna mais de 500 anos passados, há muitos cegos neste antigo país das palmeiras, desnorteado de tantas família desabrigadas com filhos surdos-mudos. Nada os impede, porém a imaginação do descobrimento e do fio dos acontecimentos. Por volta de 1531, com a tremenda missão colonizadora de Martim Afonso de Souza e fundação de São Vicente (São Paulo), o primeiro engenho de moer cana de açúcar trazida da ilha da Madeira. Foi quando começou a Colonização que iria demorar até o século XIX.

A tal civilização bateu duro e pisou forte sobre hábitos e costumes da brava gente brasílica invadindo terras indígenas, escravidão de "negros da terra" e conquista da alma dos índios bárbaros. Ainda no século XVI, entre 1539 e 1542, na capitania de Pernambuco "negros da Guiné" começaram a chegar acorrentados a um destino feroz que não acabaria antes de 1888 e hoje o trabalho escravo ainda se faz presente no Brasil. Velhos males importados da Europa feudal para a terra virgem dos buscadores da Terra sem Mal. Em compensação, nos tornamos o maior país africando fora da África, o que há ser felicidade geral para todos os povos do mundo, inclusive na periferia da Periferia (Amazônia) e também nos guetos do primeiro mundo.

Cumpre dizer a verdade, com toda serenidade: Não se poderiam cometer tantos males na Terra sem cumplicidade de milhares e milhares de dementados do ouro, quanto mais pobres, mais ambiciosos. Quanto mais oprimidos, mais opressores como Frantz Fanon falou. Quantos cristãos-novos se refugiaram nas Entradas e Bandeiras loucos para achar tesouros lendários e buscar minas de ouro e prata levados por seus brutos filhos bastardos com as índias estupradas, eram terríveis mamelucos caçadores de escravos nos sertões entregues à lei da selva; matabugres mais ferozes que cães Filas levados por eles para farejar onça e pegar índio brabo em luta pela posse do território ancestral.

O papa João Paulo II pediu perdão aos índios e negros nos 500 anos das Índias Ocidentais. Pois a igreja colonial era cúmplice, quando não protagonista do genocídio americano. Somatório de muitíssimas exclusões do ser humano pelos próprios homens, desde o velho mundo, a multidão de despossuídos do novo. Os marginalizados do "testamento de Adão" (partição do mundo achado e por achar, entre os reis de Espanha e Portugal, conforme o acordo de Tordesilhas de 1492, homologado pelo papa Bórgia)... E entram aí o corso e a pilhagem das riquezas reais e imaginárias do ultramar pelas potências rivais dos monarcas católicos da Espanha e Portugal, ampliando a tragédia universal nomeadamente a França, Holanda e Inglaterra, esta monarquia que entrou por último na corrida colonial, porém não foi menor nem a última a sair do saque. De fato, além de conquistador da América do Norte, Índia e China e outras partes do mundo, o Reino Unido foi insaciável suserano de Portugal e Brasil. 

O "carma" das Índias Orientais e Ocidentais - sem fantasmagorias e também com elas -, vem das antigas navegações do Mar-Oceano na teoria do segredo dos achamentos marítimos por navegadores fenícios, gregos e portugueses desembocando no "descobrimento" do cristão-novo Cristóvão Colombo, em 12 de outubro de 1492. Deste então, a mãe Terra nunca mais foi a mesma. A metáfora de Atlas cabe feito luva. Ela se tornou realidade com a África a suportar o peso da civilização ocidental condenada ademais, pelo pecado original de Adão e Eva; pela falta bíblica de Cam, personagem do livro do Gênesis, filho caçula de Noé que gerou também a Sem e Jafé quanto ele contava 500 anos de idade. Segundo Gênesis, Noé tinha 600 anos na época do Dilúvio. No relato lendário, Cam é patriarca de importantes nações negras da Antiguidade, como Cuxe (Núbia, Sudão), Sabá (Etiópia), Nimrod (cidade-estado suméria), Filistina (Palestina), Fenícia (Líbano) e todos povos de Canaã. O historiador judeu romano Flavio Josefo trata em detalhes a suposta descendência de Cam e as nações que o personagem teria gerado, prova de antigo interesse em perpetuar o conto original da Mesopotâmia.

Diz a tradição que, quando o Dilúvio cessou, Noé plantou uvas e fez vinho terminando o patriarca por se embriagar e adormecer nu em sua cabana. O imprudente Cam deparou-se com seu pai desacordado e despido. Contou logo a seus irmãos que foram respeitosamente cobrir a nudez do irresponsável pai. Quando Noé acordou, tomou-se de ira e amaldiçoou Cam com toda sua futura descendência referida em Canaã, como o "servo dos servos". Gênesis 9:25 "e disse: "Maldito seja Canaã; seja servo dos servos a seus irmãos"

Segue do mais antigo livro da Bíblia o estigma que, paradoxalmente, atravessou os séculos até chegar hoje no evangelismo o mais radical. Nessa linha, o famoso reino de Sabá é mencionado diversas vezes na tábua das nações (Gênesis, 10:7), Sabá é listado como um dos descendentes de Cam. Flávio Josefo descreve Sabá como uma cidade cercada por muros, na Etiópia. Segundo ele, "ela era cercada bem de longe pelo Nilo, além de outros rios, o Astápo e o Astabora", de acordo com Josefo, a conquista de Sabá pelo faraó do Egito teria dado fama a um príncipe egípcio, ao mesmo tempo que revelou seu passado como uma criança hebreia escrava, chamado Moisés.

