sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Missunga: releitura de Dalcídio à margem de "Marajó".


capa da 4ª edição (2008) do romance,
co-edição UFPA/Casa de Rui Barbosa:
introdução de autoria de Rosa Assis.


MEU ENCONTRO COM DALCÍDIO

Em 1937, ano de meu nascimento na maternidade da Santa Casa de Misericórdia do Pará, perseguidos pelos galinhas verdes, revolucionários da 'Aliança Nacional Libertadora (ANL)' no Pará encontravam-se encarcerados no tristemente célebre Presídio São José, dentre eles Dalcídio José Ramos Pereira (Ponta de Pedras, 10/01/1909 - Rio de Janeiro, 16/06/1979) que se tornaria conhecido como Dalcídio Jurandir, irmão de meu pai, Rodolpho Antonio Pereira, por lado paterno. No ano anterior Dalcídio foi preso político, pela primeira vez, acusado com seus companheiros de crime de "subversão da ordem". Mas que diabo os militantes da famigerada ANL provocaram? 

Estigmatizada pelo Estado e pela Igreja, a palavra "comunista" chegou em Itaguari (Ponta de Pedras) como se fosse a volta da peste de bexiga (varíola), mais conhecida como "alastrim", a qual no século 18 matou mais gente de que todas vítimas da repressão da Cabanagem. Meu avô paterno, Alfredo, capitão honorário da Guarda Nacional, grande devoto de Santa Rita de Cássia, rábula considerado e veterano secretário de intendência nas vilas de Cachoeira e Ponta de Pedras, sentiu o baque.

Tia Lodica ficou solteirona, quando seu noivo Tobias escolheu militar no comunismo no Rio de Janeiro em lugar de um casamento fagueiro com a filha do capitão Alfredo. Já minha avó postiça (na verdade tia) Sophia, rifou o noivado com o alfaiate Queiroz e ficou solteira com a morte de minha verdadeira avó, Antônia (índia da Mangabeira, irmã de Serafina e Joana), para criar meu pai, depois adotar o Sidraque e, por fim, o filho de Sidraque... Meu pai foi mandado a Belém pegando a primeira igarité com viagem certa a fim de saber o que se poderia fazer em relação ao caso de Dalcídio. A polícia talvez rondasse a casa dele e vigiasse toda família, era preciso cuidado para em vez de um, a família Pereira não ter logo dois presos... A vida imita a arte. Passados muitos anos vim saber por boca de minha sogra que uma das prisões de Dalcídio aconteceu em casa do pai dela, Argemiro Dias do Nascimento (motorneiro de bonde da companhia inglesa e líder sindicalista), também preso com diversos companheiros no "aparelho" do partido sob ingênua banca de tacaca de dona Maria José Teixeira do Nascimento, esposa do dono da casa no bairro da Cremação.

Em tais condições, a ficção faz morada ao lado da realidade. Dalcídio preso e diz-que o Sidraque Pereira estava de guarda no Presídio São José... Durante a ronda o prisioneiro teria deixado cair um pedaço de papel amassado de modo a chamar atenção do carcereiro seu irmão de criação. Sidraque foi até o fim do corredor e voltou aguardando momento em que não fosse observado, apanhou a bolinha de papel guardou no bolso e foi embora assim que houve a troca da guarda. Em chegando em casa, abriu e leu a mensagem: consta que dizia, "queimem meus livros". Verdade? ...

Hoje, setenta e seis anos depois, falar no tio Sidraque, PM carcereiro de seu irmão adotivo Dalcídio é surrealista. Já me dá vontade de ter cineasta para produzir documentário sobre aquele passado ainda agora bem presente: o romance "Marajó", escrito em Salvaterra em 1939 começa por imaginação no rio Paricatuba. Na geografia real o tal rio é igarapé tributário da margem direita do Marajó-Açu, rio que banha o município de Ponta de Pedras e dá nome a toda ilha e os mais acidentes geográficos de mesmo topônimo. 

