terça-feira, 12 de dezembro de 2017

"lugar de velho é no museu", ecomuseu melhor dizendo: flanar por ruas e rios ensinando aos mais novos a se empoderar da história e do território.

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imagem de Mestre Lucindo (Lucindo Rebelo da Costa, Marapanim, 1908 - 1988) ele nasceu no dia 3 de março de 1908, na comunidade de Água Boa, município de Marapanim. A par de Verequete e Mestre Cupijó, Mestre Lucindo forma a trindade mais famosa do carimbó tradicional pau e corda paraense. Em 2014, a comunidade de pesca tradicional e mariscadores de mangue desse importante município do Salgado obteve reconhecimento federal da Reserva Extrativista Mestre Lucindo, em autogestão participativa da Associação de Usuários da Reserva Extrativista Marinha Mestre Lucindo (AUREMLUC) e supervisão direta do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio).



"A praia do Algodoal
É linda e tem riqueza,
No farol do Maiandeua
Onde mora a Princesa"

coro:Eu já vi a princesa falá,
Eu já vi a princesa cantá
No morro do Maiandeua
Na Praia do Algodoal"

Mestre Lucindo

Pescador, Mestre Lucindo
https://www.letras.mus.br/mestre-lucindo/anel-de-ouro/#radio:mestre-lucindo




Não se espantem. Há sessenta anos me engajei, de mala e cuia, como quixote na defesa da Criaturada grande de Dalcídio Jurandir após a primeira leitura do romance Marajó, leitura muito incipiente diga-se a bem da verdade, até então eu era um analfabeto político. Dali em diante fiquei curioso em saber quem inventou o mundo e depois de um demorado bordejo fora da terra natal; retornei definitivamente em 1990, cheio de ideias na cabeça. Retomei a militância com Camilo Viana na SOPREN e juntos criamos o GDM (1994-2014), com que fiz cartaz e me tornei voluntário d'O Nosso Museu do Marajó, desde 1995 mais ou menos. Quando, então, conheci Giovanni Gallo na casa de Camillo Vianna e depois da morte do "marajoara que veio de longe", em 2003, fiz parte da diretoria até 2010.

Dizendo isto para explicar que, acima de tudo, o que me move é a Criaturada. Não é grande coisa, mas o que se acha ao meu alcance. Meu modo particular de ser fiel à memória de Dalcídio e por fim grato à invenção do museu do padre Gallo. Foi por este percurso cheio de altos e baixos que, nos meus últimos quarteis de vida, fiquei fanático por ecomuseus -- ovo de Colombo na educação popular, me pareceu --, desde que por sorte ouvi Hugues de Verine falar sobre o tema numa manhã de domingo no Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG). Hoje, finalmente, por conta própria aos 80 anos de idade me fiz "velho-propaganda" (imitação brega de garoto-propaganda, é claro) do Ecomuseu da Amazônia


Assim, assim; cavaleiro andante da internet estou que nem galo da roça, acordando cedo pra tecer a manhã e fazer o Sol se levantar nas comunidades de gente que dorme com pé dentro da rede... Povo Mundiado pela cobra grande Boiuna. Dar notícia da oportunidade de organizar territórios da memória com a "mágica" dos museus a céu aberto. Isto é, a invenção dos ecomuseus. Olha lá! Paresque a gente estava cego de tanto ver... E não carece muita verba para soltar o verbo. Uma casa muito engraçada, que não tem teto, não tem nada a guardar longe do povo e a esconder dos amigos do alheio. Onde o rio, a rua, a igreja, o campo a perder de vista, a memória da gente é o patrimônio do dito cujo. 

Vou teclando o computador Rocinante e, em pensamento, escutando Luiz Gonzaga cantar "A Vida do Viajante": Minha vida é andar por este país / Pra ver se um dia descanso feliz / ...".
Agora é hora de cutucar amigos que lá deixei, Ponta de Pedras, Muaná, Mapuá, Soure, Santa Cruz, Benfica, Marudá... Provocá-los a criar ecomuseus ou museus comunitários. Tantos assim? Aí de mim!... Quero construir pontes sobre o mar-Oceano, unir cidades-irmãs, Cidades Educadoras onde crianças vão pelas ruas a ensinar os adultos a ser feliz. E os velhos voltem às aulas a fim de aprender a viver.


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Teatro Museu da Marujada - cidade de Bragança, Pará.

quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

Os netos de Dalcídio nunca esperaram Papai Noel.

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Dalcídio Jurandir (Ponta de Pedras, 10/01/1909 - Rio de Janeiro, 16/06/1979)
Prêmio "Machado de Assis" 1972, saudado por Jorge Amado como "índio sutil".






"Como me vejo em Marajó, como me vejo entre os mururés gordos lambendo os esteios da nossa casa cercada de água. A foto das crianças de Jenipapo me comove, são meus netos marajoaras (grifei), alegres apesar da miséria, apesar da dura condição em que vivem" -- Dalcídio Jurandir, citado em Marajó, A ditadura da água, Giovanni Gallo: 2ª edição, Edições "O Nosso Museu", Santa Cruz do Arari - Pará, 1981.

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Os netos marajoaras de Dalcídio nunca esperaram por Papai Noel. Quer dizer, o "bom velhinho" não sabe remar de montaria ou viajar de rabeta pelos furos entre duas mil e tantas ilhas do Golfão Marajoara a fim de levar lembranças do Polo Norte a 500 e tantas comunidades ribeirinhas... Não carece enfatizar que não estou me referindo aos meus primos cariocas e paulistanos, filhos de José Roberto e de Margarida. Quando, alguma vez, uma alma caridosa arranjou bolas coloridas e bonecas de plástico para encurtar distância entre gerações e classes sociais, salvo as exceções de praxe havia ali intenção de comprar gratidão da família "cabocla" na hora de votar. E, mais, capturar mão-de-obra barata ou produto extrativista para dar lucro à marretagem do "apurado" (além da "murrada" no trabalho o caboco ainda tem que assumir o risco do marreteiro não vender o produto). Emprego que preste e educação de verdade, nada... 

A Criaturada grande de Dalcídio é uma realidade à parte, uma brava gente à margem da História; que resiste apesar de tudo e nem sabe ela de suas próprias lutas desde quando não havia aqui panaquiri (mercadores brancos holandeses e ingleses) com o escambo de "gados do rio" (peixe-boi, tartarugas e pirarucu) da dependência técnica aos produtos fabris; nem cariuá (conquistadores espanhóis e portugueses) de corda e baraço da escravatura e roubo avultado de terras indígenas: com as armas do Rei e as bênçãos do Papa, diga-se de passagem

Ah, mas isto faz muito tempo e já passou! Não existem mais índios no Marajó, foram todos "civilizados" no Diretório do Marquês de Pombal... Dizem gentis senhoras e senhores da Oligarquia belle époque, que não esquecem jamais, porque lhes ensinaram com fervorosa constância as antigas glórias do Império Romano e tampouco negligenciam a história sagrada da migração do velho Abraão, pai de três santas religiões fratricidas entre si; em busca da terra da Promissão como reza a Bíblia distribuída a mãos cheias... Mas, Os Motivos Ornamentais da Cerâmica Marajoara do padre Gallo, servindo de modelo para artesanato, cadê? O romanceiro de Dalcídio Jurandir nas escolas, quem viu?

Os lesados da terra Tapuia só precisam ler e escrever.

O Papa Francisco, hermano argentino no trono de São Pedro Pescador; escreve cartas circulares a Roma e ao vasto mundo. António Guterres, português do mundo, Secretário-Geral das Nações Unidas; se esforça para não deixar ninguém atrás e nem fora da Agenda 2030 dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS). Ora, o alto mundo quer falar com todo mundo! O centro conectar-se às periferias... Mas, como a Criaturada vai saber disto tudo além do que o radinho de pilha dá nos cafundós onde Judas perdeu as botas? Como não depender das costumeiras aloprações da famosa rádio cipó entre lendas e mentiras, em cujas "ondas" alhos viram bugalhos mais rápido do que o Diabo pisca um olho? Se esta gente é analfabeta de pai e mãe...

