sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

Rota Turística da Cultura Marajoara.

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capa de livro de Raimundo Morais, escritor paraense da Societé des Americanistes de Paris, autor da obra "O Homem do Pacoval" (1939) sobre a Arte Cerâmica Marajoara datada do ano 400, achada pela primeira vez no teso do Pacoval do rio Arari, em 20 de novembro de 1756, segundo a "Notícia Histórica da Ilha Grande de Joanes, ou Marajó" (1783), do naturalista Alexandre Rodrigues Ferreira.




Na Viagem a Portugal Saramago ensina que existe uma sutil diferença entre turistas e viajantes: ele faz papel de um viajante que entra na pátria de Camões através da fronteira com a Espanha e segue o roteiro de Almeida Garret, o popular escritor do romantismo lusitano. Embora eu tenha servido oito anos ao ofício estadual de turismo do Pará não sou turismólogo, não tenho negócios turísticos e nem sequer sou um turista. 

Contudo, sou um viajante do mundo aficionado por histórias de grandes viagens de descobrimento; ainda que eu não tenha por costume sair longe de minha aldeia... Fui viajante de fato umas poucas vezes tendo chegado, por sorte, até o norte da Europa, na Holanda. E até o extremo-sul da América, no Uruguai. Coisa rápida e sempre a bem do serviço público. Claro que aproveitei a chance para viajar além do que lá se oferecia na hora. Como perder oportunidade de ver o famoso Arco do Triunfo, se o viajante por acaso está em Paris e sabe um pouco de história da gloriosa França? Ninguém ensina Padre Nosso a vigário, nem a vender cultura aos franceses.

Para mim, o centro do mundo é a grande ilha do Marajó, mais vasta que o território de Portugal na foz do maior rio da Terra; pelo bom motivo que foi lá que se formou a civilização amazônica e primeira arte genuína do Brasil. A Amazônia Marajoara formada da ilha grande onde nasceu, há 1600 anos, a célebre Cultura Marajoara; no maior arquipélago fluviomarinho do planeta, mais a faixa continental de Portel; é um mundo ainda pouco conhecido, que atrai atenção de viajantes e turistas de diversas procedências. 

Se turistas reclamam a falta de estruturas e serviços, viajantes ao contrário conservam em primeiro lugar a curiosidade do velho espírito dos naturalistas aos quais as dificuldades fazem parte da jornada. Imaginem, por exemplo, o absurdo que seria o Caminho de Santiago pontilhado de resorts, requintados restaurantes e suítes de hotéis cinco estrelas! Seria a morte do espírito que move viajantes ao redescobrimento do velho continente. A estes descobridores do passado que hoje se faz presente sonhando o futuro é que, incansavelmente, me dirijo desde o fim do século passado, quando em 1999 publiquei na Revista Iberiana, o ensaio Novíssima viagem filosófica. Livro modesto, todavia portador da ideia iberiana prenhe de ambição enormíssima, que consiste na revelação duma humanidade singular forjada na velha Ibéria e projetada além do Mar-Oceano em Amerika, antigo país do vento conquistado por Colombo, com todas contradições do Fado Tropical, que Chico Buarque de Holanda canta.

Daquelas antigas conquistas hispânicas, Marajó configura talvez a ilha de Barataria prometida por Dom Quixote a Sancho Pança. Eu sou honradamente herdeiro do cavaleiro andante. Quem me conhece sabe que eu, apesar do quixotismo, não embarco na estória mal pensada da "barreira do mar", como se tem a mais vulgarizada tradução de Mbarayó. Minha história navega outras águas. Eu bebi de fontes jesuíticas do século 17, publicadas pelo historiador Serafim Leite, padre jesuíta que consultou o arquivo do Vaticano para escrever a monumental História da Companhia de Jesus no Brasil (1946). Obra apologética, deve-se saber. 

Ademais, para me desembaraçar da propaganda da Fé e das ciladas historiográficas do longo tempo colonial, dei asas à imaginação, vivi bastante com a gente do povo senhor dos lugares da memória. Não hesitei em me batizar caboco e me reindianizar para anular o Diretório dos Índios a fim de dar margem a muitas suposições: com que viajantes audazes rompem os estreitos limites da lógica cartesiana. Supor é apontar probabilidade de algum fato. Por isto me apresento como diletante, como cão farejador que dá pistas ao caçador... Com uma ponta de loucura e imaginação qualquer um pode ir e voltar do reino da lua. Sem imaginação não existem viagens que valem a pena. E a melhor parte da viagem é o retorno ao país natal para contar a odisseia. Conto esse que não terá fim.  

Isto posto, imagine um viajante do mundo que acaba de chegar em Belém do Pará e lá fora ouviu falar maravilhas a respeito da antiga cultura marajoara pré-colombiana. O que o amigo teria para mostrar a este suposto viajante ou turista apressado? Suponha que a pessoa descobriu a arte marajoara em algum dos dez grandes museus de que a arqueóloga Denise Schaan escreveu na obra Cultura Marajoara (2009). 

Bom seria que o órgão oficial de cultura e turismo houvesse bem organizada a Rota Turística da Cultura Marajoara de modo integrado com o plano de desenvolvimento sustentável do Estado do Pará como um todo. No polo Marajó tal roteiro deveria ser mostrado interna e externamente como a via principal da vocação econômica da gente marajoara, conforme diz a Constituição estadual no que se refere à Área de Proteção Ambiental do Arquipélago do Marajó, base para candidatura da Reserva da Biosfera Marajó-Amazônia.

Certamente, que a formatação do roteiro poderia acompanhar, passo a passo, a gestão da APA e implementação da futura Reserva da Biosfera mobilizando a comunidade de municípios a par de cada uma das respectivas populações locais. Aí é que a reconstrução do chalé do romance Chove nos campos de Cachoeira, de Dalcídio Jurandir; em conjunto com a reforma do Museu do Marajó faz sentido. A sustentabilidade dos equipamentos integrados a este roteiro turístico-cultural vai depender de parcerias público-privadas conforme o espírito da Agenda 2030 dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável.

A partir do Terminal Hidroviário de Belém o viajante poderá chegar ao Marajó pelo porto Camará (Salvaterra) ou Soure e retornar por Cachoeira do Arari através do rio Arari rumo ao porto de Ponta de Pedras com destino a Belém após fazer percurso circular na ilha na antiga Costa-Fronteira do Pará. Ou vice-versa, entrar por "onde o Marajó começa" - o rio Marajó-Açu que deu nome a toda ilha, segundo primeiras fontes do século 17 (ver José Varella Pereira, "Novíssima viagem filosófica", supracitada) e retornar a Belém pelo porto Camará ou Soure. 

A respeito dos atrativos desta rota (entre outros) há muito a dizer e poderá ficar para outras ocasiões, entretanto ao priorizar viajantes convém lembrar o co-fundador da teoria da evolução das espécies, Alfred Russel Wallace, que cerca de 1850, visitou a ilha de Mexiana e a Contracosta em Soure. O já mencionado sábio da Universidade de Coimbra, nascido na Bahia, Alexandre Rodrigues Ferreira, o autor do relato anônimo (provavelmente Florentino da Silveira Frade, guia de viagem de Alexandre Rodrigues Ferreira) "Notícia da Ilha Grande de Joannes" (1754), que antecedeu a "Viagem Histórica").

Certamente, Marajó é um mundo!


sábado, 29 de dezembro de 2018

A CULTURA MARAJOARA É ARTE PRIMEVA DO PARÁ E DO BRASIL, A GENTE PRECISA SABER.