Ao que consta na história oral da família Pereira, tio Sidraque nasceu no Paricatuba, filho de dona Fuluca parenta não me lembro em que grau de Frederico Pacutu, por alcunha Professor Gurijuba; personagem da vida real e amante imaginário da cantora Carmen Miranda, alvo predileto de zombarias da chusma ignara do Ver O Peso. Estes meus parentes eram descendentes de tio Felipe, colono português bonachão, e sua espoletada mulher minha tia-avó Serafina, índia catequizada. Upa! Estas águas memoriais já se misturam ao romance dalcidiano e chegam até o famigerado Diretório dos Índios (1757-1798) que fomentou casamentos inter-raciais como arremedo de reforma agrária.  Ao ler "Marajó" vai se ver que Missunga irá tentar um risível assentamento de cabocos sem-terra no Paricatuba... O iluminismo brega bisavô do Plano Valorização da Amazônia no Pará velho de guerra, será?

O que já seria bastante para arrumar confusão, se por outra parte não pesasse uma suspeita a respeito do comportamento "semítico" do capitão meu avô Alfredo Nascimento Pereira, nascido na vila de Benfica, talvez no engenho Santa Sophia, da colônia de Benevides. Parte misteriosa da suposta origem cristã-nova da família que somada à parte envergonhada da história onde índios e pretos desmemoriados se confundem como tantas outras famílias ultramarinas, a bem dizer deportadas.

E, mais complicado, a hipótese provável de que os Pereiras em questão tenham um pezinho na casa do sargento-mor Domingos Pereira de Moraes, contemplado da fazenda São Francisco (Malato), que com São Braz (rio Fortaleza) e Rosário da missão dos Jesuítas, deu origem ao município de Ponta de Pedras. Um segundo Domingos Pereira de Moraes foi diretor da Santa Casa de Misericórdia do Pará: ou seria ainda o primeiro, no rol dos "homens-bons" da oligarquia lusa no Pará? Que um terceiro Domingos Pereira de Moraes, primo em primeiro grau de minha mãe, reforça a hipótese não há dúvida. Além disto este veio a ser avô de minha mulher e do quarto Domingos Pereira de Moraes, meu cunhado, excepcional, que viveu alguns anos comigo quando morreram seus pais e, portanto, meus sogros. A geografia da literatura de Dalcídio é expressiva em citações de lugares ligados a nossa família. Por exemplo, o sítio Fé em Deus citado como do "compadre Modesto", foi terreno de meu bisavô galego Pedro Pérez de Castro, dono de escravos, casado com minha bisavó Angela e talvez herdeira do antigo contemplado... Quem sabe? Se não há certeza absoluta, a história não deve se acovardar em propor suposições que tem bons motivos para garimpar possibilidades credíveis. Eis como, modernamente, a literatura acaba sendo parteira da história.

PARENTESCOS HISTÓRICOS

Se não bastasse mestre Vicente Salles identificar no arcaico romance ibérico do "amor desgraçado" de Dona Silvana a matriz oral transplantada ao chão de Dalcídio da qual foi se surdir o "primeiro romance sociológico brasileiro" [o embrionário "Missunga", tentativamente "Marinatambalo", enfim "Marajó"]; a história real de Ponta de Pedras levanta pistas de conexão entre a obra e o tecido social de famílias de diferentes classes, etnias e horizontes geográficos cujo cenário inclui Muaná (lugar onde o capitão Alfredo, vindo de Belém para lecionar começa sua aventura marajoara como professor primário), Ponta de Pedras e Cachoeira do Arari num espaço ficcional único que se transforma na narrativa em universo-Marajó.

Neste universo natureza e cultura estão entrelaçados inseparavelmente. Da mesma maneira, pessoas de carne e osso, seus sonhos e agruras, vidas e mortes; por arte do romancista são criações representativas da Criaturada grande (conforme entrevista de Dalcídio a Eneida de Moraes). O pessimismo do romance dalcidiano não é nunca sinal de conformação ou derrota, nem o "eterno retorno" com saudades do passado: mas, ao contrário, um acerto de contas com a História numa provocação crítica ao despertar das consciências suscitando vontade política para transformar a realidade fatigada pela farsa da história. 

