sábado, 22 de março de 2014

ILHAS DO MUNDO POR REMOS, VELAS E PENSAMENTOS DE RIOS E MARES REUNIDOS NO PLANETA ÁGUA.




no Ano do Brasil na França, em 2005, pretendeu-se levar um barco popopô, da ilha do Marajó até a Ilha-da-França (Paris) para singrar o Sena.  A nau desta ideia não deixou de viajar.


O Ano do Brasil na França, em 2005, foi uma iniciativa conjunta do governo dos dois países, com propósito de aprofundar as relações bilaterais na área cultural, acadêmica e econômica. O evento mobilizou mais de dois milhões de franceses e teve grande retorno de mídia, atingindo os principais veículos de comunicação do país durante quase todo o ano. Como resultado, houve um aumento de 27% de turistas franceses no Brasil e mais de 450 milhões de dólares em produtos brasileiros exportados para França.

No Pará um grupo de amigos brasileiros e franceses ligados ao Grupo em Defesa do Marajó (GDM) tentou, em vão, participar fazendo "esmolação" (pedido de ajuda) em Belém e Macapá para realizar o projeto denominado "Boiúna" a fim de representar a cultura ribeirinha levando a Paris um barco amazônico típico a navegar o rio Sena. Não deu... Mas, em compensação ao insucesso da viagem da Boiúna em França, no final de 2005 o dito grupo apoiado pela Companhia Paraense de Turismo (PARATUR) conseguiu trazer Jack Lang a Belém e ilha do Marajó no dia de Natal. Em Soure fui presenteado pela obra biográfica "Nelson Mandela, uma lição de vida", versão portuguesa, escrita pelo nosso ilustre visitante. Conhecido homem de cultura e deputado na Assembleia Nacional de Paris, o eterno ministro da cultura de Mitterrand inauguraria por acaso rota literária  - ainda precisando ser conhecida e divulgada - com saída de Paris passando pelas Antilhas e Guiana ida e volta. Um prodígio debaixo do equador! Seria o caso de reformar conhecido ditado pelo seu avesso: se Maomé não foi à montanha, a montanha veio a Maomé... Evidentemente, o planeta Água nesta inovadora rota cultural norte-sul será louvado, dentre outros meios; pela narrativa aquática do romance seminal "Chove nos campos de Cachoeira", de Dalcídio Jurandir, romancista da Amazônia laureado pelo prêmio Machado de Assis.

Em meio à viagem de Jack Lang a Amazônia Marajoara, depois dele ser batizado pela onipresente chuva subindo o rio Camará, divisa entre os municípios de Cachoeira do Arari e Salvaterra; a bordo de lancha voadeira. Ao chegar numa fazenda a meio caminho de distância aos campos de Cachoeira celebrizados no ciclo romanesco extremo-norte, por milagre da tecnologia via satélite ele conseguiu telefonar a Gilberto Gil, que estava ministro e se encontrava longe em Petrópolis, no Rio de Janeiro. Entre rios Camará e de Janeiro malmente ouvia-se o que o outro dizia. Assim mesmo Lang pediu a seu amigo Gil para ambos se interessarem pela apresentação da obra de Dalcídio Jurandir ao público francófono... Ironia do destino, o ministro francês estava convidado a visitar o Museu do Marajó e a plantar solenemente uma muda de árvore Folha-Miúda diante da casa em que o escritor marajoara viveu a infância... no bairro pobre da cidade de Cachoeira do Arari chamado Petrópolis, certamente assim batizado por um espírito burlesco para marcas as diferenças entre habitantes do alto e baixo meio urbano.

Amanheceu o aprazado dia. Em Cachoeira do Arari estudantes nas ruas empunhavam bandeiras do Brasil e da França para dar as boas vindas ao famoso visitante. Então aconteceu o imprevisto. Nem a propósito. As célebres chuvas dos campos de Cachoeira naquela vez caíram a cântaros. O dilúvio retratado no romance dalcidiano. Os caruanas pareciam conspirar contra o planejado e o tempo fechou para pouso e decolagem de aeronaves deste Belém até os centros da ilha, o helicóptero do governo parado ao chão em Salvaterra não pôde decolar por horas e horas. Por prudência, o ministro foi retido ao hotel em Salvaterra só podendo ser traslado a Soure no fim da tarde, onde teve que aguardar ainda avião especial quase à boca da noite a fim de voltar a Belém cancelando a parte mais interessante da programação. Marajó, Marajó... A frustração e irritação eram enormes, então um amigo jocosamente propôs o "suicídio coletivo" para desanuviar o clima.
 
