quinta-feira, 27 de março de 2014

REVISTA IBERIANA: 15 ANOS REMANDO CONTRA A CORRENTE NEOCOLONIAL.


Pedra do Pilão (foto de Geraldo Ramos), serra Paytuna, Monte Alegre-PA


"CARO LEITOR,

A REVISTA IBERIANA vem hoje para focalizar a Amazônia em seu contexto histórico e geográfico, dirigindo-se opcionalmente ao mundo lusofônico e ibero-americano. Traz à reflexão o fenômeno global da civilização ultramarina encetada pela Península Ibérica, na revelação deste espaço amazônico.

Pretende ser iberiano na medida em que os elementos ameríndios, africanos e ibéricos - na América do Sol - se integram e realizam a síntese equinocial.

A cada semestre pretendemos trazer diversos autores e estudiosos deste conjunto internacional multicultural. Todavia, para o primeiro número da publicação estamos apresentando unicamente o texto completo de a Novíssima Viagem Filosófica, de autoria do organizador da revista.

Posteriormente, este trabalho deverá ser editado em separado e com ilustração fotográfica. Para a REVISTA IBERIANA o ensaio tem o papel de manifesto dos objetivos desta. Pois o cuidado do passado, para nós, tem a esperança do Futuro na comunidade iberiana. Isto é, construção comum de uma página pós-colonial por todos os povos que a História uniu a partir da empresa marítima de Sagres. A "Cidade do Pará" tem aí uma expressão geográfica que não pode ficar à margem da mesma História, e será a união de intelectuais, pesquisadores, investidores, homens públicos e leitores que poderá fazer acontecer o Século 21 para a dita comunidade.

Belém do Pará, Outubro de 1999
José Varella Pereira."

REVISTA IBERIANA:
descobrindo o futuro, resguardando o passado

     Se você vivesse aos começos da Escola de Sagres e o convidassem a participar do descobrimento dos Caminhos Marítimos, iria perder a chance histórica? Certamente nem todos acreditaram no projeto lusitano. Como até D. Manoel, o Venturoso, duvidou da possibilidade de Cristóvão Colombo chegar às Índias pelo caminho do Ocidente (que de fato não chegou mas descobriu a América). Você acreditaria naqueles homens aventureiros cheios de esperanças e de sonhos cujos 500 anos lembramos?

     Agora a viagem ao Século 21 já começou. Todo mundo quer dela participar. E a civilização atlântica que a Península Ibérica inaugurou nos Trópicos tem parte importante na Amazônia. É hora de se escrever nova página da mesma História. Não mais de conquistas e descobrimentos mas da consolidação da Comunidade de Países de Língua Portuguesa e integração ibero-americana: coroamento necessário, daquele tempo em cujo espaço comum estamos inseridos.

     Na galáxia de Camões e Cervantes, a Amazônia iberiana veste-se da mais verde das esperanças. Dentro dela brilha singular estrela no céu equatorial: Belém do Pará, a mais iberiana cidade da Terra!  Por que é iberiano o portal da Amazônia? E não apenas ibérico, africano ou ameríndio ... Porque tendo fortes raízes indígenas, africanas e lusitanas, esta Cidade do Pará é tudo isto e mais alguma coisa. Pois esta coisa a mais é o modo de ser iberiano (para não dizer caboclo): singularidade e diversidade ao mesmo tempo e espaço. Fato de que, cada um a seu modo, pode se orgulhar igualmente aos povos ibero-americanos e da lusofonia. Está claro?

     A cidade de Belém, capital do Estado do Pará, foi aquele espaço lusofônico que, fundado no século XVII, foi baluarte desta mesma multifacetada civilização ultramarina. Conquistando a milenar Terra dos Tapuias ou Grão Pará (pelas armas combinadas de soldados portugueses e guerreiros Tupinambás) também foi conquistada por esta terra por esta terra até ser o inseparável espaço afro-luso-tapuia de agora. A maior cidade lusofônica no círculo do equador, Belém do Pará expressa a federação brasileira e a comunidade luso-brasileira neste largo contexto internacional, para construção solidária de um novo tempo.

     Amanhã esta Belém histórica quer ter sua expressão geográfica reconhecida plena e concretamente na comunhão na lusofonia internacional e da cooperação ibero-americana. Em um movimento dialético quer continuar sendo regaço ultramarino mas também pretende ser polo irradiador equatorial transcontinental. Que a proposta da REVISTA IBERIANA expressa a intelectuais, políticos, empresários e assinantes para construção não apenas de uma publicação como qualquer outra. Mas de um veículo de ideias e debates destinado a fomentar o descobrimento lógico, pacífico e cooperativo daquele movimento humano que, da Península Ibérica antigamente, deu partida sobre trilhos abertos no Mar-Oceano.

 27 de Março de 2014, 387 anos do Ver O Peso.
 
A Academia do Peixe Frito relança a ideia da REVISTA IBERIANA e nos convida a repensar a expressão geocultural do Pará na perspectiva da integração das Amazônias azul e verde, na universidade da maré, animada pelo coração pulsante da criaturada grande de Dalcídio Jurandir.
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UM FAROL DE IDEIAS PARA NAVEGAÇÃO DO FUTURO

Diz a canção popular, o país que se chama Pará tem porto de mar no Caribe. E, não por acaso, canta o hino oficial devido à saga da brava nação Tupinambá, com certeza, é o Pará do Brasil sentinela do Norte...  

A história não se muda, todavia urge revisar nossa velha historiografia colonial ditada de alto abaixo por laureados bolsistas do imperial mecenato de Dom Pedro II. Desta festejada história chapa branca todo mundo deve saber, a controvertida revolução paraense, apelidada pelo sábio Basílio de Magalhães a Cabanagem das classes infames; foi borrada e varrida para fora da História. 

Mas, que diabos esta gente "malvada" queria, com tamanha ousadia e subversão popular na periferia da Periferia ao mesmo tempo que todo mundo industrial se agitava com as dores do parto da Modernidade? Nada mais ou nada menos disto que hoje se chama Democracia. Entendida como governo do povo, com o povo e para o povo... Claro está que, para nós, uma tal cabanagem deveria ser permanente. Doravante, entretanto, pacífica mas sempre alerta e vigilante para o tempo nunca mais andar pra trás...

Assim como o rio grande das Amazonas, também o tempo não para. E o tempo real se chama história, quando a memória e a inteligência dos povos não falham. O que aquela velha gente "tapuia" queria de verdade, vindo à vela e remo desde as ilhas do mar das Caraíbas para a terra firme em grandes migrações náuticas, antes mesmo de Colombo chegar às Antilhas, era habitar o tempo no sonhado e distante país do Arapari (constelação do Cruzeiro do Sul), o Brasil gigante da América do Sul.  Por isto, é verdade completamente dizer que o nosso Brasil brasileiro começa de fato no Oiapoque.

O circum-Caribe é um termo clássico da antropologia americana que antecede sua aplicação geopolítica no campo da integração brasileira e da Pátria grande latino-americana. Quem melhor que o Pará velho de guerra deveria atualizar os diversos tempos da amazonidade? Se pela dinâmica de diferentes povos vindos de diversos horizontes, coube a esta gente da ilha do Marajó no contexto da Guiana brasileira inventar a ecocivilização da Amazônia (a mal conhecida e insuficientemente estudada Cultura Marajoara, de 1500 anos de idade!).

Nós não podemos ficar eternamente a gapuiar na beira do rio ou mariscar à beira mar a nos queixar da sorte esperando Godot ou que as autoridades de Brasília e da ONU nos digam o que fazer. Temos sim dever de fazer nossa parte. Isto não significa inventar a pólvora, mas entender o que o passado está a nos dizer através de "cacos de índio" no Museu do Marajó com relação ao que se poderá fazer daqui em diante.

Aqui o passaporte do futuro para o povo paraense ingressar de fato ao século XXI, a singrar as ondas da Amazônia azul e sondar o mar profundo sem perdição da Amazônia verde onde ele tem enterrado seu cordão umbilical. Quando outubro chegar, nosso delírio poético e presepada original chamada REVISTA IBERIANA fará 15 anos. Em 2009, quando esta revista diletante fez dez anos, após contar a história atrevida da descolonização amazônica --  manifesta no ensaio Novíssima Viagem Filosófica --, nós relançamos a Academia do Peixe Frito, quase cinco décadas depois da morte de seu fundador, durante preparativos para comemoração do primeiro centenário de nascimento de Dalcídio Jurandir (Ponta de Pedras, 10/01/1909 - Rio de Janeiro, 16/06/1979).

Hoje, no aniversário do Ver O Peso queremos agendar para outubro vindouro um encontro da criaturada grande de rio e mar às ilhargas da antiga aldeia de Uirandeua (Atalaia, Salinas do Pará), em vias de se tornar área de proteção ambiental; para relançar a REVISTA IBERIANA doravante em mídia eletrônica. Vamos lá?

     Viva o Ver O Peso! Viva a Academia do Peixe Frito!





sábado, 22 de março de 2014

ILHAS DO MUNDO POR REMOS, VELAS E PENSAMENTOS DE RIOS E MARES REUNIDOS NO PLANETA ÁGUA.




no Ano do Brasil na França, em 2005, pretendeu-se levar um barco popopô, da ilha do Marajó até a Ilha-da-França (Paris) para singrar o Sena.  A nau desta ideia não deixou de viajar.


O Ano do Brasil na França, em 2005, foi uma iniciativa conjunta do governo dos dois países, com propósito de aprofundar as relações bilaterais na área cultural, acadêmica e econômica. O evento mobilizou mais de dois milhões de franceses e teve grande retorno de mídia, atingindo os principais veículos de comunicação do país durante quase todo o ano. Como resultado, houve um aumento de 27% de turistas franceses no Brasil e mais de 450 milhões de dólares em produtos brasileiros exportados para França.

No Pará um grupo de amigos brasileiros e franceses ligados ao Grupo em Defesa do Marajó (GDM) tentou, em vão, participar fazendo "esmolação" (pedido de ajuda) em Belém e Macapá para realizar o projeto denominado "Boiúna" a fim de representar a cultura ribeirinha levando a Paris um barco amazônico típico a navegar o rio Sena. Não deu... Mas, em compensação ao insucesso da viagem da Boiúna em França, no final de 2005 o dito grupo apoiado pela Companhia Paraense de Turismo (PARATUR) conseguiu trazer Jack Lang a Belém e ilha do Marajó no dia de Natal. Em Soure fui presenteado pela obra biográfica "Nelson Mandela, uma lição de vida", versão portuguesa, escrita pelo nosso ilustre visitante. Conhecido homem de cultura e deputado na Assembleia Nacional de Paris, o eterno ministro da cultura de Mitterrand inauguraria por acaso rota literária  - ainda precisando ser conhecida e divulgada - com saída de Paris passando pelas Antilhas e Guiana ida e volta. Um prodígio debaixo do equador! Seria o caso de reformar conhecido ditado pelo seu avesso: se Maomé não foi à montanha, a montanha veio a Maomé... Evidentemente, o planeta Água nesta inovadora rota cultural norte-sul será louvado, dentre outros meios; pela narrativa aquática do romance seminal "Chove nos campos de Cachoeira", de Dalcídio Jurandir, romancista da Amazônia laureado pelo prêmio Machado de Assis.

Em meio à viagem de Jack Lang a Amazônia Marajoara, depois dele ser batizado pela onipresente chuva subindo o rio Camará, divisa entre os municípios de Cachoeira do Arari e Salvaterra; a bordo de lancha voadeira. Ao chegar numa fazenda a meio caminho de distância aos campos de Cachoeira celebrizados no ciclo romanesco extremo-norte, por milagre da tecnologia via satélite ele conseguiu telefonar a Gilberto Gil, que estava ministro e se encontrava longe em Petrópolis, no Rio de Janeiro. Entre rios Camará e de Janeiro malmente ouvia-se o que o outro dizia. Assim mesmo Lang pediu a seu amigo Gil para ambos se interessarem pela apresentação da obra de Dalcídio Jurandir ao público francófono... Ironia do destino, o ministro francês estava convidado a visitar o Museu do Marajó e a plantar solenemente uma muda de árvore Folha-Miúda diante da casa em que o escritor marajoara viveu a infância... no bairro pobre da cidade de Cachoeira do Arari chamado Petrópolis, certamente assim batizado por um espírito burlesco para marcas as diferenças entre habitantes do alto e baixo meio urbano.