Cultura Marajoara
obra da arqueóloga Denise Schaan:
indispensável a quem fala de Cultura do Brasil.




Hoje se vive um paradoxo nunca dantes: quase todo mundo passa os dias com a internet na mão e nunca houve tamanha ignorância e tanta desinformação!... Não estou exagerando. No maior arquipélago fluviomarinho do planeta (maior que Portugal, ou o estado do Rio de Janeiro) por exemplo, metade da população é analfabeta de pai e mãe, mas esta indecência não parece incomodar os mais de uma centena de vereadores; dezesseis prefeitos e outro tanto de vice-prefeitos do Marajó, políticos se elegem com votos da Criaturada e se alguém armar uma pegadinha aos deputados, senadores e ao governador do estado o risco do mesmo passar vergonha é considerável.

O jovem governador Helder Barbalho tem todas condições para, em quatro anos de seu primeiro mandato; zerar a vergonha do analfabetismo de adultos e adolescentes no Pará. Não preciso dizer como. Só convocar a brava gente para fazer barulho na boa... Se o jovem governador fizer ouvidos moucos como os velhos fizeram, certos de que não precisam da Criaturada para nada; a gente irá chatear tal qual Dalcídio e Gallo em vida criticaram as mazelas destas ilhas e depois de mortos ainda provocam discussões acesas muito mais.

Minha singela esperança é que após minha passagem da fronteira desta nossa vida ribeirinha para o reino encantado da Princesa, não sei a hora nem sei o dia, não tenho pressa; uma menina ou um menino curioso como eu fui um dia lá no velho Itaguari. Queira saber quem inventou o mundo e acabe por descobrir estas linhas tortas, prosseguindo com elas na construção de outra história.  

Os brasileiros conhecem mais depressa Hollywood e Miami, que as principais cidades e regiões brasileiras. Ariano Suassuna aparentemente perdeu a guerra, mas Rolando Boldrin ainda peleja... Dalcídio Jurandir, o índio sutil que ganhou o único Prêmio Machado de Assis para romancista amazônida; e Giovanni Gallo, o marajoara nascido em Turim que inventou o primeiro ecomuseu brasileiro avant la lettre; já morreram. Enquanto eu respirar sou pensar no Marajó como meu lugar, não importa que eu já more na ilha do meu carma: é lá que meu coração reside ainda que fisicamente eu esteja em Goiás ou no Japão... 

Aos que me conhecem e são amigos da secretária da Cultura, Úrsula Vidal; digam a ela: se não tiver mais tempo para nada durante o tempo que ela permanecer no governo, não deixe de ler Agenor Sarraf e Denise Shaan se quiser conhecer os Marajós em sua complexidade e diversidade... Para entender melhor o drama das mulheres pretas e cabocas, leia o romance Marajó, e compreenda a sina de Orminda, assediada pelo suposto pai que nem "Dona Silvana", diz Vicente Salles sobre a tara do incesto na literatura ibérica. Sim, Marajó não é apenas uma ilha assolada pelo analfabetismo e a pobreza. Marajó é um mundo...

Por isto eu aperreei Paulo Chaves até ele não puder mais suportar minha pregação. Claro, conversei muito com o contravertido arquiteto de Almir Gabriel, ele não me quis ouvir sobre a primazia da Cultura Marajoara... Queria ele transferir o Museu do Marajó para Soure, mas o Gallo felizmente não concordou... O lugar do Museu do Marajó é Cachoeira e o Gallo explicou bem o porque nos livros que ele escreveu. Eu escrevi carta aberta ao governador Helder, espero que ele tenha lido, ou Úrsula Vidal. Ademais, extinguir a SETUR para deixar o turismo no segundo escalão é um grande equívoco, que o governador precisa corrigir ao mais rápido possível juntando os dois setores na secretaria da cultura, que ficará melhor como Secretaria de Estado de Cultura e Turismo - SECTUR.

A Casa de Dalcídio Jurandir anexa ao Museu do Marajó dará redobrada importância ao turismo cultural paraense. Para isto é preciso vontade política e vontade política não se faz por decreto nem passeata festiva. Porém, com educação e resgate da cultura popular, já devíamos saber. 

Na antiga freguesia de Nossa Senhora da Conceição da Cachoeira do rio Arari, o singelo salto d'água que deu nome ao lugar sumiu na paisagem soterrado pela erosão e as araras unas (azuis),que antigamente povoavam as matas do Arari, foram extintas. O famoso chalé do romance Chove nos campos de Cachoeira não aguentou a ditadura da água em tantos invernos e foi o chão diante da ignorância inocente dos búfalos da região. 

Pior, o Museu do Marajó dilacerado pelo tempo e a indiferença das autoridades fechou as portas... Susto grande! Oxalá sirva para acordar esta gente! Desde que morreu o padre dos pescadores devotos de São Pedro Safadinho, a completar 16 anos no ano que vem; já escrevi 'um milhão' de vezes sobre o mesmo assunto. E nada... Quer dizer, não é bem verdade, no dia 7 de setembro de 2003, tive eu a elevada honra de encabeçar a Carta do Lago Arari dirigida ao Presidente Lula.

Uma linda iniciativa do município de Santa Cruz do Arari como símbolo de reconciliação com a memória do padre Gallo, que saiu dali quase corrido em desavença com o prefeito municipal. Seis meses após a morte do criador do museu, uma bela exposição aconteceu e nós todos, gregos e troianos, estamos lá em sessão especial da Câmara Municipal escrevendo ao Presidente da República: ajude-nos a ajudar o Museu do Marajó a resgatar a Cultura Marajoara. Foi portador Paulo Rocha, que hoje é senador. A resposta veio com o Iphan, com Cristóvão Duarte, em visita a Cachoeira levando móveis de escritório como ajuda inicial. Mas, sabe como é, as autoridades são efêmeras e são trocadas de repente. Veio então Maria Dorotea Lima cheia de boa vontade, verba curta e poucos auxiliares. Mesmo assim, ela foi incansável para produzir o Inventário Nacional de Referências Culturais - Marajó. O diabo da coisa pública é que uma autoridade não dá prosseguimento ao trabalho dos antecessores...

Tudo isto porque, desde o tempo do Barão de Marajó, o patrimônio arqueológico marajoara é comparável à casa da mãe Joana... Quem ler a Notícia Histórica da Ilha Grande de Joanes, ou Marajó (1783) compreenderá o carma da Amazônia Marajoara. Será? 

Quem escreve sobre a história das coisa deve buscar a verdade, sabendo de antemão que a não encontrará ainda que viva 100 anos. De todo modo, tenha certeza de que não poderá jamais agradar a todo mundo.

domingo, 11 de novembro de 2018

BELÉM DA AMAZÔNIA: RETALHOS GEOCULTURAIS.

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Doca do Ver O Peso, antiga foz do Igarapé do Pery, junto ao outeiro na margem esquerda onde se ergueu o Forte do Presépio (12/01/1616), berço da cidade de Belém do Grão-Pará. Ao fundo, a Rua Marquês de Pombal.





Por necessidade médico-obstétrica de minha mãe, nasci na maternidade da Santa Casa do Pará, outubro de 1937. Pobre mamãe, deveras morria de medo de atravessar a perigosa baia do Marajó em canoa à vela durante os meses de ventania. Mas não havia outro meio. Cresci entre chuvas e esquecimento no bairrozinho do Fim do Mundo na vila Itaguari (Ponta de Pedras), na grande ilha do Marajó, situada no delta-estuário do rio Amazonas. A qual o padre Antônio Vieira dissera ser maior que o reino de Portugal, então povoada de bravos Nheengaíbas falantes de muitas línguas "dificultosas" próprias do "rio Babel" (Amazonas). 