Em 2009, reciprocamente, aconteceu o Ano da França no Brasil quando foram realizados 560 projetos em todo o país, com exposições, shows, concertos, ciclos de cinema, seminários e festivais, que deram ao público brasileiro oportunidade de acompanhar manifestações artísticas da França contemporânea e conhecer mais a fundo a cultura daquele país. Além dos eventos oficiais, o público brasileiro presenciou centenas de outros projetos não oficialmente incluídos na programação oficial, que se estendeu de 21 de abril a 15 de novembro de 2009. Nada, entretanto, de durável que a população do Amapá e Pará ainda possa se recordar nos dias de hoje. Todavia, a disputa territorial pelo Maranhão e Grão-Pará - hoje Amazônia -, assim que as ilhas do Caribe; das chamadas Índias Ocidentais pelos reinos europeus de Portugal, Espanha, Holanda, Inglaterra e França  representa um passado que precisa ser melhor compreendido para inventar um futuro de paz e cooperação entre as duas margens do Atlântico, nos dois hemisférios.

A começar, por exemplo, pelas regiões amazônicas e caribenhas inspiradas por Aimé Cesaire, Bruno de Menezes e outros expoentes da Negritude, lembrando que o colonialismo com a escravidão, iniciado nas Antilhas em 1492, chegou precocemente ao Marajó em 1500, com o navegador espanhol Vicente Pinzón arrastando 36 "negros da terra" (escravos indígenas) para levá-los a Hispaniola (Haiti e República Dominicana atuais). Lugar histórico onde o Papa pediu perdão dos Índios e Negros em cerimônia pública alusiva aos 500 anos de descobrimento da América, em 1992.

Paz e cooperação pra que vos quero? Já não nos recordamos mais de que antes dos europeus chegarem a América, havia nações, povos e impérios diferentes no novo continente. Geralmente em guerra uns contra outros, com a Conquista e colonização excitaram-se ódios hereditários entre povos indígenas e aconteceu a horrível destruição das Índias Ocidentais que o dominicano Bartolomeu de Las Casas testemunhou. Nas terras baixas americanas, a Cultura Marajoara, formada em torno do anos 400 da era cristã, se apresenta como primeira cultura complexa da Amazônia e arte primeva do Brasil: ou seja, tínhamos começado na área cultural guianense uma genuína ecocivilização... Mas, disto o mundo não sabe e quase não se sabe mesmo na própria Amazônia. Como então o Brasil iria exibir tal patrimônio como deveria ser no grande salão da França no ano de 2005? Se, apesar do tempo, o público europeu, inclusive francês, parece ignorar em maior parte a existência de uma certa Amazônia francesa (região Guiana), bem como a Guadalupe e Martinica, regiões ultraperiféricas da União Europeia.


RIO DE VICENTE PINZÓN OU OIAPOQUE: ONDE O BRASIL COMEÇA.

"As civilizações pretas foram as primeiras civilizações do mundo. O desenvolvimento da Europa esteve na retaguarda, pela última idade do Gelo, um assunto de uns cem mil anos".
Cheik Anta Diop
físico e historiador senegalês, inventor do método de datação por Carbono 14 

grupo de Griôs (contadores de história) do Mali


Já dissemos linhas acima que a Negritude é uma questão de consciência além da melanina... Negra é a condição humana de todo e qualquer ser humano escravizado ao império do trabalho.  A África é mãe de todas civilizações e matriz, ela mesma, da escravidão e apartheid que se espalhou ao mundo. Reis africanos venderam negros para ser escravos na América como os filhos de Jacó venderam seu irmão José ao faraó do Egito. Os rios Nilo e Amazonas devem emendar as suas águas pela História natural e as civilizações que se formaram às suas margens. Foi através do Cairo que a notícia da primeira travessia a remo do Atlântico chegou a Paris atravessando o Mediterrâneo e daí muito depois a Caracas e Belém do Pará, estas duas cidades envolvidas pela demarcação de fronteiras entre as duas monarquias da Península Ibérica...