Amanheceu o aprazado dia. Em Cachoeira do Arari estudantes nas ruas empunhavam bandeiras do Brasil e da França para dar as boas vindas ao famoso visitante. Então aconteceu o imprevisto. Nem a propósito. As célebres chuvas dos campos de Cachoeira naquela vez caíram a cântaros. O dilúvio retratado no romance dalcidiano. Os caruanas pareciam conspirar contra o planejado e o tempo fechou para pouso e decolagem de aeronaves deste Belém até os centros da ilha, o helicóptero do governo parado ao chão em Salvaterra não pôde decolar por horas e horas. Por prudência, o ministro foi retido ao hotel em Salvaterra só podendo ser traslado a Soure no fim da tarde, onde teve que aguardar ainda avião especial quase à boca da noite a fim de voltar a Belém cancelando a parte mais interessante da programação. Marajó, Marajó... A frustração e irritação eram enormes, então um amigo jocosamente propôs o "suicídio coletivo" para desanuviar o clima.
 
Em 2009, reciprocamente, aconteceu o Ano da França no Brasil quando foram realizados 560 projetos em todo o país, com exposições, shows, concertos, ciclos de cinema, seminários e festivais, que deram ao público brasileiro oportunidade de acompanhar manifestações artísticas da França contemporânea e conhecer mais a fundo a cultura daquele país. Além dos eventos oficiais, o público brasileiro presenciou centenas de outros projetos não oficialmente incluídos na programação oficial, que se estendeu de 21 de abril a 15 de novembro de 2009. Nada, entretanto, de durável que a população do Amapá e Pará ainda possa se recordar nos dias de hoje. Todavia, a disputa territorial pelo Maranhão e Grão-Pará - hoje Amazônia -, assim que as ilhas do Caribe; das chamadas Índias Ocidentais pelos reinos europeus de Portugal, Espanha, Holanda, Inglaterra e França  representa um passado que precisa ser melhor compreendido para inventar um futuro de paz e cooperação entre as duas margens do Atlântico, nos dois hemisférios.

A começar, por exemplo, pelas regiões amazônicas e caribenhas inspiradas por Aimé Cesaire, Bruno de Menezes e outros expoentes da Negritude, lembrando que o colonialismo com a escravidão, iniciado nas Antilhas em 1492, chegou precocemente ao Marajó em 1500, com o navegador espanhol Vicente Pinzón arrastando 36 "negros da terra" (escravos indígenas) para levá-los a Hispaniola (Haiti e República Dominicana atuais). Lugar histórico onde o Papa pediu perdão dos Índios e Negros em cerimônia pública alusiva aos 500 anos de descobrimento da América, em 1992.

Paz e cooperação pra que vos quero? Já não nos recordamos mais de que antes dos europeus chegarem a América, havia nações, povos e impérios diferentes no novo continente. Geralmente em guerra uns contra outros, com a Conquista e colonização excitaram-se ódios hereditários entre povos indígenas e aconteceu a horrível destruição das Índias Ocidentais que o dominicano Bartolomeu de Las Casas testemunhou. Nas terras baixas americanas, a Cultura Marajoara, formada em torno do anos 400 da era cristã, se apresenta como primeira cultura complexa da Amazônia e arte primeva do Brasil: ou seja, tínhamos começado na área cultural guianense uma genuína ecocivilização... Mas, disto o mundo não sabe e quase não se sabe mesmo na própria Amazônia. Como então o Brasil iria exibir tal patrimônio como deveria ser no grande salão da França no ano de 2005? Se, apesar do tempo, o público europeu, inclusive francês, parece ignorar em maior parte a existência de uma certa Amazônia francesa (região Guiana), bem como a Guadalupe e Martinica, regiões ultraperiféricas da União Europeia.


RIO DE VICENTE PINZÓN OU OIAPOQUE: ONDE O BRASIL COMEÇA.

"As civilizações pretas foram as primeiras civilizações do mundo. O desenvolvimento da Europa esteve na retaguarda, pela última idade do Gelo, um assunto de uns cem mil anos".
Cheik Anta Diop
físico e historiador senegalês, inventor do método de datação por Carbono 14 

grupo de Griôs (contadores de história) do Mali


Já dissemos linhas acima que a Negritude é uma questão de consciência além da melanina... Negra é a condição humana de todo e qualquer ser humano escravizado ao império do trabalho.  A África é mãe de todas civilizações e matriz, ela mesma, da escravidão e apartheid que se espalhou ao mundo. Reis africanos venderam negros para ser escravos na América como os filhos de Jacó venderam seu irmão José ao faraó do Egito. Os rios Nilo e Amazonas devem emendar as suas águas pela História natural e as civilizações que se formaram às suas margens. Foi através do Cairo que a notícia da primeira travessia a remo do Atlântico chegou a Paris atravessando o Mediterrâneo e daí muito depois a Caracas e Belém do Pará, estas duas cidades envolvidas pela demarcação de fronteiras entre as duas monarquias da Península Ibérica...

Quando o cristão-novo (judeu convertido), português da vila de Cuba, chamado Cristóvão Colombo fez os primeiros "negros da terra" no Caribe lá teria ele encontrado estranhos "índios pretos" que portavam lanças com ponta de cobre. Seriam remanescentes de uma fabulosa expedição de 2000 caiaques vindos do rio Gâmbia, através do mar aberto, há 200 anos antes? Tal odisseia teria sido comandada pelo próprio rei do Mali em pessoa, segundo tradição moçárabe oriunda da cidade do Cairo. Mas, dizem historiadores africanos modernos, os Griôs silenciaram sobre a história de Abubakari II por a interpretarem como uma inominável deserção. Será verdade? E que não seja, assim mesmo o caso é plausível. Visto como as tais "calmarias" esconderam a teoria do segredo dos descobrimentos marítimos portugueses pelo fato da Corrente Equatorial Marítima, que se reparte entre a Corrente Brasileira e a Corrente das Guianas, ter sido a grande e secreta vantagem dos nautas lusíadas.

Está provado que o navegador espanhol Vicente Yañez Pinzón chegou à costa do Brasil, a 26 de janeiro de 1500, à altura do cabo de Santo Agostinho (Pernambuco) donde a corrente e os ventos alísios o empurraram para o Norte. Pedro Álvares Cabral, chegou depois fazendo escala em Porto Seguro a caminho da Índia. Da mesma maneira, dizem pesquisadores africanos, a flotilha de Abubakari II seguiu a corrente e inclusive teria deixado o nome primitivo de "Pernambuco"... Mas, antes mesmo desta expedição africana, uma primeira tentativa de 200 remadores de caiaque teria fracassado "engolida" supostamente pelas ondas da Pororoca na boca do Amazonas.

"O que se sabe sobre os reis do Império do Mali é contado a partir dos escritos de estudiosos árabes, incluindo Al-Umari, Abu Uthman-Sa'id ad-Dukkali, Ibn Khaldun, e Ibn Battuta. Segundo a história abrangente Ibn-Khaldun dos reis do Mali, o avô de Mansa Musa foi Abu-Bakr (o equivalente árabe para Bakari ou Bugari), um irmão de Sundiata Keita, o fundador do Mali Império como registrado Mansa Musa chegou ao trono através de uma prática de nomear um vice-rei enquanto o rei se encontra em peregrinação a Meca ou algum outro 'empreendimento', e mais tarde é nomeado como herdeiro legítimo. De acordo com fontes primárias, o rei anterior, embarcou em uma expedição para explorar os limites do oceano Atlântico, e nunca mais voltou. O estudioso árabe-egípcio Al-Umari cita Mansa Musa da seguinte forma:

"O governante que me precedeu não acreditava que era impossível alcançar a extremidade do oceano que circunda a Terra (ou seja, o Atlântico). Ele queria chegar a esse (final) e estava determinado a prosseguir o seu plano. Assim, ele equipou 200 barcos cheios de homens, e muitos outros cheios de água, ouro e provisões suficientes para vários anos. Ele ordenou ao capitão não voltar até que eles chegassem do outro lado do oceano, ou até que ele tivesse esgotado as disposições e água. Então eles partiram em sua jornada. Eles estavam a deriva por um longo período, e, por fim apenas um barco retornou. Quando questionado o capitão respondeu: 'O Príncipe, navegamos por um longo período, até que vimos no meio do oceano um grande rio que flui de forma maciça. Meu barco foi o último, outros foram antes de mim, e eles foram afogados num grande redemoinho e nunca mais sairam de novo. Eu naveguei de volta para escapar da corrente. " Mas o sultão não iria acreditar nele. Ele ordenou que dois mil barcos de estar preparados para ele e seus homens, e mais mil para a água e provisões. Em seguida, ele conferiu a regência de mim para o termo da sua ausência, e partiu com seus homens, para nunca mais voltar, nem para dar um sinal de vida.
Mansa Musa [cf. Wikipedia].
Me lembro de meu compadre Manduquinha, cafuso inconfundível e marido da comadre Didi Costa, um casal de griôs moradores no igarapé Bacurituba, rio do Canal (Ponta de Pedras); a me ensinar que a Pororoca é um fenômeno de encantaria provocado por três Pretinhos, que surfam as três primeiras ondas... Assim é se lhe parece (Pirandelo). Mas, o relato de Pinzón diz que ele viu a Pororoca e que sequestrou os 36 primeiros "negros da terra" da América do Sul, tirados de uma aldeia da ilha Marinatambalo [Marajó]... Dali foi fazer água no "rio de Vicente Pinzon" (Oiapoque). Para os franceses era o próprio rio Amazonas.  O conflito europeu entre França e Inglaterra afetou Espanha e Portugal e contaminou as colônias de ultramar. Já no século XVII franceses e portugueses disputando aliança com a nação Tupinambá de uma parte contra holandeses e ingleses acamaradados de povos Aruaque e Galibi de outra parte; estiveram em guerra por mais de 40 anos. Situação somente minimizada com as pazes de Mapuá (Breves, 1659),  patrocinada pelo Padre Antônio Vieira, entre Nheengaíbas (federação nuaruaque entre os Aruã, Anajá, Mapuá, Combocas. Guaianá, Mamaianá, Pixi-Pixi e outras etnias) e a aliança luso-tupinambá.

Em torno desta longa história cujos começos se acham antes do Descobrimento do Brasil - surgiu o Contestado do Amapá, então parte do território da província do Pará, que, em conjunto com o arquipélago do Marajó na área cultural guianense entre o estuário Pará-Amazonas e o delta do Orenoco até a ilha de Trinidad; fez parte das Guianas como a Guiana portuguesa e desde a adesão do Pará à independência (1823) é agora a Guiana brasileira. Daí surgiu o município do Amapá, pertencente ao Estado do Pará, donde foi separado para formar o Território Federal do Amapá, do qual não se deveria excluir Marajó conforme a geografia humana e a antropologia milenar ensinam, para vir a ser o Estado do Amapá. Que, como a departamentalização das colônias francesas, viria ser a Região da Guiana e junto com o Estado do Amapá começaria a criativa cooperação internacional descentralizada.