O melhor presente das crianças da Criaturada seria um futuro sem mais traições do passado: todavia, esta gente pequena não acredita no "bom velhinho" que nunca viram mais gordo... O Natal do "shopping" não existe para os pobres sejam eles das ilhas ou da terra-firme (continente da Cidade), o primeiro Presépio destas regiões amazônicas foi o Forte armado para guerra na boca do Igarapé do Piry, rústica paliçada misturando engenharia bélica europeia e arquitetura indígena tupinambá. E já se sabe que a nação Tupinambá havia a antropofagia por religião e se a guerra não existisse precisa inventar uma. Em compensação, os caraíbas ou pajés-açus procuravam a todo custo a mítica Terra sem males (onde não há fome, escravidão, doenças, velhice e morte). Foi assim edificado o berço da estranha Belém do Grão-Pará, entre missas e danças de guerra aos inimigos hereditários nheengaíbas (insulanos falantes da "língua ruim", Aruak). Pobres crianças sem futuro, pois lhes roubaram o passado... Como elas podem criar uma cultura de paz "educada" na ignorância de seus antepassados?

Mas sempre aparecem pessoas bondosas dispostas a salvar almas mal batizadas ou ainda pagãs. Ontem caçadores de escravos, hoje caçadores de votos compram a consciência deste povo a troco de miçangas da miséria mais triste. Felizmente, para os "netos" do Índio Sutil, ficou o ciclo romanesco Extremo Norte... toda a criaturada que habita dez romances. Minha primeira leitura de Marajó, escrito em 1939 na vila de Salvaterra com título de Marinatambalo e publicado em 1947; primeiro romance sociológico brasileiro segundo Vicente Salles; não foi melhor do que se pode esperar de qualquer jovem caboco aos vinte e poucos anos de vida, tendo cursado apenas as três primeiras séries da escola primária, como Deus permite e o Diabo gosta. 

Entretanto, mesmo assim - lutando contra minhas próprias trevas -, caíram-me as escamas dos olhos, como ao sicário Saulo de Tarso a caminho de Damasco. Foi assim, então, que pela primeira vez vi a Criaturada grande de Dalcídio da qual eu e minha gente sempre fizemos parte dela.



segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

Tecendo a manhã: rede Amazônia de canoagem e memória de lugares históricos.


Orla da Vila de Benfica (Benevides, região metropolitana de Belém do Pará), primeira reunião com o Ecomuseu da Amazônia, em 1º/12/2017, a fim de organizar ecomuseu da comunidade na antiga Aldeia dos Sapararé. Um oásis ecoterapêutico para a gente ficar bem na vida.



A trama dos ecomuseus e museus comunitários saiu do vetusto seio dos museus tradicionais da França industrial em crise da pós-modernidade. A falta de ar fresco levou ao primeiro passo em busca da ecocultura perdida. O saber fazer boa convivência entre Cultura e Ecologia deve ser a tomada de consciência do bem e do mal inatos na natureza humana. Amar o bom e o justo, odiar o mau e o perverso que existe dentro da "persona" (máscara, pessoa) de cada um de nós. Aprender a desistir da vã ilusão de dominar a Natureza e deixar fluir a resiliência do habitat comum a todos seres vivos, se desapegar para regenerar o velho mundo. Et pour cause, a invenção do ecomuseu:

"Alguma coisa se modificou com o movimento da descolonização", afirma François Mairesse (2002:101) ao tratar da "nova museologia", movimento que eclodiu na França nos anos 1980, aliado às novas experiências de museus que já vinham sendo colocadas em prática desde os anos 1960. De fato, a descolonização dos museus, à qual se referiram alguns museólogos que pretendiam fazer uma museologia de vanguarda, diz respeito a um conjunto de conceitos que tinham o objetivo de revolucionar a prática museológica do final do século XX, tais como o de "participação da coletividade", ou o de "identidade cultural". 

Tais noções não foram incorporadas a discursos museológicos e às ideologias apenas nos países periféricos; ao contrário do que se pode pensar, elas tiveram suas primeiras aparições a partir de experiências inovadoras entre os museus dos países industrializados. O projeto central que se impõe ao "novo museu", segundo Mairesse, consiste na busca pelas "origens" de uma cultura submersa, "seja ela rural ou industrial, das periferias ou de favelas" (Mairesse 2002:103). Por envolverem um tipo de imersão das pessoas em sua própria cultura e um contato íntimo com a memória, esses museus tiveram que contar com o suporte da etnologia e, de fato, se desenvolveram como uma alternativa iconoclasta aos museus etnográficos clássicos, principalmente por romperem com a lógica do olhar do Outro sobre o patrimônio ali apresentado.


Tendo como berço a França pós-colonial, em sua origem o "ecomuseu" representou a utopia da democratização da memória, por meio de um mecanismo museológico inclusivo que tinha por objetivo principal o de dar a palavra àqueles que apenas raramente partilhavam da cena da História. Este museu de vanguarda, nos anos 1970 e 1980, voltou-se para aquelas que haviam sido consideradas até então as "culturas dos Outros", culturas silenciadas e deixadas à margem de qualquer tipo de musealização. O ecomuseu é "inventado" no momento em que um novo discurso sobre a ideia antropológica de cultura é formulado, o momento da disseminação de uma contracultura, e da emancipação da cultura popular na Europa. 

Em regiões do dito "terceiro-mundo" como a América Latina, novas expressões de museus que rompiam com o modelo clássico importado pelo sistema colonial começam a ganhar ênfase e a interrogar a "museologia tradicional" - que tinha como paradigma o modelo de museu tradicional, fechado em suas próprias coleções materiais, atendendo aos valores específicos das elites culturais. A cultura no sentido antropológico do termo se sobrepõe à cultura erudita das elites, que até então dominava a cena dos museus." -- Bruno Brulon,  A INVENÇÃO DO ECOMUSEU: O CASO DO ÉCOMUSÉE DU CREUSOT MONTCEAU-LES-MINES E A PRÁTICA DA MUSEOLOGIA EXPERIMENTAL, Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro (UFRJ).

Não espanta que o Museu do Marajó, inventado em 1973, e que poderia ser considerado ecomuseu avant la lettre tenha em sua história uma narrativa de contracultura extraordinária, transformando "cacos de índio" (fragmentos de peças cerâmicas extraídas para levar a museus e outros fins menos dignos) em objeto de reconstrução artesanal. Na proposta de Benfica (Benevides), o exemplo de um fragmento do espaço-tempo da história social da região amazônica ocupado por antigas famílias de moradores da Vila de Benfica (Benevides,) [ver - http://republicaveropeso.blogspot.com.br/2017/10/uma-historia-de-guerra-e-paz-na-aldeia.html]. Poderíamos ter aí da ruína do passado um futuro possível através da ponte para uma "cidade educadora", verdadeiro campus socioambiental no lugar que outrora foi aldeia da missão dos Jesuítas, nos séculos XVII e XVIII, junto aos índios Sapararé. 

Esta boa gente foi etnia ribeirinha vizinha dos Tenoné, índios do Pará que primeiro acolheram o fundador da cidade de Belém do Grão Pará, Francisco Caldeira Castelo Branco, capitão-mor do Rio Grande do Norte, vindo do Maranhão, guiado pelo francês Charles Des Vaux amigo e tradutor da língua dos tupinambás, na véspera de 12/01/1616 (ver José Varella, Amazônia Latina e a terra sem mal: Imprensa Oficial do Estado, Belém-PA, 2002; p. 11). O piloto francês de La Ravardière viu-se obrigado a guiar os portugueses da jornada ao Pará e a aconselhar os índios para manter a paz e colaborar com os novos colonizadores de acordo com o fim da França Equinocial (1612-1615), durante graves tratativas com os índios do Pará para escolha de sítio adequado ao plano português de ocupação da região, que o Forte do Presépio (Fortaleza do Castelo) representa. 

Os índios Tenoné, Sapararé, Murubira e outros habitantes do Pará nativo receberam bem, inicialmente os Mayr (franceses) e depois os Peró (lusos); na fiança de que eles aliados aos estrangeiros podiam logo ir à guerra contra os Nheengaíbas (falantes da "língua ruim") nas Ilhas. Os bravos tinham nomes de famílias indígenas locais fazendo parte, provavelmente, da grande nação Tupinambá: guerreiros da utopia da Yby Marãey ("terra sem mal"), o lugar mítico procurado desde o Paraguai antigo onde não há fome, escravidão, doença, velhice e morte. Mito fecundante da brasilidade que ainda poderia inspirar, na Amazônia, os esforços nacionais dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) acordados pelo Brasil com a ONU. Os Tupinambás, sem favor nenhum, foram os primeiros conquistadores do Maranhão e Grão-Pará (ou seja, da Amazônia colonial portuguesa). 