Onde a vida do autor dedicada com fidelidade franciscana ao seu chão e sua ficção se unem por um fio intangível na resistência e libertação da Criaturada grande (populações tradicionais ribeirinhas da Amazônia): não sem razão Jorge Amado, na cerimônia de entrega do Prêmio Machado de Assis (1972), chamou de "índio sutil" ao ímpar mulato marajoara. Portanto, Dalcídio não se explica por "milagre" no Marajó velho de guerra, nem sua literatura se encerra em si mesma. Ela é resultado orgânico de um bioma e região cultural ditos Marajó. O desafio da Amazônia (cf. Miranda Neto) que se oferece para decifrar a Esfinge de todas as margens e periferias da Civilização (donde a negritude universal é a chave).

Nasci numa família tipicamente marajoara, cujas origens incertas se perdem da noite do tempo tendo inconfundíveis raízes indígenas mescladas com imigrantes ibéricos e cativos africanos. Cresci querendo decifrar a esfinge transplantada de além mar na antiga terra Tapuia. Desde quando, em tenra idade, comecei a me interessar pela grave questão em saber quem inventou o mundo. Claro, nossos amáveis acadêmicos cultivam o gentil Dalcídio e se pudessem separavam a pessoa real do autor da obra de ficção. Na contraparte reponta a maré da vida real daquele menino do chalé de Chove nos campos de Cachoeira, à ilharga da árvore Folha-Miúda na beira do rio Arari brotada ali, exatamente, por acaso plantada pela mão poderosa da mãe natureza, em cuja sombra o futuro romancista, brincando com o mítico carocinho de tucumã (Astrocarium vilgare), ensaiou a reinvenção daquele mesmo chão.

POR QUE DALCÍDIO PEGOU O SÃO JOSÉ, 
FAMOSA CADEIA DE LADRÃO DE GADO?

A Aliança Nacional Libertadora (ANL) "Com o lema “pão, terra e liberdade" teve um crescimento rápido a partir de seu lançamento no teatro João Caetano na cidade do Rio de Janeiro. Mais de 1600 comitês foram realizados em todo País até a ANL entrar na ilegalidade em 11 de julho de 1935.

A organização foi fundada pelo Partido Comunista do Brasil (PCB), nascida em março do ano de 1935 tinha como finalidade livrar o País do nazi-fascismo. No Brasil a Ação Integralista Brasileira (AIB) exibia sua total afeição pelo fascismo. Em resposta formaram-se frentes antifascistas que congregavam tenentes socialistas e comunistas descontentes com o Governo Vargas.

Em meados de 1934 um pequeno grupo de intelectuais e militares contrariados com os rumos do governo de Getúlio Vargas organizou varias reuniões no Rio de Janeiro, com a intenção de criar uma organização política capaz de dar base nacional as lutas que se travavam. Dessas reuniões surgiu a ANL, cujo primeiro manifesto político foi lido na Câmara Federal. A Aliança Nacional Libertadora tinha como fundamentos:
  • Interrupção do pagamento da dívida externa do Brasil;
  • Nacionalização das corporações estrangeiras;
  • Reforma Agrária e o amparo aos pequenos e médios proprietários;
  • Garantia de amplas liberdades democráticas;
  • Constituição de um governo popular;
No final do mês de março a ANL foi oficialmente lançada na Capital Federal. Na ocasião, dezenas de pessoas assistiram a solenidade; o manifesto foi lido pelo estudante Carlos Lacerda, que nos anos seguintes se tornaria um grande oponente do comunismo.