A "Questão do Amapá" ou "Contestado do Amapá) é um capítulo especial da histórica concorrência colonial entre franceses e portugueses em disputa pelas Índias Ocidentais, finalmente resolvido, diplomaticamente, pelas repúblicas do Brasil e da França mediante o Laudo Arbitral da Confederação da Suíça (1º/12/1900), dando ganho de causa ao Brasil. De todo modo, a sombra do Contestado deixada pela época colonial restou como pedra no meio do caminho da cooperação entre as duas colônias confinantes no Oiapoque. Nominalmente independente durante o império do Brasil e até a primeira república dos Estados Unidos do Brasil, 

Em aliança com o cacique Araribóia, na baía da Guanabara, Mem de Sá expulsou os franceses da Guanabara e já nos início do século XVII num novo choque no Maranhão, a colônia de La Ravardiére se desfez (1615) levando à fundação de Belém do Pará (12/01/1626) que fará 400 anos em 2016. Em guerra contra Inglaterra, Napoleão invadiu Portugal e, em consequência, a família real portuguesa se transferiu para o Rio de Janeiro (1808), criando o Vice-Reino do Brasil e instando a Corte e o governo português naquela cidade brasileira. Daí saiu ordem ao governo do Grão-Pará e Maranhão (Amazônia portuguesa) a ocupar preventivamente a colônia francesa de Caiena (1809-1817). Lisboa (depois Rio de Janeiro) e Paris discuiam

Como se recorda, Portugal saiu na frente das mais potências marítimas em busca do chamado caminho marítimo para as Índias. A Espanha logo entrou na corrida com a viagem de Cristóvão Colombo concluída com o descobrimento da América, em 12/10/1492, nas atuais Bahamas (Caribe). Imediatamente, começaram as violência das quais o dominicano espanhol Bartolomeu de Las Casas deixou testemunho: da ilha Hayti (chamada Hespaniola) levantou-se o primeiro rebelde da América contra a conquista, o cacique Hatuey, aprisionado em luta em Cuba, onde foi queimado vivo e até hoje é lembrado em monumento feito à sua memória, sucedido pelo cacique Guamá, da mesma nação.

Segundo a nova historiografia pós-colonial africana, o relato lendário da primeira travessia do Atlântico Sul, pelo imperador do Mali Abubakari II, há 200 anos antes de Colombo; pode corresponder a fato verdadeiro. Esta notícia chegou a França através do Cairo acerca da peregrinação a Meca empreendida por Kankan Mansa Musa, o décimo imperador Mansa, ou imperador do Mali durante seu auge no século XIV, entre os anos de 1312-1337, tornou-se famoso por ser um dos grandes benfeitores do conhecimento em Timbuktu (capital do império mandinga, hoje patrimônio da humanidade reconhecido pela UNESCO).

Kanka Mansa Musa informou que sucedeu a Abubacari II por este ter renunciado ao reino para ir ao outro lado do que lhes parecia ser o grande rio Salgado (oceano Atlântico). Os historiadores modernos comentam que a renúncia e presumido desaparecimento do imperador teria causado comoção e por isto os griôs guardaram silêncio a respeito do assunto, dado o sentimento da população equivalente a uma deserção inexplicável. O que explicaria a viagem de Abubakari II ter ficado em esquecimento durante tanto tempo.

  Kansa Mansa Musa, rei do Mali.     Este assunto, entretanto, circulava em Caracas (Venezuela) pelo menos nos anos de 1930, quando através de demarcadores da fronteira Brasil-Venezuela ao tempo do almirante Braz Dias de Aguiar; chegou a Belém todavia comentado como um relato lendário atribuído ao imperador Gao (anterior a Abukari II e que é memorizado pelo nome da cidade de Gao, naquele antigo reino e hoje república do Mali).


 PONTE DO OIAPOQUE: CONCRETUDE DA PAZ E COOPERAÇÃO NORTE-SUL

No artigo “L’Avenir de la Capitale du Pará”, escrito entre 1897-99, Henri Coudreau (1859-1899) e publicado pela primeira vez em Belém do Pará em 1923, afirma a situação estratégica da cidade de Belém. Baseado neste vaticínio Eidorfe Moreira desenvolveu seu ensaio "Belém e sua expressão geográfica". A análise Coudreau-Moreira contempla a ligação da América do Sul com a Europa e América do Norte, não apenas por ser portal de toda malha hidrográfica amazônica. Mas, sobretudo, pelo potencial de vir a ser o ponto terminal de uma imensa ferrovia podendo ligar o Pacífico, desde o Chile e Peru, ao Atlântico atravessando o Planalto Central brasileiro, o que seria vetor de desenvolvimento do Pará e Mato Grosso.

Este velho assunto, quando se discute a recolonização da Amazônia, a partir da rodovia Transamazônica e o arco de fogo que acompanha a fronteira agropecuária e o extrativismo mineral com prejuízo da Floresta Amazônica e fomento do trabalho escravo. E, ao mesmo tempo, entra em pauta discussão sobre acordo de livre comércio entre o MERCOSUL e a União Europeia; suscita um olhar retrospectivo sobre a Fronteira Norte no contexto histórico da conquista da Amazônia e Caribe.

À diferença de muitos viajantes e naturalistas que o precederam voltados às várzeas amazônicas e ao gigantesco Amazonas que possibilitou a ocupação da região, Coudreau focaliza as terras do planalto e a floresta densa, ricos territórios a conquistar. Discute motivos e implicações da ocupação que estava integrada à economia da borracha e às possibilidades abertas pelas inovações tecnológicas, em particular as ferrovias, vetores do desenvolvimento e da modernidade.

Coudreau pensava em colonizar a região entre o Tocantins e o Xingu com um milhão de imigrantes italianos... 70 anos depois, Brasília remaneja descendentes de italianos e alemães para, por outra maneira, levar a cabo o plano de Coudreau. Eidorfe Moreira, tem visão diferente e prioriza populações amazônicas com escopo do que hoje chamamos de desenvolvimento regional sustentável. Diverge de Coudreau no que concerne ao espírito "explorateur" das chamadas viagens filosóficas. Mas, no essencial, realça o grande rio e sua poderosa descarga (20% da água doce superficial do Planeta) que empurra o Oceano antes de se misturar à Corrente das Guianas caminhando lado a lado por muitas milhas. Estas águas ricas de sedimentos e cardumes pesqueiros vai até a costa da Venezuela fundir-se à corrente do golfo do México. Não é coisa sem importância. Mas, que seria o tal desenvolvimento sustentável? Que é mais renovável do que a Cultura, o lazer, esportes e o Turismo? A canoagem e a vela... Vejam o que o Canadá oferece, por exemplo:


"Pegue um remo e veja o Canadá pela linha d'água"

  • 243041 quilômetros de costa
  • 42 rios protegidos pelo Patrimônio do Canadá
  • 1738 quilômetros é a extensão do rio Mackenzie
Existe algo mais canadense do que um passeio de canoa ou em um caiaque inuíte? O Canadá tem a mais longa costa do mundo a explorar, com enseadas escondidas, fjords e paisagens pontuadas por lagos e cortadas por rios. Prepare o almoço para viagem, escolha entre águas calmas ou corredeiras e tire um dia ou uma semana para se divertir. Reme pelas maiores correntes do mundo. Seja um viajante do início da era dos comerciantes de pele em um histórico rio. Observe baleias e icebergs flutuando. Reme sob a sombra dos arranha-céus ou desde uma pousada a outra à beira mar, parando no caminho para provar vinho, para um festival ou para caminhar na floresta. Nossas terras eram ocupadas pelos povos das Primeiras Nações, que viajavam pelos rios, e por exploradores e colonizadores que seguiram essa tradição: veja nosso passado de vida junto às águas em Peterborough, o Museu da Canoa Canadense, em Ontário. Termine um dia na água em hospedarias luxuosas e com uma refeição gourmet. Ou monte uma barraca e asse na fogueira um peixe que você mesmo pescou. Depois torre marshmallows e vá dormir embalado pelo som da água do rio ou pelo ritmo das ondas quebrando.

ponte binacional sobre o rio Oiapoque, ligando Saint-Georges (França) a Oiapoque (Brasil).

Mais do que ao Pará por força da história, o arquipélago do Marajó se acha natural e geograficamente integrado ao Amapá. Já a cooperação regional fronteiriça - caso Brasília e Paris tivessem esta leitura - deveria ter contemplado os dezesseis municípios do Marajó desde a primeira hora. Mas, a incipiente cooperação internacional descentralizada entre municípios da Guiana francesa e do Marajó não saiu da carta de intenção... As cidades de Belém e de Fort-de-France tentaram uma geminação que, por desinteresse da parte brasileira, não avançou. Agora em 2014 volta-se a falar de "coopération" desta feita da Martinique e Pará.

Desde a viagem de Jack Lang a Belém e Marajó ficou uma porta entreaberta, a Guiana francesa talvez talvez queira insistir. Mas, é o Pará o ponto de interrogação, poderia chamar seus vizinhos além da baía da Vieira Grande ao norte para dar boa demonstração ao mundo em crise sobre oportunidade de "inventar o futuro".

O espírito de Cesaire agora na rota de migração dos Tainos descendentes de Hatuey (o Primeiro Rebelde da América) e Guamá (por acaso, nome do campus da Universidade Federal do Pará) para a Terra-Firme (América do Sul) poderia, finalmente, inaugurar a ponte do Oiapoque com tudo que ela representa e espera.



Para informação sobre canoagem no Pará buscar na internet.

https://www.youtube.com/watch?v=f6soNVLBy6g&app=desktop




   1ª Porfia Marajoara de Canoas Tradicionais, Ponta de Pedras (ilha do Marajó) 30/11/2013.

sexta-feira, 7 de março de 2014

ROTEIRO DE PEDRO TEIXEIRA NO CAMINHO DO MARANHÃO: ensaio geral para a grande entrada ao Alto Amazonas e Quito (Equador).


 Fundação de Belém do Pará, 12 de Janeiro de 1616 (ilustração de Jacy Correa Neto). A 7 de Março Pedro Teixeira segue por terra levando esta notícia a Jerônimo Albuquerque Maranhão, em São Luís.




estátua de Pedro Teixeira em Cantanhede, Portugal.
(Cantanhede, 1570 ou 1587 -- Belém do Pará, 4 de Julho de 1641).
réplica à entrada do porto de Belém do Pará.


DEDICATÓRIA
a José Ubiratan da Silva Rosário (1938-2009), historiado bragantino.

Este comentário recorda a jornada de Pedro Teixeira ao Maranhão levando notícia da fundação de Feliz Lusitânia e pretende chamar atenção dos leitores sobre o desenvolvimento da canoagem no Pará com suas interessantes excursões, onde se mesclam esporte, lazer, educação ambiental e conhecimento histórico-geográfico de rios e lugares visitados. A equipe MARENTEZA CANOAGEM, após recentemente excursionar ao Alto Guamá com sua flotilha de caiaques, se prepara para descer as cabeceiras do rio Caeté até Bragança, a Princesa do Salgado. 






Varadouro por terra na floresta, estimado em cerca de cinco léguas (mais ou menos, 33 km) entre Ourém e Arraial do Caeté, interliga os rios Guamá e Caeté fazendo parte do velho Caminho do Maranhão, que vinha de São Luís em direção a Belém do Pará. Também chamado, na crônica colonial, "caminho dos Tupinambás", esta ligação pioneira entre as duas regiões foi, basicamente, guia de construções viárias posteriores como, por exemplo, a estrada de ferro Belém-Bragança e por fim a rodovia Pará-Maranhão. A ver como a apropriação do espaço natural pelo homem se transforma em história através do trabalho e da memória.

Ótima oportunidade de exercício da "universidade da maré": quem quer aprende, quem pode ensina e quem não se importa vai embora sem olhar pra trás... Já tivemos oportunidade neste blogue ribeirinho de lembrar a importância do "rio de Guamá" -- isto é, rio do cacique dos Aruã e Mexiana nas ilhas do Marajó em suas costumeiras incursões guerreiras à terra-firme -- para história do Pará velho de guerra. 

Vale frisar que Nheengaíbas (povos das ilhas de tronco cultural e linguístico Aruak, tidos e havidos dentre tapuias em geral) e Tupinambás eram inimigos hereditários entre si: estes últimos chegaram através do Nordeste, depois de longa caminhada pelo Peabiru, dos contrafortes dos Andes ao litoral de Piratininga, em busca da famosa Yvy marãey (terra sem mal). "Roteiros... roteiros... roteiros..." (Oswald de Andrade, "Manifesto Antropofágico", 1928).