Quando o cristão-novo (judeu convertido), português da vila de Cuba, chamado Cristóvão Colombo fez os primeiros "negros da terra" no Caribe lá teria ele encontrado estranhos "índios pretos" que portavam lanças com ponta de cobre. Seriam remanescentes de uma fabulosa expedição de 2000 caiaques vindos do rio Gâmbia, através do mar aberto, há 200 anos antes? Tal odisseia teria sido comandada pelo próprio rei do Mali em pessoa, segundo tradição moçárabe oriunda da cidade do Cairo. Mas, dizem historiadores africanos modernos, os Griôs silenciaram sobre a história de Abubakari II por a interpretarem como uma inominável deserção. Será verdade? E que não seja, assim mesmo o caso é plausível. Visto como as tais "calmarias" esconderam a teoria do segredo dos descobrimentos marítimos portugueses pelo fato da Corrente Equatorial Marítima, que se reparte entre a Corrente Brasileira e a Corrente das Guianas, ter sido a grande e secreta vantagem dos nautas lusíadas.

Está provado que o navegador espanhol Vicente Yañez Pinzón chegou à costa do Brasil, a 26 de janeiro de 1500, à altura do cabo de Santo Agostinho (Pernambuco) donde a corrente e os ventos alísios o empurraram para o Norte. Pedro Álvares Cabral, chegou depois fazendo escala em Porto Seguro a caminho da Índia. Da mesma maneira, dizem pesquisadores africanos, a flotilha de Abubakari II seguiu a corrente e inclusive teria deixado o nome primitivo de "Pernambuco"... Mas, antes mesmo desta expedição africana, uma primeira tentativa de 200 remadores de caiaque teria fracassado "engolida" supostamente pelas ondas da Pororoca na boca do Amazonas.

"O que se sabe sobre os reis do Império do Mali é contado a partir dos escritos de estudiosos árabes, incluindo Al-Umari, Abu Uthman-Sa'id ad-Dukkali, Ibn Khaldun, e Ibn Battuta. Segundo a história abrangente Ibn-Khaldun dos reis do Mali, o avô de Mansa Musa foi Abu-Bakr (o equivalente árabe para Bakari ou Bugari), um irmão de Sundiata Keita, o fundador do Mali Império como registrado Mansa Musa chegou ao trono através de uma prática de nomear um vice-rei enquanto o rei se encontra em peregrinação a Meca ou algum outro 'empreendimento', e mais tarde é nomeado como herdeiro legítimo. De acordo com fontes primárias, o rei anterior, embarcou em uma expedição para explorar os limites do oceano Atlântico, e nunca mais voltou. O estudioso árabe-egípcio Al-Umari cita Mansa Musa da seguinte forma:

