terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

Responda: a Academia do Peixe Frito poderia ser ecomuseu e/ou universidade popular?

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“Batuque”, Bruno de Menezes, junho de 1931, primeira edição: 
a negritude da cultura paraense ensinada na universidade da maré.


"O que podemos fazer com uma rede no tempo da internet e das redes sociais? Acho que o problema já não é mais conservar fisicamente todo o patrimônio, mas conservar a memória do patrimônio"

Hugues de Verine 
(entrevista na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas,
da Universidade Nova, Lisboa - 19/04/2013).








O TEMPO DO PEIXE FRITO:
Após descobrir que o padre Gallo por acaso
inventou o primeiro ecomuseu, José Marajó Varela
sonha com Eco-Museu da Academia do Peixe Frito.


Na paisagem cultural do Ver O Peso, florão da Amazônia, o bicho de sete cabeças pode pegar: feira do Açaí, praça do Relógio, Doca do Piry, Mercado do Peixe, Feira do Ver-O-Peso, Solar da Beira e Mercado da Carne , território de São Benedito da Praia. Contexto histórico-geográfico da península do Guamá e ilhas do Marajó-Guajará. Cerne da amazonidade. 

400 e tantos anos da fundação de Belém do Grão-Pará e da revolta dos Tupinambá pré-cabanos do cacique Guaimiaba até o vindouro ano 2030 dos ODS, que belo Eco-Museu isto aqui poderia dar ou ainda dará! A Criaturada grande de Dalcídio abraçada por vigorosa extensão multicampi através da educação à distância em protocolo de cooperação entre UFPA, UEPA e MPEG, poderia rapidamente se tornar curadora da memória do antigo território... 

Pra quem não sabe, ecomuseu é o fino da bossa da nova museologia inventada na França líder mundial do turismo cultural. Em rede de educadores em museus e cidades educadores espalhadas pelo mundo comunidades inteiras podem se conectar umas às outras. Algo impensável no tempo dos aprendizes encadernadores e operários gráficos donde, da gente simples do povo, saíram artistas e intelectuais geniais. A globalização em si mesma não seria um mal se não se prestasse ela exclusivamente a servir o deus Mercado e nada mais.

Agora mesmo, dizem jornais de Portugal, milhares e milhares de turistas da China estão a descobrir a velha Europa, em especial as terras lusitanas cujos reis do passado tiveram colônia em Macau. E a nossa Belém que foi, no passado, Paris n'América e de certa forma continua ser ainda Feliz Lusitânia! Nossos novos colonizadores exportam da província parauara para a China minérios, água agregada a grãos de soja e milho, madeira e energia elétrica embutida no alumínio numa base de 90%, aproximadamente, do custo de produção FOB. 

Em compensação, hoje temos miudezas chinesas a 1,99 para dar e vender. Sonhar com trilhos e trens made in China só se for para intensificar exportação cujos lucros não se sabe com quem fica. Metrô de superfície confortável para passageiros em toda área metropolitana nem pensar. Eu queria ver, na antiga Academia do Peixe Frito, Tó Teixeira com seu violão, Abguar Bastos na marcação, Eneida de Moraes cantar uma modinha de protesto, Rodrigues Pinajé com suas sátiras ferinas como se fossem flechas. Um sarau anticolonial do barulho, só que não sonzão tremeterra suburbano para abestar brincantes e atordoar vizinhança.

Pois agora, para o bem e para o mal a terra natal de Dalcídio Jurandir, Ponta de Pedras; vai virar porto sojeiro de transbordo entre barcaças do Baixo Amazonas carregadas de grãos de Mato Grosso. Através do mar cargueiros chineses dia e noite indo e vindo. Os mais pessimistas aconselham cabocos a levar suas filhas inocentes a se refugiar na jebre da Contracosta e nas ilhas de fora. Dizem que a zona do porto vai virar bordel internacional. Otimistas, todavia, acham que o progresso virá a reboque dos navios marítimos. O Ver O Peso está entupido de produtos 1,99 Made in China e comerciantes chineses estão comprando lojas do entorno da feira. Aculturação à vista e prestações mensais no cartão de crédito: açaí e peixe frito pra todo mundo!

Isto não é problema, pelo menos por enquanto. O problema é a falta de emprego e renda para comprar as tais mercadorias estrangeiras e aquecer a produção interna. Sem falar na incomunicação do rio Babel, de que mestre Bessa falou em seu livro já famoso. Todavia, Macau que já foi colônia portuguesa está a todo vapor para ser vista pelo exterior como polo lusofônico do planeta China. Enquanto o curso de mandarino na Universidade Estadual do Pará (UEPA) ainda não parece interessar lá muito a estudantada paraense. Verdade seja dita.