A palavra Etiópia é uma das mais antigas na Bíblia em Gênesis, capítulo 2. E também na Ilíada onde aparece duas vezes e três na Odisseia. Logo mais nós iremos ver como o padre Antônio Vieira, no século XVII, importou do Livro de Isaías a profecia do Quinto Império alinhando a Etiópia na geografia messiânica a par da equatorial a Amazônia, há mais de 700 anos antes de Jesus Cristo... O uso do topônimo mais antigo atestado na região africana é um nome cristianizado do reino de Axum, no século IV, em escrituras de pedra do rei Ezana. Alguns estudiosos acharam ser derivado da palavra grega Aithiopia, ‘um etíope’, derivado de palavras que significam "de rosto queimado". O Livro de Axum, uma crônica compilada no século XV, alega que o nome é derivado de "Ityopp'is" — um filho (não mencionado na Bíblia) de Cuxe, filho de Cam, quem de acordo com a lenda fundou a cidade de Axum. Plínio, o Velho, alega que o nome da nação deriva de alguém cujo nome foi Aethiops. Uma terceira etimologia, sugerida por pesquisadores etíopes recentes e o poeta laureado Tsegaye Gabre-Medhin, traça o nome às palavras "egípcias, velhas e negras"Et (Verdade ou Paz), Op (Alto ou Superior) e Bia (Terra ou País), sendo Etiópia a "terra de paz superior". Um nome predestinado pela geografia e a história da Antiguidade? Interessante rememorar isto, quando a Etiópia entra novamente, no século XXI, como lugar mundial de esperança de justiça e paz nos dias que virão, conforme a Agenda de Adis Abeba, de 15 de julho de 2015, antecedente ao acordo de Paris sobre mudanças climáticas, de 12 de dezembro de 2015. 


Kitab al-Magall ("Livro dos Rolos" e a Caverna dos Tesouros mencionam uma tradição na qual, após o reino ter sido fundado pelos filhos de Sabá (filho de Joctã), houve uma sucessão de sessenta governantes mulheres até a época de Salomão. A tradição bíblica da Rainha de Sabá (conhecida por Makeda na tradição etíope e Bilqis na tradição islâmica) faz a sua primeira aparição na literatura mundial no Livro dos Reis (1:10), que descreve sua viagem a Jerusalém atraída pela fama do rei de Israel. Graças à sua ligação com a rainha, Sabá tomou prestígio e diversas dinastias reais alegaram descendência da união entre a rainha de Sabá e o rei Salomão, principalmente na Etiópia e na Eritreia onde Sabá esteve tradicionalmente ligada ao antigo reino de Axum. Não passa sem sentidos a tradição do antigo país africano, onde o café teve origem; como dinastia matriarcal. Quando a Organização das Nações Unidas (ONU) esforça-se para promover as mulheres e estabelecer poder paritário entre homens e mulheres na direção de instituições e empresas.

Não passa sem atenção, o cruzamento de diversas culturas e religiões no mundo de tradição profética, quando se leva em conta a História do Futuro, do padre Antônio Vieira, em sua experiência de vida na Amazônia entre 1652 a 1661. Quase uma década de intensa atividade missionária e luta contra o cativeiro dos índios pelo colonos portugueses do estado colonial português no Maranhão e Grão-Pará (1621- 1751). Não sem contradições, é claro, quando nos achamos há mais de três séculos... A História do Futuro , de Antônio vieira (1608-1697) foi escrito como defesa da acusação de heresia judaizante, no século XVII, perante o tribunal da inquisição do Santo Ofício em Portugal. Precedido pela carta secreta As Esperanças de Portugal , escrita em viagem em canoa a remos entre Belém e Cametá, com data de 19 de abril de 1659; que motivou o processo contra o "padre grande" dos índios.

Depois da trovas do sapateiro de Trancoso, Bandarra; a História do Futuro teria sido a primeira narrativa da utopia evangelizadora sebastiana, onde o autor buscou reavivar o mito milenarista do Quinto Império do mundo. Vieira prosseguiu a aprofundar sua profecia com a interminável Clavis Prophetorum ou Reino de Jesus Cristo consumado na terra, um império cristão e português no qual viveriam em paz cristão, judeus e muçulmanos; sucedendo os impérios assírio, persa, grego e romano. Para Vieira, havia uma repetição dos ciclos da História e caberia a Portugal a liderança do mundo civilizado. Sua escrita iniciou-se em 1649, segundo Georges Sorel, ou 1665, segundo Alfredo Bosi, a História do Futuro só foi publicada postumamente em Lisboa em 1718, ainda assim sob suspeita de heresia.

