quarta-feira, 21 de agosto de 2019

enraizar e conectar com a comunidade: eis a crucial questão das redes sociais.

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Rocinha - Parque Zoobotânico do Museu Paraense Emílio Goeldi, Belém - Pará.



Existe uma relação umbilical entre a mais antiga cultura complexa da Amazônia - a Cultura Marajoara -, iniciada cerda do ano 400 depois de Cristo, e a primeira instituição científica amazônica, o Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG), fundado em 1866. Nestes 153 anos, construiu-se uma relação dialética entre Natureza e Ciência nas regiões amazônica através do MPEG, na qual as populações com suas culturas regionais conectam-se com o mundo e vice-versa. É claro que não há exclusividade nessa relação externa entre comunidades amazônicas e outras instituições de pesquisa ou mesmo individualmente entre índios, quilombolas, cabocos e pessoas vindas de fora da região para o bem e o mal.

Apesar do logo tempo de relação entre a Academia e Comunidade nas regiões amazônicas, trata-se ainda de uma relação imperfeita que tenta melhorar continuamente, com altos e baixos, através da Extensão em geral de conhecimentos mútuos. Falei da Cultura Marajoara em primeiro lugar por ser este patrimônio brasileiro e do mundo a primeira cultura complexa desta parte do planeta Terra. Mas, não há praticamente para o Museu Paraense uma única região amazônica que lhe seja estranha. 

Neste momento, a Amazônia está no centro das atenções planetárias. A cidadania planetária é o futuro da Humanidade. Todavia, como ensina Edgar Morin; isto não significa o regresso ao imperium universal de tristes memórias. Pelo contrário, é ainda uma utopia factível. Construção de um mundo possível, cujas raízes se acham na vida local das comunidades de gentes, bichos, plantas, ecossistemas e memórias do território desde tempos distantes que vão se perdendo na imaginação humana. Mini pátrias-região dentro da pátria-nação, blocos internacionais e sistema global em dinâmicas e complexos relacionamentos. Sem soberania popular a soberania nacional desvanece pouco a pouco...

Nisto a (pan)Amazônia é riquíssima além das riquezas naturais que são alvo de cobiça do chamado "celeiro do mundo" (Humboldt, 1799), da biodiversidade de seus respectivos biomas nas regiões amazônicas dos países amazônicos Brasil, Bolívia, Peru, Equador, Colômbia, Venezuela, Guiana, Suriname e Guiana francesa. O MPEG é decano das pesquisas na e da Amazônia, isto todos devemos saber. Consequentemente, o jargão ecologista "Amazônia, os pulmões do mundo" já perdeu validade por força da Ciência: a Amazônia sim, resultado do casamento da maior bacia fluvial do planeta com a maior floresta tropical da Terra poderia ser vista com o coração pulsante do mundo. Se este coração for pintado de verde, não há problema... Uma enorme melancia talvez. Pulmões também são vermelhos, mas no caso da Floresta Amazônica ela é velha e consume todo oxigênio que produz...

Por que estou escrevendo isto aqui? Para os poucos que sabem do assunto é como chover no molhado. E aos muitos que deveriam saber, com raras exceções, o palavreado soa desinteressante para além da tragédia de tantos que não sabem ler e escrever. E outros, carentes ainda de internet.. Então é que eu gostaria que a Criaturada (através de mestres como Vergara Filho foi entre nós e continua sendo pela memória de quem teve o privilégio de partilhar experiências de vida com ele) tivesse notícia destas coisas que a "Universidade da Maré" procura levar às populações tradicionais. Quando, por acaso, eu vejo que um amigo à distância 'curtiu' uma coisinha colocada por mim na rede é uma felicidade. Se o amigo da rede social me contradiz, certo ou errado, é oportunidade para eu aprender ou tentar explicar melhor (noves fora casos de ofensa grave e crassa intolerância). 

Desta feita, quero compartilhar minha última utopia. A mais recente, melhor dizendo... A ecomuseologia! Graças ao francês Hugues de Varine tomei lição à distância a respeito do que é território da memória. Logo me dei conta do fato, afinal de contas, de que toda memória tem necessariamente território e todo território é um bem comunitário. Minha escola onde aprendi o que, de fato, o museólogo egresso do venerável museu do Louvre quis dizer às ruas, rios, campos e cidade ao ar livre, foi a internet. Ora, eu sonhei um dia me comunicar à Criaturada grande de Dalcídio... Tentei escrever por papel impresso e fiz dois ensaios, o terceiro está quase na boca do forno... Mas, é um meio muito complicado e seletivo sobretudo onde reina o analfabetismo adulto. Por que então escrever livro a todos e a ninguém? A esperança de que o livro estúrdio do caboco metido a letrado, tal qual garrafa de náufrago confiada à maré, deu à praia onde uma mente curiosa o recolheu e captou o fio de ideia que estava nele. Isto é uma tentativa de metáfora. Para o auspicioso caso em que um desconhecido leia e compreendendo ligue o assunto à poderosa "rádio cipó" no bar, no lar, oficina, escritório, esquina de rua, praça, beira de rio...

Pois saibam que o Museu Goeldi é como uma catedral para nós cabocos: portanto, de modo informal, a UNIVERSIDADE DA MARÉ faz extensão acadêmica não autorizada ao modo dos pajés verdadeiros, que nada cobram e nada pedem em troca... Quando o padre Giovanni Gallo (Turim, 1927 - Belém do Pará, 2003), criador d'O Nosso Museu do Marajó, morreu foi imenso nosso sentimento de orfandade. Eu chorei copiosamente. Aliás, choro sempre que acontece perder alguém que se dedica sinceramente à Criaturada grande, foi assim com meu amigo, irmão e camarada Neuton Miranda... Mas, quando Dalcídio morreu lá no distante Rio de Janeiro eu estava a serviço da Comissão de Limites (PCDL) em Manaus e não chorei: porque eu sabia de seu sofrimento enorme devido ao mal de Parkinson... A morte de meu velho pai também foi para ele uma libertação da velhice e da doença, portanto minhas lágrimas em silêncio foram discretas e agradecidas por toda aquela vida que terminava como uma grande lição de vida para mim. 

O Museu Goeldi socorreu logo o Museu no Marajó órfão de seu criador. E já que falei de meu pai, foi ele quem pela primeira vez me levou a visitar o Parque Zoobotânico, havia eu menos de quinze anos de idade, nós viemos do Marajó para me tratar de uma malária crônica. Naquela tarde eterna de puro encantamento de um caboquinho com seu pai "naturalista" nato foi plena felicidade. Naquele tempo em Belém andava-se muito a pé. Entre o museu e a Cidade Velha "pegamos" uma chuva daquelas que só há em Belém do Pará. Longe de transtorno a chuva foi uma festa para coroar minha primeira visita ao Museu... Apenas Museu, sem mais nada. Museu como devem ser todos os museus de portas abertas cercados por árvores e animais...

De volta à nova museologia. Lembro aquele dia que com meu filho MsC em Ictiologia pelo convênio UFPA/MPEG e a nora MsC em biologia pela UFPA fui recebido pela professora Terezinha Resende e equipe do ECOMUSEU DA AMAZÔNIA, lá na ilha de Caratateua... Começou ali minha "última" utopia. Quem vem da ilha só se contenta em estar noutra ilha. Vivo ultimamente de ilha em ilha Caratateua, Maiandeua, Mosqueiro... Procurando "minha" yby marãey (Terra sem Mal). Lembro do amigo Peter Mann de Toledo, então diretor do Museu Goeldi, ele me pediu por cortesia um resumo da obra Cartas do Sertão de Curt Nimuendajú para Carlos Estevão de Oliveira, que foi publicada no Boletim do MPEG.  

O pedido decorreu da conversa que tivemos sobre a nação Tupinambá ter conquistado a Amazônia abrindo os caminhos do sertão em busca da mítica Terra sem males. Disse-lhe, os guerreiros procuravam pela guerra no espaço plano de Euclides... Nós porém não devemos dar por acabada a demanda do "lugar mágico" onde não existe fome, trabalho escravo, doença, velhice e morte... O caminho para o 'paraíso' na Terra será possível através da Ciência e Tecnologia no espaço curvo de Einstein em justiça paz.

Era isto que eu queria dizer aos companheiros AMIGOS DO MUSEU DO MARAJÓ, sobretudo ao amigo Durval Costa, da equipe de campos do Ecomuseu da Amazônia que chamou minha atenção para o problema da falta de enraizamento do movimento social. Concordo plenamente. Sem raízes a obra socioambiental não teria fundamentos ainda que tivesse um monte de dinheiro. Sem conseguir interligar conhecimentos acadêmicos com os saberes da comunidade seria comparável a plantar palavras ao vento.

https://pt.wikipedia.org/wiki/Museu_Goeldi

quarta-feira, 14 de agosto de 2019

Amazônia Marajoara


"São Francisco Marajoara" (1998), obra de Ismael (Ismaelino Ferreira), escultura em madeira com elementos ornamentais da flora e da fauna amazônica (foto de João Victor Noronha).