Não é interessante, nas confusões da história colonial, que descendentes de velhos guaranis migrantes no Grão-Pará tenham sido arrastados talvez sem saber, como "voluntários da Pátria" para lutar pelo Império do Brasil na distante Guerra do Paraguai? A Benfica paraense é um lugar para a gente ficar de bem com a vida e com a própria memória da localidade. Uma pequena e simpática comunidade de 1600 almas, aproximadamente, nos dias de hoje e cerca de 300 habitantes quando foi elevada de aldeia à vila, em 1758.

Ora, este oásis no deserto implantado e asfaltado de fora para dentro está cercado de muros e dividido pelo apartheid de ricos condomínios, sítios e chácaras particulares em contraste com aglomerações urbanas da região metropolitana, onde violência e pobreza se misturam sob carma negativo. Para a comunidade empoderar-se do território não vale a pena fazer a guerra de David contra Golias, mas plantar a cultura de paz dialogando com a Ecologia e o Patrimônio. Carma, como se sabe, é uma muito antiga palavra em sânscrito, que chegou ao Ocidente através do Caminho da Seda, significando a cadeia de vidas e mortes ao longo do tempo desde existências pré-humanas. Haveria um "carma" do Caminho do Maranhão? Muitos acreditam que o "carma" de uma pessoa é castigo por maldades cometidas em vidas passadas: de modo que não há saída possível ao indivíduo, como no sistema de castas da Índia. Mas, se admite que o "carma" é benéfico na crença da reincarnação. Todavia, independente de crer ou não nas leis que regem a sociedade humana e a natureza, o DNA e a história das nações explicam mais depressa o tal "carma" na cadeia de causas e consequências na vida de grupos, classes sociais e pessoas.

Mais recente que o carma milenar hinduísta, a palavra "ecologia" surgiu em 1866 com o biólogo, naturalista e filósofo alemão Ernst Haeckel (1834 - 1919), cientista positivista que se dedicou a popularizar o trabalho de Charles Darwin (1809-1882). Hoje a Ecologia penetra todas atividades da vida moderna, para o bem e o mal... Trata a parte da Biologia que estuda as relações entre os seres vivos entre si e destes com o meio ambiente. O termo vem da junção de duas palavras gregas: Oikos, que significa casa, e logos, estudo. Portanto, ecologia significa “estudo da casa” ou “estudo do habitat dos seres vivos. Ciência ampla e complexa, a Ecologia preocupa-se com o funcionamento de toda natureza. Inclusive a natureza humana e vários outros campos da Biologia, de modo que ela não é uma ciência isolada.

O primeiro resultado prático da Ecologia foi a criação do Parque Nacional de Yellowstoneem 1872, nos Estados Unidos. Estes vinham de passar pela guerra civil de 1861 e 1865, enquanto que na América do Sul, no mesmo período ocorreu a Guerra do Paraguai (1864-1870) com impactos na Amazônia. Carma ou História, a Guerra Civil Americana, também conhecida como Guerra de Secessão ou Guerra Civil dos Estados Unidos, foi uma guerra civil travada entre 1861 e 1865 nos Estados Unidos e a América do Sul também teve a sua secessão com reflexos diretos na pequena Vila de Benfica, como já se sabe.

quinta-feira, 30 de novembro de 2017

Pra não dizer que eu não falei do índio sutil no plantio da primeira árvore do Ecomuseu dos Sapararé.




Imagem da placa comemorativa do Centenário de nascimento do escritor e casa remanescente do antigo chalé de infância do jovem Dalcídio Jurandir nascido em casa humilde no bairro do Campinho, vila de Ponta de Pedras (10/01/1909). A faixa se reporta ao "desejo romântico" do jovem de 22 anos de idade. Na verdade ele não pensava em morrer, mas já manifestava aonde gostaria de ser enterrado como uma semente da memória: Cachoeira, em frente ao Chalé... Quando ele de fato morreu (Rio de Janeiro, 16/06/1979), aos 70 anos de idade, havia produzido uma obra literária incomparável que lhe valeu o Prêmio Machado de Assis (1972) da Academia Brasileira de Letras (ABL), saudado como "índio sutil" por Jorge Amado naquela ocasião solene. Um ano mais tarde, com "cacos de índio" (fragmentos de cerâmica recolhidos do arrombamento de sítios arqueológicos); o padre Giovanni Gallo S.J, em Santa Cruz do Arari, diante do lago que foi berço da Cultura Marajoara de 1600 anos de idade, inventou o primeiro ecomuseu brasileiro, dando a este o significativo nome de O Nosso Museu do Marajó

o encontro destes dois grandes caciques marajoaras deverá ser lembrado quando se der o primeiro passo efetivo para criar o Ecomuseu dos Sapararé, na Vila de Benfica, terra natal do "Major Alberto", do romance seminal Chove nos campos de Cachoeira; aliás Alfredo Nascimento Pereira, pai do maior romancista da Amazônia.




Nesse momento se espera que uma criança eleita pela comunidade de Benfica, representando todas crianças do mundo; plante a muda simbólica de Cueira (Crescentia cujete) - árvore ancestral da ecocivilização amazônica -, por acaso preparada pela EMBRAPA e ofertada de maneira singela pelo projeto ALDEIA MARAMBAIA - Ecoterapia Comunitária . Nossos corações e pensamentos deverão se unir na recordação do encontro virtual entre o padre dos pescadores e o índio sutil na correspondência fiel de Maria de Belém Menezes. 

Desde esta hora em diante, a leitura da obra de ambos caciques marajoaras poderá ser facilitada através da prática da rede amazônica de ecomuseus e museus comunitários integrada a atividades escolares de Cidades Educadoras a partir da fecunda experiência do Ecomuseu da Amazônia.  

Cada um de nós nesta comunidade viemos de longe e já demos muitos passos e muitas remadas, lembrando esse empolgante Projeto Sapaparé, do Distrito de Benfica (Benevides). A fim de integrar novas energias na velha Aldeia dos Sapararés. Estamos juntos em bom caminho, com certeza! Mas, de nada valeria desenterrar o passado distante se este exercício não fosse destinado a encontrar tesouros verdadeiros para o bom futuro das nossas crianças. 

O que nos sugere o encontro extraordinário de Dalcídio Jurandir (Ponta de Pedras, 1909- Rio de Janeiro, 1979) e Giovanni Gallo (Turim, 1927 - Belém, 2003) na correspondência da filha do poeta fundador da Academia do Peixe Frito, Bruno de Menezes (Belém, 1893 - Manaus, 1963):

"Como me vejo em Marajó, como me vejo entre os mururés gordos lambendo os esteios da nossa casa cercada de água. A foto das crianças de Jenipapo me comove, são meus netos marajoaras (grifei), alegres apesar da miséria, apesar da dura condição em que vivem". (Marajó, A ditadura da água, Giovanni Gallo: 2ª edição, Edições "O Nosso Museu", Santa Cruz do Arari - Pará, 1981).


segunda-feira, 27 de novembro de 2017

O empate da capitania dos Barões de Joanes: índios bravios, desertores e escravos refugiados contra as sesmarias.

A imagem pode conter: céu, nuvem, árvore, atividades ao ar livre e natureza
Terra Quilombola (Município de Salvaterra, ilha do Marajó), fragmento do antigo território indígena na Ilha dos Nheengaíbas (comunidade de diversos povos Nuaruaques) dada pela coroa portuguesa ao donatário António de Sousa de Macedo como capitania da Ilha Grande de Joanes (1665-1757) expropriada às ordens religiosas para doação aos Contemplados e criação da Fazenda Nacional: foto de Vicente Azulay do Nascimento.



MARAJÓ É UM GRANDE MUSEU A CÉU ABERTO


Empate significa situação de jogo ou disputa sem decisão, trata-se de um substantivo masculino. No caso dos índios da nossa história é verbo transitivo direto no sentido de sustar, suspender e embaraçar a ocupação colonial da capitania da Ilha Grande de Joanes. Quer dizer, desde o século XVI ou mesmo antes, muito antes de Chico Mendes e Wilson Pinheiro com seus companheiros seringueiros no Acre usarem a tática do empate a fim de impedir a destruição de seringais nativos por latifundiários encapetados; na região das Ilhas no delta-estuário do maior rio do mundo, uma incrível confederação de caciques dos chamados Nheengaíbas ("falantes da língua ruim"), Nuaruaques, na verdade; empatou até 1680, mais ou menos, a ocupação da ilha do Marajó. 