Meu pai era filho de índia marajoara, minha avó Antônia Silva; com descendente de cristãos novos portugueses, provavelmente; meu avô capitão Alfredo Nascimento Pereira. Minha avó tapuia depois de parir três filhas e dois filhos morreu de parto de filhos gêmeos, no dia 22 de agosto de 1904, um deles natimorto recebeu o nome Manuel e o sobrevivente foi batizado Rodolpho Antonio, do nome do padrinho alemão e da índia falecida.

Minha mãe nasceu em plena guerra de 1914, no dia 18 de dezembro. Ela era descendente de judeus convertidos da Galiza por parte de pai, meu avô Francisco (aliás Celestino) Pérez Varela; e do avô dela Pedro Peres de Castro, dono de escravos no Baixo Arari. Minha bisavó materna chama-se Micaela Varela Rincón, cristã velha nascida nas Astúrias. Nas memórias da família consta que foi ela, cansada das guerras de Espanha onde o marido e dois filhos maiores serviram de bucha de canhão aparentemente na guerra colonial de Cuba; quem determinou a emigração de meu avô Celestino antes dele ser recrutado. 

Gosto de repetir o historiador José Honório Rodrigues, quando ele disse "a História não é para os mortos"... Claro está que, no passado, qualquer modificação na árvore genealógica de minha família a história seria outra e eu não estaria aqui agora a contar estórias. Sou sangue cabano mistura fina de índios e pretos, com um quartilho da ralé judia e outro tanto de massagada árabe que deu na invenção do país do futuro, Brasil. 

A carne da história alimenta-se de acontecimentos e fantasias... Deuses e demônios, fados e milagres compõem a espessa colcha de retalhos alegres ou tristes, feios ou bonitos; que cada um de nós tece ao longo da vida. A morte realmente não existe aos olhos infinitos da vida... Tudo é movimento e sucumbir como as ondas do mar, Nietzsche disse pela boca de Zaratustra que o homem é uma corda estendida sobre o abismo.

Sem os delírios do Sebastianismo professado pelo trovador sapateiro Bandarra, da vila de Trancoso (Portugal), não existiria Restauração da monarquia portuguesa tal como a profecia sucedeu e o rei da independência não teria sido Dom João IV de Bragança, dando cabo à União Ibérica (1580-1640)... Tampouco, sem as loucuras do Quinto Império do mundo; o padre Antônio Vieira não teria sido quem ele foi. O famoso encontro de Amsterdã, refúgio da comunidade judaica portuguesa; com o rabino Menassé Ben Israel (cristão novo Manuel Dias Soeiro, da ilha da Madeira), autor da obra As Esperanças de Israel com a tese de que os índios americanos seriam descendentes das tribos hebraicas perdidas do cativeiro da Babilônia, foi determinante para a obra ecumênica e geopolítica do padre Antônio Vieira, conselheiro do rei de Portugal... O mesmo mito de Dom Sebastião habita ainda o Brasil lendário, Rei Sabá na tradição da Mina no Maranhão e Pará vive sentado à beira mar em São João de Pirabas... Ignoro se Stefan Zweig leu Vieira, todavia acredito que na solidão de Petrópolis antes de cometer suicídio mais de uma vez ele tenha meditado a respeito do mito milenarista de Joaquim de Fiori que desaguou no Quinto Império...

Fizemos Cristo nascer na Bahia ou em Belém do Pará, segundo o antropófago Oswald de Andrade (Manifesto Antropofágico, 1928). Vieira ficou mais conhecido pelos elegantes sermões barrocos e menos pela "heresia judaizante" (ver História do Futuro e o ecumênico Clavis Prophetoruminconcluso) que o levou à condenação e cárcere da Inquisição; o payaçu dos índios resta pouco conhecido por sua passagem no Maranhão e Grão-Pará (Amazônia portuguesa), entre 1652 e 1661. Foi quando ele escreveu a famosa carta secreta ao bispo do Japão, a caminho da aldeia do Camutá (Cametá-PA), em 29 de abril de 1659. Preso no labirinto amazônico, o padre grande dos índios, grita em letras loucas na tal carta secreta As Esperanças de Portugal: "Bandarra é verdadeiro profeta!".

A realidade, todavia, no ano de 1656 bateu duro no profetismo luso: no Pará, o padre João de Souto Maior, primeiro missionário da paz aos Nheengaíbas morreu de fadiga, febres e fome durante a viagem do ouro do Pacajás; Dom João IV estava morto; assim que o rabino Menassé Ben Israel, da comunidade sefardita de Amsterdã...

Dizendo isto para justificar a loucura da parte que me toca na história da descoberta do vasto mundo. Cheguei aqui e agora 100 anos depois do fim da Grande Guerra, nesta complexa teia cibernética na qual segredos de estado se acabam, sonhos e alegorias cifradas se revelam das antigas invenções ora resinificadas, um mergulho amazônico no tempo e espaço ou espaço-tempo como a Física prefere. Cacos de índio e fragmentos de memória quem pode revelar coisas que nunca dantes se vislumbraram e, no entanto, sempre estiveram aí.

Por exemplo, o Brasil foi 'achado' no Pará e 'descoberto' na Bahia. Como assim, cara pálida? Duarte Pacheco Pereira, cosmógrafo do rei de Portugal, veio às lindes do tratado de Tordesilhas (1494) que ele mesmo no papel de conselheiro da parte lusa havia ajudado a fixar: a missão secreta foi realizar observações astronômica 'in loco" a fim de possibilitar o descobrimento... Era o ano de 1498, dois anos antes de Pedro Álvares Cabral com sua frota de passagem. em Porto Seguro, a caminho das Índias. Isto do ponto de vista da historiografia portuguesa com a sua curiosa teoria do segredo das antigas navegações cartaginesas e gregas. Nunca ouviu falar? Claro que daria um belo curso acadêmico, porém o que importa agora? Importa sim para a gente do rio e do mar se dar conta da antiga invenção do mundo e como a Antiguidade está presente na Modernidade.

 boca da noite, no fim da jornada, os três caravelões portugueses com homens vindos da jornada do Maranhão acabam de entrar no Rio Pará. Chegam em vias de conquistar o "rio das amazonas". O comandante da expedição é o português Francisco Caldeira de Castelo Branco, capitão-mor do Rio Grande do Norte, que manda as ditas naus dobrarem a ilha do Sol (Colares) a fim de recolher as velas e fundear às ilhargas da aldeia dos Tenoné, junto à Ponta do Mel (depois Vila do Pinheiro, Icoaraci). Ali os navegantes foram pernoitar. Tudo se encontrava estranhamente calmo e parecia ter esperado , há séculos, por esta hora." 

José Varella [José Marajó Varela], "Amazônia Latina e a Terra sem Mal": Belém do Pará, 2002. 



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Forte do Castelo, antigo Presépio, em Belém do Pará.


Localização de Judá
Os reinos de Israel e Judá no século IX antes de Cristo.


A tomada de São Luis do Maranhão aos franceses (1515) teve como antecedente o casamento do cristão novo Martim Soares Moreno com a índia Paraguassu, filha do cacique Jacuúna da aldeia de Jaguaribe (Ceará). Embora o assunto tenha sido romanceado pelo escritor cearense José de Alencar, os historiadores luso-brasileiros não oferecem maiores explicações a respeito deste e outros episódios onde entram em acordo judeus cristianizados e nativos. A lista é extensa. Sem esquecer o mercado marítimo negreiro dominado por judeus, geralmente residentes na Holanda e Inglaterra.

