segunda-feira, 30 de outubro de 2017

UMA HISTÓRIA DA SANTA DAS CAUSAS IMPOSSÍVEIS NA ALDEIA DOS SAPARARÉ ELEVADA EM VILA DE BENFICA (1758).


imagem de Santa Rita de Cássia achada em campo de batalha
na guerra do Paraguai pelo voluntário da Pátria Raymundo Pereira,
morador da Vila de Benfica, avô paterno do romancista Dalcídio
Jurandir, do doutor Ritacínio Pereira que teve seu nome em louvor
à santa e de outros filhos do capitão Alfredo Pereira. Hoje sob guarda 
de José Maria Varella Pereira, bisneto de Raymundo.
foto: João Victor Noronha.



Nesta data, quando eu completo 80 anos de idade, manifesto por este meio intenção de doar formalmente à comunidade do distrito de Benfica, município de Benevides, estado do Pará; a imagem de santa Rita de Cássia (foto em epígrafe) que se encontra em meu domicílio e residência no conjunto Médice, bairro da Marambaia, Belém-PA; objeto deste registro histórico. 

Se possível, havendo interesse e consenso da comunidade local, a dita imagem histórica de Santa Rita de Cássia poderá permanecer sob responsabilidade de entidade zeladora do patrimônio da Vila de Benfica ou depositada na igreja de Nossa Senhora da Conceição da mesma vila, em acordo com entidade local interessada em promover diálogo entre crentes e não-crentes para a cultura da paz.

Declaro ainda meu desejo pessoal em ver este ato servir como primeiro passo para organização comunitária de ecomuseu dos Sapararé (ou outra denominação proposta democraticamente pela comunidade local, esta sendo meramente ilustrativa do fim a que se propõe) destinado a promover a educação, resgatar a história e preservar o patrimônio natural do lugar em conexão com a área metropolitana de Belém e as mais regiões amazônicas.

Para constar, faço breve relato a seguir sobre as circunstâncias pelas quais o referido ícone católico oriundo do Paraguai -- num espaço de tempo de 128 anos, entre 1864 e 1992 --, acabou imprevistamente chegando às minhas mãos na linha de sucessão a partir do achado de meu bisavô Raymundo Pereira em campo de batalha durante a guerra do Paraguai (1864-1870). É claro que o artesão da imagem de Santa Rita de Cássia permanece anônimo, ignoro quem tenha sido o dono da imagem (um outro brasileiro? Soldado paraguaio caído na luta? Uruguaio ou argentino?). 

É evidente que a devoção à patrocinadora das causas impossíveis, àquela altura ainda beata Rita de Cássia, ao contrário da propaganda bélica revela a carência de paz e o medo daqueles pobres soldados, de parte a parte; forçados a matar e morrer numa guerra por motivos estranhos aos povos irmãos envolvidos no conflito. Gente pobre arrastada de seus pagos sob peso de poderes que não lhes dizia respeito. 

Tratava-se, sobretudo, do contexto global da época de interesses imperiais da Inglaterra na bacia do Prata confrontados pela França que apoiou e estimulou o nacionalismo do Paraguai em busca de uma saída marítima no rio da Prata em prejuízo da posição estratégica do Uruguai e Argentina: nesta ambição expansionista, o ditador Solano Lopes alimentou o nacionalismo do povo paraguaio com o justo propósito de uma nação moderna e independente desafiadora do imperialismo inglês na região platina. 

Escolheu a via militar para ocupação do território brasileiro do atual Mato Grosso do Sul e por extensão parte dos Pampas argentino e uruguaio. A aventura saiu mal para todos, menos para os bancos da Inglaterra que lucraram com a Tríplice Aliança (Argentina, Brasil e Uruguai); e muito mais para o temerário Solano Lopes que morreu na guerra deixando desamparado o bravo povo do Paraguai vítima de terrível genocídio liderado pelo Império do Brasil. 

A Guerra do Paraguai deixou o Brasil endividado, forçado a ceder às pressões geopolíticas dos Estados Unidos para Abertura do Rio Amazonas à Navegação Internacional (07/12/1866); a monarquia mal vista pelo povo levou à Abolição da Escravatura (1888) e imediatamente ao fim do Império brasileiro (1889). Quanto à Província do Pará viu-se obrigada a fornecer tropas quando ainda se ressentia da guerra-civil conhecida por Cabanagem (1835-1840) e a falta de mão de obra; restou o trabalho das mulheres nas famílias e a má lembrança dos recrutamentos forçados dos chamados "voluntários da Pátria".

Devo advertir, antes de prosseguir a exposição, que não me move interesse de me eximir da responsabilidade em conservar comigo esta relíquia sentimental de família. Pelo contrário, como sabem os que me conhecem; sou um agnóstico que respeita todas religiões e crenças tradicionais. Amigo da paz, encomendei ao meu pranteado amigo artesão, Ismaelino Ferreira, a confecção da imagem holística de São Francisco Marajoara ornado de vitórias-régias, jacarés, em meio à avefauna, com um cordeiro no colo levando um macaco pela mão... Obra genial do querido Ismael que guardo com lembrança e afeição. Pois a imagem de Santa Rita faz companhia a São Francisco dentre o pequeno acervo incluindo estatueta de Dom Quixote e de Buda... Toda a "fortuna" de meu mini museu particular. Portanto, a intenção em doar a imagem da santa só se justifica pelo desejo meu em compartilhar com a comunidade de origem desta história o objeto que considero antes que tudo de cunho histórico. Aduzindo a oportunidade de dar início à organização de ecomuseu comunitário.

Isto posto, prossigo. Com o fim da Guerra o voluntário da Pátria em apreço retornou a sua casa na vila de Benfica (Benevides), para morrer em paz. Pois ele estava doente de tuberculose tendo ainda sobrevido algum tempo que não sei dizer. Portanto, este é um pequeno recorte histórico dentro do grande espaço cultural da Amazônia e América do Sul no contexto geral da história de guerra e paz, que remonta ao século XVII com a França Equinocial (1613-1615) e o estado colonial português do Maranhão e Grão-Pará (1621-1751), depois Grão-Pará e Maranhão (1751-1823).

Sabemos da grande, contraditória e complexa importância que teve a Companhia de Jesus na colonização e contra-colonização da América Latina. Cinco séculos depois estas contradições da formação latino-americana estão presentes: a Amazônia e o Paraguai são as duas culturas sul-americanas que mais receberam influência jesuítica. 

Contam que durante pausas de combate, quando a noite caía sobre campos de batalha ouviam-se vozes de lados opostos da trincheira a conversar numa certa língua "estranha" aos oficiais do exército brasileiro. Que era aquela língua estúrdia? Soldados paraguaios "inimigos" e "voluntários" da pátria recrutados no Pará conversando em Nheengatu, a língua-geral amazônica ensinada pelos padres jesuítas aos índios com base no tupi-guarani, "abolida" por ordem do Marquês de Pombal, no regime do Diretório dos Índios (1757-1798). Foi durante o Diretório de Pombal que aconteceu a expulsão dos Jesuítas, então a Aldeia dos Sapararé, catequizada pelos padres, teve mudado seu nome nativo pela Vila de Benfica portuguesa, dentre uma mudança geral da toponímia da Amazônia (tratei do assunto em meu ensaio Novíssima viagem filosófica, na REVISTA IBERIANA: Belém do Pará, 1999).

A imagem da Santa passou das mãos do falecido voluntário da Pátria Raymundo Pereira a seu filho capitão da Guarda Nacional, Alfredo Nascimento Pereira. Em seguida foi zeladora da dita imagem a filha mais velha do capitão, Sophia Tautonila Pereira que foi minha tia e por morte desta, o papel de zelador da Santa coube a meu pai Rodolpho Antonio Pereira (Ponta de Pedras, 1904 - Belém, 1992), filho adotivo e irmão cacula de Sophia para, finalmente, com falecimento deste último a referida imagem ficar sob minha responsabilidade e guarda.

