domingo, 1 de outubro de 2017

O MARAJÓ É VASTO MUNDO DE RESILIÊNCIA, ENCANTARIA E VIVÊNCIAS FORA DE SÉRIE.

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Mestre Juvêncio da Tapera (Soure - Ilha do Marajó, 1905 - 2008) 103 anos de vida digna de memória: símbolo do Vaqueiro Marajoara corajoso e dedicado ao seu ofício tradicional.




Como diria o outro, confesso que vivi! Não sou Pablo Neruda, masporém também faço confissões autobiográficas e conto histórias dos outros... Começo por dizer no blogue da Criaturada que o que eu mais queria era escrever romance, que nem Dalcídio Jurandir e Guimarães Rosa. Até, paresque, alguém me apelidar de "Dalcídio Guimarães", síntese de dois monstros sagrados... Doce ilusão! Um chefe de repartição incomodado de me ver passar horas a fio com livro à mão anotando coisas no caderno, para encher meu saco, lembrava que os burocratas não são pagos para pensar, chamando-me às vezes de "Guimarães Rosa". 

Passei muitos dias e noites num louco exercício de Sísifo: escrevi uns dois calhamaços de pretensão literária, mas por fim deixei o palimpsesto de lado, fui cantar noutra freguesia e me arvorei a defensor da Criaturada grande de Dalcídio (índio, preto, mameluco, carafuz, curiboca, brancarana, caboco), patuleia rasa na qual me acho com orgulho é fé natural de pajé metido a doutor em tudo que é humano. Claro que eu me "desconverti" da vaidosa civilização acidental anti-cristã. A santíssima colonialidade com seus pés de cabra aparecendo fora do manto. Caíram-me as escamas dos olhos, que nem a Saulo de Tarso brabo como o Cão chupando manga a caminho de Damasco, a fim de arrancar pela raiz a heresia primitiva igualitária da Galileia. 

A diferença é que o Cristo libertador que eu vi no caminho para o cativeiro de Belém do Grão-Pará, a me falar das águas profundas do Inconsciente coletivo, em figura de pescador panema; este senhor Jesus de que os crentes falam não é, de modo nenhum, inimigo de Jurupari, nem de Tupã, nem de Oxalá, nem de Buda, nem de Javé, nem de Maomé, Lao-Tsé, Confúcio, Sócrates ou Zoroastro. Muito pelo contrário, o divino Espírito filho do Homem, que nem Brama, o ser cósmico; abraça todos mundos e fundos passados, presentes e futuros. 

A vida e a morte são os dois lados da única ponte para o eterno vir a ser. O deus de Espinosa. Mas, será que as mestras matriarcas da cerâmica marajoara já não sabiam? Ou somos nós que ainda não aprendemos a ler o recado ancestral dos "cacos de índio" e a compreender a memória negra da escravatura que, por acaso, o Museu do Marajó se tornou fiel depositário em favor das futuras gerações como o padre Gallo manifestou em seus escritos? 

Esta estupenda coisa me aconteceu quando dei fé - por necessidade e acaso -, de que os brancos da família somos todos farinha do mesmo saco: ralé judia dispersa pelos caminhos do mundo desde o cativeiro da Babilônia, massagada árabe fadada a tornar-se Midas deportado nas caravelas dos Turcos encantados na sina do Purgatório tropical nas colônias, a fim de procurar sem fim tesouros ocultos enterrados... A coisa se me deu na telha quando minha avó postiça Sophia Tautonila (a verdadeira foi a índia Antônia Silva, nascida na aldeia da Mangabeira; que morreu de parto de gêmeos no dia 22 de agosto de 1904, da tragédia familiar sobreviveu aquelezinho que viria ser meu pai caboco, seu Rodolpho Antonio Pereira). 

Vovó Sophia, na verdade tia, irmã mais velha e mãe adotiva de meu pai; um belo dia na hora da sesta me emprestou, com grande solenidade e recomendação, um exemplar da primeira edição do romance Marajó, dizendo-me: "pega e lê, foi escrito pelo teu tio Dalcídio"... Deste tio quase eu não sabia a existência, ele morava no Rio de Janeiro com seus irmãos do segundo casamento de meu avô Alfredo Nascimento Pereira (Benfica, 1849 - Ponta de Pedras, 1955) e a finada dona Margarida Ramos. O capitão Alfredo emplacou um terceiro casamento, este último com dona Isabel Trindade uma senhora negra que ao se referir ao pai de seus filhos o chamava de "branco velho". O branco velho terminou seus dias na vila de Ponta de Pedras com a avançada idade de 106 anos, de uma maneira como se ele tivesse parado no tempo ao comemorar o aniversário dos 61 anos, cercado de todos seus filhos, dona Margarida e diversos amigos na vila de Cachoeira, dia 30 de abril de 1910. Esta foi, paresque, a primeira e derradeira vez que o capitão Alfredo Nascimento Pereira festejou seu aniversário.

Por coincidência, grande devoto de Santa Rita de Cássia e fiel zelador da imagem da santa que seu pai Raymundo Pereira, voluntário da Pátria, trouxe da guerra do Paraguai; o capitão fazia aniversário no mesmo dia de emancipação do município de Ponta de Pedras. Mas a gente não sabia nem comemorava aqueles dois aniversários: o do capitão por haver esquecido e  o da vila por que não se conhecia a data... Meu avô paterno teve três mulheres em sucessiva viuvez e casamentos, uma índia e duas negras: com a índia ele teve sete filhos, com primeira preta seis e com a segunda cinco. Ou seja, dezoito filhos no total, noves fora outros que ele houve antes de casar na Igreja (no Civil consta que ele nunca casou), diz-que na mocidade o estudante de Direito arranjou amásia na ilha do Mamão, arquipélago do Guajará às ilhargas da Tatuóca, Cotijuba e Arapiranga, segundo a história oral da família. 

Por acaso, conheci duas venerandas senhoras da fina flor da elite de Cachoeira e Ponta de Pedras, respectivamente, que me disseram ter sido apaixonadas pelo meu avô Alfredo. A primeira era filha de fazendeiro coronel da Guarda Nacional e a segunda moça família dos fundadores da vila de Ponta de Pedras, aluna do professor Alfredo e colega de minha avó índia Antonia "magra e de canela piririca" com cicatrizes de piodermite, é claro. Por que motivo o moço bonito cobiçado das donzelas brancas não deu golpe do baú casando-se com alguma rica herdeira dos Contemplados do Marquês de Pombal? É certo que, de outro modo; eu não estaria aqui contando história nem nenhum dos filhos e netos da índia Antônia e das negras Margarida e Isabel... Assim é a vida. Passa de bubuia na correnteza do rio de Heráclito. Havia um mistério na vida deste meu avô nascido na vila de Benfica, na antiga Colônia de Benevides; talvez a alma peregrina de um descendente de Moisés na pele de um discreto cristão-novo. Quem sabe? E quantos outros cripto-judeus na diáspora entre chuvas e esquecimentos da Amazônia colonial?

O capitão Alfredo Pereira viveu tranquilo e honestamente como professor nas vilas de Muaná e Ponta de Pedras, secretário da Intendência e editor da folha miúda O Arary em Cachoeira, rábula considerado e membro do Apostolado da Oração na paróquia de Nossa Senhora da Conceição de Ponta de Pedras, cercado de livros e filhos como se ele tivesse, a exemplo de Josué na Bíblia; parado o tempo no dia 30 de abril de 1910, ao completar 61 anos de idade: a lua fixa sobre a baía do Marajó e o sol parado que nem o olho que tudo vê, sobre os campos de Cachoeira nas bandas do Araquiçaua, onde o astro rei ata rede e dorme o sono profundo da lenda da primeira noite do mundo. 

Era, paresque, como se o avô que eu via todos os dias a caminhar na vila ali vivesse perto de nós, porém ausente. Ele mesmo e seus parentes mais próximos perderam a conta dos aniversários que passaram em brancas nuvens. Eu descobri tardiamente a data natalícia avoenga pelo álbum Dalcídio Jurandir - Romancista da Amazônia (2006), no qual se vê fac-símile de recorte de jornal de Cachoeira do Arari, edição de 30/04/1910, festejando ao aniversário do capitão Alfredo Nascimento Pereira, no mesmo dia que ele fez 61 anos de idade. Ponto final... Então é isto, no dia 30 de abril de 1910, o tempo parou para o capitão. Aparentemente, ninguém percebeu... 

Seu filho caçula, meu tio Adeflorindo Belassi Pereira, é alguns anos mais novo que eu, que eu nasci em 1937. Portanto, no meu nascimento meu avô contava 88 anos de idade. Calcule, então, um velho de 90 anos ainda fazendo filho! Incrível, porém eu não duvido da honra de dona Isabel Trindade, comadre de dona Othilia Varella, minha querida mãe. Foi assim, suavemente, como um milagre de Santa Rita de Cássia e magia dos pajés sacacas, que o capitão chegou aos 106 anos, íntegro; sem ninguém prestar atenção inclusive ele mesmo. 