Foram 64 anos, exatamente, que os Nheengaíbas mantiveram ao largo os colonos portugueses, desde a fundação do forte do Presépio (1616); impedidos de botar os pés na ilha grande face ao perigo mortal dos índios bravios, desertores e escravos fugidos que existiam pelos centros da ilha. Enfim, vencendo o temor e contrariando vozes de advertência, o carpinteiro Francisco Rodrigues Pereira atravessou a perigosa baía do Marajó com umas cabeças de gado cabo-verdiano a bordo e foi levantar o primeiro curral (1680), numa sesmaria do rio Mauá, tributário da margem esquerda do Arari... 

A ilha grande se chamou de Joanes devido à corruptela em língua portuguesa, do nome dos índios Iona ou Sacaca; ou Marajó (do tupi marãyu, "malvado"). Em geral, prevalece a tradução de Mbaraió, com significado de "barreira do mar". Todavia, fontes jesuíticas as mais antigas citadas pelo historiador Serafim Leite, que consultou a biblioteca dos Jesuítas no Vaticano; na volumosa obra História da Companhia de Jesus no Brasil; dão como certo que o rio Marajó-Guassu (Marajó-Açu, isto é, "Marajó grande", por diferença do curso acima "Marajó-Ité", "feio" ou "inferior" como em igarité, semelhante à igara (caravela); deu nome a toda ilha (por conseguinte, aos mais acidentes geográficos que levam o mesmo topônimo.

Ora, conhecendo a geografia da região insular sabe-se que o rio Marajó-Açu tributário do Rio Pará após descer dos campos alagados e drenar com o Arari e o Anajás emendados os centros da Ilha, deságua na baia do Marajó: aí estas águas grandes longe de ser barreira do mar distante na Contracosta; é rio franco que abre passagem para o interior da ilha. Donde este rio se comunica ao Arari e ambos ao rio Anajás Grande através do Anajás Mirim, longa estrada de água que vara em direção ao Macapá e aos Furos de Breves através do Aramá. De fato, para quem vem da terra-firme (continente), pelo lado meridional do Pará e o Guamá descendo de muito longe pelo antigo Caminho do Maranhão; o Marajó profundo começa no Itaguari (Ponta de Pedras, na tradução da língua-geral ou Nheengatu para o português). 

A mim me parece que o rio Marajó-Açu era caminho antigo do índio "malvado" (o temível Aruã) em suas incursões bélicas desde o Cabo do Norte (Amapá) até o Pará. A "barreira" aí nem mar, nem rio; era o bárbaro Aruã - o próprio marãyu, na "boa língua" do inimigo tupi surpreendido com a inesperada emboscada e a morte súbita causada pelo dardo envenenado. O empate mortal da busca da mítica Terra sem mal a caminho do Araquiçaua ("lugar onde o sol ata a rede", do nheengatu ara, dia; ky, rede e xawa, lugar).

Fato espantoso para mente mágica do índio canibal acostumando ao combate leal do porantim ou tacape. Todavia, o inimigo marajó (aruã) era índio canoeiro por excelência, criado na guerra antropofágica Galibi, vinha ele do Norte distante assaltar às ilhargas de Belém e retrocedia ligeiro a fim de passar temporadas de ócio com seus parentes Palikur no Oiapoque e negócio em Caiena. Este empate formidável - ponta de pedras no caminho do Paraíso selvagem -, o guerreiro Tupinambá nunca esperou nem nos piores pesadelos dos pajés-açus em comunicação onírica com o artioso espírito Jurupari...

marajoara "malvado" era índio de emboscada que manejava zarabatana feita de paxiúba e atirava dardos de talo de patauá ervados (envenenados). Ademais, possuía canuá (canoa grande feita de tronco para uso de vela de jupati), capaz de realizar verdadeiras batalhas navais atacando e fugindo rapidamente diante do inimigo tupinambá em suas primitivas ubás a remo. 

Primeiramente, portanto, o empate dos Nheengaíbas danados atrapalhou a brava nação Tupinambá na conquista da Tapuya tetama (terra Tapuia) ou Maranhão e Grão-Pará além da terra-firme (continente) impedindo que os buscadores da mítica Yby Marãey ("terra sem mal") passassem adentro do Paraná-Uaçu ("rio grande" ou rio das Amazonas. Em sua longa carta ao rei Afonso VI, datada de 29/11/1659 e publicada em 11/02/1660, o padre Antônio Vieira descreveu em mil e uma peripécias as pazes concertadas, em 27/08/1659, com os sete caciques Nheengaíbas liderados por um certo Piié dos Mapuá, considerado o mais ladino entre todos eles. Desconfio que o padre grande inventou este índio e colocou palavras suas na boca da criatura: o que não traz prejuízo ao fato histórico de que nunca se sabe verdadeiramente o nome próprio de um índio. Em segundo lugar, o suposto cacique nheengaíba não disse nada durante as tratativas de paz e na igreja do Santo Cristo, na improvisada aldeia de Mapuá baixada provavelmente do rio dos Anajás; que Vieira não tenha dito antes contra o sistema colonial português no Maranhão e Grão-Pará, de viva voz no Sermão aos Peixes, proferido em São Luís do Maranhão (1654), quando o padre foi de passagem a Lisboa pleitear a Lei de abolição dos cativeiros indígenas (1655), base das negociações de paz com os famigerados Nheengaíbas através de dois índios "embaixadores" parentes dos ditos cujos (cativos no Convento de Santo Alexandre). Vieira não disse o nome destes índios embaixadores que não queriam ir levar a inverossímil "carta-patente" às nações Nuaruaques, nem de outro qualquer dos caciques insulanos que, aliás, comparecem ao teatro da paz de Mapuá com seus guerreiros empenados com plumas vermelhas de guará para festa, mas não com suas mulheres e crianças... Qualquer sertanista sabe que índio sem mulheres e crianças é sinal de desconfiança e mau presságio. Ainda mais, escreveu o padre, que o Diabo compareceu de 23 para 24 de agosto (Dia do Berto) para semear discórdia entre os "índios cristãos" (tupinambás) de costume que foram como remadores da escolta com soldados da praça de Cametá... O caso foi que os Nheengaíbas não quiseram logo no dia 22 começar a missa e o sermão das pazes sem que chegassem todos convidados dos donos da aldeia, os Mapuá; parentes dos Aruã e Anajá. Então, portugueses e tupinambás começaram a murmurar, dizendo eles que os ardilosos Nheengaíbas estavam cercando o sítio para atacar a expedição. Vieira alertado passou um carão aos agitadores, mandando-os de volta para ficar somente ele e seu confrade. Finalmente, começaram a chegar os temidos Aruã, Anajá, Camboca, Guaianá, Pixi-Pixi, por último os Mamaianá mais pessimistas que todos. Até os Tucujus (do Amapá) vieram espiar o que estava acontecendo. Sem mais demora o payaçu rezou a missa, disse sermão e mandou os caciques pressentes prestar juramento de vassalagem a El-Rei de Portugal. Mas, o tal Piié não jurou dizendo ele que se havia guerra a culpa era dos portugueses que violavam a lei do rei (o que o padre atestou ser verdade).

O acordo de Mapuá teria dado termo a 44 anos de guerra dos índios do Marajó e os portugueses, inclusive a expulsão dos holandeses e ingleses (1623-1647), desde a tomada de São Luís (1615). Enquanto a Câmara de Belém havia requerido a guerra justa (cativeiro e extermínio) contra os ditos índios acusados de pirataria de canoas de tropas de resgate (caçadores de escravos) e drogas do sertão (produtos extrativos florestais). Os índios piratas fariam tráfico com a colônia francesa de Caiena; mas os padres Jesuítas saíram em defesa dos mesmos dizendo que aquela guerra além de injusta seria impossível de vencer. Visto que a ilha é um labirinto de ilhas e rios desconhecidos, como uma fortaleza natural onde algo como 20 mil índios sem morar em nenhum lugar fixo, devido o estado da guerra; ficavam ocupando toda a ilha... Um território de 104 mil km², maior que o estado do Rio de Janeiro, ou Alagoas ou ainda Sergipe. Hoje com mais de 500 mil habitantes, semelhante a alguns países independentes.

