segunda-feira, 7 de maio de 2018

Cantares cabocos: columba galega.

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pomba-galega (Patagioenas cayennensis), foto Claudio Cesar 
[Wiki Aves - A Enciclopédia das Aves do Brasil]: uma alegoria amazônida.





J17J3019
María Rosalía Rita de Castro 
(Santiago de Compostela, 1837 - Padrón, 1885).


Eu vou para casa em Nacín, 
vou para uma aldeia que conheço 
para um mundo que não vem! 
Deixo amigos para estranhos, 
deixo a veiga polo mar, 
deixo, enfim, chant ben quero ... 
Quen pudera não deixar! ...


"Cantares Gallegos", Rosalía de Castro.
Vou além mar levar lembranças da terra minha
Meu sangue cabano herança de meu pai caboco
a caminho do antigo porto Gal leva-me a força ancestral
Tontas guerras na terra enquanto a columba 
canta paz galega longe plange a lira ao fundo da Floresta
na hora da sesta eu corrupio pelos caminhos do mundo.

Numa ilha-canoa jita parto dos confins do Fim do Mundo 
porto mágico do navio encantado onde mora a cobragrande.
Certas noites a ilinha transforma-se e zarpa a pleno vapor
vai todo iluminado até alto mar viajar pelo reino da Boiuna 
levando carga pesada do viver da criaturada grande
fado antigo das tribos perdidas do cativeiro da Babilônia.

Quero levar aos parentes que meu avô deixou na Galiza
notícias do Itaguari onde o rio Marajó tece o labirinto insular
e onde dei primeiros passos de descobrimento do mundo,
mamei feliz o leite farto de minha mãe galega tão bela
e vi a primeira vez seus lindos olhos azuis da cor do mar
sitio ideal onde índios, pretos e brancos eran como írmans. 

Quando pirralho rabiscava eu sem erro círculo perfeito
Depois de saber escrever nem a compasso fiz outro igual
Quando a gente cresce paresque a magia desaparece
Por isto talvez tantos viajantes buscam o paraíso perdido.
Deixarei lá minha coroa de espinhos aos pés de Santiago
a par da memória dos negros da terra e da mina da Guiné.

A Rosalía de Castro levo Arte Marajoara primeva 
não olvidarei Rosalía de Quito quem me disse do perigo
de herexia galego-marajoara: vinho da ira tinto de açaí 
tal qual a questão do Santo Graal! Bem que tio Dal trouxe
de Salvaterra de Magos o romanço pra Salvaterra sakaka
concluindo por este fado ser a Criaturada cidadã do mundo. 

Se eu me chamasse Raymundo que nem meu bisavô
cristão-novo e voluntário da Pátria seria eu o tal!
Mea bisavó Micaela era filha do reino das Astúrias, ela
Aburrida de tanta guerra insana expatriou seu filho Celestino
quaxe ninho ele virou Francisco no Pará em busca de paz 
àquela família tão cansada de servir de bucha de canhão.

Mea bisavó escreveu a um primo do finado marido dela,
meu bisavô galego Pero Pérez Rincón; recomendando 
Celestino Pérez Varela a Pedro Pérez de Castro. 
Masporém havia no destino mais de um deste nome 
e o já Francisco não conseguiu encontrar o parente.
Aí ele foi faxineiro no Hotel América pra ganhar o pão.

Deixa estar que não foi fácil achar o primo Pedro Castro
Francisco ou Celestino nunca pensou ser moço de hotel
Antão ele arranjou serviço de condutor de carro
de passaxeiro puxado a burros, foi como zinho conseguiu
granjear a vida até ter notícia certa do parente
que estava bem assentado coa fazenda na isla do Marajó.

Aí de mim: só sei que foi assim! Sem tal eu não contava
história enquanto a pomba-galega canta no arrebol: 
a prima Maroca foi mea avó, diz-que amor à primeira vista
quando Maria Joana e o primo Francisco, aliás Celestino
encontram-se no Fé em Deus sítio do Baixo Arari
logo eles se casaram e ganharam terras do Serrame.

Pequena sorte de terra de meia légua de fundos
por um quarto de frente, divisa de Terras Caídas 
pelo igarapé Bacurituba e pelo rio dos Patos com o Assapé.
Para o novo casal aquilo era um mundão, masporém
no Serrame havia só um chiqueiro de carneiros abandonado:
o pouco com Deus é muito, ditava meu avô Chico Varela.

Cuando sinhá moça; reza a lenda Maroca amava
acompanhar escravos e escravas de seus pais
à lida da pesca e da roça: diz-que ela burlava zelos do pai
para ir dar uma mão àquela boa gente no mutirão
ela os tratava por tios e primos, o lado negro da família.
O branco morreu de queda a entaniçar tabaco c'os pretos.

Na história familiar diz-que Pedro Castro era bom senhor. 
Tenho cá meas dúvidas, com a Lei Áurea libertos ficaram
como dantes, uma parte quis acompanhar a branca Maroca
e sô Chico Varela ao Serrame: que virou seringal, taverna
padaria e estaleiro do fantástico veleiro "San Tiago"
que xamás navegou con o dono até virar canoa "Africana".

A pequeña Galícia do Curralpanema sofreu sua tragédia
no rabo da queda do preço da borracha: sô Chico Varela
cuidava de seu reino e não botou mais os pés na cidade.
Apenas Amâncio piloto da canoa "Aracy" fazia a travessia
entre a ilha grande e o Ver O Peso na capital da província
antão a casa aviadora Antônio Silva abriu falência.

Uma carta chegou pelo portador de sempre, dizendo
que o negócio acabou e meu avô restou credor
de não sei quantos contos de réis, quantia avultada
para um camponês imigrante que apesar da sorte
viveu sempre como Deus queria, ciumento de suas cinco
filhas e da mata virxem da qual só deixava tirar seringa.

Foi esta a derradeira vez que Francisco embarcou na vida
pra ir a cidade: voltou com a arca de cedro vermelho
com tampo de pedra mármore, gaveta com campaínha
de alarme onde guardar dinheiro, papéis, documentos
e o dicionário galego-português que eu achei unha vez
quanto tudo já era unha única ruína ferida de morte.
Quando Maroca morreu depois duma súbita moléstia
sô Chico Varela ficou triste que só papagaio moleiro
quando perde a curica companheira, se tornou mouco
e envelheceu da noite pro dia, as filhas casaram
e foram viver na cidade, só Hermengarda, a mais nova
ficou a seu lado até ele morrer e o filho foi ser operário.

Na Galiza contarei quando jito mea mãe me queria obrigar
a beixar os pés do Senhor Morto que jaz embaixo ao altar
da Virxem da Concepção na igrexa de Ponta de Pedras
que nem o corpo frio de meu avô trazido rio abaixo
em canoa a remos pra o enterrar na vila que nem vila era
torrão Boullosa, antão direi da Vilarana na diáspora galiza.

Encantada nas ramas do Paricatuba a pomba Rosalía canta
Esconde o fado tropical na mata virgem do Curralpanema
Eu caçador de mim sem pena de pomba gira e passarinho
Matava tempo nos confins da Bocaina, lá no Serrame
Onde meu avô exilado penava as suas penas
Distante da Galícia relembrando a velha Pontevedra
Caminhando a pé de Soutomaior a Santiago de Compostela.

Rosalía triste cantava suas magoas. Ah, como eu era cego! 
Não nego, ouvi a paloma arrulhar mas não vi sinais do Mar
sem maldades nem cobiça da Terra sem males
Causos díspares de sô Benedito Santiago Frangalho
bom vizinho da Meia Noite, senhor preto mui considerado
dono da canoa "Oliveirazinha" que eu desejava pilotar.

Atravessando a baia a bordo da igarité "Oliveirazinha"
céu sem lua, Cobra Norato paresque mundiou sô Frangalho
que passou o leme a seu filho Manezinho
Manezinho morto de sono, me confiou o rumo e destino
da embarcação. Eu, cá comigo: eita! É hoje!
Que nem ao tempo da igarité "Aracy", tio Cici contava.

O amigo e a amiga podem não me acreditar
Alegria sem parelha dum piloto novo no curso do rio-mar
Enquanto a columba soluçava entre copas do meu coração:
Vento terral sopra pela fresta da nuvem morena na lua nova:
eu era leme e a canoa se tornou barco veleiro "San Thiago"
Encantamento mágico da Princesa a navegar rios de sonho.

Me lembrou a igarité "Aracy" a topar com o navio encantado todo iluminado a horas mortas na baía do Marajó escura 
que nem um breu na primeira noite do mundo, tio Cici viu 
e ouviu música e baile de fantasmas da Belle Époque
eu agora no barco avoengo vou embora pra Vigo
na vieira de meu avô quando Rosalía trila seus cantares.

O vento ponteiro e as ondas do Amazonas meia maré
Vazante empurravam a pequena igarité a risco de abarroar
O navio resplandecente sirenes ao alto zoando por riba
da ponta de pedras. Cruz credo! gritou Amâncio pegado
ao leme e a tripulação com grito preso na garganta
viu a assombração sumir nas espumas e mistério do mar.

Eu deveria saber que a mistura fina de corpos e almas
Africana, indígena americana e galaico-portuguesa
Vem de antigas migrações e navegações do Mar-Oceano
Enquanto Rosalía canta a barca segue a sina de marear
Guiada pela estrela alfa da constelação da Columba
Então eu me arvoro a comandar a jangada de Saramago.

Oh, menino corrupio, não vês que o prodígio acaba?
Não deixa o galo acordar o sol antes da reponta da maré
Vai depressa, madruga, iça velas expressas pra Galícia
Escuta os cantares avoengos como sementes
De novas prosas e poesias. Sejas tu inesperada alvorada
Soutomaior a cabo da ria de Vigo está a pé do caminho 
português de Santiago.




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Altar principal da Catedral com o túmulo de Santiago abaixo
altar-mor da catedral de Santiago de Compostela com o túmulo do Apóstolo abaixo.


domingo, 22 de abril de 2018

UTOPIA IBERIANA: invenção do futuro a bordo da jangada de Saramago.

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O MAIOR CAPITAL PARA O FUTURO DO POVO BRASILEIRO É A BIODIVERSIDADE COM A DIVERSIDADE CULTURAL DAS REGIÕES DO BRASIL.


tributo a Paul Singer, 
Áustria, 1932 - Brasil, 2018. "pai" da economia solidária.

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Stefan Zweig e Lotte (Charlotte Altmann): 
refugiados do nazifascismo trouxeram fé no futuro do Brasil.




O FADO TROPICAL RESSIGNIFICADO.


Um poeta inglês do século XVII, chamado John Done (1572 - 1631), disse que nenhum homem é uma ilha. Óbvio. No entanto, apesar de tanto tempo esta simples realidade ainda não faz sentido para tanta gente. Ignorância da própria natureza e egoismo fazem a solidão em meio da multidão. O poeta acrescentou: "... a morte de qualquer homem me diminui, porque sou parte do gênero humano. E por isso não pergunte por quem os sinos dobram, eles dobram por vós". (Meditações VII). 

Os sinos anunciando a morte de Paul Singer dobraram por nós, brasileiros e cidadãos da Terra. Deixaram-nos menores como nação e como mundo civilizado. Todavia, nesta agonia o gigante adormecido poderá despertar e ressignificar o sonho solidário de Stefan Zweig, na crença de um país do futuro abençoado e bonito por natureza aberto à construção da paz em meio a um mundo de injustiça e violência. 

Mundo maravilhoso, o Brasil, um país do Futuro leva o leitor a Amazônia, onde no Museu Paraense descobre uma árvore que anda! O Caiuê, dendê-do-Pará (Elaeis oleifera). Não admira que Alfred Wallace, co-autor da teoria da evolução das espécies; tenha aqui aberto seus olhos para ver o que Darwin havia encontrado nas ilhas Galápagos e ele mesmo depois haveria de aprofundar em viagem a Indonésia: o vasto mundo de Drummond ficou devendo esta ao círculo equatorial.

