terça-feira, 16 de janeiro de 2018

UNIVERSIDADE DA MARÉ MESTRE VERGARA.

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WALDEMAR LONDRES VERGARA FILHOA (1958-2018).




Conheci Vergara nas reuniões do Grupo em Defesa do Marajó (GDM) a respeito da implementação da Reserva Extrativista de Soure. Ele estava no Centro Nacional de Populações Tradicionais (CNPT) / IBAMA. Foi imediatamente adotado pelo GDM. Agora tenho consciência de que aquele encontro contribuiu a sua naturalização paraense sem nenhuma contradição com seu nascimento e formação paraibana. Afinal de contas, como o grande Eidorfe Moreira e tantos outros, Vergara foi um perfeito sumano paraparaibano

Vergara foi para mim um dos poucos a frequentar minha casa, dar-me a honra de compartilhar a mesa, ser amigo de minha mulher e irmão dos meus filhos. Suas composições musicais em parceria com o Moa e Rodolfo doravante tem um som especial, letras que levam longe o pensamento da gente por mares nunca dantes. Saudade é pouco.

Ideia dele a "criação" da virtual universidade da maré; a sugestão da escolinha que não saiu (ainda) "jardim do mangue", o ecomuseu memorial Mestre Lucindo, que está em gestação lá pras bandas de Marapanim... O sumano Vergara, nas lembranças da academia do peixe frito, ficou sendo da mesma linhagem de um Bruno de Menezes, Dalcídio Jurandir com a Criaturada grande, padre Giovanni Gallo e o museu do Marajó; meu eterno camarada Neuton Miranda no encontro dos povos das águas dentro do Fórum Social Mundial, Manumoa e seu violão a cantar "Saga dos Tupinambás" e o pessoal das resex lotando o auditório do Convento dos Mercedários: prova de que a Cabanagem não morreu. Não foi coisa atoa, não. 

Em Bragança, encontro nacional de reservas extrativistas, lá estávamos juntos outra vez Vergara, Neuton, Rodolfo, Lélio e eu... Antes na ilha da Trambioca (Barcarena), em reunião com a comunidade vimos o que é um caraíba quando invoca a ancestralidade da Criaturada que nem o tremendão tupinambá... E pelas ondas da rádio comunitária Itaguari? Tenho eu impressão que os sumanos ouvintes nunca haviam dantes escutado uma fala semelhante que cala fundo nos sentimentos do povão. Vergara falava quase sempre com a alma e o coração. Daí a comunicação instantânea com a gente.

para sempre Viva Vergara!

"A gente não morre. Fica encantado." Guimarães Rosa. 



quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

A VEZ E A HORA DO MUSEU DO MARAJÓ NA REDE DE ECOMUSEUS E MUSEUS COMUNITÁRIOS.

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Giovanni Gallo (Turim, 1927 - Belém do Pará, 2003), padre jesuíta italiano missionário na diocese de Ponta de Pedras, na ilha do Marajó: criador avant la lettre do primeiro ecomuseu brasileiro. Naturalizou-se caboco marajoara e conquistou merecidamente a naturalidade brasileira. Doravante, descoberto pelo museólogo francês Hugues de Verine, fundador do conceito de ecomuseu, tem toda possibilidade de virar estrela da rede internacional de ecomuseus e museus comunitários e atrativo do ecoturismo de base na comunidade na Amazônia. A Criaturada grande de Dalcídio agradece. 




Aos 109 anos do nascimento de Dalcídio Jurandir (1909-1979),
na Vila de Ponta de Pedras, ilha do Marajó, no dia 10 de Janeiro de 1909.


Analfabeto político, até então um perfeito 'caboclo' andava eu em montaria a remo quando, de volta de viagem ao venerável lago Arari (1956); o 'impaludismo' me derrubou mais uma vez... Tratado inicialmente em casa de tia Armentina, em Belém, atravessei a baía em igarité e fui me restabelecer na casa de minha avó Sophia. Esta uma mais a tia Lodica, entre rezas, remédios caseiros e banhos de erva pra sentar juízo, me receitou a leitura do livro escrito pelo tio Dalcídio, primeira edição do romance Marajó. Minha leitura incipiente, mas fui em frente e assim me caíram as "escamas dos olhos": sem carecer ir a Damasco, paresque que nem o fariseu Saulo de Tarso para detonar aqueles crentes do primitivo comunismo cristão. 

Ai Jesus! Aí, já com a "Criaturada grande de Dalcídio" na cabeça; larguei remo, canoa e marretagem no Ver O Peso e fui ser estudante profissional na cidade grande de Belém do Grão-Pará: diacho! Peguei o bonde errado e quando dei fé me vi enredado numa mocidade desguiada entre velhos galinhas verdes. Égua! O que me salvou foi o bom companheiro Donato Cardoso, da Vigia, que me apresentou ao Claúdio de Sá Leal e este foi com a minha cara fazendo de mim um foca de reportagem do novato Jornal do Dia. Então, o repórter marajoara noviço houve oportunidade de desembarcar do bonde integralista - expulso como "perigoso agente do comunismo internacional -, e pegar o trem vermelho da Reforma Agrária, com o maquinista Benedicto Monteiro na locomotiva, rumo à estação rural de Igarapé-Açu. Voltei no Maria Fumaça camarada do PCB, sempre com Dalcídio na cachola e o Marajó velho de guerra de minha avó tapuia no coração... Ora, se isto não for revolução eu não me chamo mais Zé Varela!

Foi armado assim, que nem aruã entocado em priscas datas; que atravessei os anos de chumbo da Ditadura de 1964, em pele de burocrata "macacovélico" lá nas lonjuras extremas de Faro algumas léguas abaixo da lagoa Espelho da Lua, onde antigamente - diz-que -, as icamiabas faziam muiraquitãs para dar aos amantes ocasionais em seus lendários jogos de amor.... Na terrinha querida de Ponta de Pedras, fui secretário da prefeitura e aproveitei pra botar as manguinhas de fora inaugurando sob direção do grande prefeito marajoara Antonico Malato, em todo estado do Pará, acredito até que na Amazônia inteira, o primeiro orçamento municipal participativo. E ainda arranjei um tempinho para alfabetizar uns poucos cabocos com a cartilha vap-vupt do educador Paulo Freire. 

Não é brincadeira... Quando acaba, voltaram antigas febres, fadiga, depressão, síndrome de pânico: mais uma vez tia Armentina, minha segunda mãe; deu-me a mão, nos fins de 1967 e no ano do AI-5 de 1968 eu estava no bagaço... Aprendiz de pajé reprovado por falta de fé, fiz psicanálise por conta própria, consultei seara de Umbanda, tomei banhos de descarrego e fiz defumações, virei zen-bubuia. Me levantei um pouquinho em 1970, peguei estrada Belém-Brasília, desembarquei na Rodoviária de Brasília entre candangos desempregados, uma mão na frente e outra atrás; sem nem certificado de curso primário, embora em terra de cego eu já tivesse sido rei, repórter policial, secretário municipal etecetera e tal.

Mais um migrante na Capital Federal vindo do Norte sem sorte, mas desta vez os caruanas tiveram dó de mim e conspiraram a favor do caboco do Marajó-Açu. Ressuscitei e fiz curso de Madureza, passei de primeira nos exames de I e II graus do Colégio Elefante Branco, sem descanso, aproveitei o embalo e fui aprovado no curso vestibular de direito da Universidade do Distrito Federal, logo auxiliar administrativo da estatal Companhia Brasileira de Alimentos (COBAL), enfim servidor concursado do Itamaraty... Foi assim que o caboquinho empambado se aprumou na vida.