A prova de que Vieira não blefou a respeito do acordo de paz de 1659 está na fundação, imediata, das aldeias de Aricará (Melgaço, 1758) e Arucará (Portel, 1758) com índios nheengaíbas levados de Mapuá. Aricará e Arucará são, provavelmente, nomes dos tuxauas das respectivas aldeias, conforme costume da época. A leitura pós-colonial que se deve fazer sobre o empate dos Nheengaíbas levará em conta que a historiografia luso-brasileira oficial exalta a conquista portuguesa e apaga a indispensável participação de remos e arcos tupinambás. Já a crônica jesuítica coloca em primeiro plano o papel dos missionários num contexto inverossímil sobre os "índios cristãos" (tupinambá), vistos como estúpidos comedores de carne humana e "índios pagãos" ansiosos pela graça do batismo católico. 

Em realidade, dentro do complexo processo colonizador índios de diferentes etnias e um século mais tarde negros escravizados importados através do Maranhão ou refugiados das colônias holandesa e francesa nas Guianas (cf. Flávio dos Santos Gomes, A hidra e os pântanos: mocambos, quilombos e comunidades de fugitivos no Brasil (séculos XVII-XIX); desenvolveram uma história invisível, apenas pressentida através do folclore e de costumes tradicionais. 

Outra evidencia da veracidade do relato do payaçu dos índios, no que concerne às tratativas de paz com os rebeldes Nheengaíbas em que pesem as tintas barrocas carregadas para impressionar a distante corte de Portugal após a morte de Dom João IV, o rei amigo de Vieira; é o fato de que, ato contínuo, à fundação das aldeias de Aricará e Arucará os escravagistas portugueses se levantaram com violência contra os Jesuítas expulsando-os do Pará em represália pelo desarme da "guerra justa" já autorizada por Lisboa ao governador do Maranhão e Grão-Pará (1621-1751), André Vidal de Negreiros. Todavia, as duas aldeias nheengaíbas que vieram a ser vilas de Melgaço e Portel amazônicas sobreviveram no território reconquistado; que antes fora seu até Cametá, provavelmente. E que agora constitui a parte continental da mesorregião Marajó, microrregião de Portel mais precisamente. 

Quanto à Ilha dos Nheengaíbas ou Ilha dos Aruans, tão logo os padres foram obrigados a deixar o Convento de Santo Alexandre a caça aos "negros da terra" recomeçou com o indispensável concurso dos "índios cristãos" (tupinambás catequizados) e de novo a guerra de guerrilhas dos famigerados Aruãs e Anajás que, pouco a pouco. com a decadência do mito da Terra sem males, fadiga das guerras, epidemias devastadoras e fome transformaram o orgulhoso guerreiro antropófago de outrora numa sombra do passado sob a figura dos caboclos saídos do Diretório dos Índios que, por isto, se envergonham da origem indígena. Em Portugal, Vieira preso, processado e condenado pela Inquisição; dado o golpe da maioridade do deficiente rei Dom Afonso VI, já não haverá mais ilha de Nheengaíbas, nem de Aruans; para dar lugar então à Ilha Grande de Joanes (grande confusão com os "joanes" quase extintos, aliás Iona ou Sacaca; e algum Johannes perdido nos mares da historiografia colonial).

De modo, que a teoria do Empate está de pé: cerca de 1723, enquanto no Rio Negro ao mesmo tempo o bravo Ajuricaba cacique dos Manaus se levantava frente a caçadores de escravos das tropas de resgate; no Pará velho de guerra era vez de Guamá, cacique dos Aruã e Mexiana; vingar sua gente de seus antigos opressores assaltando e levando terror a aldeias de "índios mansos" (escravos) dos entornos de Belém para os capturar e ir traficar com os franceses de Caiena a troco de armas e munições com que prosseguir a velha guerra que Piié, segundo palavras de Vieira; aceitou dar por encerrada, porém não concordou em se tornar súdito de El-Rei. Por acaso, nessas correrias na fronteira do Oiapoque acabou que o sargento-mor Francisco de Mello Palheta, homem bom da Vigia, mandado substituir o capitão João Paes do Amaral, enviado ao Rio Negro reforçar tropas contra Ajuricaba; no comando de tropa de guarda-costa voltou ao Pará sem o bandoleiro procurado vivo ou morto, mas em compensação com o cobiçado café furtado de Caiena que iria levar riqueza a São Paulo de Piratininga e São Sebastião do Rio de Janeiro.

SEM TUPINAMBÁS E JESUÍTAS O GRÃO-PARÁ
TERIA SIDO UMA ENORME GUIANA HOLANDESA.

Nos fins do século XVI mercadores holandeses com colonos e escravos africanos instalaram feitorias no Amapá, Marajó, Xingu e Baixo Amazonas até Gurupatuba (Monte Alegre) praticando escambo (troca direta de missangas, isto é, facas, machados, anzóis, espelhos e contas de vidro; por gados do rio, que são peixes-bois, tartarugas e pirarucus ou drogas do sertão, o cacau nativo, urucu, pimenta, quinino, ipecaconha e salsaparrilha). Em amizade com os índios desde as Guianas, holandeses, ingleses e franceses desafiaram o "testamento de Adão" (tratado de Tordesilhas entre os reinos de Espanha e Portugal de 1494, homologado pelo papa Alexandre VI, dividindo o mundo ultramarino entre as duas coroas católicas da Pensínsula Ibérica).

A suposta "linha" limítrofe de Tordesilhas passaria no Brasil sobre as atuais cidades de Belém do Pará e Laguna, em Santa Catarina. A posse de Portugal ficava a leste da repartição por um meridiano de 370 léguas a partir de Cabo Verde para o ocidente. A Espanha, então, cabia a porção a oeste, ou seja toda Amazônia atual desde a baía do Marajó... Por isto, o cartógrafo real Duarte Pacheco Pereira que, estivera nas negociações de Tordesilhas, foi mandado secretamente ao Pará, em 1498, a fim de fazer observações astronômicas "in loco" possibilitando o "descobrimento" (revelação) do Brasil em 1500, por Pedro Álvares Cabral mandado em embaixada com grande frota à Índia. Pinzón achou, porém não "descobriu" a foz do rio Amazonas ao qual chamou de Rio de Santa Maria de La Mar Dulce; mantendo o achado sob segredo pensando que pertencia à coroa de Portugal nos termos do tratado de 1494.

Aí está o famoso "espaço vazio" da historiografia colonial, habitados por milhões de nativos que o ocupavam há milhares de anos e falavam outras tantas milhares de línguas diferentes, como ensina José Ribamar Bessa Freire, na obra fundamental dos estudos amazônicos, Rio Babel, a história das línguas na Amazônia. Os Nuaruaques, ditos "nheengaíbas" pelo inimigo hereditário tupinambá, mais tarde chamados de Marajoaras pelos portugueses; pertenciam, portando, ao vasto circum-Caribe com numerosos povos de cultura e tronco linguístico Aruak. Amigos dos panaquiris (brancos holandeses e ingleses) por causa do comércio. Odiavam os Kalina (caribe, donde a origem da palavra canibal) devido à guerra antropofágica na qual eram vítimas e ao rapto das mulheres aruaques invejadas pelo segredo do curare (veneno para flechas) e manipulação da mandioca brava, venenosa. Sendo mais numerosos e antigos nas terras baixas costeiras da Amazônia, os povos aruaques chegaram até o Pantanal e o Delta do Parnaíba (Piauí, no Nordeste). Onde, em conjunto com os Tapuia ou Gê, passaram a guerrear contra a invasão dos Tupinambá.

Recuaram os "nheengaíbas" para a região das Ilhas do Pará onde resistiram com êxito, primeiramente ao inimigo hereditário Tupinambá e depois de 1615 - ano da tomada de São Luís do Maranhão -, aos portugueses aliados aos guerreiros tupi cristianizados. O empate dos índios Marajós, três séculos antes dos seringueiros do Acre; instintivamente combinou guerra e paz em relação aos colonizadores. Souberam os camaradas de Piié negociar o apoio dos Jesuítas em conflito com os colonos escravagistas. Cumpre observar o papel dos índios escravos dos padres como intermediários entre seus parentes nas ilhas e o Convento de Santo Alexandre, eram eles tradutores das línguas "dificultosas" e a boa língua nheengatu. Fato semelhante ao relatado pelo sargento-mor de milícia da vila de Monforte (aldeia de Joanes), índio sacaca Severino dos Santos ao naturalista Alexandre Rodrigues Ferreira, na Notícia Histórica da Ilha Grande de Joanes, ou Marajó (1783).

Tempos passados, no Acre seringueiros de Chico Mendes com movimento semelhante do empate dos índios das bocas do Amazonas, conseguiram mostrar ao Brasil e ao mundo que madeireiros e fazendeiros atacavam povos da floresta tal qual diabos velhos Bandeirantes de outrora. O empate na Floresta foi, então, percebido como contra-ataque não-violento de populações tradicionais ao colonialismo na Amazônia. 