Na vida, sem utopias e sonhos, a humanidade sofre, sem fim, o terror da dor e da morte. Então, por que neste longo estirão do rio de Heráclito, as esperanças do Brasil profundo não se confundem com as melhores expectativas do mundo que o português inventou? Malgrado o pesado fardo que os povos colonizados e os próprios colonizadores suportaram, entregues ao deus dará para maior glória de Deus e do poder divino dos reis de Portugal. Valeu a pena? Tudo vale a pena se a alma não é pequena, consola-se o poeta Fernando Pessoa no formidável poema Mar portuguez.

Não seremos felizes jamais pela sina colonial do celeiro do mundo. Masporém, sim pelo fato patente da fina mistura de diferentes culturas e corpos humanos naturalizados sob as estrelas do Cruzeiro do Sul. Comendo-se uns aos outros antropofagicamente, amorosamente, apaixonadamente como Pery. Aqui a real brasilidade da patuleia de diversas diásporas vai inventando sem descanso o quinto império ou reino sebastiano de Jesus Cristo consumado na Terra sem males. Onde a pluralidade cristã, hebraica, islâmica, budista, pagã, umbandista, hinduísta, encantarias mil, porra-nenhuma, etecetera e tal vai devagar e sempre fazendo o sonho acontecer. 

O brasileiro cordial não morreu, só que ele sofreu um surto de cólera na fila do SUS.

Cantando a paz da minha terra
Na toada sertaneja
Este sol, este luar
Estes rios e cachoeiras
Estas flores, este mar
Este mundo de palmeiras
Tudo isto é teu, ó meu Brasil
Deus foi quem te deu
Ele por certo é brasileiro
Brasileiro como eu.

Minha Terra, Waldemar Henrique.


HISTÓRIA PICARESCA DO REINADO BRAZILEIRO.

Esta é uma história picaresca do país do Carnaval. Brasil brasileiro, florão da América; no parentesco ideológico da conhecida Ópera do Malandro. O meu Brasil idolatrado não poderá morrer jamais: a morte de Stefan Zweig no paraíso de Petrópolis (1942) seguido pelo emblemático suicídio de Getúlio Vargas (1954) no palácio do Catete cercado pelas forças armadas que o queriam derrubar, não foram nem são, não; o fim do caminho. 

Muito pelo contrário, agora nos levam a uma nova estação. Os novos cabanos, farrapos, balaios, malês, todas as revoltas da Regência imperial, a Insurreição Pernambucana e Confederação do Equador convertem-se em solidariedade e não-violência global pelos soberanos Direitos Humanos do bravo povo brasileiro: o patriotismo desvairado se converte em emancipação das mulheres pela renovação solidária do matriarcalismo e refundação da liberdade, igualdade e fraternidade em toda Terra.

Somos todos filhos de Tiradentes, Ajuricaba, Zumbi dos Palmares. Já não se perderá tempo a escutar o remoto grito às margens placidas do riacho Ipiranga hoje poluído pela morte dos rios da Pauliceia Desvairada e as maquinações monarquistas de José Bonifácio: quando, em 1922, jovens oficiais nos quartéis deram brados retumbantes contra a farsa da república velha café com leite e os moços da Semana de Arte Moderna proclamaram a independência do Brasil moderno prestes à Marcha da coluna Prestes 25 mil quilômetros sertão adentro prenunciando a revolução de 1930.

Agora, além da radiodifusão e da televisão, Rolando Boldrin faz coro com o cavaleiro andante brasileiro Ariano Suassuna e conquista o mundo inteiro através da internet no cenário cultural brasileiro: a vez e a hora do artista popular que se formou debaixo da pirâmide social até se tornar intelectual orgânico.

Que nem Tom Zé, Luiz Gonzaga, Tonico e Tinoco, Inezita, Dominguinhos, Gonzaguinha e tantos outros mais. Isto aqui do Senhor Brasil conquistar a inteligência coletiva não é profecia, masporém uma simples constatação. A maior oportunidade da mais profunda brasilidade, através da música popular; mostrar a cara do Jeca no concerto das nações.

Ariano morreu como ele viveu, arredio a grandes acontecimentos midiáticos e imune aos palcos iluminados da invasão cultural. Sua chegada no céu segundo Boldrin vale uma missa com Libera Me. Ele deixou herdeiro presuntivo em seu personagem Chicó, parceiro mentiroso nato do quengo João Grilo; que nem Cervantes sobrevive em Dom Quixote e Sancho Pança: um lado ideal e outro picaresco do genial 'manco de Lepanto'. 

A diferença entre o pobre sapateiro descendente italiano de São Joaquim da Barra e o nobre sertanejo de Taperoá é que o primeiro representa o imigrante carcamano que, na escola da vida, se torna mestre proeminente. Como na história exemplar de José do Egito, vendido como escravo por seus irmãos e ainda assim virou ministro de economia do faraó. Aqui vem ter a incrível história do café furtado pelo sargento-mor Palheta no encalço do cacique bandoleiro Guamá na Guiana francesa, para florescer paresque nas roças do Pará e que acabou por fazer fortuna com mão de obra escrava e de imigrantes pobres nos cafezais dos barões paulistas.

Ariano é outra história, Cavaleiro armorial que leva água por curso diferente, masporém move o mesmo moinho do senhor Brasil. Vem de antiga aristocracia dos sertões, filho do governador da Paraíba: todavia, à custa de uma tragédia familiar, envolvendo o assassinato de João Pessoa e a vigança subsequente que ceifou a vida de seu pai; acaba por descobrir as raízes medievais ibéricas com todas suas tragédias fincadas no chão do Nordeste com a pedra do reino sebastiano. O fado tropical...

Tudo isto não é real e maravilhoso ao mesmo tempo? Por este antigo fado, os patriarcas Suassunas naturalizaram-se paraíbanos e pernambucanos. De jeito e maneira, que Ariano deixa de ser ariano e gostaria mais de ser chamado de Pedro, como seu pai queria. Pedro Suassuna encantado pelo circo mambembe oculto em seu coração, certamente, deu alma pura brasileira ao teatrólogo, escritor e professor Ariano Suassuna: homem da nata social como Chico Buarque de Holanda, que despe fantasias da elite caricata e burlesca educada pelo catecismo imperial de Von Martius e passa a assumir o país real que Machado de Assis, Érico Veríssimo, Gonçalves Dias, José de Alencar, Lima Barreto, Catulo da Paixão Cearense e tantos outros exaltaram.

O paralelo entre Ariano Suassuna e Rolando Boldrin me faz comparar o caso singular destes dois memoráveis judeus asquenazis tão importantes da história do Brasil multicultural: Stefan Zweig e Paul Singer. Este brasileiro adotivo, refugiado do nazismo com sua família pobre; me parece a concretude do sonho de Zweig; culto e famoso que tendo ele cidadania inglesa e possibilidade de radicar-se nos Estados Unidos optou calorosamente pelo gigante da América do Sul. 

O suicídio calmo e sereno do casal Stefan e Lote em Petrópolis vale por uma metáfora da morte da civilização ocidental, tal qual na civilizada Paris Paul Lafargue e Laura Marx foram juntos ao cinema, voltaram a casa sem angústia ou depressão estampada cumprimentando conhecidos no caminho, entraram; deram boa noite ao porteiro. E disseram adeus à vida. Lafargue deixou uma carta de despedida que encerra dizendo: "... Morro com a alegria suprema de ter a certeza que, num futuro próximo, triunfará a causa pela qual lutei, durante 45 anos. Viva o comunismo! Viva o socialismo internacional!.". 

A morte morrida ou morte matada, em quaisquer circunstâncias, sempre será o maior enigma da vida. O velho Singer viveu bastante e cantou a vida na luta diária por um mundo melhor para todos. O feijão é o sonho que ele plantou sem fadiga, o direito à preguiça ele deixou aos operários seus camaradas em greve na fábrica exploradora do suor dos trabalhadores para engordar a renda patronal: na economia solidária não existe ócio nem greve, muito menos tédio ou suicídio.

Até aí, a ponta do iceberg de nossa história popular quase clandestina, do reino de Portugal, Algarve e Brazil. Ou melhor, a grande ilha do Brazyl, jangada de pedra que esconde a profundidade do mar-oceano dos sonhos coletivos e seus caminhos no velho e no novo mundo. A invenção do Brasil há dez mil anos atrás não se sabe ao certo como começou - em Minas Gerais na Lagoa Santa, Piauí na Serra da Capivara, Pará em Paytuna? -, ainda não acabamos de inventar o país do futuro, nem se haverá de acabar amanhã.

A desconhecida história da brava gente brasileira está ligada umbilicalmente ao passado remoto dos povos americanos oriundos da Ásia e da África mãe da humanidade filha da animalidade, junta e misturada à origem de diversos povos europeus e africanos.

Nesta saga apócrifa à margem da teoria do segredo das antigas navegações do Mar-Oceano, Cristóvão Colombo é um espião português na corte dos Reis Católicos; o cristão-novo Salvador Fernandes Zarco descendente do donatário da ilha da Madeira; nascido na vila de Cuba, distrito de Beja, na região do Alentejo. Ele chega em Guaanani (Bahamas), em 12 de outubro de 1492; com as três caravelas Pinta, Niña e Santa Maria;  muito depois do rei mandinga Abubakari e sua flotilha de dois mil canoeiros ter atravessado o oceano ao longo da corrente equatorial marítima entre a costa ocidental da África desde o rio Gâmbia até e Pernambuco, no Brasil. 

Já ouviu falar disto? E da teoria que diz que há 20 mil anos um pequeno grupo de homens e mulheres africanos chegaram, diretamente, pela dita corrente equatorial no Ceará e subiram o rio Preguiças até suas nascentes para se acomodar pela Caatinga, em São Raimundo Nonato, no Piauí. Arqueologia das ideias e psicanálise da história.

Na tradição dos griôs a história de Abubakari foi silenciada, pois no Mali depois da partida do rei, reinou sentimento de abandono e mágoa. Todavia, em segredo, a história não foi esquecida no tempo. De modo que apenas o seu sucessor em peregrinação a Meca deixou um relato durante a estada no Cairo: daí o conto foi recolhido e depois se espalhou para a Europa com viajantes ingleses e franceses caçadores de antiguidades egípcias. O navegador negro teria desembarcado em Pernambuco no ano de 1312, diz o historiador malinês, Gaoussou Diawara, que publicou o livro "A Saga de Abubakari II ... Ele Partiu com 2000 Barcos".

Noutra versão mais antiga, um destacamento precursor de 200 barcos teria chegado à foz do rio Amazonas onde foram surpreendidos pela Pororoca e eles se perderam, noves fora os dois últimos que a duras penas conseguiram retornar junto ao rei para lhe contar o ocorrido. Foi então, sabedor de que o Oceano havia outra margem, o próprio rei decidiu vir à frente da grande expedição. Contam que nas quatro viagens de Colombo ao novo mundo foram vistos, em companhia dos nativos do Caribe; certos "índios negros" na ilha Haity armados de lanças com ponta de cobre. Estes poderiam ser descendentes da aventura africana, que vivendo já com as índias ocidentais deram começo à grande mestiçagem afro-americana que fez do Brasil o maior país africano fora da África.

O Mali era o centro de um vasto e poderoso império islâmico no século XIV, onde hoje há muita pobreza. Segundo Diawara, Abubakari II abdicou o trono do reino mandinga a fim de partir numa expedição para descobrir se o oceano havia outra margem como o rio Niger, que cortava os seus domínios. Em 1311, ele teria abdicado em nome de seu irmão, Kankou Moussa, e iniciado a grande viagem pelo grande rio Salgado com centenas de outros barcos. 


A frota de Abubakari, agora com homens, mulheres e gado iniciou sua jornada a partir do litoral do que hoje é a Gâmbia e teria desembarcado em Pernambuco, à altura da atual Recife, em 1312. Na mesma altura, a Hispania está imersa na Idade Média e no futuro gigante da América do Sul, migrações de etnia Aruã vindas das ilhas do Caribe através das Guianas estavam invadindo e ocupando as ilhas Caviana e Mexiana no arquipélago do Marajó.


MEU AVÔ GALEGO DO CURRALPANEMA.