Quando o sol da democracia raiou (1988), o outrora "moleque comunista" do Itaguari estava Vice-Cônsul do Brasil em Caiena, ocupado em defender emigrantes brasileiros "clandestinos"... Foi do outro lado da fronteira do Oiapoque que vi de perto o "inferninho do contrabando" na outra margem do Amapá e Marajó velho de guerra, que, no Jornal do Dia com Angelo Giusti na chefia de reportagem, quase todo dia descrevíamos. Hoje sou muito grato a Guiana francesa pelo meu alto curso de amazonidade. Só lamento não ter conhecido antes Giovanni Gallo e Hugues de Verine, bem como o criador do Museu do Marajó e o fundador do conceito de ecomuseu não terem eles tido notícias um do outro naqueles amanhecentes tempos dos anos 70, quando o padre de Jenipapo e Santa Cruz do Arari fazia reportagens semanais e a fiel correspondente de Dalcídio, Maria de Belém Menezes, fazia recortes de jornais para informar o escritor marajoara no distante Rio de Janeiro. Sugestão de tema de pesquisa do interessantíssimo Repórter 70, do baratista O Liberal, vencedor da guerra midiática paraense com a temida Folha do Norte.

Em 1990 regressei de Caiena para Belém retornando também à Comissão de Limites onde eu estivera lotado entre 1974 até 1980, vindo de Brasília e voltando a Capital Federal. Aposentei-me do serviço público no dia da queda da Bastilha, 14/07/1998: 25 anos na Casa do Barão do Rio Branco a bom aturar gente com o rei na barriga, felizmente recompensado de uns poucos sinceros amigos, colegas e chefes de excelente condição humana.

Depois disso tudo, tendo tido merecendência de voltar a servir a minha terra de Ponta de Pedras, de 1994 e 1996, emprestado pelo Ministério das Relações Exteriores (MRE), sem ônus para o município; militei a par do impávido mestre Camillo Martins Vianna e inventamos juntos com outros ajuricabanos o incrível exército brancaleone chamado Grupo em Defesa do Marajó (GDM), na Pro-Reitoria de Extensão, da Universidade Federal.


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Dalcídio Jurandir (Ponta de Pedras, 10/01/1909 - Rio de Janeiro, 16/06/1979),
incentivador de Giovanni Gallo a fim de publicar o livro "Marajó, a ditadura da água". 



Belém do Grão-Pará - Aldeia Marambaia, 10 de Janeiro de 2018



Meu Querido tio Dal, 



Escrevo-lhe estas mal traçadas linhas, para dizer muito obrigado por tudo que o senhor fez por mim e pelos meus na grande família da Criaturada grande. Aqui na terra, nós não vamos melhor por que não nos deixam. Masporém, de qualquer maneira a gente vai levando como Deus quer e o Diabo gosta. 


Eu quero lhe agradecer, sobretudo, a resposta da carta que lhe mandei com o
palimpsesto que tio Rita, bondosamente como sempre, foi portador. Desculpe-me o texto
quase apagado que submeteu à prova a paciência do ilustre leitor com óculos
pouco aumentativos... Mesmo assim o senhor foi em frente e decifrou o dito cujo textão do parente.

Obrigado meu Mestre, afinal o romance dos tijucos não saiu. Em compensação,
eu virei blogueiro assíduo nesta coisa nova chamada internet, para dar testemunho do homem, aqui, largado em plena maré.

Até um dia, quando iremos nos encontrar na infinita Terra sem Mal dos ancestrais.


saudações Marajoaras do seu sobrinho, Zeca.



Claro que o caboco que vos fala, com um curriculum deste; não podia passar sem a Academia do Peixe Frito. A ocasião foi oferecida pela Câmara Municipal de Cachoeira do Arari, que criou a Comissão do Centenário de Nascimento de Dalcídio Jurandir (10/01/2009). Iniciativa de Albertinho Leão que veio a Belém propor que os mais municípios que desejassem participar se reunissem na Capital. Assim foi feito, todas primeiras sextas-feiras do mês no restaurante do Hotel Ver O Peso, retomando a tradição da confraria criada por Bruno de Menezes na década de 1930



"Quem não tiver falhado ou errado nesta história, que atire o primeiro 'caco de índio" ou a primeira ponta de pedra. A Criaturada grande de Dalcídio querendo paz." -- José Marajó Varela



por causa do extinto Grupo em Defesa do Marajó (GDM), Adenauer Góes, Secretário de Estado de Turismo (SETUR), colabora como pode para inserir a Criaturada de Dalcídio 
no desenvolvimento socioambiental do Pará, através de Cachoeira do Arari, Ponta de Pedras, Salvaterra e Soure como municípios turísticos do Polo Marajó.

domingo, 7 de janeiro de 2018

ODISSEIA MARAJOARA: RETORNO DO HOMEM DO PACOVAL AO PAÍS NATAL.



capa de livro de Raimundo Morais, escritor paraense da Societé des Americanistes de Paris, autor da célebre obra "O Homem do Pacoval" (1939) sobre a Arte Cerâmica Marajoara datada do ano 400, aproximadamente, achada pela primeira vez no teso do Pacoval do rio Arari, em 20 de novembro de 1756. 

Raimundo Morais nasceu em Belém do Pará em 15 de setembro de 1872 e faleceu na mesma cidade em 3 de fevereiro de 1941. Ele poderia ser lembrado, em razão de sua obra de divulgação, patrono de campanha para repatriamento da cerâmica marajoara: isto a cabo de um longo processo. Hoje em esquecimento e longe do razoável para recepção pelo público, sobretudo, por que se fosse simplesmente para trazê-la de volta ao Brasil por patriotismo e não levar no Marajó, donde foi tirada entre chuvas e esquecimento desde o século XIX, empregando-a no desenvolvimento sustentável da "Criaturada grande de Dalcídio", melhor será deixar lá onde está em ostracismo guardada e conservada no exílio.


Porém, se for para despertar o maltratado povo marajoara, é melhor começar logo a fazer barulho. Reconhecer como Reserva da Biosfera a Área de Proteção Ambiental do Arquipélago do Marajó. Declarar a Arte Marajoara patrimônio imaterial brasileiro, com a data de 20 de Novembro do achado do sítio arqueológico do Pacoval pelo fundador da Vila da Cachoeira do rio Arari sendo o DIA NACIONAL DA CULTURA MARAJOARA. Organizar rede de ecomuseus e museus comunitários para instruir e informar a gente a respeito do conjunto de obras de Raimundo Morais, Dalcídio Jurandir, Giovanni Gallo e outros defensores e divulgadores do nosso ancestral Marajó a fim de preparar o retorno de seu patrimônio exilado.

A hora é esta, enquanto a UNESCO se inclina a favorecer o repatriamento de acervos e a França adota abertura neste sentido: amanhã poderá ser tarde e os grandes museus de primeiro mundo arrependerem-se da boa ação com o terceiro mundo para nunca mais mudar.


"O Sr. Raymundo Moraes (…) conseguiu, de um ponto remoto da selva amazônica, impor-se ao país inteiro”. (Humberto de Campos).


BASES PARA UMA DEMANDA POPULAR EM FAVOR DO REPATRIAMENTO DO PATRIMÔNIO ARQUEOLÓGICO MARAJOARA.


O primeiro Centenário da Independência do Brasil foi festejado com a chegada do Modernismo: em 1922 estalou o Tenentismo e a Semana de Arte Moderna de São Paulo, oito anos mais tarde a Revolução de 1930, começava finalmente a descolonização do extinto Império do Brazil. Na Amazônia, o movimento nacionalista vinha a bordo dos navios da Costeira... Belém do Pará e Manaus dormiam ainda o sono da Belle Époque e reclamavam dos vândalos e iconoclastas da Academia do Peixe Frito; mais tarde, das peraltices literárias do Clube da Madrugada também.

Nos anos 30, não era comum escritor brasileiro diletante - ainda mais fora do eixo Rio de Janeiro e São Paulo -, fazer parte da célebre Société des Américanistes de Paris. Prestigiosa academia francesa de estudos americanos. A Amazônia estava na ordem do dia graças ao ciclo econômico da borracha e o florescimento da belle époque em Belém do Grão-Pará e Manaus, influenciadas pela moda Paris n'América.