O capitão Alfredo ultrapassou três anos de vida a mais que o preto Juvêncio, festejado com merecendência na cidade de Soure. Mas, em Ponta de Pedras não se comemorou o derradeiro natalício do capitão. Tal qual o aniversário do município, que nós muito distraídos só soubemos dois anos depois do Centenário (1978), comemorado com atraso em 1980. A festa do Centenário aconteceu graças ao documentarista Jessé Dantas de Feitosa, o qual guardava cópia autêntica da ata de instalação da nova Vila de Ponta de Pedras desmembrada da jurisdição da Vila da Cachoeira, que lhe teria confiado o prefeito Pedro Boulhosa Sobrinho, na fundada esperança de que, no futuro, haveria de servir a alguma coisa. Assim a gente soube que o município teve autonomia em 30 de abril de 1878: mesmo dia em que o professor Alfredo fez 29 anos de idade, quanto talvez as alunas da escola da vila suspiravam por ele. 

Lembro-me dele em poucas ocasiões, havia voz rouca e falava baixo como um homem de 90 anos, num discurso na Prefeitura subiu e desceu a escada sem ajuda, paletó e gravata desalinhados... De tamancos, como costumava ir trabalhar na Intendência de Cachoeira? Não me lembro... Não usava óculos, mas certa vez deduziu que o sol parecia enfraquecer a luz, posto que antes ele não podia mirar o astro solar diretamente. Todavia, nos últimos tempos podia fazê-lo. Acho que o velho não se deu conta do passar do tempo, nem de uma provável catarata devida à idade avançada.  

Estas coisas me vem à mente quando me lembrei de Juvêncio a dizer, com simplicidade, ao branco francês que no Marajó já não há pajés sacacas (verdadeiros), que os que restam são curandeiros e querem dinheiro... O preto velho não imaginava estar diante do famoso Jack Lang, ministro da Cultura de Mitterrand... Teria ouvido falar de Mitterrand? Viu aquela foto formidável na qual o presidente da França aparece fascinado olhando de soslaio o batoque labial de cacique Raoni? Mundos paralelos. Em Soure, o francês midiático ficou pasmo ao ver aquele velho vaqueiro preto tirar chapéu para rogar a Deus que tivesse seu patrão latifundiário em bom lugar no céu. Pas possible, inacreditável! Como monsieur Lang de retorno a Paris iria contar uma coisa dessas? Mundo mundo, vasto mundo se eu me chamasse Carlos Drummond de Andrade talvez o mundo entendesse o que eu queria dizer.


-- Missunga, ó Missunga!
    A terra parecia subir pelos homens, bichos e árvores com o calor.
    Solidão.
    Famaleal farejava entre as folhas moídas. Missunga voltou. O casarão do Paricatuba, com seu escuro telhado entre coqueiros e bacabeiras, lhe dava impressão de fadiga e de quase ressentimento. 
(Dalcídio Jurandir, Marajó, 4ª ed., 2008, 31).





Resultado de imagem para foto preto Juvencio de Soure
Os amigos Sourenses devem conservar seu patrimônio invisível revelando a memória da terra: poderiam fazer parceria com o Ecomuseu da Amazônia / Escola-Bosque Eidorfe Moreira (ilha de Cararateua, Distrito do Outeiro, município de Belém), organizar por exemplo um "ecomuseu dos Maruanazes" pelo qual falará o rio Paracauari, o Pesqueiro, Cajuúna e tudo mais aos jovens e as crianças pela boca dos mais velhos.

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

PONTA DE PEDRAS: NOVOS TEMPOS, VELHOS LUGARES DE MEMÓRIA

São Francisco do Marajó: 
velhas raízes e novas esperanças de Ponta de Pedras.


capela de São Francisco de Borja, na fazenda Malato,
antiga São Francisco da missão dos Jesuítas no Pará e
primeira sesmaria da Companhia de Jesus no Marajó.

Araraiana, Urinduba, Paricatuba... Itaguari, Marajó-Açu, Marajó-Ité, Anabiju, Paruru-Açu, Arapiná, Saracá, Anajás-Mirim, Crairu, Ipauçu, Arapirança, Moirim, Panema, Dixiú, Cucuira, Jaguarajó... Sororoca, Bacurituba, Araquiçaua... Vestígios de um patrimônio invisível de lugares de grande antiguidade que hoje o povo já não sabe mais o significado. Sem estudo e sem interesse vão se perdendo da memória para dar lugar a novas ocupações sempre na boa esperança de mudar de vida.

Povo sem passado é povo sem futuro. Água mole em pedra dura tanto bate até que fura... Talvez donde menos se espera saia o primeiro passo para organizar o tão falado e ainda pouco compreendido Ecomuseu do Itaguari. Com este pequeno e inesperado passo, um significativo movimento socioambiental interessando o crescimento do IDH da Criaturada grande de Dalcídio Jurandir como um todo em toda Amazônia Marajoara...

Perdem-se na noite do tempo os primeiros povoadores indígenas do maior arquipélago fluviomarinho da Terra – Marajó. Uma área territorial insular maior que cada um dos estados de Sergipe, Alagoas ou Rio de Janeiro. Todavia, passados mais de três séculos e meio a maior parte dos quase 600 mil marajoaras de hoje são extremamente pobres, isolados e desletrados, mas ainda assim guardam a herança ancestral da índia tapuia (Aruak), que pariu os primeiros cafuzos filhos de negro escravo refugiado nos mocambos dos centros da ilha grande. Ou teve filho curiboca com guerreiro tupinambá em horas mortas das “tropas de resgate” (caçadores de “negros da terra”) ou desertor mameluco que se escondia da forca da autoridade colonial entre índios bravios nas Ilhas. Por fim, a índia tapuia foi aquela marajoara amásia de degredado luso fugitivo da tirania do regime, casada a pulso (para não dizer estuprada) com o rude colono açoriano, mandado junto aos casais povoar o Maranhão e Grão-Pará fecundando a terra conquistada da maior prole possível, capaz de domesticar tanto “espaço vazio” na imaginação dos donos do poder afastados dos reais acontecimentos da vida.

Esta pobre gente restou despossuída da própria terra natal, ilhada em si mesma, vítima do analfabetismo mais crasso. Porém – sem saber da utopia selvagem do bravo antropófago Tupinambá, nem do tratado de Tordesilhas (1494) entre portuguese e castelhanos – a dita criaturada foi “pedra” no meio do caminho da conquista do rio Babel ou das Amazonas (cf. “Rio Babel – a história das línguas na Amazônia”, de José Ribamar Bessa Freire).

Hoje para inventar o futuro, a gente carece fazer arqueologia de “cacos de índio” no Museu do Marajó. Adivinhar o passado pelas margens e entrelinhas de uma historiografia disparatada prenhe de erros, enganos e omissões. O farol Itaguari (“ponta de pedra”) é mais que sinal de navegação entre pedras perigosas em noite escura... Sua luz simbolicamente nos mostra o caminho das águas onde o Marajó velho de guerra começa. Quem sabe, então, aquela tricentenária “ponta de pedras” que o valente guerreiro tupinambá temia ultrapassar no passado; não esconde um patrimônio invisível, a passagem encantada para a terceira margem do rio: lugar sagrado onde não há fome, trabalho escravo, doença, velhice e morte. Onde reside a sonhada yby marãey (terra sem males) e a concretude da utopia sebastianista do Padre Antônio Vieira.

É verdade que no espaço plano de Euclides os profetas caraíbas nunca poderiam achar o paraíso selvagem, nem os “índios cristãos” poderiam, enquanto índios; assimilar o ideal de cristandade, conforme a utopia evangelizadora do Padre Antônio Vieira. Todavia, apesar de tudo, com o progresso da Ciência e Tecnologia iluminada pelos Direitos Humanos universais, o espaço curvo de Einstein abre caminho à Terra sem Males em comunhão com o reino de Jesus Cristo consumado na terra. Tempo de justiça e paz onde cristãos, judeus e islâmicos viverão como irmãos em meio ao respeito geral entre crentes e não crentes. A paisagem cultural marajoara no contexto dos Brasis e da América do Sol tem diversas leituras e o Itaguari (“ponta de pedra” em língua-geral amazônica ou Nheengatu) poderá dar pé a uma nova história, 371 anos após as pazes de Mapuá (27/08/1659).

Macau, a China que fala português.

Ironia da história: o “padre grande” dos índios, Antônio Vieira, se tornou amigo do rabino de Amesterdã (Holanda) Menassé ben Israel, influenciado por este acabou escrevendo de Cametá a carta secreta ao bispo do Japão a qual levou o tribunal do Santo Ofício a condená-lo por “heresia judaizante”: o famoso Quinto Império do mundo... No Marajó, pouco antes de ser expulso do Pará violentamente, Vieira estabeleceu o pacto de paz com os sete caciques nheengaíbas (Nuaruaques) – Aruãs, Anajás, Mapuás, Pixi-Pixi, Cambocas, Guaianás e Mamaianás – , trazendo para o lado português os Marajoaras estimados, mais ou menos, em 20 mil habitantes incluindo o Amapá contra a amizade e comércio, iniciados cerca de 1599, com os holandeses. Motivo da guerra de 1623 a 1647, os tupinambás aliados aos portugueses e os marajoaras ao lado de holandeses e ingleses.

