quarta-feira, 19 de abril de 2017

Sentado na beira do Caminho da Anta a ver estrelas e escutar o pulsar da Terra.

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Victoria amazonica (Vitória-régia), ninfeácea do bioma amazônico como outras plantas aquáticas da mesma família da espécie do Lotus na Índia, Grécia, Egito, China e Japão inspirou o espírito humano a conceber lendas e crenças do que se pode dizer ecocultura.



"Há tantas auroras que não brilharam ainda" Rig-Veda.

Dizemos nós, na astronomia de nossos antepassados índios, que a Via Láctea é o Caminho da Anta e os pretos velhos africanos ensinam que o Caminho de Santiago dos homens brancos é, sim, Caminho das Estrelas... O grande Espírito fala de diversos modos aos homens. Na beira do rio de Heráclito a gente vê o tempo passar e percebe que nossa casa comum é o planeta Terra e a história da Terra é a nossa história. 

Por isto, em qualquer pedacinho de terra toda consciência se forma a partir da profunda inconsciência do ser que busca saber quem ele mesmo é, donde veio e a onde vai: a busca começa e acaba no seio da mãe Natureza. A arqueologia das ideias e a psicanálise da história são partes conjuntas da autodescoberta de cada um de nós e do mundo em que vivemos.

A humanidade filha da animalidade (segundo Edgar Morin) é a grande mãe de cada um e de todos no seio da Biosfera, esta escreveu a história natural como primeiro capítulo da evolução da vida orgânica que vai parir a Noosfera prenhe de desafios e mistérios. Donde emanam a diversidade das culturas e as diferentes ciências. Biomas e regiões culturais, em toda complexidade, formam o tecido vivo e a inteligência coletiva da Terra.

O homem nativo das diferentes regiões da Terra é, sem dúvida, o primeiro intérprete desta parte fundamental da Humanidade da terra. Utopia eterna. Todos povos da Terra merecem respeito e consideração em sua terra ancestral por todos mais habitantes do mundo. Se matarmos os últimos nativos da Terra original a humanidade não terá mais passado nem futuro. 

Por isto, a última fronteira da Terra - Amazônia - da primitiva diáspora iniciada na África ancestral deve ser considerada florão da América do Sol, coração pulsante da Terra na soberania democrática dos povos amazônicos da Bolívia, Brasil, Colômbia, Equador, Peru, Guiana, Guiana francesa, Suriname e Venezuela. Os indivíduos amazônidas, natos ou adotivos, devem se bater em defesa desta singular região da Terra e não mergulhar em estúpida indiferença e até juntar-se a seus devastadores e exploradores inconsequentes.

Não existe 'uma' alma ou avatar único do nosso planeta. Cada um de nós, dotados de razão e consciência conforme a Declaração Universal dos Direitos Humanos, adotada pela assembléia-geral das Nações Unidas; concretamente somos o Planeta interligado de muitas e diversas mentes conectadas pela rede neuronal, no presente, algo como 7 bilhões de cérebros basicamente semelhantes, mas não iguais...  A diversidade é a coisa mais impressionante da vida!

Na diversidade de vidas e culturas dos biomas do planeta, urge compreender e preservar crenças e tradições do mundo inteiro. O diálogo para a paz e o desenvolvimento humano passa pelo respeito às crenças e religiões dos outros. Significa dizer que ainda é preciso descolonizar o mundo em todas suas partes. Na Amazônia brasileira, o primeiro passo para a descolonização cultural total e final é reconhecer a Pajelança e as religiões afro-amazônicas como patrimônio imaterial brasileiro. Nós, os agnósticos e ateus devemos ser os primeiros a defender a liberdade de pensamento e expressão a todos e a todas.

Para isto, os estudos amazônicos precisam ensinar sobre os Encantados da Amazônia; espíritos da natureza; se não com intenção de proselitismo religioso, mas como disciplina de esclarecimento das Ciências Sociais em combate ao preconceito e ao ódio étnico. Divulgar mais a cultura popular, como na pesca tradicional do Salgado onde se acredita que os encantados se manifestam em figura de bicho. Entretanto, dizem os pescadores, é gente do fundo, um ser encantado que habita os rios e igarapés.

Posso não acreditar numa única lenda ou relato milagroso, mas defenderei o direito de quem acredita e o patrimônio maravilhoso dos mitos e sonhos da humanidade sem os quais não existiria arte e poesia nenhuma capaz de converter os horrores da vida e da morte no belo, justo e útil no mundo.

Eu me assumo caboco, "saído do mato", do tupi caa (vegetal, planta, floresta) e bok (extraído, tirado, saído) o mesmo que caboclo; uma variedade periférica da velha e vaidosa espécie humana auto-classificada "Sábia", que por curiosa estranheza e similitude o sábio naturalista de Coimbra Alexandre Rodrigues Ferreira, à vista de uma grotesca cabeça de índio degolado em guerra entre nações indígenas inimigas; classificou ligeiramente como "Homo sapiens var. Tapuya" (Viagem Philosophica, 1783-1792). 

Aprendiz de pajé, reprovado por falta de fé, eu descasco meu carma em busca de mim mesmo pela decifração do mito amazônico da primeira noite do mundo. Quer dizer, como toda criaturas formada do encontro biológico entre dois gametas, masculino e feminino; nascemos na escuridão do tempo para vir a luz criar consciência em relação dialética com os outros. Da profunda ignorância passando pelo mito para a realidade da vida, procuro saber quem inventou o mundo e o mais antigo morador destas nossas paragens. 

Então, ainda eu era criança é já tive notícia por leitura soletrada da revista Chácaras e Quintais de meu avô de um tal "Homem da Lagoa Santa", como foi batizado aquele fóssil humano que ajudou a reescrever importante período da história natural brasileira. Coisa fantástica, os achados sugeriam à criança homens primitivos vivendo no mesmo cenário de preguiças e tatus gigantes que se acreditavam extintos quando surgiram as populações humanas. 

A teoria do dinamarquês Peter Lund só seria confirmada mais de um século depois, em 2002, com base em análises de datação das ossadas. Para ele, que findou seus dias e enterrou seus ossos em Lagoa Santa em 1880, nunca restaram dúvidas, considerado hoje pai da paleontologia brasileira. Todavia, a mais extraordinária notícia da Lagoa Santa ainda estava por vir, graças à Genética; provando que nossa avozinha África, além de compartilhar a Pangeia com a América, na era Paleozoica há 200 ou 540 milhões de anos, foi lugar de partida da família brasileira de Lagoa Santa, que passou antes no sul da China e Sudeste Asiático tomando rumo de Papua-Nova Guiné e Austrália. Todo este vasto mundo sob o Cruzeiro do Sul. A mesma constelação, chamada Arapari, pelos índios aruaques que migraram do Caribe para a terra firme.

Mesmo depois da passagem de Peter Lund por Lagoa Santa no século 19, a região guardava grandes surpresas. De lá para cá, foram extraídos restos de aproximadamente 250 esqueletos humanos. Na década de 1970 foi encontrado um crânio feminino de cerca de 11.500 anos.A descoberta mostrou que a região já era habitada muito antes que se imaginava, e pôs em xeque as teorias até então mais aceitas sobre o povoamento do homem nas Américas. 

Em 1998, técnicas de reconstituição permitiram ver o rosto da jovem mulher de Lagoa Santa. Tinha ela, aproximadamente, 20 anos de idade, olhos arredondados, nariz largo. Foi batizada de Luzia como referência à famosa Lucy, fóssil de mais de 3 milhões de anos encontrado na Tanzânia em 1974, então Luzia é considerada a primeira brasileira. A reconstituição da sua face lembra os aborígenes da Austrália e negros da África. 

A descoberta deu força à hipótese, até então polêmica, de que o Novo Mundo tenha sido ocupado por diversas correntes migratórias, vindas inclusive por terra na última Idade do Gelo, durante a baixa do nível dos mares. Os parentes próximos de Luzia teriam habitado o sul da China e sudeste da Ásia e migrado para a América e para a Oceania há cerca de 11 mil anos. E a busca das origens do homem americano não pararam por aí. No México, foram descobertas pegadas de gente que podem ter 40 mil anos. Outros vestígios no sítio arqueológico da Serra da Capivara, no Piauí, podem remontar a 60 mil anos.

E a gente marajoara despossuída das terras ancestrais de seus antepassados e de identidade, não sabe para que serve um museu como aquele incrível invento do padre Giovanni Gallo e, por ser em grande maioria pobre e analfabeta de pai e mãe; nem imagina que a arqueóloga gaúcha Denise Schaan, autora da obra de divulgação Cultura Marajoara além de vários trabalhos de pesquisa científica; veio lá do extremo-sul brasileiro ouvir o que os tesos arqueológicos da ilha do Marajó tinha a dizer ao Brasil e ao mundo... Ela continuou um trabalho cujos inícios ficaram nos fins do século XIX, porém a destruição além do desapreço das intempéries e do pisoteio dos rebanhos, data dos começos das fazendas de gado após 1680.