Sem a invenção da Amazônia por força de sua própria gente e da utopia da Terra sem Males tupinambá impregnada ao inconsciente coletivos de nossas populações nativas; o Brasil ficaria para sempre "caranguejando" pelo litoral: foi a navegação interior do São Francisco, a conquista do Grão-Pará e a penetração da Bacia do Prata, que juntas conquistaram o coração do continente e desembocaram na aventura sem par da construção de Brasília. Mas o Distrito Federal carece ainda ser ocupado pela brava gente brasileira sob signo das águas profundas do Rio-Mar, do São Francisco e do Rio da Prata, remontando as Águas Emendadas, as quais por terras, mares e ares levam o gigante Brasil ao vasto mundo.

Em parte, o regime das águas e ventos do Mar-Oceano determinaram as duas colônias portuguesas na América - o Estado do Brasil e o Estado do Maranhão e Grão-Pará -, aquilo que a prazo deu azo à belle époque amazônica. Não foi sem assim que a navegação do Amazonas confluiu com rios e portos da civilizada Europa. 

A criação da Sociedade dos Americanistas de Paris, por Ernest Théodore Hamy, a primeira do gênero, em 1895, irradiou-se no mundo inteiro com Paul Rivet, a partir de 1908. A indústria da borracha ia a todo vapor e a Sociedade dos americanistas franceses conquistou prestígio internacional através do Journal de la Societé des Américanistes. Por certo, Raymundo Morais cursou a universidade da maré a bordo do navio-gaiola Rei Lear singrando o Rio-Mar. Ainda jovem ele se tornou piloto prático de navegação fluvial nos rios Purus e Madeira. O gaiola em apreço, segundo a professora Célia Bassalo, na apresentação de “Os Igaraúnas” (1938), era um “antigo transatlântico, que na época transportava carvão em um afluente do Purus”. 

Que escola magnífica, na Amazônia das águas, para formação acadêmica de um ilustrado membro da Societé des Américaniste de Paris! Se ele já havia granjeado admiração do Presidente da República do Brasil e do país inteiro, a bordo de sua invejável universidade flutuante; logo chegaria a conquistar aplausos às margens do idolatrado Sena: quem sabe agora a navegar na memória rumo a 2030, nas águas aquecidas da Mudança climática - transformado em navio encantado - o gaiola Rei Lear, com Raymundo Morais ao timão; vá então aportar simbolicamente no Quai de Branly, junto ao Museu das Artes e Civilizações da África, Ásia, Oceania e Américas; a fim de repatriar à grande ilha do delta-estuário do gigantesco Amazonas, as peças de cerâmica marajoara que, no passado distante, fora confiada aos cuidados do Museu do Homem, como fiel depositário delas.

O escritor Raimundo Morais (Raymundo Joaquim Moraes), era filho do prático de navegação do rio Amazonas Miguel Quintiliano de Moraes e de Lucentina Martins Moraes. Ele concluiu apenas o curso primário, deixou a escola para seguir o pai, prático de navios no rio Madeira. Abeberou-se precocemente do fascínio e magia de navegar pelas artérias vivas da Hileia amazônica chegando a comandante de ‘gaiolas’. O amor pela leitura veio a par das viagens. Autodidata dotado de invulgar inteligência e sensibilidade, Raimundo Morais aliou conhecimento científico e literário passando a anotar e comentar sua experiência durante inúmeras viagens. 

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navio gaiola típico da navegação fluvial amazônica dos inícios do século XX.


A abertura do rio Amazonas à navegação internacional (1866) , com o Império do Brasil sob pressão da Inglaterra e Estados Unidos para entrar na guerra no Paraguai (1864-1870) e endividar-se no conflito sul-americano, foi contexto histórico de "descobrimento" da Amazônia pelo mundo industrial emergente. Assim abriram-se também sítios arqueológicos da ilha do Marajó à especulação e curiosidade estrangeira, como por exemplo a Exposição Universal de Chicago de 1893, aonde foram levadas cerâmicas marajoaras tiradas do teso do Pacoval, segundo a obra As Regiões Amazônicas, de José Coelho Gama e Abreu (Barão de Marajó). E mais coleções de que trata o importante livro Cultura Marajoara, de Denise Schaan: SENAC, São Paulo, 2010.

Iza Vanesa Pedroso de Freitas Guimarães, professora da Universidade Federal do Amapá (UNIFAP), mestre em História Social da Amazônia pela Universidade Federal do Pará (UFPA) e doutora em História da Universidade Federal Fluminense (UFF), nos faz conhecer melhor Raimundo Morais em sua trajetória de jornalista e escritor, iniciada em 1908 com Traços a Esmo e encerrada com Um Eleito das Graças, em 1941. Note-se que nosso escritor maior, Dalcídio Jurandir (Ponta de Pedras, 1909 - Rio de Janeiro, 1979), um ano mais novo que o autor de O Homem do Pacoval; começou sua carreira literária com Chove Nos Campos de Cachoeira lançado pela editora Vecchi no mesmo ano em que Raimundo Morais findou a carreira.

Raymundo Joaquim Moraes (seu nome de batismo) nasceu em Belém a 15 de setembro de 1872 e morreu em 3 de fevereiro de 1941 na mesma cidade. Tornou-se prático e depois comandante do navio “Rei Lear”, foi autodidata e autor de uma vasta obra. Iza Guimarães observa "surpreendente coincidência" entre o nome do gaiola que ele comandava e a vida do autor: a metáfora do “homem desacomodado” de William Shakespeare (1564-1616), na tragédia Rei Lear (1608). Iza Guimarães cita Marshall Berman (1986), na obra Tudo que é sólido se desmancha no ar, na qual ele analisa imagens da vida moderna presentes no Manifesto do Partido Comunista (1848), obra de Karl Marx (1818-1883) e Friderich Engels (1820-1895). Segundo o autor citado, uma dessas imagens é a “nudez” e sua dialética. O sentido da nudez em Marx, diz Iza Guimarães, está muito próximo do “homem desacomodado” de William Shakespeare, na obra Rei Lear (1608), que transcorre em torno da figura de um rei, o qual perde tudo. É desta maneira que a pesquisadora vê a tragédia do escritor.

A saga literária de Raimundo Moraes, na década de 1930, ampliou-se com a publicação de notas e artigos no jornal A Província do Pará e obras famosas como País das Pedras Verdes em 1930, Meu diccionario das cousas da Amazônia, em dois volumes, em 1931, Amphiteatro Amazônico e Ressuscitados em 1936, Alluvião, um ano depois em 1937, Os Igaraúnas em 1938, O Homem do Pacoval, Machado de Assis, À margem do livro de Agassiz e Histórias Silvestres do tempo em que animais e vegetais falavam na Amazônia em 1939, Cosmorama em 1940 e Um Eleito das Graças, em 1941, ano de sua morte.

Ele se reconhece "caboclo", o tipo social mais relevante da Amazônia, o vale amazônico é o “Paraíso Verde, fecundo, abundante, delicioso” (MORAIS, 2000: 111), critica “maus brasileiros”, os “viajantes pernósticos”, os “falsos naturalistas”, os “escritores escandalosos” (Ibid.) que caluniaram a região. Iza Guimarães avança: "Das Amazonas ao seringueiro e ao índio, do Paraíso Verde à Cidade de Far-west e à Atlântida, Raymundo Moraes, o flâneur da Planície afirma: “Os defuntos vão para a cova embarcados, embarcados vão os noivos, os padeiros, as procissões, os caçadores, os comerciantes, os trabalhadores, os eleitores, os namorados, os músicos. O rio é a rua” (MORAIS, 2000: 33). 

"O rio foi a rua de Raymundo Moraes por longos anos de sua vida como comandante do navio “Rei Lear” e mesmo depois de abandonar o ofício nos gaiolas e tornar-se escritor continuou a singrar os rios na Amazônia através de sua literatura. Na tentativa de definir a paisagem natural e cultural da região, Raymundo Moraes na primeira metade do século XX construiu os maiores símbolos da planície amazônica: a natureza e o caboclo". Ao finalizar Iza Guimarães, cita Martha Abreu (1998) no desafio de pensar o livro mais famoso de Alexandre José Mello Moraes Filho (1844-1919), na obra Festas e tradições populares do Brasil (1901), para ela “autor e obra não se encaixam em nenhum modelo, rótulo e definição estreita” (ABREU, 1998, p. 182). "Da mesma forma, nem a obra – Na Planície Amazônica (1926) nem o autor –  podem ser pensados como arquétipos fixos e estanques". Iza Guimarães faz prognóstico de que pensar a obra de Raimundo Moraes "só está no começo".  