Que diriam chineses consumidores de soja, minério de ferro, madeira e alumínio se eles soubessem desta curiosa história amazônica, onde a primeira fazenda dos confrades do padre Antônio Vieira acaba de ser vendida a uma multinacional da Holanda e vira porto de transbordo de commodities para a China? Eu acho que o turismo no Marajó poderia ser atrativo a turistas chineses se oferecesse produtos de interesse a eles sem apelar a fantasias. A realidade ultrapassa a ficção. O premiado romance “Marajó”, de Dalcídio Jurandir descreve estórias de Paricatuba, Arariana e Urinduba para denunciar o feudalismo transplantado às fazendas em terras de sesmaria dos padres, expropriadas na metade do século XVIII pelo Marquês de Pombal, cem anos após as pazes de Mapuá, para doação aos Contemplado. A fazenda São Francisco (Malato atual) coube ao sargento-mor Domingos Pereira de Moraes, patriarca talvez da família deste caboco escrivinhador que vos fala.

Falta dizer que a obra “Linha do Parque”, primeiro romance proletário brasileiro, foi escrita pelo “índio sutil” Dalcídio Jurandir no Rio Grande do Sul e traduzido ao russo e mandarino (chinês). Quem sabe algum tradutor chinês, ao saber disto tudo, não vá se interessar em traduzir o romance “Marajó” no bojo da compra e venda da fazenda Malato a bordo da multinacional holandesa fornecedora de commodities para a China? O descobrimento da Amazônia Marajoara é recente, com os trabalhos de pesquisa da arqueóloga Denise Schaan e de história social do professor Agenor Sarraf. Entretanto, grupos nômades teriam percorrido as terras baixas da América do Sul em torno de cinco mil anos, vivendo da coleta de frutos, da caça e da pesca de gapuia. Como se sabe, a pesca de gapuia é a mais tradicional maneira de pescar que o homem inventou. Consiste no aproveitamento da maré seca quando peixes e camarões ficam presos naturalmente no leito de igarapés e lagoas nas praias do mar. Por certo, o homem ribeirinho de cinco mil ou muito mais anos de idade, na constante procura do “de comer”; observou animais terrestres e aves aquáticas se alimentarem de peixes presos durante a maré baixa na varja ou nos lagos nos centros da ilha do Marajó, região do Arari, durante o verão. O homem é aprendiz da mãe natureza.

Com apoio da arqueologia (cf. Cultura Marajoara, Denise Schaan: SENAC, São Paulo, 2010) podemos nos dar conta de que a gapuiação e o gapuiador se acham na base da pirâmide étnica, ecocultural e social da gente marajoara. Citada, expressamente, com vistas a seu bem-estar como destinatária da Área de Proteção Ambiental do Arquipélago do Marajó, na Constituição do Estado do Pará (Art. 13, VI, Parágrafo 2º). Ainda hoje, com certeza, em mais de duas mil ilhas e 500 comunidades locais dos 16 municípios marajoaras; muitas vezes o “vinho” de açaí com pirão de farinha d'água é reforçado com camarão frito e peixe assado pescado de gapuia.

A resiliência do “caboclo” é o âmago da tradicional “cultura marajoara” herdada da mestiçagem por necessidade e acaso entre índios, negros e brancos ilhéus. Este patrimônio humano, mergulhado em pobreza extrema, isolamento e marginalização ao longo de séculos, está em grande risco de se acabar. Por isto, quando entre chuvas e esquecimentos históricos se anuncia em Ponta de Pedras (Marajó) projeto de construção de um estratégico porto de exportação de grãos produzidos no distante Mato Grosso, por acaso a ser edificado às margens da primeira sesmaria da Companhia de Jesus na ilha do Marajó; o porto Malato deve ser oportunidade para uma profunda reflexão, inclusive tendo em vista a carta encíclica “Laudato si” do Papa Francisco, na qual o Bispo de Roma critica o consumismo e o desenvolvimento irresponsável fazendo apelo à mudança e à unificação global das ações para combater a degradação ambiental e as alterações climáticas. A China anuncia ter antecipado para 2020 a erradicação da pobreza extrema prevista para 2030 no Pacto Global.


Já pensaram se, neste mesmo lugar onde outrora a história do município de Ponta de Pedras deu seus primeiros passos nas margens do rio do “homem malvado” (marajó), temido pelas emboscadas armado de zarabatana de braço de paxiúba e dardos de talo da patauá envenenado; um espírito novo de fraternidade entre grandes e pequenos virá brindar a Agenda 2030 dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS)? Por que não? Talvez uma Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) da Fazenda Malato venha ser elo de conexão com o setor privado na Rede Brasil do Pacto Global levando à criação de Mosaico de Unidades de Conservação do Marajó. Enfim, com uma tal parceria local-global Araraiana, Urinduba, Paricatuba e adjacências tirem o pé da miséria a bordo da esperançosa Reserva da Biosfera Marajó-Amazônia para ser estrela da Amazônia Atlântica. 

domingo, 3 de setembro de 2017

A AMAZÔNIA É NOSSA.

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Cerâmica Maracá, peça de 34 cm de altura, datada do ano 1.000 no sul do Amapá 
(coleção do Museu Nacional - Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ).

Quando nós vamos erradicar a colonialidade de nossa cultura política e ter desenvolvimento humano bastante para repatriar cada objeto exportado ao seu lugar original de memória? A ilha do Marajó, por exemplo, poderia ser o maior ecomuseu do mundo com seus principais sítios arqueológicos revitalizados e um excelente centro de amostra integrado ao ecoturismo de base na comunidade em O Nosso Museu do Marajó.


A Amazônia É Nossa!

1 - Nossa Amazônia não é nenhum “celeiro do mundo”, como certo dia na bacia do Orenoco o naturalista Humboldt sentenciou, incentivando a exploração predatória e o saque naquele tempo estúpido da máquina a vapor, supostamente para bem da humanidade. 

2 - Doravante, para extirpar a colonialidade todo mundo deverá ter celeiro próprio, auto-sustentável de preferência. E a humanidade de mãos dadas com a Ciência e Tecnologia a serviço dos Direitos Humanos Universais em vez de ser escrava do deus Mercado, vencer o monstro da Fome sem deixar ninguém para trás. 

3 - Nenhum ser humano deveria sofrer a infâmia do trabalho escravo. Não se deve esquecer a Escravidão que desonra a civilização, nem a ingrata sorte dos proletários a trabalhar doze ou até dezesseis horas por dia, a troco de um magro salário até morrer.
Tu dizes não existir inferno? Nunca ouvistes falar do Inferno Verde, não te ensinaram os começos da revolução industrial nem a história das especiarias das Índias com seus miseráveis artesãos e riquíssimos marajás apegados ao sistema de casta graças aos deuses eternos.

4 - Tomás Moro imaginava a ilha da Utopia como modelo perfeito de justiça e liberdade, enquanto os bárbaros e desconhecidos Trópicos pareciam um paraíso comparado às brutais desigualdades civilizadas das zonas frias e temperadas do planeta, porém aos olhos do Ocidente pretos e índios livres eram tidos como bichos selvagens e ervas daninhas nos campos do Senhor.

5 - Antes da "descoberta" da América (aliás, Amerik, "país do vento" em língua maya; região montanhosa às margens do lago Nicarágua) nossos antepassados nativos viviam um comunismo primário em odor de liberdade e a palavra selvagem estava isenta de barbaridade e plena de possibilidades, que nem a revolucionária utopia de Moro chegava perto.

6 - É verdade que antigos ameríndios praticavam antropofagia, mas nenhum antropófago comeu carne humana para saciar a fome e sim para comungar da crença das virtudes mágicas do herói invejado... Se acaso o inimigo caído prisioneiro se acovardasse seria ele imediatamente solto e mandado embora coberta de vergonha como se levasse a peste consigo.

7 - Naquele paraíso perdido, nossa primeira pátria Tapuirama não era casa da mãe Joana que nem no capitalismo selvagem. Nossa Amazônia tapuia ainda hoje é lar natural da Criaturada grande de Dalcídio Jurandir: índios, quilombolas, cabocos, proletários da periferia da Periferia americana... 

8 - Nós chegamos hoje a 40 milhões de habitantes nas regiões amazônicas dos nove países da Organização do Tratado de Cooperação Amazônica (OTCA), dentre todos o Brasil é o maior país amazônico do mundo. Acho eu uma tolice preto ou índio querer provar que poderá fazer qualquer coisa que o branco faz... Claro que pode, mas eu queria ver primeiro o branco fazer o que os pretos e os índios já fizeram. Para início de conversa, há um milhão de anos a negritude criou a humanidade inteira em toda diversidade humana. E o índio ancestral povoou a Ásia para depois chegar a América amanhecente e ainda vazia de gente.

9 - A amazonidade é a resiliência que poderá revitalizar o Brasil gigante adormecido, infundir fé ao esmorecido país do Futuro e ainda, pelo exemplo, dar novo sentido ao mundo todo.