Há grandes lacunas nesta história familiar. Sabemos que a família Pereira deste ramo, aparentemente cristão-novo, chegou ao Pará com o suposto patriarca Domingos Pereira de Moraes, sargento-mor egresso dos Açores cerca de 1752 e que este português foi contemplado (donatário) da fazenda São Francisco (Malato), expropriada aos Jesuítas (ver Alexandre Rodrigues Ferreira, Notícia Histórica da Ilha Grande de Joanes, 1783). O nome Domingos Pereira de Moraes aparece quatro vezes nesta mesma família: no século XVIII, o dito sargento-mor contemplado da fazenda São Francisco ( sesmaria de origem da Aldeia das Mangabeiras em 1686 (Vila da Mangabeira) e do município de Ponta de Pedras emancipado em 1878); no século XIX, diretor da Santa Casa de Misericórdia do Pará; e no século XX, o avô paterno de minha mulher e irmão mais velho desta Domingos Pereira de Moraes Neto. 

Seguramente, Raymundo Pereira está inserido na família radicada na ilha do Marajó e por motivos não explicados aparece ele na vila de Benfica, talvez fosse descendente de algum diretor dos índios (funcionário substituto dos padres catequistas nas aldeias indígenas). As origens do município na Amazônia portuguesa se acham nas aldeias das missões substituídas pelo Diretório dos Índios, regime colonial que transformou os indígenas em "caboclos"... Raymundo Pereira e os seus sobreviveram à Cabanagem (1835-1840) ele era morador de Benfica quando foi recrutado como voluntário da Pátria. Todos estes fatos ligados a Benfica ocorreram anteriormente à Colônia de Benevides (1875). A morte de Raymundo pode ter acontecido nos inícios da Colônia de Benevides. Com a construção da Estrada Belém-Bragança a sua família se espalhou para João Coelho (Santa Isabel) e depois veio a se reunir em parte em Ponta de Pedras, onde Alfredo se radicou inicialmente como professor primário: a história de Benevides, entretanto, marcou esta família e o Engenho Santa Sophia provavelmente serviu de inspiração para nome da primeira filha de Alfredo com a índia Antônia, Sophia Tautonila Pereira.

Isto posto, peço a meus parentes presumidos herdeiros do capitão Alfredo Pereira e a meus descendentes acatarem esta singela manifestação de vontade minha. Aos amigos agradeceria apoio para realizar a singela ideia, examinando possibilidade de se criar conjuntamente ecomuseu dedicado à memória dos antigos habitantes da Aldeia Sapararé e depois Vila de Benfica a par da doação prometida, servindo à educação socioambiental do referido distrito e município de Benevides, na região metropolitana de Belém.

Belém, 30 de outubro de 2017
José Maria Varella Pereira (José Marajó Varela).



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"Amigo da paz, encomendei ao meu pranteado amigo artesão, Ismaelino Ferreira, a confecção da imagem holística de São Francisco Marajoara ornado de vitórias-régias, jacarés, em meio à avifauna, com um cordeiro no colo levando um macaco pela mão... Obra genial do querido Ismael que guardo com lembrança e afeição. Pois a imagem de Santa Rita faz companhia a São Francisco dentre o pequeno acervo incluindo estatueta de Dom Quixote e de Buda... Toda a "fortuna" de meu mini museu particular."





COLÔNIA DE BENEVIDES


A colônia agrícola que deu origem ao município de Benevides é posterior à Vila de Benfica originada da Aldeia dos Sapararé catequizados pelos Jesuítas. Por certo, depois da expulsão dos jesuítas a vila foi administrada pelo regime do Diretório dos Índios. Ante da estrada Belém-Bragança a comunicação e abastecimento de Benfica com o resto da província era feita basicamente pelo rio Sapararé através da vila do Pinheiro (Icoaraci). Acredito que existia antigo ramal do velho Caminho dos Tupinambás, chamado também Caminho do Maranhão: primitivo traçado da estrada de ferro sobre a península Guamá-Guajará. 

A Colonia de Benevides remonta ao Império do Brasil (1822-1889), foi criada a 13 de junho de 1875 por decreto do presidente da província do Grão–Pará, Francisco de Sá e Benevides, tendo o sobrenome do presidente com a finalidade de colonizar a Zona Bragantina instalada às margens do antigo dos índios Tupinambás, estrada do Maranhão ou de Bragança vindo do Utinga


O início do povoamento da zona Bragantina deu-se a partir de 04 de junho de 1877, quando chegaram 180 imigrantes na maioria franceses. Grande parte destes não permaneceu em Benevides, mas os remanescentes fundaram engenhos de açúcar com destaque ao Engenho Santa Sophia, dos Fanjas franceses e de São Francisco, dos Begot também franceses. Todo engenho precisou cana de açúcar e onde houve canavial precisou de escravo. 

Todavia este foi um empreendimento colonial tardio, pois em pouco mais de uma década ocorreu a Abolição da escravatura (1888) e a proclamação da República (1889). Outras colonos que deram origem a famílias do município de Benevides foram os Solon (Turquia), Sampaio (Portugal), Dickson (Inglaterra), Dax (Alemanha), Rossi (Turquia), outros como Vieira, França, Ferreira, Gomes, Mendes, etc. O município teve prefeitos destas famílias como Nagib Salomão Rossi, Osmar França, Claudionor Begot, José Begot e Luiz de França Solon. Importantes comerciantes do município são descendentes destas famílias que ajudaram na formação histórico-cultural e econômica de Benevides. Porém, inúmeros brasileiros do Nordeste flagelados pelas grandes secas do final do século XIX encontraram na região refúgio e aqui se instalaram na esperança de melhores tempos. 

O assentamento desses novos colonos ficou a cargo do empreiteiro Capitão Valentim José Ferreira, que já vinha prestando serviços na estrada de Bragança desde 1866. Ou seja, em plena Guerra do Paraguai, no governo do então presidente provincial Pedro Leão Veloso. No início era agricultura familiar para consumo de subsistência. Logo mais as maiores propriedades produziam para o mercado da Capital Belém. Com a volta da chuva no Nordeste, alguns proprietários voltar à terra natal, abandonando suas terras ou vendendo a preço barato. Mesmo assim remanescentes e outras famílias chegadas mais tarde desenvolveram o centro urbano baseado no comércio local e funcionalismo público municipal e estadual. Benevides foi o primeiro núcleo colonial da antiga Estrada de Ferro de Bragança com uma parada no km 33. 


A Estrada de Ferro teve grande influência sobre Benevides, sobretudo, porque sua primeira parte ligava a localidade à Capital do estado num total de 29 km, inaugurada no dia 09 de novembro de 1884. Posteriormente foram instaladas outras paradas e estações como Entroncamento e Ananindeua. Porém, no ano de 1964, por determinação do governo federal (cem anos depois do início da Guerra do Paraguai), a ferrovia foi extinta sob alegação de ser ineficiente. Hoje a antiga estrada tem trechos preservados, fazendo parte da Rota Turística Belém-Bragança e existem propriedades que preservam trilhos de ferro, como no sitio da dona Lia Parente, antiga moradora e outras construções que remontam a época da velha estação de Benevides, em frente aos Correios, que abrigou a Biblioteca Municipal. Até 1961 a Colônia Agrícola pertenceu ao município de Ananindeua tendo antes pertencido ao município de Belém. No dia 29 de dezembro de 1961, a colônia de Benevides foi desmembrada do município de Ananindeua, através da Lei Estadual nº 2.460 e partir daí passou a se chamar Município de Benevides, composto pela sede Benevides (centro e bairros arredores) parte dos distritos de Ananindeua (Marituba já emancipada) e os distritos de Benfica e Santa Bárbara (emancipada) e parte do distrito sede de Santa Isabel do Pará. 