Mas por que tudo isto agora? Para motivar uma reflexão que leve a um consenso visando repatriar a cerâmica marajoara existente em museus estrangeiros, constante relação na obra de Denise Schaan. Com uma séria advertência: começar a sensibilizar e conscientizar o público brasileiro através de redes sociais com a maior urgência e veemência.

Porém, não ter pressa nenhuma em remover donde se encontra o patrimônio que, se estivesse no mesmo lugar onde estava há mais de mil anos; hoje não haveria nem notícia! Consta que, em anos passados, o FBI apreendeu no estado do Texas peças de cerâmica marajoara e o governo dos Estados Unidos as teria devolvido ao Brasil através de canal diplomático. No país descoberto por Pedro Álvares Cabral não se soube aonde foram parar...  

Portanto, quando se aventa possibilidade de fazer voltar ao Marajó seu patrimônio cultural material, a primeira coisa a pensar é a criação de projeto de cooperação internacional, sob assistência da UNESCO e do IBRAM, aberto às instituições estrangeiras detentoras de cerâmica marajoara arqueológica. Mais importante que o repatriamento propriamente dito, será a criação na cidade de Cachoeira do Arari de uma extensão da Estação Científica Ferreira Penna (ECFO), do Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG); em parceria com o Museu do Marajó a fim de realizar amostras permanente e/ou temporárias abertas ao público dos municípios da mesorregião. 

Museu comunitário de vocação socioambiental, O Nosso Museu do Marajó deve ser conservado de acordo com o “testamento” de seu idealizador - que são seus livros. Eu mesmo, após a morte de Giovanni Gallo, cheguei a pensar na “federalização” do MDM como forma de evitar sua destruição e perda. O tempo se encarregou de mostrar que seria uma emenda pior que o soneto. E a comunidade de Cachoeira do Arari provou que pode dar conta do recado contanto que a iniciativa privada e o setor público façam sua parte. 

O círculo de amigos de Giovanni Gallo pode desde já sensibilizar parceiros no sentido da elaboração do projeto supracitado, contemplando o fortalecimento do museu comunitário e construção de estrutura do MPEG em Cachoeira do Arari vinculada à Reserva Técnica já existente naquela sede municipal. Oportunidade especial para a AGENDA 2030 dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS).

Graças a amigos franceses, notadamente Maurice André Gey que colaborou imensamente para vinda do antigo Ministro da Cultura Jack Lang a Marajó, em 2005; o Museu das Artes e Civilizações da África, Ásia, Oceania e Américas foi sensibilizado sobre oportunidade de intercâmbio contemplando, a longo prazo, possível repatriação.

Agora a surpresa do presidente francês, Emmanuel Macron, em sua turnê pela África Ocidental, declarando desejar "um retorno da herança africana para a África". Na Amazônia Marajoara, o “maior arquipélago fluviomarinho do mundo”, com território dez vezes maior e população mais que o tripulo de um país africano como São Tomé e Príncipe, por exemplo; não está na África, porém sua população afrodescendente será quase como a do país insular do golfo da Guiné.

O presidente Macron proferiu uma frase que dá esperança ao Benim depois de meses de negociações. "A herança africana (...) deve ser destacada em Paris, mas também em Dakar, Lagos, Cotonou", afirmou o presidente francês. O povo pobre do Marajó merece escutar iguais palavras vindas de Paris, declarando que a herança marajoara que lá se encontra deve ser mostrada na França, mas também no Brasil: especialmente em Belém do Pará seguindo para Afuá, Anajás, Bagre, Breves, Cachoeira do Arari, Chaves, Curralinho, Gurupá, Melgaço, Muaná, Ponta de Pedras, Portel, Salvaterra, Santa Cruz do Arari, São Sebastião da Boa Vista e Soure.

"Esta será uma das minhas prioridades. Nos próximos cinco anos, quero que as condições sejam reunidas para um retorno da herança africana à África", afirmou Emmanuel Macron. Pronunciado no final de seu discurso na Universidade de Ouagadougou, esta frase ressoou especialmente em Benin, cujo presidente Patrice Talon, em julho de 2016, fez um pedido oficial para retorno de parte do patrimônio de seu país.

O sonho do Gallo estaria concretizado. Ou, pelo menos, assim como Dalcídio em sua luta para despertar a consciência da Criaturada grande, esta gente teria certeza de que o mundo não a esqueceu.


MEMÓRIA DO PRIMEIRO ECOMUSEU BRASILEIRO: O NOSSO MUSEU DE SANTA CRUZ DO ARARI (1973-1983).


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Padre Giovanni tem em grande conta o cidadão do mundo, solitário, desamparado, que é o habitante de Jenipapo”. (Dalcídio Jurandir, in “Marajó, a ditadura da água”, Giovanni Gallo: 2ª ed. Edições “O Nosso Museu”, Santa Cruz do Arari - Pará, 1981).

Quantas vezes o casamento da necessidade com o acaso fez história? Naquele dia distante à margem do ancestral lago Arari, o “caboclo” Vadiquinho não havia ideia do que o padre Gallo poderia fazer com aqueles desprezíveis “cacos” (ver “Motivos Ornamentais da Cerâmica Marajoara”, Giovanni Gallo, 3ª ed. Edições O Museu do Marajó, Cachoeira do Arari, 2005), o povo em sua simplicidade chama aos fragmentos de cerâmica marajoara “cacos de índio”: um nome bem apropriado sob todos pontos de vista.

Com os tais “cacos” em mãos, Giovanni começou aquilo que viria a ser a obra definitiva de sua vida: um museu em um lugar inacreditável para as mentalidades de 30 anos atrás. Havia tempo que a cerâmica marajoara pré-colombiana era retirada para coleções de museus distantes, sem que os marajoaras tivessem noção do que isto representava para a humanidade e, principalmente, para os remanescentes dos antigos nativos do Marajó. Exatamente neste ponto crucial, o padre teimoso colocou o dedo na memória ferida do povo.” (Apresentação: Ima Célia Guimarães Vieira, Presidente, O Museu do Marajó, Belém, 27 de abril de 2005). 

Um museu em um lugar inacreditável, que certamente poderia recordar a inverosímel carta-patente enviada pelo padre Antônio Vieira - precursor da teologia da libertação -, em missão de paz aos caciques Nheengaíbas ameaçados de “guerra justa” (cativeiro e extermínio) acusados de pirataria contra canoas das “tropas de resgate” (caçadores de escravos) e “drogas do sertão” (extrativismo florestal). Ver carta de 29/11/1659 - publicada em Lisboa em 11/02/1660. 

Mas essa fusão do passado e presente, essa apropriação da herança cultural por parte das populações contemporâneas não deve ser vista como uma traição às origens. Ao contrário, a interpretação da Arte Marajoara é o maior sinal de que o vínculo entre o presente e o passado foi estabelecido, e que a tradição, agora reinventada, finalmente cumpre seu papel de produzir identidade e história (frisei). Giovanni Gallo era, mais do que um agente da fé, da cultura e da ciência, um visionário”. (obra citada, Prefácio - Denise Pahl Shaan, Belém, fevereiro de 2005).

Não raro, fragmentos de material arqueológico semelhantes àqueles podem ser recolhidos, inclusive por contumazes ladrões de gado vagando em horas mortas pelos entornos de sítios arqueológicos de costumeiros saques ilegais tais quais o célebre teso do Pacoval, por exemplo. O teso do Pacoval, situado no igarapé do Severino, que sai em frente da vila do Jenipapo, no outro lado da boca do Lago; foi o primeiro sítio arqueológico mencionado na crônica colonial portuguesa (cf. Notícia da Ilha Grande de Joannes...”, autor anônimo, dado como achado no dia 20 de novembro de 1756; e Notícia Histórica da Ilha Grande de Joanes, ou Marajó (1783), do naturalista de Coimbra, Alexandre Rodrigues Ferreira, famoso pela Viagem Philosophica, explorando a Amazônia entre 1783 e 1792).