10 - Tampouco as regiões amazônicas são “pulmões do mundo”, mas sim o coração pulsante da mãe Terra. Minuto a minuto, através das artérias da terra, vinte por cento da água doce superficial do planeta flui pelos seios da Floresta Amazônica desde os píncaros dos Andes fecundos até o Atlântico, passando antes ao fluxo e refluxo da maré, pelas verdejantes ilhargas de mais de duas mil ilhas do maior arquipélago fluviomarinho do mundo.

11 - Nós somos o centro nervoso da América do Sol na teia biodiversa da Floresta Chuvosa, aquífero Alter do Chão no imenso subsolo da antiga terra Tapuia, altos rios de chuva sobre nuvens carregadas pelas correntes aéreas movidas a energia solar bombeando, continuamente, umidade de terra e mar; a narrativa das mil e uma lendas de rios sem fim onde não se mergulha duas vezes.

12 - Há mais de cinco mil anos nas terras baixas deste novo mundo, o Homem amazônico foi único artífice da civilização como atesta a Cultura Marajoara: universidade pés descalços na engenharia do barro de mil e quinhentos anos de idade, com suas aldeias suspensas feitas a mão sobre verdes campos inundáveis sob chuvas de dilúvio equinocial na ilha grande entre o mar-Oceano e o grande rio das Amazonas. Esta cobragrande de sete mil quilômetros de comprimento, com a cauda nos confins do Solimões e a cabeça no golfão Marajoara.

13 - Com a acidental chegada de Cristóvão Colombo nas ilhas do Caribe houve começo imediato o genocídio americano e o bravo povo Taino nosso parente se levantou em armas. Porém apesar da bravura dos guerreiros foi grande desvantagem destes diante das armas assassinas dos bárbaros europeus e matilhas de seus ferozes mastins alimentados com carne de índios caçados com animais selvagens. 

14 - Foi assim, desgraçadamente para o Novo Mundo, que de massacre em massacre, de destruição em destruição, mais as devastadoras epidemias de gripe, sarampo, varíola e a sífilis sexualmente transmitida pelos cristãos às índias escravas; em pouco tempo milhões de índios foram reduzidos à miséria e escravidão. A primeira grande obra da ocidental Civilização... 500 anos depois, na festa do Descobrimento na antiga ilha Hispaníola (Santo Domingo), onde começou o martírio dos Tainos e séculos depois os negros do Haiti fizeram a Revolução Haitiana; o Papa pediu perdão dos Índios e dos Negros... Então, de lá pra cá, tudo OK? Todo este horrível crime de lesa humanidade cometido em nome de Cristo e dos Reis Católicos para encontrar o lendário tesouro do El-Dorado e outras riquezas reais e imaginárias. Este é, sem dúvida, o xis da questão da Civilização. E o tal “celeiro do mundo”, rebento industrial da mesma cobiça ocidental; saqueado sem dó nem piedade na periferia da periferia... Nunca foi auditado e contabilizado o custo amazônico real da indústria da Borracha, da Belle Époque, do automóvel e outras invenções de primeiro mundo com matéria-prima e trabalho escravo de terceiros mundos. Quem se importa? Exportar é o que interessa.

15 - O problema mundial é a colonialidade hereditária das mútuas transações internacionais: o vento que sopra lá, também sopra cá... Libertas e serás também.

16 - Euclides da Cunha viajou ao Alto Purus onde ele, na tríplice fronteira Brasil - Bolívia - Peru, viu de perto pra contar de certo os males do isolamento e insalubridade da Floresta Amazônica cantada em prosa e verso. Foi, então, que o escritor de Os Sertões testemunhou o drama do homem amazônico à margem da História, rendido a um destino cruel.

17 - Para os povoadores das fronteiras do imenso interior amazônico, muitas vezes, o velho patriotismo foi antes condenação e castigo injusto. Fado de degredados dos velhos tempos de guerra na Península Ibérica transpostos às colônias ultramarinas. De modo que, mais depressa as gentes fronteiriças deram-se conta que era bem melhor fazer boa vizinhança e construir a Pátria grande que servir de bucha de canhão a monarcas dementes e cortesões alucinados.

18 - É pois chegado o tempo pós-colonial e não faz mais sentido o “celeiro” amazônico e outros celeiros entregues ao saque global irresponsável, quando os povos da Terra restam marginalizados e acorrentados às mesmas misérias de sempre. Apenas 1% da população da Terra se locupleta da maior parte das riquezas do mundo.

19 - Combatentes da esperança estamos nós em marcha para o futuro da sociedade sem classes. Com a força da solidariedade planetária democrática, conscientes da mais valia de todo e qualquer operário, camponês, pescador, extrativista, artesão, artista, cientista independente. 

20 - A Criaturada grande de Dalcídio, o “índio sutil” marajoara, tomamos em nossas mãos a reconquista da Amazônia. Urge o ajuricabano a fim desta gente deixar de ver navios na beira da História. É preciso dar passo avante, criar a universidade da maré com genuína visão pública, gerar uma poderosa economia solidária que se irradie através de todas periferias: fazer valer a opinião cristalina de que o Homem amazônico é, de direito e de fato, cidadão do mundo.

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

AMAZONIZAR O BRASIL É PRECISO, DESMATAR A AMAZÔNIA NÃO É LEGAL.

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aldeia Wazare em Campo Novo dos Parecis - Mato Grosso.



https://pt.wikipedia.org/wiki/Amaz%C3%B4nia  AMAZÔNIA





Indiferente às angústias e ambições humanas, o maior rio da Terra nasce modesto a 5.600 metros de altitude acima do nível mar, no Peru, cumeadas dos Andes, e desce precipitadamente as escarpas da cordilheira em busca da planície imensa compartilhada por nove países amazônicos - Bolívia, Brasil, Colômbia, Guiana, Guiana francesa, Equador, Peru, Suriname e Venezuela -, até confundir suas águas com o Atlântico após percorrer quase 7 mil quilômetros de extensão. No golfão Marajoara, dentre mais de duas mil ilhas, o Rio e o Oceano pelejam que nem titãs medindo a força das marés: e nessa luta infinita, recebendo a corrente equatorial que vem desde a Contracosta da África Ocidental até a costa do Brasil, emenda-se o rio Amazonas à Corrente das Guianas a carregar suas águas quentes ao Golfo do México para dar vida às paragens geladas do Ártico. Entendeu por que toda Água do mundo está interligada, inclusive em mais da metade do corpo humano?

É o gigantesco Amazonas - Marañón dos castelhanos, Uêne (rio) dos aruacos, Paraná-Uaçu dos tupis -, maior rio da Terra em volume de água e em comprimento (6.992,06 km). O padre Antônio Vieira o chamou "Rio Babel" (ler José Ribamar Bessa Freire, Rio Babel, a história das línguas na Amazônia), quando em 1542 o espanhol Francisco de Orellana desceu o rio acidentalmente, frei Gaspar de Carvajal que o acompanhou com outros aventureiros em dois bergantins construídos, mal e apressadamente, na floresta do Equador; descreveu diversos encontros dos espanhóis, oras amistosos e oras belicosos, com povos ribeirinhos que habitavam o "río grande de Orellana" desde tempos imemoriais. Graças aos "gados do rio" (peixe-boi, tartarugas, pirarucu, etc.), além da caça abundante, aquela gente vivia bem.

De Quito (Equador), em 1540, partiu uma grande caravana com milhares de soldados e índios, cavalos, lhamas, cachorros, porcos e bois, sob comando geral de Gonzalo Pizarro, irmão do conquistador do Peru; em marcha para descobrir e conquistar o "país da canela". Atravessou picos nevados, entrou na desconhecida Floresta Amazônica, extraviou-se e se perdeu na selva... Os índios violentados e aterrorizados pelas barbaridades dos cristãos desertaram, famintos e sem guias, os espanhóis mataram e comeram todos bois, porcos, cavalos, lhamas, cachorros... Por fim, literalmente, comeram a sola dos sapatos cozidas com ervas desconhecidas que adoeciam ou envenenavam os forasteiros. 

Esta experiência histórica - que determinou a "descoberta" do rio das Amazonas -, foi o primeiro contraste entre conhecimento tradicional local e poder imperial, posto que milhões de índios viviam nas regiões amazônicas com notável sustentabilidade. A sede de ouro, cerca de 1530, uma década depois da destruição das Índias Ocidentais no Caribe, deu início ao genocídio amazônico.

A "lenda das amazonas" (mulheres guerreiras que montavam a cavalo e amputavam um seio para manejar arco e flecha), transposta da Capadócia para o país do Eldorado, foi um acréscimo ao texto de Carvajal, o qual apenas relata, com rica fantasia, suposto ataque de índios comandados por mulheres dotadas de grande coragem e força física, a ponto de botar a correr os espanhóis com seus barcos cravados de flechas... Mais depressa a intenção de Carvajal foi dar ares de fantasia e insinuar existência de tesouros para livrar Orellana da forca, pois o "descobridor" estava acusado de crime de desertar do acampamento de seu primo Gonzalo Pizarro roubando-lhe os dois bergantins. A imaginação dos espanhóis da conquista do Peru recaia sobre as chamadas "virgens do Sol" (monjas guardiães do templo do Inca filho do deus Inti (Andes), o Sol), mulheres que se acreditava tinham fugido a esconder o tesouro no coração da selva amazônica. Estas, na verdade, seriam as "amazonas" da aventura de Orellana e frei Gaspar de Carvajal.