Na época Luiz Carlos Prestes, o “cavaleiro da esperança”, achava-se exilado na União Soviética, porém fora proclamado presidente de honra da organização. Prestes gozava de admirável consideração devido a seu papel de líder na Coluna Prestes que na década precedente havia tentado derrubar o governo pelas armas. Nos meses posteriores dezenas de pessoas se filiaram a ANL, cavalheiros ilustres mesmo sem se filiar mostraram-se atraídos pelo movimento, varias manifestações publicas foram realizadas em diversas cidades brasileiras inclusive com artigos divulgados nos jornais. [fonte: InfoEscola copiado da internet].

A SEGUIR....

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

VER O PESO DO OUTRO LADO (2).


                  célebre urubu do Ver O Peso



Ode ao urubu do Ver O Peso


Meu bom amigo e companheiro Urubu
tomo-te as dores, retiro de ti os insultos
humilhações e vexações 
atiradas contra tua honrada pessoa.
Sim tu és uma pessoa ou instituição
do patrimônio público
pois bem representas garis e lixeiros desta injusta cidade.
Tu, prezado Urubu, estás do lado dos camaradas
que trabalham sem descanso e feriado
hora extra, décimo terceiro e carteira assinada
nesta feira latrina americana e doca do veropa
exaltadas por imortais presepeiros da potoca
que aí não vão nem compram nada
e que foi outrora foz do extinto Igarapé do Piry
transformado em cloaca do centro histórico
logradouro do pixé do peixe morto e flato da urubuzada
objeto nojento da caçoada
desta gente inconsciente e consumidora de X-tudo
Mecdonis, pato no tucupi, maniçoba, caruru, peixada,
bucho, vísceras, carne verde, mocotó
e tudo mais que após a comilança sai pelo fiofó
da urbe e vai direto pelo esgoto sabe lá aonde
levar seus batalhões de coliformes fecais:
na natureza com certeza nada se cria, tudo se transforma...

Dizem até que alguns malvados tentaram afastar na marra
tua patota na hora do sagrado repouso do trabalhador
no dormitório das mangueiras
sito à praça Dom Pedro II a peso de foguetório
talvez comprado na casa Bechara Mattar
e o Ibama não disse nada?...
A molecada impedida de namorar na dita cuja
caçoavam a "praça dom peido imundo" gozando flato de urubu.
Vai ver o incêndio daquela famosa foguetaria
foi praga do urubu do Ver O Peso...

Ninguém se toca pra necessidade da limpeza pública
nem imagina o lixão do Aurá depois da farra do boi
sequer sabe que apesar de tudo
Belém do grão Pará ainda poderia ser a Veneza amazônica
bem limpinha que seria desde menina 
há 400 anos de idade.

E tu, Urubu velho de guerra à carniça, 
a limpar porcaria deixada por mal educados
e mal pagos do comércio e indústria da sociedade anônima
enquanto maus cidadãos avacalham a municipalidade
sobretudo no cartão-postal chamado o Ver o Peso
do centro histórico de Belém
candidato mal sucedido a patrimônio da humanidade
mas talvez futura paisagem cultural brasileira,
se não der azar.

Ainda assim alguns malvados
se pudessem te mantinham preso no mesmo veropeso
pra não fazer coisa pior contigo, amigo.
Pois eu acho justo que o poder público
e a sociedade votante pagadora de impostos
cuide melhor da limpeza da cidade das mangueiras
dando dignidade aos lixeiros e garis 
de feiras e praças da república municipal.

Já é hora de te aposentar, amigo Urubu preto
por tempo integral de serviço
do insalubre meio ambiente urbano
e te deixar ir cuidar da benemérita família Cathartidae
com mais igualdade junto a teu primo rico
Urubu gereba, nobre ministro Cathartes aura

urubu-real chamado.
Por exemplo, tu podias ir flanar
pelos campos gerais do Marajó onde reina fartura.
Quem te condenou ao fado de urubu do Ver O Peso
talvez ignora teu nome científico
Coragyps atratus digno de senador
e te considera ave de mau agouro
quando, na verdade, és benfeitor da vida natural
magnífico biodigestor voador
que nem um caça de última geração
pra detectar o inimigo da saúde pública
desde grandes altitudes com teus olhos de lince.