De todo modo, muita merecendência para um caboquinho do Itaguari, parido na Santa Casa do Pará, sair do Fim do Mundo para a cidade das mangueiras querendo saber quem inventou o mundo e terminar sendo escrevente juramentado da Academia do Peixe a escrever na nuvem, para ninguém e para todos, a fim de inventar o futuro com as demolições da belle époque da Borracha e os ecos longínquos no país que se chama Pará, da Semana de Arte Moderna de 22 às margens plácidas do Ipiranga. Como o professor Aldrin Moura de Figueiredo ensina no imperdível Os vândalos do Apocalipse e outras histórias: arte e literatura no Pará dos anos 20, IAP: Belém, 2012; a província literária do Grão-Pará fez adesão à independência das letras do Brasil seguindo a romaria do modernismo tupiniquim corrido lá na distante Pauliceia desvairada.

Logo, na república do Ver O Peso um nome se destaca entre modernistas papa-chibé, Bento Bruno de Menezes Costa, ou Bruno de Menezes (Belém, 21/03/1893 - Manaus, 92/07/1963). Ele nasceu no bairro operário do Jurunas, filho de Dionísio Cavalcante de Menezes e Balbina Maria da Conceição Menezes. Fez apenas o curso primário no grupo escolar José Veríssimo, no bairro de Batista Campos. Ainda menino foi aprendiz de encadernador, profissão que o fez tomar contato com os livros, à exemplo de Machado de Assis que, praticamente, aprendeu a ler e escrever enquanto aprendia ofício de impressor gráfico. 

Bruno foi servidor público no Tesouro do Estado, depois na Secretaria de Agricultura, onde ele foi Diretor do Departamento Estadual de Cooperativismo e se tornou pioneiro nesse sistema de economia solidária incentivado por sua ideologia anarquista. No ano de 1923, fundou a emblemática revista Belém Nova, polo da intelectualidade modernista amazônica. Foi convidado e eleito membro da Academia Paraense de Letras, em 30 de maio de 1944, na cadeira de Natividade Lima, da qual chegou à Presidência. Bruno de Menezes pertenceu ao Instituto Histórico e Geográfico do Pará (IHGP) e à Comissão Paraense de Folclore.

Poeta e folclorista notável, Bruno de Menezes foi precursor em Belém do movimento da Negritude. Sua poesia canta a cultura negra e procura a cidade que o tempo levou, as tradições e a boemia. A necessidade de inserir a literatura paraense no contexto modernista nacional levou Bruno de Menezes a promover vários debates sobre a renovação literária no Pará. Sua inquietação contagiou outros intelectuais que produziram obras que dialogaram com o modernismo. Em 1923 fundou a revista Belém Nova, que publicou trabalhos modernistas e artigos de antigos companheiros. Na mocidade com outros companheiros fundou o grupo Vândalos do Apocalipse e, mais tarde, o grupo Peixe Frito, deste fazendo parte Dalcídio Jurandir e Jacques Flores entre outros de sua geração. Bruno de Menezes a Academia do Peixe Frito reunia-se em torno de uma mesa de botequim onde os amigos conversavam sobre a vida, bebiam e degustavam peixe frito ao azeite de patauá. Ele faleceu subitamente de infarto, aos setenta anos de idade. Seu corpo foi velado na Academia Amazonense de Letras, chegou em Belém no dia 3 de julho de 1963 e foi sepultado no cemitério de Santa Izabel no dia seguinte.



APF NO CENTENÁRIO DE DALCÍDO JURANDIR (2009). 


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oito anos sem Neuton Miranda - Amigo da APF e superintendente da SPU/Pará responsável pela implantação do projeto Nossa Várzea de regularização fundiária.


A Academia do Peixe Frito é cria do movimento modernista brasileiro e teve seu berço cultural no Ver O Peso, cerca dos anos de 1930. Com a morte de Bruno de Meneses, em 1963, e o golpe militar anticomunista de 1964, a histórica APF fechou suas "portas", por assim dizer. Vicente Salles foi o último daquela geração fora de série. A ideia do relançamento da APF veio em decorrência do planejamento das comemorações do Centenário de nascimento de Dalcídio Jurandir (Ponta de Pedras, 10/01/1909 - Rio de Janeiro, 16/06/1979) por iniciativa da Câmara Municipal de Cachoeira do Arari e da proposição do GDM para reunir em Belém tos municípios marajoaras interessados, notadamente Cachoeira do Arari, com Adriano Figueiredo, representando a Secretaria Municipal de Cultura e Albertinho Leão, da Irmandade do Glorioso São Sebastião; Ponta de Pedras com Angelina Rodrigues, Associação de Professores para Estudos Literários de Ponta de Pedras - Dalcídio Jurandir (ASPELPP-DJ); sob coordenação da Associação de Municípios do Arquipélago do Marajó (AMAM), representada por Leonardo Lobato. Muaná se fez presente com Agostinho Batista, do próprio GDM. Neuton Miranda, fiel à memória de Dalcídio Jurandir não poderia ficar indiferente à aventura e Gunter Pressler, um dos principais organizadores do Colóquio Dalcídio Jurandir: 60 anos de Chove nos campos de Cachoeira (2001-2002), foi desde então assíduo participante da nova APF. 