A arte, o que é arte? Artesanato é Arte? Para decidir sobre a questão, brigam acadêmicos e artistas populares mundo afora há muitos anos sem nunca chegar a um consenso. Mas, nós podemos dizer singelamente que se por acaso nem todo artesão é artista, em compensação todo artista é artesão: do fato que a palavra tem origem na mão criadora (ou melhor, nos 'artelhos' (dedos da mão) do artesão primitivo, chamado "Homo habilis". E a educação artística pelo barro, a pedra ou a madeira está à base da imaginação que explora os cinco sentidos do Homem.

A arte está por todas as partes do mundo pedindo passagem para se revelar na pessoa do artista desconhecido, a caminho da fama alguma vez, pela sublimação da paisagem que os olhos veem e pela imaginação do mundo que não se veria jamais sem a obra do artista. E temos nós, no Fim do Mundo, algum artista?

A história da arte, desde a pintura rupestre, é talvez a melhor parte da humanidade. E a educação perfeita seria aquela capaz de converter a vida real tal qual a matéria bruta que se transforma nas mãos do artista (como algum dia se dizia de todo e qualquer operário em construção), ele mesmo criador e criatura. Arte e artista ao mesmo tempo em seu modo de ser. O poeta é um poema (apud Agostinho da Silva), ainda quando já tenha regressado ao tempo do sonho donde veio de passagem pela Terra mãe.

Cada tempo e lugar tem a sua arte expressa pelo trabalho de seus artistas. O mundo das artes, segundo antigas concepções, é o espaço criado por artistas bafejados pelos deuses da inspiração.


todo este preâmbulo complicado
pra falar de um cara muito simples.

Ismaelino Ferreira, nosso querido Ismael; nasceu em Ponta de Pedras e faleceu precocemente em Belém, vítima dessas doenças da pobreza que a falta de medicina preventiva escancara nas estatísticas de morte e baixo IDH. Não que o artista e sua família de pequena classe média fossem necessitados, mas quem é rico quando a comunidade onde se vive é carente em quase tudo? 

A "saúde" pública então é porta de entrada de muitas doenças para as quais já tem vacina, como as hepatites, por exemplo. Deixou ele uma obra considerável, infelizmente, interrompida e um exemplo de vida de artista no Purgatório chamado "ilha" do Marajó que, na verdade, é um mundo. 

Sinceramente, eu não me lembro daquele caboquinho em particular entre a pirralhada de "Itaguari" (Ponta de Pedras). Como, em Cachoeira, ninguém poderia prever que aquele mulatinho filho da preta dona Margarida com o branco capitão Alfredo iria no futuro ser o premiado "índio sutil" ganhador do cobiçado Prêmio Machado de Assis, da Academia Brasileira de Letras (único até hoje para um romancista da Amazônia) pelo conjunto de obras do ciclo literário Extremo-Norte. 

Quando prestei atenção num certo Ismael, notavelmente tapuio como tantos outros índios marajoaras com amnésia étnica; ele era já um artesão com nome feito, embora em início de carreira. A terrinha da gente é um celeiro de talentos, modéstia à parte, e nem vou repetir que se trata da terra natal de Dalcídio Jurandir nem desfilar a galeria de jornalistas, escritores, músicos e outros profissionais que deixaram o umbigo enterrado naquele pedregoso chão. Basta lembrar cordões juninos, Boi-bumbá e, sobretudo, a velha banda que acabou sendo, por merecimento próprio, a Banda Sinfônica Antônio Malato representando uma longa tradição musical de raízes populares a toda prova.

Tivemos bons mestres e professores dedicados, que sem maiores recursos didáticos fizeram o melhor possível e nos deixaram boas sementes. Ismael é um exemplo disto que quero aqui dizer: veio de berço humilde, cresceu aproveitando as poucas chances que a vidinha lhe oferecia para expressar sua vocação artística. Sua grande oportunidade foi o "mecenas" e padrinho que encontrou na pessoa do bispo da antiga prelazia, Dom Ângelo Rivatto; no momento certo, oferecendo cursos profissionais a jovens desempregados que se tornaram oleiros, marceneiros, carpinteiros navais, pintores e artesãos. 

É justo recordar aquele jesuíta italiano imperioso, que um dia me disse ser unicamente discípulo de Jesus Cristo no céu e Dom Helder Câmara na terra; na pacata Ponta de Pedras ele foi uma trovoada sob ventos do concílio Vaticano-II, que deu com o costado naquela ilha bárbara onde seu adorado Vieira deixou pegadas pelas beiras do Mapuá na pacificação dos bravos "Nheengaíbas". Rivatto foi quem, sem querer, me deu a dica do acordo de paz entre o "payaçu" dos índios e os sete caciques marajoaras. Acredito que sem o bispo em apreço eu não teria jamais escrito sobre Antônio Vieira, não haveria o artista Ismael que conheci para talhar "São Francisco Marajoara" em cumplicidade com a heresia tropicalista que me assiste.

Quando o embaixador do Brasil em Bogotá (Colômbia) precisou de um artista competente para entalhar uma porta em madeira de mogno com grafismo marajoara para o parque Brasil naquela capital sul-americana, a brilhante ideia esbarrou no vazio. Quem? Onde? Como? Que resposta a secretaria-geral do Itamaraty em Brasilia, exercida pelo paraense de Óbidos Baena Soares, poderia dar ao embaixador brasileiro no país irmão?

Eu era servidor do Itamaraty em Brasília e fui chamado à presença do chefe do Departamento de Administração, embaixador Eduardo Moreira Hosana, outro paraense na casa de Rio Branco; confesso que fiquei apreensivo pois a casa é rígida com a hierarquia (era como se um sargento fosse urgentemente convocado à presença de um general). Hosana nas alturas do ministério brevemente expôs o problema, complicado por vazamento de informação resultando em embaraço entre figurões da política paraense, que o ministério queria evitar de toda maneira. 

Já na ante sala do gabinete um ilustre senador da República aguardava para se entrevistar com o dito chefe de departamento oferecendo como cortesia do governo estadual um projeto onde elementos naturais tais como rãs, vitórias-régias e outras figuras da fauna e da flora amazônica embelezariam o portão ornamental proposto para o parque Brasil de Bogotá.

Face ao imbróglio político que se previa, o embaixador Hosana estava decidido a agradecer a oferta do governo paraense e responder claramente "sim" ou "não" à embaixada em Bogotá ficando o Itamaraty, caso a encomenda fosse realizável, responsável por todos os detalhes da operação até se entregar a "porta marajoara" pronta e acabada na Colômbia. Isto seria possível?

Simples para mim informar, que, de fato, até aquele momento não existiu jamais uma porta marajoara em barro ou madeira e ali se acabaria logo o assunto de uma vez. Entretanto, era rara oportunidade para inventar uma porta evidenciando a cultura marajoara e a competência do artesão pontapedrense. E eu não conhecia nenhum outro que não fosse o caboco chamado Ismaelino Ferreira, na ilha do Marajó, capaz de tamanha invenção. Então, confiando 100% no "taco" de Ismael eu respondi prontamente sim e recebi carta branca para agir imediatamente sem mais tratativas.

O tempo passava e um ministro do gabinete brincava, pressionando-me diplomaticamente dizendo sempre que passava por mim: "olhe lá meu caro, não me venha com uma porta mexicana"... Claro, além de Ismael em seu atelier na distante cooperativa da diocese de Ponta de Pedras eu confiava na equipe de apoio da Comissão Demarcadora de Limites em Belém, dirigida pelo coronel Ivonilo Dias Rocha, um raro administrador público, para elaborar o projeto em detalhes depois de pesquisa na reserva técnica do Museu Paraense Emílio Goeldi a cargo do desenhista José Maria Mesquita Ramos e do engenheiro civil Clovis Rubens Bona, encarregado da missão que entrou em contato com Ismael e acompanhou pessoalmente a execução da obra em Ponta de Pedras, transportando-a depois a Belém aos cuidados da Força Aérea Brasileira despachada regularmente para entrega na embaixada do Brasil em Bogotá. 

Se não bastasse a Ismael ser escultor e entalhador, ainda foi ele locutor da rádio comunitária FM Itaguari, entrevistador e apresentador de programa. Em boa hora o prefeito Bernardino Ribeiro confiou a Ismaelino Ferreira a Secretaria Municipal de Cultura. Com criatividade, podemos dizer, a Prefeitura de Ponta de Pedras se antecipou ao governo do estado que fechou o horroroso e mal assombrado Presídio São José para dar lugar ao esplêndido polo joalheiro São José Liberto. Bem mais modesta, mas não de menor simbolismo local a velha Cadeia Pública se transformou na Secretaria Municipal de Cultura na terra natal de Dalcídio Jurandir, enquanto eu cedido sem ônus para a Prefeitura fazia figura de Secretário Municipal de Meio Ambiente; com Ercílio Marinho na Secretaria Municipal de Turismo formamos um trio caboco de tiradores de água da pedra. Entre outras coisas que não se conseguiu realizar, ficou pra trás a ideia supimpa de criação de um "Prêmio Tapuia" de Cultura e a criação da Fundação Dalcídio Jurandir (FunDAL) abortada por obtusidade política.