Ao modo dos pajés da Amazônia tento, desde que me entendo por gente - menino jito do Fim do Mundo, na vila Itaguari, ilha do Marajó, há 79 anos, seis meses e 19 dias até este "Dia do Índio" do ano de 2007, dar conta do recado da Criaturada grande de Dalcídio. Esta gente teria chegado há uns cinco mil anos, mais ou menso, nas terras baixas da América do Sul: grupos nômades descendentes dos primeiros habitantes do continente há cerca de dez mil anos atrás, vindos da Ásia através de longo percurso por milhares de anos desde o sul da África mãe da humanidade filha da animalidade (apud Edgar Morin; nossos antepassados começaram a chegar a este continente, o qual seus descendentes chamados mayas batizaram de Amerik, o "pais do vento"; referindo-se à região de montanhas de entorno do lago Nicarágua. 

O homem "vermelho" americano, originalmente "amarelo" no Extremo Oriente, era "preto" desde seu nascimento entre fezes e urina da bicharada pré-hominídeas; há coisa pra lá de um milhão de anos! A antropologia americana admite diante de evidências de Lagoa Santa, Minas Gerais; 

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Thiago de Mello Poeta da Floresta

"Agora sei quem sou. Sou pouco, mas sei muito, porque sei o poder imenso que morava comigo, mas adormecido como um peixe grande no fundo escuro e silencioso do rio e que hoje é como uma árvore plantada bem alta no meio da minha vida." Thiago de Mello


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Dalcidio Jurandir Romancista da Amazônia

NATAL
Deixei as ovelhas,
deixei a flauta,
e só vim com o meu cajado
e com a minha bíblica inocência
(quanto era bela a minha adolescência).
E corria e corria pelos prados…
Uma estrela muito branca
me orientava,
uma estrela tão grande!
Depus meu cajado
e ajoelhei-me junto do berço,
pensando que esse menino,
pastor de estrelas, noutro tempo,
viesse pastorear comigo
pelos campos,
ser feliz como eu era,
entre as ovelhas!
Dalcidio Jurandir



TODOS NÓS NA ENCANTARIA DA MÃE TERRA:
Somos fortes, felizes, realizados e ricos.

mas...

"A ignorância é a noite da mente" (Confúcio, 551 - 478 a.C).

"Minha primeira escola é a família; meu primeiro mestre é a criança que fui
 Adalberto Barreto (“BARRETO, 2008, 101)

Peixe no prato e farinha na cuia, Aleluia! 

sábado, 4 de março de 2017

uma pequena semente a germinar na terra de Dalcídio e se transformar numa grande árvore.

A imagem pode conter: céu, nuvem, atividades ao ar livre, natureza e água
Vila Mangabeira à margem esquerda da baía do Marajó, costa-fronteira do Pará - berço do município de Ponta de Pedras: antiga aldeia das Mangabeiras fundada pelos padres jesuítas e índios catequizados na aldeia Munguba (Barcarena) na primeira sesmaria e fazenda da Companhia de Jesus (São Francisco, em 1686, atual Malato) no rio Marajó-Açu. Distante meia légua acima da aldeia dos índios 'Guaianases' [Guaianá], etnia "nheengaíba" (Nuaruaque); hoje a agrovila Antônio Vieira. 

No ano de 1758, por determinação do Marquês de Pombal em luta contra a Companhia de Jesus, que seria expulsa do Grão-Pará no ano seguinte, todas aldeias teriam seus nomes mudados para toponímia lusitana> A língua geral Nheengatu seria proibida para dar lugar ao ensino do português como língua oficial no Diretório dos Índios (1757-1798). Deste modo entre outras, a aldeia das Mangabeiras chamou-se Lugar de Ponta de Pedras  sob orago de Nossa Senhora da Conceição; e a dos Guaianases virou Lugar de Vilar. tendo São Francisco Xavier como padroeiro.




Nas trilhas do payaçu

"Paris bem vale uma missa", célebre frase do evangélico Henrique de Navarra ao se converter católico, fazendo as pazes entre protestantes e católicos para, finalmente, ser coroado e aceito rei de todos franceses como Henrique IV. O dito nos serve de expectativa a gregos e troianos para assistir missa do Papa Francisco a ser celebrada em visita pastoral ao Marajó se Deus quiser. 

Mais especialmente à gente de Ponta de Pedras no sentido de comungar do ideal de congregação deixado por madre Olvídia Dias como divisa paroquial no frontispício da antiga igreja matriz de Nossa Senhora da Conceição de Ponta de Pedras:"Bem-vindos e vejam que as pedras que somos não estão de ponta mas ligadas entre si". Oxalá assim seja!

Reza a tradição que as tais "pedras" que nós somos de fato estavam de ponta umas com as outras, quando por voltas do ano de 1737, moradores do vilarejo Itaguari sito à margem esquerda do Marajó-Açu e ribeirinhos rio acima com engenhos de aguardente e seus canaviais e escravos, juntaram-se para erguer a nova igreja em pedra e cal. A fim de obter autorização do bispo diocesano de Belém, dom Guilherme de São José; mudando a sede da freguesia da aldeia da Mangabeira, com sua velha capela em taipa de pilão coberta de palhas e deficiência de porto para canoas, para o Itaguari levando a santa imagem da padroeira para o altar-mor da nova igreja, cujo primeiro vigário de acordo com antigos moradores teria sido o padre Navegantes.

Contavam os mais antigos da aldeia velha da beira da baia que, de fato, a dificuldade de porto sempre foi grande obstáculo ao desenvolvimento da Mangabeira. Porém, com a mudança da sede da freguesia para o Itaguari ficaram os pescadores desolados longe de sua santa padroeira. 

Foi assim que nasceu a lenda dos passeios noturnos de Nossa Senhora entre a igreja matriz da beira do rio e a capela junto a praia da Mangabeira. Diziam, antigamente, que certas noites de luar viam passar um vulto branco pela estrada do Campinho rumo ao Santo Lenço que foi o primitivo caminho para a praia muito antes da rodovia que hoje existe. 

Pelas manhãs, diz-que, quando o sacristão ia abrir a igreja da vila de Ponta de Pedras ele observava a barra do manto de Nossa Senhora úmida de sereno da relva e areia da praia nos santos pés da imagem. Um singelo prodígio. A poesia então habitava aquele antigo chão que o romancista Dalcídio Jurandir (Ponta de Pedras, 10/01/1909 - Rio de Janeiro, 16/06/1979) retratou. O pai do escritor, capitão Alfredo Nascimento Pereira, devoto de Santa Rita de Cássia e dono de uma pequena impressora manual; teria escrito relato sobre essa lenda que se perdeu entre outros casos da antiga vila.

Quem primeiro me falou sobre isto foi o prefeito Wolfando Fontes da Silva (Fango), dizendo ele pelo ano de 1962, aproximadamente, que teria quando gestor encomendado a impressão da lenda pelo capitão Alfredo, mas que a edição fora de poucos exemplares que se perderam com o tempo. Resta-nos agora a memória de alguns que morreram mas deixaram livros, como o filho do capitão e o Bernardes (Bernardino Ferreira dos Santos Filho, autor do livro de memórias "Nas margens do Marajó-Açu").

Bom trabalho de preservação do patrimônio histórico e cultural de Ponta de Pedras esta fazendo a Rádio Itaguary, através do programa semanal Café Cultural com o trio bacana Rony Noronha, Sércio Pereira e Ednelson Castro. Um exemplo de boa vontade e trabalho educativo com a comunidade afin com a invenção dos ecomuseus no mundo inteiro. Embora a Radio Itaguary não ouse dizer o nome o que ela faz já é meio caminho andado para algo a ser assumido pela comunidade como futuro Ecomuseu Itaguari, quem sabe. 

Eu tenho convicção de ter plantado boa semente na terra de Dalcídio e que, no devido tempo, essa semente vai germinar e dar uma grande árvore com sombra e bons frutos para todos. Sonho que muitos outros Bernardes contarão suas/nossas memórias, que se propagarão como sementes de samaúma que as mãos do vento semeiam pelas margens da Mangabeira, do Marajó-Açu, rio da Campininha, Paruru-açu, Anabiju, Caramujal, Araraiana, Urinduba, Pacoval, Paricatuba, Curral Panema, Arari e tantas mais comunidades ribeirinhas e nos campos mais distantes da cidade até.