Visto ser impraticável reuniões com tal caráter, no espaço aberto original da antiga APF, combinou-se com Ricardo Massoud, gerente do Hotel Ver O Peso em face à feira; almoços de trabalho a cada primeira sexta-feira do mês; sempre regados a açaí com peixe frito. Passado o Centenário de Dalcídio a nova APF experimentou, com sucesso, o primeiro sarau da nova Academia no mirante do restaurante do hotel para ver o por sol por trás da ilhas da baía do Guajará. Manumoa e seu violão cantando músicas de parceria com Vergara Filho deu brilho especial. Evento memorável pois, pela primeira vez a APF comeu peixe frito e viu pescadores das Reservas Extrativistas convidados por Vergara, do Conselho Nacional de Populações Tradicionais (CNPT). Hoje nós choramos a ausência do irmão e companheiro Waldemar Londres Vergara Filho (João Pessoa-PB, 1958 - Belém-PA, 2018), mestre da Criaturada de Dalcídio na universidade da maré.

Com o passar do tempo, alguns participantes menos informados, pouco a pouco, confundiram a contra-cultural academia fundada por Bruno de Menezes e seus camaradas do grupo Vândalos do Apocalipse, reduzindo-a apenas ao aspecto gastronômico tradicional. Nos faltou criatividade na nova confraria para conservar a memória da velha academia do Ver O Peso em novos tempos. Todavia, no registro histórico da ressignificação da APF no Centenário de Dalcídio Jurandir, havíamos no Instituto Histórico e Geográfico do Pará (IHGP), na presidência do doutor Guaraciaba Gama, dado primeiros passos do relançamento da APF pós-Bruno de Menezes. Assim foi que, na sexta-feira, 23 de março de 2007, fomos ao Ver O Peso com clara intenção de repetir, em memória, os acadêmicos do Peixe Frito dos anos de 1930: eramos sete como os sete caciques nheengaíbas que trataram as pazes com o payaçu Antônio Vieira no rio Mapuá, ilha do Marajó dia 27 de Agosto de 1659. Sim, pode parecer agora uma comparação absurda passados mais de 350 anos. Mas não se pode ignorar, que se os caciques rebeldes do Marajó rejeitassem as pazes com os portugueses do Pará, provavelmente, teria ocorrido a "guerra justa" requerida pela Câmara de Belém e autorizada pelo rei de Portugal. Uma guerra injusta que, naquele tempo, ameaçava de cativeiro e genocídio a brava gente marajoara daquele. Uma guerra "impossível de vencer" advertia justificadamente o Padre grande dos índios. 

Antes de prosseguir, devo dizer que devo a honra de ter pertencido ao Silogeu paraense ao convite fraterno do professor Pedro Rocha que teve a bondade de ler meu ensaio Novíssima viagem filosófica, onde escrevi coisas antiga e esquecidas como estas, pescadas da Viagem Philosophica do sábio de Coimbra, Alexandre Rodrigues Ferreira; sob leitura pós-colonial da Viagem a Portugal, de José Saramago. Confesso que o melhor que guardei do IHGP foram as amizades que lá conquistei e a amável lembrança do Doutor Guaraciaba, memória viva de Cachoeira contemporâneo de Dalcídio e magistral zelador da divina canhapira. Isto posto, fica o registro daquela sexta-básica na feira do Ver O Peso onde estávamos, impávidos e anônimos, àquela manhã de sol em meio a multidão de mil e uma caras e bocas do suarento formigueiro sob sol e chuva (ver "José Varella: Academia do Peixe Frito, 06/05/2088 - www.vermelho.org.br).