Tudo que é sólido se desmancha no ar. Tudo que sobe cai, todo império um dia vem abaixo. O Império Romano com todos seus acontecimentos não passou de 500 anos de existência depois que sucedeu à República de Roma. Tempo para se estender da Europa até a África e a Ásia, entre o ano 27 a.C. e 476 d.C, ocupando território de 4.400.000 km² com uma população estimada de 56.800.000 de habitantes. 

Depois disto nunca mais o mundo foi o mesmo, incluindo regiões distantes da Terra que ainda seriam latinizadas mais tarde, como nos chamados descobrimentos portugueses, por exemplo. Com o fim do Império Romano termina a Idade Antiga e Começa a Idade Média e de lá pra cá muitas coisas acontecem.

Se nós cedermos à tentação de comparar o tempo e espaço imperial romano antigo com o nosso moderno Brasil, "descoberto" no dia 22 de abril de 1500 podemos nos surpreender, por exemplo, de estarmos hoje na casa dos 518 anos de idade desde a chegada da frota de Pedro Álvares Cabral a bom adotar o direito romano e a civilização ocidental cristã. 

Ou, mais ou menos, contar 1618 anos desde os começos da antiga Cultura Marajoara e Portugal-Brasil no fato tropical da sua história singular ir conquistando e ocupando seguidamente território até chegar a 8.515.000 de km², com mais de 208.000.000 de habitantes agora. E ainda há patriotas, com escasso conhecimento dos fatos, lamentar a perda da Província Cisplatina (República Oriental do Uruguai) e a devolução da Guiana francesa ocupada pelos portugueses, de 1809 até 1817: não sabem que as tropas paraenses de regresso voltaram com ideias republicanas na cabeça e atiçaram o movimento de 14 de Abril para adesão à Independência do Brasil, frustrados pela tragédia do brigue Palhaço (assassinato de 256 independentistas), pavio da revolta que, em 18 anos, incendiou a guerra-civil chamada Cabanagem (1835-840) com os seus 40 mil mortos.

Como foi que, com 322 anos depois da expedição de Pedro Álvares Cabral, o caricato império brazileiro chegou a isto? Tempo de espiolhar, na pícara narrativa, o que a brava gente herdou da Reconquista: tempos heroicos ibero-marroquinos dos "descobrimentos" das Américas, Brasil confundido. Em 711, Tárique vindo da África do Norte atravessou o estreito de Gilbraltar pelejou com Rodrigo, último rei dos visigodos; venceu a batalha de Guadalete dando início à invasão da antiga Ibéria. Durante 800 anos os árabes foram senhores do território Al-Andalus.

Eu me lembro de meu avô galego, mal comparado ao Senhor Morto da igreja matriz de Nossa Senhora da Conceição, da vila Itaguari (Ponta de Pedras da ilha do Marajó); havia eu nove anos de idade, o corpo do meu avô veio pra vila lá de rio acima com os parentes pretos e cabocos da família a remar, rema, rema, remador... O rei vai descansar da sua dor de imigrante refugiado da guerra na Espanha. O barco San Thiago feito a capricho em madeira de lei pelas mãos de mestre de carpintaria naval, Maximino Vieira; não singrará jamais as águas do mar com o seu dono a bordo.

Este meu avô morreu, sem aviso prévio, em seu sítio no Serrame arruinado pela queda de preço da borracha. De priscas datas, pela linha do tempo ultramarino; o velho guardava rancores hereditários herdados paresque do tempo dos visigodos do rei Rodrigo, lembrado no nome de seus cachorros de caça, tais quais o inesquecível "Tarique", o "Átila" e o grande dinamarquês "Tigre", meu amigo; que eu fazia de gato e sapato, até cavalo de montaria em marcha lenta entre a varanda e o corredor do casarão avoengo. 

Me lembro ainda do dicionário galego-português que achei numa gaveta da grande arca de madeira de cedro com tampo de mármore. Tempos das vacas gordas... Minha bisavó Micaela Perez Varela era das Astúrias e meu bisavô galego, cristão-novo provavelmente de origem marroquina; ele morreu com filhos mais velhos do casal da aldeia de Soto Mayor, antigo município de Pontevedra; em uma de várias guerras dos reis de Espanha. A viúva de Pero Perez Rincón, meu bisavô marrano; deliberou mandar ao Pará seu filho caçula, Celestino; a se refugiar do recrutamento junto a um parente galego, chamado Pedro Peres de Castro, estabelecido com terras na ilha do Marajó. Este um veio entre os primeiros criadores de gado após a Cabanagem, cerca de 1850. 

Um tio bisavô meu, chamado Baltazar, mago de tradição céltica e padre católico ao mesmo tempo; havia morrido com fama de santidade na Galícia, masporém de tempos em tempos ele visitava seus parentes nas noites de serão no Curralpanema, durante a semana santa, incorporava-se na pessoa física de minha tia-avó Sinhá. Por esta via fantástica, frequente, eu viajo ao pretérito e ao futuro ao mesmo tempo: grande parte do território ibérico era domínio dos visigodos. Naquelas datas antigas a monarquia deles era eletiva. Com a morte do rei Vitiza, no ano de 710, a assembleia se reuniu para eleger o novo rei. Antão, formaram-se dois grupos antagônicos: eleitores de Ágila II e os de Rodrigo, que foi último rei visigodo de Toledo.


Inconformados pela eleição de Rodrigo, os partidários de Ágila solicitaram ajuda ao governador muçulmano Muça Ibne Noçair, na África, abrindo-lhe as portas de Ceuta e incitando-o a enviar expedição militar à Península Ibérica. Alegavam que desde fins do século VI, os judeus vinham sendo perseguidos na região e, contudo, a Chária dá obrigação aos muçulmanos de defender judeus e cristãos que se achem sofrendo injustiça:

Ó fiéis, não tomeis por amigos os judeus nem os cristãos; que sejam amigos entre si. Porém, quem dentre vós os tomar por amigos, certamente será um deles; e Alá não encaminha os iníquos.

Esta situação aconteceu após 612 quando, por decreto real, os regentes decretaram o batismo obrigatório dos judeus, sob pena de confisco dos bens ou expulsão daquela terra. A identidade asturiana foi progressivamente se forjando após a coroação de Pelágio, na vitória na batalha de Covadonga e a consolidação do Reino das Astúrias. Neste sentido, a crônica Albeldense afirma que, após essa batalha, «nasceu por divina providência o Reino das Astúrias».

No ano de 1234, no sul de Portugal o Califado Almóada estava a se desagregar, dissolvendo-se em pequenos emirados chamados taifas. No rastro desta longa história do caminho de Santiago de aquém e além-mar vem o rosário dos achamentos e descobrimentos que leva até a China e o Japão...

O Algarve foi anexado à taifa de Niebla, que hoje faz parte da Espanha, e o seu emir, Muça ibne Maomé ibne Nácer ibne Mafuz, adotou pouco depois título de "Rei do Algarve". Ou seja, emir do Algarbe, estado que compreendia a região ocidental do Andalus muçulmano. No mesmo tempo, no reinado cristão de dom Sancho II as conquistas castelhanas e portuguesas prosseguiam em direção ao Sul. 

Quem sabe já em esboço inconsciente do determinismo geográfico que veio, com a corrente equatorial, descobrir o caminho marítimo das Índias? A dialética mediterrânea entre o Marrocos e a Ibéria. Foram conquistadas as derradeiras praças do Alentejo no reinado de dom Sancho II. E a maior parte do Algarve na margem direita do rio Guadiana, à data da sua deposição e posterior abdicação, restavam do Algarve muçulmano apenas pequenos enclaves em Aljezur, Faro, Loulé e Albufeira, que devido à descontinuidade territorial e à distância que os separava de Niebla, se tornaram independentes do seu domínio.

Deste modo, Sancho II de Portugal figura como o segundo rei português a usar o título de rei do Algarve, na esteira de seu avô — o que provavelmente só não fez devido às suas outras preocupações internas, designadamente a guerra civil que o opôs ao seu irmão, o conde de Bolonha e infante Afonso. Assim, foi este último que, em 1248, subido ao trono, conquistou os últimos enclaves mouros no Algarve, assumindo o título de "Rei de Portugal e do Algarve",  em 1249, utilizado pelos seus sucessores até o fim da monarquia portuguesa

O rei de Niebla e emir do Algarve, para enfrentar as conquistas portugueses nos seus territórios, se tornou vassalo de Afonso X de Castela: o qual também passou a usar o título de Rei do Algarve entre as suas múltiplas conquistas, cedendo-lhe o domínio do Algarve português. Assim, muito provavelmente, a intitulação de Afonso III de Portugal serviria para contestar a posição do vizinho castelhano aliado ao emir mouro. 

Uma mostra das complexas relações da Península Ibérica, no ocidente, e na África do Norte, no lado oriental. Já castelhanos e portugueses competiam entre si, destinando-se a fortalecer os direitos do monarca português sobre a região. A questão do Algarve acabou com o tratado de Badajoz de 1267, com Afonso X
de Castela desistindo de suas pretensões sobre o antigo Algarbe Andalus, fazendo do seu neto dom Dinis, herdeiro do trono do Algarve: acordo que ditava a sua incorporação a prazo na coroa portuguesa. Reservava, porém, a utilização do título por si e pelos seus descendentes, dado ter adquirido em 1262 os restos do reino de Niebla e Algarve. Os mais reis de Castela e depois da Espanha, até à elevação de Isabel II, ao trono da rainha em 1833, continuaram a usá-lo entre seus diversos títulos.

O nome do reino algarvio e o título régio tiveram mudanças com as conquistas norte-africanas, cujo território foi considerado prolongamento do reino do Algarve. Assim, João I de Portugal acrescentou à sua intitulação de "Rei de Portugal e do Algarve", o nome de "Senhor de Ceuta; seu neto Afonso V, por sua vez, chamou-se "Senhor de Ceuta e de Alcácer-Ceguer em África"; após 1458, e em 1471, com a conquista de Arzila, Tânger e Larache, integrou as praças norte-africanas no título de "Algarve d’além-mar em África", ficando o Algarve europeu a ser o "Algarve d’aquém-mar".

Por magia e poesia a vida venceu a morte e o Algarve de além-mar se estende agora até o sertão da Paraíba, no drama rural da revolta de Princesa. Transfiguração da história verdadeira no Circo da Onça Malhada com aulas-espetáculo de Ariano Suassuna. Pra não falar do monumento encantado da pedra do reino de Rei Sabá em São João de Pirabas, Pará. Agora é outra história representada da paisagem cultural mediterrânea onde bérberes, ibéricos, judeus e mouros compartilham histórias e lendas. Cenário de Alcácer-Quibir: “o maior desastre militar europeu fora da Europa”. Fonte de um dos mitos mais fecundos da civilização lusófona, que transpôs o Oceano e o tempo até hoje continuando a alimentar controvérsias e suscitar a cultura popular baseada no Sebastianismo. Fado tropical no grande teatro Brasil da arte armorial de Ariano Suassuna transposta ao grande sertão-mundo nordestino.

Bem mais complexo que supostamente se conhece em academias oficiais, com seus protagonistas em torno da figura emblemática de um rei de carne e osso, destronado e transformado no carismático dom Sebastião, rodeado de judeus convertidos em cristãos e mouros cristianizados, portugueses e castelhanos islamizados. Tal qual o português renegado Reduan Elche do qual pouco se sabe e que, por um fado caprichoso, selou o destino da batalha dos Três Reis. No momento que a sorte parecia, brevemente, sorrir aos cristãos. 