Para encerrar, direi mais que no Centenário do Município (30/04/1978) não tínhamos documento que provasse a data de emancipação política de Ponta de Pedras. O prefeito Antonico Malato havia falecido no cargo e o vice-prefeito Mário Noronha assumiu em condições dramáticas. Um grupo de voluntários se formou em torno do novo prefeito para auxiliar naquela transição, dentre ao qual eu me encontrava no serviço ativo do Itamaraty na Comissão Brasileira de Limites, em Belém. Foi quando o documentarista Jessé Dantas de Feitosa entrou em contato com Ernesto Teixeira para informar que a Fundação Cultural Abaetetubense dispunha de cópia autêntica da Ata de Instalação da nova Vila de Ponta de Pedras. 

Foi então que soubemos que o Centenário havia transcorrido em brancas nuvens, por falta de informação fidedigna. Reunidos com o novo prefeito ponderamos que talvez o Centenário ainda pudesse ser comemorado postumamente levando em conta as circunstâncias. Fomos nos aconselhar com mestre Camilo Viana, da UFPA e SOPREN. Que ele achava? Mário Noronha baixou portaria constituindo a comissão do Centenário e Jessé Dantas de Feitosa ficou encarregado de solicitar da Empresa Brasileira de Correios (EBC) confecção de Selo Comemorativo e impressão de fac-símile da dita Ata. Tudo feito. O documento, segundo Dantas de Feitosa, lhe teria sido confiado pelo prefeito Pedro Boulhosa Sobrinho na esperança de que um dia tivesse, como teve, bom uso sem se extraviar e se perder.

Assim, no dia 30 de Abril de 1980 comemorou-se oficialmente o Centenário transcorrido dois anos antes. Entre as cerimônias o dr. Camilo trouxe da cidade da Vigia um pé de cajuúna ou cajuí (Anacardium giganteum) remetida pelo prefeito Ildone Favacho ao seu colega Mário Noronha como simbolo de amizade entre as duas municipalidades, respectivamente, do Salgado e do Marajó. 

A escolha do lugar para plantar a árvore foi a beira da praia da Mangabeira em frente da casa de Brasilino Rodrigues, um dos mais antigos moradores da comunidade. Coube a Giseldo Fontes filho do prefeito Fango, que fundou a colônia da Mangabeira com migrantes nordestinos da agricultura familiar; plantar o pé de cajuí ou cajuúna. E tudo transcorreu em harmonia e alegria o povo aplaudindo. 

Mas, infelizmente, no mesmo ano sob rigor do sol e do vento aquela muda feneceu sem tempo de esperar pelas chuvas, entretanto nas lembranças o Anacardium giganteum cresceu e deu muitos frutos: um gesto simbólico daquele Centenário que hoje aponta a novas florações da memória da velha aldeia fundada pelos padres jesuítas em 1686 (apud Serafim Leite, História da Companhia de Jesus no Brasil).

Maracanã no Pará e Sintra em Portugal: uma história colonial que poderá ainda ter final feliz,

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Monumento Natural Dunas de Algodoal - Área de Proteção Ambiental Algodoal-Maiandeua no município de Maracanã (antiga Sintra), Amazônia atlântica paraense.




Nem todos sabem como se fazem salsichas e leis. A frase do chanceler alemão Otto Von Bismarck (1815-1898), "leis são como salsichas, melhor não saber como são feitas". Em certos casos, também melhor não saber como foram dados nomes a cidades brasileiras durante a época colonial ou feitas coleções de grandes museus mundo afora. 

Hoje ainda para compreender a maçada e se tornar apto a ensinar sobre o assunto carece fazer universidade, passar em curso de mestrado e terminar doutorado nesse tipo de maçonaria que é a academia para saber como corporações de ofício evoluíram e a pilhagem prevaleceu na formação dos impérios. A revolução francesa de 1789, por exemplo, prometeu jogar por terra a nobreza imperial e abolir o modo corsário das pilhagens para o enriquecimento da nação. 

Mas, ela derivou no império de Napoleão a prover museus de França da mesma maneira dos monarcas do passado. O império britânico por sua vez, sem repudiar a pirataria do passado, não pôde dar lição aos franceses. E o Grão-Pará não é nem nunca foi o Egito embora o rio Amazonas e o Nilo, afinal de contas, tenham tantas coisas bem semelhantes. Quem quiser saber onde foram parar lindas peças de cerâmica marajoara arrancadas de sítios arqueológicos saqueados na ilha do Marajó de povo pobre, deve tirar um tempinho para ler o livro Cultura Marajoara, de Denise Shaan, gaúcha, que com as suas pesquisas fez mais pelo nosso esquecido patrimônio que todos nós juntos ou tantos quantos doutores nascidos na Amazônia.

Pena que, no que diz respeito ao Marajó velho de guerra, metade dos mais de 500 mil habitantes sejam completamente analfabetos e noutra parte predominam analfabetos funcionais. Enfim dos poucos letrados falta contar ainda analfabetos políticos com os quais o povo não pode contar. Assim, vamos ao ponto a fim de explicar como se fez e continua a fabricar a leseira amazônica, passando do caso da alienação do Marajó ao vizinho Salgado. Nesta região paraense que foi a primeira tocada pelo colonialismo, o caso é saber: 

Como foi que a velha e orgulhosa vila portuguesa de Sintra veio parar ao Grão-Pará apagar o nome original da aldeia indígena Maracanã. E, depois, como esta última bafejada pelo espírito da revolta popular de 1835 contra o império brasileiro, terminou por retomar sua toponímia nativa dando exemplo de descolonização histórica e cultural às mais vilas e lugares aportuguesados à força sob a ditadura do célebre déspota esclarecido Marquês de Pombal. 

Deste assunto eu tratei, em 1999, em minha história atrevida chamada Novíssima Viagem Filosófica, na REVISTA IBERIANA. Para que as populações saibam que nem tudo são flores no domínio da língua portuguesa afinal tão cara para a história do povo brasileiro, como conta José Ribamar Bessa Freire na obra Rio Babel - a história das línguas na Amazônia. A revolução dos cravos em Portugal ainda precisa repercutir no Brasil a fim de clarear os fatos da história comum. 

O passado não se pode remediar, todavia as presentes e futuras gerações ao melhor compreendê-lo - para isto servem os museus - podem se reconciliar e trabalhar juntas pela justiça e a paz a fim de que a velha história não se repita nunca mais. Portanto, as cidades da Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP) que tiveram suas toponímias enlaçadas pelo colonialismo poderiam do limão imperial fazer uma boa limonada. Isto é, inventar um turismo educativo inovador com base nas geminações de cidades e intercâmbio de museus municipais.

Recordar como, depois de 256 anos do tratado de Tordesilhas (1494), o tratado de limites de Madri (1750) foi o pomo de discórdia entre monarcas ibéricos e a Companhia de Jesus na colonial América do Sul e o quanto isto implicou na história dos povos ibero-americanos. No curso do conflito ideológico entre a escolástica católica e o iluminismo europeu triunfante, podemos dizer que infelizmente povos indígenas e afro escravizados pagaram o pato. 

Foi assim, então, que na Amazônia portuguesa o meio irmão do Marquês de Pombal, Francisco Xavier de Mendonça Furtado, capitão-geral e governador do estado do Grão-Pará e Maranhão decretou, sem mais nem menos, uma mudança toponímica no Grão-Pará e Maranhão com que vilas e lugares de Portugal terminaram como exilados no rio das Amazonas.

No caso da deportação, por assim dizer, da vila de Sintra cumpre saber que a pré-história desta façanha pombalina no Pará contempla a luta entre lusos e franceses pelo território amazônico. Durante a França Equinocial (1612-1615), no Maranhão; no rio Maracanã entre 1613 e 1614, franceses estabeleceram-se na aldeia dos Maracanãs, índios de nação Tupinambá seus camaradas, onde construíram embarcações para explorar o Pará até o rio dos Tocantins, como de fato fizeram expandindo seus domínios. O próprio Daniel de La Touche, senhor de La Ravardière, comandou a entrada indo ele até Camutá-Tapera (Cametá-PA) donde retornou a São Luis diante da avançada dos portugueses que, em 1615, tomaram o forte francês de São Luís.


Em 12 de janeiro de 1616, o capitão-mor Francisco Caldeira Castelo Branco em acordo com os Tupinambás da região funda o forte do Presépio, berço de Belém do Grão-Pará, dando início à ocupação portuguesa da Amazônia. Desde então, o choque colonial foi violento: Simão Estácio da Silveira, dono de navios, escreve um panfleto dirigido aos pobres de Portugal (leia-se, casais dos Açores) lhes prometendo o paraíso no Maranhão. O aliciamento dos primeiros colonos teve resultado trágico.