Curiosamente, foram portugueses que deram nome de "rio das Amazonas" ao grande rio e, por extensão, Amazônia à terra de grandes florestas chuvosas alimentadas pela imensa bacia equatorial. Os espanhóis, mais perto das populações aruaques, aprenderam destas o nome nativo do rio Uêne (água, rio), cujas terras ribeirinhas chamavam Guania e, finalmente, Guayana em castelhano (Guiana em português).  
Segundo o site do Itamaraty, a Amazônia é peça-chave da integração da América do Sul nos debates internacionais com a temática do desenvolvimento sustentável, mudança climática, combate à fome e erradicação da pobreza. Com uma população de, aproximadamente, 38 milhões de pessoas (das quais 25 milhões na Amazônia brasileira), representa 40% do território sul-americano tendo a maior floresta tropical do mundo, habitat de 20% de todas as espécies da fauna e da flora do planeta. A Bacia Amazônica contém cerca de 20% da água doce da superfície da Terra.
As regiões amazônicas trazem grandes desafios e oportunidades a seus respectivos países soberanos. Re requerem tratamento estratégico coordenado e diferenciado, objetivo comum da Organização do Tratado de Cooperação Amazônica (OTCA), bloco socioambiental formado pelos Estados nacionais que partilham o território amazônico: Bolívia, Brasil, Colômbia, Equador, Guiana, Peru, Suriname e Venezuela. As origens da OTCA remontam à iniciativa brasileira de 1978, quando os oito países amazônicos assinaram, em Brasília, o Tratado de Cooperação Amazônica (TCA), com objetivo de promover o desenvolvimento da região e o bem-estar de suas populações de modo coordenado, além de reforçar a soberania dos respectivos países sobre seus territórios amazônicos. 
Vinte anos depois do TCA, em Caracas, os ditos países firmaram protocolo de emenda ao Tratado de Cooperação Amazônica, criando a OTCA. Em dezembro de 2002, foi assinado, no Palácio do Planalto, o Acordo de Sede entre o Governo brasileiro e a OTCA, que estabeleceu a sede em Brasília, até hoje a única organização multilateral sediada no Brasil.
Nos últimos anos, a OTCA tem por alvo a Nova Agenda Estratégica de Cooperação Amazônica, aprovada em 2010, com as prioridades dos países amazônicos. Em abril de 2013, o Brasil anunciou a doação de terreno para a construção do novo edifício-sede da OTCA, contribuindo para garantir a autonomia financeira da Organização. Atualmente, se acham em execução mais de 20 iniciativas, projetos e programas, em áreas como meio ambiente, assuntos indígenas, ciência e tecnologia, saúde, turismo e inclusão social. Entre eles, destaca-se o Projeto Monitoramento da Cobertura Florestal na Região Amazônica, executado desde meados de 2011, em parceria com o Instituto Nacional de Pesquisas Especiais (INPE). O objetivo do Projeto é contribuir para o desenvolvimento regional da capacidade de monitoramento da Floresta Amazônica, por meio de instalação de salas de observação nos países-membros e de capacitação e intercâmbio de experiências em sistemas de monitoramento. As atividades planejadas para o período 2013-2017 contam com financiamento do Fundo Amazônia/BNDES, no valor de R$ 23 milhões.
A OTCA deveria ser mais incisiva sobre a Agenda 2030

O Acordo de Paris sobre mudança climática, coloca a Amazônia na ordem do dia. E a Agenda 2030, da ONU, promete erradicar a pobreza extrema. Por que os países amazônicos não juntam as duas coisas? Os brasileiros estão, subitamente, a perceber a "sua" Amazônia em perigo. A classe artística lança campanha S.O.S. Amazônia. Oxalá este despertar da sociedade brasileira ecoe imediatamente nos mais países amazônicos levando a todos a reanimar a OTCA no coração da integração sul-americana. A Amazonidade profunda ganhe o mundo inteiro, conquistando primeiro o Brasil ao encontro de seu futuro. As populações tradicionais amazônicas, longe de ser entrave ao progresso nacional; são elas que ainda poderão sustentar o direito territorial dos países amazônicos deixando a margem da História para o centro das preocupações permanente do Estado-Nação.

Centros de Estudos Amazônicos nas principais universidades não deveriam se limitar a uns poucos especialistas, mas ganhar corações e mentes da sociedade através da extensão universitária. Amazonizar é preciso, desmatar não é legal.


quarta-feira, 16 de agosto de 2017

O tempo da vela de jupati: em busca da ancestralidade da arte naval.

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Joaquim José Codina. Tab. 1a. Original Aquarela. Barcelos, 1787, in Viagem Filosófica. Iconografia. Antropologia e Geografia, Rio de Janeiro, Conselho Federal de Cultura, 1971 número 36, vol. 1 - CAIANA  

Revista 
de Historia del Arte y Cultura Visual 
del Centro Argentino 
de Investigadores de Arte




"Nesta arqueologia poética, a carpintaria naval transformadora da primitiva ubá em igarité e a mutação colonial do apagamento de aldeias para dar lugar a vilas portuguesas como esta Bragança mestiçada ao sol do equador na “zona tórrida” das Antípodas, sem jamais perder o norte da utopia brasílica: pensamento descolonial, expressado por José Ubiratan dentre outros amazônidas insubmissos aos ditames de Pombal e sucessores, nos mostra que lugar de índio na Amazônia é na história. Por aí, a par do negro acorrentado à mesma história e de pobres casais povoadores do ultramar, somos todos descendentes dessa gente pelo empoderamento permanente do território do Norte brasileiro." -- José Varella Pereira, "Tributo a Ubiratan Rosário" 



MINHA AVÓ SOPHIA

Na verdade tia, vovó Sophia adotou o irmão recém nascido que veio a ser meu pai caboco, batizado Rodolpho Antônio e o gêmeo Manuel natimorto sepultado como anjo no cemitério da vila de Ponta de Pedras; órfãos de mãe durante o parto de minha verdadeira avó paterna: a índia Antônia Silva, nativa da aldeia da Mangabeira, em Ponta de Pedras, na ilha do Marajó. Naquele tempo, quando alguém precisava viajar para fora da ilha fazia ladainha e promessa à Nossa Senhora do Tempo: despediam-se dos parentes de casa em casa, pois podiam não retornar devido os perigos das águas e terras a percorrer na jornada.

Sophia era filha mais velha do casal, para criar o irmão caçula ela e tia Lodica ficaram solteironas. Às vezes, aquelas duas pareciam ser a mesma alma em duas pessoas diferentes. Lembro minha avozinha baixinha muito sisuda, por necessidade e acaso ela ficou sendo chefe da família e herdeira principal do chalé de seu pai viúvo capitão Alfredo Nascimento Pereira, um terrenão e tanto no centro da vila, todo plantado de árvores frutíferas e ervas medicinais de variadas espécies e utilidades. No fundo do quintal havia um covão que, durante as chuvas, se transformava em lagoa do meu pavor noturno com a cantoria dos sapos e ao amanhecer, levado pelas mãos carinhosas de vovó, terminava sendo encantamento do menino ao ver centenas de jias e rãs de todas cores e tamanhos. 

Vovó Sophia era a memória viva da família, filha de índia tapuia casada no católico com o professor primário da vila, meu avô. Este um, rábula afamado, provável descendente de cristãos-novos dentre casais dos Açores atraídos ao Maranhão e Grão-Pará, em priscas eras, com falsas promessas do paraíso na terra dos Tapuias (Tapuya tetama) conquistada pela brava nação Tupinambá sob a coroa de Portugal durante a União Ibérica (1580-1640). Vovó não sabia nada destas histórias estúrdias, mas foi a partir de suas lembranças que eu me fiz ao mar da aventura, levado pela curiosa vela de jupati e o navio encantado; a fim de saber quem inventou o mundo...

Segundo ela, sua mãe contava que a avó da avó lá dela quando se referia a tempo de grande antiguidade, usava sempre a expressão que rezava: "no tempo da vela de jupati"... A vela de jupati, pois, parecia ser marco temporal entre antiguidade e modernidade. Divisão técnica entre canoas igarités, caravelas e navio a vapor. Improviso da sobrevivência ribeirinha e a arte naval das grandes navegações. E lá estava a palma utilíssima das viagens, na beira do rio de minha infância bem debaixo do meu nariz, o precioso Jupati (Raphia taedigera), palmeira de várzea formando abundantes touceiras nas margens sob influência da maré. Como, então, os índios faziam vela de canoa com jupati? Eu não conseguia entender.