No histórico conflito entre pecuária e pesca artesanal vem, incontornavelmente, o caso do tradicional roubo de gado. Precisa lembrar que a resistência dos “índios bravios, desertores e escravos refugiados” (cf. Notícia Histórica) retardou a ocupação das sesmarias concedidas pelo donatário da capitania da Ilha Grande de Joanes até 1680, quando Francisco Rodrigues Pereira levantou o primeiro curral de gado na ilha... Até hoje, a Jebre insalubre e mal afamada lembra aqueles temidos “centros” da ilha ainda selvagem. Giovanni Gallo (Turim, 1927-Belém do Pará, 2003) não poderia evitar o espinhoso assunto que se apresenta, evidentemente, como uma das causas da tumultuada mudança dele e do museu para Cachoeira do Arari, em 1983. Momento em que o singelo “ecomuseu” avant la lettre se tornou de fato o museu comunitário de Cachoeira do Arari que hoje se conhece, transformado da falência da fábrica Oleica e salvo dos desvios da política federal de desenvolvimento econômico da Amazônia.

Gallo escreveu, enfaticamente: Eu defendo o povo de Jenipapo! (Marajó, a ditadura da água, página 69). A acusação de roubo de gado, por certo, era muito antiga: desde os mocambos de índios bravios, desertores e escravos refugiados nos centros da ilha, no século XVII, que dificultaram os primórdios da criação de gado na ilha... “O roubo organizado não é manifestação da pobreza, é uma típica forma de exploração da pobreza, realizada por quem pobre não é” (Giovanni Gallo, obra citada, página 70).

A data que o fundador da freguesia de Nossa Senhora da Conceição da Cachoeira do rio Arari, Florentino da Silveira Frade - provável autor anônimo da Notícia da Ilha Grande de Joannes -, disse ao naturalista Alexandre Rodrigues Ferreira ter achado o teso do Pacoval do rio Arari; mais tarde viria coincidir com o Dia Nacional da Consciência Negra (dia 20 na primeira Notícia, 26 na segunda) bem poderia ser considerada também DIA NACIONAL DA CULTURA MARAJOARA. Inclusive pelo bom motivo de que, em 1500, o espanhol Pinzón assaltou uma aldeia indígena da “ilha Marinatambalo” e arrastou da dita os 36 primeiros “negros da terra” (escravos indígenas) da América do Sul...

Na vila de Salvaterra, então fazendo parte do município de Soure, em 1939, após concluir o romance seminal Chove nos campos da Cachoeira, Dalcídio Jurandir escreveu seu segundo romance com título de Marinatambalo... Título tirado da viagem do piloto de Cristóvão Colombo, é claro. Este romance foi publicado com título de Marajó, o primeiro romance sociológico brasileiro, talhado sob temática do romance medieval ibério Dona Silvana, segundo Vicente Salles.

Quantas coincidências? Tampouco o criador de O Nosso Museu em Santa Cruz do Arari, ano de 1973, não imaginaria estar a inventar o primeiro ecomuseu brasileiro, contemporâneo do primeiro desta mesma modalidade museal revolucionária, o Ecomusée du Creusot Montceau-les-Mines, na França.

sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

L'Avenir de la capitale du Pará e a revolução francesa de ecomuseus.


Navio-escola Belém, antigo veleiro conservado pela Fundação Belém (França). No século XIX, durante a Belle Époque, o Belém fez a rota comercial entre o Pará e a França com escala na Guiana e Antilhas francesas transportando cacau e outras especiarias amazônicas, rum e açúcar antilhano em troca de produtos manufaturados da Europa. 

Em missão cultural, no ano de 2002 o veleiro voltou a Belém do Pará e, com coquetel a bordo seguido de visitação pública, deu ocasião ao lançamento do ensaio Amazônia Latina e a Terra sem Mal (2002), de José Varella, juntamente com a tradução em português (2002) patrocinada pela Companhia Paraense de Turismo - PARATUR (atual Secretaria de Estado de Turismo - SETUR) do célebre estudo do geógrafo francês Henri Coudreau (1859-1899), L'Avenir de la capitale du Pará (publicado em 1913). Análise sobre o potencial geoeconômico da região norte brasileira que, mais tarde, seria aprofundada por Eidorfe Moreira na obra Belém e sua expressão geográfica.




Hoje a Agenda 2030 dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável é compromisso dos países-membros da ONU para superar a crise civilizacional agravada pela mudança climática. Compromisso global que reclama ação local e solidariedade de todos habitantes da Terra desde as metrópoles mais desenvolvidas até os mais carentes confins do mundo. A paz social e erradicação da extrema pobreza são as duas faces da mesma moeda da busca de concretude dos ODS.

Nas problemáticas relações históricas Norte-Sul, a deslumbrante memória da Belle Époque, que grandes museus preservam com ciúme, ainda contrasta com tristes lembranças suburbanas e a violência rural em muitos casos, nos porões dos navios e ruínas humanas das periferias. Muitos depositam suas esperanças no crescimento econômico interno e no desenvolvimento das trocas comerciais entre os países. Porém a humanidade já sabe que o desenvolvimento é necessário, mas não é suficiente. Então, a Educação e a Cultura são chamadas a fim de partilhar os frutos econômicos do desenvolvimento tecnológico e científico: ainda assim há injustiças sociais, discriminações e preconceitos... Diferenças étnicas, sociais e disparidades entre regiões diferentes quase sempre põe a perder ganhos amealhados por décadas e gerações. Foi assim que o "longo século XIX" viu a Belle Époque naufragar na I Guerra Mundial e a grande Depressão se desatar na II Guerra e a Reconstrução europeia reincidir erros anteriores e tropeçar na Guerra Fria entre as duas superpotências militares emergentes dos rescaldos da segunda grande guerra.

A colonialidade incurável ainda iria provocar a revolução popular da China, à guerra da Coreia, do Vietnã e a independência das colônias europeias na África: então, a revolta estudantil de Maio 1968 em Paris, mobilizou trabalhadores e contagiou o mundo... Na outra margem do Atlântico a juventude assumiu o movimento "amor e paz"... Entretanto, a América Latina sob ditadura militar experimentava a censura e a mais dura repressão dos movimentos sociais com a tortura e morte de diversos militantes na Argentina, Brasil e Chile: a volta da democracia latino-americana ainda agora está prenhe de incertezas.

Na velha França das liberdades, os anos 60 e 70 provocaram certa revolução dos museus. O espírito das Musas aborreceu-se do elitismo acadêmico evadiu-se para o ar livre na invenção democrática de Georges Henri Rivière (1897-1985) e Hugues de Verine (1935-....). Deste modo, a famosa história da Belle Époque escapou dos círculos fechados de elite burguesa para a anarquia criativa dos botequins de periferias, fez velas por mares nunca dantes frequentados por corsários e piratas, acampou junto a aldeias indígenas e quilombos no fim do mundo. 

A experiência de 1974 com o pioneiro Ecomuseu do Creusot Montceau-les-Mines, comunidade urbana fundada em 1970, reunindo 34 comunas em torno de duas cidades centrais, o Cresot e Montceau-les-Mines, na Borgonha. Trata-se do principal polo industrial entre Paris e Lyon; segundo campus universitário daquela região da França metropolitana. Trinta anos mais tarde, florescem ecomuseus e museus comunitários em todo mundo inspirados pelo conceito criado por Revière e Verine, inclusive América Latina e Brasil onde a Associação Brasileira de Ecomuseus e Museus Comunitários (ABREMC) congrega rede nacional. 

Uma ruptura dos padrões tradicionais de museus em edifícios fechados. Desta maneira, a rede internacional de ecomuseus e museus comunitários apoiados por cidades educadoras, poderá inclusive se tornar uma das principais parceiras da sobrevivência de grandes museus integrados a universidades, como no casamento do Museu Nacional do Rio de Janeiro e a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)? Penso que sim e acho que isto poderá ser de grande valia para erradicação da pobreza, progresso da cultura da paz e do diálogo entre diferente civilizações do mundo contemporâneo. 