"O governante que me precedeu não acreditava que era impossível alcançar a extremidade do oceano que circunda a Terra (ou seja, o Atlântico). Ele queria chegar a esse (final) e estava determinado a prosseguir o seu plano. Assim, ele equipou 200 barcos cheios de homens, e muitos outros cheios de água, ouro e provisões suficientes para vários anos. Ele ordenou ao capitão não voltar até que eles chegassem do outro lado do oceano, ou até que ele tivesse esgotado as disposições e água. Então eles partiram em sua jornada. Eles estavam a deriva por um longo período, e, por fim apenas um barco retornou. Quando questionado o capitão respondeu: 'O Príncipe, navegamos por um longo período, até que vimos no meio do oceano um grande rio que flui de forma maciça. Meu barco foi o último, outros foram antes de mim, e eles foram afogados num grande redemoinho e nunca mais sairam de novo. Eu naveguei de volta para escapar da corrente. " Mas o sultão não iria acreditar nele. Ele ordenou que dois mil barcos de estar preparados para ele e seus homens, e mais mil para a água e provisões. Em seguida, ele conferiu a regência de mim para o termo da sua ausência, e partiu com seus homens, para nunca mais voltar, nem para dar um sinal de vida.
Mansa Musa [cf. Wikipedia].
Me lembro de meu compadre Manduquinha, cafuso inconfundível e marido da comadre Didi Costa, um casal de griôs moradores no igarapé Bacurituba, rio do Canal (Ponta de Pedras); a me ensinar que a Pororoca é um fenômeno de encantaria provocado por três Pretinhos, que surfam as três primeiras ondas... Assim é se lhe parece (Pirandelo). Mas, o relato de Pinzón diz que ele viu a Pororoca e que sequestrou os 36 primeiros "negros da terra" da América do Sul, tirados de uma aldeia da ilha Marinatambalo [Marajó]... Dali foi fazer água no "rio de Vicente Pinzon" (Oiapoque). Para os franceses era o próprio rio Amazonas.  O conflito europeu entre França e Inglaterra afetou Espanha e Portugal e contaminou as colônias de ultramar. Já no século XVII franceses e portugueses disputando aliança com a nação Tupinambá de uma parte contra holandeses e ingleses acamaradados de povos Aruaque e Galibi de outra parte; estiveram em guerra por mais de 40 anos. Situação somente minimizada com as pazes de Mapuá (Breves, 1659),  patrocinada pelo Padre Antônio Vieira, entre Nheengaíbas (federação nuaruaque entre os Aruã, Anajá, Mapuá, Combocas. Guaianá, Mamaianá, Pixi-Pixi e outras etnias) e a aliança luso-tupinambá.

Em torno desta longa história cujos começos se acham antes do Descobrimento do Brasil - surgiu o Contestado do Amapá, então parte do território da província do Pará, que, em conjunto com o arquipélago do Marajó na área cultural guianense entre o estuário Pará-Amazonas e o delta do Orenoco até a ilha de Trinidad; fez parte das Guianas como a Guiana portuguesa e desde a adesão do Pará à independência (1823) é agora a Guiana brasileira. Daí surgiu o município do Amapá, pertencente ao Estado do Pará, donde foi separado para formar o Território Federal do Amapá, do qual não se deveria excluir Marajó conforme a geografia humana e a antropologia milenar ensinam, para vir a ser o Estado do Amapá. Que, como a departamentalização das colônias francesas, viria ser a Região da Guiana e junto com o Estado do Amapá começaria a criativa cooperação internacional descentralizada.

A "Questão do Amapá" ou "Contestado do Amapá) é um capítulo especial da histórica concorrência colonial entre franceses e portugueses em disputa pelas Índias Ocidentais, finalmente resolvido, diplomaticamente, pelas repúblicas do Brasil e da França mediante o Laudo Arbitral da Confederação da Suíça (1º/12/1900), dando ganho de causa ao Brasil. De todo modo, a sombra do Contestado deixada pela época colonial restou como pedra no meio do caminho da cooperação entre as duas colônias confinantes no Oiapoque. Nominalmente independente durante o império do Brasil e até a primeira república dos Estados Unidos do Brasil, 

Em aliança com o cacique Araribóia, na baía da Guanabara, Mem de Sá expulsou os franceses da Guanabara e já nos início do século XVII num novo choque no Maranhão, a colônia de La Ravardiére se desfez (1615) levando à fundação de Belém do Pará (12/01/1626) que fará 400 anos em 2016. Em guerra contra Inglaterra, Napoleão invadiu Portugal e, em consequência, a família real portuguesa se transferiu para o Rio de Janeiro (1808), criando o Vice-Reino do Brasil e instando a Corte e o governo português naquela cidade brasileira. Daí saiu ordem ao governo do Grão-Pará e Maranhão (Amazônia portuguesa) a ocupar preventivamente a colônia francesa de Caiena (1809-1817). Lisboa (depois Rio de Janeiro) e Paris discuiam

Como se recorda, Portugal saiu na frente das mais potências marítimas em busca do chamado caminho marítimo para as Índias. A Espanha logo entrou na corrida com a viagem de Cristóvão Colombo concluída com o descobrimento da América, em 12/10/1492, nas atuais Bahamas (Caribe). Imediatamente, começaram as violência das quais o dominicano espanhol Bartolomeu de Las Casas deixou testemunho: da ilha Hayti (chamada Hespaniola) levantou-se o primeiro rebelde da América contra a conquista, o cacique Hatuey, aprisionado em luta em Cuba, onde foi queimado vivo e até hoje é lembrado em monumento feito à sua memória, sucedido pelo cacique Guamá, da mesma nação.