A soldadesca das guarnições dos dois fortes, São Luís do Maranhão e Presépio no Pará, cometiam graves abusos contra índias e índios a ponto de revoltar os próprios oficiais portugueses, como no caso do Pará, onde o estupro de uma jovem índia pelo capitão Antônio Cabral, sobrinho do capitão-mor, provocou reação do capitão Paulo Rocha terminando com o assassinato deste último pelo primeiro. Fato que determinou motim no Presépio liderado pelo capelão frei Antônio de Merciana, diante da leniência de Castelo Branco para não castigar o sobrinho. Postos a ferro o capitão-mor e Antonio Cabral foram mandados diretamente a Portugal, onde foram soltos e os militares no Pará repreendidos por insubordinação... 

No Maranhão, as coisas não foram melhor. Além do roubo de roças e captura de índios para escravos dos colonos; os filhos do capitão-mor Jerônimo de Albuquerque raptaram a mulher mais nova do cacique e pajé-açu da aldeia de Cumã, Pacamon, e além disso roubaram-lhe o porantim ou lança cerimonial sagrada na cultura guerreira tupi-guarani. A revolta de Pacamon foi imediata espalhando-se com rastilho de pólvora pela aldeia e vizinhança, Antônio e Maciel Albuquerque viram-se obrigados a fugir pelo mar para salvar a própria pele. 

Porém a revolta dos Tupinambás se alastrou do Maranhão ao Pará através do antigo caminho que ligava a costa do Salgado ao interior do Guamá. E, desta maneira, no dia 7 de janeiro de 1619, o cacique Guaimiaba (Cabelo de Velha) com os seus guerreiros atacou o forte do Presépio sendo morto sobre a muralha. Ato histórico que, certamente, desde então pelas acumulações sucessiva de ódios e mal entendidos recíprocos, teria funestas consequências dois séculos mais tarde, na madrugada de 7 de janeiro de 1835 (a Cabanagem): os tupinambás do século XVII, entretanto, ao ver o cacique Guaimiaba morto estendido no chão desbarataram-se tendo ao encalço soldados armados dispostos a dar um banho de sangue aos índios bravios. 

A represália portuguesa foi dantesca: Bento Maciel Parente e Pedro Teixeira auxiliados pelos irmãos Antônio e Maciel Albuquerque com soldados portugueses e mamelucos, encurralam os tupinambás no rio Gurupi e cometeram um genocídio dizem cronistas da época. Há quem fale em até cem mil índios mortos, número exagerado ao que parece, pois seria mais do que o dobro de mortos na Cabanagem (1835-1840). Diversos cronistas reprovam excessos despropositados do facinoroso Bento Maciel Parente, lamentando inclusive desperdício de braços escravos. Coberto de sangue Bento Maciel entra em Belém e na história para governar a província dentre a galeria dos maiores capitães-mores que o Grão-Pará teve: famoso inclusive como comandante da expulsão dos holandeses e ingleses na Amazônia. Este era, em linhas gerais, o cenário da região amazônica na quadra da União Ibérica (1580-1640), quando Portugal restaurou sua independência 1º de dezembro de 1640) e mais tarde, em 1653, o padre Antônio Vieira chegou ao Pará.

Vieira saiu de Lisboa frente à expedição a bordo da caravela Nossa Senhora das Candeias, em 22 de novembro de 1652, chegando a Belém do Pará em 24 de novembro de 1653, quando apresentou ao Governo Provincial a carta régia que lhe dava poderes especiais de evangelizar, fundar igrejas, instalar missões pelo sertão, baixar índios consigo, etc. Nesta ocasião, na aldeia Maracanã padre Antonio Vieira fundou a primeira igreja do lugar em taipa de pilão e batizou o índio Principal da aldeia de nome Copaúba, o qual recebeu batismo cristão como Lopo de Souza. 

A aldeia Maracanã teve certo progresso no regime das Missões, em 1700, recebeu foros de freguesia e meio século depois, com a expulsão dos Jesuítas, em cumprimento da Lei Pombalina de 6 de junho de 1755, o capitão-geral governador do Pará, Francisco Xavier de Mendonça Furtado, meio-irmão do Marquês de Pombal, determinou a mudança de nome da aldeia Maracanã para "Cintra" [Sintra], dentro da política de extinção de nomes indígenas por topônimos portugueses, tais como Viseu, Bragança, Ourém, Colares, São Caetano de Odivelas, Barcarena, Salvaterra, Soure, Chaves, Beja, Oeiras, Portel, Melgaço, Almeirim, Alenquer, Óbidos, Aveiro, Santarém, Faro e outras vilas e lugares.

Na ocasião, Cintra foi promovida à categoria de vila. Porém, somente em 1757 foi instalada com o nome oficial de Vila de São Miguel de Cintra, em virtude do achado de uma imagem de São Miguel. Em 11 de novembro de 1885, a lei provincial nº 1.209 elevou Cintra à categoria de cidade, que 10 anos antes já era Comarca (Lei nº 845, de 23 de abril de 1875).
Com a primeira república do Brasil, durante o governo de Paes de Carvalho no Estado do Pará, o cônego Ulisses de Pennafort, deu início com sucesso a campanha para o nome original do município voltar a ser oficialmente adotado. Deste modo, no dia de 28 de maio de 1897, a lei estadual nº 518 sancionada pelo governador, devolvia a Maracanã seu topônimo nativo.
Na história do município destaca-se episódio da Cabanagem, a revolução popular que teve início em Belém do Pará a 7 de janeiro de 1835. No município de Maracanã o sentimento nacionalista da população já se fazia notar cerca de 1824, logo após aos acontecimentos neocoloniais de 1823, que frustaram a adesão do povo paraense ao império de Dom Pedro I. O padre André Fernandes de Souza, com objetivo de pacificar os revoltosos foi mandado para o município de Maracanã.
O movimento rebelde havia começou em Colares e chegou até Bragança. Em Maracanã, cerca de 200 homens armados reagiram ao governo provincial da época juntando-se aos cabanos. Em março de 1835, quando Eduardo Angelim exercia o segundo governo cabano, em frente a Salinas ancorou o veleiro inglês "Clio", carregando armas e munições supostamente destinado aos portugueses contrários aos revoltosos. O navio ficou à espera de um "prático" para prossegui em direção a Belém, como não apareceu nenhum "prático" da barra para orientá-los, a tripulação tentou chegar à praia, quando então cabanos de Maracanã e Salinas informados da carga que estava a bordo, atacaram e trucidaram a tripulação, sequestraram as armas e munições e a embarcação foi incendiada. Este episódio deu lugar a vinda a Belém, em abril de 1836, de três navios da marinha da Inglaterra comandados pelo oficial Charles Strong, para cobrar satisfações a respeito do saque do "Clio". Recentemente foram divulgados documentos ingleses sobre a Cabanagem que esclarecem o assunto, inclusive o pedido secreto do regente Diogo Feijó para Inglaterra e França se juntarem à armada brasileira a fim de combater a revolução paraense, o que não aconteceu. Com a retirada de Eduardo Angelim as forças imperiais ocuparam Belém novamente e no dia 4 de junho de 1836, acusados de Maracanã e Salinas de participar do assalto ao Clio foram presos e depois executados.


No município de Vigia, ocorreram as mais sangrentas lutas da Cabanagem de toda região do Salgado. Foram concentrados na vila da Vigia 200 cabanos de Maracanã, 200 de Curuçá e outros mais vindos de Salinas que se aquartelaram na cabeceira do rio Maú. Na vila da Vigia os cabanos visaram o "trem de guerra" (depósito de armas e munições) travando combate sangrento com mortes de parte a parte. Nos enfrentamentos da Vigia morreu Pedro Antônio Raiol, o pai do historiador da Cabanagem Domingos Antônio Raiol. 

Esta nossa brevíssima incursão à história da Amazônia colonial portuguesa, através da possível geminação da brava Maracanã (Brasil) e da heroica Sintra (Portugal) é um convite a cidades educativas e ao movimento de ecomuseus e museus comunitários da CPLP para embarcar na generosa agenda 2030, dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS), das Nações Unidas, enquanto Antônio Guterres abre as portas ao diálogo para a paz. O futuro não se faz sem a consciência do passado e a coragem do presente.

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Castelo dos Mouros - Sintra, Portugal.

quarta-feira, 1 de março de 2017

O teatro da paz em Belém da Amazônia.


Joaquim de Flora (gravura medieval).


Hoje, quarta-feira de Cinzas, entre chuva e esquecimentos, ocasião propícia para relembrar o tempo apocalíptico dos nossos antepassados índios sob o peso da cruz acidental evangelizadora. Ou seja, cativeiro e extinção em nome de Deus e de El-Rei católico apostólico romano.