No dia 12 de março de 1962, data da instalação do Município, tomou posse o 1º Prefeito, Moacir Cabral, funcionário do IBGE, no cargo de agente de Estatística e chefe da AME do Município de Ananindeua, nomeado pelo então governador do Estado Aurélio do Carmo, visto ter sido posto a disposição do Governador do Estado do Pará. O município de Benevides é também é conhecido como “Terra da Liberdade”, pois quatro anos antes da Princesa Izabel abolir a escravatura no Brasil, esta foi abolida no Pará, em Benevides precisamente. A festa da libertação se deu no dia 30 de março de 1884 quando General Rufino Galvão (Visconde Maracajú), partiu de Belém com destino a Benevides para presidir a Sessão Magna da libertação dos escravos desta Colônia. 



O Dr. Pinto Braga, presidente da Associação Libertadora de Benevides abriu a sessão, sendo apresentadas ao presidente da província seis cartas de alforria que depois foram entregues aos escravos Maurício (29 anos), Quitéria (24 anos), Macário (20 anos), Luiz (14 anos), Florência (26 anos) e Gonçala (40 anos). Este acontecimento atraiu para Benevides número expressivo de escravos fugitivos de outras localidades sendo essa mão-de-obra empregada atividades agrícolas em pequenas propriedades mediante trabalho assalariado dando desenvolvimento a Benevides. Porém a campanha abolicionista atraiu perseguição por parte de proprietários escravagistas, embora o escravismo já estivesse dias contados.



UM CERTO VOLUNTÁRIO DA PÁTRIA

Desde pequeno tive grande curiosidade para saber a história de minha família e do lugar onde nasci (Belém) e me criei (Ponta de Pedras, na ilha do Marajó), além de meu país; minha fonte principal na história oral foi minha avó postiça Sophia Tautonila Pereira (1886-1972). Ela aos dezoito anos de idade adotou seu irmão órfão de mãe, Rodolpho Antonio Pereira, filho do capitão Alfredo Nascimento Pereira e da índia Antônia Silva. Antônia nasceu na aldeia da Mangabeira, em Ponta de Pedras; foi aluna de Alfredo e se casou com ele tendo três filhas, Sophia Tautonila, Laudelina Diva (Lodica) e Ambrosina; e quatro filhos, Raimundo, Otaviano Celso, Rodolpho Antônio e Manuel, sendo este último natimorto gêmeo de Rodolpho em cujo parto minha avó índia morreu.

Quando me recordo em tenra infância, meu avô Alfredo já estava casado pela terceira vez após a viuvez com a minha avó Antônia e de dona Margarida Ramos, com a qual teve meus tios Flaviano Ramos Pereira, Dalcídio José Ramos Pereira (Dalcídio Jurandir), Ritacínio Ramos Pereira, Lindinha, Mariinha (morreu afogada em Cachoeira do Arari) e Alfredina Pereira Rodrigues. Dona Isabel Trindade foi a terceira e última esposa do capitão Alfredo, com a qual ele viveu até a avançada idade de 106 anos, vindo a falecer em 1955. O capitão Alfredo ainda teve mais três filhos e duas filhas do seu último casamento.

Durante este tempo a imagem de Santa Rita de Cássia esteve no chalé de residência do professor Alfredo e sua mulher Antônia, em Ponta de Pedras, onde permaneceu depois que minha avó morreu, em um pequeno oratório sob guarda de Sophia e Lodica; Foi lá que a vi a primeira vez e ouvi a história do achado na guerra do Paraguai e o retorno de meu bisavô a Benfica até sua chegada em Ponta de Pedras com Alfredo. Vovó Sophia já esquecera boa parte da história, dizia que o nome do avô dela (Raymundo Pereira) era "João", da mulher de Raymundo eu nada sei: deduzo que ela fosse de uma família Nascimento, dado que o filho do casal assinava Alfredo Nascimento Pereira (protótipo do Major Alberto no romanceiro de Dalcídio Jurandir, casado como dona Amélia, mãe de Algfredo, alter-ego do romancista; supostamente a mãe do autor de Chove nos campos de Cachoeira, Margarina Ramos). Um traço marcante da personalidade algo enigmática do capitão meu avô foi o fato dele registrar todos seus filhos apenas como nome de família Pereira. Exceto os filhos de dona Margarida Ramos, todos registrados com nome de família materna e paterna, "Ramos Pereira", exigência da mulher pontapedrense descendente de escravos.

Voluntários da Pátria é a denominação dada às unidades militares criadas em 7 de janeiro de 1865, pelo Império do Brasil, para lutar na Guerra do Paraguai (1864-1870); com que se buscava reforçar o Exército Brasileiro. Foi assim que Raymundo Pereira foi alcançado na Vila de Benfica. Inicialmente formado para tomar proveito do patriotismo do início da guerra, reunindo voluntários alistados espontaneamente. Para estimular o alistamento militar voluntário,  o governo assegurava vantagens como bônus de trezentos mil reis; lotes de terra com vinte e duas mil braças em colônias militares; preferência nos empregos públicos; patentes de oficiais honorários; liberdade a escravos; assistência a órfãos, viúvas e mutilados de guerra. 

Com o passar do tempo, porém, e a diminuição do entusiasmo popular, o governo imperial passou a exigir dos presidente das províncias cotas de "voluntários", que eles deveriam recrutar. Cada província foi mandada prover, no mínimo, 1% da sua população. Por outro lado, havia várias formas de escapar da convocação: os aquinhoados faziam doações de recursos, equipamentos, escravos e empregados para lutar em seu lugar. Os de menos posses alistavam seus parentes, filhos, sobrinhos ou agregados; aos despossuídos só restava a fuga para o mato. Também participaram da guerra índios de várias províncias. 

Guarda Nacional era uma força paramilitar organizada por lei no durante a Regância, em agosto de 1831. Como uma instituição de caráter civil, a Guarda Nacional era subordinada aos Juízes de Paz, aos Juízes Criminais, aos presidentes de Província e ao Ministro da Justiça, sendo somente essas autoridades que podiam requisitar seus serviços. O único cenário em que os guardas nacionais passariam a fazer parte da estrutura militar de 1ª linha era no caso dos corpos destacados para a guerra, quando deveriam atuar como auxiliares do Exército. A convocação da Guarda Nacional foi feita de acordo com os artigos 117 e 118 da Lei nº 602, de 1850, e, de início, teve boa acolhida. Os Corpos de Polícia das Províncias, atuais polícias militares estaduais, contribuíram formando ou complementando diversos Corpos de Voluntários da Pátria. 

Ainda em 1865 os voluntários da pátria passaram a contar com recrutamento forçado, instituído por chefes políticos locais e a oficiais da Guarda Nacional, que forçavam o alistamento de seus opositores. O uso de escravos para lutar em nome de seus proprietários virou prática corrente. Além disso, sociedades patrióticas, conventos e o governo passaram a comprar escravos para lutarem na guerra. O império, então, passou a prometer alforria para os que se apresentassem para a guerra. 

Isto fez com que escravos fugissem das fazendas individualmente ou em bandos, e se apresentassem aos recrutadores com nomes falsos, para despistar seus senhores, mesmo com o governo fazendo vista grossa. Dom Pedro II deu exemplo, libertando todos os escravos das fazendas imperiais para lutar na guerra. O jornalist Manuel Dutra conta a história de Pedro, "tinha apenas 18 anos nos idos de 1865, vivendo com a mãe, conhecida na redondeza como Tia Rosa, morando ambos num vilarejo do interior de Alenquer. Ela tecia redes de dormir e ele pescava, caçava e se embrenhava nas matas à procura de cupuaçu, pupunha e outras frutas." 

"Lá um belo dia chega a notícia de que o Brasil declarara guerra ao Paraguai e, o Imperador precisava com urgência de voluntários para combater a fera chamada Solano López, ditador do país vizinho, que estava ameaçando invadir e tomar um bom pedaço do mapa do Brasil. López era descrito por todo o interior do Pará como uma fera, a figura humana do diabo. Era o satã a ser combatido para a salvação do mundo e derrota definitiva dos infiéis."