Por que escrevo isto? Porque quero deixar testemunho a meus filhos e netos, assim que aos filhos e netos de meus amigos. Depois que descobri que Giovanni Gallo pode ser considerado criador do primeiro ecomuseu brasileiro, avezei de plantar sementes de ecomuseus por todos lados que eu ando. Quem vem de comunidade sabe que o movimento social não pega sem enraizamento do movimento na comunidade. Verbo sem verba anda devagar, porém verba sem verbo não vai a nenhum lugar. Já dizia Chacrinha que quem não se comunica se estrumbica... Em 2006 o pessoal do Grupo em Defesa do Marajó (GDM), filho bastardo da Pro-Reitoria de Extensão da UFPA, que existiu entre 1995 a cabo de dez Encontros em Defesa do Marajó até 2014, guiado tão só pela Carta do Marajó-Açu, assinada em Ponta de Pedras, em 30 de abril de 1995; convocou amigos e foi se queixar ao bispo. Na verdade, aos dois bispos do Marajó (da Diocese de Ponta de Pedras e da Prelazia do Marajó, com sede em Soure). Lá foram Dom Alessio Saccardo e Dom Frei José Luís Azcona levar as queixas da gente marajoara diretamente ao Presidente da República, no Palácio do Planalto.

Antes que se diga que isto houve só porque estava Lula lá; convém refrescar a memória dizendo que na Quaresma de 1999, com apresentação do dito GDM, os bispos católicos da Diocese e Prelazia mencionadas, respectivamente Dom Angelo Rivatto e Dom Azcona; escreveram e divulgaram documento eclesial alertando as autoridades em geral sobre a extrema pobreza do povo marajoara. Um tímido ensaio de diálogo entre o governo estadual e o GDM foi iniciado sem maiores consequências.

Foi, então, que chegou 2003 e começou o governo Lula em Brasília. Infelizmente, quando provavelmente o Museu do Marajó poderia encontrar as melhores oportunidades para se consolidar depois de atravessar o "deserto" desde sua fase de "pré-ecomuseu" no dizer de Hugues de Verine ou da criação por Giovanni Gallo do primeiro ecomuseu brasileiro, em 1973, em Santa Cruz do Arari em minha opinião; faleceu em Belém o "marajoara que veio de longe" (palavras de Camillo Viana). Pobre Marajó, ficou mais órfão que antes já que Dalcídio Jurandir já havia morrido em 1979.


Pois, ironia da história, a última viagem que fiz em companhia do camarada Neuton Miranda foi para distribuir títulos de autorização de uso de terras da União pela comunidade; aconteceu na terra adotiva de Dalcídio Jurandir completada por visita ao Museu do Marajó, em 2010. Retornamos a Belém e Neuton deu-me carona até a porta de minha casa. Esta foi a última vez em que nos vimos. No entanto, em parceria com os ditos bispos, travamos o bom combate. Diversas vezes na Academia do Peixe Frito notadamente durante o Centenário de nascimento de Dalcídio Jurandir (2009) e no Fórum Social Mundial (FSM) de Belém no mesmo ano, Neuton revelava a visão do interlocutor que ainda falta a Amazônia paraense. Em Cachoeira conversando no Museu do Marajó ele me disse que o último bastião da tradicional cultura paraense está na ilha. A recolonização do Pará vai a galope.

No entanto, saiu da exposição do Museu do Marajó em Santa Cruz do Arari de 7 de Setembro de 2003 - retorno simbólico de Giovanni Gallo - ao lago Arari onde começou sua odisseia. A Carta do lago Arari à Presidência da República, assinada na Câmara Municipal de Santa Cruz do Arari, pedindo proteção da União ao patrimônio arqueológico marajoara. Em resposta, o superintendente do IPHAN no Pará foi a Cachoeira do Arari e fez entrega de alguns equipaentos ao Museu do Marajó. Sempre longe do ideal necessário, mas alguma coisa para estabelecer contato que falta em mais de 350 anos de história, desde o acordo de paz entre o Padre Antonio Vieira e os sete caciques nheengaíbas do Marajó, no rio Mapuá, em 27 de agosto de 1569.

Pois, justamente, quando a força-tarefa do projeto Nossa Várzea de regularização fundiária foi organizada na SPU/Pará para atuar no Marajó, Neuton mandou me convidar para conversar com a equipe a respeito dos usos e costumes da comunidade marajoara. Devo confessar que em 43 anos de serviço público nunca vi coisa parecida. A Criaturada grande de Dalcídio pairava em nossas conversar e a Academia do Peixe Frito era oportundidade para refletir sobre a universidade da maré. Neuton dizia-me que os cabocos ribeirinhos devem ser considerados uma etnia a par de indígenas e quilombolas dentre as comunidades tradicionais.



REGISTRO DA APF NO PATRIMÔNIO CULTURAL IMATERIAL DE BELÉM DO PARÁ. 


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Hotel Ver O Peso -  em cujo restaurante com mirante para baía do Guajará ocorreram as reuniões mensais da nova Academia do Ver O Peso.