Ao ouvir minha avó repetir, tantas vezes, aquela estória passada ao longo de gerações, eu embarcava na canoa da imaginação levado a esmo pela vela de jupati. E não é que a Raphia taedigera viceja em toda faixa tropical do mundo? O jupati tem mil e uma utilidades para populações tradicionais ribeirinhas, desde a construção de paredes divisórias de rústicas barracas cobertas de palha de ubuçu (Manicaria saccifera) ou inajá (Attalea maripa), esteios de tucumanzeiro (Astrocarium vulgare) ou siriúba (Avicennia schaueriana), com assoalho feito de juçaras de açaizeiro (Euterpe oleracea) ou tábuas de paxiúba (Socratea exorrhiza); ao fabrico de paneiros, pari para pesca de tapagem de igarapé; cacuri (curral de peixe), matapi para pegar camarão... Ouvindo aquilo eu ficava imaginando como poderia ser uma vela de jupati para canoa. 


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Jupatizal na beira do rio: paisagem amazônica típica; palmeira encontrada em toda faixa tropical da América, África e Ásia.


Era assim, portanto, na história oral desta gente a vela de jupati uma preteridade enorme. Também puderá! Enquanto a invenção histórica da nossa Amazônia tem só 400 anos e a América grande chegou há pouco aos 500; nas terras baixas da velha Tapuya tetama cinco mil anos contemplam nossa geral ignorância das coisas nativas deste país. Dos quais, mil e seiscentos anos da Cultura Marajoara, dizem os arqueólogos, primeira cultura complexa das regiões amazônicas nascida diretamente do modo de pesca primitiva de gapuia! E se a gente se lembrar que a palafita é evolução natural do tapiri do paleo-índio aruaque sobre as ramas do mangal, que se transformou por necessidade e acaso em cabana do arteiro caboco ribeirinho?

A velha aldeia da Mangabeira sito à meia légua de distância acima da aldeia nativa dos arredios Guaianá agora extintos, na margem ocidental da baía do Marajó, há 330 anos foi criada pelos padres jesuítas com índios mansos trazidos de canoa à vela da aldeia Samaúma (Barcarena) para dar início à lavoura na primeira sesmaria que a missão da Companhia de Jesus teve na ilha do Marajó. Todo povoamento indígena das ilhas do Pará e Amazonas está ligado umbilicalmente às ilhas do mar do Caribe e às antigas navegações a remo e velas de jupati. 

Dizia a avó Sophia que a avó lá dela, em certa ocasião, viajou com parentes até a Cidade do Pará atravessando a baía em curicaca, isto é, canoa de pesca. Naquele tempo, na maré seca a gente saltava da canoa ao porto passando por cima de estiva de troncos de miritizeiro (Mauritia flexuosa). As ilhas do Marajó faziam parte da área cultural guianense, envolvendo a grande ilha das Guianas, que ia do Amazonas até a ilha de Trinidad atravessando do delta do Orinoco. A multidão aruaca desenhou na própria terra virgem o Circum Caribe ao sair do oco do mundo, no Rio Negro, em canuá (canoa, palavra Taino através do espanhol) a remo. Esta piroga, batizada com as águas do mar salgado, criou velas como as asas da borboleta-amarela (Phoebis philea philea) que os índios do Pará chamavam marapanim, e, às vezes, o vento leva para o largo da beira mar.

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vela do Mucuripe

Neste vasto mundo de águas grandes, dizia o padre Antonio Vieira que os homens andavam mais com braços e remos que com as próprias pernas: 

"... navegando-se sempre por entre árvores espessíssimas de uma e outra parte, por ruas, travessas e praças de água, que a natureza deixou descobertas e desempedidas do arvoredo. E posto que estes alagadiços sejam ordinários em toda aquela costa, vê-se este destroço e roubo, que os rios fizeram à terra, muito mais particularmente naquele vastíssimo Arquipélago do rio chamado Orelhana e agora das Amazonas..."  (História do Futuro, Padre Antonio Vieira, Lisboa 1718, Belém: SECULT, 1998, p. 301)

A supimpa invenção da vela pelos índios parece ter sido evolução da ubá ou canuá nativa, onde ocorreu corrente e ventos favoráveis com a sugestão de improvisar com ramagens de mangue o descanso dos braços e remos... Daí para a vela do jupati foi só um aperfeiçoamento. Depois, provavelmente, com fio de algodão e tear já por imitação das velas das igaras chegamos nós aos novos tempos das curicacas, vigilengas e igarités. Todavia, eu não conseguia entender como se faz a tal vela de jupati até, muitos anos depois, folhear um exemplar da Viagem Philosophica, do naturalista Alexandre Rodrigues Ferreira, e ver o desenho duma antiga igarité com a dita cuja (ilustração supra), pela pena fidedigna do desenhador Codina. 


Por outra parte de minha história de família, o casarão de meus avós maternos mais parecia um museu da navegação. Ali respirava-se ares de velha marinhagem. Pelo chão em desordem, âncoras, ferragens, moitões, cabos, enxárcias, o cheiro do zarcão dos calafetos espalhado na varanda há anos e anos desde a quebra da Borracha. E, na beira do rio, num estaleiro arruinado junto ao trapiche cambaleante sob o peso do tempo e das marés, jazia o sonho do imigrante de Pontevedra na construção falhada do barco veleiro "San Thiago".  

Histórias e fantasmas ultramarinos seguiam imigrantes na ilha do Marajó. Meus avós galegos moraram no rio Curral Panema, a uma maré de distância entre os rios Arari e Marajó-Açu. Vizinhos a eles uma comunidade afrodescendente e outra notavelmente açoriana completavam o ambiente cujos meios de comunicação eram canoas a remo e igarités à vela: a igarité se apresenta como evolução da canoa montaria, que no passado foi ubá e nós chamamos "casco", feito de um tronco de árvore escavado. Com duas falcas de lado a lado, o casco passa a ser montaria, por imitação talvez do cavalo ou boi de sela nos campos. 

Com certeza, a presença de brancos e negros naquelas paragens amazônicas precisou da navegação de navios veleiros de alto mar. A construção naval primitiva evoluiu lentamente. As primeiras evidências arqueológicas do uso de barcos remontam de há 50 a 60.000 anos, na Nova Guiné. No Antigo Egito já conheciam técnicas de uso de tábuas de madeira para formar o casco das embarcações. No velho Portugal, no século XV, mudavam o termo medieval de "Tercenas" para Ribeira das Naus, abreviado para Ribeira, onde faziam estaleiros... Tão importantes estas beiras de Belém Ocidental, que el-rei Dom Manuel, para estar mais perto do sonho do comércio das Índias, mandou fazer seu palácio às ilhargas, o Paço da Ribeira. E em Belém do Grão-Pará também, não distante do Palácio do Governo, houve a Casa das Canoas que hoje é um dos mais importantes patrimônios invisíveis da Amazônia. 


segunda-feira, 14 de agosto de 2017

ECOTURISMO LITERÁRIO EM CACHOEIRA: economia solidária com a cara e a coragem marajoara.

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foto histórica do chalé batido de vento e chuva sobre águas do dilúvio amazônico, no qual Dalcídio Jurandir viveu a infância: transfigurado nas lembranças de Alfredo como a casa do major Alberto e sua mulher dona Amélia, em Cachoeira, no romance Chove nos campos de Cachoeira e os mais da série Extremo Norte.




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O amigo leitor deve saber que Plano Ver-O-Pará - Plano Estratégico de Turismo do Estado do Pará (2012-2020) contempla seis polos de atuação, com que pretende incentivar a "indústria sem chaminés" que mais se desenvolve no mundo: Amazônia Atlântica, Araguaia Tocantins, Belém Metrópole, Marajó, Tapajós e Xingu. Aqui este modesto blogueiro não abordará mais que alguns casos relativos às regiões ecoculturais do Marajó e Salgado, comparando as áreas de proteção ambiental Algodoal-Maiandeua e do Arquipélago do Marajó, com ênfase em Cachoeira do Arari. 

No polo Amazônia Atlântica, o município turístico prioritário para a Secretaria de Estado de Turismo (SETUR) é o município de Salinópolis, onde tradicionalmente a camada social mais privilegiada do estado o elegeu como centro de veraneio e férias preferido. Esta vantagem relativa, entretanto, apresenta sérios problemas de meio ambiente e conflito social entre população nativa e veranistas. Uma situação recorrente em quase todos municípios de veraneio e que, na Europa, chegou ao ponto de ruptura com manifestações hostis e ataques frontais a estabelecimentos turísticos. 

Consequentemente, boa parcela de visitantes da velha e pacata Salinas de outrora, começa a buscar novas opções no Salgado em direção a Ajuruteua em Bragança, Algodoal em Maracanã, Marudá em Marapanim e recantos mais tranquilos e preservados de Salinópolis mesmo. A evidente deterioração do turismo massivo de praia lança alerta para que se desconcentrem empreendimentos e preservem lugares de interesse ambiental, paisagístico ou turístico antes que seja tarde e a galinha dos ovos de ouro esteja miseravelmente morta.

Se o ecoturismo literário não existisse seria preciso inventá-lo. Sobretudo, para efetuar da melhor maneira inclusão socioambiental da Criaturada grande de Dalcídio à Agenda 2030 dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS), que segundo a ONU não deixará ninguém para trás. Então, se por infelicidade geral, o Plano Ver-O-Pará falhar em seus principais objetivos, mas ainda assim no Polo Marajó houver preparado e mobilizado as mais de 500 comunidades locais da região levando-as a participar, direta ou indiretamente, do processo do ecoturismo, já poderíamos comemorar o sucesso do turismo como instrumento econômico inovador para superar a extrema pobreza. Mesmo que, por hipótese, nunca apareça um só turista naqueles recantos. Pois o Marajó tem potencial para transformar-se, rapidamente, na Costa Rica paraense em matéria de ecoturismo de base na comunidade local. 