No meio do caminho para o inferno verde nessa selva escura que Dante na Divina Comédia nem sonhou; por sorte ou dom do Espírito santo uma mente brilhante forjada pelos jesuítas da Bahia de Todos os Santos apareceu no caminho de Belém do grão Pará a pregar justiça aos lesados da terra e paz para o mundo todo: unindo judeus, cristãos e muçulmanos sob a mesma Terra-Pátria como diz atualmente o profeta da complexidade Edgar Morin, crente como eu do deus de Espinosa.

O que salvou os negros da terra do genocídio total, apesar dos pesares, foi a utopia do Quinto Império profetizado pelo padre grande Antônio Vieira entre colonos encapetados e índios ocidentais destruídos pela Conquista europeia. O Quinto Império ou idade do Espírito santo vem da filosofia da História, do espírito libertário do monge medieval Joaquim de Flora para desaguar na filosofia pós-moderna da inteligência coletiva ou a idade cibernética de um mago chamado Pierre Levy, por exemplo. E eu, caboquinho do Fim do Mundo (Itaguari de Ponta de Pedras, Marajó-Pará), que tanto queria saber quem inventou o mundo...

A utopia evangelizadora do padre grande vem de muita preteridade para chegar aqui e agora sempre a reinventar o futuro da humanidade. Por isto é Utopia e ainda não sabemos o que a utopia significa para a História... Vem da "voz que clama no deserto" (o iracundo dissidente judeu João Batista, terapeuta ou pajé que curava pela água no primeiro SPA - sano per acqua - do mundo), vem da fonte espiritual da noosfera nas águas do Jordão batizar as grandes águas do Rio Babel (Uêne aruaco, Paraná-Uaçu tupi, Marañon castelhano, Amazonas galego-português); vem do Sermão da Montanha com as boas notícias do rabi da Galileia a proclamar o primeiro manifesto comunista do mundo... 

A utopia sebastiana vem das flechas imperiais assassinas, vem do milagre da fé humana, vem do martírio dos crentes atirados às feras no circo de Roma para distrair a impiedade pagã... O Quinto Império do mundo vem do gemido sufocado dos guetos da história censurada pelo Santo Ofício, vem da dialética malvada entre a ortodoxia cristã e o antissemitismo, vai além da eterna acusação da Inquisição e da demência hedionda do Nazismo para nos mostrar o caminho para a história do futuro desde o antigo sonho dos profetas do Cativeiro da Babilônia.

Na Quaresma, diz Vieira em carta de 29/11/1659 (publicada em Lisboa a 11/02/1660) inverossímil porém compreensível no realismo mágico do tempo intermédio entre as trevas da Idade Média e as tímidas luzes da Modernidade amanhecente (que se chamou século XVII); quando no convento dos padres de Santo Alexandre não se acreditava mais no regresso com sucesso dos dois nheengaíbas escravos mandados em missão de paz na distante e terrível Ilha dos Nheengaíbas (Marajó). Os dois negros da terra promovidos a embaixadores foram levar a mensagem de paz a seus parentes rebeldes guerrilheiros acusados de pirataria e condenados ao genocídio pela "guerra justa": já três tentativas militares de ocupar a ilha grande dos Nheengaíbas tinham terminado em desastre de parte a parte. A primeira tentativa de paz, em 1656, levada pelo padre João de Souto Maior voltou a Belém com feridos e a notícia de mortos enterrados na beira do rio na retirada precipitada frente ao ataque dos bárbaros... 

Mas, eis que batem a porta e quando os desesperançados padres vão atender, entram ao convento animosos e de boa fé os ditos embaixadores da carta risível escrita em português ou nheengatu talvez a um povo de analfabetos selvagens; acompanhados de sete caciques pagãos que, ousadamente, vinham se meter debaixo dos canhões portugueses confiados tão só na palavra do payaçu dos índios que fora além mar buscar a lei de liberdade dos cativos (alvará de 1655). 

Dos tais caciques ficou sendo interlocutor do superior das Missões (este último em posição de delegado real para assuntos indígenas, papel que hoje corresponderia à célebre FUNAI) o mais ladino de todos, na pena do payaçu, um certo Piyé nomeado cacique dos Mapuaises (Mapuás)... Curiosa semelhança com o nome do faraó negro Piie na história do antigo Egito. Coincidência? O Piie negro entrou na história por descer do Alto Nilo com seu exército para combater a corrupção dos faraós. Sintomático. Além do estalo, o nosso padre Vieira ficou famoso pela lábia...

Aquilo na Amazônia colonial portuguesa era, com certeza, um teatro da paz universal por necessidade e acaso retratada daquela maneira. Mas, os idiotas da objetividade, como diria o anjo pornográfico Nelson Rodrigues, não conseguem ver com os quatro olhos do peixinho tralhoto, que o padre grande falou no Sermão aos Peixes (São Luís do Maranhão, 1654, a caminho de Lisboa para levar as queixas dos índios do Pará a Dom João IV). A pax dos Nheengaíbas foi feita na Igreja do Santo Cristo do rio Mapuá (ilha do Marajó) em 27 de Agosto de 1659. Ou, pelo menos, plantada a semente da paz amazônica na verde várzea que, 346 anos depois, veio a se chamar Reserva Extrativista Mapuá, a 25 de maio de 2005.

Pelos caminhos da História planetária, que conexões podem existir entre a inteligência coletiva do filósofo da internet Pierre Levy e a idade do Espírito Santo anunciada por Joaquim de Flora separados por sete séculos? O que o payaçu dos índios padre Antônio Vieira, condenado por heresia judaizante pelo Santo Ofício; poderia inspirar agora, por exemplo, o Papa Francisco a respeito da Amazônia focalizada expressamente a par da bacia do Congo na bula Louvado Seja?

Talvez seja Edgar Morin entre todos pensadores da atualidade quem está mais perto da melhor resposta quando a filosofia da complexidade contempla o Homo sapiens demens. A humanidade filha da animalidade, dotada de razão e consciência, nasceu e cresceu no seio da bio-noosfera (corpo-e-mente do Cosmo). Cérebro que cria a mente, mente que concebe o cérebro e tudo mais quanto ele compreende. Ainda vão beatificar Charles Darwin e seu acólito principal Alfred Russel Wallace - louvado seja o jesuíta paleontólogo evolucionista Pierre Teillard de Chardin! - que, por sinal, visitou Marajó mas nada disse de Vieira nem dos índios arquitetos que fizeram as aldeias suspensas da ecocivilização marajoara de mais de mil anos de idade. Ainda assim, Wallace sentenciou: "o caboclo marajoara é tremendo" (despistador). 

Com isto, o naturalista inglês queria dizer que a lenda das amazonas foi, sutilmente, plantada na cabeça dos espanhóis pelos índios que respondiam às perguntas dos civilizado de modo a induzir aquilo mesmo que os brancos gostariam de acreditar. Não foi sem razão que o baiano Jorge Amado apelidou de "índio sutil" a seu colega marajoara Dalcídio Jurandir.

O conceito de inteligência coletiva apresentado por Levy configura uma antropologia do ciberespaço. Até aí um longo caminho percorrido pela evolução da vida desde a poeira das estrelas até a complexidade da matéria orgânica para se transformar em espírito (mente) e habitar vários meios de comunicação. No Homem (corpo/mente), o demens sente e sonha, o sapiens indaga e explana a "verdade". 

Na realidade, isto é abstração. Cada indivíduo é uma unidade biológica-econômica-social-psíquica). O longo século XIX, depois de uma longevidade prodigiosa e infernal, finalmente está morto como o deus de Nietzsche. Porém o sonhado e esperado Terceiro Milênio ainda não nasceu... Para os crentes, entre o passado recente e o futuro que tarda, entre o inferno de duas grandes guerras mundiais mais o terror da Guerra Fria; e as esperanças da paz universal prometida pelos profetas, resta por hora uma espécie de purgatório. Apesar de tudo, poetas, filósofos, cientistas humanistas, diplomatas criativos, religiosos ecumênicos e estadistas democratas parecem ver uma pequena luz no fim do túnel.

Lévy defende que todos indivíduos tem inteligência própria herdada e acumulada em suas vivências pessoais em interação social evoluindo para o ciberespaço. Este espaço virtual, muito mais que um meio de comunicação ou mídia, trata-se de um espaço de integração e síntese de infinidade de mídias e interfaces, que podem ser encontradas tanto nas mídias como: jornal, revista, rádio, cinema, tv, bem como mais diferentes interfaces que permitem a interação ao mesmo tempo ou não, como os chats, os fóruns de discussão, os blogs, entre outros.