PREFEITO VETA PROJETO DA CÂMARA CONSIDERANDO ACADEMIA DO PEIXE FRITO PATRIMÔNIO CULTURAL IMATERIAL DE BELÉM

Exmo. Sr.

Vereador PAULO QUEIROZ

DD. Presidente da Câmara Municipal de Belém

e demais Ilustres Vereadores.


Senhor Presidente,

Senhores Vereadores,


Tenho a honra de me dirigir a V. Exa. e aos demais integrantes desse
Egrégio Poder Legislativo, para comunicar que decidi vetar, integralmente, com fundamento nos arts. 78, § 1º, e 94, inc. VI, da Lei Orgânica do Município de Belém, o Projeto de Lei nº 017, de 27

de junho de 2013, de autoria do Vereador Iran Moraes, que “Reconhece a manifestação popular gastronômica “Academia do peixe frito” como patrimônio imaterial da cidade de Belém, Considerando-a uma das referências culturais de memória do Ver-O-Peso e dá outras
providências.”


Ao analisar a proposição, evidenciamos que, à primeira vista, seu
objeto seria de interesse público. Ocorre que o reconhecimento da manifestação popular gastronômica “Academia do

Peixe Frito” como bem imaterial por meio de lei, em especial na forma
como preconiza o art. 1º da proposta, viola os pressupostos legais adotados pelalegislação que trata da proteção ao patrimônio cultural do Município.


De outra parte, o aludido Projeto se imiscui em aspectos da seara do
Poder Executivo, uma vez que implicará a fixação de novos serviços, o que ofende diretamente o disposto nos art. 75, inc. V, da Lei Orgânica do Município de Belém, senão vejamos:
“São de iniciativa privativa do Prefeito as leis que disponham sobre (....) V- matéria tributária, abertura de crédito,
fixação dos serviços públicos e aumento de despesa pública.”
(grifos nossos)


É cediço que qualquer serviço público só poderá ser instituído
por lei de iniciativa do Chefe do Executivo. Ou
seja, o projeto de lei em comento apresenta vício formal subjetivo,
inobservância do devido processo legislativo na fase de iniciativa, uma vez que matéria que fixe serviços 
pode ter processo legislativo deflagrado pelo Chefe do Executivo
Municipal.


Sobre o assunto, vejamos os ensinamentos do constitucionalista Alexandre de Moraes, (In Direito Constitucional, 13ª edição, São Paulo, Atlas, 2003, pp. 531 e 532.):


“Assim, supondo que um projeto de lei de iniciativa exclusiva do Chefe do Poder executivo tenha sido apresentado por um parlamentar, discutido e aprovado pelo Congresso Nacional,
quando remetido à deliberação executiva, a eventual aquiescência
do Presidente da República, por meio da sanção, estaria suprindo o inicial vício

formal de constitucionalidade? 

Acreditamos não ser possível suprir o vício de iniciativa com a
sanção, pois tal vício macula de nulidade toda a formação da lei, não podendo ser convalidado pela futura sanção presidencial. 


A súmula 5 do Supremo Tribunal Federal,(“A sanção do projeto
supre a falta de iniciativa do Poder Executivo”) que previa posicionamento diverso, foi abandonada em 1974,
no julgamento da Representação nº 890-GB, permanecendo,
atualmente, a posição do STF pela impossibilidade de convalidação, ou seja, a sanção não supre a falta de iniciativa. (...)”


No mesmo sentido, sobre a impossibilidade de se convalidar o vicio de
iniciativa por meio de sanção do Chefe do Poder Executivo, o Supremo Tribunal Federal, manifestou-se da seguinte forma:


“O desrespeito à prerrogativa de iniciar o processo de positivação do
direito, gerado pela usurpação de poder sujeito à clausula de reserva, traduz vício jurídico de gravidade inquestionável,
cuja ocorrência reflete típica hipótese de inconstitucionalidade
formal, apta a infirmar, de modo irremissível, a própria integridade do ato legislativo eventualmente
editado.” (STF, Pleno, Adin nº 1391-2/SP, Rel. Ministro Celso de Mello, Diário de Justiça, Seção I, 28 nov 1997, p.62.216, apud Alexandre de Moraes, Constituição do Brasil interpretada
e legislação constitucional, São Paulo, Atlas, 2002, p. 098.)


Assim, diante dos argumentos esposados e da flagrante contrariedade a preceitos constitucionais, somos levados a concluir pela aposição de veto integral ao projeto de lei em comento.