Segundo a nova historiografia pós-colonial africana, o relato lendário da primeira travessia do Atlântico Sul, pelo imperador do Mali Abubakari II, há 200 anos antes de Colombo; pode corresponder a fato verdadeiro. Esta notícia chegou a França através do Cairo acerca da peregrinação a Meca empreendida por Kankan Mansa Musa, o décimo imperador Mansa, ou imperador do Mali durante seu auge no século XIV, entre os anos de 1312-1337, tornou-se famoso por ser um dos grandes benfeitores do conhecimento em Timbuktu (capital do império mandinga, hoje patrimônio da humanidade reconhecido pela UNESCO).

Kanka Mansa Musa informou que sucedeu a Abubacari II por este ter renunciado ao reino para ir ao outro lado do que lhes parecia ser o grande rio Salgado (oceano Atlântico). Os historiadores modernos comentam que a renúncia e presumido desaparecimento do imperador teria causado comoção e por isto os griôs guardaram silêncio a respeito do assunto, dado o sentimento da população equivalente a uma deserção inexplicável. O que explicaria a viagem de Abubakari II ter ficado em esquecimento durante tanto tempo.

  Kansa Mansa Musa, rei do Mali.     Este assunto, entretanto, circulava em Caracas (Venezuela) pelo menos nos anos de 1930, quando através de demarcadores da fronteira Brasil-Venezuela ao tempo do almirante Braz Dias de Aguiar; chegou a Belém todavia comentado como um relato lendário atribuído ao imperador Gao (anterior a Abukari II e que é memorizado pelo nome da cidade de Gao, naquele antigo reino e hoje república do Mali).


 PONTE DO OIAPOQUE: CONCRETUDE DA PAZ E COOPERAÇÃO NORTE-SUL

No artigo “L’Avenir de la Capitale du Pará”, escrito entre 1897-99, Henri Coudreau (1859-1899) e publicado pela primeira vez em Belém do Pará em 1923, afirma a situação estratégica da cidade de Belém. Baseado neste vaticínio Eidorfe Moreira desenvolveu seu ensaio "Belém e sua expressão geográfica". A análise Coudreau-Moreira contempla a ligação da América do Sul com a Europa e América do Norte, não apenas por ser portal de toda malha hidrográfica amazônica. Mas, sobretudo, pelo potencial de vir a ser o ponto terminal de uma imensa ferrovia podendo ligar o Pacífico, desde o Chile e Peru, ao Atlântico atravessando o Planalto Central brasileiro, o que seria vetor de desenvolvimento do Pará e Mato Grosso.

Este velho assunto, quando se discute a recolonização da Amazônia, a partir da rodovia Transamazônica e o arco de fogo que acompanha a fronteira agropecuária e o extrativismo mineral com prejuízo da Floresta Amazônica e fomento do trabalho escravo. E, ao mesmo tempo, entra em pauta discussão sobre acordo de livre comércio entre o MERCOSUL e a União Europeia; suscita um olhar retrospectivo sobre a Fronteira Norte no contexto histórico da conquista da Amazônia e Caribe.

À diferença de muitos viajantes e naturalistas que o precederam voltados às várzeas amazônicas e ao gigantesco Amazonas que possibilitou a ocupação da região, Coudreau focaliza as terras do planalto e a floresta densa, ricos territórios a conquistar. Discute motivos e implicações da ocupação que estava integrada à economia da borracha e às possibilidades abertas pelas inovações tecnológicas, em particular as ferrovias, vetores do desenvolvimento e da modernidade.