O rio de Guamá ligado umbilicalmente ao Salgado conecta o extremo Norte ao Nordeste brasileiro desde tempos remotos e também nos leva ao Caribe, através das Guianas, por uma linha histórica de muita antiguidade a qual se acha inserida a milenar Cultura Marajoara. Pela qual se costuram à Amazônia as memórias de Hatuey e Guamá em luta contra os cariuás, conquistadores espanhóis desde a primeira hora (ver http://academiaveropeso.blogspot.com.br/2014/03/porto-caribe-escala-para-o-futuro-das.html). 

Evidentemente, os Tupinambás em aliança com franceses e depois portugueses contra os ditos "falantes da língua ruim" (nheengaíbas) e holandeses e ingleses acamaradados a estes índios "malvados" [marãyu / marayo, Marajó], franquearam aos seus "cunhados" de armas o Caminho do Maranhão e outras passagens secretas de sua saga na Tapuya tetama (terra Tapuia). Na margem esquerda do Pará, inversamente, os belicosos insulanos davam passagem e guarida a traficantes holandeses e ingleses vindos das Antilhas e Guianas praticar comércio de escambo, trocando "gados do rio" e "drogas do sertão" por miçangas e armas eventualmente. 

Cumpre notar que os antigos marajoaras eram guerrilheiros inatos, temidos sobretudo pelo poder mortífero de seus dardos envenenados de curare (segredo de velhas matriarcas), atirados de emboscada por sopro com certeiras zarabatanas enfeitiçadas sob inspiração totêmica da Jararaca (Bothropos atrox). Então já se sabe que aqui era fronteira de guerra -- antes da chegada dos brancos --, por acaso coincidente com a linha de partição do mundo achado ou por achar (o "testamento de Adão", tratado de Tordesilhas), entre os reinos de Castela e de Portugal.

Pouca gente tem semelhante informação e quem sabe raramente tem chance de compartilhar conhecimento. Todavia, muita gente no caminho anda nele sem saber por onde vai ou como fazer as devidas ligações de espaço e tempo. Mas, em tempo de globalização, fronteiras se fazem e desfazem pela cúpula do mundo em infovias mil e ao rés do chão lugares se integram por caminhos, pontes e estradas.

De modo que aqui na popular academia do peixefrito se espera estimular, sobretudo entre estudantes e pesquisadores de geografia, história e turismo; trabalhos que possam culminar em reconhecimento de titulo de patrimônio natural de relevante interesse histórico ao "rio de Guamá": caminho de água de fundamental importância a roteiros integrados da Paisagem Cultural do Ver O Peso ao Salgado e Reentrâncias Maranhenses. Uma histórica região costeira dotada de impressionante sucessão de rias e baías da Amazônia Atlântica, de alto interesse para gerenciamento costeiro e conservação do bioma oceânico com inclusão socioambiental das comunidades tradicionais.

Mestre Sergio Buarque de Holanda em "Caminhos e fronteiras" ensina como a ocupação territorial procede da lenta evolução biogeográfica dos lugares fazendo a história dos processos e procedimentos cotidianos desde os povos nômades através da caça e da coleta, da lavoura, viagem e exploração de novos espaços abertos. E antes da antropização, o carreiro incipiante da caça em busca de comedia e bebedouro, guiou o índio na abertura de trilhas que ao longo do tempo se transformaram em caminhos. Com isto, as vastas transformações ocorridas desde tempos pré-colombianos no país até o século XIX adquirem agora contorno de coisas vividas.

Como nos diz Saramago, na "Viagem a Portugal", o viajante aprecia na paisagem aquilo que ele vê e também o que imagina. Como seria, afinal de contas, este já esquecido caminho do Maranhão falado pelos antigos e tão importante para compreender a conquista territorial do Pará e invenção da Amazônia? Quem o abriu e o trilhou pela primeira vez? Quando? E por que? ... 

Segundo o historiador Capistrano de Abreu, teve início a viagem ao Maranhão com a notícia de fundação da Feliz Lusitânia, no dia 7 de março de 1616. Os alferes Pedro Teixeira e Antônio da Costa partiram por terra acompanhados de dois soldados e trinta índios. Podemos deduzir que esta missão histórica excedia a uma simples mensagem de fundação de Belém, pois neste caso seria mais prático despachar uma das três embarcações vindas do Maranhão de volta para avisar a respeito dos acontecimentos. 

Sabe-se que saindo por terra tal caminho, a partir do forte do Presépio à margem da baía do Guajará, não subia imediatamente o rio. Primeiro entraria mata adentro, provavelmente em canoa a remo, devido aos alagadiços e igapós que separavam a Cidade que ainda não existia e a Campina através do Igarapé do Piry (do qual resta hoje apenas a doca do Ver O Peso e o aterro que se tornou avenidas Portugal e 16 de Novembro, antes pavimentadas de paralelepídos de pedra extraída de pedreira do Guamá e depois asfaltas). 

Na confluência do Piry com o igarapé que ali havia e também foi aterrado para ser estrada das Mungubas (hoje Beco do Cano e canal Tamandaré), as águas se bifurcavam no chamado igarapé Juçara e o Lago do Piry. Desta maneira, o centro histórico na Cidade Velha era uma ilha perfeita: daí nasceria, na segunda metade do século XVIII, a supimpa ideia do major engenheiro alemão Gaspar João Geraldo Gronfelts de fazer de Belém uma Veneza amazônica. O Lago do Piry terminava num teso de terra que veio a dar lugar à construção da igreja da Santíssima Trindade. 

Por aí poderia ter início a caminhada de Pedro Teixeira por terra, naquilo que seria depois estrada do Murutucu e também estrada de Nazaré rumo ao Una (hoje Parque Estadual do Utinga) para, então, cair nas águas do Guamá e ir subindo a remo até às alturas do lugar, mais tarde, de Ourém, e "varar" por terra para cabeceira do rio Caeté a fim de pegar canoa e sair ao mar costeando até o Maranhão. Devemos ter em mente que em seus primórdios o caminho era caminho dos Tupinambás, que o percorriam desde muita antiguidade antes dos brancos vir à terra dos Tapuias. 

Quer dizer, terreno de fronteira e luta de conquista: o segredo da aliança dos Tupinambás com os franceses e depois com os portugueses, devido à cobiça das armas e igaras (caravelas) para vencer a guerra contra invencíveis e malvados Nheengaíbas... Lembremo-nos que, já em torno de 1723, decorridos mais de cem anos desta viagem um certo cacique bandoleiro aruã de nome "Guayamã" ainda assaltava aldeias de índios "mansos" (cativos) dos portugueses às ilhargas de Belém. Chegava o guerreiro aruã com seus camaradas ao Aurá, por onde saltava para atravessar por terra rumo ao Furo das Marinhas e capturar índios Murubira, levando-os para traficar armas e munição. Desta velha guerra o sargento-mor da Vila da Vigia, Francisco de Mello Palheta, saiu ao encalço de Guayamã, Guaiamar ou Guamá e voltou com o café que todo mundo sabe como veio parar aqui e foi fazer riqueza em São Paulo. Donde retornou para fazer contrabando com as Guianas pelos anos de 1960.

Portanto, a jornada de Pedro Teixeira naquele tempo carecia caminhar com cautela e as diversas historiografias baseadas nela devem ser agora consumidas com moderação. Assim, precisamos compreender que os mensageiros não saíram pelo mato bruto adentro, direto ao Maranhão, abrindo trilha a golpes de facão... Pelo contrário, já se encontravam provavelmente antigos sendeiros e paragens ao longo do caminho, alternando trechos de água e de terra. Em certos pontos habitados por parentes próximos destes índios andejos viajantes amigos e "cunhados" deveriam repousar, contar com canoas, remos e comida para continuar a viagem conforme costume de ajuda mútua entre povos tradicionais.

Convém o leitor acompanhar o alferes Pedro Teixeira e seus companheiros naquela viagem inaugural com a notícia de fundação de Belém do Pará, pela imaginação, aproveitando na retrospectiva viagem para ver como o espaço da antiga terra dos Tapuias, que é o país que se chama Pará - ele mesmo -, caminhou ao longo do tempo. Aquela boca de mato na cabeceira do Juçara ou Lago do Piry, por exemplo, mais de cem anos depois ainda era um matagal, porém ali teria lugar a construção da igreja da Santíssima Trindade: marco de contato, desta vez, com as ilhas dos Açores... Portanto, Bragança de ultramar, à beira do Caminho do Maranhão plantada com seus índios catecúmenos e casais açorianos.

Cem anos depois, Belém ainda era uma burgada meio indígena onde colonos e missionários viviam às turras pelo controle dos "negros da terra" (índios escravizados). E o iluminismo português produziu uma revolução lá e cá. Para o bem e o mal... O Marquês de Pombal no uso do costumeiro nepotismo, mandou seu irmão Mendonça Furtado ao estado do Grão-Pará e Maranhão, ao Amazonas um sobrinho doido para retornar à metrópole. O conflito com os Jesuítas se alastrava e chegou ao Vaticano... Em plena ofensiva o capitão-general e governador solicitou ao reino envio de casais e homens solteiros para povoar a Vila de Sousa do Caeté,  em seguida denominada vila de Bragança, em dezembro de 1753. 

Mas a migração só começou em 1755 e aumentou em 1759, trazendo gente de Angra do Heroísmo, nos Açores. Dentre estes chegou a Belém José Antônio Abranches com 16 anos de idade, acompanhado de três irmãos menores, órfãos de pai e mãe. José Antônio chegou no mesmo ano em que daqui partia o governador Francisco Xavier de Mendonça Furtado, que lhe concedera a mercê de ficar em Belém e trabalhar na lavoura. Os irmãos Abranches como os açorianos em geral eram lavradores e devotos do Espírito Santo, tendo eles ganho terras situadas além e aquém do Lago do Piry onde fizeram promessa de construir uma igreja à Santíssima Trindade caso ficassem ricos com a horta e pomar que fizeram naquela sorte de terra. Dito e feito. Podemos ver que poderia ter sido no porto depois da rocinha dos Abranches, de acordo com que foi dito antes, que o alferes Pedro Teixeira pôs os pés em terra firme no início da jornada ao Maranhão. 

Não levavam pressa, mas necessidade de conhecer a floresta ("caaeté", mata densa, a "verdadeira floresta"), atravessando rios, sempre seguindo as trilhas dos Tupinambás. Chegaram em São Luís em abril, depois de um mês de viagem. Após entregarem a missiva do capitão-mor Francisco Roso Caldeira Castelo Branco ao governador Jerônimo Albuquerque Maranhão, regressaram desta vez por via marítima trazendo a bordo o capitão Custódio Valente e mais trinta arcabuzeiros, grande número de índios de arco e flecha, mantimentos, fardas e artigos destinados à troca entre índios e colonos. Ficava assim demarcado o território na Amazônia portuguesa entre Belém e São Luís, mais uma possessão portuguesa na região.

pondo o pé na planície amazônica

A primeira missão de Pedro Teixeira no Grão-Pará foi ensaio para a formidável entrada até Quito (Equador), que levaria dois anos (1637-1639). A 25 de Julho de 1637 (dia de Santiago) o idoso capitão partiu do Maranhão onde foi receber instruções secretas. Eram 45 canoas, setenta soldados e mil e duzentos flecheiros e remadores indígenas, inclusive mulheres e crianças para subir o rio Amazonas. Buscava confirmar a comunicação entre os oceanos Atlântico e Pacífico terra adentro, passando pelos Andes. O espanhol Francisco de Orellana, que veio a falecer segundo consta, nas águas da pororoca do rio Capim, tributário do Guamá (1544), havia feito a primeira viagem do "rio das amazonas" (1542) em sentido inverso.  Até aí levaram antecedentes de vida de Jerônimo de Albuquerque, "Adão pernambucano" e patriarca do Maranhão e Grão-Pará. Em cuja descendência se inscrevem Jerônimo Albuquerque Maranhão, Paulo Maranhão, famoso jornalista panfletário da "Folha do Norte"; o romancista Haroldo Maranhão e outros mais ilustres descendentes do "Adão pernambucano". Sem nos esquecer do intendente Antônio Lemos, que não era parente desse "Adão", mas natural do Maranhão e colocou Belém na berlinda da "belle époque".