Resta algo como uma história secreta onde judeus e cristãos novos assumem papeis de protagonismo. Um complexo de culpa que deveria ser enfrentado com coragem na busca da descolonização dos espíritos. Não bastou o Marquês de Pombal proibir a diferenciação entre "cristãos velhos" e "cristãos novos", nem expulsar os Jesuítas para o Diretório dos Índios (1757-1798) emancipar os índios em 'caboclos'. 


     Fica decretado que agora vale a verdade.
       agora vale a vida,
       e de mãos dadas,
       marcharemos todos pela vida verdadeira. 
      Estatuto do Homem, Thiago de Mello.
Do casamento do judeu de origem marroquina com a índia Paraguassu nasceram mamelucos danados, já naturalizados pernambucanos, paraibanos, potiguaras, cearenses, maranhenses... A nação tupinambá aliada agora aos odiados peró (portugueses) de outrora anistiavam o passado a fim de premeditar o futuro da conquista da Yvy marãey (terra sem mal). Já a marcha se fazia para oeste, rumo ao porto do sol, desde a Paraíba. O forte do Presépio (1616), para os índios era concretude do sonho dos pajés-açus... "Deus criou o homem para dormir e sonhar" (o índio tupinambá perante o visitador do Santo Ofício, em "A Heresia dos Índios", Ronaldo Vainfas). Erich Fromm, em "A Linguagem Esquecida" demonstra como o inconsciente coletivo age através dos indivíduos de uma dada coletividade. Na ereção do forte do Presépio duas nações tinham sonhos diferentes, porém convergiam na conquista do grande rio das Amazonas: no meio do caminho havia uma ilha maior do que o reino de Portugal...

Então, nasceu das águas grandes do mar e do rei dos rios rios o incipiente burgo à sombra do forte: Santa Maria de Belém do Grão-Pará, Feliz Lusitânia; figurativa de Belém de Judá da diáspora. Se os caraíbas dormiram talvez ao fim daquele dia para sonhar com a Terra sem males; o capitão-mor Castelo Branco recordava o Reino de Judá e as tribos perdidas do cativeiro da Babilônia...
A arqueologia vem demonstrando que, durante os séculos IX e VIII a.C., Judá não passava de uma região atrasada, predominantemente rural, prejudicado pelo isolamento geográfico e com uma população politeísta formada principalmente por pastores nômades e mencionado por fontes estrangeiras pela primeira vez apenas em 750 a.C., dois séculos após a formação do Reino de Israel. Este, por outro lado, localizado numa região mais privilegiada para a agricultura e rota de comércio entre os portos fenícios e os estados mesopotâmicos, gozou de grande desenvolvimento anterior, durante os séculos IX e VIII a.C., estendendo suas fronteiras entre os territórios arameus ao norte da Galileia, instalando palácios em diversas partes do reino e formando um poderoso exército.



Oriente Médio em 830 a.C.

Governando como vassalo da Babilônia, o Rei Zedequias manteve-se no poder por 11 anos, quando então rebelou-se contra Nabucodonosor, provavelmente ao recusar-se pagar tributo. Foi o suficiente para que invadisse Jerusalém, matasse seus habitantes, despojasse o templo de todos os seus bens de valor e ateasse fogo a ele. O Reino de Judá deixou assim de existir.

No território de Judá permaneceram apenas os mais pobres. Todo o restante do povo que sobreviveu ao ataque de Nabucodonosor II foi levado às cidades do reino da Babilônia. O período do Cativeiro da Babilônia estimulou o povo de Judá a um sentimento de identidade étnica e religiosa. O relato bíblico deste período, entre a conquista de Jerusalém e a da Babilônia por Ciro II; é onde se utiliza de forma consistente o termo "judeu" identificando o povo de Judá, ou da mesma etnia e seguidores da mesma religião deste povo. A nação judaica sobreviveu para retornar à Palestina e repovoar a província persa de Judá (Yehud), mais tarde denominada Judeia, pelos romanos.

Os primeiros assentamentos no local onde está a cidade da antiga Belém, datam 3 000 a.C.. No território hoje constituído por Israel e Palestina se assentaram tribos cananeias, as principais chamadas jebuseus, hititas e amaritas que tinham pequenas cidades cercadas por muralhas. Uma destas cidades foi Beit Lahama, em homenagem a Lahm, deus caldeu da fertilidade adotado pelos cananeus com nome de Laham, a quem construíram um templo, localizado no atual Monte da Natividade, voltado para os vales férteis da região, depois chamados Campo dos Pastores.
Em 1 350 a.C. um governador egípcio da região menciona a cidade de Belém, em carta ao faraó Amenófis III, como ponto de repouso para viajantes. Por ser ponto estratégico, os filisteus aí mantinham uma de suas divisões militares, impondo sua hegemonia em 1 200 a.C., passando a se miscigenar com os cananeus. 

A disputa por terras entre filisteus e israelitas foram causa de numerosas guerras na Antiguidade. Os gregos ocuparam a Terra Santa por mais de um século, até a chegada dos romanos, em 63 a.C. Após o ano 313, o imperador Constantino iniciou a construção de várias igrejas, das quais se destaca a basílica da Natividade, sobre a gruta onde Jesus nasceu segundo a tradição cristã. Belém passou a ser então importante centro de vida religiosa.

Belém foi identificada com a antiga Efrata (Gênesis 35:16; idem 48:27; Rute 4:11), é chamada de Belém Efrataem (Miqueias 5:2); localizada na área montanhosa de Judá, chamada também como Belém de Judá (Juízes 17:7; Mateus 2:5; I Samuel 17:12), possivelmente para distingui-la de Belém de Zebulom (Josué 19:15) e "a cidade de Davi" (Lucas 2:4).

Belém é mencionada também como local de nascimento de Jesus (Mateus 2:1-6; Lucas 2:4-15; João 7:42), cumprindo-se, então a profecia messiânica: «E tu Belém, terra de Judá, não és de modo nenhum o menor dentre os principais lugares de Judá. Porque é de ti que há de sair o Chefe, que há de pastorear o meu povo, Israel.» (Miqueias 5:2).




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Torre de Belém, Lisboa, Portugal.

Patrimônio cultural da Humanidade, reconhecido pela UNESCO, a Torre de Belém foi projetada inicialmente pelo rei de Portugal Dom João II, porém iniciada a construção em 1514 concluída em 1520, durante o reinado de Dom Manuel I, na era gloriosa da história do reino de Portugal em consequência do comércio marítimo com a Índia. Era, sobretudo, de expansão colonial. A torre é símbolo arquitetônico dos Descobrimentos portugueses e assinala o renome do rei Dom Manuel I, coroado em 1495; seu nome advém da antiga freguesia de Santa Maria de Belém, do concelho de Lisboa. O território da antiga freguesia hoje contém o Palácio de Belém, sede do governo português, além de espaços verdejantes com museus, parques e jardins num ambiente ribeirinho com cafés e área de passeio público.

A expressão geocultural de Belém Ocidental, cognome da cidade de Lisboa; transplantou-se de diversas formas ao descobrimento e invenção do Brasil. Especialmente, após a tragédia da morte de Dom Sebastião durante a fracassada conquista do Marrocos, com o domínio da Espanha no decorrer da União Ibérica (1580-1640). O trauma da decadência veio a marcar gerações e foi precisamente naquele período que o povo português gestou uma das suas mais significativas criações: o Sebastianismo. Traço psicológico e cultural transmitido ao Brasil emergente também, onde se adivinham as raízes da Diáspora judaica eivada de sofrimento e esperança, marca indelével do catolicismo português espalhado no mundo onde houve presença do pequeno, porém atrevido colonizador tão bem expresso no Fado Tropical, de Chico Buarque de Holanda. 