Coudreau pensava em colonizar a região entre o Tocantins e o Xingu com um milhão de imigrantes italianos... 70 anos depois, Brasília remaneja descendentes de italianos e alemães para, por outra maneira, levar a cabo o plano de Coudreau. Eidorfe Moreira, tem visão diferente e prioriza populações amazônicas com escopo do que hoje chamamos de desenvolvimento regional sustentável. Diverge de Coudreau no que concerne ao espírito "explorateur" das chamadas viagens filosóficas. Mas, no essencial, realça o grande rio e sua poderosa descarga (20% da água doce superficial do Planeta) que empurra o Oceano antes de se misturar à Corrente das Guianas caminhando lado a lado por muitas milhas. Estas águas ricas de sedimentos e cardumes pesqueiros vai até a costa da Venezuela fundir-se à corrente do golfo do México. Não é coisa sem importância. Mas, que seria o tal desenvolvimento sustentável? Que é mais renovável do que a Cultura, o lazer, esportes e o Turismo? A canoagem e a vela... Vejam o que o Canadá oferece, por exemplo:


"Pegue um remo e veja o Canadá pela linha d'água"

  • 243041 quilômetros de costa
  • 42 rios protegidos pelo Patrimônio do Canadá
  • 1738 quilômetros é a extensão do rio Mackenzie
Existe algo mais canadense do que um passeio de canoa ou em um caiaque inuíte? O Canadá tem a mais longa costa do mundo a explorar, com enseadas escondidas, fjords e paisagens pontuadas por lagos e cortadas por rios. Prepare o almoço para viagem, escolha entre águas calmas ou corredeiras e tire um dia ou uma semana para se divertir. Reme pelas maiores correntes do mundo. Seja um viajante do início da era dos comerciantes de pele em um histórico rio. Observe baleias e icebergs flutuando. Reme sob a sombra dos arranha-céus ou desde uma pousada a outra à beira mar, parando no caminho para provar vinho, para um festival ou para caminhar na floresta. Nossas terras eram ocupadas pelos povos das Primeiras Nações, que viajavam pelos rios, e por exploradores e colonizadores que seguiram essa tradição: veja nosso passado de vida junto às águas em Peterborough, o Museu da Canoa Canadense, em Ontário. Termine um dia na água em hospedarias luxuosas e com uma refeição gourmet. Ou monte uma barraca e asse na fogueira um peixe que você mesmo pescou. Depois torre marshmallows e vá dormir embalado pelo som da água do rio ou pelo ritmo das ondas quebrando.

ponte binacional sobre o rio Oiapoque, ligando Saint-Georges (França) a Oiapoque (Brasil).

Mais do que ao Pará por força da história, o arquipélago do Marajó se acha natural e geograficamente integrado ao Amapá. Já a cooperação regional fronteiriça - caso Brasília e Paris tivessem esta leitura - deveria ter contemplado os dezesseis municípios do Marajó desde a primeira hora. Mas, a incipiente cooperação internacional descentralizada entre municípios da Guiana francesa e do Marajó não saiu da carta de intenção... As cidades de Belém e de Fort-de-France tentaram uma geminação que, por desinteresse da parte brasileira, não avançou. Agora em 2014 volta-se a falar de "coopération" desta feita da Martinique e Pará.

Desde a viagem de Jack Lang a Belém e Marajó ficou uma porta entreaberta, a Guiana francesa talvez talvez queira insistir. Mas, é o Pará o ponto de interrogação, poderia chamar seus vizinhos além da baía da Vieira Grande ao norte para dar boa demonstração ao mundo em crise sobre oportunidade de "inventar o futuro".

O espírito de Cesaire agora na rota de migração dos Tainos descendentes de Hatuey (o Primeiro Rebelde da América) e Guamá (por acaso, nome do campus da Universidade Federal do Pará) para a Terra-Firme (América do Sul) poderia, finalmente, inaugurar a ponte do Oiapoque com tudo que ela representa e espera.



Para informação sobre canoagem no Pará buscar na internet.

https://www.youtube.com/watch?v=f6soNVLBy6g&app=desktop




   1ª Porfia Marajoara de Canoas Tradicionais, Ponta de Pedras (ilha do Marajó) 30/11/2013.

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