Para falar da figura ímpar do artista Ismael, cumpre esclarecer um pouco o fundo histórico da comunidade pontapedrense, onde o artista nasceu e foi plasmado. Então, são necessárias rápidas pinceladas sobre a inaudita experiência humana e pastoral da Prelazia (25/06/1963 - 15/10/1979), depois Diocese de Ponta de Pedras; com seus antecedentes na história do catolicismo na Amazônia em relação dialética com nações indígenas, colonos e escravos africanos no quadro geral de fundo entre Reforma protestante e Contra-Reforma romana e sua posterior evolução até nossos dias. 

No total, visto pelo povo como conjunto de acertos e erros, lá se vão 52 anos de tentativas desde a bula Animorum Societas, do papa Paulo VI criando o território eclesiástico constituído de Ponta de Pedras, Muaná, São Sebastião da Boa Vista, Santa Cruz do Arari e Cachoeira do Arari (em sentido horário a partir da sede episcopal, com a catedral de Nossa Senhora da Conceição) desmembrado da Arquidiocese de Belém do Pará. Hoje, mais que nunca, no mundo globalizado Marajó com uma diocese (Ponta de Pedras) e uma Prelazia (Soure) católicas está ligado há mais dois mil anos de história do Cristianismo.

Nestas mal traçadas linhas, trata-se duma tímida abordagem de história social. Não é preciso ser católico para compreender que sem a missão da Sociedade de Jesus - constituída de poucos e destemidos "soldados de Cristo" -, no século XVII, não existiria sequer a Capitania hereditária da Ilha Grande de Joanes (1665), ou Marajó; adversa aos Jesuítas e nem por isto o donatário lhe pôde negar as sesmarias requeridas, certamente com receio de provocar dano nas relações do reino de Portugal com a Santa Sé... Deve-se ter em mente o fato, extraordinário, que ao contrário de povoadores e exploradores de pau-brasil e cana de açúcar donatários de diversas capitanias no Brasil, a ilha grande do Marajó foi doada ao próprio secretário de estado de el-rei dom Afonso VI, Antônio de Sousa de Macedo, um estadista, patriarca dos Barões de Joanes; que portanto estava a par dos perigos de vizinhança do Pará com as colônias concorrentes de Portugal nas Guianas e Caribe. 

Ninguém melhor que os Jesuítas por perto dos outros sesmeiros particulares ou religiosos (Mercedários e Carmelitas, neste último caso) para segurar e acalmar aqueles "índios bravios, desertores e escravos fugidos" dos centros da ilha (cf. "Notícia Histórica da Ilha Grande de Joanes ou Marajó" de Alexandre Rodrigues Ferreira, 1783), que fizeram retardar a ocupação efetiva da ilha do Marajó durante 64 anos, desde a fundação de Belém do Pará até a construção do primeiro curral de gado cabo-verdiano no rio Arari (1680), pelo carpinteiro português Francisco Rodrigues Pereira.

Sabia o chanceler de Dom Afonso VI, obrigatoriamente, da carta de Vieira, datada de 11 de fevereiro de 1660, ao rei por intermédio da regente mãe, dona Luísa de Gusmão viúva de Dom João IV, relatando a situação da região pacificada após 44 anos de guerra de conquista desde a tomada do Maranhão aos franceses, em 1615, incluindo a expulsão dos holandeses e ingleses do Xingu, Baixo Amazonas e Amapá (1623-1547) até as pazes de Mapuá (Breves) em 1659. 


Por via de consequência, sem a militância pacificadora dos Jesuítas no Marajó sentinela do Norte, o Grão-Pará poderia ter sido uma imensa Guiana Holandesa e não se teria hoje uma Amazônia brasileira. Nossa educação popular carece, profundamente, de cultura histórica. Para isto, os professores teriam que aperfeiçoar seu conhecimento dialético da História fugindo do velho e encardido 'decoreba'. Mas, desgraçadamente, reza o fado segundo o qual a pacificação dos velhos "Nheengaíbas" não tem nenhum "interesse acadêmico"... Sabemos, entretanto, por que isto desinteressa a certos acadêmicos amigos dos donos das sesmarias dos Barões de Joanes e dos herdeiros dos Contemplados.

Ora, o município de Ponta de Pedras - "onde o Marajó começa" e deu a primeira página do romance "Marajó", na suposta fazenda Marinatambalo no rio Paricatuba, primeiro romance sociológico brasileiro - é consequência territorial da velha fazenda São Francisco (Malato), a primeira sesmaria dos Jesuítas na ilha do Marajó expropriada da Missão (1757) e doada (1760) por ordem do Marquês de Pombal ao sargento-mor (major) Domingos Pereira de Moraes, 'contemplado' entre outros homens-bons; antepassado do vereador Antônio Pereira de Moraes, primeiro presidente da Câmara da nova vila de Ponta de Pedras (cf. ata de instalação, de 30/04/1878) e de seu irmão João Pereira de Moraes, vogal da dita Câmara Municipal: não por acaso, a escultura tropicalista "São Francisco Marajoara", obra de Ismael recomendada e encomendada por este neto de índia marajoara da aldeia da Mangabeira que vos fala, é emblemática de toda dimensão desta nossa curiosa história.

O rio Marajó-Açu - que dá nome à ilha e a todos mais topônimos derivados - deu lugar à primeira sesmaria que os padres Jesuítas tiveram na ilha do Marajó, em 1686, com a sede de fazenda São Francisco (depois Malato) em cujas terras havia antes a aldeia dos índios "Guaianazes" [Guaianá], elevada em 1758 em Lugar de Vilar, tendo por padroeiro São Francisco (supostamente de Borja) e foi também nas terras da dita sesmaria formada a aldeia de catequese com índios "mansos" trazidos da aldeia Samaúma (Barcarena), a "aldeia das Mangabeiras" [hoje vila da Mangabeira], que no quadro da expulsão dos Jesuítas (1759) e implantação do Diretório dos Índios (1657-1798) passou junto com o Vilar a se chamarLugar de Ponta de Pedras, tendo Nossa Senhora da Conceição por padroeira (cf. "Notícia Histórica da Ilha Grande de Joanes ou Marajó" de Alexandre Rodrigues Ferreira, 1783).

Fica claro assim, que a origem remota do município de Ponta de Pedras desmembrado de Cachoeira, em 30/04/1878, se encontra nas terras de sesmaria da fazenda São Francisco [depois Malato e agora São Francisco do Marajó] situada na confluência do rio Araraiana com a baía do Marajó. Além desta primeira fazenda dos Jesuítas ainda existiram as fazendas São Braz [Fortaleza] e Nossa Senhora do Rosário [Rosário], na bacia do rio Marajó-Açu, fora as mais que os Jesuítas tiveram no rio e lago Arari, inclusive a fazenda Santa Cruz que veio a ser o município de mesmo nome, desmembrado de Ponta de Pedras em 1960.

O maior impacto da atuação do bispo prelado Dom Ângelo Rivatto S.J. em Ponta de Pedras até hoje é controverso sob o ponto de vista dos pontapedrenses, refere-se à criação de duas cooperativas polêmicas. Na verdade não foram exatamente cooperativas, mas de todo modo, com defeitos e qualidades as "cooperativas de Dom Ângelo" ou da "Nella" (colaboradora Nella Remella, tida e havida como "braço direito" do bispo) fizeram história e deveriam ser estudas sem preconceito como referência para o desenvolvimento territorial do Marajó, em seus pros e contras. O papel social de Nella Remella em Ponta de Pedras, sobretudo com a Casa da Fraternidade, por exemplo, para o povo necessitado não pode ser desprezado sem que se cometa ingratidão.

Sobre isto tudo, é lamentável a falta de imparcialidade e de interesse acadêmico a respeito desta importante experiência socioeconômica da Diocese de Ponta de Pedras durante a missão de Dom Ângelo: no meu modesto ponto de vista, independente, considero um êxito socioambiental sem precedentes, mas infelizmente acompanhado de insustentável fracasso gerencial e econômico. É fato que os membros da comunidade católica de Ponta de Pedras custaram a se acostumar à mudança de estilo do primeiro bispo de Ponta de Pedras para o segundo, Dom Alessio Sacardo S.J. Duas personalidades diferentes talhadas para dois momentos diferentes e agora chega com expectativa a vez de um terceiro bispo, Dom Teodoro Mendes Tavares, nacional de Cabo Verde (África), padre da Congregação do Espírito Santo.