Eis que, no calor da luta sob sol de meio dia, quis o destino que dois portugueses opostos pela sorte decidissem o futuro de Portugal e quiçá do Brasil também: o rei dom Sebastião e o renegado Reduan Elche, convertido ao Islã; escudeiro fiel de Mulai Abdelmalek:
“Um mancebo sem experiência
E um velho sem saber
Dois irmãos sem consciência
Deitam este Reino a perder.”
Augusto Mendes Simões de Castro citado por Maria Augusta Lima Cruz (CRUZ, 2009, pág. 226), glosa a dom Sebastião e ao cardeal dom Henrique. Cf. https://historiasdeportugalemarrocos.com/2018/01/21/d-sebastiao-e-a-batalha-de-alcacer-quibir/

O rei Desejado, aos nove anos de idade apresentava problemas de saúde, falam de doença dos rins. Aos doze tem febres, tonturas, desmaios e “secreções”. Os médicos suspeitaram de uretrite, espermatorreia ou gonorreia. Esta última hipótese, segundo Harold B. Johnson, transmitida por um pedófilo, que seria sem mais nem menos o seu mestre, padre Luís Gonçalves da Câmara. Instala-se no paço uma ardida discussão entre cortesões e falatório da criadagem de que o rei teria vida curta, dividindo-se as opiniões sobre se o jovem monarca deveria casar quanto antes ou se, ao contrário, o casamento lhe encurtaria mais a vida. (CRUZ, 2009, pág. 143-149).
A relação entre D. Sebastião e o padre Luís foi marcante na formação de personalidade do jovem rei, este havia dificuldade em se relacionar com mulheres, adiando possíveis casamentos que lhe foram propostos com Isabel de Áustria, Margarida de Valois, Isabel Clara Eugênia e Catarina Micaela, filhas de Filipe II, a filha de Francisco de Médicis, Grão-Duque da Toscana, Maximiliana, filha do Duque da Baviera ou a filha do Duque de Lorena. 
A morte do padre Luís, em 1575, transtorna Sebastião recolhido três dias num quarto fechado em Évora e mais 10 dias em retiro no convento do Espinheiro, nos arredores daquela cidade. Parte dos relatos das doenças de dom Sebastião foram contadas por Alonso de Tovar, embaixador castelhano, que prometera a Filipe II de Espanha não abandonar o rei português, sobrinho do primeiro. No dia 20 de janeiro de 1568, com 14 anos de idade, dom Sebastião assumiu a monarquia de Portugal, e ficou 10 anos no trono até o fatídico dia 4 de agosto de 1578, na louca batalha de Alcacer Quibir. 
Naquele mesmo ano de 1568 morreu o príncipe dom Carlos, único filho de Filipe II, situação dinástica que colocava seu sobrinho, dom Sebastião de Portugal, em posição de lhe suceder na Coroa de Espanha: fato político que aumentava a ingerência castelhana nos assuntos internos do vizinho Portugal. Entre tio e sobrinho não havia laços de amizade além de interesses de estado. A escravidão dos reis a seus fados pode ser mais ruidosa, masporém ainda assim é escravidão... Durante a campanha para cruzada no Marrocos Sebastião foi ter com Filipe em Guadalupe, Espanha; para pedir ajuda ao tio.
A versão de David Lopes sobre tal encontro não foi confirmada por Luís Costa e Sousa que diz: “verificando que falharam todas as tentativas para dissuadir o sobrinho, o monarca castelhano recusou-se liminarmente a prestar qualquer auxílio militar oficial – e substancial. Foi proibido o levantamento público de voluntários espanhóis, e que não seriam poucos, segundo se depreende das palavras dos cronistas (…) A situação chegou ao extremo quando Felipe II mandou prender os oficiais que tomaram a iniciativa de levantar tropas em Espanha.” (SOUSA, 2009, pág.20)
Fosse como fosse, a verdade é que participaram do exército português 500 espanhóis comandados pelo capitão Aldana, que se integraram às fileiras de dom Sebastião já em Marrocos. Nos meses seguintes trabalharam os portugueses para conseguir financiamento da expedição, amealharam 240.000 cruzados pagos pelos cristãos-novos, 150.000 cruzados de subsídio da Santa Sé, lançamento de impostos sobre os fidalgos e comerciantes, um empréstimo de 400.000 cruzados a uma sociedade alemã com juros fixos de 8%. No total, “mais de um milhão de cruzados, cerca de metade das receitas anuais do Estado.” (MARQUES, 1973, pág. 422). 

Ontem como hoje a guerra é um negócio que carece de muito dinheiro investido e dá bons rendimentos, noves fora o custo não contabilizado da "bucha de canhão" com recrutamento obrigatório de gente que, costumeiramente, não tem onde cair morta. Logo, tão certo como dois mais dois são cinco; o negócio da guerra invariavelmente vitamina o BIP (produto interno bruto), masporém para o FIB (felicidade interna bruta), com certeza, é um baita prejuízo. Neste porém, todavia, eu me lembrei do "causo" picaresco contado em versos por Rolando Boldrin sobre a chegada de Ariano Suassuna no céu: aquela peça celestial, acredito, ficaria melhor se encenada fosse pelo Circo da Onça Malhada que, talvez, o Auto da Compadecida, muito bonito, entretanto já bastante conhecido cá na terra.
Iniciam-se também contatos com Mohamed El-Moutaouakil “O Negro”, sultão deposto, que no início de 1578 mandou a Lisboa uma embaixada oferecendo ao rei dom Sebastião “todo o litoral que ele possuía no mar oceano com seis léguas pela terra firme, com as cidades e povoações que aí havia, entre elas Arzila, Safim, Larache (…) depois acrescentou a isso (…) Alcácer-Quibir, Tetuão. Além disso prometeu que deixaria pregar na Berbéria a fé de Jesus Cristo. Mandou-lhe entregar desde logo Arzila… e, finalmente, consentia que D. Sebastião fosse coroado imperador de Marrocos”. (LOPES, 1989, pág. 80). 

Olha só! Por diplomacia, em vez da guerra suicida dos Três Reis; o rei português poderia ter sido Imperador do Marrocos e os padres católicos sob proteção conjunta dos dois reis católico e islâmico unidos levariam a fé de Jesus Cristo a toda Barbaria. Masporém, dom Sebastião não fez caso da oferta de aliança do sultão.
Por aquela altura, a frota sebastiana zarpava de Cádis e desta vez é o sultão do Marrocos, Abdelmalek quem tenta demover o rei português de continuar a expedição guerreira, escrevendo-lhe três cartas que dom Sebastião interpretou como sinal de fraqueza. A última destas, segundo Berthier, citado por Bernard Lugan, rezava o seguinte:
“Senhor rei, tendo ouvido dizer que Mulai Hamet (trata-se de Mohamed El-Moutaouakil), meu sobrinho, depois de que pela força das armas o expulsei do reino que ele possuía injustamente, foi-se refugiar no teu real poder, julguei por bem escrever a Tua Alteza a presente para que ela sirva de aviso. Já que pretendes voluntariamente ser juiz entre nós dois, considerando bem o caso, saberás que se de forma jurídica quiséssemos julgar esta causa, eu devo eu próprio ser ajudado mais do que perseguido, já que eu sou o filho mais velho do rei que conquistou esta terra, branco de pele, amigo da razão e daqueles que a seguem. Para além disso o meu sobrinho não saberia encontrar nenhuma razão para invocar em apoio das suas reivindicações, já que, apenas considerando o direito das armas, que foi aquele pelo qual o meu pai conquistou este reino há cinquenta anos, ainda o trago por ele. Assim, sabes muito bem que aquele dos dois que deve reinar e possuir este reino por direito, é-lhe necessário merecê-lo e estar apto, do que dei provas e garantias suficientes. Dou-te esta opinião Senhor, como um amigo que quero ser e de quem quer que sejas meu, mas se assim for, se forem contestados os direitos que titulo pela minha idade, sendo o mais velho da família, que me mandem pessoas dignas de confiança a quem possa comunicar as minhas intenções, já que não tenho menos vontade de ter sucesso no que é justo do que o meu sobrinho, nem me faltarão os meios para alcançar melhor do ele o que prometi em função do que possuo, apesar de saber que se subestima o meu poder, o que me será proveitoso nos tempos vindouros.” (LUGAN, 2011, pág. 157).
Maria Augusta Lima Cruz não credita a veracidade destas supostas cartas. Em sua opinião trata-se de documentos forjados “para apresentar dois estereótipos: de um lado um sultão justo, sensato e experiente e, do outro, um rei moço, inexperiente e insensato”. (CRUZ, 2009, pág. 331). Masporém, o astuto Abdelmalek apesar de tentar a paz, preparou seu exército para chegada dos portugueses. Levantou o povo de Marrocos na eventualidade da guerra santa. Abdelmalek partiu de Marraquexe, onde deixou o governo entregue ao renegado português Reduan Elche e foi para Salé: aí o sultão começou a apresentar sintomas de envenenamento. Desconfiavam de uma de suas mulheres, de dois andalusinos que queriam ver o poder do reino de Marrocos dividido entre si ou de um certo comandante das tropas turcas que o apoiavam, instigado pelos otomanos. (CRUZ, 2009, pág. 326-327): de um lado e doutro do Mediterrâneo pululavam ambições, invejas e desconfianças mortais que não deixaram de envenenar nossa cultura medieval transplantada aos Brasis até os dias de hoje. A isto uns chamam carma, outros de sina ou fado.
Contra tudo e contra todos, começa a batalha cerca das dez horas da manhã. A vanguarda portuguesa começa logo a ser fustigada por arcabuzes e mosquetes marroquinos, impacientam-se os piquetes lusos pela demora da ordem “Santiago!”, o sinal combinado para avançar. Enfim, estronda o grito de ataque e a elite do exército português avança furiosamente pelo centro do terreno e bota a dianteira das tropas de Abdelmalik em debandada. Ato contínuo os lanceiros procuram tomar a artilharia inimiga. Ao mesmo tempo, a cavalaria cristã põe em fuga a “mão-direita” moura comandada por Mulay Ahmed. 

No fragor da batalha, o sultão Abdelmalik sente se esvair a vida: ele apeia e volta a tentar montar em seu cavalo, mas caiu morto ao chão. Os portugueses que assistem o inesperado milagre gritam eufóricos “vitória, vitória, vitória, o ‘maluco’ é morto.” (SOUSA, 2009, pág.95). Reina o tumulto no campo de batalha em franca desvantagem dos marroquinos. Porém, cerca do meio dia, avisado da morte súbita do sultão Reduan Elche aparece de repente em meio à batalha. 

Oculta da tropa a morte do soberano de Marrocos e percebeu que era o momento de virar a sorte da batalha. Reuniu rapidamente suas tropas, repeliu a cavalaria portuguesa, fazendo-a recuar. Em seguida cercou a vanguarda do exército invasor dizimando-a parcialmente. A primeira linha do exército de Portugal sente o golpe e se retira desarvorada chocando-se com a segunda. Logo, a cavalaria marroquina com seus ágeis ginetes árabes envolve o exército cristão num movimento em pinça. 