Se as silentes águas do Guamá falassem, elas diriam fortes coisas à cidade desmemoriada que cresceu de costas para o rio. Porém como elas não falam, o visitante da cidade universitária que às suas margens se encontra ou o viajante que segue seu curso poderia suscitar importantes questões, tais quais as que aqui vão misturadas a emendar águas de rio e mar. Ou seja, confundindo as Amazônias verde e azul. 

Misturar o Mar-Oceano português com a Pátria grande latino-americana. E não se pode esquecer que toda esta velha história de procura ao extremo ocidente do país do Brazyl, ilhas Afortunas e Antilhas é comparável às cismas do rei mandinga Abubakari a querer saber o que havia na outra margem do grande "rio Salgado", como o Atlântico se lhe parecia. 

O Rei Sabá a beira mar em Pirabas quer nos dizer alguma coisa preciosa pela boca de pajés e rezadores. Por acaso, a partição do mundo entre Espanha e Portugal - deus escrevendo certo por linhas tortas? - teve como ponto de partida o golfo da Guiné com as ilhas de Cabo Verde a servir de base. E que dizer da corrente da contracosta africana que forma a corrente equatorial marítima, para vir se dividir entre as correntes brasileira e guianense? Tudo isto há de vir ao pensamento de um visitante da cidade universitária do Guamá. Ou a um canoeiro sem pressa que sobe lentamente o dito rio até seu alto curso e varadouro para costa do Salgado.

Pedro Teixeira levou ao Maranhão a primeira notícia do Presépio na terra dos Tapuias, logo chamada Grão-Pará e assim o capitão-geral da Amazônia lusitana, Jerônimo de Albuquerque Maranhão foi informado do bom sucesso da missão. Porém, àquelas horas uns e outros não poderiam saber o que sabemos agora e também não saberiam o que se perdeu para sempre. Como, por certo nós não sabemos ainda muita coisa que há de se revelar depois. 

Mas, eu não darei mais nenhuma remada adiante sem antes comentar com meus camaradas canoístas que este caudilho maranhense, a quem ia endereçada a boa nova; era filho de uma índia tabajara, chamada Tabira; amancebada com o português Jerônimo Albuquerque, apelidado o "Adão Pernambucano". Patriarca luso-nordestino da nossa amazonidade. Não se pode botar tudo no mesmo paneiro e jogar fora ao lixo colonialista. 

Há muitos, não apenas lusos; que vieram enterrar seus ossos neste chão depois de dar seu sangue em tributo à mestiçagem de corpos e mentes do orgulhoso país do futuro. Uma coisa é querer daqui o ouro e outra muito diferente e vir buscar riquezas terminando a história por se naturalizar ao país e servir aos mesmos conquistados e escravizados dos quais pensava expropriar, sem mais nem menos. Toda história tem consequência... Somente agora estamos a ver com quantos paus se faz uma canoa. E perguntar com Fernando Pessoa: "valeu a pena?". Tudo vale a pena se a alma não é pequena...

O dito "Adão" nasceu em Lisboa no ano de 1510 e veio entregar o corpo à terra fria em Nova Lusitânia (Olinda, Pernambuco) no dia de natal de 1584. Era ele cunhado do primeiro donatário da capitania de Pernambuco, Duarte Coelho. Começa aí a poderosa mistura de nepotismo português e cunhadismo indígena, donde a tradicional família nordestina é nossa matriz e modelo. Recém chegado ao Nordeste, o cunhado do donatário meteu-se em contendas contra os Tabajaras e levou a pior, com uma flechada que lhe tirou um olho, ferido e abatido acabou ele sendo prisioneiro dos índios que em sua soberba juvenil foi acossar. Então, naquela mísera condição humana entre bárbaros dos trópicos, Jerônimo estava predestinado, segundo o costume, para os índios o comerem depois de luta ritual no terreiro à vista de muitos convidados ao festim antropofágico. 

Já sabemos que os nossos índios não comiam ninguém que fosse covarde. Isto pelo bom motivo que medo pega mais que andaço de sarampo e catapora, fazendo gente "panema" que é a maior desgraça das tribos do sertão. Mas o português em apreço era valente, pois se não fosse os bravos tabajaras já o teriam enxotado para longe. De modo que ele pudesse fugir ou morrer sozinho deixando o corpo ao relento para dar de comer aos bichos do mato e aos vermes da terra.

Na situação em que o nobre Jerônimo de Albuquerque se achava, era costume do dono do cativo dar-lhe completa hospitalidade, inclusive concedendo-lhe mulher para o tratar e alimentar do bom e do melhor até o prisioneiro estar em condição de enfrentar uma morte gloriosa lutando no terreiro com seu captor. Do contrário, seria um desastre oferecer à mãe Jacy (lua) uma vítima estropiada e tremendo de medo. A morte de um guerreiro inimigo atraia para taba além de fama, vigor e boa sorte a todos que comessem da carne e bebessem o sangue do herói. Mas, o matador não comia nem bebia nada, entretanto era o único com direito exclusivo de tomar o nome e da fama do guerreiro morto para si. 

Havia orgulhosos guerreiros tupis com dezenas de nomes tomados a seus inimigos mortos em combate justo. Consta que para iniciação dos guerreiros, a captura e morte de um jaguar no terreiro diante de todos era excelente prova de coragem. Mas, ninguém comia carne de onça nem bebia de seu sangue sob risco de se tornar animal. Modernos antropólogos ensinam que o nome "Tabajara" teve conotação ambígua entre diversas etnias, podendo ser entendido como "cunhado" (amigo) ou "inimigo", não como nome de uma etnia específica. Pode ser traduzido vagamente como o "dono da taba" confundindo-se, em diversos momentos, grupos de Tabajaras propriamente ditos, Potiguaras e Caetés todos da grande nação Tupinambá espalhada desde o Nordeste até o Amazonas.

Seja como for, ficou para a história o fato de que Jerônimo foi salvo da antropofagia pela paixão que ele despertou à filha do cacique Arco Verde ("uirá ubi"), a jovem Tindarena ou Tabira. Não se pode excluir a hipótese de que, levando a hospitalidade dos Tabajaras às últimas consequências; Jerônimo "conheceu" Tabira como diz a Bíblia. E Tabira amou Jerônimo por toda vida. Com o surpreendente enlace da índia Tabira e o português Jerônimo, segundo o direito natural do cunhadismo, a paz foi selada entre tabajaras e portugueses. Tabira foi batizada católica como Maria do Espírito Santo Arcoverde, homenagem ao dia de Pentecostes e deu ao bem amado oito filhos mamelucos, dentre estes, Jerônimo de Albuquerque Maranhão, primeiro governador do estado do Maranhão e Grão-Pará, fundador duma das principais famílias da região.

O Adão caolho teve mais cinco filhos além dos oito de Tabira, com mulheres brancas e índias. Sua fama de garanhão chegou à corte onde, em 1562, a rainha de Portugal Dona Catarina de Áustria o mandou intimar a se casar com Felipa de Mello, filha de Dom Cristóvão de Mello. Pois, segundo a rainha, sendo ele fidalgo sobrinho de Dom Afonso de Albuquerque, descendente de reis, não deveria dar mau exemplo seguindo a "lei de Moisés" que teve "trezentas concubinas". Com o casamento com Felipa, Jerônimo teve mais onze filhos, fazendo 24 em total. De suas terras perto de Olinda surgiu o primeiro engenho de açúcar de Pernambuco, depois chamado Forno da Cal.

Esta nossa paragem na viagem serve para situar a linhagem do destinatário da carta de fundação de Belém do Grão-Pará. Por ela fica-se sabendo que o Presépio foi construído num outeiro junto à aldeia indígena de nome Mairi. Os tupis chamavam aos franceses de "mair" (louro) e assim esta aldeia às ilhargas do forte -- por certo, nos primórdios da Cidade Velha -- pode sugerir algo a ver com a recente passagem de Daniel de La Touche, o colonial francês que fundou São Luís do Maranhão, em sua subida ao Rio Pará até Camutá (Cametá), no rio Tocantins. Donde ele voltou depressa com aviso de que portugueses vindos do Ceará estavam prestes a atacar a fortaleza de São Luís (1615), como sucedeu de fato. As trilhas do Adão pernambucano e seus descendentes mamelucos se emendaram ao roteiro de outro aventureiro famoso, Martim Soares Moreno, marido da índia Paraguassu, filha do cacique de Jaguaribe (Ceará).


a grande jornada de Pedro Teixeira


No início de janeiro de 1637, dois frades chegaram no forte de Gurupá em uma pequena canoa, eram os franciscanos Domingos de la Brieda e frei André de Toledo com seis soldados espanhóis procedentes do vice-reino do Peru. Dali foram a Belém. O governador, capitão-mor do Pará, Francisco Azevedo decidiu encaminhá-los ao governador do Estado do Maranhão Jácome Raimundo de Noronha. Em São Luís eles relataram que em 17 de Outubro de 1636 haviam partido de Quito com o capitão João Palácios, caudilho espanhol, a fim de encontrar o El Dorado e a Casa do Sol. 

Todavia, a fama dos hispânicos era péssima e os índios Encabelados reagiram massacrando membros da expedição. Os que escaparam voltaram a Quito e eles optaram por descer o rio das Amazonas até a foz. Perguntados o que pretendiam fazer, disseram que poderiam voltar, desde que tivessem condições para isso. Então o governador Jácome Noronha pensou em aproveitar a ocasião para mandar conquistar o Alto Amazonas alargando a posse portuguesa para além da linha de Tordesilhas (1494-1750) na bacia amazônica. 

Uma decisão extremamente ousada, visto que pelos termos do tratado luso-castelhano de 1494, nem mesmo a ilha grande do Marajó se encontraria dentro das capitulações de direito dos portugueses. Contudo, pela real conquista portuguesa alcançada em 1623 contra posições holandesas nos limites espanhóis (Xingu, Baixo-Amazonas, Marajó e costa do Amapá) se havia criado precedente sob consentimento de Castela durante a União Ibérica (1580-1640). 

Deste modo, a célebre viagem de Pedro Teixeira de Belém a Quito (1637-1639) iria dilatar, praticamente, a Amazônia lusitana até os confins da Amazônia brasileira após a Adesão do Pará (1823) à independência do Brasil. O sebastianismo, alma popular portuguesa pulsando nas trovas de Bandarra para restauração da soberania perdida com a morte de El-Rei Dom Sebastião no campo de batalha no Marrocos; também urdia a expansão da futura fronteira Norte do Brasil no seio da União Ibérica. E, portanto, restaurada a independência do reino de Portugal (1º/12/1640) a ocupação lusitana para além da linha tordesilhana - base para tese de uti possidetis real, defendida com sucesso por Alexandre de Gusmão nas negociações em Madri do tratado de 1750; já estaria plantada no imenso chão. 

Foi nesta fase histórica que prevaleceu de maneira insuperável a catequese das populações tapuias ou a pacificação de povos inimigos dos Tupinambás aliados aos portugueses, como foi o caso dos Nheengaíbas (marajoaras). Com a paz dos Nheengaíbas tendo os portugueses por amigos, segundo Antonio Vieira em carta escrita à Dona Luísa de Gusmão (1660); colocava-se termo à quarenta e tantos anos de guerra desde a conquista do Maranhão (1615) e talvez antes, ficando o Pará seguro de invasão estrangeira.