"MOVIMENTO DIFERENTE Numa tarde de dezembro daquele ano tumultuado, o jovem Pedro, ao voltar da pesca, notara um movimento diferente do habitual. Olhando bem, ele percebeu a aproximação de Manuel de Andrade e dois ou três soldados, de farda e baioneta, coisa que nunca se vira por aquelas paragens. Era apenas um aviso do que aconteceria nos dias seguintes: o capitão Fabrício fora nomeado recrutador de jovens para a guerra em todo o termo de Alenquer e tinha ordens do presidente da Província do Pará para encher o navio que logo passaria por ali, embarcando “voluntários”, isto é, jovens para a guerra do Paraguai. Essa história é contada por um dos melhores escritores brasileiros, Herculano Marcos Inglês de Sousa, nascido em Óbidos em 28 de dezembro de 1853, autor de diversos outros romances que enobrecem a literatura brasileira, embora seja Inglês de Sousa pouco conhecido no Pará, por razões que só os professores de Português e Literatura podem explicar. Ele foi amigo de Machado de Assis e de outro grande obidense, José Veríssimo, com os quais contribuiu para a fundação da academia Brasileira de Letras, da qual participou da primeira diretoria." 

"O livro onde se encontra essa história tem como título Contos Amazônicos e eu o encontrei numa livraria dentro do campus da Unicamp, em Campinas-SP. Trata-se de nove contos sobre a vida no interior paraense do final do século 19, revelando que, em um século e meio, muito pouco mudou no interior do mundo amazônico".

"Finalizando a história: a comissão de recrutamento chegou ao vilarejo onde Pedro e Rosa moravam e foram pegando “voluntariamente” os jovens que eles achavam aptos para os treinamentos em Belém e no Rio de Janeiro, antes de partirem para o front, lá longe no Sul. Obviamente, ninguém queria ir, aquela guerra era longe demais, tudo era diferente. A garotada tentava se esconder, mas era agarrada a unha e posta no barco que os levaria primeiro para Santarém, onde um navio os apanharia."

"ARRIMO DE FAMÍLIA Pedro e a mãe, já instruídos por algum amigo mais esclarecido, argumentaram que ele não poderia ser recrutado por ser arrimo de família, conforme dizia a lei do Imperador. Ocorre que o jovem Pedro era o mais forte de todos e os recrutadores fizeram da lei letra morta, levando-o também para Santarém. Colocados num casarão que Inglês de Sousa chama de quartel, os rapazes amontoavam-se à espera do navio que os levaria a Belém. Pedro entre eles. Sua mãe, já idosa, viajou para Santarém. Conta Inglês de Sousa que, ele próprio advogado, entrou com um pedido de habeas corpus em favor do jovem, mostrando ao juiz o benefício da lei de recrutamento relativa a pessoas que eram arrimos de família."

"Quando o delegado de polícia soube do tal habeas corpus, mandou algemar Pedro e, na calada da noite, o despachou de canoa, na véspera da chegada do navio, levado por soldados até mais ou menos a boca do Rio Ituqui. Quando o navio aportou em Santarém, mães e pais dos jovens agarrados à força, estavam naquela cidade, implorando pelos filhos. Inutilmente." 

"Pela tarde, sol escaldante, sai do quartel a fila dos “voluntários”, todos algemados, acompanhados por uma banda de música chamada justamente para impedir os parentes e a população em geral de ouvir o choro da garotada. Inglês de Sousa olhava aquele desfile que mais parecia um cortejo fúnebre. Não viu Pedro, em nome do qual pedira ao juiz o cumprimento da lei de recrutamento, e fora atendido. Num instante, imaginou ter obtido êxito, porém logo foi informado do paradeiro do rapaz, que lá longe esperava a passagem do navio para ser embarcado. Sabendo disso, foi ao juiz e reclamou verbalmente. O juiz então lhe disse: colega, você ainda é muito moço, não queira ser a palmatória do mundo. E acrescentou: sabe de uma coisa? Vamos tomar um café…







Voluntários da pátria é o nome dado aos corpos de soldados criados pelo governo brasileiro no início da Guerra do Paraguai.
LOAS AO IMPERADOR E assim foram aqueles “voluntários”, algemados, para as quintas da guerra. Quem ficou perambulando pela praia foi a velha tapuia, a Tia Rosa, que enlouqueceu diante da brutal arbitrariedade que lhe retirou o único filho e a única pessoa a quem amava. Foi como se ela tivesse assistido ao enterro de Pedro vivo. Assim termina Inglês de Sousa a sua história:
“Ainda há bem pouco tempo vagava pela cidade de Santarém uma pobre tapuia doida. A maior parte do dia passava-o a percorrer a praia, com o olhar perdido no horizonte, cantando com voz trêmula e desenxabida a quadrinha popular:
Meu anel de diamantes
Caiu n’água e foi ao fundo;
Os peixinhos me disseram:
Viva Dom Pedro Segundo!
Nos versinhos repetidos pela Velha Rosa, chorando a perda do filho único, talvez repouse a essência de uma ditadura permanente contra os pobres, para os quais a lei é sempre a do mais forte, do alfabetizado, do endinheirado, da “autoridade” que faz da lei o que bem quer." (Manuel Dutra).


Imagem relacionada
igreja de Nossa Senhora da Conceição, vila de Benfica (Benevides-PA).

https://pt.wikipedia.org/wiki/Benfica_(Benevides)

sábado, 28 de outubro de 2017

80 OUTUBROS E PRA QUÊ?



Resultado de imagem

o poeta enquanto jovem, José Varella Pereira (Belém do Pará, 30/10/1937).










para minha companheira Palmira, com amor.






Quem sabe agora sou um bom menino 
Dos tais que detestam Papai Noel sobre todas as coisas
Aquele propagandista lojista a presentear filhos de rico
Esquecendo o presente, passado e futuro 
das pobres criancinhas da Criaturada grande de Dalcídio.

Me lembro da trapalhada natalina de minha santa mãezinha
Sustento familiar da lenda a crédito do velho farsante
Ela com amor e arte fez pra mim lindo pássaro encarnado
Amei sobretudo dar o flagrante e desmentir a ingênua estória
Se já não bastasse a Cegonha competir com aves amazônicas
na entrega de curumins em vilas e lugares aportuguesados
O pai Noel diz-que tinha atravessado o Mar-Oceano
Só pra me trazer uma lembrança civilizada e aos outros nada
Naquela vila que nem vila era: a vilarana de minha infância.
.
Eu malvado a bagunçar ensaio das Pastorinhas das meninas
Desespero de minha mana pastora da estrela de Belém 
Presépio vilarinho de algodão e papel crepon... 
Em junho a vila havia mais alegria: beijos de moça e arroz doce,
fogueiras nas ruas, foguete, boi-Bumbá e cordões de pássaro. 

Ilha filha da pororoca Marajó da minha avó mangabeuara
que morreu de parto
Papai tinha sangue cabano, ele casou sua natividade tapuia
com os olhos azuis da galega minha mãe bárbara 
convertida católica Apostólica Romana
Dois rios profundos correm para o mar de minhas heranças
Vidas e mortes que se confundem neste ser que vos fala
Versos estúrdios afloram a bordo de uma vida singular
bairro do Fim do Mundo entre chuvas e piracemas
desde o primeiro dia de fecundação 
depois da primeira noite do mundo 
quando o Mito habitava o fundo do rio de Heráclito
no qual não se mergulha duas vezes:
mistério do carocinho de tucumã do menino Alfredo
onde o segredo da vida e da morte se esconde que nem 
num jogo de búzios 

(não é à toa que eu e minha cara metade princesa da Guiné; 
usamos alianças de tucumã, o espinhoso 'Astrocarium vulgare
cujo doce fruto dá o sumo dourado da divina Canhapira: 
alquimia do casamento de índios e negros no mocambo).