Antes de finalizar, convém falar da "Cooperativa Mista Irmãos Unidos de Ponta de Pedras (COPIUPP)" com a sua feição kibutziana... Mas, quem sabe disto? Quem poderia inventar um "kibutz" caboclo, que na verdade foram agrovilas criadas com a cara e a coragem, fé em Deus e pé na estrada? Praia Grande - esta comunidade, em especial, como projeto-piloto do famoso Programa Pobreza e Meio Ambiente na Amazônia (POEMA) em parceria entre a Universidade Federal do Pará (UFPA) e a Fundação alemã Daimler-Benz -, Armazém, Cajueiro, Antonio Vieira, Cachoeirinha, Ilhinha, Jaguarajó - aqui o inovador projeto de agricultura familiar sustentável da EMBRAPA, que começou com pedido de socorro para salvar o coqueiral que morria e não se sabe bem como acabou depois de seu aparente sucesso técnico -, Santana e Porto Santo, numa "reforma" agrária sem muito barulho na parte mais agreste do município, onde outrora retirantes das secas do Nordeste encontraram água e chão na, então, chamada "Colônia da Mangabeira" ao tempo do prefeito Fango (Wolfango Fontes da Silva), antes da revolução de 1930. 

O bispo voluntarista recebia críticas severas e o conflito instalado com o padre Giovanni Gallo evidenciou problemas internos que ainda se podem deduzir da leitura dos livros do fundador do Museu do Marajó. Uma infelicidade para a gente marajoara que em sua maior parte ainda não entendeu tudo que se passou nem o que poderia ser realizado, caso o trabalho social e pastoral tivesse enveredado por rumos mais serenos.

Ismael foi cria da "Cooperativa Mista Fabril, de Recursos Humanos e Turísticos (COMIFRHUT), das duas a que mais benefícios trouxe para a população carente. Esta foi escola profissional, foi empresa, foi olaria, estaleiro, fábrica de móveis. Tinha, sim, que pegar no tranco e deveria ter seu tempo de maturação e transformação profissional. O mesmo talvez caiba refletir a respeito do Museu do Marajó em sua história de resistência, luta e contradição.


uma imagem vale por cem discursos



"A História como Deus não é para os mortos", dizia o historiador José Honório Rodrigues. Segundo este estudioso da História do Brasil, Deus e a História são para os vivos. Os fatos históricos ocorridos no passado não cessam de fazer efeito no presente e de projetar-se ao futuro... A historiografia são registros momentâneos como um álbum de fotografias ao longo de uma vida em apreciação dos fatos conforme as épocas e os homens na voragem do rio de Heráclito. 

Sem a missão de Angelo Rivatto em Ponta de Pedras não se explicaria a arte de um Ismaelino Ferreira e outros artesãos, agricultores familiares, padres, e tantos personagens da história local. Rivatto pode parecer um santo anjo para uns e um déspota esclarecido para outros, sem tocar no explosivo conflito pessoal com o padre Giovanni Gallo...

Para mim, a obra do Gallo e de Rivatto se complementam inseparavelmente (como aliás Dalcídio Jurandir observou em primeira hora no testemunho da correspondência de Maria de Belém Menezes que falta publicar): reconciliados no leito de morte do padre dos pescadores do Arari, a herança do bispo e do padre jesuítas se desmaterializa dos "cacos de índio" no Museu do Marajó e das terras e construções das imperfeitas "cooperativas", para caminhar no sentido de um alto ideal onde há de atingir a fecundante paz que vem das funduras do Mapuá com os sete caciques confederados por Piyé e a utopia evangelizadora do padre Antônio Vieira na miragem do Quinto Império do mundo. 

A imagem do artista Ismael agora repartida pela internet leva uma mensagem viva para todos os Marajós da vida mundo afora.

sábado, 22 de junho de 2019

CONVERGÊNCIAS: a Extensão Ecomuseológica como instrumento para despertar a consciência histórica da comunidade e enraizar a cidadania no território da memória.

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O chalé do romance Chove nos campos de Cachoeira, de Dalcídio Jurandir, que existiu na cidade de Cachoeira do Arari, na ilha do Marajó, tombado pelo Departamento de Patrimônio Histórico, Artístico e Cultural, da Secretaria de Estada de Cultura (SECULT-PA), objeto de projeto de reconstrução desde o ano de 2010.



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O museu comunitário criado pelo padre Giovanni Gallo (1927-2003) originalmente com formato ocasional de 'ecomuseu' em Santa Cruz do Arari (1973) e transferido no ano de 1983 para a cidade de Cachoeira do Arari onde se acha na atualidade, reaberto no Sesquicentenário do município (1984).




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No dia de São Sebastião, 20 de Janeiro de 2019, o Governador do Estado do Pará visitou o Museu do Marajó, em Cachoeira do Arari, na ilha do Marajó, que estava fechado à visitação por motivos de insegurança do prédio de exposição: Estamos aqui hoje estabelecendo uma parceria com o Museu do Marajó e a prefeitura local, para que possamos, juntos, fazer com que esse espaço volte a ser estruturado e, assim, a história, a memória e a cultura marajoara tenham, nestes ambiente, a sua preservação e valorização”, ressaltou o governador, acrescentando que já existe a ideia de fazer exposições do acervo do museu em outras regiões do Estado, de maneira itinerante, para que “os próprios paraenses possam cada vez mais conhecer e se orgulhar da cultura marajoara” -- Helder Barbalho. Saiba mais: https://redepara.com.br/Noticia/183643/governo-do-estado-assume-compromisso-com-a-manutencao-e-conservacao-do-museu-do-marajo




Parece milagre! Nunca dantes na história da Amazônia Marajoara um governador do estado do Pará rendeu tanta homenagem à Cultura Marajoara como na visita oficial do Governador Helder Barbalho a Cachoeira do Arari, na festa de São Sebastião de 20 de Janeiro de 2019. 

Claro está que, apesar de minha provecta idade, ainda me sobra bastante da antiga ingenuidade dos cabocos meus parentes. Porém eu não estou aqui dizendo que Sua Excelência foi bafejado pelo Espírito Santo ou que seu ilustre staff, subitamente, foi acometido pelo famoso estalo do padre Antônio Vieira... Seja lá como for, a necessidade e o acaso fazem coisas extraordinárias e quando acaba, no fim da história é que a gente se dá conta do que, de fato, aconteceu lá atrás naquele dia passado. Às vezes, leva-se anos para saber que um singelo acontecimento encerra um pequeno grande passo no sentido de algo maior: Giovanni Gallo já estava morto quando percebemos que ele pode ser considerado, sem nenhum favor, criador do primeiro ecomuseu brasileiro e desta supimpa descoberta poderá brotar ainda uma vigorosa extensão ecomuseológica comunitária capaz de despertar centenas de comunidades amazônicas em parceria com escolas e universidades... No caso em apreço, não é sempre que um governador de estado viaja com comitiva a Cachoeira para assistir a festa do Glorioso e visitar o museu do Gallo no propósito declarado de promover a Cultura Marajoara ajudando a Criaturada grande de Dalcídio a se safar das margens da História. 

Entretanto, a história está prenhe de acasos à força de necessidade. A própria vida parece ser resultado do feliz casamento da necessidade com o acaso. E não podemos dizer que a ecologia seja despida de ética: pois não dá pra afirmar que o mais forte sobrevive, mas sim o mais adaptado às leis da mãe natureza. A gente atira no que vê e acerta no que não vê. Será este talvez o caso da visita oficial do Governador ao Nosso Museu do Marajó. Porém, só o futuro irá dizer das consequências daquele inesquecível dia de São Sebastião do ano de 2019 nos causos animados sob a sombra amiga do Pau do Fuxico, durante serões de esmolação da folia de São Sebastião pelas fazendas vizinhas, nas travessias da baia do Marajó para a cidade grande, na espera de novena na igreja matriz, no haver do peso de boatos à porta do mercado. 

Assim foi também a convergência, fora de série, do Prêmio Machado de Assis (1972) ao Romancista da Amazônia, Dalcídio Jurandir; e a chegada inesperada do padre Giovanni Gallo, em 1973, ao lago Arari, levando por acaso à invenção excepcional de O Nosso Museu de Santa Cruz do Arari, a correspondência fiel de Maria de Belém Menezes e o "índio sutil"; o livro-reportagem Marajó, a ditadura da água; a encrenca danada do padre insubmisso com o bispo diocesano intolerante e o prefeito municipal com dor de cotovelos da popularidade do padre italiano entre o povo; a mudança tempestuosa de sua vida e da sede do museu para a fábrica abandonada em Cachoeira até a morte quase de surpresa, em 2003, do Galo, Galinho dos cabocos, Lalá das crianças; terminando por enterrar seus ossos na ilharga do museu comunitário que ele - por necessidade e acaso -, inventou. Àquela altura, há 24 anos passados Dalcídio estava morto e enterrado, lá no Rio de Janeiro distante, o escritor marajoara que ainda jovem manifestou desejo romântico em ser enterrado no chão da sua velha Cachoeira afetiva debaixo da árvore Folha-Miúda, na beira do rio defronte ao Chalé de sua infância. 