Desde inícios do século XVII, colonos franceses e portugueses disputaram a Amazônia desconhecida dos europeus, procurando cada lado oposto conquistar populações das respectivas regiões cobiçadas como aliados e vassalos. A Questão do Amapá (1713-1900), por exemplo, atravessou o seculo XVIII e terminou já na primeira república do Brasil. Assim, o geógrafo francês Henri Anatole Coudreau foi mandado estudar a Guiana para defesa dos interesses da França, porém o explorador seduzido pela grandeza da Amazônia atravessou a fronteira e passou a explorar rios caudalosos e desconhecidos a serviço do governo estadual do Pará. Ele acabou falecendo, vítima de febres e fadiga, durante a exploração do rio Trombetas em terra de mocambo, junto à Cachoeira Tapagem, onde ficou enterrado. Mais tarde, Eidorfe Moreira viria a aprofundar a análise geográfica de Coudreau sobre a capital do Pará, "rainha das águas quentes" do trópico úmido americano.


Em 1895, Coudreau entrou a serviço do Estado do Pará, tendo explorado o Tapajós, o Xingu, o Tocantins, o Araguaia, o Itaboca, o ltacaiuna, assim também a zona geografica entre o Tocantins e o Xingu, o Jamundá e o Trombetas, onde ele veio a falecer. Sobre sua atividade e importância de seus trabalhos sua esposa e companheira de aventura, Madame Coudreau escreveu: “Ao cabo de cada viagem publicou um livro relatando-a. Era muito produzir para um diletante como Coudreau”. Em 1895, foi incumbido pelo governador do Pará, Lauro Sodré; de uma missão científica ao rio Tapajós. A respeito publicou, em Paris, 1897, A Lahure ‒ Éditeur ‒ Voyage au Tapajoz, traduzido para o português por A. de Miranda Bastos, Companhia Editora Nacional, volume 208 ‒ Série 5, Brasiliana, Biblioteca Pedagógica Brasileira, S. Paulo. 

Coudreau conclui o relatório com previsão sobre o futuro do Pará, dizendo ele: O Pará, mais povoado, mais rico, tem o dever de tomar as grandes e audaciosas iniciativas que progressivamente farão desta região a rainha das regiões equatoriais, num meio de produção rico e variado, um centro deslumbrante e atraente de civilização É indiscutível que se o Pará aplicar com decisão e perseverança a divisa ‒ ‘Conhecer e fazer conhecer’, esta terra, para a qual o futuro começa a desenhar-se, conhecerá eras de esplendor e opulência”, em Revista Brasileira de Geografia. Vultos da Geografia do Brasil Henri‒Anatole Coudreau; Serviço Gráfico do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística ‒ Abril-Junho de 1943.



expedição de Henri Coudreau e sua esposa e companheira de várias expedições Marie Octavie Coudreau ao rio Trombetas em 1899. O explorador morreu em viagem próximo à cachoeira Tapagem. Madame Coudreau, entretanto, cumpriu o contrato com o Governo do Pará e concluiu expedição.





Poucos sabem ainda que o Musée de l'Homme, em Paris, manteve importante coleção de cerâmica marajoara levada da ilha do Marajó, em priscas datas, provavelmente tirada do teso arqueológico do Pacoval. Donde, segundo José Coelho da Gama e Abreu (Barão de Marajó) na obra As Regiões Amazônicas: estudos chorographicos dos Estados de Gram Pará e Amazonas, Lisboa, Imprensa de L. da Silva, 1896; o diretor do Museu Nacional Ladislau de Souza Mello Netto (1838-1894) e o fundador do Museu Paraense [Museu Paraense Emílio Goeldi] Domingos Soares Ferreira Penna (1818-1888) levaram peças cerâmicas para os ditos museus, dentre as quais as que foram remetidas à Exposição Universal de Chicago de 1893. 

Esta grande exposição internacional de Chicago, aonde a autêntica cerâmica marajoara milenar foi mostrada ao mundo; comemorou os 400 anos da chegada de Cristóvão Colombo a América. Essa remessa ao exterior precedeu outras mais. Ironicamente, em 1500, Vicente Pinzón, piloto e sócio de Colombo, o primeiro europeu a contemplar a foz do rio Amazonas; passou pela ilha do Marajó vindo do Ceará rumo ao norte, oito anos após o tal descobrimento do Novo Mundo, onde ele assaltou uma aldeia e levou dali os 36 primeiros "negros da terra" (escravos indígenas) da América do Sul para a ilha Hispaniola (Hayti), onde os castelhanos construíram a base da conquista colonial. 

A lista de museus nacionais e estrangeiros detentores de cerâmica pré-colombiana extraída de sítios arqueológicos da ilha do Marajó se acha na obra Cultura Marajoara (2010) de autoria da arqueóloga brasileira Denise Schaan, que trata do Museu do Marajó em especial, inventado pelo padre Giovanni Gallo, em 1973, com "cacos de índio" (fragmentos de cerâmica marajoara retirada de sítios arqueológicos localmente chamados "tesos" e recolhidos por pescadores ou vaqueiros que perambulam pelos campos e "ilhas" (terrenos arborizados em meio às campinas). No dizer da professora Anna Maria Linhares, o museu do Gallo apresenta o prodígio de transformar caco em espetáculo... A descolonização da cooperação Norte-Sul, algum dia do amanhã, deverá passar por programa de repatriamento de acervos culturais supervisionado pela UNESCO.

Enquanto o vetusto Musée de l'Homme mantinha fora de alcance da pobre gente do Marajó a fina flor da cerâmica marajoara de mais de mil anos de idade; na antiga ilha dos Nheengaíbas não se pode contar mais que umas "igaçabas" (alguma até para uso doméstico) e montes de "cacos" (fragmentos) da destruição ajuntados a esmo por ladrões de gado... Com a criação, em 2006, sob alto patrocínio do presidente da república Jacques Chirac, do museu do quai Branly ou Museu das Artes e Civilizações da África, Ásia, Oceania e Américas, a dita coleção de cerâmica marajoara dentre outras mais do Museu do Homem foi parar no quai Branly, onde se encontra atualmente. O povo marajoara ignora como a arte cerâmica de seus antepassados remotos foi parar em grandes museus do exterior...

Enquanto isto, na Amazônia - periferia da Periferia -, através da fronteira, enquanto a ponte no Oiapoque não se materializava, entre sonhos, contrabandos e outras coisas mais; em 1995, no quadro de protocolo de vizinhança transfronteiriça entre a Associação de Municípios do Arquipélago do Marajó e a Associação de "Maires" da Guiana Francesa, uma delegação da Guiana francesa visitou Soure, Salvaterra e Cachoeira do Arari tendo o Museu do Marajó por referência. 

Reciprocamente, delegação de prefeitos e vereadores do Marajó visitou a Guiana francesa, com o padre Giovanni Gallo sendo convidado especial da municipalidade de Sinnamary, cujo prefeito municipal e presidente do Conselho Geral da Guiana, senhor Elie Castor; manifestou interesse em criar museu comunitário semelhante ao de Cachoeira do Arari naquele município guianense. Entretanto, o "maire" de Sinnamary veio a falecer subitamente, em 1996. Assim, o intercâmbio apenas começado esmoreceu e dele não mais se falou até, por fim, também o padre Gallo falecer em 2003, sete anos depois da morte súbita do presidente Castor. 

Entre 1985 e 1990, em missão do serviço exterior brasileiro exerci o cargo de Vice-Cônsul do Brasil em Caiena vindo a ser removido, no término da missão, para a Comissão de Limites em Belém do Pará onde eu já havia trabalhado anteriormente de 1974 a 1980. Nesta repartição técnica de fronteiras do Ministério das Relações Exteriores finalmente aposentei-me, em 1998, e no ano seguinte passei a trabalhar para o governo estadual do Pará, na Companhia Paraense de Turismo. 