Atores do empate e seus aliados socioambientais nas cidades dilaceradas pelo consumismo alienado se tornaram como árvores, pássaros, raízes, animais e cursos d'água. Caruanas (forças resilientes da mãe Natureza), vóduns e orixás, santos e anjos protetores da igreja de Jesus Cristo estavam todos com essa gente antigamente lesada pela Civilização cristã. 

Mortos ressuscitavam no Kuarup, mulheres se tornavam seringueiras, castanheiras, cueiras, farmácias vivas. Velhos se levantavam como guerreiros e voavam feito pássaros, os bichos também entravam no Empate, insetos, as larvas, o general Plasmódio empatava a cobiça estrangeira do "celeiro do mundo"... Os homens mateiros viraram pés de sapucaia, sapopemas, tucumanzeiros onde mora o espírito da mata Surrupira. Crianças brincavam sem medo da Matinta Perera e eram como igarapés, os lagos, orvalho, subiam pela ramagem da Samaúna para se tornar nuvens e chuva.


Porém, no ano de 1988, um tiro assassino ecoou no coração da floresta. Acabou a brincadeira; pássaros voaram alarmados, os bichos correram a se esconder no oco do mundo. A bala matou Chico Mendes aos 44 anos de idade, seringueiro, líder sindicalista,  a mando do estúpido fazendeiro Darly Alves. O motivo do crime foi a atuação de Chico em defesa do seringal Cachoeira que Darly em sua loucura desejava transformar em pasto para gado. Na verdade, o fazendeiro idiota é só um instrumento de ocupação em nome de um poder estranho. Chico Mendes não foi o primeiro nem seria o último a ser morto por defender a Amazônia: ele se tornou herói da Criaturada grande de Dalcídio, símbolo da luta de índios e negros lesados na Conquista da antiga terra dos Tapuias. Dois anos após do crime, o sindicalista da floresta foi homenageado com a criação da Reserva Extrativista Chico Mendes: o homem amazônico à margem da História, no dizer de Euclides da Cunha; expulso do paraíso ecológico como predador irreconciliável com a Natureza; mediante rito e sacrifício do sangue derramado do seringueiro Chico não só entrou no cerne da história como passou ele a ser considerado protetor número um do meio ambiente. Era, pelo decreto de 13 de março de 1990, a primeira reserva extrativista a par das terras indígenas e quilombolas, com que o Brasil se colocou na vanguarda da conservação das florestas tropicais.

E a velha ilha dos Nheengaíbas, Marinatambalo ou Analau Yohynkaku; berço da ecocivilização Marajoara de 1.600 anos de idade, também está refazendo a história de sua Criaturada grande desde 1939, com Dalcídio Jurandir escrevendo na vila de Salvaterra, antiga pátria Iona ou Sacaca; os primeiros dois romances da saga romanesca do Extremo Norte. Em 1972, o conjunto da obra dalcidiana recebeu o "Machado de Assis", da Academia Brasileira de Letras e no ano seguinte, o marajoara que veio de longe, padre Giovanni Gallo - Leonardo Boff caso ainda não tenha feito, deveria mostrar ao Papa Francisco a obra do jesuíta que implodiu na ilha do Marajó -, inventou o primeiro ecomuseu brasileiro, com nome de O Nosso Museu do Marajó

O Pesqueiro Real que antecedeu a Capitania da Ilha Grande de Joanes (1665), com sua história humana deplorável (cf. Alexandre Rodrigues Ferreira, Notícia Histórica da Ilha Grande de Joanes, ou Marajó, Lisboa, 1783) servindo de cativeiro a índios sacacas para pesca e moqueio de tainha que foi "moeda corrente" até meados do século XVIII no pagamento de funcionários do governo, soldos da tropa e côngrua dos padres; conheceu dia de libertação com a criação da primeira reserva extrativista marinha na Amazônia: a Reserva Extrativista Marinha de Soure (dita dos Maruanases), criada pelo decreto de 22 de novembro de 2001. Seria caso de proclamar: o Empate deu certo! 

Chico Mendes estendeu sua proteção sobre as populações tradicionais amazônicas, desde os confins do Acre até a Amazônia Marajoara. Seis anos depois, a lei 11.516, de 28 de agosto de 2007, criou o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). Mas, a Criaturada ainda carece se empoderar de toda esta longa história: empatar a grilagem das fontes históricas do Povo Brasileiro.
O descobrimento da Amazônia Marajoara resta a fazer, embora se fale desta fundamental e incontornável região amazônica desde 1500, com a viagem de Vicente Pinzón, quando ele passou pela foz do Amazonas e assaltou uma aldeia, provavelmente, Aruã e levou dali 36 "negros da terra" (índios escravizados) e uma mucura a qual chamou de "animal monstruoso" (ver O Novo Éden, de Nelson Papavero et. al.). Pinzón escreveu que os índios chamavam Marinatambalo àquela que se chama ilha do Marajó. Enquanto Ferreira Penna diz que ouviu um dos últimos falantes da língua aruã, chamado Anselmo José; dizer que a ilha se chamava entre eles Analau Yohynkaku... Segundo o esquema de fases de ocupação do Marajó, os Aruã foram os últimos a chegar por voltas de 1300 e os primeiros a entrar em choque com os portugueses do Pará e seus aliados Tupinambá.

Além do relato da viagem de Vicente Pinzón, de interesse para biogeografia e história do Marajó, O Novo Éden apresenta o mameluco Diogo Nunes (fonte de 1538) que reporta migração em massa de Tupinambás de Pernambuco ao Alto Amazonas, antes de Orellana e Carvajal (1542) e a Notícia da Ilha Grande de Joannes dos rios e igarapés que tem na sua circumferencia, de alguns lugares que se tem descoberto e de algumas couzas curiozas; texto de autor anônimo encontrado na Biblioteca Real do Porto (Portugal) e considerado como primeira fonte biogeográfica sobre a ilha grande do maior arquipélago fluviomarinho do mundo. [nota:
Noticia da Ilha Grande de Joannes dos rios e igarapés que tem na sua circumferencia, de alguns lugares que se tem descoberto e de algumas couzas curiozas. Revista do Instituto Historico e Geographico do Brasil, Rio de Janeiro 67 (1): 294-301. [Cf. Papavero & Teixeira, 2000x]. [Seg. o Prof. José Varella (comum. pess.), seria da autoria de Florentino da Silveira Frade]. In "Nomes populares conferidos à Panthera onca (Linnaeus, 1758) (Mammalia, Carnivora, Felidae) no Brasil -- https://www.revistas.usp.br/azmz/article/view/126851].

A arqueologia marajoara aponta a um passado de 5.000 anos, aproximadamente, dos começos do povoamento das terras baixas da América do Sul. O chamado paleo-Índio andou errante nesse enorme espaço labiríntico, rico em biodiversidade, deixando gravado nas pedras do Baixo Amazonas, notadamente em Monte Alegre, sua odisseia. Na ilha grande do arquipélago do Marajó o nômade inventou o paleolítico amazônico cerca do ano 400. Quer dizer, a primeira cultura complexa da Amazônia (ler "Cultura Marajoara", Denise Shaan). O descuido e maltrato da história e herança patrimonial do povo marajoara é uma vergonha da civilização luso-brasileira, que se soma à dívida moral do Ocidente em relação aos povos nativos da África e da América. 

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

Plantando a árvore inaugural do Ecomuseu dos Sapararé


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Cueira (Crescentia cujete) árvore originária da América Central que se adaptou a Amazônia e deu motivo a uma verdadeira arte em Santarém e Monte Alegre, no Baixo Amazonas, reconhecida oficialmente pelo IPHAN.



"O Guamá é o nosso rio", palavra de ordem de Pedro Paulo Sousa, idealizador do Projeto Sapararé. Um projeto-escola de canoagem que não se limita a formar canoístas, mas que nasceu talhado talvez para provocar estudo multidisciplinar inovador a partir do município de Benevides em suas respectivas margens no rio Guamá e no Distrito de Benfica, rio dos Sapararé. A envolver e motivar diversas comunidades ribeirinhas e centros de pesquisa para educação ambiental com foco nos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável. Com isto, seria o caso de dizer que todos nós que embarcamos, virtual e realmente; nos caiaques de Pedro com seus remadores voluntários atiramos no que vimos e acertamos no que não vimos.