Isto posto, lanço mão da prerrogativa do art. 78, § 1º, da Lei
Orgânica Municipal, e da competência conferida a minha pessoa pelo art. 94, inc. VI, do mesmo diploma legal, para vetar
integralmente o Projeto de Lei nº 017, de 27 de junho de 2013. 


Na certeza, pois, de haver cumprido com o meu dever, aproveito a
oportunidade para renovar a Vv. Exas. protestos de elevada consideração e distinguido apreço.


Palácio Antonio Lemos, em 12 de agosto de 2013

ZENALDO COUTINHO RODRIGUES JUNIOR

Prefeito Municipal de Belém


POR 21 VOTOS A FAVOR E 1 CONTRA, CÂMARA MUNICIPAL DE BELÉM DERRUBA VETO E DÁ TÍTULO DE PATRIMÔNIO CULTURAL IMATERIAL DO MUNICÍPIO À ACADEMIA DO PEIXE FRITO.



Na sessão ordinária desta segunda-feira, os vereadores votaram contra o veto da prefeitura de Belém e deram o título de Patrimônio Imaterial de Belém à “Academia do Peixe Frito”.
Antes da votação, o vereador Iran Moraes, que propôs o projeto, subiu na tribuna e pediu a derrubada do veto, argumentando que a academia “é a reunião dos poetas, escritores e de toda a manifestação cultural que se reúne há muitos anos, durante o horário do almoço, no mercado do ver-o-peso. Bruno Menezes é um dos que frequentavam a Academia do Peixe Frito. Dar à academia esse titulo é homenagear a cultura da nossa cidade”.
Na votação, 21 vereadores disseram “não” ao veto e apenas um vereador votou “sim” para a continuidade do veto.

APF TEM DIA DE ALFREDO E CIRCUITO DE TURISMO LITERÁRIO NO VER O PESO.


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Evento interinstitucional da Universidade da Amazônia (UNAMA), por meio do Programa de Pós-Graduação em Comunicação, Linguagens e Cultura (PPGCLC) e da Faculdade de Comunicação (FACOM), da Universidade Federal do Pará (UFPA), aconteceu na quarta-feira (22/11/2017) a "I Fritação do Peixe", painel de estudos do projeto de pesquisa Academia do Peixe Frito - Interfaces entre Literatura e Jornalismo.

No sábado, 18 de novembro de 2017, o grupo universitário percorreu a Trilha Literária pelo centro de Belém. O projeto Academia do Peixe Frito pretende desvelar o movimento intelectual paraense, nas décadas de 1930 e 1940, através de pesquisas dos alunos de graduação, mestrado e doutorado das referidas universidades. O estudo baseia-se nas produções de jornais e publicações literárias dos acadêmicos Bruno de Menezes, De Campos Ribeiro, Tó Teixeira, Jacques Flores e Dalcídio Jurandir, entre outros que se mostraram sensibilizados com a transformação da cidade de Belém do Pará e sua periferia urbana.

O tema do diálogo entre Literatura e Jornalismo, proposto pelo coordenador do projeto, professor Paulo Nunes; é "Um olho no peixe e outro na frigideira", a fim de abrir o evento. O projeto Academia do Peixe Frito levou alunos da UNAMA e UFPA, no sábado (18), a percorrer a Trilha Literária pelo centro histórico de Belém. Caminho outrora percorrido pelos integrantes da Academia do Peixe Ffrito, jornalistas e escritores que se reuniam costumeiramente - numa atitude de contra-cultura inspirada na primeira geração de modernistas -, na feira do Ver O Peso para troca de suas narrativas e degustar o tradicional peixe frito ao azeite de patauá, vendido na beira do rio. 

A caminhada foi aberta a alunos da UNAMA e UFPA em geral, com início do percursos no complexo Feliz Lusitânia, na Cidade Velha, contando sete paradas escolhidas como cenário para leitura de trechos de principais obras dos autores estudados, como Chove nos campos de Cachoeira, de Dalcidio Jurandir, na perspectiva do olhar do personagem Alfredo a respeito da cidade de Belém. O ponto alto dessa jornada foi o encontro do comerciante mais antigo em atuação na feira do Ver O Peso, Odemir Barriga, testemunha da época de 40 da Academia do Peixe Frito, principalmente da festividade de São Benedito.

fonte:  / Alcione Nascimento, terça-feira, 21/11/2017 (copiado via Google).

PROJETO ECO-MUSEU ACADEMIA DO PEIXE FRITO. 
Bruno de Menezes, (Belém, 21 de março de 1893 — Manaus, 2 de julho de 1963)

aos Amigos da ACADEMIA DO PEIXE FRITO

quinta-feira, 15 de maio de 2014



Seis anos se passaram do Centenário de nascimento de Dalcídio Jurandir (2009), quando no ano anterior foi relançada a "Academia do Peixe Frito" então em "recesso" há mais de 40 anos desde a morte de Bruno de Menezes, ocorrida em Manaus no ano de 1963. 