O ciberespaço apresenta-se como local difuso onde a inteligência coletiva se forma por conta da interação entre pessoas que, como sujeitos individuais que são, promovem intercâmbio de ideias por meio de comunidades virtuais, cujo objetivo maior está em promover amplas conexões entre seus participantes. O resultado é a transmissão e construção de ideias que acabam por criar a cibercultura: movimento social e cultural estabelecendo pontes para novas relações com o conhecimento e o saber coletivo na Polis virtual (cibercidade). Será isto alienação ou real?


A inteligência coletiva é a capacidade de reconhecer o outro como sujeito dotado de inteligência, um ser de conhecimento potencializado. Os mais diferentes saberes buscam-se em complementaridades, na complexidade global cada indivíduo é parte integrante do mesmo processo que admite seus conhecimentos e saberes individuais como resultado de sua própria formação socioambiental. Identidades territoriais e direitos se manifestam em rede. Desta maneira, a prática da inteligência coletiva reduz a ilusão e o engano podendo levar a uma melhor comunicação entre indivíduos, bem como a uma maior compreensão do outro enquanto ser inteligente, porque cada um possui savoir-faire (saber fazer): um conhecimento seu que, compartilhado, beneficia diferentes áreas da vida. Uma forma de valorizar o outro e valorizar a si mesmo para juntos promoverem o crescimento do todo.

Todas utopias valem a pena se levam a humanidade a sonhar o Futuro e a lutar pela conquista da justiça e da paz na inspiração igualitária da mítica Terra sem males (paraíso terreno Tupi-Guarani onde não há fome, trabalho escravo, doença, velhice e morte) confundido com o Quinto Império (isto é, a Terra-Pátria), na visão das Nações Unidas para os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS).

Vieira é verdadeiro profeta! 

Parodiando a frase: "Bandarra é verdadeiro profeta!"(carta As Esperanças de Portugal, que levou Vieira à condenação por heresia judaizante pelo tribunal da Inquisição). Quando o padre grande na solidão do rio dos Tocantins levado de canoa a remo por "índios cristãos" (obrigados ao batismo como os mais cristãos-novos do Brasil) a caminho de Camutá-Tapera (Cametá-Pará) escreveu a famosa carta secreta inspirada nas Esperanças de Israel, do rabino sefardita de Amsterdã Menassé ben Israel.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Metáfora transcontinental da ponte do Oiapoque

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ponte sobre o rio Oiapoque ligando o Norte do Brasil e a Guiana através da fronteira entre as duas regiões da Amazônia Oriental.





"as fronteiras são uma forma de medo" -- Isabel Alende




A Christian José Piat, in memoriam.



A ponte do Oiapoque não é a maior obra de engenharia do "plateau" das Guianas: todavia, sua expressão histórica e geográfica faz desta obra uma das maiores 'pontes" entre o primeiro e o terceiro mundo... No velho rio de Vicente Pinzon a América do Sul e a Europa ficam próximas apenas a 15 minutos de distância...  você sabia? 

Pena que, em 1994, quando o maire de Sinnamary Elie Castor (Caiena 1943 - Clermont-Ferrand 1996) convidou o padre Giovanni Gallo (Turim 1927 - Belém do Pará 2003), criador do sui generis Museu do Marajó (1972); com uma importante delegação de autoridades municipais do Marajó a visitar a Guiana francesa; nós não soubéssemos até então do revolucionário trabalho pedagógico comunitário empreendido por Hugues de Verine, nos anos 70, na criação de ecomuseus por todo mundo a partir da velha França. 

Imagino como poderia ter sido o encontro do marajoara que veio de longe com o francês que conquistou o mundo, de uma maneira que os generais de Napoleão jamais poderiam fazer. Gallo e Verine, juntos, dois cidadãos do mundo que poderiam ter construído, por certo, a "ponte" do Oiapoque unindo o Museu do Homem em Paris ao Museu do Marajó, bem antes que arquitetos e engenheiros tivessem dado o primeiro risco na prancheta a fim de materializar a ponte em concreto que muitos almejavam, desde o passado lendário, das migrações parikur conduzidas pelo cacique Anakayuri desde o Caribe para a baia do Oiapoque. Por que é de pontes, e não de muros; o espírito da construção do novo mundo está clamando.

Acredito eu que, lá mesmo na pátria natal de meu querido amigo Robert Marigard que com esmero organizou a excursão pela parte francesa, antes de terminar a formidável degustação do saboroso bouillon d'awara (Bouyon Wara em crioulo guianense), pronunciar "buiun d'auarrá" (cozido de tucumã); o prato nacional da Guiana francesa feito à base do fruto da palmeira tucumã (Astrocarium vulgare), quando na presença de todos monsieur le maire convidou o padre Gallo para organizar um museu semelhante ao Museu do Marajó de Sinnamary. Presente lá estivesse Hugues de Verine a parceria seria, provavelmente, feita na hora. 

Todos ficaríamos a par da revolução em educação comunitária através de ecomuseus em curso desde os anos 70, quando às margens do lago Arari, que viu nascer a Cultura Marajoara, foi inventado do Museu do Marajó, e, imediatamente, talvez o ecomuseu de Sinnamary estaria prontamente inaugurado em presença da delegação marajoara. O arquiteto Paulo Chaves, àquela hora delegado do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) no Estado do Pará, e o arqueólogo Marcos Magalhães do Museu Paraense Emilio Goeldi (MPEG), ambos participantes do ágape de Sinnamary, ouvindo o museólogo do Louvre falar sobre museus ao ar livre, poderiam compreender e valorizar mais a obra de Giovanni Gallo: por acaso, criador do primeiro ecomuseu da Amazônia e, certamente, do Brasil.  

De qualquer modo, os marajoaras de Cachoeira do Arari ali presentes perceberam que nossa tradicional Canhapira é, simplesmente, um "buiun d'auarrá" simplificado. Robert organizou na municipalidade de Caiena o Festival das Guianas de 1986, foi quando eu o conheci e ficamos amigos até a sua morte: sua última vontade já em estado adiantado da enfermidade que nos privou de sua leal amizade e contagiante cultura crioula, foi a de vir a Belém do Pará por avião acompanhado de sua família para se despedir dos amigos brasileiros e retornar a Guiana pela rodovia Macapá - Caiena. 

Até então, nós havíamos conhecimento limitado da Guianidade que o festival de Caiena revelou. Sob iniciativa de Robert tivemos em Belém a Semana de Cultura Guianense,  a geminação entre Caiena e Salvador da Bahia aconteceu, uma delegação escolar da municipalidade de Sinnamary realizou em Ponta de Pedras atividade dita classe de découverte, dentro do Protocolo de Cooperação celebrado entre a Associação dos Municípios do Arquipélago do Marajó (AMAM) e a Associação das Municipalidades da Guiana (AMG). As pequenas sociedades periféricas da vasta região das Guianas começaram a se ver umas nas outras, micro nações locais no dizer de Edgar Morin; fazendo parte de seus respectivos países-estado no seio da Terra-Pátria. Urge preparar o Futuro e o futuro está aí batendo a porta com aviso prévio da Agenda 2030. A mudança climática virá pelas beiras do Planeta, pelas pequenas comunidades ultraperiféricas com seu longo passado histórico pré-colombiano e colonial. As Memórias de Michel, com as de Atipa de Parepou, de militantes do terroir como o nosso irmão Cristian Piat e muitos outros de um lado e de outro das fronteiras geopolíticas e linguísticas, a exemplo do griô de Muaná, Agostinho Batista, da Universidade da Maturidade (UMA), no estado do Tocantins; vão tecendo a rede neuronal de museus comunitários e ecomuseus da Amazônia.

Mais cedo ou mais tarde, a Região Guiana - "última colônia da América" excetuando o status neocolonial de Porto Rico - será plenamente autônoma, quiçá até 2030, passando daí em diante a pais independente. A história do projeto espacial europeu Ariane, com sua base de lançamento de foguetes em Kuru, não pode esquecer a mitologia tupi-guarani dos índios de Camopi, nem as lendas saramacás que se integram aos sonhos do desenvolvimento cientifico e tecnológico da humanidade toda. Permitindo o milagre da era da inteligência coletiva de que fala o filósofo da internet Pierre Levy. Um pedreiro-livre autêntico como Cristian Piat tem muito a ver com a construção de catedrais e pontes iguais a estas. Antes que o Grande Oriente da França (GOF) fosse chamado a Guyana francesa para observar a embaraçante questão da fronteira do Oiapoque e da imigração dita clandestina; Cristian foi aquele São Tomé que quis ver de perto para contar de certo. Falante de português fluente como qualquer libanês do contrabando, ele vinha frequentemente a Belém e Macapá para andar livre pelas ruas misturado ao povão, descobrindo as novidades da terra e ensinando a Guianidade transamazônica para todos: dos subúrbios de Paris até a feira de Caruaru...