Que bom, então, que nossos antepassados através de nossa própria geração podem ainda nos inspirar a chegar a bom porto recuperado do passado como herança às futuras gerações. Desafio a nós mesmos para concretizar algo maior: qual seja um projeto participativo para Geoparque do Guamá

Área geológica de historia natural e cultural da bacia hidrográfica levando em conta sugestões da UNESCO para criação de geoparques. Por acaso, as primeiras remadas do jovem mocorongo de outrora acabaram por nos levar a plantar a árvore inaugural do Ecomuseu dos Sapararé sob orientação do Ecomuseu da Amazônia e apoio institucional da Secretaria de Estado de Turismo (SETUR), a partir do Distrito de Benfica, município de Benevides, na rota turística Belém-Bragança.

Pedro nasceu e se criou no bairro da Aldeia, em Santarém, ele cresceu ouvindo velhas estórias dos povos das águas do Tapajós, como aqueles casos fantásticos que o padre João Daniel escreveu de memória, no cárcere de São Julião da Barra (Tejo, Portugal) onde ele morreu sob o jugo do Marquês de Pombal, nas 1.219 páginas do livro raro Tesouro descoberto no máximo Rio Amazonas,  volumes I e II (1722-1776). Consta que da Cidade do Pará os padres mandaram índios ir ao Tapajós com canoas baixar drogas do sertão. Meses depois os ditos índios voltaram dizendo eles que estavam em certa paragem quando ouviram vozes de muitas gentes vindas por um varadouro de dentro do mato em direção ao porto. E que eles esconderam-se a fim de não ser vistos pelos caminhantes em número considerável de homens, mulheres e crianças os quais, sem se deter, entraram n'água e sumiram dentro do rio. Mundos paralelos da cultura amazônica, onde botos se transformam em gente e cobras grandes em navios encantados...

Um dia, Pedro deixou sua Santarém natal e veio a Belém como a se preparar para mais tarde descer a remo o grande rio Amazonas até o Pará. Não é brincadeira... Por fim, o mocorongo foi se aconchegar no Distrito de Benfica, antiga Aldeia dos Sapararé à margem do rio que era dos índios missionados pelos jesuítas no século XVII até 1758, quando a aldeia foi elevada à categoria de vila de Benfica. E o Guamá o que tem a ver com isto? 

Em primeiro lugar, na crônica colonial, Guamá é um cacique taino da ilha de Cuba; que substituiu o rebelde Hatuey vindo da ilha de Quisqueya (atual República Dominicana) para iniciar a guerra de guerrilhas contra os cruéis conquistadores que o dominicano Bartolomeu de Las Casas descreveu com infinito horror. Os castelhanos capturaram e queimaram vivo Hatuey e enfim Guamá foi traído e morto por um parente seu. Seu nome resta hoje como município de Guamá, na província de Santiago de Cuba; e no Parque Nacional de Guamá.

Nosso valente Guamá é de 1723, aproximadamente, cacique dos Aruã e Mexiana da ilha do Marajó, segundo o geógrafo Armando Levy Cardoso na obra Toponímia Brasílica. Eu não sei se este nome ("lagartixa", em língua Aruak; penso no "tamaquaré" em Nheengatu, veio do Caribe ao Marajó ou ao contrário, foi do Marajó para Quisqueya (Hispaniola, Haiti) na pele de um dos 36 "negros da terra" capturados pelo espanhol Vicente Pinzón, em janeiro de 1500, na ilha de Marinatambalo). Só sei que povos aruacos foram as primeiras vítimas da Conquista e guardaram eles ódio hereditário aos Cariuá (conquistadores espanhóis e portugueses). Por outra parte, os Tupinambás conquistadores do Maranhão e Grão-Pará antes mesmo da vinda de europeus entraram em confronto com os "nheengaíbas" (falantes da "língua ruim", Nuaruaque) e desde 1615, com a tomada de São Luís do Maranhão, aliaram-se aos portugueses contra os ditos 'nheengaíbas" amigos dos holandeses e ingleses. Vem daí a malquerença hereditária entre as Ilhas e a terra-firme.

Arthur Cezar Ferreira Reis diz que o tal Guamá marajoara era bandoleiro que, de tempos em tempos, vinha do Marajó assaltar aldeias de índios mansos (escravos) dos portugueses e fazia tapiri (acampamento) na boca do igarapé do Aurá. A gota d'água que faltava para as autoridades do Pará mandar capturar Guamá vivo ou morto, aconteceu quando ele atacou a aldeia dos Murubiras... Provavelmente, de surpresa pela retaguarda. Penso que a aldeia dos Murubiras nesse tempo estivesse ao alcance do Furo das Marinhas, próxima à foz do rio Sucurijuquara, na ilha do Mosqueiro. Hoje com mapas Google pode-se ver que através do igarapé do Aurá pode-se chegar próximo às cabeceiras de vários rios e igarapés que desaguam no furo do Maguari, entre estes o rio dos Sapararés (Benfica)... Há uma vasta "devassa" (inquérito) sobre a saga do cacique Guamá e sua guerra contra os antigos desafetos: roubava índios escravos dos portugueses para os vender a traficantes franceses em Caiena a troco de armas e munições, diz o inquérito (cf. Limites e Demarcações na Amazônia Brasileira, Arthur C. F. Reis, Imprensa Nacional: Rio de Janeiro, 1947). Devemos, nos lembrar de que em 1659 o padre Antônio Vieira havia evitado a "guerra justa" (cativeiro e extermínio) dos rebeldes Nheengaíbas (carta de 29/11/1659) e fez as pazes com eles. Porém, colonos portugueses frustrados do fornecimento de mão de obra escrava assegurada por "índios cristãos" (tupinambás catequizados) expulsaram os padres violentamente. A consequência, além da condenação de Vieira em Portugal pelo Santo Ofício; foi a volta da pirataria dos "nheengaíbas" (marajoaras) que tivera início com a expulsão dos holandeses (1623-1647) e se prolongou com o dito Guamá até as primeiras décadas do século XVIII.

Por isto, o rio que banha a cidade de Belém ficou sendo "rio de Guamá"... A fim de prender Guamá vivo ou morto, capturar desertores e escravos que o acompanhavam, o capitão João Paes do Amaral foi mandado ao seu encalço até o rio Oiapoque. Voltou de mãos abanando e acabou indo ao Rio Negro reforçar as tropas em luta contra Ajuricaba dos Manaus. No lugar do capitão, seguiu o sargento-mor Francisco de Mello Palheta, da vila da Vigia; que trouxe o café furtado de Caiena. 

Seja como for, é curiosa a coincidência desdes dois caciques de nome Guamá pertencentes ao mesmo tronco linguístico Aruak que, como se sabe, habitou o circum-Caribe a partir do Rio Negro passando ao Orenoco e ilha de Trinidad para o mar das Antilhas e pelo Amazonas até o Pantanal e Nordeste até o Delta do ParnaíbaNaturalmente, quando os guerreiros Tupinambás começaram a descer o Peabiru para o litoral do Sudeste brasileiro em busca da Yby Marãey (terra sem mal) a guerra contra os Tapuia se alastrou, chegou ao Maranhão e Pará: Tapuitapera (Alcântara-MA) e Camutá-Tapera (Cametá-PA) são, provavelmente, dois lugares de memória da conquista tupi da antiga Tapuya tetama (terra Tapuia). Como se sabe, na conquista da Amazônia, o "rio de Guamá" era parte principal do Caminho dos Tupinambás...

Eis que o Projeto Sapararé vem de realizar com êxito a Expedição de Verão 2017 ao Alto Guamá. O sucesso da expedição animou ribeirinhos guameuaras, populações indigenas e quilombolas, cidades da bacia hidrográfica, canoístas, autoridades locais e simpatizantes do remo a "ocupar" amistosamente a Cidade Universitária do Guamá. Isto é, reivindicar compromisso da Universidade Federal e sua vizinhança no desenvolvimento socioambiental sustentável do Rio de Guamá.

Eu queria escrever sobre a oferta de um pé de cueira que voluntários do projeto "Aldeia Marambaia", no Conjunto Médice; estão enviando à comunidade da vila de Benfica (antiga Aldeia dos Sapararé), no município de Benevides, como símbolo de amizade entre as duas comunidades da área metropolitana de Belém. Quer dizer, uma comunhão de interesse para suscitar renascimento da ecocivilização da Amazônia, com base local nas culturas Marajoara e Tapajônica. Claro está que nenhuma comunidade local isolada - ainda que se trate do melhor condomínio do mundo - não poderá mudar o caos urbano, nem evitar a degradação do meio ambiente na área rural. Todavia, "um milhão de aldeias" interconectadas à aldeia global poderá, com tempo e persistência, fomentar cidades educadoras, "universidades livres" e ecomuseus dedicados ao enraizamento da extensão no seios das comunidades locais.