Participei do voluntariado denominado Grupo em Defesa do Marajó (GDM), criado em 1994 e dissolvido em 2014, através do qual me tornei também voluntário do Museu do Marajó. Já de 1967 e 1968 eu havia sido Secretário Municipal de Finanças em Ponta de Pedras (um dos dezesseis municípios da região do Marajó) e de 1995 a 1996 desempenhei cargo de Secretário Municipal de Meio Ambiente na mesma prefeitura: quero dizer, então, que por acaso nesta experiência me tornei "especialista" em assuntos amazônicos, eventualmente com ênfase nas relações interregionais franco-brasileiras. 

Deste modo, explico sucintamente minhas participações na cooperação consular sobre o Norte do Brasil e a Região da Guiana, cooperação internacional da Associação de Municípios do Arquipélago do Marajó (AMAM), assessoria de relações institucionais da Companhia Paraense de Turismo (PARATUR), idem voluntário do Museu do Marajó (2003-2010).  Neste último papel, fui intermediário da tentativa do presidente do Museu do Marajó (MDM), Carlos Alberto Leão; em estabelecer contato através da Embaixada da França em Brasília com o Museu do quai Branly - Jacques Chirac, sem resposta. 

Mais tarde, durante mandato de Ana Júlia Carepa no Governo do Estado do Pará (2007-2010), de modo a sensibilizar a direção do referido museu francês a respeito do interesse marajoara em estabelecer intercâmbio; através de amigos do Museu do Marajó em Paris enviei informalmente um exemplar da obra Cultura Marajoara, da arqueóloga Denise Shaan. Agora sim, a segunda tentativa houve recepção simpática, com manifesta disposição do lado francês em trocar informações com o modesto museu comunitário da ilha do Marajó. 

Desta vez, infelizmente, foi o lado brasileiro que se desinteressou deixando o Museu do Marajó de lado. Para piorar as coisas, membros da Associação O Nosso Museu do Marajó entraram em acesa discórdia pelo controle da diretoria e não se entenderam mais... Como a esperança é a última que morre, quem sabe agora sob o signo de 2018, reine a paz entre ambas fileiras e novamente juntos decidam levar o Museu do Marajó a melhores dias? São os nossos melhores votos para o futuro.


A PLATAFORMA INTERNACIONAL PARA ECOMUSEUS E MUSEUS COMUNITÁRIOS PODERÁ SER UM PILAR DA PONTE DO OIAPOQUE?

Quando se anunciava a construção da ponte sobre o rio Oiapoque, muitas vezes, foi dito que esta seria a maior ponte do mundo: posto que de pequeno tamanho, representava a histórica ligação franco-brasileira - de cinco séculos! -, entre as duas margens do Mar-Oceano... Coincidentemente, nesta margem extremo-ocidental do Atlântico, a beira do lago Arari, há 1600 anos, foi berço da antiga Cultura Marajoara pré-colombiana, cujos patrimônio histórico já se acha presente em Paris, dentre o faraônico acervo do Museu das Artes e Civilizações da África, Ásia, Oceania e Américas

Cacos cerâmicos em Marajó e arte marajoara em Paris, por certo, poderão vir a ser partes integrantes das visões conjuntas de Henri Anatole Coudreau (1859-1899) e Eidorfe Moreira (1912-1989). O futuro da capital do Pará está vinculado a sua expressão geográfica, que, naturalmente, se projeta à grande área cultural guianense envolvendo a Amazônia atlântica e o Caribe. Deverá ser aspiração brasileira o desenvolvimento da Organização do Tratado de Cooperação Amazônica (OTCA), onde a França por causa da Região Guiana tem status de observador. A Educação, Meio Ambiente e Cultura são, naturalmente, pontes de cooperação: mas, a cooperação descentralizada Brasil-França que poderia ter grande vitalidade nas atividades de ecomuseus e museus comunitários nos dois países padece de quase paralisia. 

O Instituto Brasileiro de Museus (IBRAM) e seu homólogo na França poderiam, certamente, ser o eixo disto que vimos escrevendo muitas vezes em nossos escritos. A longo prazo podemos vislumbrar oportunidade para projeto em parceria com o Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG), no sentido da instituição decana da Amazônia vir a estabelecer extensão da Estação Científica Ferreira Penna (ECFP), no Marajó, na cidade de Cachoeira do Arari, destinada a organizar exposição permanente de peças e coleções atualmente encontradas em museus no exterior, que venham a aderir a programa de repatriamento de acervos. Um tal programa ou projeto poderia ser contemplado pela UNESCO no quadro da Agenda 2030, dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável mobilizando o Brasil e o Estado do Pará.


A primeira informação sobre a cerâmica marajoara aparece na Notícia da Ilha Grande de Joannes dos rios e igarapés que tem na sua circumferencia, de alguns lagos que se tem descoberto e de algumas couzas curiozas , autor anônimo , anos 50 do século XVIII (in O Novo Éden: a fauna da Amazônia brasileira nos relatos de viajantes e cronistas desde a descoberta do rio Amazonas por Pinzón (1500) até o Tratado de Santo Ildefonso (1777), Nelson Papavero [et al.], Belém: Museu Paraense Emílio Goeldi, 2002, 2ª edição). O autor desta notícia foi, provavelmente, Florentino da Silveira Frade, inspetor da ilha, guia e informante do naturalista Alexandre Rodrigues Ferreira, autor da Notícia Histórica da Ilha Grande de Joanes, ou Marajó (1783). que corrobora informação da primeira Notícia sobre achado do sítio arqueológico do Pacoval do rio Arari, na Notícia Histórica.

No ano de 1973 foi criado - com nítida feição de ecomuseu segundo o conceito inovador formulado por Georges Henri Revière e Hugues de Verine - o sui generis O Nosso Museu de Santa Cruz do Arari (1973-1981) precursor de O Nosso Museu do Marajó, transferido para Cachoeira do Arari em 1983 e aberto ao público em 1984. Em sua primeira fase (cf. Giovanni Gallo, Motivos Ornamentais da Cerâmica Marajoara: 3ª ed. O Museu do Marajó, Cachoeira do Arari, 2005).


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Arte Marajoara pré-colombiana, Urna funerária procedente da Ilha de Marajó. Museu Paraense Emílio Goeldi, Belém, PA




domingo, 31 de dezembro de 2017

quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

O NOSSO MUSEU: FIEL DEPOSITÁRIO DA CULTURA MARAJOARA.

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imagem esquemática de um teso arqueológico na ilha do Marajó, ver link http://www.gentedeopiniao.com.br/mobile/amazonias/noticia/os-tesos-de-marajo/128143



Oxalá em futuro não tão distante, o povo marajoara seja premiado com a repatriação da cerâmica levada dos sítios arqueológicos da ilha ao exterior desde fins do século XIX. Esse dia da história do futuro será comemorado como sucesso da interiorização da Universidade Federal do Pará (UFPA) no Marajó, que começou na década de 70, com o Centro Rural de Atendimento Comunitário (CRUTAC), e levou à instalação do campus de Soure, em 1986, logo seguido do de Breves. 

No bojo da interiorização da UFPA, atividades de educação ambiental envolveram professores em atuação em escolas estaduais e municipais da mesorregião, assim que o todo da comunidade dos 16 municípios marajoaras. Com isto, realizaram-se dez Encontros em Defesa do Marajó realizados a cada ano nos referidos municípios, o último encontro em Ponta de Pedras encerrado com a assinatura da Carta do Marajó-Açu de 30 de abril de 1995. Esta Carta passaria a ser um dos principais guias de reivindicação da comunidade aos poderes públicos, dentre estes a proteção aos sítios arqueológicos e a difusão da Cultura Marajoara como elemento identitário do Estado do Pará. 

No ano anterior, dia 20 de dezembro de 1994, reunião da comunidade do Marajó na Pro-Reitoria de Extensão da Universidade Federal do Pará (PROEX/UFPA) considerou necessário iniciar trabalho permanente junto à comunidade em geral, inclusive na Capital; dando continuidade aos encontros anuais. Deste modo, o Grupo em Defesa do Marajó (GDM) veio a lume e posteriormente deu por finalizada sua atividade em 2014.