Para o arriscado cometimento, o governador Jácome de Noronha nomeou o experimentado capitão Pedro Teixeira como emissário do estado do Maranhão e Grão-Pará à Audiência de Quito, no vice-reino do Peru. Promoveu-o a capitão-mor da Entrada e general-de-estado. O governador entregou o Regimento da missão a Pedro Teixeira onde se destacam reconhecimento do rio das Amazonas até suas nascentes; levantamento de lugares onde se pudessem levantar fortificações; disciplina da tropa portuguesa em relação aos indígenas de maneira a não causar atritos entre uns e outros e instrução secreta para abrir somente no regresso da viagem (refere-se à implantação do primeiro marco na fronteira amazônica entre Espanha e Portugal).

Foram nomeados auxiliares, o capitão Pedro da Costa Favela (mameluco que viria a se notabilizar, mais adiante, como terrível exterminador de índios no rio Urubu, por exemplo, onde ele à frente de tropa de resgate destruiu e queimou mais de seiscentas malocas capturando centenas de escravos obrigados a descer para Murtigura (Vila do Conde), onde jesuítas preparavam operários em regime de "encomenda" a fim de atender aos colonos). 

O coronel Bento Manoel de Oliveira foi escolhido pelo governador para 2º comandante, imediatamente às ordens de Pedro Teixeira (outro mameluco famoso por conhecer os costumes dos índios seus parentes por lado materno e falar tupi fluentemente; foi Bento de Oliveira quem, com sua enérgica liderança, dominou motim de mais de mil tupinambás na fase mais crítica da incursão ao Alto Amazonas). O capitão Bento da Costa, piloto-mor da navegação; capitão Antônio de Azambuja, mestre-de-campo; Filipe de Matos Cotrim, sargento-mor; Pedro Baião de Abreu, Ignácio de Gusmão e Domingos Pires da Costa, capitães de infantaria; Fernão Mendes Gago, Bartholomeu Dias de Matos e Antônio de Oliveira, alferes; Maurício de Heliarte, ajudante; Diogo Rodrigues e Domingos Gonçalves, sargentos; Manuel de Matos Oliveira, almoxarife; João Gomes de Andrade, escrivão; frei Agostinho das Chagas, capelão da Armada. 

O frade espanhol Brieda e os seis soldados, que meses antes haviam descido o rio Amazonas, regressaram como guias. Frei Toledo seguiu a Madrid e Lisboa para dar ciência da viagem de descida do rio Amazonas e da expedição que os portugueses iam fazer subindo o grande rio ainda quase desconhecido. O referido religioso foi portador da carta e do mapa da viagem de Pedro Teixeira que Jácome de Noronha enviou em 29 de maio de 1637 ao rei Filipe de Espanha. 

No dia 25 de Julho de 1637, Pedro Teixeira partiu de São Luís à frente da expedição e ao chegar em Belém iniciou imediatamente os preparativos da grande jornada. Todavia, na Câmara e Senado de Belém surgiu oposição ao empreendimento. Pediram ao capitão-mor do Pará Aires de Souza Chichorro, que cancelasse ou adiasse a viagem considerada muito onerosa e arriscada. Mas Jácome de Noronha mostrou-se inflexível e Pedro Teixeira prosseguiu a jornada para ocupar seu lugar na História. 

Nos começos de agosto de 1637, Pedro Teixeira partiu de Belém e a 5 de Setembro rio Pará acima passou ao Tocantins para alcançar Cametá, onde conseguiu mais canoas e seguiu para Gurupá concluindo preparativos da expedição. Organizou a flotilha com setenta canoas, sendo quarenta e cinco grandes, com vinte remeiros cada uma; o efetivo militar era constituído de setenta soldados portugueses e mil e duzentos índios de arco e remo, aproximadamente, acompanhados de mulheres e filhos perfazendo total de dois mil integrantes.  

No que tange, a mulheres e crianças indígenas na expedição cumpre observar o papel do general mameluco Bento Manoel de Oliveira e seu acurado conhecimento da cultura tupinambá. Sabedor talvez das grandes expedições que estes índios fizeram no passado em busca da mítica "terra sem males". Em 1538, por exemplo, o mameluco Diogo Nunes relatou uma migração de 14 mil tupinambás de Pernambuco que chegou ao Peru através do Alto Amazonas numa marcha de doze anos, aproximadamente... 

Pode-se imaginar o entusiasmo dessas populações, remanescentes das grandes migrações anteriores à colonização, quando ouviam falar de preparativos de viagem destas proporções para ir aos confins da terra onde o sol adormece no horizonte. Terá sido a viagem de Pedro Teixeira (talvez percebido vagamente como um caraíba ou melhor, neste papel, mais depressa Bento Manoel de Oliveira) a derradeira tentativa dos Tupinambás em encontrar o paraíso selvagem (lugar mítico onde não existe fome, trabalho escravo, doença, velhice e morte).

A 28 de outubro de 1637, a histórica entrada de Pedro Teixeira partiu de Gurupá, rio acima, para a viagem que daria ao Brasil sua mais extensa região. No início de janeiro de 1638 descobriu o Rio Negro. Cerca de 27 de fevereiro, devido à demora da viagem e à força contrária das águas do rio Amazonas, a tripulação dava mostras de fadiga e desobediência. O capitão Pedro Teixeira manda o coronel Bento de Oliveira, com oito canoas, vinte soldados e cento e cinquenta índios, se adiantar para servir de guia. 

Rapidamente o destacamento precursor ultrapassou o Aguarico, o Coca e o Payamino até dez léguas acima do Napo. Enfim, a 3 de julho deu-se encontro entre as duas turmas e Pedro Teixeira ordena que Bento continue seguindo em frente com seus homens reconhecendo o caminho (quantos velhos mateiros tupinambás guiaram esta viagem pode-se imaginar, mas nunca ninguém saberá ao certo). 

A 15 de agosto, seguindo sinais deixados por Bento de Oliveira, Pedro Teixeira chegou a Payamino, em terra firme. Daí em frente prosseguiu a expedição ora a cavalo, ora em mula ou a pé subindo o contraforte para atravessar os traiçoeiros Andes. Demorou-se com Pedro Favela e Pedro de Abreu mais quarenta soldados e trezentos índios, deixando-os à retaguarda no preparo do regresso, próximo da Aldeia dos Pujas, uma povoação de castelhanos onde o aguardava Bento de Oliveira com sua tropa já no dia 14 de outubro de 1638. Então, desta aldeia partiram com guias juntos para Quito e logo ao chegar, no Santuário de Nossa Senhora de Guápulo, foi oficiado Te-Deum em ação de graças pelo êxito da viagem. À frente de cortejo no meio de festejos, Pedro Teixeira fez sua entrada em Quito. 

O Vice-Rei do Peru, Conde de Chicon, Dom Luiz Jerónimo de Cabrera y Bobadella, em grande audiência, no dia 10 de novembro de 1638, recebeu Pedro Teixeira. Este lhe ofereceu a sua Relação e o piloto Bento da Costa um Roteiro da viagem no qual evidencia vários pontos do percurso do grande Rio, com notáveis conhecimentos da região, de caráter etnográfico e principalmente geográfico. 

A manifestação de simpatia dos peruvianos ao receberem Pedro Teixeira inquietou as autoridades espanholas, que escolheram Frei Cristóvão de Acuña e Frei André de Arthieda para se encarregar de um diário descritivo de navegação, com ordens de examinar o curso do rio e seus afluentes, bem como os povos que habitavam as suas margens. Em Sevilha, o Conselho das Índias sugeriu ao monarca que punisse Pedro Teixeira por haver entrado no Peru sem consultar previamente aquele órgão. Todavia, Felipe ao ler a Relação compreendeu a importância da viagem significava para a Coroa Ibérica, optando por uma atitude compreensiva.

No dia 24 de janeiro de 1639, Pedro Teixeira requereu ao vigário provincial de Nossa Senhora das Mercês, em Quito, que lhe cedesse religiosos da ordem Mercedária para fundar convento em Belém e São Luís. E em 16 de fevereiro foi iniciado o regresso da expedição, escolhendo caminho mais curto, por Archidona, buscando as margens do Napo ciente de que era chegada a hora de cumprir o item do Regimento de Jácome de Noronha. Assim, tomou posse da margem esquerda do Rio do Ouro (Aguarico) em nome da Espanha, mas ressalvando direitos da Coroa Portuguesa. Ali colocou um Padrão e fundou a povoação de Franciscana, em memória dos franciscanos mortos na revolta dos Encabelados

O "Auto de Posse" foi transcrito no dia 16 de agosto de 1639, por João Gomes de Andrade, escrivão da jornada. Documento considerado como um dos maiores feitos da viagem do capitão Pedro Teixeira, de grande significado político para Portugal e, posteriormente, para o Brasil. Ao deparar com o grande tributário do Amazonas, que comunica com o Pantanal e a bacia do Prata, de grande profundidade e inumeráveis cachoeiras, batizou-o de rio da Madeira. 

No início do mês de dezembro de 1639, a Armada esteve na nação dos Tapajós, sendo recebida com agrado pelos indígenas que o chamaram de Curiua-Catu ("senhor poderoso"). Fizeram várias ofertas que Pedro Teixeira retribuiu com artigos que trouxera do Peru. Ali permaneceu durante três dias com sua tropa refazendo as forças. No dia 12 de dezembro, após viajar vinte e sete meses, Pedro Teixeira chegou de regresso a Belém do Pará, onde calorosa recepção de autoridades e povo o aguardava. 

Em seguida partiu, por via marítima, a São Luís para dar conhecimento ao governador do sucesso da expedição. Estava demarcada, pela primeira vez, a distância entre Quito e Belém do Grão Pará nos dois sentidos, com vasto território a ocupar. Dia 28 de fevereiro de 1640, como 21º capitão-mor do Pará, Pedro Teixeira assumiu a Capitania do Pará. A 28 de novembro nomeado Governador, cargo que exerceu até 26 de maio de 1641, ano em que passou os poderes ao novo Governador Francisco Cordovil.
Filipe IV, em 1640, ordenou ao Governador Bento Maciel Parente que fossem dados a Pedro Teixeira trezentos casais de índios, até aos seus herdeiros, assim como terras das Aldeias Faustino.
Pedro Teixeira preparava-se para visitar Portugal, mas faleceu no dia 6 de junho de 1641. Havia apenas pouco mais de cinco meses da Restauração da soberania de Portugal. O insigne conquistador português foi sepultado na Igreja matriz de Nossa Senhora das Graças, Catedral de Belém do Pará.

segunda-feira, 3 de março de 2014

praça Republica do Paraguai: um descendente de "Voluntário da Pátria" espicaça a Câmara de Belém a deletar a farsa do Imperador.


augusto monumento ao General Gurjão - entregue a chuvas e esquecimento - sito à atual praça Pedro II, ex-Largo do Palácio e outros nomes menos notáveis trocados pela municipalidade de Belém para render vassalagem ao idolatrado monarca brasileiro da dinastia portuguesa de Bragança, cognominado O Magnanimo; membro da velha nobreza europeia, escravagista consumado e aliado à Inglaterra foi responsável por crimes de guerra no Paraguai. Em cujo império ocorreu antes o genocídio da Cabanagem e depois o infamante recrutamento de "Voluntários da Pátria" que hoje faria horror ao Tribunal Internacional da Haia, caso fosse a julgamento.