Pois, na amargurada lembrança de Portugal sob domínio da arquirrival Castela, o portuguesismo escondia a fibra e fidelidade de imigrantes de Judá e Israel debaixo das perseguições religiosas, suspeitas políticas, contravenções e subversões secretas que deram teor ao multiculturalismo chamado Sebastianismo. No Brasil colonial e também na Península Ibérica, judeus clandestinos deram curso ao fenômeno notável daquele período dos marranos (Espanha) ou cristãos novos (Portugal), enlaçando comunidades portuguesas na Holanda, Inglaterra, França, Índia, África e China. 

O Santo Ofício tornou-se instrumento de terror e convertidos de Israel e do Islã foram vítimas preferenciais de perseguição. A fundação de Santa Maria de Belém do Grão-Pará, a Feliz Lusitânia amazônica, em 12 de janeiro de 1616; estava no olho do furacão da disputa colonial entre a União Ibérica católica apostólica romana e a França huguenote sob monarquia católica; a Holanda e Inglaterra "herege" (protestante). O grande contexto histórico da invenção da Amazônia (estado do Maranhão e Grão-Pará), no século XVII. No bojo daquele período histórico se descrevem, por exemplo, o encontro reservado do padre Antônio Vieira com o rabino português Menassé Ben Israel; donde as consequências histórica do encontro de Amsterdã no chamado "Papel Forte" (proposta do reconhecimento da independência de Portugal pela Holanda; em câmbio do regresso dos judeus portugueses a Portugal e a entrega de Pernambuco aos holandeses). Motivo da desgraça política de Vieira e causa de sua quase expulsão da Companhia de Jesus, remediada pela Missão do Maranhão (1652-1661), da qual reluz a carta secreta de 29/04/1659 e a carta ao rei Dom Afonso VI prestando contas da Missão, datada de 29/11/1659, publicada em Lisboa em 11/02/1660.




A diáspora judaica cerca de 1490, vésperas da Reconquista da Ibéria pelos cristãos e do descobrimento da América.


estátua de Cristóvão Colombo na vila de Cuba, Portugal.


Ora, tudo isto aqui vem em tela devido o Descobrimento da América, por Cristóvão Colombo; apresentado como navegador genovês a serviço dos Reis Católicos. Portugal ameaçou ir à guerra contra Espanha. Para evitar o choque entre os dois reinos católicos, portugueses e hispânicos negociaram o Tratado de Tordesilhas (1494): a partilha do mundo "achado e por achar" entre as duas coroas, por um meridiano a 370 léguas de distância a oeste de Cabo Verde. O acordo foi levado ao papa Alexandre VI (espanhol Rodrigo Bórgia), que homologou mediante publicação de uma bula. Francisco I, rei da França, protestou chamando que Tordesilhas era o "testamento de Adão" e soltou os seus corsários para assaltar terras ultramarinas dos ditos reis. Logo a Holanda não se fez de rogada e a "pérfida Albion" (Inglaterra) fez parceria com piratas do Caribe.

A Terra gira em torno do Sol, mas a Santa Sé põe fé no milagre de Josué fazendo a Terra parar a fim de exterminar os Filisteus em um único dia... Passaram-se 500 para pedir desculpar a Galileu Galilei e para o mundo cristão saber que Colombo era espião português de origem judaica!... E os Filisteus (Palestinos) ainda resistem até hoje. Em 2006, foi inaugurada na vila de Cuba (Portugal) uma estátua da autoria de Alberto Trindade em homenagem a Cristóvão Colombo, descobridor da América, no mesmo dia 28 de Outubro que o navegador terá aportado à ilha de Cuba, no mar do Caribe, em 1492, 16 dias depois de chegar à ilha Guaanani (Bahamas), a qual colocou nome de ilha do Salvador. Colombo escreve dizendo ter chamado "Joana" àquela ilha, porém curiosamente ficou sendo conhecida por Cuba, mesmo nome da vila onde o descobridor nasceu.

Segundo a tese defendida pelo historiador português Mascarenhas Barreto ("Colombo Português: Provas Documentais"), o famoso almirante teria nascido em Cuba, em 1448, como filho ilegítimo do infante D. Fernando, duque de Viseu e de Beja, e de Isabel Zarco. O nome Cristóbal Colón, em castelhano, seria um pseudônimo como espião a serviço de D. João II, sendo ele descendente de cristãos novos (judeus convertidos ao cristianismo), de nome próprio Salvador Fernandes Zarco, alegado neto materno do navegador João Gonçalves Zarco (Portugal continental, c. 1390 - Funchal, 21/11/1471). O suposto avô de Colombo foi navegador português e cavaleiro fidalgo da Casa do Infante D. Henrique. Comandante de barcas, escolhido pelo Infante para organizar o povoamento e administrar como donatário a parte do Funchal, na Ilha da Madeira, a partir de cerca de 1425. 

A Ilha da Madeira tem papel estratégico na história dos descobrimentos portugueses: lá efetivamente começou a célebre escola náutica de Sagres. Mais que isto, foi laboratório da colonização portuguesa com a importação da cana de açúcar trazida da índia e distribuída às colônias. Na Madeira também foi criado o sistema de Morgadio (herança fundiária pelo filho mais velho), que se tornou cerne das capitanias hereditárias no Brasil.

Escola de Sagres

terça-feira, 30 de outubro de 2018

vou de bubuia, vou navegando pela beira do rio de Heráclito.

Resultado de imagem para fotos Jose Varella






Resultado de imagem para imagens mario quintana o diabo é deixar de viver



Há muito tempo, o rio Marajó-Açu queria me afogar
A cobra grande Boiuna, mãe do rio, paresque
Ia me levar pro fundo onde estão outros curumins
E cunhatains encantados, pra brincar na maré 
Com os peixinhos e mariscos da escolinha dos caruanas. 

Escapei por milagre e pra consolar a minha mãe prometi 
Nunca mais morrer fosse de morte morrida ou matada.
Cheio de fé garanti a ela que iria ficar pra semente...
Que um menino não promete quando vê sua mãe triste?
Promessa de criança desafia o anjo da guarda
Meu zeloso guardador que minha santa mãezinha
Evocava noite e dia, disse ele então "amém, meu curumim"...

Foi assim que eu fui crescendo na vida no seio da família,
Bons e maus momentos sucederam.
Eu vivia distraído dos perigos desta vida
Quando completei 18 anos de idade
Não lembro o dia nem lugar daquela data passada
Entre chuvas e esquecimentos de brancas nuvens.

Hoje que completo 81 outubros busquei recordar aquele dia
Corria o ano de 1955 e eu habitava o paraíso
Sem saber datas de aniversários e feriados
Descalço e nu da cintura pra cima, despido de maldade
Todo santo dia era apenas dividido pela maré seca
E a maré cheia de graça, mesmo quando a lua
Não dava de comer...
Eu era dono do mundo e tinha remo e canoa boa.
Até hoje em minha mente guardei portulanos
Daqueles ingênuos descobrimentos juvenis...