Nasci jito feito peixinho no bucho da Cobragrande
minha mãe pariu-me na pedra da maternidade da Santa Casa
Nove meses de gestação normal e aquele medo ancestral
Que será que será que vinha a furo?
Grito de dor da mãe noviça, berro de susto do recém nascido
Nascemos todos e todas entre fezes e urina: forte coisa é o sangue!
Até ali a travessia da baía em canoa à vela
A bela e a fera rezando a pedir águas calmas e pastos verdejantes
Nossa senhora dos Navegantes
Outubro é mês de vento verão, verão! Banzeiro
Preces e aflição. Valei-nos Senhora da concepção!

Tempos depois exílio na cidade grande primeira ceia de natal 
Barraco alugado em riba de lamaçal no igapó malmente aterrado
De véspera no jornal o filho orgulhoso repeliu gorda propina
oferecida gentilmente por contrabandistas de café:
informado sobre o caso o editor dissera que o jovem repórter
em apreço era puto novo... 
Porém na mesa de natal havia só uma laranja para dois cristãos.
Nada mais. 
Belém, Belém sinos repicavam e fogos estrugiam no ar febril. 
Porém àquela feliz noite de Natal mãe e filho 
Foram dormir e sonhar apesar de tudo pensando 
que a vida é bela e o mundo bom.
Já dizia o índio condenado na visitação do Santo Ofício a Bahia:
"Deus fez o homem para dormir e sonhar" com a Terra sem Mal.

80 Outubros e pra quê?

Pra comer peixe frito com pirão de açaí nas varjas do Paraíso
Isto sim é felicidade de verdade não as ilusões da Cidade.
Muita merencendência paresque do caboquinho
Quando jito no Fim do Mundo a dar os primeiros passos
Lá no Itaguari minha vilarana de infância
Confronte à ilha do Quati onde no fundo mora a Cobragrande
porto imaginário do Navio Encantado.
bem dizer eu morri afogado na beira do rio Marajó-Açu 
aos sete anos de idade: a Iara queria me encantar, será?

80 Outubros e pra quê?

Pra saber paresque quem inventou o mundo
Que não se pode querer pirulito sem ter dinheiro
pra pagar...
Achar por acaso passagem na terceira margem do rio 
Entre o dito Fim do Mundo e a Terra sem Mal além do horizonte.
Ou seja, descobrir o lio entre a dura realidade e o mito bacana
Subir ao espingarito das nuvens por riba do arco-íris do céu
Encostar a canoa doida no porto da mãe da Chuva.
Quando menino inocente prometi ficar pra semente
Ser paresque uma parruda Samaumeira sobre varja chã.
Viver a semear tempo ao deus dará do vento
Contar mil e tontas vezes o que ninguém quer saber
Vagar pelo vasto mundo sem arredar pé do meu chão
Nunca deixar de me perguntar acerca do porquê das coisas.

80 Outubros e pra quê?

Lao Tsé venerável mestre do Tao diz-que já nasceu velho 
Eu podia morrer jitinho que nem passarinho enquanto anjo
uma das 1001 ciladas em que se ceifam vidas de crianças 
Eiras e beiras onde Judas perdeu as botas. 
Tal qual tio Manuel nasceu morto, gêmeo de meu pai caboco 
cujo parto custou a vida de minha avó tapuia
Eu queria morrer tomando vinho de açaí
Olhando passar o cordão vermelho em revoada por aí
Ave guarás! Espíritos caruanas invisíveis a olhos profanos
Ir-me sem queixas ao cair da tarde de um dia de domingo
Segunda-feira a despedida desta minha lida 
Ao som de atabaques do além e carimbó festeiro do aquém.

80 Outubros e pra quê?

O jovem Dalcídio em seus 20 e poucos anos
Quando morresse queria ser enterrado no solo de sua Cachoeira
Beira do rio Arari em frente ao chalé do Chove 
Sob a sombra da árvore de infância Folha-Miúda: 
mas quando ele morreu no rio de Janeiro fevereiro e março
Não sabíamos do testamento sentimental feito cedo demais.
Eu porém enquanto ainda era gente
Desejei passar pelo rito do fogo como no sagrado Ganges
Cinzas ao vento paresque sementinhas emplumadas 
da gigante árvore da chuva a cair sobre campos do Marajó
A fertilizar verdes campinas para pasto de rebanhos e matinadas.
Masporém se na vida eu já não me pertenço mais
Que dirá na morte. Misteriosa que nem a primeira noite do mundo 
que não sabe se é fim ou começo doutro dia.

80 Outubros e pra quê?

Agora mesmo é que eu não sei
Nunca soube ao certo quem eu sou
Donde vim e aonde vou
Desconfio apenas que esta vida é minha chance
de descobrir que a Vida é eterna enquanto permanece
que nem a lagartixa mágica Tamaquaré mundiando a presa
Sentado à beira do rio a ver navios até o fim do dia
Ai de mim Quixote tão corrupio, Sancho tão catavento
Cavaleiro e escudeiro da ilha da Barataria ao mesmo tempo.

Penitência de frade velho praticante zen-bubuia
A desfiar fibra por fibra pecados de mundos a fundo perdido
Se eu me chamasse Raimundo que nem meu bisavô
Voluntário da pátria e devoto de Santa Rita de Cássia
teria plagiado o poeta Carlos Drummond de Andrade 
mas não seria rima nem solução.
Na mocidade fui mui desassossegado 
A correr atrás de gado do vento e papagaio caído do ar
com linha de cerol por ruas e cercas de quintais.

Que farei eu agora destes meus inacreditáveis eus?
As eras já me pesam nos costados
Eu batelão velho roído de tempo
Eu palimpsesto comido de traças
Casa das canoas furadas carregadas de Drogas do sertão
Assombração de tropas de resgate...
Barco arruinado na tapera do estaleiro do avô
Ando devagar porque na pressa caí do cavalo
Esperei passar a raiva junto com o tombo
A mocidade se foi montada num animal arisco e mal domado
Deixei esfriar o sol e esquentar a cerveja com as desilusões
Fui embora na voadeira veloz que dobra o estirão.

Paresque que nem o prodígio de Josué na santa Bíblia
hei de frear o Sol e a Lua até conquistar a Terra sem Mal
Ser instrumento da sua paz verde que quero ver encarnada.
O céu a desabar sobre a cabeça dos guerreiros atônitos
Fado da vingança e o pesado fardo de sangue.
Meu avô festejou 60 anos de idade como quem partiu ou morreu
Então ele parou o relógio do Chalé e a maré no rio fez tipacoema
O branco velho dobrou a casa dos 100 sem se dar conta
Contam que a partir dali ele passou a vida em brancas nuvens 
Mas de repente se foi assim como chegou com a tipografia, 
a biblioteca e as revistas Chácaras e Quintais pra nunca mais.

No dia dos meus 30 anos chorei feito criança, mais perdido
que cachorro caído do caminhão de mudança...
Que diabo eu havia feito da minha vida?
Só e mal acompanhado encolhido a um canto a curtir
Desemprego, consumição, depressão e síndrome do pânico:
No fundo do buraco com minha inútil revolta 
Eu morri de vergonha: foi paresque minha segunda morte.

Não foram três dias entre os mortos, mas três anos depois 
Ressuscitei em Brasília, conheci o amor da minha vida 
e a vida continuou pra mim melhor que antes...
E lá vieram filhos, a filha linda como a aurora e netas maravilhosas,
noras divinas e um filho temporão quase neto
E um menino grande que já se foi e dele a gente fala todo dia
45 anos de cumplicidade: dores e alegrias
minha Senhora de Nazaré mãe dos filhos meus.
Aos 60 eu já queria libertar geral as tribos perdidas
Ledo engano! Mais uma vez sentar e aprender, aprender, aprender...
Quem me dera agora só um tempinho a mais
Não pra rir nem pra chorar, mas compreender.