Me lembro meu velho daquelas horas mortas
no morno céu de Belém com curicas
papagaios, rabiolas ou pipas no ar dando laço
e tu nas alturas desfilando entre nuvens
com os teus semelhantes 
tal qual esquadrilha da fumaça da urubuzada
a planar com garbo aeronáutico.

Agora a gente chega no xís da confusão:
a causa da mentalidade dos ignorantes que te sacrificam 
ao fado fatal de urubu do Ver O Peso
mesma sina dos mais trabalhadores da limpeza urbana
feirantes, açougueiros, talhadores de peixe, balanceiros
da pedra
proibidos de mudar de destino e cuidar melhor da família.

Sim é verdade, mais do que preocupação com o bem-estar
da urubuzada na paisagem turística do cartão-postal
os trabalhadores unidos do veropa
também eles são cidadãos e têm todo direito de labutar
num melhor ambiente de trabalho pela sociedade solidária
tradição e modernidade com participação de lucros
melhor distribuição de renda em parceria com o Sebrae
financiamento público do BNDES
com acento no "S" de social.

O diabo é que os donos do pedaço gritam logo:
Epa, epa, epa; não mexam na feira! 
Farinha pouca meu pirão primeiro!... Sai debaixo, olha o jabá!
Lá vem retranca e enganação de eleição pelo meio.
Políticos do voto pronto sempre a dizer deixa pra lá, rapaz
pior que está não fica e chupa mais uma meia sola de esmola.

Então a solução é acrescentar farinha e ladainha
de São Benedito da Praia (Ossain orixá) pra todos e todas,
as erveiras e vendedoras de banho de cheiro principalmente.
Um projeto diferente que cuide em primeiro lugar da gente
desta antiga cidade:
O peixe frito nosso de cada dia ao azeite de patauá,
o que é que há? Mercado de ferro
doravante mercado do peixe frito bem bonito por fora
e por dentro...

Os peixeiros de sempre assistidos e capacitados
na modernização do negócio com novos sócios
Por que não se poderia casar bem com o açaí Pará da feira?
O Solar da Beira como ecomuseu e centro de educação popular
das ilhas do Guajará
Pelo amordedeus! Pára de pensar pequeno esta gente...
O Mercado Bolonha pelo mesmo conseguinte
terminaria a revitalização patrimonial com chave de ouro
promovendo açougueiro em "chef" de churrasco
do melhor búfalo orgânico da verde Amazônia brasileira.

E tu, amigo Urubu, sempre vigilante nas alturas
serás no futuro mais respeitado e considerado
enquanto o Mangal das Garças faz escola
e repovoa a orla desde o campus do Guamá
até Icoaraci com a graça pura de garças e guarás
a fazer magna morada na revitalizada foz do Piry.

Adeus amigão e obrigado por tudo: mande lembranças.

terça-feira, 26 de novembro de 2013

VER O PESO DO OUTRO LADO.



A doca do Ver O Peso com as igarités à vela ligando a Cidade às Ilhas no outro lado do rio.



Um analfabeto a mais acaba de desembarcar na Capital


A "Fé em Deus" acaba de entrar na Doca da feira ao fim da maré
Febre de quarenta graus me traz a bordo entre paneiros de açaí
Paludismo de novo: a parte que me coube no latifúndio das Ilhas
Rescaldo contemplado do extinto diretório dos índios
É verdade sim que meus pobres parentes foram incompetentes 
Na exploração da desgraça dos outros: graçasadeus...
O Arari me diz: o que dá pra rir, dá pra chorar meu camarada...
Vinte anos entre a ilha filha da Cobragrande e a Cidade grande
A canoa freteira desceu o rio Curralpanema ao fim da tarde
Maré vazante e espera na Boa Vista saída prevista pelo rio Fábrica
De igarapé em igarapé esta gente arranja carregamento da igarité
De rio em rio se tece a viagem de fio a pavio
Muito vento felizmente com rápida travessia rumo ao Cotijuba
Lote de porco brabo como o diabo a desembarcar no Curro Velho
Porco amoitado virou javali mato adentro pego a dente de cachorro
Marreteiros intermediários do deusdará das varjas
Que nem urubu vigia vaca magra no atoleiro durante a seca
Conta corrente da extração do mato sem cachorro
Apurado do suor da Criaturada filha da mãe com negro da terra
Grande é a fome dessa gente sem nome 
Que mora em endereço incerto no outro lado do Ver o Peso.