O inferno, verde porém malvado, me expulsou da minha terra
Tive de morar na cidade e aprender a sobreviver
Na selva de pedra e asfalto longe do mato onde cresci.
Por isto me refugiu hoje no reino encantado:
Aqui e agora eu refaço os 18 verdes anos de minha vida.
Viverei para sempre dentre ramagens que a brisa balança,
Dentre ninhos e cantares de aves sonoras,
Correrei junto ao gado do vento nas campinas,
Serei pescador, gapuiador, mariscador, canoeiro,
Serei rei do infinito e dormirei com a mulher dos sonhos meus
Por toda a eternidade entre as estrelas do céu
E as saudades eternas da terra humana.

quinta-feira, 11 de outubro de 2018

Estradas e caminhos de Nazareth

Resultado de imagem para imagem carro dos milagres no cirio de nazaré em belém
Carro dos Milagres alegoria de D. Fuas Roupinho, salvo à beira do abismo 
por socorro da Virgem. Círio Nazaré em Belém do Pará. 





"No mês de outubro em Belém do Pará 
São dias de alegria e muita fé 
Começa com extensa romaria matinal 
O Círio de Nazaré 
Começa com extensa romaria matinal 
O Círio de Nazaré"

Festa do Círio de Nazaré / Dominguinhos do Estácio. 


Em meio a um mundo caótico em crise climática e civilizacional, num país tropical em transe profundamente dividido como nunca dantes pela cobiça, a raiva e a ignorância; a Amazônia suplica amor e paz aos pés da Virgem de Nazareth.

Metáfora do espaço/tempo: Maria mãe do Salvador, do poço da Anunciação até o Calvário... Maria das dores da Terra até a Ascensão ao Céu... Maria de Nazaré até se transformar em Nossa Senhora do Brasil... 

O sagrado e o profano juntos e misturados no carnaval devoto e no rito cerimonial da Chegada, o Círio em romaria obscura pela antiga estrada de Nazaré até a ermida modesta coberta de palhas na beira do igarapé... Freud explica, porém Jung vai além do inconsciente individual pelo descobrimento dos arquétipos imemoriais.

Da roça no interior da região, o pato e o tucupi da criação da terra, a maniva da maniçoba, a farinha de tapioca para açaí tradicional, o suor do camponês lavrador, a lida do pescador para dar a posta suculenta do filhote na mesa farta do doutor. A mais valia do Círio merece alta consideração da história da devoção de Nossa Senhora de Nazareth saída da antiga Galileia até o Inferno Verde no mundo moderno.

Um momento de trégua na dura luta pela sobrevivência: já não mais apenas de católicos apostólicos romanos, mas de todos crentes nos poderes infinitos da compadecida Mãe de todos seres viventes, humanos ou não... Ícone do amor maternal, imagem santa da sagrada mãe de Jesus Nazareno, o Cristo salvador. Um sonho augusto celestial para salvar a Humanidade desnorteada na terra dos homens, busca sublimada do paraíso na terra sem males através da espiral evolutiva do tempo do Homem. 

Ave, o poeta da floresta Thiago de Mello! Viva São Benedito da Praia, salve o poeta Bruno de Menezes!

Um dia ecumênico amazônico para o Brasil e o mundo inteiro. Quem vai à procissão leva gratidão em pagamento de promessa pela graça alcançada; o homem e a mulher que viviam sozinhos se fazem multidão em volta da Berlinda e na Corda igualitária, onde devotos tem os pés descalços como os pobres ricos de fé... 

Quem acompanha a procissão à distância se comove de tanta emoção, não importa creia ou não. É a Vida, é a Vida cheia de amor e de fé pela representação simbólica da Mãe de todos no santuário solitário de cada coração humano. 

Dizem, no Pará, que este dia singular do Círio de Nazaré é o Natal dos paraenses e por isto a UNESCO, em 2013, inscreveu o evento na Lista Representativa do Patrimônio Imaterial da Humanidade. Coroação da trasladação devota transoceânica, diáspora judia convertida ao sagrado coração de Jesus desde a humilde Galileia até a humilde barraca do caboco Plácido. Não importa que era Plácido, não importa se esta história original é fato ou invenção: vale a alegria e a fé do Círio de Nazaré!

Eis que é dia de Círio, momento para sentar e meditar sobre a mensagem original zen da aldeia de Nazareth pelos caminhos do mundo castigado pela cobiça, a raiva e a ignorância que habita a todos seres vivos sob o sol. 

O inferno somos nós mesmos: mas, felizmente, nós somos o paraíso também. Há que acender a luz da compaixão no escuro caminho da vida!

A devoção de N.S. de Nazaré começa na Idade Média em Portugal, no pós-guerra entre árabes e ibéricos durante a Reconquista, com o miraculoso achado da imagem da mãe de Jesus Cristo encontrada numa gruta isolada no sítio sagrado da Nazaré. A origem do culto mariano, todavia, vem da Galileia, há dois mil anos, logo em seguida à vida, paixão, morte e ressurreição de Cristo. 

Creio que 600 anos depois da morte do príncipe Sirdhata Guatama, Buda e Cristo encontraram-se às margens do rio Jordão e do Mar Morto: passagem de caravanas no caminho da seda entre a velha Índia e portos da Fenícia (Líbano), no Mediterrâneo. A prova desse antigo caminho de mercadores é a reprodução do bicho-da-seda no vale do Bekaa. 

Abertura do fechado mundo hebreu ao mundo exterior na Antiguidade. É bem certo que árabes e judeus viviam em paz naquela região do Oriente Próximo estremecidos, de tempo em tempo, por guerras de invasão por impérios estrangeiros. A Galileia era terra periférica, onde João Batista e seus discípulos da seita dos Terapeutas, pregou no deserto o caminho da paz para o mundo libertar-se da violência e ter futuro pacífico. 

Sabemos que Roma aniquilou a Galileia para castigar a resistência daquela província ao poder imperial: mas, a não-violência que já vinha do Oriente foi manifestada ao Ocidente por Jesus Cristo, no Sermão da Montanha, primeiro mandamento da igualdade entre todos filhos e filhas de Deus. Primeiro marco do caminho da Não-Violência! Tudo ao avesso do Anti-Cristo.

Fé e História se confundem na longa estrada de Nazareth para a paz mundial. Começa nas alturas do Mar Morto, proximidades da fronteira das antigas Palestina e Síria-Líbano, no vale do Bekaa; até o nascimento da Amazônia na conquista do Maranhão e Grão-Pará e da utopia evangelizadora do Reino de Jesus Cristo consumado na terra, revelado primeiramente pelo padre Antônio Vieira na carta acusada de heresia judaizante pelo Santo Ofício, As Esperanças de Portugal, escrita em Cametá (Pará), no dia 29 de abril do ano de 1659. Quatro meses depois, o paiaçu dos índios alcançou a paz dos Nheengaíbas (Marajó), em 27 de agosto do mesmo ano, com que se encerraram 44 anos de guerra de conquista do rio das Amazonas. Caminhamos na sagrada e profana estrada de Nazareth...


Imagem relacionada
imagem original de Nossa Senhora de Nazareth venerada no Sítio da Nazaré, em Portugal donde a devoção se propagou às colônias portuguesas no ultramar com as missões do padres da Companhia de Jesus. Uma Virgem morena, entre várias virgens negras encontradas na Europa.



Segundo a tradição, a imagem encontrada em Portugal foi esculpida por São José carpinteiro na aldeia de Nazaré, sendo mais tarde restaurada e pintada por São Lucas evangelista. Verdadeiramente, a lenda é uma criação humana inspirada pelo amor dos filhos à nossa mãe celestial na terra, representada de diversos modos desde tempos imemoriais do parto da humanidade filha da animalidade, em África negra. 