É disto que aqui se trata, interessando a todos mais polos turísticos do Pará e a prova mais patente dessa transformação se encontra certamente na Área de Proteção Ambiental Algodoal-Maiandeua, no município de Maracanã, uma unidade de conservação de uso sustentável, conforme a Lei Estadual n°. 5.621/90 de 27 de novembro de 1990. na APA. Antiga vila de pescadores como tantas outras, todavia graças ao ecoturismo se tornou um "point" nacional e internacional de referência do desenvolvimento socioambiental sustentável interessando diretamente aos municípios de Maracanã e Marapanim envolvendo a rede de reservas extrativistas marinhas e outras unidades de conservação no Pará. O empreendedorismo familiar da população nativa não se fez de rogada acompanhando investimentos públicos e privados, hoje parte expressiva de moradores reformou a própria residência com acréscimo de anexo servindo de pousada de modo integrados aos hotéis, bares e restaurantes da ilha. Velhos pescadores com a melhoria de renda familiar só voltam ao mar por lazer e não mais por necessidade. A comunidade local está madura para ousar num passo adiante dentro do mesmo processo do desenvolvimento sustentável. Mas, a decana APA Marajó engatinha em busca de sua "vocação econômica" ao tomar decisões para o desenvolvimento e melhoria das condições de vida da gente marajoara. 

Em geral, a mídia regional mostra-se hostil à existência de unidades de conservação no Para sob o argumento equivocado de que proteção ambiental "engessa o progresso"... Todavia, o Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC), longe de prejudicar ele incentiva o desenvolvimento econômico e social, com exemplos de Fernando de Noronha e do Pantanal, este último fazendo parte da rede brasileira de reservas da biosfera (biomas da Mata Atlântica, Cerrado, Caatinga, Serra do Espinhaço e Amazônia Central), onde se espera presença do Arquipélago do Marajó e da Amazônia Atlântica a fim de completar a proteção a todos biomas brasileiros - de acordo com entendimento preliminar sobre o projeto da Reserva da Biosfera Marajó-Amazônia -, pendente de providências técnicas para finalizar candidatura à UNESCO pelo governo estadual do Pará. 

Na verdade, a respeito da Reserva da Biosfera Marajó-Amazônia perdemos oportunidade e na atual conjuntura pesa um mortal pessimismo que, todavia, poderia ser superado se lideranças das comunidades despertarem para oportunidades do Acordo de Paris sobre Mudança Climática e a Agenda 2030 dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) coordenados pela ONU.

Produto turístico não se exporta feito soja, carne, banana, madeira ou minério. Porém, do mesmo modo das commodities, o turismo ao mesmo tempo gasta com turistas brasileiros no exterior traz divisas com turistas estrangeiros no país gerando renda e empregos nos municípios turísticos de maneira mais interessante que outra qualquer atividade econômica exportadora. O que importa no negócio do turismo é chamar o consumidor a vir com seu cartão de crédito ou moeda forte contribuir ao desenvolvimento sócio-econômico local. Então, já podemos compreender que o turismo é uma arma de dois gumes, podendo ser redenção ou praga dos municípios. 

Em troca de hospitalidade (palavra-chave do sucesso do negócio turístico), o visitante nacional ou estrangeiro quer mudar de ares, provar comidas diferentes, ver novas paisagens, conhecer pessoas e costumes interessantes... Já dizia Rousseau que a educação são as viagens. No turismo há gosto para tudo, como também há turista para todos gostos. Enfim, se é verdade que o melhor lugar para o turista é aquele que também é bom para as pessoas que ali vivem, então não poderá prosperar o negócio que leva males e exclusão às populações locais. Ao contrário, o atrativo turístico inteligente convida o turista inteligente a vir conhecer e aprender com a comunidade visitada. Este é negócio que ainda terá futuro numa civilização ora em declínio.


A vocação econômica do Marajó

Desde 1989, a Área de Proteção Ambiental do Arquipélago do Marajó (APA Marajó) não consegue tomar pé. Entretanto, esta unidade estadual de conservação ambiental tem potencial para integrar mosaico de áreas protegidas da mesorregião Marajó, em conjunto com unidades federais e municipais. De modo, a conferir destaque á candidatura oficial, reclamada desde 2003, da Reserva da Biosfera Marajó-Amazônia ao programa Homem e Biosfera (MaB), da UNESCO. Esperança de que a modalidade internacional de conservação resulte em melhoria da qualidade de vida da Criaturada grande de Dalcídio, conforme reza a Constituição do Estado do Pará, em seu Parágrafo 2º, VI, do Artigo 13 -- O arquipélago do Marajó é considerado área de proteção ambiental do Pará, devendo o Estado levar em consideração a vocação econômica da região, ao tomar decisões com vista ao seu desenvolvimento e melhoria das condições de vida da gente marajoara.

Nos anos 70, a pedido do governo estadual a Organização de Estados Americanos (OEA) formou equipe de especialistas para elaborar diagnóstico do potencial econômico do Marajó. Sobre o turismo não se tinham mais que uma leve impressão no pensamento econômico da época ainda excessivamente conservador influenciado pela colonização do chamada "celeiro do mundo". O que menos interessava no Marajó era a arqueologia vista apenas como curiosidade. Embora, escavações de sítios arqueológicos tivessem revelado ao Brasil e ao mundo maravilhas artísticas da milenar cerâmica marajoara. 

Do ponto de vista da gente marajoara, o padre Gallo (Turim, 1927 - Belém do Pará, 2003) sozinho nadando contra a correnteza fez mais pela cultura marajoara que qualquer prefeitura, representante do povo na Assembleia Legislativa, Câmara dos Deputado e Senado, Governos estadual e federal ou a UNESCO. Mais da metade da gente marajoara é analfabeta e o IDH dos municípios assusta pela pobreza da Criaturada, portanto esta gente embora seja o principal objetivo da literatura dalcidiana - de interesse antropológico e sociológico, diga-se de passagem -, não consegue ler a obra Cultura Marajoara, de autoria da arqueóloga Denise Schaan, que deveria ser indispensável a cada prefeito ou outra qualquer autoridade tendo dever político com relação ao Marajó.

Enquanto ditaduras militares grassavam na América Latina, Brasil inclusive; na França republicana no vetusto Museu do Louvre um pequeno número de museólogos dentre eles Hugues de Varine dava senhas à revolução mundial de ecomuseus e museu comunitários. No mesmo tempo, a Academia Brasileira de Letras (ABL) concedia o Prêmio Machado de Assis (1972) a Dalcídio e na longínqua e isolada Santa Cruz do Arari o padre Giovanni Gallo inventava o primeiro ecomuseu do Brasil, O Nosso Museu de Santa Cruz do Arari (1973-1981), que deu origem a O Nosso Museu do Marajó. Eu tenho impressão de que se fizermos uma enquete sobre o conhecimento de professores e alunos universitários sobre este assunto o resultado será decepcionante... Mas, a maior esperança de mudança de mentalidade da sociedade são os professores e estudantes. Os maiores aliados do desenvolvimento local sustentável que pode desejar.

Estes fatos interligados à memória da antiga vila de Cachoeira do rio Arari: a literatura de Dalcídio Jurandir, a partir de Chove nos Campos de Cachoeira e Marajó, escritos em Salvaterra; e a ecomuseologia criativa de Giovanni Gallo são as duas faces da mesma moeda, na qual o homem marajoara é o centro. Daí se evidencia o potencial turístico donde não falta história oral, realismo mágico com contadores de causos supimpas, fabulistas fora de série, artistas porretas, poetas mil, escritores extraordinários e ecocultura nativa que a mãe natureza esmerou-se ao criar bichos, plantas e gentes. Só falta despertar a povo a recuperar a memória perdida a fim de prevenir os mais graves desvios do progresso predador de paisagens e de povos nativos em todo mundo. 

A gente precisa aprender a "vender" paisagem com inteligência de quem faz arquelogia da rota do sol. Saber mostrar aos viajantes do mundo onde mora o Araquiçaua ("lugar onde o sol ata rede de dormir", do nheengatu ara (dia), ky (rede) e xawa, sítio). Maís de mil anos de civilização no delta-estuário do maior rio do mundo, lugar mítico que se acha dentro da boca do Arari - "rio das araras", de ara (arara) e ari (rio) em línguas aruaques -, a cada por do sol no fim da jornada de pesca, veneravelmente contemplado por pajés-açus iniciados na saga dos Tupinambás segundo mistérios da pajelança do Jurupari, desde as remotas praias do Salgado. 