Significa dizer que a nova APF completa, no ano corrente, sete anos de atividades: tempo de assumir formato mais consistente. Sobretudo, face aos próximos festejos dos 400 anos da cidade de Belém do Pará e ao processo de revitalização do Ver O Peso com seu respectivo reconhecimento nacional e internacional em curso.

Eis o crucial desafio que se nos impõe neste exato momento: 

após os ditos sete anos (2008-2014), enrolar a bandeira memorial de São Benedito da Praia e entregar ao ostracismo a memória dos modernistas do Pará, seguidores amazônidas do proclama da Semana de Arte Moderna (1922) de São Paulo; como esteve de fato durante quatro décadas até o despertar do Centenário de Dalcídio Jurandir. 

Ou bem, convocar novos voluntários à causa do patrimônio histórico paraense e avançar de tal modo com a consolidação do centro de memória de Bruno, Tó Teixeira, Eneida, Abguar Bastos, Rodrigues Pinajé, Dalcídio, Adalcina Camarão, Jacques Flores, Vicente Salles e muitos outros que a lembrança já nos foge; com tudo que a obra e a vida de cada um representa para identidade cultural da brava gente paraense.

Tal renascimento, correspondente a um kuarup da cultura imaterial da velha confraria do Peixe Frito, caminhar como um aríete com a imagem do cacique Guaimiaba (“cabelo de velha) abatendo muralhas sociais e políticas invisíveis dentro do processo geral de revitalização do Ver O Peso.

Isto sim, há de ser garantia de que a identidade e participação da "Criaturada grande de Dalcídio" nunca será apartada de seu principal lugar de memória na história do Pará: a Campina e a Cidade Velha, bairros tombados pelo IPHAN tendo com o Ver O Peso relação umbilical, que terão nesta confraria uma janela permanentemente aberta sobre a baía e ilhas do Guajará levando a paisagem cultural mais longe, no rumo do Marajó e do Caribe. Fronteira das culturas reivindicando o tempo pré-colombiano da nossa história completa e não só um pedaço mal contado dela.

Claro, um pensamento descolonial. Queremos, simbolicamente, restabelecer a aldeia de "Mairy" na Cidade Velha - apagada lembrança da participação da França Equinocial na invenção da Amazônia latina -, com a ancestralidade da terra Tapuia e recolocar o guerreiro Tupinambá no forte do Presépio ao lado do valente soldado português desconhecido. 

Refazer o impossível acordo de paz dos Nheengaíbas em Mapuá (Breves), dando cabo a 40 anos de guerra entre as duas margens do Pará: com que, por si só, a ancestral Cultura Marajoara terá lugar de honra nas festas dos 400 anos já de Belém da Amazônia, avenir da capital do Pará. 

Sem a indispensável participação de nossos antepassados "negros da terra" e "negros da Guiné" não haveria 400 anos de Belém pra ninguém!.. É disto que se trata, além de comer peixe frito ao azeite de patauá com pirão de açaí, naturalmente...

A informalidade da confraria de amigos deve, doravante, ser substituída por entidade jurídica e administrativamente constituída para, de uma parte ser zeladora do patrimônio cultural imaterial daquela confraria de amigos dos anos 30, no século vinte, e de outra corresponder aos dias atuais do centro histórico de Belém tendo no Ver O Peso sua república. 

OBJETIVOS DA SOCIEDADE DE AMIGOS

Artigo 1º - Sociedade Amigos da Academia do Peixe Frito, designada pela sigla S.A.PEIXEFRITO, fundada em 12 de janeiro de 2014, é uma associação sem fins lucrativo, com duração por tempo indeterminado, sede provisória à Travessa 14 de Março, número 677, bairro do Umarizal, na cidade de Belém, Estado do Pará. 
 