MADONAS OU VIRGENS NEGRAS



As Virgens ou Madonas Negras são motivo de grande curiosidade em relação à ancestralidade da Deusa Negra, convertida em Virgem que por ação sobrenatural, segundo crença da Antiguidade; gerará um filho ao mesmo tempo humano e divino para salvar das garras da animalidade a humanidade. Vemos isto na figura de Maria, Mãe de Jesus; Krishna; Isis e seu filho Horus e Merlin, o mago do qual teria nascido de uma virgem celta. 

Na Amazônia, no mito de Jurupari, o herói civilizador tupi nasceu de uma índia virgem chamada Ceucy ("mãe das lágrimas"), que ficou grávida do Sol através do sumo da fruta Cucura do Mato (espécie selvagem de imbaúba vinífera). O altar-mor da igreja do Carmo, em Belém do Pará, tem ornamentação de ramos com frutos de cucura imitando parreira com uvas. Decorre da solução encontrada pelo padre mestre para orientar o artesão indígena que ali deixou a sua arte barroca. Um exemplo de mestiçagem artística e cultural amazônica entre tantos outros.
As Madonnas – Senhoras – são cultuadas em todo o mundo e sempre o foram por todas as culturas desde o chamado paganismo até as religiões monoteístas. Representam a origem do ser humano divinizando a Mulher, a negritude, a primeira humanidade do planeta Terra. Seu culto deriva das tradições afro e celtas muitas das quais foram romanizados pela Igreja Católica e copiadas por outras igrejas.
Madonas sempre foram cultuadas para abençoar crianças daí a escolha do dia de Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil, como dia das crianças neste país, enquanto em outros países de América se comemora o dia nacional.
Onde o amor e a razão se casam o fruto desta união é a paz. Este anseio planetário que, no mês de outubro em Belém do Pará, leva o povo em romaria até o santuário onde o caboco Plácido, no início do século XIII, achou a santa imagem de Nossa Senhora de Nazaré na beira do igarapé (hoje início do canal da travessa 14 de Março).

sábado, 15 de setembro de 2018

Mestre Agostinho "Juricaba" Batista convida amigos a criar com ele o 'Ecomuseu Dalcídio Jurandir do Tocantins'.


Resultado de imagem para fotos Universidade da Maturidade UMA com Agostinho Batista UMA
Agostinho Batista caboco marajoara nascido nas matas do Pracuúba
(Muaná), da ilha do Marajó para a Universidade da Maturidade (UMA), 
na Universidade Federal do Tocantins (UFT). Foto, em Palmas-TO, 
autografando livro de sua autoria. 







O índio marajoara que só aprendeu a ler e escrever já em idade adulta, resolveu aos 74 anos de idade assumir mais um desafio na sua vida de ajuricaba metido em tantas lutas pela defesa de sua gente sofrida demandando inclusão social e cidadania. Desta feita, ele quer mobilizar amigos e colegas seus, com apoio da Prefeitura de Palmas; a fim de dotar a cidade adotiva que o acolheu há mais de dez anos, capital do progressista estado do Tocantins, de um ecomuseu homenageando seu famoso conterrâneo, o 'índio sutil' Dalcídio Jurandir. 

Por falar em índios notáveis, a Casa de Cultura Dalcídio Jurandir tem sua sede na terra de Arariboia (Niterói-RJ), sensível às coisas da Amazônia deu sinal de que vê com bons olhos o projeto de criação do Ecomuseu Dalcídio Jurandir do Tocantins. Eu adivinho que a pajelança do "juricaba" vai dar certo, por diversos motivos, inclusive porque será uma fonte de memória das futuras gerações sobre a primeira edição dos Jogos Mundiais dos Povos Indígenas (JMI), evento internacional multiesportivo realizado em Palmas, entre 23 de outubro e 1º de outubro de 2015. Nove dias em que a mais nova cidade planejada do País tornou-se capital mundial dos povos indígenas. Certo que, uma vez em funcionamento, tal ecomuseu não poderá deixar esquecer o primeiro JMI.

Lá desfilaram 2.200 atletas representantes de 24 etnias brasileiras e de 22 povos indígenas de países estrangeiros. Segundo a cultura nativa, não há competição nos ditos jogos, mas somente celebração. O mascote do JMI foi o pequeno guerreiro Kaly, diminutivo da palavra aruaque Kalykute, que significa "gente baixinha".  Marajó, uma "ilha" maior que Portugal; numa mesorregião onde os "índios", assim chamados arbitrariamente; foram "extintos" por decreto... Agostinho Quirino Batista se considera indígena por vontade própria com muito orgulho. Um exemplo a ser seguido por muitos cabocos que tem vergonha de ser descendente ameríndio. Como ele nós ainda somos poucos que sabem que caboco é índio "tirado do mato" a dente de cachorro debaixo de fogo de trabuco, preso à corda e baraço (enforcadeira de aço que caçadores de escravos levavam para capturar pretos fugidos e índios brabos mato adentro) a fim de os tornar "negro da terra" para gloria da colônia e riqueza do colonizador.   

Mestre Agostinho é um sábio homem de paz, ele sabe que a educação somente é capaz de fazer justiça se for de fato libertadora, se tiver coragem de sair da sala de aula formal e ir conquistar as ruas, morar na filosofia dentro de casa com as pessoas do lugar. Ele está coberto de razão sobre isto e se o acompanhassem os nativos marajoaras recobrariam consciência histórica de seus antepassados Mapuá, Aruã, Anajá, Guaianá, Pixi-Pixi, Camboca e outros mais nheengaíbas confederados para fazer as pazes dos Nheengaíbas com Portugueses e Tupinambás em 1659. A gente saberia finalmente, que o padre Antônio Vieira conseguiu evitar o genocídio marajoara e com as ditas pazes levou os antigos nheengaíbas a reconquistar a terra-firme com a fundação das aldeias de Aricará (Melgaço) e Arucará (Portel), ocupada pelos invasores tupis através de Camutá-Tapera (Cametá), no rio dos Tocantins ("bico de tucano"). Um ecomuseu tocantinense para reacender a memória da Criaturada grande de Dalcídio. Imaginem!

Então, a estrela solitária do Pará brilharia mais no céu da pátria neste instante e noutros também. Um ecomuseu em Palmas com nome significativo de Dalcídio! Donde o velho seringueiro de Muaná, conhecido de Chico Mendes, tirou esta ideia?  Dos delírios poéticos, paresque, de seu camarada quixote José Marajó Varela, timoneiro solitário da Universidade da Maré Mestre Vergara. Este um que vos fala, propagandista voluntário do Ecomuseu da Amazônia na ilha de Caratateua com atuação das comunidades das ilhas do Cotijuba, Mosqueiro e Icoaraci. Masporém, o que o criador literário de Alfredo tem a ver com o Tocantins? 


Mapa de rio tocantins
O rio Tocantins nasce na serra Dourada, no estado de Goiás, passa após pelos estados de Goiás, Tocantins, Maranhão e Pará, até a sua foz no furo Santa Maria - próximo ao Golfão Marajoara, onde se localiza a ilha do Marajó.


Alfredo está no mundo e Marajó é um mundo: começa lá onde o Tocantins termina de tocar as suas águas para o mar! Pra saber que diacho é "ecomuseu" procurem na internet informações a respeito de Hugues de Verrine seguido de comentários vários, inclusive deste humilde blogueiro papa chibé. O tal museu ecocultural é muito engraçado, não tem teto não tem nada parecido a um museu: fica ao ar livre e vive, de verdade, da memória do território através das pessoas que ali vivem. Então, sendo assim, alguém poderá perguntar: o que o romancista da Amazônia ganhador do Prêmio Machado de Assis tem a ver com o Tocantins?  