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O famoso Pau do Fuxico na cidade de Cachoeira do Arari.

Embora em Paris Georges-Henri Rivière e Hugues de Varine causassem sensação com a revolução do chamado ecomuseu; na distante ilha do Marajó sem saber nadinha de história, arqueologia, museologia e outros saberes acadêmicos; o caboco Vadiquinho sem querer querendo, por acaso provocou o padre Gallo a inventar um museu! Mas não seria um museu qualquer pra inglês ver e nem poderia ser... Para quê, então? Para aquela gentinha entender a ressignificação da cerâmica marajoara pré-colombiana naqueles "cacos de índio" embrulhados e deixados como provocação sobre a mesa do padre que gostava de "coisas que não prestam'... 

Leiam atenciosamente o prefácio escrito pela arqueóloga Denise Schaan à obra "Motivos Ornamentais da Cerâmica Marajoara", de Giovanni Gallo (edição póstuma de 2005). São inúmeros os acontecimentos e atores anônimos ou conhecidos que convergem do tecido da História. Os "cacos


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de índio" que o provocador pescador do lago Arari coletou por acaso nos rastros da destruição dos sítios arqueológicos houve o dom de acordar o etnógrafo que dormia no missionário ainda estrangeiro naquele fim de mundo em necessidade de salvar-se na estranha missão de salvar almas alheias, que talvez não estavam "nem aí" para a própria salvação e o conhecimento do passado distante da comunidade despossuída de memória de seus antepassados indígenas espoliados, escravos humilhados ou colonos imigrantes tangidos da Europa ingrata pela pobreza e a necessidade madrasta. Ali, às margens do Lago ancestral e da História, juntos e misturados por necessidade e acaso. Segundo crenças locais, aquele arremedo de museu do fim do mundo, com que o prefeito municipal antipatizou de cara e o bispo diocesano renegou ainda em projeto; podia ter sido obra de algum caruana tentador, daqueles que desviam pescador panema para roubar gado e arrombar "teso" (sítio arqueológico) entregue ao deusdará. 

Eu também, 17 anos antes do padre Gallo dar com seus olhos daltônicos sobre as palafitas tuíras da vila do Jenipapo; cheguei àquelas bandas morto de sono e fadiga em canoa a remo como um goiaba (marreteiro de gêneros de consumo local em escambo de peixe seco e outros alimentos da caça e da pesca para venda no município vizinho, Ponta de Pedras). Era uma alta e úmida madrugada com um coro de galos madrugadores, paresque, avisavam a estúrdia chegada do goiaba novato: sinal de sangue novo para muriçocas e carapanãs me batizar com o Plasmódio de costume...

Caminho do feio é por onde veio. Baixei o rio com meu camarada e depois do apurado na marretagem a velha e mal curada malária voltou a me molestar. Febres altas a horas certas, delírios pai d'égua... Meu refúgio de sempre: casa de tia Armentina em Belém atrás de remédio e a casa da avó Sophia em Itaguari (Ponta de Pedras), ótima para convalescer. Foi assim, que graças aos caruanas vovó me ofereceu a ler o romance Marajó, dizendo ela que fora escrito por meu tio Dalcídio, que vivia no Rio de Janeiro... Caíram-me as escamas dos olhos. Por isto eu ainda hoje pelejo pela Criaturada grande, tenho consciência de não ter feito grande coisa como seria preciso. Dalcídio já morreu e o Gallo está enterrado no chão de Dalcídio... 

Meu sentimento é semelhante ao rude caco de índio que virou semente de um museu sui generis com potencial de fazer renascer a Cultura Marajoara. Fazendo amigos do Museu do Marajó e interessando parceiros para reconstrução do Chalé cheguei enfim à minha última utopia: participar da rede planetária de ecomuseus e museus comunitários como militante raso, porém fiel... Armado de fé e esperança que cidades educadoras aproximem os povos do mundo e comunidades resilientes refloresçam no bojo de um milhão de aldeias dentro da aldeia global. Uma cidade grande não é mais que um conjunto de pequenas cidades... Eu não posso escutar a canção Vilarejo sem me emocionar e lembrar de minha pequena Itaguari na infância distante, escutando no embalo da rede na hora da sesta o ensaio da banda ao calor da tarde sem fim sob o sol equatorial.  


Vilarejo
Marisa Monte
Há um vilarejo ali
Onde areja um vento bom
Na varanda quem descansa
Vê o horizonte deitar no chão
Pra acalmar o coração
Lá o mundo tem razão
Terra de heróis, lares de mãe
Paraíso se mudou para lá
Por cima das casas cal
Frutas em qualquer quintal
Peitos fartos, filhos fortes
Sonhos semeando o mundo real
Toda a gente cabe lá
Palestina, Shangri-lá
Vem andar e voa
Vem andar e voa
Vem andar e voa
Lá o tempo espera
Lá é primavera
Portas e janelas ficam sempre abertas
Pra sorte entrar
Em todas as mesas pão
Flores enfeitando
Os caminhos, os vestidos
Os destinos e essa canção
Tem um verdadeiro amor
Para quando você for...

terça-feira, 14 de maio de 2019

O Negro na Cabanagem: enigma do mocambo Maravilha






Há 184 anos, a Cabanagem (1835-1840) levou o povo paraense, brevemente, ao poder, entre janeiro de 1835 até março de 1836. Esta foi a primeira vez na história do povo brasileiro que os pobres tomaram o governo, bem antes da Comuna de Paris (1871), porém a revolução paraense terminou em tragédia, com 40 mil mortos numa população regional de apenas 100 mil habitantes.

As lideranças cabanas dilaceradas pela autofagia da insurreição perderam controle da situação, sem conseguir garantir a esperada liberdade aos escravos e dar estabilidade ao novo regime malmente esboçado pelo falecido cônego Batista Campos, envolvido pela disputa neocolonial entre a Igreja e a Maçonaria, que marcou o período da Regência; e foi ele o pivô da revolta popular. O jovem e inexperiente caudilho Eduardo Angelim, que com rasgo de coragem assumiu o comando quando o comandante Antônio Vinagre caiu em meio ao combate do assalto ao Arsenal de Marinha (Convento dos Mercedários), na segunda fase da Cabanagem, após o presidente Francisco Vinagre renunciar e falhar de boa fé nas tratativas com o império do Rio de Janeiro para pacificar o Pará; Angelim expulsando o governo imperial para a ilha de Tatuoca (na baía do Guajará) e assumindo na cidade capital a chefia do governo cabano tentou se impor sobre grupos rebeldes desesperados e mandou fuzilar escravos exaltados sob pretexto de ter "assassinado" seus senhores e feitores durante a convulsão geral da revolta de 7 de janeiro de 1835... 

Lembremos que o historiador Domingos Antônio Raiol, Barão de Guajará, autor do clássico "Motins Políticos"; enfatiza o episódio da Vigia no qual cabanos mataram donos de escravos, dentre os quais seu pai. Eis que Eduardo Angelim tentou demonstrar aos antigos senhores do Pará que o governo saberia castigar os insubordinados e negociar com o Império. Porém, longe deste ato de força salvar a revolução, levou decepção aos negros escravos, que na esperança da liberdade eram os mais dispostos a se sacrificar; lhes fazendo compreender que os chefes da insurreição, tais como o primeiros presidente cabano, fazendeiro Félix Malcher; morto como traidor dos guerrilheiros. Já o segundo presidente, Francisco Vinagre, havia entregue o poder ao representante do Império que, com falsidade, reincidiu nas arbitrariedades que levaram Batista Campos à morte nas matas de Barcarena. Portanto, o passo em falso cometido por Angelim, supostamente aconselhado por sua mulher Luíza Clara e outros brancos próximos; foi o derradeiro desengano da abolição do trabalho escravo no Pará. Foi este erro fatal que determinou os escravos a deixar a capital em desordem para ir se refugiar nos mocambos levando destruição no caminho.

Dentre estes mocambos remanescentes da Cabanagem, o historiador Vicente Salles destacou o denominado "Maravilha" que se formou no Baixo Amazonas, em terras indígenas dos Pauxis (Óbidos). Desenganados da abolição da escravidão, os negros da Cabanagem desertaram a revolução e esta falha fatal de comando foi responsável não só pela desordem geral que se instalou entre os revoltosos, mas sobretudo pelo furor vingativo das tropas recrutadas pelo governo imperial entre assassinos, ladrões e outros desesperados nas cadeias do Nordeste pelo genocida marechal Francisco Soares de Andréa, mais tarde recompensado com título de barão de Caçapava, no combate aos Farrapos, no Rio Grande do Sul. Basta saber o terror que se instalou no Pará a mando da Regência do império, determinada a eliminar e erradicar os cabanos, que o soldo da tropa era pago mediante orelhas secas arrancadas aos mortos... Soube-se, recentemente, de fontes britânicas abertas a pesquisadores, que o regente padre Diogo Antônio Feijó negociou secretamente, no Rio de Janeiro, com os embaixadores do Reino Unido e da França a formação de expedição trinacional para eliminar a Cabanagem, que os governo convidados não aceitaram participar, porém estavam observando atentamente desde o início por se achar na fronteira com as colônias francesa, holandesa e inglesa nas Guianas.