Traços biográficos do General Gurjão - Hilário Maximiniano Antunes Gurjão (Belém do Pará, 21 de fevereiro de 1820 - Humaitá, Paraguai, 17 de janeiro de 1869) foi fiel vassalo de Dom Pedro II, na Guerra do Paraguai serviu sob ordens do genro do Imperador, o Conde d'Eu, francês Gaston de Orleans, e do Duque de Caxias. A casa onde o militar paraense nasceu à Rua General Gurjão (em sua homenagem), no bairro da Campina, foi assinalada com placa indicativa feita sob encomenda do Instituto Histórico e Geográfico do Pará (IHGP). Terá o jovem paraense assistido de perto acontecimentos da Cabanagem (1835-1840). Sentou praça em 1836 (ano da retomada de Belém pelo general Francisco José de Sousa Soares de Andrea, primeiro e único barão de Caçapava, nascido em Lisboa em 29 de janeiro de 1781, este veio para o Brasil com a Família Real, foi chefe militar no Pará em 1817, partidário absolutista da volta de Dom Pedro I), Hilário Gurjão completou cursos de engenharia e artilharia, sendo sucessivamente promovido até brigadeiro, em 1868. Comandante da Fortaleza de Santa Cruz donde passou à Guerra do Paraguai comandando a artilharia contra os fortes de Itapiru, passou a comandante da 17.ª Brigada de Artilharia na batalha de Tuiuti. Na batalha de Itororó saiu ferido vindo a falecer dias depois. Sepultado em Humaitá teve seus restos removidos para o Rio de Janeiro e depois ao Pará. Homem do império, Hilário Gurjão também foi deputado da província do Amazonas, além de professor de geografia e história no Colégio Santa Maria de Belém, no Pará. Agraciado como comendador da Imperial Ordem de Cristo, da Imperial Ordem da Rosa, cavaleiro da Imperial Ordem de Avis e dignitário da Imperial Ordem do Cruzeiro. Conta-se que o projeto de monumento para homenagear o General Gurjão (foto acima) foi adiado várias vezes: inicialmente previsto para ser construído em face à residência onde ele nasceu viu-se que ali seria desproporcional à rua; em seguida foi cogitado mausoléu na Cemitério da Soledade e enfim erguida a estátua na praça onde hoje se encontra.


LIBERDADE AINDA QUE TARDIA
O Pará no caminho de construção da Pátria Grande

"Ó Pará, quanto orgulho ser filho,
De um colosso, tão belo e tão forte;
Juncaremos de flores teu trilho,
Do Brasil, sentinela do Norte.
E a deixar de manter esse brilho,
Preferimos, mil vezes, a morte!"
   (estribilho do Hino do Pará)

A mocidade paraense não deve se deixar iludir por velhos enganados e demagogos enganadores do Povo. Muitos adultos da sociedade cuja vida não serve de bom exemplo aos mais novos, querem reduzir a idade penal agora para controlar transgressões juvenis num mundo com muitos defeitos de fabricação. Claro que não foram os moços que fizeram o mundo assim. Os jovens precisam refletir sobre o tempo em que vivem e aprender a sair da crise civilizacional a que foram levados involuntariamente por seus pais. 

Chegamos a um momento difícil e muito complexo. Onde mentira e verdade caminham lado a lado numa enorme quantidade de informação e desinformação, misturando boa fé e maldade para causar mais confusão das mentalidades. Ganham os pescadores de águas turvas. Desta maneira, os jovens quando conseguem franquear as portas da escola ainda assim se arriscam a ser tangidos como gado ao matadouro. Muitos são chamados e poucos são aprovados a renovar escalões da "matrix": dentre estes poucos, se algum discrepar das normas do sistema será imeditamente marcado como "inimigo". Devendo, portanto, ser eliminado custe o que custar. 

Tal eliminação de inimigos do sistema passa de simples "bilhete azul", a mostrar a porta da rua a desempregado imprestável até medidas mais rudes levando à detenção ou mesmo desaparecimento físico de indivíduos político ou socialmente desajustados. Na Rússia soviética internavam dissidentes como loucos, pois na verdade era loucura desafiar o sistema. Os nazistas que o digam e a Comissão da Verdade começa a levantar o véu da Censura e da tortura no país do Pau-Brasil durante a ditadura... Nas melhores famílias reais, por exemplo, ficaram célebres assassinatos políticos entre parentes próximos. Entre os papas, idem, tudo pelo bem da santa religião e obediência ao Senhor... Começa com a bíblica traição de Judas a Jesus Cristo a fim de que as profecias fossem cumpridas. 

Bom não esquecer que a humanidade é filha da animalidade: se acaso foi algum deus quem fez este mundo, foi assim que Ele fez, já dizia o evolucionista e herético padre Chardin (por isso mesmo condenado pela Igreja a calar o bico até o fim de seus dias)... Esperança de que o Homem entre na História e faça bom proveito dela para si mesmo e para outras espécies. O princípio da vida, ao que parece, vale para quaisquer agrupamentos humanos ou não, desde uma simples colônia de bactérias, um clube de esquina até o alto escalão da máfia, passando por ingênuas associações de defesa da natureza e do consumidor.

Às vezes a mocidade se revolta, justa ou injustamente, contra o domínio dos mais velhos. Não raro acabam metidos em mais encrenca e arruaças inúteis perdendo geralmente o confronto com a repressão. Para aumento da confusão, há moços que já nascem velhos e velhos, que por mais que vivam 100 anos, continuam jovens até a morte.

O preço da democracia é a eterna agitação. Já a economia de mercado paga a pena da bolsa de valores e suas pajelanças para passar a perna nos principiantes da jogatina... Mas já se sabe que a pior democracia vale mais que a melhor das ditaduras... Devíamos saber que enquanto o filho da cozinheira veste farda para arranjar emprego de polícia ou segurança de empresa para manter a ordem mediante recebimento de um salário medíocre e precário; a pequena burguesia com alguns remediados do proletariado emergente, ingenuamente sentem-se donos do poder. Embora mal consigam eles por o pé no estribo da mudança. Enquanto alguns governos populares vão a luta, o estado mundial supranacional impávido colosso, constituído de nobres representantes de 1% da população da Terra; continua a mandar e desmandar dando as cartas como sempre.  Chova ou faça sol. A antiga aliança entre o trono e altar sobrevive encarnada no enlace virtual do dinheiro com a imagem. E assim caminha a humanidade, enquanto a "mão invisível" pinta e borda.

Talvez haja exagero em palavras como estas, contudo a realidade não nos deixa enganar com a discurseira doida das boas intenções. Delas o inferno está cheio... Mesmo um menino pobre, preto e puto da vida contra injustiças e desigualdades sociais historicamente adquiridas, quando sobe na escala social só se segura no topo da pirâmide se jogar o jogo da classe dominante. Claro que alguns eleitos do purgatório sobem ao céu, mas para ficar lá em cima tem  que rezar conforme o catecismo de louvação aos deuses da eternidade. Meteram isto em nossas cabeças, na verdade não se mergulha duas vezes no mesmo rio.

 mudando a geografia de Feliz Lusitânia

O espaço esconde as consequências. A fisionomia da cidade muda a toda hora e a nomenclatura de logradouros públicos revela o empoderamento do território. Quem é quem no pedaço. A extinta Avenida 25 de Setembro, no bairro do Marco, em Belém do Pará, por exemplo, lembrava a data de 25 de Setembro de 1897, que segundo Ernesto Cruz, comemorava a vitória da força policial paraense na campanha de Canudos. 

A levar em conta Euclides da Cunha em "Os Sertões", esta não era exatamente uma história edificante para o povo belenense. Fosse como fosse, a Câmara Municipal de Belém não vacilou em mandar às favas a vitória das armas paraenses contra famélicos combatentes de Antônio Conselheiro. A homenagem da cidade, então, passou a Rômulo Maiorana, o migrante de Pernambuco que mudou de vida no Pará e colaborou para o Pará sair do atraso onde se encontrava, o dono de "O Liberal" não era santo como o canonizado João Paulo II, que apagou a data de independência de Portugal, na avenida 1º de Dezembro. Dentre outras coisas, no espólio do baratismo e falência dos caciques políticos cassados pela "revolução" militar, Maiorana se tornou dono do jornal oficial do extinto Partido Social Democrático (PSD) do Pará, transformando-o, ousadamente, num diário comercial moderno e respeitado no mercado. Não é pouca coisa, pode-se não gostar da família e criticar a receita, porém se toda gente que vem de fora tivesse sucesso empresarial igual aos Maioranas o Pará seria o maior centro econômico do Brasil zil. Enquanto isto a temida "Folha do Norte", por exemplo, sucumbia e acabava sendo, ela mesma, comprada pelo grupo arquirrival do baratismo para calar a matraca. Já disseram que a vingança é um prato que se deve comer frio.

Assim, o modesto forasteiro de outrora tornou-se rico empresário paraense de comunicação com direito a nome de avenida, tendo a TV Liberal, afiliada à rede Globo, como vedete do grupo ORM tendo como concorrente imediato o grupo RBA da rede Band controlado pela família Barbalho, ela também de origem nordestina mais antigamente radicada no estado nortista. A inveja de Caim matou Abel, mas na novela da vida real é mui difícil e complicado separar o perfil dos personagens. Se um deles tem nome numa das principais vias urbanas de Belém, o outro tem logo um bairro popular inteiro com muitos votos, chamado Jaderlândia. 

Ambos grupos econômicos rivais do Pará são oriundos do mesmo cacicado, como os gêmeos Rômulo e Remo alimentados pela lendária loba de Roma. Todavia, se por milagre da Virgem de Nazaré, de repente, os dois rivais resolvessem de comum acordo contrariar a lenda e adotar consenso para tirar a velha província da armadilha colonialista e fazer do Pará, de fato, "Do Brasil, sentinela do Norte". Agora que o Círio é patrimônio da humanidade a expressão geográfica de Belém mostraria a cara nas tratativas do MERCOSUL com a, por enquanto, baqueada União Europeia. E assim, paresque um conto de fadas, mudaria o fado do Pará velho de guerra. Gregos e troianos a plantar a paz das tribos nesta região rica por natureza no maior país amazônico do mundo. Nosso Brasil brasileiro a ganhar melhor destaque no mundo inteiro.  Tudo vale a pena se a alma não é pequena... Viva o jurunense Rancho Não Posso Me Amofiná na terra do carnaval devoto!

É certo que os Maiorana não chegaram aonde chegaram sem fazer grandes inimigos ou distribuindo caridade aos mais pobres. Desde a morte de Magalhães Barata, o baratismo rachou, Rômulo pai era ridicularizado pela tradicional elite paraense e apontado em rodas de fofoca aos quatro cantos da cidade como operador de contrabando de produtos importados em barcos de muamba vindos das Guianas carregados, inclusive, de ritmos musicais entre caixas e mais caixas de uísque e produtos eletrônicos. Engraçado que tais críticos, muitas vezes, se regalavam justamente com scotch from Surinam... Não havia casamento, colação de grau e quinze anos de Belém nos anos de 60 sem libação do néctar da Escócia importado como muamba.  Mas, quantos naufrágios, afogamentos, desaparecimentos ao mar, prisões, espancamentos de barqueiros empregados em contrabando! Arraia miúda pagando o pato da repressão ao comércio ilícito... Se a corrente das Guianas falasse seria um horror. Sem contar do interminável tráfico de drogas e de pessoas, imigração "clandestina" e outras coisas más.

É claro que o patriarca Maiorana não inventou o contrabando na rota das Guianas. Esta mazela existe desde que os colonialistas inventaram a fronteira do Oiapoque. Nem foi ele big boss dos contrabandistas. Malgré tout çà, o Pará só tirou o pé da lama graças o comércio ilegal transfronteiriço, como no Sul maravilha contrabando "made in Paraguai" é fortuna de muita gente bem... Por vias tortas Belém do Grão-Pará tornou-se caixa de ressonância do Caribe. Tempos de automóvel "cotia" (escondido no mato a ser liberado pela Alfândega suspeita de facilitar as coisas). Sabe-se como reza a moralidade das velhas elites decadentes: "faz o que digo, não faz o que eu faço"... Nada mais moralista que pirata do Caribe promovido a lorde na corte britânica.

O comércio lojista de Belém com a pioneira RM Magazine a ditar a moda, teve surto de modernidade como nunca dantes. A bem da verdade, deve ser dito aos jovens que o contrabando àquela época de 60 era decorrência direta duma injusta legislação protecionista do Sudeste e Sul maravilha. O contrabando de café vindo de São Paulo depois de sua introdução no Pará pelo furto de Palheta, em Caiena; rompeu, parcialmente, o cerco aduaneiro. 