O ímpeto da arrancada da cavalaria moura obriga os poucos cavaleiros de dom Sebastião a acudir à retaguarda, deixando desguarnecido o miolo da tropa frente à torrente que se abate sobre o rei. Após seis horas de sangrento turbilhão, às 4 horas da tarde a derrota portuguesa é total em todas as frentes da batalha que havia começado às 10 horas da manhã. Dom Sebastião não se rende: reúne os últimos sobreviventes para uma derradeira e desesperada ofensiva, por certo ele persentia o desfecho.
“Para agravar a situação, explodiram as reservas de pólvora transportadas pela carriagem portuguesa, incidente situado, sem grande precisão, ‘logo no princípio na ala esquerda’, no momento em que ‘a vitória começa a inclinar-se da parte dos mouros’. O fogo, propagando-se de barril em barril e de carro em carro, ‘sem se saber se foi acaso se por outra via’, originaria uma deflagração medonha, ‘vendo-se vir voar pelo ar, não somente homens, uns inteiros outros despedaçados, mas da mesma maneira os carros, bois e bestas que os levavam’.” (CRUZ, 2009, pág. 338, citando a Crónica do Xarife Mulei Mahamet e D’El-Rei D. Sebastião).
Dom Duarte de Meneses, chorando, indignou-se pela forma como Almançor tratou o corpo do jovem rei defunto em batalha, ao que o sultão respondeu: “Recompõe-te, porque para o teu rei já não há remédio; deves saber que é a usança de guerra perderem uns para ganharem outros. E também nós perdemos o melhor rei que jamais haveremos de ter.” (SOUSA, 2009, pág.112)
Esta versão de desprezo do tratamento do corpo do Rei Dom Sebastião é negada pelos historiadores marroquinos, que afirmam tê-lo tratado com todas as honras, conforme testemunhos. El-rei foi enterrado provisoriamente na casa do Alcaide de Alcácer Quibir, Ibrahim Soufiane, onde permaneceu durante quatro meses e uma semana sob guarda do fidalgo português Belchior do Amaral, conforme relato da “Jornada de África”:
“Daquilo que tratou deu conta D. Duarte àqueles Cavaleiros, e acordaram que voltassem a falar com o Xerife, para pedir, que mandasse por algum Fidalgo em guarda daquele corpo Real, porque não se pusesse outro em seu lugar: fê-lo o Bárbaro com muita liberalidade; e assim nomearam Belchior do Amaral, que o guardou, e levou a Alcácer, onde nas casas de Ibrahim Soufiane, Alcaide daquela Vila se sepultou, ajudando a ele um Tudesco: cobriram a sepultura de cal, e areia, porque de água serviam as lágrimas que derramava, e para final pôs algumas pedras, e tijolos.” (MESA, 1630, pág. 94)
No rescaldo da batalha houve concentração de milhares de prisioneiros e execução daqueles que não aceitaram rendição. Enorme matança. Estima-se que terão morrido 8.000 portugueses e 16.000 feitos prisioneiros. Menos de uma centena deles terão conseguido fugir. Do lado marroquino morreram algo como 3.000 homens. Entre os mortos contam-se os três reis presentes no campo de batalha, daí um dos vários nomes pelos quais é conhecida a Batalha de Alcácer Quibir, Batalha de Oued El Makhazen e Batalha dos Três Reis: Abdelmalik, sucumbiu a sua enfermidade; Mulay Mohamed, afogado no Oued Loukkos, pelo qual tentou fugir, mas não sabia nadar. Seu corpo foi esfolado, as entranhas cheias com palha e exibido nas principais cidades de Marrocos e o desaventurado dom Sebastião de Portugal. Participou também nela o então aclamado Rei de Marrocos, Ahmed El-Mansour, o Vitorioso.
Reduan Elche, lugar-tenente de Abdelmalek e seu substituto no comando das tropas marroquinas vitoriosas, era um português convertido ao Islã posto a serviço do Sultão. O corpo do rei português seria entregue imediatamente às autoridades portuguesas de Ceuta, dia 4 de dezembro de 1578, onde permaneceu na Igreja do mosteiro da Santíssima Trindade, conforme auto existente no arquivo de Simancas, tendo sido trasladado em 1582 para o mosteiro dos Jerônimos, em Lisboa, onde contrariando a lenda hoje se encontra.
Felipe II, que temeu ser sucedido pelo fanatizado sobrinho português, jogava com o Mouro quando convinha; conseguiu sua União Ibérica (1580-1640) durante 60 anos: desfeita pelo Sebastianismo com a coroação do conde de Bragança, dom João IV. Criou-se com as trovas do sapateiro da vila de Trancoso, Gonçalo Annes Bandarra; a esperança do regresso do rei dom Sebastião a fim de devolver o reino de Portugal aos portugueses. O poderoso mito iria perdurar na história e ganhar força nos tempos mais difíceis do povo português, sob a crença da restauração de 1640 ou durante as invasões francesas.
“O Sebastianismo traduz a nostalgia de uma idade de ouro que passara e o sentimento de humilhação nacional de um povo ocupado pelo estrangeiro, bem como a espera messiânica duma comunidade incapaz de resolver os seus destinos.” (SECS, 1978, obra citada).
Das praças marroquinas que detinha à data da batalha, Portugal só voltaria a recuperar Tânger e Mazagão, já que Ceuta ficaria nas mãos de Espanha, pelo fato de grande parte da população ter sido substituída por gente de Andaluzia, no seguimento de um cerco imposto por Marrocos. 


QUEM DESCOBRIU PORTUGAL?

Portugal não foi descoberto, tal qual o Brasil no antigo Pindorama (terra das palmeiras) e Tapuya tetama (terra dos tapuias): o reino de Portugal é filho da luta na Reconquista co
m terras de Espanha conquistadas aos mouros na Península Ibérica. Na idade média, o reino da Galícia incluiu a atual região de Coimbra e as terras de Portucale, que hoje são o Porto; pertencentes a vassalos dos reinos de Leão e Castela.


Migrações sefarditas

Naquele tempo, vistas a coisas da mesma maneira como o povo Pataxó da Bahia viu chegar a frota de Cabral; pode-se dizer então que Mouros e Judeus descobriram a Península Ibérica ocupada milenarmente por celtas, vândalos, godos e outros bárbaros nativos. Espanha tampouco foi descoberta, a nação espanhola foi formada a partir da fusão de diversos reinos como Castela, Aragão, Navarra, Catalunha, Galícia, Astúrias e Leão. Até o início do séc. XV a Espanha não existia como nação. 

Mouros e judeus foram obrigados ao batismo ou partir para o exílio. A Reconquista foi finalizada em 1492 com a tomada de Granada por parte dos Reis Católicos que a anexaram à Coroa de Castela. Neste mesmo ano houve o chamado "descobrimento" da América, em nome dos Reis Católicos, pelo cristão-novo Cristóvão Colombo. Foram cripto-judeus que inventaram a América, com a história do navegador Amerigo Vespucci. Os nativos do "novo mundo" contavam milhares de anos desde a chegado dos primeiros grupos nômades e os Mayas chamavam de Amerik (país do vento), à região montanhosa à margem do lago Nicarágua: daí que, de verdade, veio o nome América. 

O "descobrimento" ou revelação das Índias Ocidentais ou Américas saiu do fundão das dissimulações e segredos das antigas navegações fenícias, gregas e cartaginesas. Deste complexo caldo de cultura da Antiguidade nasceu o fado, o antissemitismo e a colonialidade congênita das elites americanas criados pelos cristãos ocidentais que foram no passado discriminados e perseguidos pelos romanos. O antissemitismo e a colonialidade sempre andam juntos e ambos envenenaram e arruinaram o Ocidente inteiro. 

Judeus perseguidos na Espanha e Portugal foram fomentar riqueza em outras nações menos intolerantes. Os judeus portugueses desempenharam importante papel no desenvolvimento cultural e econômico da República dos Países Baixos. Desfrutaram ali liberdade de culto e de expressão, invejáveis para a maioria dos judeus nas restantes partes do mundo. Mas, como de costume, quando o escravo se torna senhor; também eles não deixaram de fazer as suas diabruras, tais como o negócios negreiro  e o regime de apartheid. Já se sabe que sem "negro da terra" (indígena escravizado) e "negro da Guiné" (genérico de escravo africano) não há "civilização" dos trópicos que se sustente.


A comunidade judaica portuguesa na Holanda emergente da opressão do Império espanhol produziria figuras de renome nacional e internacional, rabinos, eruditos, filósofos, banqueiros, fundadores de companhias de comércio internacional: Gracia Nasi, Isaac de Pinto, Davi Ricardo, Menasseh ben Israel, Isaac Aboab da Fonseca, Uriel Acosta, Baruch de Espinoza, entre outros. O historiador António José Saraiva, na sua obra "Inquisição e Cristãos-Novos", viu na saída das comunidades judaicas da península ibérica no século XVI um fator prejudicial para as sociedades e economias ibéricas, anunciando o declínio de Portugal e Espanha no concerto da nações, então no auge da sua influência. 

David Landes a resumiu a tese de Saraiva em "A riqueza e pobreza das nações", ao escrever: "Quando os Portugueses conquistaram o Atlântico Sul, eles estavam na linha da frente das técnicas de navegação. A abertura para a aprendizagem com sábios estrangeiros, muitos deles Judeus, tinha trazido conhecimento que se traduzia directamente na aplicação prática, e quando em 1492 os Espanhóis decidiram obrigar os seus Judeus a adoptar o Cristianismo ou a sair, muitos encontraram refúgio em Portugal, então com uma política mais relaxada face ao Judaísmo. Mas em 1497, pressão da Igreja Romana e de Espanha levou a coroa portuguesa a abandonar esta tolerância. Cerca de 70.000 judeus foram forçados a um baptismo meramente formal. Em 1506, Lisboa viu seu primeiro pogrom, que matou dois mil Judeus "convertidos" (a Espanha já vinha fazendo o mesmo desde há duzentos anos). A partir daí a vida intelectual e científica de Portugal desceu a um abismo de intolerância, fanatismo e pureza de sangue".


O BRASIL HOLANDÊS PERDEU O FREGUÊS.

Ainda hoje a elite brasileira lamenta a partida do conde Maurício de Nassau da cidade do Recife, Pernambuco. A explicação para o fim do Brasil holandês, além da bravura dos emergente povo pernambucano; se deve aos sucessos na Europa com o declínio do império colonial espanhol, possibilitando retorno das relações comerciais entre Portugal independente, a partir de 1640, e a Holanda. O conde Maurício de Nassau era nobre alemão da dinastia de Nassau ou Casa de Nassau.

João Maurício de Nassau-Siegem (1604-1679), foi apelidado "o Brasileiro"; era membro de uma dinastia aristocrática de diversificadas casas reais na Europa fundada no século XII. É nomeado após a senhoria associada com o Castelo de Nassau, localizado nos dias atuais em Nassau, Renânia-Palatinado, Alemanha. Em 1636, ele foi contratado pela Companhia das Índias Ocidentais para administrar os domínios por ela conquistados no Nordeste do Brasil, percebendo ajuda de custo de 6.000 florins e salário mensal de 1.500 florins, o soldo de coronel de exército, além de participação de 2% sobre os lucros. Corriam por conta da empresa colonial suas despesas de mesa e criadagem, ele trouxe para Recife dezoito criados. Mais os salários do predicador Francisco Plante, de seu médico particular Guilherme Piso e de seu secretário Tolner. Um contrato principesco para a época, coisa digna de um CEO de empresa multinacional em nossos dias.


Nassau prestou juramento em 4 de agosto de 1636, prometendo pelo prazo de cinco anos ser Governador, Almirante e Capitão-General dos domínios conquistados e por conquistar pela Companhia das Índias Ocidentais no Brasil. Ainda não havia zarpado e ele já tinha motivos de aborrecimento com a Companhia. Em vez da armada de trinta e duas velas e sete mil homens de armas, entregaram-lhe apenas doze navios com dois mil e setecentos homens. A armada partiu do porto de Texel (25/10/ 1636) e chegou ao Recife (23/01/1637). Nassou procurou estimular relação amistosa entre holandeses, comerciantes e fazendeiros. Estes restauraram seus engenhos com empréstimos concedidos pela Companhia, utilizados também na venda a crédito de engenhos abandonados, visando restabelecer a produção de açúcar. Foi, portanto, o primeiro plano de desenvolvimento econômico do Nordeste brasileiro.

Como base no comércio de escravos, Nassau incrementou a economia açucareira, introduziu métodos aperfeiçoados de cultivo da cana-de-açúcar e de tabaco. Permitiu liberdade de culto entre holandeses, franceses, italiano, belgas, alemães, flamengos e judeus emigrados da Península Ibérica e do norte da Europa atraídos para a Nova Holanda. Neste período foi fundada no Recife a Kahal Zur Israel (Congregação Rochedo de Israel) primeira sinagoga das Américas, que existiu entre 1630 e 1657. 

Decidido a transformar o Recife uma capital moderna, Nassau determinou elaboração do projeto da cidade Maurícia, responsável pelos atuais traçados urbanísticos dos bairros de Santo Antônio e São José, onde drenou terrenos, construiu canais, diques, pontes, o Palácio de Friburgo e o Palácio da Boa Vista, jardins botânico e zoológico, museu de história natural e um observatório astronômico. Organizou também os serviços públicos essenciais como o de bombeiros e de coleta de lixo.


Na comitiva de Maurício de Nassau veio o cientista Guilherme Piso, médico em Amsterdã, estudar doenças tropicais. O paisagista Frans Post recomendado por seu irmão Pieter Post e o retratista Albert Eckhout até então desconhecidos em suas pátrias. Viriam ainda o cartógrafo Cornélio Golijath e o astrônomo saxão Georg Marggraf, que, com Piso, foi autor da Historia Naturalis Brasiliae (Amsterdã, 1648), primeirapublicação científica sobre a natureza brasileira. O nome de Marggraf é sobretudo ligado a sua descrição do eclipse solar de 1640. Vieram ainda três vidraceiros e um entalhador. Ao humanista Caspar Barlaeus, a quem Nassau encomendou a história de seu governo no Brasil.