Com a Carta em tela reivindicando política de proteção aos sítios arqueológicos no Marajó, o Governo do Estado, através da Secretaria de Estado de Cultura (SECULT) iniciou campanha de esclarecimento público a respeito da propriedade legal da União sobre sítios arqueológicos e bens de natureza histórica pré-colombiana. Mais tarde, o papel conferido ao MDM de fiel depositário de acervo arqueológico, serviu de base a convênio com o Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG) a fim de captar recurso financeiro junto à PETROBRAS destinado à construção, em terreno de propriedade da Associação comunitária O Nosso Museu, de anexo destinado à Reserva Técnica do MPEG em Cachoeira do Arari.

Está visto, portanto, que já existe antecedente para cooperação técnica entre União, Estado e Municípios do Marajó. Que assim tal parceria estratégica poderá levar ao repatriamento futuro de cerâmica marajoara sob assistência e colaboração da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO). A repatriação de bens culturais é uma tendência mundial no momento. Todavia, para isto, o governo federal deveria criar, em Cachoeira do Arari, estrutura arquitetônica adequada à manutenção do acervo repatriado, abertura de exposição pública permanente para fins turísticos inclusive e educação patrimonial da comunidade marajoara integrada ao museu comunitário criado pelo padre Giovanni Gallo. 

Em suma, eu não estou dizendo aqui que o Museu do Marajó deva ser encampado pelo governo -, pelo contrário espero que o "museu do Gallo" continue sendo museu comunitário, com a comunidade e conservado pela comunidade -, amparado pelo setor público e privado a fim de cumprir seus estatutos originais deixado por seu fundador.

É verdade que, no passado, defendi a federalização do MDM num momento em que todos temíamos por sua sobrevivência e continuidade. Decorridos, entretanto, 15 anos da morte de Giovanni Gallo apesar das dificuldades havidas e dos conflitos ocorridos, hoje está claro que a comunidade de Cachoeira do Arari se empoderou e demonstrou capacidade para conservar e desenvolver a herança deixada pelo inventor do pioneiro ecomuseu de Santa Cruz, de 1973. O que precisa é de ampla concórdia e renovada fé nas gerações futuras da Criaturada e contar com círculo de amigos e zeladores capazes de motivar a responsabilidade social das instituições privadas e política das autoridades públicas.

Considerando hoje a avançada idade que tenho é pouco provável que eu ainda veja esse dia chegar, porém o importante é ter consciência de que meus modestos préstimos se somam a outros mais valorosos, principalmente de Dalcídio Jurandir (Ponta de Pedras, 10/01/1909 - Rio de Janeiro, 16/06/1979) e Giovanni Gallo (Turim, 27 de abril de 1927 - Belém, 7 de março de 2003): como Maria Dorotéa de Lima, Superintendente Regional do IPHAN, deu-me a honra de mencionar na publicação do Inventário Nacional de Referências Culturais - Levantamento Preliminar - Ilha do Marajó, 2007. Agradecimentos, textualmente: ".... Aos mestres Dalcídio Jurandir, Giovanni Gallo e José Varella que, com suas tantas histórias sobre o Marajó e sua gente, nos iniciaram, guiaram e orientaram na condução deste trabalho. Belém, junho de 2007". Coisas assim, para mim, mais que honraria e compromisso até o fim da vida.

No caso, não faço mais que minha obrigação em zelar pela obra de tão altos mestres e consagrar-me de corpo e alma à defesa da Criaturada. É importante que o Brasil e o mundo conheçam e protejam o patrimônio histórico e artístico da Amazônia Marajoara e saibam da obra de Dalcídio Jurandir e Giovanni Gallo entrelaçadas pela gente marajoara desde os inícios do ecomuseu de Jenipapo e Santa Cruz. A comunidade marajoara, sobretudo, unida e coesa poderá coroar de êxito o longo processo que já se avizinha de meio século: então, fazendo eco ao grito desta gente à margem da História, o Governo Federal em cooperação com a UNESCO, a par do reconhecimento da Reserva da Biosfera Marajó-Amazônia (RBMA), venha também a anunciar o repatriamento de cerâmica arqueológica marajoara interessando, diretamente, ao VER-O-PARÁ Plano Estratégico de Turismo do Estado do Pará 2012 - 2020, no que concerne à identidade cultural desta unidade federativa amazônica.

Na "Notícia Histórica" de 1783, o índio sacaca Severino dos Santos, sargento-mor de milícia da vila de Monforte (outrora aldeia de Joanes) fornece valiosas informações sobre antigas populações nativas da ilha do Marajó indicando forte possibilidade do chamado "Igarapé do Severino" ter este nome devido ao dito índio guia do Inspetor Florentino. Sabendo-se, mais ou menos, a localização da boca do Igarapé do Severino e da vila do Jenipapo, ficamos inclinado a pensar que os "cacos de índio" (cf. "Motivos Ornamentais") que o Vadiquinho levou ao padre Gallo tem grande probabilidade de provir do teso do Pacoval... 


Para que tudo isto? A fim de chamar atenção às peças levadas ao exterior atualmente localizadas em museus no exterior. Para uma criança daquelas de Jenipapo fotografadas pelo padre Gallo e que mexeram com a sensibilidade do escritor Dalcídio Jurandir no Rio de Janeiro distante, dizendo este último, "são os meus netos marajoaras"... Hoje aquele meninos de Jenipapo são adultos e pais de outras crianças iguais àquelas da "ditadura da água", o eventual repatriamento de peças levadas do Pacoval e outros tesos para ficar no Museu Nacional, no museu etnográfico da USP ou mesmo no Museu Goeldi não faz a menor diferença de estar em Paris, Londres, Chicago ou outra qualquer cidade no exterior.

Tal repatriamento seria diferente, caso voltasse às origens mediante extensão da Estação Científica Ferreira Penna, do Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG) em parceria com o Instituto Brasileiro de Museus (IBRAM), na cidade de Cachoeira do Arari. Claro que isto é puro sonho! Sonho herdado de muitos sonhos de muitas gerações, com vitórias e derrotas ao longo do caminho.

Não canso de lembrar que em sua primeira fase, entre 1973 e 1983, O Nosso Museu do Marajó pode ser considerado um ecomuseu avant la lettre. Informal até a organização da Associação O Nosso Museu de Santa Cruz do Arari, em 16 de dezembro de 1981. Por necessidade e acaso, nasceu o ecomuseu à margem ocidental do lago ancestral da antiga cultura marajoara e fincou raízes na cidade histórica de "Cachoeira do rio Arari", à margem esquerda do rio que, em 1680, abriu espaço à colonização - 64 anos depois da fundação de Belém do Pará, 57 da tomada de Mariocai (Gurupá) aos holandeses, 21 do acordo de paz de Mapuá e 15 anos após a doação da capitania hereditária da Ilha Grande de Joanes, sem que nenhuma sesmaria pudesse tomar posse efetiva do terreno antes do primeiro curral de gado do pioneiro Francisco Rodrigues Pereira -, diante da brava resistência dos índios Anajás, Aruãs e outras etnias, mais negros quilombolas e desertores que, segundo o inspetor Florentino da Silveira Frade, citado pelo naturalista Alexandre Rodrigues Ferreira na "Noticia Histórica" (1783); viviam pelos centros da ilha.

Com certeza, em 1983 ano do Sesquicentenário do Município, pelo discernimento do Prefeito Edir de Souza Neves; a histórica cidade de Cachoeira do Arari ganhou um memorável presente que viria a realçar todo o patrimônio marajoara. Em sua fase de museu comunitário, em Cachoeira, na reforma da fábrica Oleica, o MDM abriu as portas ao público no dia 8 de dezembro de 1984. Por fim, o museu serviu de túmulo para o padre dos pescadores do Arari, no teso que ele mesmo levantou para ilustração dos visitantes no Arboreto ao lado de sua casa.Resultado de imagem para imagem de cachoeira do arari
Arco do Sesquicentenário de Cachoeira do Arari (1983).