A maravilha do mocambo dos negros de Óbidos é que, na luta de resistência que se instalou desde a fuga da praça sitiada pelos imperiais, aquele grupo de cabanos negros entre assaltos, destruição e mortes rio acima fez nascer e renascer o Maravilha diversas vezes. O mocambo tornou-se por acaso como a lenda da Fênix que renascia das próprias cinzas. Na fuga diante das forças de capitães-do-mato enviadas de Santarém, os maravi - digamos logo assim, na suposição de que a palavra "maravilha" fosse uma má compreensão da parte dos informantes que eventualmente entraram em contato com os ditos mocambeiros -, um dia o mocambo era feito às pressas em tal paragem e no outro era incendiado para levantar acampamento e continuar a fuga rio acima até transpor as cachoeiras do Trombetas. Índios amigos avisavam os mocambeiros sobre aproximação de capitão-do-matos e regatões "judeus" (libaneses) fregueses de produtos extraídos pelo pretos, davam falsas informações para proteger seus fornecedores e compradores de mercadorias, E assim foi sendo tramada a maravilha desta história cabana de resistência e luta pela sobrevivência desde os primeiros quilombos no seio da própria África resistindo ao sistema mundial de exploração de mão de obra escrava até os nossos dias.

Muitas vezes, depois da leitura do livro de Vicente Salles, eu me perguntei sobre a origem da palavra Maravilha no contexto trágico do quilombo cabano em terras dos indígenas Pauxis. Intuitivamente me inclinei para alguma palavra de origem africana próxima da suposta "maravi"... Finalmente, revi por acaso o filme "O menino que descobriu o vento", baseado em fato real no Malawi, país africano vizinho a Moçambique, que junto com o Zimbabwe vem de sofrer tempestade arrasadora e inundação com mais de mil mortos nos três países vizinhos afetados por dois ciclones com força de furacão. O Malawi é um pequeno país da África oriental dos mais pobres do mundo com uma populações de mais 12 milhões de habitantes por vezes flagelados por seca e fome. Aos meus ouvidos a palavra Malawi ressoava próxima à hipotética "maravi" na raiz imaginária do mocambo Maravilha... 

Antes da independência, o Malawi foi uma colônia inglesa cujo sustento foi a 'plantation' do tabaco, enfim arruinada pelo mercado com as oscilações de preço que arruinaram os pequenos agricultores dependentes do oligopólio. O filme (2002) retrata esse quadro catastrófico e a tensão social na aldeia dividida entre agricultura tradicional familiar e emigrantes que vendiam suas terra ainda com floresta para madereiros. Os que se recusaram a vender as árvores e a deixar a aldeia alegavam que sem a floresta os ventos trariam inundações devastadoras seguidas de severos ciclos de seca, como de fato. Então, uma rápida olhada na história do país e eis que vejo a origem do nome Malawi tirado do lago Malawi, que cobre um terço do território nacional, por sua vez originado do antigo povo Maravi que habitou o país em seu primórdios pré-coloniais... 

Teriam sido remanescentes dos antigos maravis os cabanos refugiados nas matas do Trombetas? Isto eu não tenho condições de responder... Sabemos que os escravos desembarcados no Maranhão foram embarcados em navios negreiros em portos da Guiné-Bissau, Angola e São Tomé e Príncipe. A hipótese de que mercadores de escravos tenham feito escambo em Moçambique algumas vezes e emparcado "peças de ébano" em São Tomé e Príncipe não é improvável... Mais, que caçadores de escravos provenientes de Moçambique tenham feitos incursões até as margens do grande lago Malawi também não... Por outra parte há que se contar com a possibilidade de contrabando, muito comum na época; inclusive para burlar a vigilância da marinha inglesa. O fato é que os negreiros misturavam costumeiramente indivíduos de diferentes etnias para dificultar, nas colônias, a organização da resistência dos escravos. A pergunta, então, é esta teriam chegado ao Pará maravis arrancados como escravos através do vizinho Moçambique, ou o nome do mocambo Maravilha foi apenas uma coincidência linguística?

Eduardo Francisco Nogueira Angelim (Aracati CE, 06/O7/1814 - Barcarena PA, 20/07/1882) foi o terceiro presidente revolucionário cabano do Pará. Era ele retirante das secas do Nordeste na década de 1820; pequeno agricultor sem terra trabalhando em parceria com o fazendeiro paraense Félix Clemente Malcher, que foi o primeiro presidente revolucionário da Cabanagem. Teria, então, cerca de dezesseis anos de idade quando com seus pais e irmãos foi morar no bairro da Campina, em Belém do Pará, que reunia a classe pobre de trabalhadores do porto, indígenas usados na pesca e negros escravos e libertos. 

Sem dúvida, o jovem cearense assistiu as lutas políticas da Adesão do Pará à independência, em 1823, que a termo levariam à eclosão da Cabanagem (1835-1840). Devido a seu temperamento de briga de rua, foi apelidado "Angelim", madeira dura. Com 19 anos de idade, ele participava das agitações da política da província e se encontrou engajado nas forças cabanas desde os primeiros confrontos armados. Na sucessão de acontecimentos violentos veio a assumir a presidência da província do Pará entre novembro de 1835 até 9 de abril de 1835, quando deixou o poder frente às tropas imperiais comandadas pelo marechal Francisco Soares Andréa; e rompendo o cerco da cidade de Belém do Pará durante uma tempestade foi se refugiar nas matas do Acará. Onde afinal foi localizado e se rendeu em 20 de outubro de 1836, junto com sua mulher Luíza Clara acometida de febre de malária. Biógrafos de Eduardo Angelim ressaltam a influência que Luíza Clara, que foi duas vezes viúva e herdeira de um rico comerciante português; sobre o marido. 

Angelim foi enviado ao Rio de Janeiro para julgamento, condenado cumpriu pena na ilha de Fernando de Noronha, ao fim da prisão retornou ao Pará em 1851, passando a residir em Barcarena sem participar nunca mais da política. Luíza Clara o acompanhou no exílio e enlouqueceu após o parto da filha do casal, anistiado pelo Império junto com os demais cabanos sobreviventes, o ex-presidente depois de seu retorno não se envolveu mais em política. Ele como Francisco Vinagra também, sem ter tido coragem de declarar a abolição da escravidão, tal qual Abraham Lincoln fez na Guerra de Secessão dos Estados Unidos entre 1861 e 1865; morreu discretamente seis anos antes da Lei Áurea; no dia 20 de julho de 1882, sendo enterrado na capela do Engenho Madre de Deus, na ilha Trambioca, em Barcarena, juntamente com a sepultura de Luíza Clara. E se sabe que onde houve engenho de açúcar e aguardente também houve escravos. O dilema da Cabanagem e das mais revoltas da Regência.

Enfim, no dia 13 de maio de 1888, a Princesa Isabel assinou a famosa "lei áurea" que aboliu a escravidão no Brasil. A escravidão de "negros da terra" primeiramente, e de "negros da Guiné" foi alicerce do colonialismo no Brasil e do Império depois da independência: com o fim da mão de obra escrava a monarquia sucumbiu imediatamente, em 15 de novembro do ano seguinte. 

Mas, apesar de tudo, o 13 de Maio não chegou a ser o último capítulo dessa história vergonhosa de nosso país descoberto pelo fidalgo Pedro Álvares Cabral de passagem para ir negociar especiarias com o marajá de Calicute, na Índia. De fato, ainda o Brasil não havia sido "descoberto" e já 36 índios da ilha Marinatambalo (Marajó) tinham sido capturados pelo espanhol Vicente Yañez Pinzón como "negros da terra" (escravos indígenas) nos fins de janeiro de 1500. 

De lá pra cá, 519 anos depois, nem com a Lei Áurea (1888), nem com a Proclamação da República cem anos depois da Inconfidência Mineira(1789); tampouco com a Constituição-Cidadã (1988), cem anos depois da Abolição; os estados amazônicos do Pará e de Mato Grosso contra a lei divina e dos homens, tornaram-se useiros e vezeiros na prática do hediondo trabalho escravo. 

Paradoxalmente, a conquista da Amazônia seria impossível sem aliança entre soldados portugueses e guerreiros tupinambás: aqueles ambicionando tesouros imaginários e estes últimos à procura de um paraíso mágico chamado Yby Marãey (terra sem mal), onde não havia Fome, Trabalho Escravo, Doenças, Velhice e Morte. O desengano final da utopia selvagem, aparentemente, deu-se com a escravização no Peru de uma impressionante migração tupinambá saída de Pernambuco até o alto Amazonas, de 14 mil adultos e crianças, cerca de 1530, abrindo os caminhos do sertão rumo ao por do sol para as barrancas do Tocantins e daí em diante descendo este caudaloso rio paraenses para varar os Furos de Breves e subir o Amazonas. Tendo, talvez, acontecido o último suspiro do mito na célebre viagem de Pedro Teixeira a Quito (Equador), com 1200 tupinambás de arco e remo ida e volta desde Belém do Pará, entre 1637 e 1639, cem anos depois da entrada de Gonzalo Pizarro (25/12/1539) ao país da canela (Amazônia equatoriana).