A Companhia dificultava a confirmação de direitos dos luso-brasileiros, mas Nassau percebeu que sem eles, e sem o que ele chamava a classe média rural (lavradores de cana, mestres-de-açúcar, feitores, artesãos, lavradores de víveres) não seria possível recompor a indústria. Entre 1637 e 1638 mandou leiloar engenhos de proprietários ausentes ao preço médio de 30 a 40 mil florins. Com isso arrecadou 2 milhões de florins. Os compradores foram sobretudo judeus neerlandeses e luso-brasileiros, mas no decorrer dos meses terminariam revendendo a terceiros as propriedades arrematadas.

A intervenção de Nassau com influência de Amsterdã e dos Estados da Holanda, foi decisiva para que os Estados Gerais ratificassem em abril de 1638, contra pretensões de monopólio da Companhia das Índias Ocidentais; o livre-comércio adotado há quatro anos. A Holanda era pátria do livre-comércio e a comunidade mercantil de Amesterdã não hesitaria em devolver o Nordeste do Brasil a Portugal para ter direito de comerciar nas colônias hispano-portuguesas. 

Nassau estava convencido de que o monopólio da Companhias das Índias Ocidentais seria a perda do Brasil holandês, pois a fase era de escassez de açúcar e de preços crescentes, além de que daria estímulo à imigração de colonos neerlandeses, desencadeando um círculo virtuoso na economia. E, favorável também à oferta de escravos africanos, em 1637 enviou o coronel Hans Koin à frente da expedição naval que tomou o Forte de São Jorge da Mina, em Elmina, Gana, no golfo da Guiné. A possessão portuguesa da Mina foi colocada sob controle de Recife, mas sua conquista não correspondeu às expectativas econômicas neerlandesas, já que o desempenho do escravo da Guiné era reputado pelos portugueses como inferior ao de Angola. 

Para assegurar o setor norte das suas possessões, Nassau fez, em 1638, viagem a Paraíba e Rio Grande do Norte, Observando o estado das fortificações e consolidando aliança com os Tapuias, inimigos dos luso-brasileiros. De volta ao Recife, Nassau recebeu a notícia da poderosa armada hispano-lusitana que se aprestava em Lisboa e Cádiz com destino ao Brasil. Filipe IV e o conde de Olivares haviam decidido lançar uma ofensiva dupla, afinal a última dos Áustria madrilenhos: tentaria reabrir comunicações marítimas com o norte da Europa e restaurar o domínio lusitano no Nordeste brasileiro. Nassau tomou assim a arriscada decisão de se antecipar e conquistar a Bahia.

A guerra holandesa no Nordeste brasileiro teve três fases distintas: a conquista (1630/37), a governação (1637/42) e a Insurreição Pernambucana (1642/54). Na época, a Holanda se expandia como potência marítima e tinha estabelecido também uma colônia ... - Veja mais em https://educacao.uol.com.br/biografias/henrique-dias.htm?cmpid=copiaecola



LUZES E SOMBRAS NO AMANHECER



Menasseh ben Israel (Madeira, 1604 - Middelburg, Holanda, 1657), nascido Manuel Dias Soeiro, retrato de 1642. http://arlindo-correia.com/200307.html


Menasseh, então Manuel Soeiro, fazia parte de uma família judaica portuguesa que, como tantas outras, foi obrigada a se converter ao catolicismo. A perseguição religiosa em Portugal no século XVII foi intensa. Os cristãos-novos eram vítimas de segregação e estavam sob a observação das autoridades religiosas e à mercê da Inquisição. Cristãos-novos que mantivessem a fé judaica eram submetidos a severos castigos. Após a suspeita de judaísmo ter recaído sobre o pai de Manuel Soeiro, a família decidiu deixar Portugal e emigrar ao norte da Europa, assentando-se em Amsterdã.
Manuel, ainda criança, chegou a Amsterdã com a família em 1610. Os Países Baixos estavam em guerra com a Espanha (1568-1648) era um país tolerante. Judeus são aceites e integram-se sem grandes dificuldades. A chegada da família, em 1610, foi possível devido a uma trégua mediada pela França e Inglaterra em Haia. Manuel adotou o seu novo nome hebraico Menasseh. Frequentou a escola, tendo sido um aluno brilhante. Tornou-se rabino e um intelectual respeitado, autor de várias obras para a primeira editora hebraica nos Países Baixos. Casou com uma descendente do célebre dom Isaac Abravanel. Foi amigo de Rembrandt, que lhe pintou um retrato. 

Menasseh tornou-se famoso por ter pedido a Olivier Cromwell e ao Parlamento Britânico que revertessem as decisões históricas de governantes anteriores e permitissem aos judeus expulsos por Eduardo I, em 1290, regressar a Inglaterra. Sua petição teve sucesso e os judeus começaram gradualmente a se estabelecer na Grã-Bretanha a partir de então. 200 anos depois, os judeus estavam perfeitamente integrados na sociedade britânica e havia mesmo um primeiro-ministro de religião judaica, Benjamin DisraeliO Rabi Menasseh faleceu em Middelburg, Países Baixos, no outono de 1657, pouco depois do seu regresso de Inglaterra.

A brilhante comunidade liberal israelita da Holanda, infelizmente, ficou para sempre marcada de grave intolerância contra um dos seus mais promissores rebentos. O doloroso processo de exclusão do filósofo judeu Baruch de Espinoza, comparável às piores excomunhões da igreja católica romana. Uma sombra e ameaça a todos crentes da liberdade, exemplo da contradição de perseguidos que se tornam perseguidores, esquecidos já do passado e imprudentes do avenir. 

Carta de excomunhão emitida pela Comunidade Judaica Portuguesa de Amsterdã, em 1656:


Os senhores do Mahamad fazem saber a vossas mercês: como há dias que, tendo notícia das más opiniões de Baruch de Espinosa, procuraram por diferentes caminhos e promessas retirá-lo de seus maus caminhos; e que, não podendo remediá-lo, antes, pelo contrário, tendo a cada dia maiores notícias das horrendas heresias que praticava e ensinava, e das enormes obras que praticava; tendo disso muitas testemunhas fidedignas que depuseram e testemunharam tudo em presença de dito Espinosa, de que ficou convencido, o qual tendo tudo examinado em presença dos Senhores Hahamín, deliberaram com o seu parecer que dito Espinosa seja excomunhado e apartado de toda nação de Israel como atualmente o põe em herém, com o Herém seguinte:
Com a sentença dos Anjos, com dito dos Santos, com o consentimento do Deus Bendito e o consentimento de todo este Kahal Kados, diante dos Santos Sepharin, estes, com seiscentos e treze parceiros que estão escritos neles, nós Excomunhamos, apartamos, amaldiçoamos e praguejamos a Baruch de Espinosa, como o herém que excomunhou Josué a Jericó, com a maldição que maldisse Elias aos moços, e com todas as maldições que estão escritas na Lei. Maldito seja de dia e maldito seja de noite, maldito seja em seu deitar e maldito seja em seu levantar, maldito ele em seu sair e maldito ele em seu entrar; não queira Adonai perdoar a ele, que então então semeie o furor de Adonai e seu zelo neste homem e caia nele todas as maldições escritas no livro desta Lei. E vós, os apegados com Adonai, vosso Deus, sejais atento todos vós hoje. Advertindo que ninguém lhe pode falar oralmente nem por escrito, nem lhe fazer nenhum favor, nem estar com ele debaixo do mesmo teto, nem junto com ele a menos de quatro côvados (três palmos, isto é, 0,66m; cúbito), nem ler papel algum feito ou escrito por ele”.

Portanto, As Esperanças de Israel na obra do rabino Menassé ben Israel, confundem-se com As Esperanças de Portugal na utopia judaizante do padre Antônio Vieira, que é "prologomeno" à História do Futuro e, por fim, à Chave dos Profetas, condenados pelo Santo Ofício. Rios tormentosos que confluem nas esperanças do Brasil na visão edílica de Stefan Zweig.

Agora a carga da jangada de pedra de Saramago está quase pronta: depois do 25 de Abril ela já se faz ponte sobre a boca do Mediterrâneo ligando a Península Ibérica a África e termina por unir, na viagem dos Turcos Encantados e travessia memorial do rei Abubakari; as duas margens do Atlântico misturando antiguidades da multidão de gentes com as suas respectivas bagagens que transitam no território da memória.

Cada pessoa que fala e entende a língua de Camões - mesmo sem perceber -, tem poder de ressignificar o passado e inventar o futuro. Dar novo sentido ao vasto mundo mediante a psicanálise da história e a arqueologia das ideias.


Oh, musa do meu fado,
Oh, minha mãe gentil,
Te deixo consternado
No primeiro abril,

Mas não sê tão ingrata!
Não esquece quem te amou
E em tua densa mata
Se perdeu e se encontrou.
Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal:
Ainda vai tornar-se um imenso Portugal!

Fado Tropical, Chico Buarque.

"Só a Antropofagia nos une. Socialmente. Economicamente. Filosoficamente.


"Única lei do mundo. Expressão mascarada de todos os individualismos, de todos os coletivismos. De todas as religiões. De todos os tratados de paz.

"Tupi, or not tupi that is the question.

"Contra todas as catequeses. E contra a mãe dos Gracos." (Manifesto Antropófago, Oswald de Andrade, 1928).

Valeu a pena? Tudo vale a pena se a alma brasílica não é panema!


Cerca do ano 400 depois da gloriosa Ressurreição de Jesus Cristo, nossos antepassados fizeram a primeira ecocivilização amazônica, no maior arquipélago fluviomarinho da Terra, criaram em cerâmica a arte primeva do Brasil, a Cultura Marajoara. Isto deveria ser ensinado de cor e salteado em todas as escolas primárias do país até o Gigante adormecido despertar no berço esplêndido. No delta-estuário da maior bacia fluvial deste planeta, cinco mil anos de nomadismo ficaram pra trás. Engenheiros e arquitetos pés descalços construíram as primeiras aldeias suspensas da história do Brasil pré-colonial. 

Masporém, o país oficial "caricato e burlesco" que Machado de Assis acusava, desprezou a arquitetura do barro dos começos do mundo por preferência exclusiva à pedra colonial. No rio Babel pajés-açus ou verdadeiros sabiam talvez que a antiga guerra entre os Aruak e Kalina cedo iria descambar em guerra geral de resistência à invasão dos Tupinambás vindos de longe a procura do lugar mágico onde não existe fome, escravidão, doença, velhice e morte. Evangelho tropicalista pra fazer inveja à Agenda 2030 dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável.

Deixa estar, que o determinismo da yvy marãey (terra sem mal), para além do sonho ou adivinhação dos profetas indígenas, seguiu o caminho da mãe dos viventes, Guaracy (que os brancos chamam Sol). Deste fado tropical aproveitou o regime de capitanias hereditárias (1530), verdadeira tragédia do país do pau-brasil que o paraíso que a carta de Caminha pintou cedo se perdeu entre árvores e esquecimentos, como escreveu o historiador Victor Leonardi.

As muitas línguas "dificultosas" no dizer do payaçu dos índios, padre Antônio Vieira; foram barreira natural não apenas aos padres em suas missões para levar as boas novas de Cristo às tribos perdidas do cativeiro da Babilônia nas Índias Ocidentais... Os mesmos índios não se entenderam entre si antes dos padres inventar o Nheengatu, a boa língua-geral amazônica. O professor manauara José Ribamar Bessa Freire informará.


O CONDE ITALIANO COLEGA DE PAJÉS

Fiel ao manual de Von Martius seguido por Varnagen como se deve escrever a história do Brasil; o país oficial quase não prestou atenção nenhuma ao conde italiano Ermano Stradelli em sua aventura amazônica. Salvou-lhe do ostracismo Luís da Câmara Cascudo. 

O conde italiano se naturalizou brasileiro, em 1893. Ano da grande exposição universal de Chicago aonde foram mandadas peças cerâmicas marajoaras pelo Museu Nacional do Rio de Janeiro extraídas do teso (sítio arqueológico) do Pacoval achado em 1756 por Florentino da Silveira Frade, segundo o naturalista Alexandre Rodrigues Ferreira. Interessa? Ao povo marajoara, certamente sim. Ao povo do Domingão do Faustão, não. 