Contemporâneo de Baruch de Espinoza e amigo do rabino Menassé ben Israel (nascido Manoel Soeiro, na ilha da Madeira), da comunidade judaica portuguesa de Amsterdã, que proferiu a excomunhão do filósofo panteísta; Vieira recebeu influência da obra As Esperanças de Israel, na qual Menassé sustentou a tese de que os índios americanos descendiam das tribos perdidas do cativeiro da Babilônia. Deste modo, Vieira escreveu à pagina 17 da História do Futuro (edição Secult/IOE: Belém, 1998) ''... chamo a esta mesma escritura Esperança de Portugal, e este é o comento breve de toda a História do Futuro". A respeito do capítulo 28 do Livro de Isaías, em relação ao futuro Quinto Império do mundo diz às páginas 300 e 301:

"Estes são os sinais comuns, que nos aponta o Profeta daquela terra e gente...", que não convém a toda gente e terra do Brasil , é outra vez necessário que nós também declaremos a Província e gente, em que eles todos se verificam e esta gente e esta Província, mostraremos agora que é a que com toda a propriedade chamamos Maranhão... naquele vastíssimo Arquipélago do rio chamado Orelhana, e agora  das Amazonas...".

"Desta sorte vivem os Nhengaibas, Guaianás (frisei), Mamaianás, e outras antigamente populosas gentes, de quem se diz com propriedade que andam mais com as mãos, que com os pés, porque apenas dão passo, que não seja com o remo, restituindo-lhes os rios a terra que lhes roubaram, nos frutos agrestes das árvores de que se sustentam; cuja colheita é muito limpa, porque caiem todos na água; e em muita quantidade de Tartarugas, e peyxes Boys (sic), que são os gados que pastam naqueles campos..."

"... e não faz dúvida dizer o Profeta que estas embarcações iam ao mar... porque além de entrarem com ela pelo mar Oceano, o mesmo Arquipélago, que dizemos, de água doce, se chama na sua língua por sua grandeza mar, e daqui veio o nome que os Portugueses lhe puseram de Grão Pará, ou Maranhão, o que tudo quer dizer, Mar grande, porque Pará significa mar, ...". 

"... Porque os Maranhões são aqueles, que além da Ethiopia ficam pontual, e perpendicularmente bem debaixo da linha Equinocial ... porque entre todas as gentes do Brasil os Maranhões foram os últimos, a quem chegaram as novas do Evangelho, e o conhecimento do verdadeiro Deus, esperando por este bem, q tanto tardou a todos os Americanos..." 




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mito de Atlas ou Atlante, titã condenado por Zeus
a sustentar o céu sobre os ombros. Montanhas da África.


Quadro de Johann Moritz Rugendas (1802-1858) retratando interior de um navio negreiro.


O papa João Paulo II pediu cem vezes perdão pelos erros "históricos" cometidos pela Igreja Católica no passado. O papa considerava que o ano 2000, ano do Jubileu, era o melhor momento para pedir perdão, mas acabou adiando o gesto simbólico. O papa pronunciou suas solenes "mea culpa" pelas cruzadas, as ditaduras, as mulheres, os judeus, pelo processo a Galileu, pelas guerras, pelas guerras de religião, pela excomunhão de Lutero, Calvino, Hus e Zwingli, pelo tratamento aos negros e as violências cometidas contra os índios da América.

Igualmente ele pediu perdão pelas injustiças, a Inquisição, o integralismo, o Islã, o racismo, os crimes em Ruanda, o cisma do Oriente, a história do pontificado e inclusive pelas responsabilidades dos católicos dentro das máfias e pelos erros cometidos contra a China. E assim a
 chuva não impediu a presença de centenas de pessoas na missa comemorativa pelos 500 anos do descobrimento do Brasil, na praia de Coroa Vermelha, em Santa Cruz de Cabrália, na Bahia. Na cerimônia, presidida pelo cardeal Angelo Sodano - secretário de Estado do Vaticano e enviado especialmente pelo papa Joao Paulo II -, o presidente da Conferência Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), Dom Jayme Chemello, pediu perdão aos índios e aos negros em nome da Igreja Católica, abordando a discriminação contra os grupos. "Não podemos jamais esquecer dos índios. Queremos pedir perdão ao índio e à raça negra pelos anos de escravidão", disse. A missa foi transmitida para 107 países e aconteceu ao ar livre, num altar montado diante da praia, no recém-inaugurado Sítio Histórico de Coroa Vermelha. A cerimônia foi realizada no mesmo local que o frade franciscano Henrique de Coimbra, capelão da frota de Pedro Alvares Cabral, celebrou a primeira missa em terra brasileira, no dia 26 de abril de 1500. "Foi também ali que, na semana passada, a tropa de Choque da Polícia Militar da Bahia reprimiu grupos de índios e de negros que pretendiam fazer uma manifestação de protesto paralela às celebrações oficiais do Descobrimento" (dos jornais). 