Ninguém iria contar a Cristian Piat o que se passa com um brasileiro "clandestino" já no Amapá e Pará para atravessar a fronteira e se refugiar no eldorado francês da Guiana... Ele entrou "clandestino" em seu próprio país, depois de se passar por brasileiro junto a gateiros de aliciamento de trabalhadores escravos. Embarcou em canoa-motor tapouille (tapuia), pagou passagem e comida, viu mulheres a carregar e amamentar bebês, desembarcar no rio Aproaga em horas mortas, andar em trilhas pela floresta noite adentro e chegar à estrada antes que os gendarmes (policiais) comecem a ronda... E depois: onde ir arranjar serviço se não achar patrões ilegais tanto quanto os trabalhadores "clandestinos"? O mesmo vale para garimpos "selvagens" que vendem ouro tão civilizadamente como se vê em obras trabalhadas de finas joias nas vitrines de todo mundo.

No natal de 2005, o então presidente da Comissão de Relações Exteriores da Assembleia Nacional Francesa e presidenciável, atual presidente do Instituto do Mundo Árabe (IMA) Jack Lang, atendeu a convite especial do atual Secretário de Estado de Turismo do Estado do Pará, Adenauer Góes, que o havia visitado em Paris no ano anterior, para conhecer a cidade de Belém e a ilha do Marajó. A ideia consistia em prestigiar a Feira Internacional de Turismo da Amazônia (FITA), aproveitando que o deputado e prefeito municipal de Saint Laurent do Maroni, Léon Bertrand, estava Ministro do Turismo sob a presidência de Jacques Chirac; abrindo desde Paris uma rota alternativa mais curta - como se fosse uma ponte transatlântica - passando pela Antilhas e Guiana francesa até entrar pelo Norte do Brasil.

Minha passagem pela Guiana francesa (1985-1990) ainda agora desde a história do cacique bandoleiro Guamã e de seu parente Ajuricaba dos Manaus continua a me questionar: descobri no serviço da Comissão Brasileira de Limites a "grande oval insular das Guianas" do geógrafo brasileiro Raja Gabaglia, a "grande ilha das Guianas" com Eliseu Reclus; Ciro Flamarion Cardoso com sua tese Guyane française demostrou a grande área cultural guianense que se estende das ilhas do Marajó, no delta-estuário do rio Amazonas, até a ilha de Trinidad, no Caribe. Este espaço enorme adentra a bacia do Orenoco, na Venezuela, passa através do canal de Cassiquiare para o Rio Negro, no estado do Amazonas; para descer o Baixo Amazonas, no Pará, até sair novamente ao oceano Atlântico: nós temos, então, uma Guiana brasileira (Rio Negro, Rio Branco, Baixo Amazonas (amazonense), Baixo Amazonas (paraense), Marajó e Amapá) no "plateau" das Guianas (Brasil, Guiana francesa, Suriname, Guiana e Venezuela).
  O folclore da Guiana francesa coletado pelo folclorista e memorialista crioulo Michel Lohier, "Légendes et contes folkloriques de Guyane", fala do casamento mítico entre o príncipe Caiena, filho do rei Ceperu; e da princesa Belém, filha do rei Brasil. Evidentemente, o príncipe é índio kalina (caribe ou galibi) e a princesa tem sangue português. Moça de sangue nobre, muito vaidosa; que submete o apaixonado a uma prova mortal para transpor as águas perigosas sobre as duas margens de um lago misterioso e profundo. O jovem guerreiro Caiena vai se aconselhar com o grande pajé de sua nação, chamado Montabo. Este então na savana de Iracubu escolhe um grande touro selvagem e chama o príncipe para ensiná-lo a domar o animal alimentando-o religiosamente com ervas mágicas da iniciação dos pajés. 

Chegou o grande dia e uma delegação chefiada pelo rei Ceperu atravessou o mar para apresentar-se com o príncipe ao rei Brasil a fim do jovem pedir a mão da princesa em casamento submetendo à prova imposta por ela. Muitos pretendentes vindos de diversas partes pereceram nas águas misteriosas e profundas. O pajé Montabo conduziu o grande touro ao centro da arena, cercada convidados com as duas delegações lado a lado; Montabo entregou o animal selado cerimoniosamente às mãos do príncipe Caiena que, com um aceno galante dirigido a sua amada Belém; saltou sobre a sela. O animal partiu a galope e deu um enorme pulo que alcançou as nuvens, a voar, e diante do povo pasmo atravessou a larga extensão do lago mortal. De volta ao chão, casamento aceito, foi a vez do rei Brasil ir ao país de Ceperu entregar a princesa Belém ao noivo e passar uma temporada em festa. Claro está que o conto folclórico revela a história oral do povo.

Esta e outras histórias de Lohier, como o livro "Les Mémoires de Michel" (as memórias de Michel) que o amigo Christian Piat presenteou-me; como também o primeiro romance escrito em língua crioula guianense Atipa (tamuatá), de autor anônimo sob pseudônimo Parepou (pupunha), presente afetuoso do meu amigo Robert Marigard; fazem parte da descoberta que fiz do país crioulo da Guiana. Descobri que entre o Marajó e a Guiana há mais coisas do que imagina nossa vã academia.

Estava eu vice-cônsul em Caiena entre os anos de 1985 a 1990, quando por força do serviço consular vi de perto como funciona um dos mais antigos e duradouros regimes colonias nas Américas. Com meu amigo e confrade Odacyl Catete fizemos uma primeira tentativa de aproximar a mídia atuando em Belém e Caiena revelando um país amazônico com a cabeça na Europa e o coração na África. Uma viagem de prospecção comercial a Guiana, Guadalupe e Martinica foi conduzida pelo Secretário de Estado da Indústria, Comércio e Mineração (SEICOM) do Pará Nelson Ribeiro, com apoio do Consulado de Caiena. Parte dos esforços brasileiros de mostrar na região ultramarina francesa outra imagem diferente do tráfico ilegal, imigração selvagem, prostituição, narcotráfico. Encontrei ajuda da igreja católica e da igreja Assembleia de Deus junto aos imigrantes, mas principalmente da maçonaria republicana francesa, a qual o irmão Christian Piat franqueou-me as portas. 

Operário na Europa, inclusive Alemanha; Christian era um sábio crioulo muito orgulhoso de sua Guiana: um pedreiro-livre exemplar que acreditava que, depois da simbologia da pedra e dos metais; a velha instituição medieval dos maçons operativos construtores de catedrais chegaria ao século XXI pronta a trabalhar a metafísica da madeira (para não dizer a matéria orgânica) e do barro (reciclagem da pedra bruta).

Eu com minha esposa e nossos filhos fizemos bons amigos na Guiana, aprendemos uma maneira diferente de ver o mundo que afinal de contas não nos era estranha, exceto no que diz respeito à língua. Posso dizer que me tornei um brasileiro melhor junto a compatriotas refugiados econômicos, haitianos, latino-americanos e metropolitanos saturados da Europa. Ciro Flamarion Cardoso teve razão em considerar a Guiana francesa como espelho da colonização. Michel Lohier, que, postumamente, me foi apresentado por Christian como um sábio da sua terra não era apreciado pelos independentistas; amava o Brasil e a França ao mesmo tempo. Ele tinha saudades de seus amigos brasileiros, como o poeta Serge Zaou que morou e Belém e Soure, eses guianenses era solidários aos brasileiros pobres explorados por guianenses ricos e insensíveis. Conheceram a Guiana francesa do tempos das vacas magras durante o regime de Vichy, quando Hitler ocupou a França e isolou a Guiana. Foi quando o cônsul do Brasil em Caiena, Doutor Pacheco (dentista, pai da família Chalu Pacheco de Belém do Pará) viabilizou o abastecimento e sobrevivência da Guiana. Getúlio Vargas preocupado com a possibilidade alemã de invadir a Guiana francesa mandou reforçar a fronteira. Começou assim o famoso "contrabando" das Guianas e também projetou-se na imaginação dos guianenses o primeiro pilar da Ponte do Oiapoque. No tempo das vacas gordas, com a construção da base de Kuru, primeiro os trabalhadores foram aliciados para baratear a mão de obra, depois foram mandados embora com a cumplicidade do governo militar de Brasília, com o repatriamento em massa dos brasileiros de Caiena. De volta ao país natal, os repatriados foram despejados nos acampamentos insalubres de construção da Transamazônica.