Masporém, o Brasil oficial e caricato sequer se interessa pela história do padre italiano Giovanni Gallo (Turim, 1927 - Belém do Pará, 2003), naturalizado brasileiro como seu compatriota há quase um século antes, este último inventor por acaso do primeiro ecomuseu comunitário brasileiro a partir de "cacos de índio" (fragmentos de cerâmica marajoara) encontrados ao leu pelos campos nos rastros de contrabandistas de cerâmica arqueológica e ladrões de gado.

De certa maneira, a imaginosa gente marajoara que já inventou que o criador do Museu do Marajó é, paresque, "reencarnação" de um grande cacique marajoara; fazendo coro ao realismo mágico ainda poderá considerar que o conde Stradelli e o padre Gallo são duas pessoa distintas e um único personagem verdadeiro.

Em 1897, para encarar o monopólio anglo-americano na extração e comércio da borracha, Ermano Stradelli retornou a Itália para propor negócio ao industrial Giovanni Battista Pirelli, que não aceitou. Pirelli acabaria fazendo sua 'plantation' na margem do rio de Guamá, que foi cacique bandoleiro dos índios bravios Aruãs e deu azo para Palheta ir ao seu encalço furtar o café de Caiena que, depois, foi enricar os barões do café em São Paulo. 

Stradelli faria uma derradeira viagem a Itália, em 1901, para participar de conferência da Sociedade Geográfica Italiana. Em 1912 estava ele em Tefé e em 1923, doente de hanseníase, foi exonerado do cargo de promotor. Ainda tentou retornar à terra de seu nascimento, mas a única empresa de navegação que fazia a linha recusou-se a embarcá-lo, por conta da doença. Internou-se voluntariamente no leprosário de Umarizal, em Manaus, e lá morreu numa cabana "generoso com seus companheiros de infortúnio e cercado de mapas, manuscritos e lembranças". No isolamento, Ermano Stradelli conheceu Nininha, filha de ex-escravos que lhe ensinou Nheengatu, a língua-geral amazônica; que lhe permitiu escrever seu dicionário. 

Além de fotografias que registram momentos históricos da Amazônia e suas gentes, os escritos de Stradelli deixaram um legado que vai de um poema sobre Ajuricaba, um vocabulário tucano, dicionário Nheengatu-Português, mapas do Amazonas e registro de mitos indígenas. Revela a imagem mítica de Jurupari, herói civilizador; criador de normas e usos transmitidos oralmente; afastando assim a ideia de que o espírito tutelar dos tupis fosse o diabo que os missionários católicos tinham introduzido junto à população indígena e caboca.

IMPÉRIO DO ESPÍRITO SANTO NA TERRA IMATURA. 

A cultura nunca se aparta da história. A poesia é a quinta-essência da arte: reino da imaginação onde os deuses e os demônios fazem morada: 

o céu e o inferno estão em ti, coração!

O fado tropical fez o reino de Portugal divino e maravilhoso conquistar suas duas colônias na América do Sol: o estado do Brazil, capital Bahia de todos os santos orixás; e o estado do Maranhão e Grão-Pará ou vice-versa, capital São Luís e/ou Belém do Pará. Vulgo Amazônia portuguesa (1615-1823), enfim brasileira graças aos bravos guerreiros e canoeiros da grande nação tupi-guarani da yvy marãey, dita a Terra sem mal. 

Não leve a mal, meu doutor... Masporém, sem a saga dos tupinambás e o reino do divino espírito santo nas terras do país tropical abençoado por Deus e bonito por natureza, a história do Brazil ficaria encalhada na linha imaginária de Tordesilhas. 

Aliás, seu doutor; sem as inverossímeis pazes do rio dos Mapuá, na ilha grande dos Marajós; entre os sete caciques nheengaíbas rebeldes e o delegado d'el-rei de Portugal para as missões do Maranhão e Grão-Pará, Padre grande dos índios Antônio Vieira; adeus bababau grande Pará-Uaçu (Grão-Pará), que grande Guiana anglo-holandesa isto tudo teria sido!

Então, me diga, professor! Foi o Nordeste que fez brasileiro o Norte: nossa sorte, paresque, foi haver o espírito indígena Jurupary, filho da virgem mãe das lágrimas, Ceucy; grávida do sol na fotossíntese por via da fruta selvagem chamada Cucura do Mato ou Cucura-purumã, Mapati, Imbaúba-mansa, Uva-da-mata (Pourouma cecropiifolia). 

A virgem donzela foi à floresta comer o doce fruto da Cucura-purumã; o senhor e a senhora sabem que o Mapati dá vinho que nem uva? Por isto os brancos chamam Uva-da-mata à essa fruta amazônica: o índio catecúmeno do Rio Negro nunca tinha visto uma parreira com cacho de uva, masporém o padre mestre carmelita já sabia dos prodígios vegetais da planta... Antão, paresque; o padre querendo que o artesão indígena esculpisse cachos de uva no retábulo do altar-mor da igreja do Carmo, na Cidade Velha de Belém do Pará; mandou o índio esculpir na madeira alguns cachos de Cucura-purumã. Ficou escritinho. Quem vê jura que não é cucura...

Nem desconfia que aquilo não é uva. Nem sabe que para os "nossos" índios o pé de pau que dá Uva-da-mata é a árvore do Bem e do Mal na cultura tupi-guarani... Pobre Ceucy! Moça que nunca comeu cucura quando come se lambuza, veja o que lhe aconteceu: o mel da fruta escorregou do céu da sua boca e foi descendo-lhe abaixo pelos seios, o ventre e enfim entrou nas partes íntimas, lá dela!

Que escândalo na maloca! Numa tribo catequizada onde talvez houvesse entre seus curumins filhos de boto, na maior tranquilidade e santa paz entre vigário padrinho e índio compadre; por que renegar a cunhantã que ficou grávida do Sol pela magia da floresta tropical úmida? Na verdade, aquela gravidez indesejada era artimanha dos pajés-açus. Pajé-açu é o caraíba falado, senhor malvado; que pode dar a morte a uma pessoa com uma simples espiolhada. Guerra metafísica entre a santa madre religião e a bárbara pajelança.

A mãe das lágrimas foi banida, sem dó, da maloca e vagou sozinha pela floresta amazônica até que os últimos raios de sol desapareceram rumo ao Araquiçaua, lugar sagrado onde o astro do dia ata sua rede para dormir. Então, como de costume entre mulheres indígenas e fêmeas animais; Ceucy pariu sozinha na beira do igarapé: assim nasceu Jurupary. 

Coisa estúrdia! Buda, Cristo e Jurupary vieram ao mundo no seio de uma virgem mãe... O excomungado Espinoza diria mãe Natura.

O espírito Jurupary é aquele um que fala e ri pela boca do pajé. O herói civilizador da Amazônia nativa já nasceu grande que nem Lao Tsé, na velha China, nasceu velho. Jurupary aparecia certas noites nas malocas como uma sombra, quando ele escolhia alguém para receber o dom da profecia. Antão, descia pelo punho da rede do neófito que nem cobra e colocava a mão em riba do peito da criatura lhe tirando a fala pra não gritar de susto. Aí Jurupary, a coisa; encostava sua boca de pesadelo no ouvido do aprendiz. E, no mais profundo silêncio do inconsciente coletivo, o espírito telúrico ia ditando tim por tim todas coisas misteriosas da vida e da morte que aquela gente convinha saber desde o passado, presente e futuro. Sigmund Freud informará...

Aí, o drama amazônico se instalou com a guerra dos sexos. A antiquíssima civilização tapuia havia o matriarcado por regime: era natural, pois afinal de contas; os machos andavam longe atrás do de comer enquanto a mulherada com suas crias e a velharada andava devagar atrás. Portanto, quem mandava no pedaço era a mulher. Até o dia que Jurupary nasceu, como agora a gente já sabe.

Então, era a vez da revolução dos homens! Eita, confusão!

Diz-que a mulherada fez a greve do sexo e se mandou rio acima para morar na beira do lago Espelho da Lua: daí saiu a estória das mulheres sem marido, chamadas cunhã-tecoyma ou icamiabas que deram origem a célebre lenda das amazonas relacionadas ao muiraquitã. A causa da revolução foi o tal Jurupary ensinar aos homens a fazer roçado pra plantar mandioca, criar aldeia e instituir a Casa dos Homens proibida à entrada de mulheres... O "boca fechada" (juru, boca; pary, tapagem) estabeleceu o Segredo pelo medo. Claro está que no antigo regime matriarcal as mulheres tinham lá seus grandes segredos para amedrontar e dominar os homens: era e continua sendo exclusivamente delas a arte e ciência do curare (veneno), a fabricação da farinha da mandioca brava, feitiços e rezas fortes.

A primeira lei de Jurupary diz respeito ao guerreiro não se alimentar se não pelo trabalho de sua própria mão e do suor de seu rosto. Não acumular nada e se vingar dos inimigos de sua gente. A mãe Natureza criou o homem para dormir e sonhar a Terra sem males. O sonho da planta e do bicho terá talvez engendrado o primitivo ser humano. Resiliência é o nome que os doutos dão aos caruanas (espíritos telúricos) da Pajelança. 

Filha da animalidade a humanidade, para progredir, carece consciência de ser no mundo. A fim de escapar da escravidão das trevas e ir ao encontro da liberdade; urge descobrir o caminho da luz do primeiro dia após a primeira noite do mundo. 

Por necessidade e acaso, os homens antigos criaram deuses imortais e os deuses enlouqueceram e se revoltaram contra seus criadores mortais. Freud explica, Eros e Tanatos...

O pássaro existe para voar e o peixe para nadar, assim também o Homem filho do pai Eterno ou da grande deusa mãe veio a esta vida desolada para Ser humano (amar, saber, criar e inventar o mundo). 

Masporém, o filho do Homem é Espírito santo ou quase santificado pelo sofrimento, ser iluminado de natureza cósmica que perpassa a todas as coisas: o homem é uma corda estendida sobre o Abismo, um passar e sucumbir, Assim falou Zaratustra diz Nietzsche... Deus está morto, ma non troppo bem se vê na pletora de igrejas da prosperidade.

O além do Homem é matéria plena de espiritualidades segundo profetas da Idade do Espírito Santo e o evolucionista jesuíta Pierre Teilhard de Chardin construindo a ponte entre ciência e teologia paleolítica, não vai contra Pierre Levy com a teoria da inteligência coletiva. E eu com isto?

Louvados sejam o profeta-poeta Bandarra, o padre grande dos índios Antônio Vieira e o filósofo sebastiano Agostinho da Silva! Corra atrás do pensamento destes três portugueses fora de série, antes que se apague para sempre como a luz fóssil de uma estrela que consumiu seu último grão de combustível.

A invenção do futuro é permanente: assim, a metáfora ibérica da jangada de pedra de Saramago, torna-se por acaso concretude da utopia iberiana (ver Novíssima viagem filosófica, José Varella Pereira, em Revista Iberiana: Secult, Belém, 1999). Casamento da heresia dos índios da Terra sem males com o sebastianismo nordestino. "Fizemos Cristo nascer na Bahia ou em Belém do Pará".


RESSIGNIFICAR O APOCALIPSE E A DESCOBERTA.

Arte de decifrar a Esfinge e desatar o nó Górdio, ciência da arqueologia das ideias e psicanálise da história: Dom Sebastião ressuscita todo dia com a Encantaria na pedra do reino do Rei Sabá, em São João de Pirabas, no Salgado paraense e mais outras dimensões praianas do território da memória popular. 

Se isto não for milagre do Divino eu não sei mesmo o que se pode chamar milagre. Palavra de ateu graças a deus...

Manifestadas no velho Portugal cego pelo antissemitismo cristão-velho, as esperanças do futuro pelo cristão-novo sapateiro trovador da vila de Trancoso, Gonçalo Annes Bandarra, são continuação de utopias medievais da ralé judia e da massagada árabe sem terra dispersas pela Terra dos "homens bons". 