Agora, as esperanças contemplam ainda a velha Etiópia. A chamada Agenda de Ação Adis Abeba, base para implementar os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável. O financiamento é fundamental para implementação dos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) que respondem as prioridades globais, incluindo a erradicação da pobreza e a fome, redução da desigualdade social, enfrentamento da mudança climática e preservação dos recursos naturais do planeta.
Cem anos após o "grito" do Ipiranga, a Semana de Arte Moderna de 1922 proclamou a independência das letras nacionais. Foi assim que, em 1928, a heresia dos índios do Recôncavo Baiano, por volta de 1580, castigada na primeira visitação da Inquisição a Bahia e Pernambuco triunfa sobre a mãe dos Gracos e conclama os ancestrais da brasilidade a emergir do inconsciente coletivo. Dançam nas sombras das taperas das velhas aldeias e nas senzalas, pajés, mães e pais de santo confundidos com profetas sebastianistas, devotos do Espirito Santo imigrantes portugueses com casais dos Açores e cristão-novos refugiados das perseguições da velha Europa cristianizada.

Cristo renascido na Bahia de Todos os Santos e em Belém do Grão-Pará foge das igrejas canônicas para o interior dos sertões, frequenta terreiros e searas, bate tambor em casa de Mina, frequenta catimbó, mistura-se com os índios catecúmenos de aldeia missionária com capela de pau a pique e sapé... A letra mata, masporém o espírito vivifica... O profeta catalão convertido em caboco pela fé em Jesus Cristo, Pedro Casaldáliga; sabe disto de cor e salteado. 

Lá pelas bandas do Araguaia e do Xingu, por onde Pedro foi à luta, o rito indígena do Kuarup é hino empolgante de todas crenças canônicas e heréticas da ressurreição. Ali a morte não assusta ninguém, a não ser a pobres de espírito. Por isto, jurado de morte pelos inimigos da gente Pedro Casaldáliga não recuou, nem recua. Por conseguinte, a luta de agora explica a guerra da grande noite colonial. Onde a eucaristia selvagem do antropófago não demorou a fazer sentido aos caraíbas convertidos por Anchieta, quando os índios tupinambá da Yvy maraey (terra sem mal) imaginaram o Sagrado Coração de Jesus pelo discurso do padre a modo dos eletrizantes sermões dos pajés-açus de antanho com a promessa da utopia selvagem daquele tempo dos ancestrais: onde não existe fome, trabalho, escravo, doença, velhice e morte. Então, a nova revolução da Terra sem Mal estava feita e os bárbaros compreenderam que se o mal colonial era irremediável, em compensação os índios poderiam devorar os costumes estrangeiros, parar de fazer a guerra hereditária sem prejuízo da antropofagia ritual e comer o santo Cristo convertido, magicamente, na hóstia santa por mais que a igreja dos brancos insistisse em "civilizar" os índios. Isto é, fazer desta gente o que a gente não é nem nunca será. 

Tal é, a grosso modo, a natureza profunda da religiosidade nativa do povo brasileiro junto e misturado com as santidades africanas naturalizadas brasileiras, herdeiros naturais da heresia dos índios de Jaguaripe (Ronaldo Vainfas, A Heresia dos Índios, catolicismo e rebeldia no Brasil colonial).


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Iluminado pela fé no divino Espírito Santo, Pedro (Dom Pedro Casaldáliga, bispo emérito da Prelazia de São Félix do Araguaia (MT), ver filme documentário O Anel de Tucum) intuiu sabiamente que o anel de tucumã, feito do duro caroço de um doce fruto, que uma espinhosa palmeira da Amazônia dá, é “sinal da aliança com a causa indígena, causas populares. Quem carrega este anel, normalmente, significa que assumiu estas causas e as suas consequências”.  É o símbolo da opção preferencial pelos pobres. Um símbolo revolucionário com raízes profundas no imaginário e na história milenar do povo brasileiro.

História milenar do povo brasileiro... Carece repetir isto infinitas vezes para erradicar a colonialidade da historiografia brasileira. Refundar a historiografia inclusiva da história oral do povo brasileiro, a partir de Capistrano de Abreu até os nossos dias. Aqui a aliança de tucumã reforça o compromisso com as origens da brasilidade. Afasta a ilusão segundo a qual nossa história começa com a carta de Pero Vaz de Caminha sobre o "descobrimento" do Brasil ou com as lendas do país de São Brandão, as ilhas Afortunadas e a Antilha. Trata-se, então, de um exercício de desilusionismo, tentativa de despertar a brava gente: onde um simples caroço de tucumã tem mais valor que a taça de campeão mundial de futebol...