Artigo 2º - A Sociedade tem por finalidade conduzir interesses da comunidade na curadoria e conservação da denominada ACADEMIA DO PEIXE FRITO zelando para obtenção e promoção de seu registro no patrimônio cultural imaterial do Município de Belém, Pará; tendo em vista a memória do movimento modernista amazônida dos anos 30 em torno da revista cultural “Belém Nova”, sob liderança do poeta Bruno de Menezes; providenciando correspondentes meios administrativos, técnicos e culturais para bom uso do supracitado bem patrimonial pela comunidade, dentro das normas deste Estatuto e seguintes diretrizes: 
 
    I – Pleitear, junto a entidades ou autoridades, sempre que necessário, a devida locação e conservação de imóvel para funcionamento da S.A.PEIXEFRITO em seu mister de mantenedora da ACADEMIA DO PEIXE FRITO; 
 
    II – Obter de pessoas físicas e jurídicas doação de documentos que completem ou enriqueçam o acervo da Sociedade, desde que esta aprove, previamente e por escrito, a aquisição de modo que esta entidade funcione como centro de memória e ecomuseu do Ver O Peso na paisagem cultural do Guajará; 
 
    III – Obter, de pessoas físicas ou jurídicas, donativos para formar fundo especial destinado à plena realização dos seus objetivos, inclusive atividades educativas e socioambientais voltadas para feirantes, trabalhadores e usuários do espaço socioambiental e cultural do Ver O Peso; 

    IV – Firmar convênios com pessoas jurídicas de direito público e de direito privado levando em contas os objetivos deste estatuto; 
   
      V – Apoiar atividades educativas, científico-culturais e socioambientais da S.A.PEIXEFRITO; 
 

    VI – Prestigiar entidades parceiras e atividades afins nos pedidos que lhe forem formulados. 


AGENDA 2014


I - CONVOCAR assembleia geral para discussão e aprovação dos Estatutos da confraria; 

II - providenciar eleição da diretoria tendo como prioridade tratativas junto ao governo municipal para reconhecimento da "Academia do Peixe Frito", nos termos supracitados, no patrimônio cultural imaterial da cidade de Belém;


III - prestar apoio a projeto de lei, em tramitação na Câmara Municipal de Belém, dotando o Solar da Beira de um "Centro de Cultura Ribeirinha da Amazônia", como referência para o Centro Histórico e seu entorno insular;

IV - junto ao Solar da Beira ou, alternativamente, noutro imóvel do complexo do Ver O Peso servindo somente como suporte de gerenciamento do espaço natural e paisagem cultural, criar o "Ecomuseu do Guajará", contemplando o Ver O Peso e ilhas do arquipélago do Guajará em participação da rede de centros de memória e pontos de cultura;

V - procurar manter a comunidade informada a respeito do processo de indicação do Ver O Peso à categoria de paisagem cultural brasileira (IPHAN) e patrimônio mundial da UNESCO: seus resultados quaisquer que eles sejam devem mobilizar a comunidade no sentido de promover informação sobre procedimentos recomendados tanto pelo IPHAN quanto pela UNESCO, para empoderamento dos espaços de memória pela população concernente;

VI - com tal disposição a S.A.PEIXEFRITO, considerando a importância do turismo literário como instrumento de formação da hospitalidade para atividades turísticas de extensão educativa dentre outras, deverá assumir liderança para adoção, pela sociedade e instituições; do proposto DIA DE ALFREDO (16 DE JUNHO) correspondente à data da morte do escritor Dalcídio Jurandir e coincidência do Bloom's Day, na Irlanda, referência internacional do romance Ulisses, de James Joyce, em turismo literário;

VII - no bojo do turismo literário supra, promover a cultura alimentar tradicional paraense como elemento de geração de emprego e renda na agricultura familiar, conforme recomendações da FAO; integrada à cadeia produtiva do turismo com base na comunidade;

VIII - a fim de realizar seu objetivos consoante seus estatutos e regimento a confraria adotará programa de voluntariado e extensão denominado Universidade da Maré criando, para isto, plataforma de marketing e comunicação aberta ao público;

IX - A S.A.PEIXEFRITO dará especial apoio a campanhas de erradicação do Analfabetismo, sobretudo entre populações ribeirinhas, quilombolas e comunidades de pesca artesanal, colaborando para advento duma educação ribeirinha de excelência no escopo da educação regional e nacional;

X - por consequência, a confraria dará prioridade em suas atividades à difusão do livro de autores associados a mesma e buscará meios e parcerias para tradução da obra de Bruno de Menezes, Dalcidio Jurandir e mais membros da antiga APF, assim que de seus homólogos estrangeiros contribuindo a maior compreensão comparativa do pensamento cultural da primeira metade do século passado e sua evolução socioambiental até os nossos dias.
APF E AGENDA 2030 DOS ODS.

Em conclusão, com pensamento da nova museologia em mente podemos concordar com Hugues de Varine sobre a impossibilidade de conservar integralmente o patrimônio material. Porém, através da memória ainda se pode conservar sobretudo o patrimônio cultural imaterial: esta herança maior que se pode deixar ao futuro da capital do Pará, paradiando Henri Coudreau e relembrando a expressão geográfica de Belém no conceito de Eidorfe Moreira que animou, em parte, a criação do Ecomuseu da Amazônia.


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