Colonização e escravidão são as duas faces da mesma moeda. A colonização da Amazônia não teria sido possível sem braço escravo e o povoamento português no Brasil não teria acontecido na ausência de pobres e enganados casais atraídos para ocupar o Maranhão e Grão-Pará, notadamente vindos das ilhas do arquipélago dos Açores iludidos pela falsa propaganda de aventureiros como o dono de navio Simão Estácio da Silveira, por exemplo. 

Sobre a tapera do ancestral sonho do "bom selvagem" foi implantada a utopia evangelizadora do reino de Cristo na terra dos bárbaros tapuias, com as cinzas messiânicas do Quinto Império do mundo. E na antropofagia de ambas utopias fundou-se o estado colonial amazônico, por obra e graça da transformação do índio cristianizado em "caboclo" (saído do mato) durante o Diretório dos Índios (1757-1798). Até aí a colonização da Amazônia havia importado escravos da África colonizada inicialmente pela Companhia de Comércio do Maranhão, conhecida como Companhia do Estanco do Maranhão e Grão-Pará, monopólio privado criado no reinado de Dom Pedro II de Portugal, em 12/02/1682, para fomento da manufatura do açúcar e da plantação de algodão mediante crédito da coroa e importação de escravos africanos pelos colonos no Maranhão e Pará com garantia de transporte seguro. A Companhia prometeu entregar 10.000 escravos importados da Costa da Guiné em vinte anos. Além do monopólio do comércio, a Companhia gozava de isenção de impostos, fazia jus ao direito privado via executiva exclusiva a fim da cobrança de suas dívidas, assim como autorização prévia para "descer" (capturar) indígenas do sertão que precisasse para seu serviço. Privilégios brancos geradores da elite amazônica.




A nobreza do Maranhão e Grão-Pará desde cedo socorreu-se da mestiçagem e do cunhadismo tupi misturando descendência europeia e indígena. Mistura fina de corpos e espíritos onde o sincretismo já veio do ultramar em desenvolvimento. Vóduns da Mina viriam, sem demora, juntar-se às santidades indígenas e aos santos da igreja católica com destaque ao culto do Espírito Santo desembarcado no Maranhão com casais açorianos. Os nobres senhores do Maranhão e Grão-Pará tiveram p açoriano Simão Estácio da Silveira como paradigma. Ele foi um dos pioneiros da colonização portuguesa no Maranhão. Foi juiz da primeira Câmara de São Luís, procurador da conquista do Maranhão. Escreveu a obra "Relação Sumária das Cousas do Maranhão" (1619), publicada em 1624 em Lisboa, com propósito de aliciar colonos portugueses para a região conquistada. Simão Estácio da Silveira é o patrono da Câmara Municipal de São Luís do Maranhão, tendo em sua homenagem a medalha do mérito municipal do seu nome. Comandou ele a chegada, em 1619, de trezentos casais dos Açores, tendo sido eleito o primeiro presidente da Câmara Municipal da capital maranhense.

Simão Estácio descreveu a Amazônia ainda em odor selvagem com as tintas frescas do paraíso na terra. E os iludidos do panfleto dedicado aos pobres de Portugal, sem experiência e trato com a natureza equatorial, não tardaram a perceber que eles estavam, literalmente, no mato sem cachorro... Não tinham a menor ideia a respeito da religião e história da brava nação Tupinambá, que cerca de 1613, havia convidado o corsário francês Charles des Vaux com seus camaradas a morar com eles na ambição sub-reptícia de levar a guerra ao Parauaçu (Grão-Para). Certamente, os franceses da France Équinoxiale não souberam do mito tupinambá da Yby Marãey (terra sem mal). Se soubessem logo não diabolizariam Jurupari, o espírito tutelar dos indígenas, e não perderiam a amizade do Bom Selvagem. Por isto, o casamento da filha do cacique de Jaguaribe (Ceará), Jacuúna; com o cristão-novo marroquino Martim Soares Moreno; pariu a Amazônia portuguesa. 

Mas, também os novos amigos do bravos tupinambás cometeram o erro fatal de lhes roubar as roças, tomar-lhes mulheres e estuprar suas filhas, escravizando os guerreiros. Uma centena de colonos pagou a ofensa com a própria vida e a guerra de expulsão dos estrangeiros foi declarada pelos indígenas. O cacique e pajé Pacamão, da aldeia de Cumã, liderou a ofensiva no Maranhão e, em 7 de janeiro de 1619, o cacique Guaimiaba (Cabelo de Velha) levantou os tupinambás do Pará contra os portugueses. A represália portuguesa foi sanguinária, um verdadeiro genocídio comandado pelos filhos de Jerônimo Albuquerque, Bento Maciel Parente e Pedro Teixeira... No outro 7 de janeiro (1835), a sombra dos "negros da terra" e "negros da Guiné" assombrou o Império do Brasil. 

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019

Despertar Marajó: a memória do território.

capela de São Francisco de Borja, fazenda Malato (Ponta de Pedras, Ilha do Marajó).



As origens históricas do município de Ponta de Pedras se acham na primeira sesmaria que a Companhia de Jesus teve na Capitania da Ilha Grande de Joanes (Marajó), em 1686, onde os jesuítas fundaram a fazenda São Francisco (hoje Malato). As terras desta sesmaria no rio Marajó-Açu margeavam a baía do Marajó desde o rio Araraiana para baixo até o Igarapé-Puca (Rio da Fábrica) vindo a confinar com a sesmaria dos frades da Ordem das Mercês, na ilha de Sant'Ana (1696), no Baixo Arari; e as fazendas Rosário (rio Marajó Ité) e São Braz (rio da Fortaleza), da dita Companhia. 

Abaixo do Itaguari ("ponta de pedras", na tradução do Nheengatu), sito à boca do rio Marajó-Açu; os padres formaram a aldeia das Mangabeiras (atual vila de Mangabeira) com índios catequizados da aldeia Samaúma (Barcarena), junto à praia e a chamada Camboa dos Padres (hoje mais conhecida como Camboa de Pedra). Desta aldeia missionária iria surgir a freguesia de Nossa Senhora da Conceição de Ponta de Pedras (1737) e depois a velha aldeia das Mangabeiras com a expulsão dos Jesuítas foi elevada em Lugar de Ponta de Pedras (1758) para, a seguir, ser transferido para o Itaguari onde hoje está situada a cidade de Ponta de Pedras, à margem esquerda do rio Marajó-Açu: "onde o Marajó começa".

Meia légua mais abaixo pela beira da baia se encontrava o igarapé e aldeia dos índios "Guaianazes" [Guaianá], segundo a "Notícia Histórica da Ilha Grande de Joanes" (1783), do naturalista Alexandre Rodrigues Ferreira. Na carta do padre Antônio Vieira ao rei de Portugal, dom Afonso VI, datada de 29/11/1659 e publicada em 11/02/166o, aparece o nome "Guaianases" [Guainá], a par dos Aruans [Aruã] Mapuaises [Mapuá], Anajás, Pixi-Pixi, Cambocas, Mamaianases [Mamaianá] (cf. Serafim Leite, "História da Companhia de Jesus no Brasil", tomo IV), união de etnias nuaruaques sob o nome genérico Nheengaíba ('falante da língua ruim').  

A aldeia dos Guaianá em conjunto com a aldeia das Mangabeiras foram elevadas respectivamente em Lugar de Vilar e Lugar de Ponta de Pedras, no ano de 1758, no contexto da expulsão dos Jesuítas (1759) e da expropriação das fazendas da missão da Companhia de Jesus (1757), quando da criação do Diretório dos Índios (1757-1798) que substituiu os missionários por diretores dos índios. O igarapé do Vilar pouco a pouco foi sendo assoreado e hoje está extinto, a população remanescente da antiga aldeia mudou-se para Mangabeira deviso a dificuldade de porto para canoas de pesca e ainda assim a falta de porto foi motivo principal da mudança para Itaguari. 


CHÃO DE DALCÍDIO, 
O ÍNDIO SUTIL, CONTA HISTÓRIA.

Todavia, ainda pelos lados do Amapá na costa Norte não havia chegado o primeiro mercador holandês a oferecer miçangas em escambo de drogas do sertão e gados do rio e a Paricuria estava lá há milhares de anos. O índio mariscador na pesca de gapuia - a mais antiga invenção do homem amazônico para pegar peixe e camarão na maré seca - sobrevivia muito antes que ele mesmo tivesse o pari, matapi, cacuri e o teso do barro dos começos do mundo: donde surdiu a aldeia e a cerâmica no lombo da história da Criaturada marajoara.