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Tucumanzeiro (Astrocarium vulgare).
Tucumanzeiro (Astrocaryum vulgare). Palmeira amazônica espinhosa que dá frutos apreciados na culinária marajoara para preparo da famosa Canhapira e do "bouillon d'awara" (caldeirada do tucumã) na Guiana francesa. No campo da cultura imaterial, segundo a tradição Tambor de Mina, vóduns chamados Surrupiras habitam pés de tucumanzeiro. Coisa que pode ser entendida como metáfora da própria entidade, pois os espinhos da palmeira Astrocaryum vulgare representam força e defesa da planta e seus frutos recebidos como dádiva da natureza. Do mesmo modo, o Surrupira apesar de aparência rude, é entidade espiritual benfazeja portadora de resiliência. (baseado em texto do portal do Museu Virtual Surrupira de Encantarias Amazônicas / UFPA). 

O Astrocaryum vulgare recebe diversos nomes populares: tucumãcumaricumbaricumbarimaiarácuruácoqueiro-tucumtucum-do-amazonas e tucumã-piranga . "Cumari" e "cumbari" provêm do tupi kumba'ri. "Aiará" ou "Oiara" (Awara em crioulo guianense) é voz galibi. "Curuá" vem do tupi kuru'á. "Tucum" vem do tupi tu'kum. "Tucumã" vem do tupi tuku'mã. "Piranga" é proveniente do tupi pi'rãg, que significa "vermelho" Fruto aromático e de polpa amarelo-avermelhada, que abriga amêndoa comestível. Nos campos do Marajó um pequeno besouro chamado caturra.



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O reencontro da África com a América teve sua tragédia revestida de espinhos no palco tropical do Brasil, que é extremo ocidente da Finisterra, da Península Ibérica, historicamente falando com referência à Colonização latino-americana. Digo reencontro afro-americano. Em primeiro lugar, pensando no passado geológico da Terra quando África e América faziam parte do supercontinente Gondwana ou Gonduana que incluía a maior parte de terra firme que hoje constituem os continentes hemisfério sul, incluindo a Antártida, América do Sul, África, Madagáscar, Seicheles, Índia, Austrália, Nova Guiné, Nova Zelândia e Nova Caledônia. 

O supercontinente foi formado no período Jurássico Superior há cerca de duzentos milhões de anos, pela separação do Pangeia. O termo original para o designar foi cunhado pelo geólogo inglês Eduard Suess, em 1861, com referência à região de Gondwana, na Índia. Onde a flora de Glossopteris, plantas fósseis permianas, foi encontrada pela primeira vez. Falo reencontro da África com a América, pensando no povoamento do novo continente através da Ásia. Toda humanidade saiu da mãe África

Não importa que nosso estudantes de história da arte ainda não saibam, com as exceções de praxe,  que o historiador e físico senegalês Cheikh Anta Diop, autor de Nations Negres et Culture, foi inventor do método de datação arqueológica por carbono 14. 

http://minaetereco.blogspot.com/2010/06/rei-surrupira.html


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Manoel Nunes Pereira, também conhecido como Nunes Pereira - autodidata, indianista e escritor maranhense,  nasceu em São Luis do Maranhão em 26 de junho de 1893. Faleceu no Rio de Janeiro em 26 de fevereiro de 1985, aos 92 anos. Foi um antropólogo e ictiólogo que viveu grande parte de sua vida em Manaus, e, posteriormente, na cidade do Rio de Janeiro, tendo viajado seguidamente ao interior da Amazônia


A noite estava escondida no fundo do rio dentro de um caroço de tucumã (Astrocaryum vulgare). O nigredo do mundo, inconsciente profundo da humanidade filha da animalidade. Ao pé do tucumanzeiro espinhoso mora o gênio Surrupira, guardião das tradições afro-amazônicas... Do pomo dourado do tucumã sai o doce sumo da divina Canhapira, manjar dos deuses e comida da pobreza... Estas coisas são boas que se saibam para decifrar a lenda da primeira noite do mundo e ter entendimento do ideograma da iconografia marajoara. A cobra grande chamou três escravos e mandou eles ir buscar a noite. Dito e feito. Os tais escravos bem sabiam onde achar o caroço de tucumã onde a noite estava escondida e guardada desde o começo do mundo. O mais curioso dos três ouviu vozes e barulhos estranhos dentro do caroço. Outro disse, vamos quebrar pra saber o que tem aí dentro... E o terceiro deles não esperou mais nada, foi logo metendo porrada. A semente de tucumã tem casca dura feito aço, mas não para quem sabe manejar terçado mágico feito de pedra de raio, crismada e bafejada por pajé sacaca de sete fôlegos. Pedra de raio é como os índios chamam a meteoros, no caso a história daquela antiga estrela que caiu no meio do lago Guajará e explodiu em pedaços. Terá sido dali que o Guajará ficou encantado, com aquela passagem subterrânea do meio dos campos para o Caldeirão, no rio Paracauary? Do Guajará saiu o Boi Selado, touro encantado que os pajés dos índios bravios em guerra metafísica contra os barões de Joanes; espantavam o gado no curral espalhando a 'malhada' (manada) campo afora, o rebanho manso virava gado do vento... E vinha a febre aftosa, a peste quebra-bunda da cavalhada... Era assim.