80 Outubros e pra quê?

Para enfim amansar meus sentimentos e saber dizer, de verdade
Muito Obrigado do fundão do coração 
A todas e a todos amores da minha vida.
Masporém, muita atenção mea gente. Isto não é uma despedida. 
É tão-só um álibi de caboco velho 
pra pedir prorrogação de tempo por prazo indeterminado.

Viver é lutar com amor e fé na humanidade!


domingo, 1 de outubro de 2017

O MARAJÓ É VASTO MUNDO DE RESILIÊNCIA, ENCANTARIA E VIVÊNCIAS FORA DE SÉRIE.

Imagem relacionada
Mestre Juvêncio da Tapera (Soure - Ilha do Marajó, 1905 - 2008) 103 anos de vida digna de memória: símbolo do Vaqueiro Marajoara corajoso e dedicado ao seu ofício tradicional.




Como diria o outro, confesso que vivi! Não sou Pablo Neruda, masporém também faço confissões autobiográficas e conto histórias dos outros... Começo por dizer no blogue da Criaturada que o que eu mais queria era escrever romance, que nem Dalcídio Jurandir e Guimarães Rosa. Até, paresque, alguém me apelidar de "Dalcídio Guimarães", síntese de dois monstros sagrados... Doce ilusão! Um chefe de repartição incomodado de me ver passar horas a fio com livro à mão anotando coisas no caderno, para encher meu saco, lembrava que os burocratas não são pagos para pensar, chamando-me às vezes de "Guimarães Rosa". 

Passei muitos dias e noites num louco exercício de Sísifo: escrevi uns dois calhamaços de pretensão literária, mas por fim deixei o palimpsesto de lado, fui cantar noutra freguesia e me arvorei a defensor da Criaturada grande de Dalcídio (índio, preto, mameluco, carafuz, curiboca, brancarana, caboco), patuleia rasa na qual me acho com orgulho é fé natural de pajé metido a doutor em tudo que é humano. Claro que eu me "desconverti" da vaidosa civilização acidental anti-cristã. A santíssima colonialidade com seus pés de cabra aparecendo fora do manto. Caíram-me as escamas dos olhos, que nem a Saulo de Tarso brabo como o Cão chupando manga a caminho de Damasco, a fim de arrancar pela raiz a heresia primitiva igualitária da Galileia. 

A diferença é que o Cristo libertador que eu vi no caminho para o cativeiro de Belém do Grão-Pará, a me falar das águas profundas do Inconsciente coletivo, em figura de pescador panema; este senhor Jesus de que os crentes falam não é, de modo nenhum, inimigo de Jurupari, nem de Tupã, nem de Oxalá, nem de Buda, nem de Javé, nem de Maomé, Lao-Tsé, Confúcio, Sócrates ou Zoroastro. Muito pelo contrário, o divino Espírito filho do Homem, que nem Brama, o ser cósmico; abraça todos mundos e fundos passados, presentes e futuros. 

A vida e a morte são os dois lados da única ponte para o eterno vir a ser. O deus de Espinosa. Mas, será que as mestras matriarcas da cerâmica marajoara já não sabiam? Ou somos nós que ainda não aprendemos a ler o recado ancestral dos "cacos de índio" e a compreender a memória negra da escravatura que, por acaso, o Museu do Marajó se tornou fiel depositário em favor das futuras gerações como o padre Gallo manifestou em seus escritos? 

Esta estupenda coisa me aconteceu quando dei fé - por necessidade e acaso -, de que os brancos da família somos todos farinha do mesmo saco: ralé judia dispersa pelos caminhos do mundo desde o cativeiro da Babilônia, massagada árabe fadada a tornar-se Midas deportado nas caravelas dos Turcos encantados na sina do Purgatório tropical nas colônias, a fim de procurar sem fim tesouros ocultos enterrados... A coisa se me deu na telha quando minha avó postiça Sophia Tautonila (a verdadeira foi a índia Antônia Silva, nascida na aldeia da Mangabeira; que morreu de parto de gêmeos no dia 22 de agosto de 1904, da tragédia familiar sobreviveu aquelezinho que viria ser meu pai caboco, seu Rodolpho Antonio Pereira). 

Vovó Sophia, na verdade tia, irmã mais velha e mãe adotiva de meu pai; um belo dia na hora da sesta me emprestou, com grande solenidade e recomendação, um exemplar da primeira edição do romance Marajó, dizendo-me: "pega e lê, foi escrito pelo teu tio Dalcídio"... Deste tio quase eu não sabia a existência, ele morava no Rio de Janeiro com seus irmãos do segundo casamento de meu avô Alfredo Nascimento Pereira (Benfica, 1849 - Ponta de Pedras, 1955) e a finada dona Margarida Ramos. O capitão Alfredo emplacou um terceiro casamento, este último com dona Isabel Trindade uma senhora negra que ao se referir ao pai de seus filhos o chamava de "branco velho". O branco velho terminou seus dias na vila de Ponta de Pedras com a avançada idade de 106 anos, de uma maneira como se ele tivesse parado no tempo ao comemorar o aniversário dos 61 anos, cercado de todos seus filhos, dona Margarida e diversos amigos na vila de Cachoeira, dia 30 de abril de 1910. Esta foi, paresque, a primeira e derradeira vez que o capitão Alfredo Nascimento Pereira festejou seu aniversário.

Por coincidência, grande devoto de Santa Rita de Cássia e fiel zelador da imagem da santa que seu pai Raymundo Pereira, voluntário da Pátria, trouxe da guerra do Paraguai; o capitão fazia aniversário no mesmo dia de emancipação do município de Ponta de Pedras. Mas a gente não sabia nem comemorava aqueles dois aniversários: o do capitão por haver esquecido e  o da vila por que não se conhecia a data... Meu avô paterno teve três mulheres em sucessiva viuvez e casamentos, uma índia e duas negras: com a índia ele teve sete filhos, com primeira preta seis e com a segunda cinco. Ou seja, dezoito filhos no total, noves fora outros que ele houve antes de casar na Igreja (no Civil consta que ele nunca casou), diz-que na mocidade o estudante de Direito arranjou amásia na ilha do Mamão, arquipélago do Guajará às ilhargas da Tatuóca, Cotijuba e Arapiranga, segundo a história oral da família. 

Por acaso, conheci duas venerandas senhoras da fina flor da elite de Cachoeira e Ponta de Pedras, respectivamente, que me disseram ter sido apaixonadas pelo meu avô Alfredo. A primeira era filha de fazendeiro coronel da Guarda Nacional e a segunda moça família dos fundadores da vila de Ponta de Pedras, aluna do professor Alfredo e colega de minha avó índia Antonia "magra e de canela piririca" com cicatrizes de piodermite, é claro. Por que motivo o moço bonito cobiçado das donzelas brancas não deu golpe do baú casando-se com alguma rica herdeira dos Contemplados do Marquês de Pombal? É certo que, de outro modo; eu não estaria aqui contando história nem nenhum dos filhos e netos da índia Antônia e das negras Margarida e Isabel... Assim é a vida. Passa de bubuia na correnteza do rio de Heráclito. Havia um mistério na vida deste meu avô nascido na vila de Benfica, na antiga Colônia de Benevides; talvez a alma peregrina de um descendente de Moisés na pele de um discreto cristão-novo. Quem sabe? E quantos outros cripto-judeus na diáspora entre chuvas e esquecimentos da Amazônia colonial?

O capitão Alfredo Pereira viveu tranquilo e honestamente como professor nas vilas de Muaná e Ponta de Pedras, secretário da Intendência e editor da folha miúda O Arary em Cachoeira, rábula considerado e membro do Apostolado da Oração na paróquia de Nossa Senhora da Conceição de Ponta de Pedras, cercado de livros e filhos como se ele tivesse, a exemplo de Josué na Bíblia; parado o tempo no dia 30 de abril de 1910, ao completar 61 anos de idade: a lua fixa sobre a baía do Marajó e o sol parado que nem o olho que tudo vê, sobre os campos de Cachoeira nas bandas do Araquiçaua, onde o astro rei ata rede e dorme o sono profundo da lenda da primeira noite do mundo. 