Por outro lado, nas banda de Icoaraci onde o sol nasce todos os dias e a lua aparece com as estrelas desde a boca da noite; esta gente viu chegar o guerreiro tupinambá bem antes dos franceses e portugueses colonizadores. Claro que este livro da memória também carece de velhos contadores de história para crianças e a juventude de instruir nas coisas de sua terra. Como foi que os pretos apareceram no Arari e lá em Afuá? Já ouviu dizer que o nome Afuá é africano e é nome de mulher? Quanta coisa que quase não se acha escrita!... O caso do uruá que sabe com antecedência a altura da maior mare das águas grandes de março... O caranguejinho crairu nos campos escaldantes de verão que resiste desidratado à seca e revive com as primeiras gotas de chuva...

A paisagem cultural é um grande livro aberto cuja leitura se faz através da memória do território. O museu a céu aberto neste vasto mundo vai além do horizonte para quem talvez esta distante e até mesmo nunca viajou pela ilhas do Marajó e subúrbios de Belém do grande Pará, Sequer viu alguma vez o Ver O Peso de perto pra contar de certo... Mas, com certeza leu a odisseia de Alfredo nas páginas de prosa poética de Dalcídio Jurandir. O caroço de tucumã mágico capaz de transformar o que antes seria apenas exclusão e indiferença na beleza da arte pura das crianças e de gente que acredita nos santos e na esperança de viver. 

Daí vem o sonho da primeira noite do mundo e o despertar das manhãs!

sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

Rota Turística da Cultura Marajoara.

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capa de livro de Raimundo Morais, escritor paraense da Societé des Americanistes de Paris, autor da obra "O Homem do Pacoval" (1939) sobre a Arte Cerâmica Marajoara datada do ano 400, achada pela primeira vez no teso do Pacoval do rio Arari, em 20 de novembro de 1756, segundo a "Notícia Histórica da Ilha Grande de Joanes, ou Marajó" (1783), do naturalista Alexandre Rodrigues Ferreira.




Na Viagem a Portugal Saramago ensina que existe uma sutil diferença entre turistas e viajantes: ele faz papel de um viajante que entra na pátria de Camões através da fronteira com a Espanha e segue o roteiro de Almeida Garret, o popular escritor do romantismo lusitano. Embora eu tenha servido oito anos ao ofício estadual de turismo do Pará não sou turismólogo, não tenho negócios turísticos e nem sequer sou um turista. 

Contudo, sou um viajante do mundo aficionado por histórias de grandes viagens de descobrimento; ainda que eu não tenha por costume sair longe de minha aldeia... Fui viajante de fato umas poucas vezes tendo chegado, por sorte, até o norte da Europa, na Holanda. E até o extremo-sul da América, no Uruguai. Coisa rápida e sempre a bem do serviço público. Claro que aproveitei a chance para viajar além do que lá se oferecia na hora. Como perder oportunidade de ver o famoso Arco do Triunfo, se o viajante por acaso está em Paris e sabe um pouco de história da gloriosa França? Ninguém ensina Padre Nosso a vigário, nem a vender cultura aos franceses.

Para mim, o centro do mundo é a grande ilha do Marajó, mais vasta que o território de Portugal na foz do maior rio da Terra; pelo bom motivo que foi lá que se formou a civilização amazônica e primeira arte genuína do Brasil. A Amazônia Marajoara formada da ilha grande onde nasceu, há 1600 anos, a célebre Cultura Marajoara; no maior arquipélago fluviomarinho do planeta, mais a faixa continental de Portel; é um mundo ainda pouco conhecido, que atrai atenção de viajantes e turistas de diversas procedências. 

Se turistas reclamam a falta de estruturas e serviços, viajantes ao contrário conservam em primeiro lugar a curiosidade do velho espírito dos naturalistas aos quais as dificuldades fazem parte da jornada. Imaginem, por exemplo, o absurdo que seria o Caminho de Santiago pontilhado de resorts, requintados restaurantes e suítes de hotéis cinco estrelas! Seria a morte do espírito que move viajantes ao redescobrimento do velho continente. A estes descobridores do passado que hoje se faz presente sonhando o futuro é que, incansavelmente, me dirijo desde o fim do século passado, quando em 1999 publiquei na Revista Iberiana, o ensaio Novíssima viagem filosófica. Livro modesto, todavia portador da ideia iberiana prenhe de ambição enormíssima, que consiste na revelação duma humanidade singular forjada na velha Ibéria e projetada além do Mar-Oceano em Amerika, antigo país do vento conquistado por Colombo, com todas contradições do Fado Tropical, que Chico Buarque de Holanda canta.

Daquelas antigas conquistas hispânicas, Marajó configura talvez a ilha de Barataria prometida por Dom Quixote a Sancho Pança. Eu sou honradamente herdeiro do cavaleiro andante. Quem me conhece sabe que eu, apesar do quixotismo, não embarco na estória mal pensada da "barreira do mar", como se tem a mais vulgarizada tradução de Mbarayó. Minha história navega outras águas. Eu bebi de fontes jesuíticas do século 17, publicadas pelo historiador Serafim Leite, padre jesuíta que consultou o arquivo do Vaticano para escrever a monumental História da Companhia de Jesus no Brasil (1946). Obra apologética, deve-se saber. 

Ademais, para me desembaraçar da propaganda da Fé e das ciladas historiográficas do longo tempo colonial, dei asas à imaginação, vivi bastante com a gente do povo senhor dos lugares da memória. Não hesitei em me batizar caboco e me reindianizar para anular o Diretório dos Índios a fim de dar margem a muitas suposições: com que viajantes audazes rompem os estreitos limites da lógica cartesiana. Supor é apontar probabilidade de algum fato. Por isto me apresento como diletante, como cão farejador que dá pistas ao caçador... Com uma ponta de loucura e imaginação qualquer um pode ir e voltar do reino da lua. Sem imaginação não existem viagens que valem a pena. E a melhor parte da viagem é o retorno ao país natal para contar a odisseia. Conto esse que não terá fim.  

Isto posto, imagine um viajante do mundo que acaba de chegar em Belém do Pará e lá fora ouviu falar maravilhas a respeito da antiga cultura marajoara pré-colombiana. O que o amigo teria para mostrar a este suposto viajante ou turista apressado? Suponha que a pessoa descobriu a arte marajoara em algum dos dez grandes museus de que a arqueóloga Denise Schaan escreveu na obra Cultura Marajoara (2009). 

Bom seria que o órgão oficial de cultura e turismo houvesse bem organizada a Rota Turística da Cultura Marajoara de modo integrado com o plano de desenvolvimento sustentável do Estado do Pará como um todo. No polo Marajó tal roteiro deveria ser mostrado interna e externamente como a via principal da vocação econômica da gente marajoara, conforme diz a Constituição estadual no que se refere à Área de Proteção Ambiental do Arquipélago do Marajó, base para candidatura da Reserva da Biosfera Marajó-Amazônia.

Certamente, que a formatação do roteiro poderia acompanhar, passo a passo, a gestão da APA e implementação da futura Reserva da Biosfera mobilizando a comunidade de municípios a par de cada uma das respectivas populações locais. Aí é que a reconstrução do chalé do romance Chove nos campos de Cachoeira, de Dalcídio Jurandir; em conjunto com a reforma do Museu do Marajó faz sentido. A sustentabilidade dos equipamentos integrados a este roteiro turístico-cultural vai depender de parcerias público-privadas conforme o espírito da Agenda 2030 dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável.

A partir do Terminal Hidroviário de Belém o viajante poderá chegar ao Marajó pelo porto Camará (Salvaterra) ou Soure e retornar por Cachoeira do Arari através do rio Arari rumo ao porto de Ponta de Pedras com destino a Belém após fazer percurso circular na ilha na antiga Costa-Fronteira do Pará. Ou vice-versa, entrar por "onde o Marajó começa" - o rio Marajó-Açu que deu nome a toda ilha, segundo primeiras fontes do século 17 (ver José Varella Pereira, "Novíssima viagem filosófica", supracitada) e retornar a Belém pelo porto Camará ou Soure. 

A respeito dos atrativos desta rota (entre outros) há muito a dizer e poderá ficar para outras ocasiões, entretanto ao priorizar viajantes convém lembrar o co-fundador da teoria da evolução das espécies, Alfred Russel Wallace, que cerca de 1850, visitou a ilha de Mexiana e a Contracosta em Soure. O já mencionado sábio da Universidade de Coimbra, nascido na Bahia, Alexandre Rodrigues Ferreira, o autor do relato anônimo (provavelmente Florentino da Silveira Frade, guia de viagem de Alexandre Rodrigues Ferreira) "Notícia da Ilha Grande de Joannes" (1754), que antecedeu a "Viagem Histórica").

Certamente, Marajó é um mundo!