CANHAPIRA E "BOUILLON D'AWARA" (CALDERADA DE TUCUMÃ", do galibi "oüara", Astrocaryum vulgare).





Notícia da Ilha Grande de Joannes dos rios e igarapés que tem na sua circumferencia, de alguns lagos que se tem descoberto e de algumas couzas curiozas.

"... tem muitas arvores d'espinho a que chamão Tucumaz, dá uma fruta que se costuma comer, e é oleosa e se faz azeite della, o qual azeite é amarello de côr da mesma fruta e com elle costumam algumas pessoas temperar o comer, principalmente a pobreza; ..." 

Em muitas das Ilhas que se tem descoberto, se tem achado muitos Pacovaes, mas nunca nenhum maior, que o que se descobriu em 20 de Novembro de 1756, o qual tem o comprimento de 200 braças e 30 de laro, e varios pés de Maniba e plantas de Ananazes, e de Maniba se tem trazido alguns paus e esta se tem plantado, razão porque se tem conhecido que em seis mezes costuma a raiz desta planta ser capaz de se ralar e fazer farinha, o que não sucede àquella que os Europeus costumão plantar nas suas Roças, por que então é necessario passar um anno para se puder desfazer em farinhas" 

  



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No arquipélago do Marajó é comum que algumas pessoas substituam os óleos de cozinha industrializados, geralmente utilizados em temperos ou frituras, por um óleo extraído da larva que se reproduz no interior de um fruto típico da região: o tucumã. Para os marajoaras o “óleo de bicho” ou “banha de bicho”, como é chamado, contém poderosos benefícios para a saúde. Além de ser nutritivo, ele é terapêutico, substitui a manteiga no pão, controla e combate a asma, inchaços, luxações, contusões, derrames, reumatismo e picadas de formigas tucandeiras. A extração é feita por dois métodos. No primeiro, quebra-se a parte interna do fruto, retira-se as larvas (foto) que, em seguida, são imersas em água limpa. Depois de secas elas são transferidas para uma frigideira e aquecidas em fogo brando. O calor faz com que as larvas soltem o óleo. Em outras comunidades, o processo é feito de forma um pouco diferente: primeiro as larvas são amassadas em um crivo e só depois levadas para a frigideira. FOTO: ASCOM / UEPA DATA: 27.12.2016 BELÉM - PARÁ

processo de produção e extração do óleo proveniente da larva encontrada no caroço do fruto, Marília Silvany Souza dos Santos, 23 anos, e Kemuel de Abreu Barbosa, 26 anos, egressos do curso de Tecnologia de Alimentos da Universidade do Estado do Pará (Uepa), visitaram as comunidades da zona rural de Joanes, Jubim e Maruacá, em Salvaterra, e descobriram que além de ser consumido como alimento, o óleo também constitui uma fonte de renda complementar para as comunidades extrativistas.


A larva é o primeiro estágio no processo de formação do inseto identificado como Speciomerus ruficornis, que se forma na amêndoa do tucumã.
Segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO), a entomofagia, consumo de insetos por seres humanos, é praticada em vários países em redor do mundo, predominantemente em partes da Ásia, África e América Latina. De acordo com o renomado especialista em insetos, Eraldo Medeiros Costa Neto, o uso medicinal destes na medicina tradicional é chamado de entomoterapia ou etnoentomologia.
“Fui criado em Salvaterra. Conheci e fiz consumo artesanal do óleo e da larva”, diz Kemuel. “Elas (larvas) trazem vários benefícios à saúde. Há pessoas que as comem cruas. Pelo alto teor de proteína, elas são ricas em nutrientes, pois só se alimentam das amêndoas do tucumã”, ressalta Marília.
Curiosidades - Os meses de junho e julho são os mais favoráveis para a extração do óleo de bicho, pois é o período em que a larva chega ao ápice do processo evolutivo. O tucumanzeiro é uma palmeira que produz cerca de 50kg de frutos por ano, mesmo em solos pobres. Anualmente, a árvore produz de dois a três cachos de fruto. Cada cacho pesa entre 10 e 30 quilos e contém de 200 a 400 frutos. As árvores podem chegar até cinco metros de altura.


segunda-feira, 7 de maio de 2018

Cantares cabocos: columba galega.

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pomba-galega (Patagioenas cayennensis), foto Claudio Cesar 
[Wiki Aves - A Enciclopédia das Aves do Brasil]: uma alegoria amazônida.