Para tal a rede mundial de computadores muito poderá oferecer ajuda, notadamente através de ecomuseus e museus comunitários em parceria com escolas locais formais públicas ou privadas. O turismo responsável mediante suas diversas modalidades poderá contribuir para aumento de emprego e renda dos municípios. E a descentralização das cidades levar à invenção de aldeias autogestionárias no espírito da "aldeia global" da Agenda 2030 dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (2030). 

O portador da singela lembrança da cueira da Aldeia Marambaia é o amigo Pedro Paulo, nativo do bairro da Aldeia, na cidade tapajônica de Santarém. Extraordinária coincidência: Dalcídio Jurandir (Ponta de Pedras, 1909 - Rio de Janeiro, 1979) recebeu em Santarém a notícia de que seu romance Chove nos campos de Cachoeira havia ganho o prêmio Dom Casmurro.

"Mas quero acabar que tive uma grande homenagem por causa do prêmio. Fui com o meu amigo Cronge da Silveira, em Santarém, tomar tarubá na casa de dona Ana, no bairro da Aldeia. A casa de palha, o chão batido e as moças simples e alegres cumprimentaram o "escritor premiado...” O tarubá é uma bebida fermentada de mandioca muito usada em Santarém. E naquela noite da Aldeia, num banco no terreiro, tomamos o tarubá, bebida da terra e do povo. Não me esquecerei nunca da Aldeia." (trecho de depoimento Tragédia e Comédia de um Escritor Novo do Norte).

O projeto "Aldeia Marambaia" é iniciativa de alguns moradores do Conjunto Médice nos anos de 1990. Pretendia discutir coletivamente a situação de "conjunto-dormitório" remanescente da extinta Cooperativa Habitacional de Trabalhadores Urbanos de Belém (COHATUBE) e contribuir por extensão à consciência socioambiental da área metropolitana de Belém. Na época a adesão ao projeto foi nula, indicativo de uma baixa sensibilidade para o tema entre os próprios moradores do bairro e na municipalidade em Geral. Todavia, passados quase 20 anos, a semente da aldeia parece germinar com a interatividade entre moradores e cidadãos da área metropolitana.

Na evolução da cultura amazônica, pode-se apostar: antes da cerâmica veio a cuia e o balde. O índio e o caboco carregaram muita água em balde de cuia e mataram a sede tomando água na cuia... Banho de cuia tem o seu valor. Açaí e tacacá se não for na cuia perde a graça. 

A imagem pode conter: uma ou mais pessoas, árvore, planta, grama, céu, atividades ao ar livre e natureza
voluntários do projeto "Aldeia Marambaia"
em atividade de fim de semana frente à
Escola Estadual de Educação Infantil e Ensino
Fundamental "Leonor Nogueira", Rua Cafezal,
Conjunto Médice II.




Originária da América Central, foi introduzida na América do Sul. Seu nome científico é Crescentia cujete L. Pertence à família das Bignoniaceae. Possui ocorrência nas regiões Norte e Nordeste do Brasil.

A cueira atinge até 12 metros de altura. Possui ramos longos, perenes e cheios de folhas até o fim do galho. Possui folhas que medem até 20 centímetros, de coloração verde escura brilhante, simples, alternadas, inteiras e alongadas. As flores são grandes, solitárias, campanulada com cálice, de cor branco-amarelado e são hermafroditas. Os frutos são de coloração verde-clara, arredondados e medem entre 15 a 30 centímetros de diâmetro.


Quando maduras, apresentam coloração marrom-negro e são bem resistentes, sendo utilizadas como caixa de ressonância em berimbaus (instrumento musical afro-brasileiro) e como recipiente para líquidos. Possuem boa frutificação, dando origem a várias sementes. As frutas frutificam entre os meses de janeiro e agosto. As sementes podem ser consumidas depois de cozidas, possuindo elevado conteúdo proteico.



Data: 
26/06/2015 - 11:30
Lucia Hussak van Velthem, pesquisadora associada do Museu Goeldi, escreveu o parecer aprovado pelo IPHAN
Agência Museu Goeldi - Quem mora no Norte do país, conhece, tem em casa ou, no mínimo, já se serviu de uma delas. Pretas, lustrosas e com diversos formatos e gravuras “floradas” em suas superfícies, as cuias são onipresentes no comer, no “banhar”, no celebrar e até mesmo no vestir. Dentro delas cabem história, religiosidade, economia e nutrição. Neste mês de junho, o Conselho Consultivo do IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) reconheceu essa tradição e inscreveu no Livro de Registro dos Saberes o“Modo de Fazer Cuias no Baixo Amazonas” como relevante forma de expressão da cultura brasileira.
O parecer foi redigido pela conselheira Lucia Hussak van Velthem, antropóloga, ex-curadora da Coleção Etnográfica do Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG), atualmente integrante da equipe do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação - MCTI.O processo para incluir o modo de fazer cuias no Baixo Amazonas dentre os patrimônios culturais do país teve início em 2003 através de projetos do Museu de Folclore Edison Carneiro do Rio de Janeiro. O acervo da reserva etnográfica do Museu Goeldi, que preserva peças históricas dos povos amazônicos, forneceu subsídios no processo de estudo para elaborar o parecer favorável.
Tradição das pinta-cuias - As cuias ornadas são feitas há mais de dois séculos no Baixo Amazonas, estado do Pará. Um fazer que foi transportado no tempo por mãos femininas. São as mulheres que, principalmente, se encarregam do ofício de transformar os grandes e redondos frutos da cuieira (Crescentia cujete), planta que fornece a matéria prima, em recipientes resistentes e bonitos.A produção de cuias atualmente se concentra em comunidades de Santarém e Monte Alegre -  os cidadãos deste último município, inclusive, são conhecidos como “pintacuias”.
Cuia pra quê? –  A cuia, que no Sul do Brasil e em outros países da América Latina é preenchida com o chimarrão, na Amazônia guarda o tacacá, o açaí e outras comidas e líquidos, isso só pra falar na alimentação. Ela está lá também nos afazeres domésticos de centenas de lares ribeirinhos, na coleta da água dos rios, para tomar banho, desafogar as canoas e “voadeiras”. É um utensílio para mulheres e homens.
Como fazer - Além do uso, o que distingue as cuias do Baixo Amazonas das demais é o seu modo especial de confecção. Usando técnicas tradicionais, reproduzidas e adaptadas de saberes indígenas, as artesãs escolhem os melhores frutos da cuieira, retiram o miolo e os dividem em metades, que são as estruturas das cuias. Estas são lavadas, raspadas com escamas de pirarucu ou folhas de embaúba (tipos de árvore do gênero Cecropia), e expostas ao sol até ficarem com um aspecto liso, interna e externamente.
Aí entra outro elemento natural que dá a coloração escura à cuia: o cumatê, pigmento da planta cumatezeiro (Myrciam Atramentifera). A tintura é pincelada na cabaça por diversas vezes e depois da fixação a superfície está pronta para receber os desenhos, talhados no “couro” da cuia com pontas de faca ou outros instrumentos cortantes. As gravuras mais frequentes são motivos florais, representações da fauna regional e grafismos tapajônicos, também denominados de “indígenas”. Os grafismos inspiram-se na cerâmica arqueológica, originária do povo Tapajó, preservada em museus brasileiros. Sua utilização atual se insere em um amplo processo de valorização do legado arqueológico no município de Santarém. 
Lúcia Hussak van Velthem – Antropóloga e museóloga, Lúcia van Velthem também foi responsável pelo parecer que inscreveu o Carimbó no Livro de Registro das Formas de Expressão do IPHAN, em 2014 e colaborou na redação do dossiê sobre o Sistema Agrícola Tradicional do Rio Negro, registrado em 2010.  A pesquisadora lembra ainda de outras expressões culturais paraenses que recentemente foram reconhecidas pela instituição, como as Festividades do Glorioso São Sebastião, em 2013, e o Círio de Nazaré, em 2004:  “Todos esses processos exitosos revelam a riqueza e a diversidade das manifestações culturais imateriais, notadamente as de cunho religioso e lúdico do Estado do Pará”, afirma.