No imaginário popular do Pará não se fala em Guiana, mas em Guianas plural. Reciprocamente, um guianense raramente dirá sobre o nosso lado da fronteira o nome local, mas quase sempre Brasil; mesmo que esteja se referindo à cidade do Oiapoque ou Clevelândia, por exemplo. As "Guianas", em Belém do Pará, por volta dos anos 60 e 70 eram sinônimo contrabando.

Já do outro lado da fronteira, na Guiana francesa, o fluxo de mercadorias proveniente do Brasil (Belém e Macapá) era aparentemente inconveniente pela concorrência aos produtos metropolitanos, mas não configuravam contravenção. O que as autoridades francesas declaravam combater era a imigração e os garimpos clandestinos. Para normalizar as relações de fronteira Brasil e França resolveram entre outras coisas abrir consulados em Belém, Macapá e Caiena.

Embora sendo eu nativo do Marajó e tendo notícias frequentes de Abaetetuba e Vigia onde é corrente viagens de pessoas e embarcações "pro Norte" (Oiapoque, Caiena e Paramaribo) o tema "contrabando" só começou a me interessar, efetivamente, quando ingressei no Jornal do Dia, era a época de contrabando de cafe: raramente alguém se daria conta de que, em busca "vivo ou morto", do bandoleiro Guamá, cacique dos Aruã e Mexiana; em 1723 a tropa de guarda costa comandada pelo sargento-mor Francisco de Mello Palheta, nascido na vila da Vigia, trouxe furtado o café de Caiena que havia sido furtado de Paramaribo e foi produzir cafezais em São Paulo...

Ora os paraenses cantamos belamente a canção de Paulo André Barata e Ruy Barata, Porto Caribe, que diz: Sou de um país que se chama Pará / Que tem no Caribe o seu porto de mar. Pois a licença poética parece subverter a geografia para explicar o contrabando de ritmos musicais que animam as noites de Belém. Não sabe o campus e cidade universitária do Guamá que o nome do rio se deve ao dito cacique bandoleiro. E Cuba, provavelmente, inspiração dos autores, pai e filho, tem lá o seu Guamá como em Belém um bairro em Santiago e um parque ecológico. Nome do guerreiro taino que levou a guerra de guerrilhas contra o conquistador espanhol sucedendo ao primeiro rebelde da América, o índio Hatuey.
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forte Ceperu (Caiena, Guiana francesa), do nome do cacique galibi que segundo a tradição teria cedido o lugar para França em troca de comércio e amizade. Daí, cerca de 1604, o calvinista Daniel de La Touche, senhor de La Ravardière, seguindo o aventureiro Charles Des Vaux que havia camaradagem com os Tupinambás do Maranhão, fundou, em 1612, o forte de São Luís na França Equinocial, entrando em guerra com portugueses vindos do Ceará perdeu a colônia no ano de 1615. Desde então a disputa entre França e Portugal, este sucedido pelo Brasil, pelo controle do rio Amazonas; envolveu populações indígenas, colonos e escravos que se acham à origem da fronteira do Oiapoque.

sábado, 18 de fevereiro de 2017

Viagem a Caviana






na boca da noite quisera eu partir do Porto do Sal
Cidade Velha portas e quintais 
sono ferrado na fachada fechada e vitrais da Sé
sair a remo rumo ao meu velho Itaguari em busca de mim
caminho da façanha dos Aruãs além Caripi
canal do Carnapijó baía afora para o Marajó velho de guerra
da mea avó
passar uma semana ou talvez um mês na ilha Caviana.

quisera eu quisera ter a calma da praça do Carmo
em horas mortas
ficar sentado à ilharga da memória da aldeia enterrada
espiar ossamentos da história daquilo que já era
mas nunca se foi:
subir à riba da garupa pelo ar da garça morena
retardatária do último raio de sol que vai dormir
ao ninhal de sonhos da terra sem mal
Araquiçaua
Arari rio de araras invisíveis: aqui voavam outrora...
pra nunca mais
voar agora apenas com as penas da imaginação
seguir viagem em canoa doida movida a remo de ilusão
ao romper do dia eu estaria varando o furo Anajás Mirim
adentro do Anajás Grande
antigo reinado de índio brabo transformado em jebre
roubo de gado, fome e febre malárica
tão diferente hoje em dia daquela brava gente
ao tempo do valente Guamá cacique dos Aruã e Mexiana 
procurado vivo ou morto desde o Pará até Caiena
antiga capital da Paricuria e cacicado do galibi Ceperu.

atrás de mim a tropa guarda-costa capitão Palheta ao comando
quem manda eu me meter a besta?
sustentar esta velha guerra perdida
pega que pega cacique bandoleiro, soldado desertor
pretos fugidos... um terror
aí de mim! careço dar no remo e chegar depressa ao Cajari
pegar igarité de meu compadre poeta Antônio Juraci Siqueira
não é bandalheira, esta gente
preciso me aviar em Afuá pra atravessar a Vieira Grande
escuro que nem breu: vamos que vamos, sumano Juraci
a tropa já vem aí perto da boca do rio Cajari
o que dá pra rir dá pra chorar: amoitado no Charapucu
no ventre da lenda da primeira noite do mundo
que nem dentro do negrume dum caroço de tucumã
seu Raymundo de Moraes, homem do Pacoval 
nos mostre o caminho imaginário da Terra sem mal
Alfredo com medo dos olhos mortos de Eutanazio
refeito em vagalumes
fugindo pelos campos de Cachoeira a saber o segredo
do teso dos Bichos: hoje esta noite grande já é primeira manhã...
Içar a vela e aproar ao Cajuúna a fim de embarcar
o sumano Franklin piloto da canoa lendária até Caviana.

quisera eu quisera me transformar em ave guará...
caruana encantado da Caviana a fazer amanhecer
que nem o Farol da Caridade alumia a navegação 
pondo pescador a salvo da tenebrosa mundiação
da iracunda boiúna Maria Caninana
a escuridão avulta fantasmas do passado obscuro
banzeiro tamanho: a barca virou deixou de virar...
por causa deste menino que não sabe navegar
Nossa senhora vai dentro indiozinhos a remar
rema rema remador que estas águas são de amor...

o piloto Franklin tem nome de gringo só pra chatear
Franquilim para os parentes
está na cara que o cara é aruã desde sempre
na cidade grande o tapuio põe banca de advogado dativo
dum povo altivo que nunca se rendeu ao invasor
do qual é embaixador
caboco criador de caso, fazendeiro do ar dono de gado do vento
grande pescador tradicional de linha e rede social
conhece como ninguém antigos lugares secretos
de índios rebeldes, pretos de mocambo e desertores do regime.

O poeta Juraci jura que ele é boto que virou gente
disto eu não duvido: masporém desconfio também
o sumano é profeta descendente de caraíbas
por parte de seringueiro nordestino cujo destino
é inventar o Norte brasileiro por conta dos Tupinambá.

vou pra Caviana com estes dois super-heróis a paisana
descendentes de antigas tribos inimigas reconciliadas
em Mapuá por artes de Malazarte 
(ou seja, o mago payaçu Antônio Vieira)
me esconder da guarda-costa que vem perto da Contracosta
além disto há tantos perigos nesta ribeirinha vida
estirão do equador, Ilhas de Fora
ponta do Maguari, Bailique, Maracá, Cabo do Norte
a morte rondando pelo céu, terra e mar...
gente na lida fazendo e lutando pela própria vida
A Pororoca troando que nem um deus pagão de muita antiguidade
capitão Palheta também ele a tremer como vara verde
a tropa toda se borrando pegando-se com frei Bernardino
terço de Nossa senhora dos navegantes
missa e confissão dos pecados na madrugada...

quisera eu quisera ter a fé lírica do poeta-boto
que se não há de perder de vista o Farol da Caridade
certeza de Franquilim que a gente há de cruzar
o canal da Pororoca antes do primeiro dos três vagalhões
três pretinhos da Guiné fumando cachimbo de birra
surfando o banzeiro debaixo de pampeiro de vento e chuva
paresque zumbi da flotilha de caiaques do rei mandinga Abu Bakari
passagem da corrente equatorial marítima 
para as Guianas e a mágica ilha do Haiti nas Antilhas
meu medo é não saber a hora certa que dá maré de sigízia
pra travessia entre a noite grande e o grande dia.

Zeus é grande mas o Mar-Oceano é maior
viajar é preciso viver não é preciso já dizia o tal Pessoa...
quisera eu quisera me gerar em caruana e restar na Caviana
deixar o capitão Palheta com a tropa passar em frente
ir furtar o café Caiena e voltar sem jamais encontrar a gente
escondidos nesta ilha filha da Cobragrande.