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María Rosalía Rita de Castro 
(Santiago de Compostela, 1837 - Padrón, 1885).


Eu vou para casa em Nacín, 
vou para uma aldeia que conheço 
para um mundo que não vem! 
Deixo amigos para estranhos, 
deixo a veiga polo mar, 
deixo, enfim, chant ben quero ... 
Quen pudera não deixar! ...


"Cantares Gallegos", Rosalía de Castro.
Vou além mar levar lembranças da terra minha
Meu sangue cabano herança de meu pai caboco
a caminho do antigo porto Gal leva-me a força ancestral
Tontas guerras na terra enquanto a columba 
canta paz galega longe plange a lira ao fundo da Floresta
na hora da sesta eu corrupio pelos caminhos do mundo.

Numa ilha-canoa jita parto dos confins do Fim do Mundo 
porto mágico do navio encantado onde mora a cobragrande.
Certas noites a ilinha transforma-se e zarpa a pleno vapor
vai todo iluminado até alto mar viajar pelo reino da Boiuna 
levando carga pesada do viver da criaturada grande
fado antigo das tribos perdidas do cativeiro da Babilônia.

Quero levar aos parentes que meu avô deixou na Galiza
notícias do Itaguari onde o rio Marajó tece o labirinto insular
e onde dei primeiros passos de descobrimento do mundo,
mamei feliz o leite farto de minha mãe galega tão bela
e vi a primeira vez seus lindos olhos azuis da cor do mar
sitio ideal onde índios, pretos e brancos eran como írmans. 

Quando pirralho rabiscava eu sem erro círculo perfeito
Depois de saber escrever nem a compasso fiz outro igual
Quando a gente cresce paresque a magia desaparece
Por isto talvez tantos viajantes buscam o paraíso perdido.
Deixarei lá minha coroa de espinhos aos pés de Santiago
a par da memória dos negros da terra e da mina da Guiné.

A Rosalía de Castro levo Arte Marajoara primeva 
não olvidarei Rosalía de Quito quem me disse do perigo
de herexia galego-marajoara: vinho da ira tinto de açaí 
tal qual a questão do Santo Graal! Bem que tio Dal trouxe
de Salvaterra de Magos o romanço pra Salvaterra sakaka
concluindo por este fado ser a Criaturada cidadã do mundo. 

Se eu me chamasse Raymundo que nem meu bisavô
cristão-novo e voluntário da Pátria seria eu o tal!
Mea bisavó Micaela era filha do reino das Astúrias, ela
Aburrida de tanta guerra insana expatriou seu filho Celestino
quaxe ninho ele virou Francisco no Pará em busca de paz 
àquela família tão cansada de servir de bucha de canhão.

Mea bisavó escreveu a um primo do finado marido dela,
meu bisavô galego Pero Pérez Rincón; recomendando 
Celestino Pérez Varela a Pedro Pérez de Castro. 
Masporém havia no destino mais de um deste nome 
e o já Francisco não conseguiu encontrar o parente.
Aí ele foi faxineiro no Hotel América pra ganhar o pão.

Deixa estar que não foi fácil achar o primo Pedro Castro
Francisco ou Celestino nunca pensou ser moço de hotel
Antão ele arranjou serviço de condutor de carro
de passaxeiro puxado a burros, foi como zinho conseguiu
granjear a vida até ter notícia certa do parente
que estava bem assentado coa fazenda na isla do Marajó.

Aí de mim: só sei que foi assim! Sem tal eu não contava
história enquanto a pomba-galega canta no arrebol: 
a prima Maroca foi mea avó, diz-que amor à primeira vista
quando Maria Joana e o primo Francisco, aliás Celestino
encontram-se no Fé em Deus sítio do Baixo Arari
logo eles se casaram e ganharam terras do Serrame.

Pequena sorte de terra de meia légua de fundos
por um quarto de frente, divisa de Terras Caídas 
pelo igarapé Bacurituba e pelo rio dos Patos com o Assapé.
Para o novo casal aquilo era um mundão, masporém
no Serrame havia só um chiqueiro de carneiros abandonado:
o pouco com Deus é muito, ditava meu avô Chico Varela.

Cuando sinhá moça; reza a lenda Maroca amava
acompanhar escravos e escravas de seus pais
à lida da pesca e da roça: diz-que ela burlava zelos do pai
para ir dar uma mão àquela boa gente no mutirão
ela os tratava por tios e primos, o lado negro da família.
O branco morreu de queda a entaniçar tabaco c'os pretos.

Na história familiar diz-que Pedro Castro era bom senhor. 
Tenho cá meas dúvidas, com a Lei Áurea libertos ficaram
como dantes, uma parte quis acompanhar a branca Maroca
e sô Chico Varela ao Serrame: que virou seringal, taverna
padaria e estaleiro do fantástico veleiro "San Tiago"
que xamás navegou con o dono até virar canoa "Africana".