Coisa que com discurso no Congresso ou declarações políticas na imprensa seria o mesmo que malhar em ferro frio. O Norte brasileiro, no rescaldo da crise da Borracha, estava entregue à própria sorte da mesma maneira como, hoje ainda, a famigerada Lei Kandir não está nem aí para as queixas da província mineral, tanto faz o PSDB ou o PT no governo de plantão do Planalto.  O buraco é mais embaixo do que sonha nossa vã moralidade burguesa. Prova disto é que todo mundo agora quer fazer negócio com a China comunista.

De modo que, voltando à vaca fria; ninguém mais se lembra que a velha 25 pretendia perpetuar duvidosos "heróis" paraenses da campanha de Canudos. Ficou o bairro e foi-se a avenida, agora em homenagem ao empreendedor Rômulo Maiorana. Não importa a cor do gato, lembram-se? Com tal precedente talvez não seja muito difícil esquecer salamaleques ao velho Imperador deposto em 1889, a cabo da escravatura, para justo desagravo ao brioso povo paraguaio, passando a atual praça Pedro II a se chamar doravante praça República do Paraguai. Serio! Chega de achincalhar o bravo Povo Guarani! Não foi por acaso o Mato Grosso invadido por tropas do caudilho Solano Lopez dando início à maior guerra havido no extremo sul? E lá está, na capital do estado do Mato Grosso do Sul uma praça chamada República do Paraguai como demonstração de paz e amizade a caminho da integração continental.

Justo quando MERCOSUL e União Europeia começam a negociar acordo de livre comércio. Hora e vez do Pará velho de guerra levantar a voz alto e bom som para soltar o grito: "Do Brasil, sentinela do norte".  Aqui na antiga terra dos Tapuias não é muito diferente de outras periferias do paraíso global. Jovens indignados das falsificações da história poderiam, entre outras coisas, antecipar comemorações dos 400 ANOS DE BELÉM  e ocupar o velho Largo do Palácio denunciando artimanhas da velha oligarquia papa chibé para eternizar a dinastia lusitana de Bragança no Grão-Pará. 

Começariam os rebeldes por instalar tribuna livre da "universidade das ruas" proclamando a praça República do Paraguai como lugar da república popular estudantina. Nesta praça sob árvores e urubus todo mundo seria estudante e professor ao mesmo tempo. Alguém estudando Eidorfe Moreira a fundo lembraria o prognóstico de Henri Coudreau sobre o futuro da capital do Pará. O mar brasileiro na Amazônia Azul faria sentido à juventude.

Deposto, simbolicamente, por decurso de tempo o imperador Pedro II de seu trono no ato popular inaugural da nova praça República do Paraguai uma mensagem do Povo Paraense ao Povo Paraguaio deveria ser celebrada. Para que o mundo saiba que nos sentimos envergonhados dos crimes praticados na chamada "Guerra do Paraguai" donde, enganados miseravelmente em seu sentimento patriótico, muitos de nossos antepassados foram arrastados para matar e morrer num país irmão. 

Este ato de consciência histórica, com certeza, redundaria na reafirmação do Pará em favor da Independência do Brasil. Daquela independência sonhada por todos brasileiros, inclusive os valentes povos indígenas e africanos que desde o Norte e Nordeste deram seu suor e seu sangue na construção territorial do Gigante sul-americano, Brasil. Os humilhados "voluntários" da Pátria relembrados por seus descendentes fariam a independência do Povo Brasileiro a não mais sofrer opressão em mãos de seus antigos conquistadores e colonizadores.

Diante do Palácio Lauro Sodré (Museu Histórico do Estado do Pará) os estudantes da praça República do Paraguai fariam fé pública no futuro da República Brasileira. O Palácio Cabanagem talvez um dia desocupado pela Assembleia Legislativa do Estado venha a ser Reitoria e Instituto de Educação e Desenvolvimento Sustentável da Universidade Estadual do Pará (UEPA). Os jovens devem assumir o futuro e rever o peso do passado.


O país que se chama Pará fez formal Adesão à Independência do Brasil pela vontade de seu povo, manifesta na cidade de Belém em 14 de Abril de 1823, proclamada soberanamente na histórica cidade de Muaná, na ilha do Marajó, a 28 de Maio do mesmo ano.  Os patriotas paraenses, por este crime, foram subjugados pelas forças coloniais portuguesas, aprisionados e sumariamente condenados à pena de morte (convertida em prisão perpétua e deportação, a rogo do bispo Dom Romualdo Coelho). A farsa patrocinada pelo mercenário inglês exasperou o povo paraense, martirizado na tragédia do brigue "Palhaço"; que desconfiando do Império brasileiro e inspirado na Confederação do Equador alimentou desejo da abolição da escravidão segundo os ideais republicanos adquiridos pelas tropas paraenses de regresso da ocupação de Caiena (1809-1817), com notícias da revolução Haitiana na memória. Logo senzalas e mocambos do Pará se contaminaram da sede de liberdade.


Deve, pois, à federação brasileira - notadamente nos 400 anos de invenção da Amazônia portuguesa, que se fez brasileira pela adesão voluntária de patriotas paraenses, amazonenses e acreanos - o descobrimento do destino manifesto de uma brava gente que, deste tempos remotos, viu na constelação do Cruzeiro do Sul a idealização territorial do futuro de muitos povos unidos pela história do chamado Novo Mundo. 

Urge a periferia da Periferia participar da gestação do pensamento descolonial pan-americano para comungar igualmente da construção democrática das regiões brasileiras, como etapa superior e necessária da integração da América Latina e do Caribe, de acordo com os preceitos constitucionais da República Federativa do Brasil. Caminhamos lentamente, mas seguramente, para festejar  em 2022 o bicentenário da Independência do Brasil.

Não basta apenas trazer à luz do dia os ossos da Ditadura, malmente dissipando as trevas da Operação Condor e proclamar cheios de fé "Tortura Nunca Mais". A verdade verdadeira que a todos há de nos libertar, deve renunciar a todo espírito de vindita. Mas, em compensação, deverá ser a mais radical e profunda verdade para que a História jamais volte a se repetir como farsa. A verdade não tem compromisso com o perdão. Todavia sem verdade não pode haver reconciliação baseada apenas na ignorância e no esquecimento. É assim que se tem cavado o abismo do rancor dos vencidos e humilhados, exigindo de supostos vencedores mais mentiras e horrores para manter a farsa imperial.

O PARÁ HÁ DE TOMAR PÉ DA CONCRETUDE
 DO SONHO DE BOLIVAR


mercosul












Bandeiras da Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai
arvoradas solenemente para saudar a celebração do
Tratado de Assunção (criação do MERCOSUL).




Logomarca do Mercosul


O Mercosul Mercado Comum do Sul –  bloco econômico criado pelo Tratado de Assunção, em 1991, com Argentina, Brasil, Paraguai, Uruguai, Paraguai e, mais recentemente, a Venezuela ingressou entre os países-membros. Equador, Chile, Colômbia, Peru, Bolívia participam como membros associados, não possuem poder de voto. No entanto, o Equador manifestou intenção de se tornar membro efetivo do bloco. Além destes países, o México participa como membro observador.  

Tendo o bloco econômico por base, foi possível avançar no campo político para integração da América do Sul mediante a constituição da União de Nações Sul-Americanas (UNASUL;  composta pelos doze estados. Sua população total foi estimada em 396 391 032 habitantes, em 1º de julho de 2010. Foi fundada dentro dos ideais de integração formulados por Simon Bolívar, no século XIX; conjugando as duas uniões aduaneira regionais: o Mercado Comum do Sul (Mercosul) e a Comunidade Andina de Nações (CAN); sob a inspiração do processo integrativo da União Europeia.
O Tratado Constitutivo da Unasul foi assinado em 23 de maio de 2008, na Terceira Cúpula de Chefes de Estado, realizada em Brasília, Brasil.3 O Tratado Constitutivo previa a instalação da sede da União em Quito, Equador. O Parlamento sul-americano será localizado em Cochabamba, na Bolívia, enquanto a sede do seu banco, o Banco do Sul, será localizada em Caracas, Venezuela. Uma obra diplomática de Paz e Desenvolvimento que culmina com a Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (CELAC).




A LONGA HISTÓRIA DA UNIDADE

O sonho de integração latino-americana e caribenha começou, paradoxalmente, com a conquista hispânica. Antes de 1492, com a chegada de Cristóvão Colombo, o novo continente abrigava inúmeros povos, alguns deles organizados em grandes impérios, como no México e no Peru. Há notícias de que muitos desses povos se comunicavam, guerreavam entre si e praticavam comércio de mercadorias. Na Amazônia pré-colombiana, com sua primeira cultura complexa na ilha do Marajó, não foi diferente.

Cada povo conservava suas crenças, culturas, língua e tradições. Mas, os “estranhos barbudos” que aportaram no Caribe vindos do velho mundo ainda envolto em guerras da Cruzada e Reconquista, mudaram súbita e violentamente toda maneira de ver o mundo que existia neste lado do Atlântico e do Pacífico.

O primeiro habitante das ilhas do mar das Caraíbas a tomar consciência de que havia chegado um inimigo poderoso e que a situação exigia união das gentes da terra foi o cacique Hatuey, da etnia Taíno, da ilha de Quisqueya (Hayti), chamada depois pelos conquistadores “Hispaniola” (pequena Espanha), depois Santo Domingo. Hatuey, observando a selvageria dos espanhóis revoltou-se e levantou sua nação para ir até a ilha de Guanahany (Cuba) avisar seus parentes sobre a perversidade dos invasores e iniciar aliança de defesa. Hatuey entrou para a história como o Primeiro Rebelde das Américas.

Segundo Bartolomeu de las Casas, esta foi a fala do cacique taíno: "Nos dizem esses tiranos que adoram a um deus de paz e igualdade, mas usurpam nossas terras e nos fazem de escravos. Eles nos falam de uma alma imortal, de suas recompensas e castigos eternos, mas roubam nossos pertences, seduzem nossas mulheres, violam nossas filhas. Incapazes de se igualarem a nós em valor, esses covardes se cobrem com ferro que nossas armas não podem romper… Por isso temos de atirá-los ao mar”.

Hatuey dizia que o verdadeiro deus dos cristãos era o ouro e mandava que os índios jogassem fora seus ornamentos feitos deste cobiçado metal, escondendo também lugares de mina. Os taínos fizeram guerra aos espanhóis, que o capturaram o cacique rebelde e o queimaram vivo. Contam que, na fogueira, um padre perguntou se ele queria se converter. Hatuey perguntou se, convertido ele iria ao céu cristão. – Sim, respondeu o padre. E o cacique taíno, cuspindo de nojo, replicou: - Então não, prefiro o inferno, onde não encontrarei gente tão cruel como vós. Com sua morte foi substituído pelo cacique Guamá. E hoje em Cuba uma estátua lembra Hatuey para a posteridade.

Depois destes, muitos outros povos se rebelaram contra a invasão, mas, derrotados, sucumbiram a opressão e a América virou uma grande colônia dos reinados espanhol e português. Foi só em 1780 que, a partir do grito de Tupac Amaru II e Tupac Katari, mais uma vez os povos originários tentaram uma nova guerra de reconquista envolvendo aliança com diversas nações indígenas contra os espanhóis. Foi um momento que chegou a juntar milhares de índios em enormes batalhas. Mas, também ainda os ameríndios foram derrotados.  

Dez anos depois, Francisco de Miranda, agora das fileiras criollas (espanhóis nascidos na América) apresentou um plano no qual propunha juntar toda América espanhola numa confederação. O sonho de Miranda foi levado adiante por Simón Bolívar nas lutas de independência a partir de 1815. O Império do Brasil serviu de dique à emancipação republicana e foi dos últimos países a abolir a escravidão: sem mais escravos, em 1888, forçada pela aliada Inglaterra, lentamente, a monarquia luso-brasileira disse adeus ao país do Cruzeiro do Sul.