Era, paresque, como se o avô que eu via todos os dias a caminhar na vila ali vivesse perto de nós, porém ausente. Ele mesmo e seus parentes mais próximos perderam a conta dos aniversários que passaram em brancas nuvens. Eu descobri tardiamente a data natalícia avoenga pelo álbum Dalcídio Jurandir - Romancista da Amazônia (2006), no qual se vê fac-símile de recorte de jornal de Cachoeira do Arari, edição de 30/04/1910, festejando ao aniversário do capitão Alfredo Nascimento Pereira, no mesmo dia que ele fez 61 anos de idade. Ponto final... Então é isto, no dia 30 de abril de 1910, o tempo parou para o capitão. Aparentemente, ninguém percebeu... 

Seu filho caçula, meu tio Adeflorindo Belassi Pereira, é alguns anos mais novo que eu, que eu nasci em 1937. Portanto, no meu nascimento meu avô contava 88 anos de idade. Calcule, então, um velho de 90 anos ainda fazendo filho! Incrível, porém eu não duvido da honra de dona Isabel Trindade, comadre de dona Othilia Varella, minha querida mãe. Foi assim, suavemente, como um milagre de Santa Rita de Cássia e magia dos pajés sacacas, que o capitão chegou aos 106 anos, íntegro; sem ninguém prestar atenção inclusive ele mesmo. 

O capitão Alfredo ultrapassou três anos de vida a mais que o preto Juvêncio, festejado com merecendência na cidade de Soure. Mas, em Ponta de Pedras não se comemorou o derradeiro natalício do capitão. Tal qual o aniversário do município, que nós muito distraídos só soubemos dois anos depois do Centenário (1978), comemorado com atraso em 1980. A festa do Centenário aconteceu graças ao documentarista Jessé Dantas de Feitosa, o qual guardava cópia autêntica da ata de instalação da nova Vila de Ponta de Pedras desmembrada da jurisdição da Vila da Cachoeira, que lhe teria confiado o prefeito Pedro Boulhosa Sobrinho, na fundada esperança de que, no futuro, haveria de servir a alguma coisa. Assim a gente soube que o município teve autonomia em 30 de abril de 1878: mesmo dia em que o professor Alfredo fez 29 anos de idade, quanto talvez as alunas da escola da vila suspiravam por ele. 

Lembro-me dele em poucas ocasiões, havia voz rouca e falava baixo como um homem de 90 anos, num discurso na Prefeitura subiu e desceu a escada sem ajuda, paletó e gravata desalinhados... De tamancos, como costumava ir trabalhar na Intendência de Cachoeira? Não me lembro... Não usava óculos, mas certa vez deduziu que o sol parecia enfraquecer a luz, posto que antes ele não podia mirar o astro solar diretamente. Todavia, nos últimos tempos podia fazê-lo. Acho que o velho não se deu conta do passar do tempo, nem de uma provável catarata devida à idade avançada.  

Estas coisas me vem à mente quando me lembrei de Juvêncio a dizer, com simplicidade, ao branco francês que no Marajó já não há pajés sacacas (verdadeiros), que os que restam são curandeiros e querem dinheiro... O preto velho não imaginava estar diante do famoso Jack Lang, ministro da Cultura de Mitterrand... Teria ouvido falar de Mitterrand? Viu aquela foto formidável na qual o presidente da França aparece fascinado olhando de soslaio o batoque labial de cacique Raoni? Mundos paralelos. Em Soure, o francês midiático ficou pasmo ao ver aquele velho vaqueiro preto tirar chapéu para rogar a Deus que tivesse seu patrão latifundiário em bom lugar no céu. Pas possible, inacreditável! Como monsieur Lang de retorno a Paris iria contar uma coisa dessas? Mundo mundo, vasto mundo se eu me chamasse Carlos Drummond de Andrade talvez o mundo entendesse o que eu queria dizer.


-- Missunga, ó Missunga!
    A terra parecia subir pelos homens, bichos e árvores com o calor.
    Solidão.
    Famaleal farejava entre as folhas moídas. Missunga voltou. O casarão do Paricatuba, com seu escuro telhado entre coqueiros e bacabeiras, lhe dava impressão de fadiga e de quase ressentimento. 
(Dalcídio Jurandir, Marajó, 4ª ed., 2008, 31).





Resultado de imagem para foto preto Juvencio de Soure
Os amigos Sourenses devem conservar seu patrimônio invisível revelando a memória da terra: poderiam fazer parceria com o Ecomuseu da Amazônia / Escola-Bosque Eidorfe Moreira (ilha de Cararateua, Distrito do Outeiro, município de Belém), organizar por exemplo um "ecomuseu dos Maruanazes" pelo qual falará o rio Paracauari, o Pesqueiro, Cajuúna e tudo mais aos jovens e as crianças pela boca dos mais velhos.

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

PONTA DE PEDRAS: NOVOS TEMPOS, VELHOS LUGARES DE MEMÓRIA

São Francisco do Marajó: 
velhas raízes e novas esperanças de Ponta de Pedras.


capela de São Francisco de Borja, na fazenda Malato,
antiga São Francisco da missão dos Jesuítas no Pará e
primeira sesmaria da Companhia de Jesus no Marajó.

Araraiana, Urinduba, Paricatuba... Itaguari, Marajó-Açu, Marajó-Ité, Anabiju, Paruru-Açu, Arapiná, Saracá, Anajás-Mirim, Crairu, Ipauçu, Arapirança, Moirim, Panema, Dixiú, Cucuira, Jaguarajó... Sororoca, Bacurituba, Araquiçaua... Vestígios de um patrimônio invisível de lugares de grande antiguidade que hoje o povo já não sabe mais o significado. Sem estudo e sem interesse vão se perdendo da memória para dar lugar a novas ocupações sempre na boa esperança de mudar de vida.

Povo sem passado é povo sem futuro. Água mole em pedra dura tanto bate até que fura... Talvez donde menos se espera saia o primeiro passo para organizar o tão falado e ainda pouco compreendido Ecomuseu do Itaguari. Com este pequeno e inesperado passo, um significativo movimento socioambiental interessando o crescimento do IDH da Criaturada grande de Dalcídio Jurandir como um todo em toda Amazônia Marajoara...

Perdem-se na noite do tempo os primeiros povoadores indígenas do maior arquipélago fluviomarinho da Terra – Marajó. Uma área territorial insular maior que cada um dos estados de Sergipe, Alagoas ou Rio de Janeiro. Todavia, passados mais de três séculos e meio a maior parte dos quase 600 mil marajoaras de hoje são extremamente pobres, isolados e desletrados, mas ainda assim guardam a herança ancestral da índia tapuia (Aruak), que pariu os primeiros cafuzos filhos de negro escravo refugiado nos mocambos dos centros da ilha grande. Ou teve filho curiboca com guerreiro tupinambá em horas mortas das “tropas de resgate” (caçadores de “negros da terra”) ou desertor mameluco que se escondia da forca da autoridade colonial entre índios bravios nas Ilhas. Por fim, a índia tapuia foi aquela marajoara amásia de degredado luso fugitivo da tirania do regime, casada a pulso (para não dizer estuprada) com o rude colono açoriano, mandado junto aos casais povoar o Maranhão e Grão-Pará fecundando a terra conquistada da maior prole possível, capaz de domesticar tanto “espaço vazio” na imaginação dos donos do poder afastados dos reais acontecimentos da vida.

Esta pobre gente restou despossuída da própria terra natal, ilhada em si mesma, vítima do analfabetismo mais crasso. Porém – sem saber da utopia selvagem do bravo antropófago Tupinambá, nem do tratado de Tordesilhas (1494) entre portuguese e castelhanos – a dita criaturada foi “pedra” no meio do caminho da conquista do rio Babel ou das Amazonas (cf. “Rio Babel – a história das línguas na Amazônia”, de José Ribamar Bessa Freire).