A pequeña Galícia do Curralpanema sofreu sua tragédia
no rabo da queda do preço da borracha: sô Chico Varela
cuidava de seu reino e não botou mais os pés na cidade.
Apenas Amâncio piloto da canoa "Aracy" fazia a travessia
entre a ilha grande e o Ver O Peso na capital da província
antão a casa aviadora Antônio Silva abriu falência.

Uma carta chegou pelo portador de sempre, dizendo
que o negócio acabou e meu avô restou credor
de não sei quantos contos de réis, quantia avultada
para um camponês imigrante que apesar da sorte
viveu sempre como Deus queria, ciumento de suas cinco
filhas e da mata virxem da qual só deixava tirar seringa.

Foi esta a derradeira vez que Francisco embarcou na vida
pra ir a cidade: voltou com a arca de cedro vermelho
com tampo de pedra mármore, gaveta com campaínha
de alarme onde guardar dinheiro, papéis, documentos
e o dicionário galego-português que eu achei unha vez
quanto tudo já era unha única ruína ferida de morte.
Quando Maroca morreu depois duma súbita moléstia
sô Chico Varela ficou triste que só papagaio moleiro
quando perde a curica companheira, se tornou mouco
e envelheceu da noite pro dia, as filhas casaram
e foram viver na cidade, só Hermengarda, a mais nova
ficou a seu lado até ele morrer e o filho foi ser operário.

Na Galiza contarei quando jito mea mãe me queria obrigar
a beixar os pés do Senhor Morto que jaz embaixo ao altar
da Virxem da Concepção na igrexa de Ponta de Pedras
que nem o corpo frio de meu avô trazido rio abaixo
em canoa a remos pra o enterrar na vila que nem vila era
torrão Boullosa, antão direi da Vilarana na diáspora galiza.

Encantada nas ramas do Paricatuba a pomba Rosalía canta
Esconde o fado tropical na mata virgem do Curralpanema
Eu caçador de mim sem pena de pomba gira e passarinho
Matava tempo nos confins da Bocaina, lá no Serrame
Onde meu avô exilado penava as suas penas
Distante da Galícia relembrando a velha Pontevedra
Caminhando a pé de Soutomaior a Santiago de Compostela.

Rosalía triste cantava suas magoas. Ah, como eu era cego! 
Não nego, ouvi a paloma arrulhar mas não vi sinais do Mar
sem maldades nem cobiça da Terra sem males
Causos díspares de sô Benedito Santiago Frangalho
bom vizinho da Meia Noite, senhor preto mui considerado
dono da canoa "Oliveirazinha" que eu desejava pilotar.

Atravessando a baia a bordo da igarité "Oliveirazinha"
céu sem lua, Cobra Norato paresque mundiou sô Frangalho
que passou o leme a seu filho Manezinho
Manezinho morto de sono, me confiou o rumo e destino
da embarcação. Eu, cá comigo: eita! É hoje!
Que nem ao tempo da igarité "Aracy", tio Cici contava.

O amigo e a amiga podem não me acreditar
Alegria sem parelha dum piloto novo no curso do rio-mar
Enquanto a columba soluçava entre copas do meu coração:
Vento terral sopra pela fresta da nuvem morena na lua nova:
eu era leme e a canoa se tornou barco veleiro "San Thiago"
Encantamento mágico da Princesa a navegar rios de sonho.

Me lembrou a igarité "Aracy" a topar com o navio encantado todo iluminado a horas mortas na baía do Marajó escura 
que nem um breu na primeira noite do mundo, tio Cici viu 
e ouviu música e baile de fantasmas da Belle Époque
eu agora no barco avoengo vou embora pra Vigo
na vieira de meu avô quando Rosalía trila seus cantares.

O vento ponteiro e as ondas do Amazonas meia maré
Vazante empurravam a pequena igarité a risco de abarroar
O navio resplandecente sirenes ao alto zoando por riba
da ponta de pedras. Cruz credo! gritou Amâncio pegado
ao leme e a tripulação com grito preso na garganta
viu a assombração sumir nas espumas e mistério do mar.

Eu deveria saber que a mistura fina de corpos e almas
Africana, indígena americana e galaico-portuguesa
Vem de antigas migrações e navegações do Mar-Oceano
Enquanto Rosalía canta a barca segue a sina de marear
Guiada pela estrela alfa da constelação da Columba
Então eu me arvoro a comandar a jangada de Saramago.

Oh, menino corrupio, não vês que o prodígio acaba?
Não deixa o galo acordar o sol antes da reponta da maré
Vai depressa, madruga, iça velas expressas pra Galícia
Escuta os cantares avoengos como sementes
De novas prosas e poesias. Sejas tu inesperada alvorada
Soutomaior a cabo da ria de Vigo está a pé do caminho 
português de Santiago.




Imagem relacionada

Altar principal da Catedral com o túmulo de Santiago abaixo
altar-mor da catedral de Santiago de Compostela com o túmulo do Apóstolo abaixo.