Lugar mítico falado principalmente ao longo da costa marítima nas confabulações das antigas migrações do Maranhão ao Pará, através de trinta e tantas baías até o Furo da Mocoóca ("casa escondida", em nheengatu), varando de Maracanã a Marapanim, famosa "casa dos homens" na cultura tupi-guarani. Onde os índios guardavam objetos sagrados e praticavam cerimônias secretas do rito de Jurupari, proibidas à curiosidade das mulheres e de estranhos. Naturalmente, o hoje obscuro Araquiçaua na ilha do Marajó, em épocas recuadas quando português nem espanhol, holandês, francês ou inglês não haviam ainda pisados estas paragens; de longe no horizonte atraiu buscadores andejos da utópica Yby marãey ("terra sem mal") - paraíso terreno, onde não há fome, trabalho escravo, doença, velhice e morte -, era o Sol (Guaraci, "mãe dos viventes) a guiar a Criaturada na terra dos tapuias ("Tapuya tetama"). Embora esquecida a "terra sem males" pode aflorar do inconsciente coletivo, de diversos modos, pelas artes, pelas religiões populares e outras manifestações da gente em busca de melhores condições de vida.

Não sem assim, antigamente, o pau chichou entre falantes da "língua ruim" (nheengaíba) e abaetés (gente de verdade), falantes da "boa língua" (nheengatu). E quando os brancos chegaram com suas grandes igaras e paus de fogo, suplantando a vela de jupati, flechas envenenadas de curare e tacape, deram-se mais de quarenta anos de guerra, inclusive para expulsar holandeses e ingleses entre 1623 e 1647; até o payaçu Antônio Vieira aparecer por estas bandas a levar paz às aldeias de ambas margens do Para-Uaçu (Grão-Pará, grande mar de água doce). Pela primeira vez, por acaso, inimigos hereditários tupis e aruaques estiveram juntos sem discórdia na mesma missa: no dia histórico de 27 de agosto do ano de 1659, igreja do Santo Cristo do rio dos Mapuá (hoje a Reserva Extrativista Florestal Mapuá, no município de Breves). Sem esta pax marajoara, diz Vieira, o Pará seria de qualquer potência colonial que se unisse aos "nheengaíbas"...

A realidade histórica demonstra, todavia, que aquelas pazes do Marajó foram precárias. Só no século seguinte, com a vinda de escravos africanos através de São Luís do Maranhão, puderam os colonizadores refrear a fuga de "negros da terra" (escravos indígenas) de volta ao mato donde haviam sido capturados, mediante incentivos para o índio e a "negra da Guiné" (escrava africana) formar casal. Desta maneira, o "rabo de saia" e os filhos cafuzos prendiam à senzala o índio indispensável. Se bem que, em certas oportunidades, este mesmo índio cativo irredutível abriu as portas da escravidão guiando e mostrando a irmãos negros o caminho dos mocambos e da liberdade, como ensina Flávio Gomes dos Santos na obra fundamental A hidra e os pântanos.

Todavia, colonos do Pará famintos de trabalho escravo de "negros da terra", para ficar mais à vontade nas suas costumeiras violências, expulsaram o padre grande dos índios com seus confrades jesuítas, no ano de 1661, Vieira seguiu a Portugal para ser preso e condenado por heresia pelo tribunal da Inquisição, enquanto no paço El-Rei dom Afonso VI, em 1665, doou a ilha dos Nheengaíbas a seu secretário de estado dom Antônio de Sousa de Macedo, como capitania hereditária da Ilha Grande de Joanes.

Porém, os ditos nheengaíbas, resistindo como puderam, não cederam espaço aos sesmeiros do donatário até o primeiro curral de gado do carpinteiro português Francisco Rodrigues Pereira, em 1680 no rio Arari, vencendo o medo que os brancos tinham da má fama dos índios aruãs e anajás bravios, negros quilombolas e desertores que viviam pelos centros desconhecidos da ilha do Marajó. Mais ou menos pelo mesmo ano, os índios Iona (aportuguesados como Joanes) ou sacacas acossados pelos belicosos Aruãs (cf. relato do sargento-mor de milícia da vila de Monforte, índio sacaca Severino dos Santos, a Alexandre Rodrigues Ferreira em "Notícia Histórica da Ilha Grande de Joanes, ou Marajó" (1783), buscaram ajuda dos portugueses do Pará para enfrentar seus antigos inimigos, que antigamente os haviam empurrado dos centros da ilha para a costa-fronteira do Pará. Com sorte, pela derradeira vez que os Aruãs desceram o igarapé Jubim para atacar os Joanes estes se anteciparam com seus novos amigos vindos do Pará com armas de fogo. O inimigo fugiu em debandada a se esconder no igarapé Água Boa, onde os alcançaram portugueses e ionas que deram fim àqueles aruãs bravios. E nunca mais voltaram... 

No dia 20 de novembro de 1756 - atualmente Dia Nacional da Consciência Negra e que deveria coincidir com Dia Nacional da Cultura Marajoara, caso a gente derrotasse a colonialidade que impera em nossa sociedade -, segundo o sábio de Coimbra, Alexandre Rodrigues Ferreira, na "Notícia Histórica" (1783), o fundador da vila da Cachoeira do rio Arari e inspetor oficial da ilha do Marajó, capitão Florentino da Silveira Frade achou o primeiro teso (sítio arqueológico) que se tem notícia na crônica colonial do estado do Grão-Pará e Maranhão (1751-1823). Era o teso do Pacoval do rio Arari, o mais espoliado de todos sítios arqueológicos desde o governo do Barão de Marajó na Província do Pará (cf. a obra clássica As Regiões Amazônicas, deste autor): ironia da história, localizado no Igarapé do Severino confronte à vila do Jenipapo; donde provavelmente o caboco Vadiquinho, amigo do padre Gallo, coletou "cacos de índio" para provocar o padre que gostava de "coisas que não prestam"... Nasceu assim o primeiro ecomuseu que se tem notícia por estas paragens deixadas entre chuvas e esquecimentos.

O chalé de Alfredo sobrevive no romance dalcidiano e na memória de milhares de leitores da obra, no Brasil e no exterior. Não importa se na realidade a velha casa do capitão Alfredo Nascimento Pereira, secretário da intendência ao tempo do coronel Bento de Miranda Lobato, foi ao chão sob o peso dos invernos ao longo de mais de cem anos de existência. Pela magia do caroço de tucumã nas mãos do menino Alfredo o chalé está a salvo do dilúvio e do esquecimento, os olhos de Eutanazio vagam com os pirilampos na noite dos campos e o mito da primeira noite do mundo está preservado com os bichos, os habitantes do mundo e os encantados. A cristurada grande de Dalcídio apesar da pobreza e da dura luta pela sobrevivência se reconhece no "índio sutil" e com ele se empodera da terra ancestral de seus antepassados.  

Sabe-se o quanto rico é o potencial turístico da Amazônia paraense. Entretanto, transformar esse diamante bruto em produto é que são elas... Não se faz produto turístico por decreto nem porque um famoso estudioso quer. Será preciso integrar recursos públicos e privados de diferentes níveis, começando preliminarmente com que as pessoas que vivem no lugar a ser visitado recepcionem os autores visados e suas obras de modo a revelar o patrimônio invisível aos olhos dos próprios moradores. 

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Se este primeiro passo acontecer de fato, será catalisador da hospitalidade da comunidade. Com a melhoria da hospitalidade a qualidade de vida da cidade e do meio rural já experimenta mudança em relação à qualidade de vida local. Sem necessidade de propaganda a população percebe, então, que algo está em movimento no sentido de uma busca coletiva de conhecimento sobre a história social, a natureza e os costumes do lugar. Um novo olhar sobre crianças portadoras do futuro e velhos senhores da memória, o papel das mulheres educadoras da casa e dos jovens através de uma educação patrimonial valorizada e continuada.  A escola da infância passa a ser vista pela comunidade como viveiro das sementes do futuro. 


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Aí estará plantada a boa esperança de renda municipal justa e empregos de qualidade. Nós falamos muito em "desenvolvimento sustentável" e muitas vezes não nos damos conta de que sem o desenvolvimento humano local a economia não pode prosperar. Muitas vezes, no caso de Cachoeira do Arari, nos esquecemos da história da fábrica OLEICA (Oleoginosas de Cachoeira do Arari), suas expectativas de riqueza e geração de emprego, inconsistências sócio-econômicas e a inevitável falência. Até que, inviabilizada a manutenção da empresa foi sucedida com vantagem para o povo cachoeirense pelo Museu do Marajó 

O ícone Alfredo, sem dúvida, principal personagem de nove dos onze romances de Dalcídio Jurandir premiado pela Academia Brasileira de Letras com o Prêmio Machado de Assis de 1972 - único até hoje para romancista da Amazônia -, pelo conjunto da obra, é o maior atrativo de Cachoeira do Arari. Porém, Cachoeira possui outros autores e valores culturais para produtos turísticos que seriam promovidos mediante destaque da obra mais conhecida nacional e internacionalmente. 




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Rodovia Dalcídio Jurandir (PA-154) integrando Cachoeira do Arari, Salvaterra, Soure e Santa Cruz do Arari. Conexão rodo-hidroviária com Belém através do porto Foz do Camará ou, futuramente, por Ponta de Pedras - Vila de Mangabeira, quando se concluir o projeto turístico da Rota do Sol Marajoara sobre a antiga Costa-Fronteira do Pará.