Hoje para inventar o futuro, a gente carece fazer arqueologia de “cacos de índio” no Museu do Marajó. Adivinhar o passado pelas margens e entrelinhas de uma historiografia disparatada prenhe de erros, enganos e omissões. O farol Itaguari (“ponta de pedra”) é mais que sinal de navegação entre pedras perigosas em noite escura... Sua luz simbolicamente nos mostra o caminho das águas onde o Marajó velho de guerra começa. Quem sabe, então, aquela tricentenária “ponta de pedras” que o valente guerreiro tupinambá temia ultrapassar no passado; não esconde um patrimônio invisível, a passagem encantada para a terceira margem do rio: lugar sagrado onde não há fome, trabalho escravo, doença, velhice e morte. Onde reside a sonhada yby marãey (terra sem males) e a concretude da utopia sebastianista do Padre Antônio Vieira.

É verdade que no espaço plano de Euclides os profetas caraíbas nunca poderiam achar o paraíso selvagem, nem os “índios cristãos” poderiam, enquanto índios; assimilar o ideal de cristandade, conforme a utopia evangelizadora do Padre Antônio Vieira. Todavia, apesar de tudo, com o progresso da Ciência e Tecnologia iluminada pelos Direitos Humanos universais, o espaço curvo de Einstein abre caminho à Terra sem Males em comunhão com o reino de Jesus Cristo consumado na terra. Tempo de justiça e paz onde cristãos, judeus e islâmicos viverão como irmãos em meio ao respeito geral entre crentes e não crentes. A paisagem cultural marajoara no contexto dos Brasis e da América do Sol tem diversas leituras e o Itaguari (“ponta de pedra” em língua-geral amazônica ou Nheengatu) poderá dar pé a uma nova história, 371 anos após as pazes de Mapuá (27/08/1659).

Macau, a China que fala português.

Ironia da história: o “padre grande” dos índios, Antônio Vieira, se tornou amigo do rabino de Amesterdã (Holanda) Menassé ben Israel, influenciado por este acabou escrevendo de Cametá a carta secreta ao bispo do Japão a qual levou o tribunal do Santo Ofício a condená-lo por “heresia judaizante”: o famoso Quinto Império do mundo... No Marajó, pouco antes de ser expulso do Pará violentamente, Vieira estabeleceu o pacto de paz com os sete caciques nheengaíbas (Nuaruaques) – Aruãs, Anajás, Mapuás, Pixi-Pixi, Cambocas, Guaianás e Mamaianás – , trazendo para o lado português os Marajoaras estimados, mais ou menos, em 20 mil habitantes incluindo o Amapá contra a amizade e comércio, iniciados cerca de 1599, com os holandeses. Motivo da guerra de 1623 a 1647, os tupinambás aliados aos portugueses e os marajoaras ao lado de holandeses e ingleses.

Que diriam chineses consumidores de soja, minério de ferro, madeira e alumínio se eles soubessem desta curiosa história amazônica, onde a primeira fazenda dos confrades do padre Antônio Vieira acaba de ser vendida a uma multinacional da Holanda e vira porto de transbordo de commodities para a China? Eu acho que o turismo no Marajó poderia ser atrativo a turistas chineses se oferecesse produtos de interesse a eles sem apelar a fantasias. A realidade ultrapassa a ficção. O premiado romance “Marajó”, de Dalcídio Jurandir descreve estórias de Paricatuba, Arariana e Urinduba para denunciar o feudalismo transplantado às fazendas em terras de sesmaria dos padres, expropriadas na metade do século XVIII pelo Marquês de Pombal, cem anos após as pazes de Mapuá, para doação aos Contemplado. A fazenda São Francisco (Malato atual) coube ao sargento-mor Domingos Pereira de Moraes, patriarca talvez da família deste caboco escrivinhador que vos fala.

Falta dizer que a obra “Linha do Parque”, primeiro romance proletário brasileiro, foi escrita pelo “índio sutil” Dalcídio Jurandir no Rio Grande do Sul e traduzido ao russo e mandarino (chinês). Quem sabe algum tradutor chinês, ao saber disto tudo, não vá se interessar em traduzir o romance “Marajó” no bojo da compra e venda da fazenda Malato a bordo da multinacional holandesa fornecedora de commodities para a China? O descobrimento da Amazônia Marajoara é recente, com os trabalhos de pesquisa da arqueóloga Denise Schaan e de história social do professor Agenor Sarraf. Entretanto, grupos nômades teriam percorrido as terras baixas da América do Sul em torno de cinco mil anos, vivendo da coleta de frutos, da caça e da pesca de gapuia. Como se sabe, a pesca de gapuia é a mais tradicional maneira de pescar que o homem inventou. Consiste no aproveitamento da maré seca quando peixes e camarões ficam presos naturalmente no leito de igarapés e lagoas nas praias do mar. Por certo, o homem ribeirinho de cinco mil ou muito mais anos de idade, na constante procura do “de comer”; observou animais terrestres e aves aquáticas se alimentarem de peixes presos durante a maré baixa na varja ou nos lagos nos centros da ilha do Marajó, região do Arari, durante o verão. O homem é aprendiz da mãe natureza.

Com apoio da arqueologia (cf. Cultura Marajoara, Denise Schaan: SENAC, São Paulo, 2010) podemos nos dar conta de que a gapuiação e o gapuiador se acham na base da pirâmide étnica, ecocultural e social da gente marajoara. Citada, expressamente, com vistas a seu bem-estar como destinatária da Área de Proteção Ambiental do Arquipélago do Marajó, na Constituição do Estado do Pará (Art. 13, VI, Parágrafo 2º). Ainda hoje, com certeza, em mais de duas mil ilhas e 500 comunidades locais dos 16 municípios marajoaras; muitas vezes o “vinho” de açaí com pirão de farinha d'água é reforçado com camarão frito e peixe assado pescado de gapuia.

A resiliência do “caboclo” é o âmago da tradicional “cultura marajoara” herdada da mestiçagem por necessidade e acaso entre índios, negros e brancos ilhéus. Este patrimônio humano, mergulhado em pobreza extrema, isolamento e marginalização ao longo de séculos, está em grande risco de se acabar. Por isto, quando entre chuvas e esquecimentos históricos se anuncia em Ponta de Pedras (Marajó) projeto de construção de um estratégico porto de exportação de grãos produzidos no distante Mato Grosso, por acaso a ser edificado às margens da primeira sesmaria da Companhia de Jesus na ilha do Marajó; o porto Malato deve ser oportunidade para uma profunda reflexão, inclusive tendo em vista a carta encíclica “Laudato si” do Papa Francisco, na qual o Bispo de Roma critica o consumismo e o desenvolvimento irresponsável fazendo apelo à mudança e à unificação global das ações para combater a degradação ambiental e as alterações climáticas. A China anuncia ter antecipado para 2020 a erradicação da pobreza extrema prevista para 2030 no Pacto Global.


Já pensaram se, neste mesmo lugar onde outrora a história do município de Ponta de Pedras deu seus primeiros passos nas margens do rio do “homem malvado” (marajó), temido pelas emboscadas armado de zarabatana de braço de paxiúba e dardos de talo da patauá envenenado; um espírito novo de fraternidade entre grandes e pequenos virá brindar a Agenda 2030 dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS)? Por que não? Talvez uma Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) da Fazenda Malato venha ser elo de conexão com o setor privado na Rede Brasil do Pacto Global levando à criação de Mosaico de Unidades de Conservação do Marajó. Enfim, com uma tal parceria local-global Araraiana, Urinduba, Paricatuba e adjacências tirem o pé da miséria a bordo da esperançosa Reserva da Biosfera Marajó-Amazônia para ser estrela da Amazônia Atlântica.