Filhos da Diáspora das tribos perdidas do cativeiro da Babilônia perseguidos na Europa e refugiados na América a bordo do milenarismo de Joaquim de Fiori, selado no inconsciente coletivo das populações tradicionais com destino às novas gerações de índios ocidentais, na História do Futuro.


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desenho do espirito santo em crochê | Congada Divino Espírito Santo

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Joaquim de Fiore, também conhecido por Gioacchino da Fiore, Joaquim de Fiori, Joaquim, abade de Fiore ou Joaquim de Flora (Celico, Itália, 1135 - Pietrafitta, Itália, 1202) foi um abade cisterciense e filósofo medieval defensor do milenarismo e do advento da idade do Espírito Santo. 



Carece identificar, denunciar e revelar a Colonialidade incutida em nossas mentes. Carma de nossos avós e sina de nossos netos. Vem da Idade Média as ideias que desembarcaram no Brasil-Colônia a partir de 1530: aqui o choque físico e mental com o Outro logo barbarizado, diabolizado e apesar de tudo mestiçado e assimilado. Já na velha Ibéria romanizada morava a contradição entre Celtas, Cristãos, Judeus e Mouros. A dialética do antissemitismo e anti-islamismo cristão deu curso ao complexo fenômeno marrano que cobre grande parte da história na Europa: são marranos ou cristãos-novos, criptos-judeus; a maior parte dos colonizadores das Américas.

O Brasil profundo vem do fundão das imaginações ultramarinas à procura do vermelho brazyl no fictício país de São Brandão, as ilhas Afortunadas e Antilha, por disfarce de mercadores que mentem como um fenício. Vem dos começos da idade do barro com os sambaquis e o carvão das fogueiras pré-históricas há dez mil anos atrás. Vem dos povos originais a voz do Brasil na música de raiz que nasce da terra, das fontes amazônidas do Rio-Mar, das barrancas do São Francisco; serras das Minas Gerais, da querência solitária do Pampa gaúcho; da beira mar com a lida dos jangadeiros, caiçaras, catadores de caranguejos nos manguais; no carimbó praiano; no cateretê caipira; cantos cantorias do sertão e tantos outros ritmos que o povo faz, canta e encanta por aí os muitos Brasis. Artes populares mil nas roças, sítios, lugarejos, campos e cidades do planeta Brasil.



Gonçalo Annes Bandarra (Trancoso - Portugal, 1500 - 1556),
poeta, profeta, sapateiro.

"A arte feita pelo povo pobre do Brasil é a arte popular". Palavra de Ariano Suassuna, criador do movimento Armorial, professor, dramaturgo e romancista, autor do Auto da Compadecida (escrita em 1955). Povo segundo Suassuna é o 4º. Estado, ou seja, os ‘analfabetos' que aprenderam na escola da vida, os doutores da universidade da maré; os retóricos pé no chão sem diploma; os desempregados, os que não têm amparo público, os que não têm espaço na mídia, o povo humilde, mas alegre, que está nas ruas, nas praças públicas, lutando e vencendo preconceitos e obstáculos, gente autêntica que cria sem se importar com as conseqüências.


Estátua do profeta Bandarra em Trancoso (Portugal)



Esta história picaresca conta 80 outubros de uma vida gerada por necessidade e acaso no lugarejo chamado Fim do Mundo. Uma vida saída paresque do cativeiro da Babilônia e das tribos perdidas do rio Babel (Amazonas), com certeza. Prenhe de ancestralidade e coletividades desde o mito original da primeira noite do mundo em terras de África. Uma história inventada na beira do caminho da Anta ou Via Láctea a bordo duma pequena arca solar chamada Terra. Uma humilde semente levada pelo vento misturada à poeira da estrada pisada a pé pela ralé judia e a massagada árabe dispersas nos caminhos do mundo.

Eu sou apenas um velho caboco marajoara que, desde jitinho, teve muita curiosidade em saber quem inventou o mundo. Minha santa mãe católica apostólica romana levou-me à igreja para aprender catecismo e fazer primeira comunhão: disse-me ela que a hóstia consagrada é o corpo de Deus, que eu não me atrevesse a morder e mastigar a Divina carne. Antes não dissesse nada. Eu só queria saber que gosto há na eucaristia, se dela sairia sangue. Antropofagia ou teofagia do divino pão? Eita confusão! 

Além disto, em pânico face à perspectiva danada das penas do Inferno, eu inventei um estória ridícula dizendo que a heresia minha fora ideia de meu primo. Mamãe queria que eu fosse para o seminário de Belém a fim de ser padre... Meu pai caboco de sangue cabano, pelo contrário, queria que eu fosse fazer carreira militar. Meu avô materno fugiu da guerra da Espanha e o paterno foi capitão da Guarda Nacional; meu bisavô marrano morreu pelo rei castelhano, o outro cristão-novo de origem portuguesa foi combatente do corpo de Voluntários da Pátria na guerra no Paraguai. 

Eu porém, por força do acaso e uma pitada de vontade própria, cai fora da enrascada genealógica: nem padreco, nem soldadinho de chumbo... Acabei sendo um bisonho repórter de província; por pouco tempo; saí do jornal para ser reformador político, sem sucesso... Masporém, por necessidade de emprego, enveredei pela burocracia municipal, estadual e federal até me aposentar. Por acaso, no dia da queda da Bastilha, ano de 1998. Em 1999 publiquei meu primeiro ensaio, três anos depois o segundo... Aí me tornei blogueiro na universidade da maré. Ateu graças a Deus, comunista marajoara da linha evolucionária de Jesus Cristo Ressuscitado; zen-bubuia de linhagem na pajelança caboca.

Masporém, para traçar este meu caminho tive sorte de ser bem alfabetizado pela professora Alda no Grupo Escolar Aureliana Feio Monteiro, de Itaguari (Ponta de Pedras); haver avô professor e colecionador de revistas Chácaras e Quintais onde aprendi a ser fazendeiro de carneiros, zebus, cavalos nas nuvens e vaquinhas de presépio feitas de mangas verdinhas caídas ao chão do quintalzão imenso como a floresta amazônica. Melhor de tudo, quando eu cresci e minha avó postiça, na verdade tia; deu-me pra ler Dalcídio, dizendo ela na hora da sesta: toma, lê; foi escrito pelo teu tio... Era o romance Marajó. Primeira leitura e espanto para um pirralho que apenas lia, malmente, Chácaras e Quintais... Caíram-me as escamas dos olhos.

Foi assim, sem mais porém, certo dia, em Brasília, ouvi falar em Stefan Zweig pela primeira vez. Não prestei lá muita atenção à palestra, mas o título do livro deu-me curiosidade, Brasil, um País do Futuro (1941). Com a Segunda Guerra Mundial e invasão das tropas de Hitler na França e toda Europa Ocidental,  Stefan e Lote, em 1940, se estabeleceram inicialmente em Nova York, nos Estados Unidos. Donde, em 22 de agosto do mesmo ano, fizeram a primeira viagem ao Brasil. Depois desta, fizeram mais duas viagens ao país do futuro, entre 1940 e 1941, da Bahia Stefan escreveu a seus cunhados Manfred e Hannah Altmann:


"Você não pode imaginar o que significa ver este país que ainda não foi estragado por turistas e tão interessante – hoje estive nas cabanas dos pobres que vivem aqui com praticamente nada (as bananas e mandiocas estão crescendo em volta) e as crianças se desenvolvem como se estivessem no Paraíso –, a casa inteira, desde o chão, lhes custou seis dólares e, por isso, são proprietários para sempre. É uma boa lição ver como se pode viver simplesmente e, comparativamente, feliz – uma lição para todos nós que perdemos tudo e não somos felizes o bastante agora, ao pensar como viver então".

Nesta viagem, com ajuda de Lotte, Stefan reuniu suas anotações e finalizou o ensaio "Brasil, um país do futuro", título que se tornaria marca especial do pais tropical. Apesar da depressão que o escritor sentia por conta da guerra na Europa, ele idealizava o Brasil com as condições não apenas de recriar sua vida particular, mas também da antiga atmosfera da natal. Para o biógrafo Alberto Dines, Zweig foi um dos últimos remanescentes da cultura e do modo de vida europeus do século XIX. Seu desânimo com o avanço do nazismo viria de muito tempo antes, desde a Primeira Guerra Mundial, quando os primeiros sinais de rompimento com a velha ordem imperial europeia se mostraram.

Stefan Zweig foi recebido com entusiasmo pela intelligentsia brasileira. Para os intelectuais brasileiros, a presença de tão renomado escritor trazia prestígio e oportunidades de um intercâmbio com outros escritores estrangeiros. Mas para as autoridades políticas, a chegada de Zweig, com sua bagagem liberal antinazista, era contraditória. O governo Vargas flertava com o fascismo, muitos ministros e assessores militares simpatizavam com Hitler e Mussolini. Por outra parte, elementos liberais do estado brasileiro aproveitaram para se aproximar de Stefan Zweig a fim de atingir seus objetivos.

"Considerando que o nosso velho mundo é, mais do que nunca, governado pela tentativa insana de criar pessoas racialmente puras, como cavalos e cães de corrida, ao longo dos séculos a nação brasileira tem sido construída sobre o princípio de uma miscigenação livre e não filtrada, a equalização completa do preto e branco, marrom e amarelo".

Em 1942, deprimido com o crescimento da intolerância e do autoritarismo na Europa e sem esperanças mais no progresso da humanidade, Zweig escreveu uma carta de despedida na cidade de Petrópolis e suicidou-se com a mulher, Lotte, tomando dose mortal de barbitúricos. A notícia chocou todo mundo. O casal foi sepultado no cemitério da cidade, de acordo com as tradições fúnebres judaicas. A casa de Sefan Zweig hoje é um centro cultural dedicado à memória de sua vida e obra.

Carta de Despedida:


"Antes de deixar a vida por vontade própria e livre, com minha mente lúcida, imponho-me última obrigação; dar um carinhoso agradecimento a este maravilhoso país que é o Brasil, que me propiciou, a mim e a meu trabalho, tão gentil e hospitaleira guarida. A cada dia aprendi a amar este país mais e mais e em parte alguma poderia eu reconstruir minha vida, agora que o mundo de minha língua está perdido e o meu lar espiritual, a Europa, autodestruído. Depois de 60 anos são necessárias forças incomuns para começar tudo de novo. Aquelas que possuo foram exauridas nestes longos anos de desamparadas peregrinações. Assim, em boa hora e conduta ereta, achei melhor concluir uma vida na qual o labor intelectual foi a mais pura alegria e a liberdade pessoal o mais precioso bem sobre a Terra. Saúdo todos os meus amigos. Que lhes seja dado ver a aurora desta longa noite.
Eu, demasiadamente impaciente, vou-me antes.
Stefan Zweig
Petrópolis, 23 /02/1942.

O BRASILEIRO QUE FUGIU DO FRIO

Paul Israel Singer nasceu numa família de pequenos comerciantes  judeus de Erlaa, subúrbio operário de Viena. Em 1938 a Áustria foi anexada à Alemanha e aí começou a perseguição aos judeus. A família Singer decidiu emigrar. Em 1940, ano da primeira viagem de Zweig e Lott ao Brasil; os Singer radicaram-se em São Paulo, onde já tinham alguns parentes. Em 1948 o jovem Paul Singer se encontrava participando do movimento kibutziano Dror (atual Habonim Dror). 

Em 1951 ele se formou em eletrotécnica de ensino médio, na Escola Técnica Getúlio Vargas, de São Paulo. Então exerceu a profissão entre 1952 e 1956. Período em que se filiou ao Sindicato dos Metalúrgico de São Paulo. Na qualidade de trabalhador metalúrgico, Paul Singer liderou a histórica greve dos 300 mil, que paralisou a indústria paulistana por mais de um mês, em 1953.  Obteve cidadania brasileira em 1954 e se consagrou como principal líder da Economia Solidária brasileira.

FADO TROPICAL

Guitarras e sanfonas,
Jasmins, coqueiros, fontes,
Sardinhas, mandioca
Num suave azulejo
E o rio Amazonas
Que corre Trás-os-Montes
E numa pororoca
Deságua no Tejo...
Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal:
Ainda vai tornar-se um império colonial!
Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal:
Ainda vai tornar-se um império colonial!


Chico Buarque e Ruy Guerra.