Tem muito a ver... A começar pelo importante rio amazônico que se mistura, nas Águas Emendadas do Planalto Central, com o Rio da Prata e o São Francisco para vir desaguar no Pará, na baía do Marajó, mais precisamente: aí vive a Criaturada grande de Dalcídio que Agostinho Batista bem representa e por merecendência própria ele se tornou embaixador no progressista estado do Tocantins, na comunidade amazônica de estados da República Federativa do Brasil. Graças ao trabalho singular desse marajoara fora de série, o Pará e o Tocantins se tornam mais irmanados do que dantes. Quando não havia chegado ainda nenhum europeu na Amazônia, nem a região tinha este nome estúrdio. Era conhecida pelos tupis como a Tapuya tetama (terra dos Tapuias), quando a guerreira nação Tupinambá desceu dos sertões pelas barrancas do rio dos Tocantins, seguindo rastros do sol e caiu n'água rio abaixo em busca da Yvy maraey (terra sem mal) buscando a utopia sagrada onde não existe fome, trabalho escravo, doença, velhice e morte... Mas, desgraçadamente, por via de infinitos males a massagada canibal foi topar pela proa das canoas de guerra a brava gente da grande ilha dos Nheengaíbas [Marajó]. Coisas assim que o Brasil moderno nunca soube ou esqueceu e que, com engenho e arte, um vivo ecomuseu nestas paragens onde aconteceu o primeiro JMI poderia suscitar e recordar no diálogo entre gerações, que se pratica na Universidade da Maturidade (UMA). Não é sem razão que o ex-aluno marajoara da UMA luta para sensibilizar seu velho Marajó a adotar o método da universidade da terceira idade tocantina e disseminar a museologia eco-comunitária do Ecomuseu da Amazônia. 



A presidenta Dilma Rousseff, em Palmas - Tocantins, participando do lançamento nacional da primeira edição dos Jogos Mundiais dos Povos Indígenas (Valter Campanato/Agência Brasil),


Conheci Agostinho Quirino Batista (Muaná,1944 - ... ) na cidade de Muaná, lugar de memória da Adesão do Pará à Independência do Brasil. No dia 08/10/2003 eu tive a honra de encontrar esse grande personagem: assinamos a Carta de Muaná pedindo a Reserva da Biosfera do Marajó e nós dois ficamos amigos e companheiros de muitas outras jornadas.


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Para realizar o sonho de se tornar escritor aos 70 anos de idade, Agostinho Quintino Batista catou e juntou cerca de 24 mil latinhas de cerveja e refrigerante para vender e conseguir dinheiro para para a impressão. Arrecadou R$ 720 e imprimiu uma tiragem de 40 exemplares da obra Histórias de um Juricaba. A gráfica entregou os livros e o autor vendeu a primeira tiragem. Com o valor das vendas, ele encomendou outra 'fornada'. Disse que começou a escrever o livro em dezembro de 2012 e, enquanto não estava escrevendo, reunia as latinhas pelas ruas da cidade de Palmas, os amigos ajudavam a recolher as latinhas reunindo o útil ao agradável. Ele afirmou que as caminhadas lhe trouxeram outro benefício. "Foi bom porque mexeu com o físico. Eu fiz muita ginástica", explicou. Segundo o escritor, um quilo de latinhas era vendido no mercado de Palmas por cerca de R$ 1,80. Para conseguir todo dinheiro necessário, ele catou aproximadamente 400 quilos de latinhas.
Batista juntando as latas demorou pouco mais de um ano para apurar o valor da impressão do livro. 'Juricaba', segundo o autor, é um índio guerreiro que explica o tema do livro em 171 páginas.
Batista exibe com orgulho uma as suas histórias de vida (Foto: Bernardo Gravito/G1)Batista exibe com orgulho as suas histórias de vida
(Foto: Bernardo Gravito/G1)
Na obra, ele conta histórias da sua própria vida, as andanças pela vasta Amazônia brasileira e as dificuldades que enfrentou desde a infância em uma comunidade no interior da ilha de Marajó, no estado do Pará. Entre as histórias, ele conta como surgiu a ideia de publicar um livro e os desafios enfrentados para conseguir fazê-lo. Com uma linguagem simples, o escritor, que aprendeu a ler sozinho, prende o leitor com uma trajetória de vida inusitada e com os encontros que teve com personagens históricos, como o seringueiro e ativista político Chico Mendes, por exemplo.
Batista nasceu em uma tribo indígena e há muito sonha em escrever um livro (Foto: Bernardo Gravito/G1)Agostinho Batista sonhava há muito tempo escrever um livro
(Foto: Bernardo Gravito/G1)
Um acidente desviou o percurso de vida de Agostinho e o levou a aprender a escrever as primeiras letras. Ele levou uma picada de cobra aos sete anos de idade e teve que abandonar a comunidade onde nasceu, na beira a do rio Atuá. "Eu fiquei aleijado por 3 anos. Minha mãe me levou para morar fora... A gente não se escondeu, todo mundo sabia onde a gente morava, mas não podíamos ficar no sítio", explicou em reportagem. Contou que quando criança tinha hábito de desenhar no barro da beira do rio que ficava perto da casa. Em um destes momentos ele encontrou o primeiro incentivo à leitura, um exemplar da extinta revista 'O Cruzeiro'. "A revista vinha com um abecedário bem grande e eu ficava desenhando as letras no chão. Com o tempo eu fui aprendendo a ler sozinho, mas para escrever eu precisei de ajuda, pois não entendia como juntar as letras", explicou.
Agostinho aprendeu a escrever com a ajuda de voluntários do Projeto Rondon, programa do governo federal que leva profissionais de diversas áreas a regiões menos desenvolvidas do país. "Eu estava numa árvore vendo os passarinhos quando esse pessoal chegou. Eles me ajudaram a escrever e depois eu fui ensinar os filhos de seringueiros". Antes de migrar para Palmas, ele morou em vários lugares da região Norte e precisou trabalhar em diversos ofícios. "Eu fiz de tudo. Fui seringueiro, balateiro [coletor de látex de balata ou marupajuba, nome científico Manilkara bidentata], pescador, garimpeiro e piloto de barco", relatou. Ele veio do Marajó com a esposa para o Tocantins a fim de ficarem perto dos cinco filhos que moram e trabalham neste estado. Aposentado, ele chegou em Palmas em 2007 e há alguns anos frequenta a Universidade da Maturidade (UMA), extensão à terceira idade oferecida pela Universidade Federal do Tocantins (UFT). Segundo ele. já tinha vontade de escrever um livro mas foi na UMA que achou vontade de realizar o sonho. Agostinho Batista também escreveu cerca de 80 poemas de cordel ao longo da sua trajetória e ainda se dedica ao artesanato. 

A criação do ecomuseu em tela será como promover um grande encontro dialético do Pará, e Marajó o principalmente, com o Tocantins acima da divisa interestadual, antigo caminho do norte de Goiás, que pouco a pouco foi ocupando o sul do Pará. 

Resultado de imagem para foto de capa livro Marajó de Dalcidio Jurandir
Conjunto de obras de Dalcídio Jurandir (Ponta de Pedras, 1909 - Rio de Janeiro, 1979), Prêmio Machado de Assim 1972. foto: Casa de Cultura Dalcídio Jurandir (sede em Niterói-RJ).