Ai de mim, mais um analfabeto político a matar o tempo
Na praça do Relógio nas agitações tardias da quebra da Borracha
Caminho da boa sorte na Cidade Velha ou a cadeia de São José...
Pleno de burridade, sem emprego ou profissão
E ainda por cima um camarada por sina achacado de paludismo
Na maleta velha um par de roupa e esperança de mudar de vida.

Meu primeiro desembarque em Belém vinte anos antes
Deu-se na sala de parto da maternidade da Santa Casa
Fim de outubro mês do vento, da revolução russa e do Círio
Minha mãe atravessou a baía rezando terço do Perpétuo Socorro
Não era segredo o fruto de seu ventre lhe dava alegria e medo
De Ponta de Pedras em canoa à vela do Marajó 
Até a Bacia do Igarapé das Armas, a doca do Reduto
Ou beco do Cano do canal Tamandaré conforme a maré
Herança de avó indígena por parte de pai: aldeia da Mangabeira
Não é brincadeira e doutra parte na veia sangue camponês galego
Mistura da raça ribeirinha de dois mundos entrecruzados na Ilha
Como a folia de São Sebastião ou gado do vento de Cabo Verde
Ainda jitinho de colo me levaram de volta à terra-ilha de meus pais
Abri os olhos e dei os primeiros passos no Fim do Mundo
Bairrozinho de infância bacana na vilarana do Itaguari
Taqui pra ti que eu ia me esquecer só porque cheguei na Cidade
Vim pro Círio de Nazaré a primeira vez aos seis ou sete anos idade
Pela primeira vez vi a Berlinda, carro dos Milagres, povão e fé...
Comi pato no tucupi, tomei vinho do Porto a primeira vez
Peguei porre precoce na primeira idade com um tio português
Baratista ferrenho, torcedor do Paysandú e fã de Almeida Garrett.

Meu pai e minha mãe pegaram canoa de volta à ilha grande, 
Outubro sempre, o moleque paresque prometia presepadas mil
Mês do vento, banzeiro à beça, maresia amarelando a baía...
Escapei de morrer afogado tomando banho no Marajó-Açu
Na hora me esqueci de agradecer a meu salvador Pretinho
Tal era meu desconforme analfabetismo de menino ribeirinho
Febres de paludismo, lá estava eu de novo pra tratamento no Posto
Pílula de metileno e metoquina: mijo colorido em azul e amarelo
Misturada de meninos e meninas na hora do banho na beira do rio.
Belém do socorro aos exilados do paraíso perdido
Por que este desassossego? Estas tontas travessias de idas e voltas?
Outubro, mês do vento... Maresia e poesia por linhas tortas.

Ver o nascer do sol no meio da baía incendiada de tanta luz
Vinte anos de idade: eis-me desta vez na Cidade que me seduz
Pra ficar talvez de vez.

///

Cairam-me as escamas dos olhos
 
Madrugada adentro a loucura assaltou minha modesta morada
Como agente da Gestapo, um mercenário cruel, o pior bandido...
Ao pé do grande tamarineiro, quintalzão que nem uma floresta
Pra sequestrar mamãe levando ela em camisa de força
"Levantai-vos Soldados de Cristo!" em delírio cantava
Cruzada invisível contra inimigos retardados da santa madre Igreja
Canoa à vela a toda pressa para o hospício Juliano Moreira
Acabou pra mim brincadeira nas ruelas descalças do Itaguari
Vi papai chorar pela primeira vez que nem criança
Mas eu não chorei por que não sabia...
Um ano antes desta tragédia meu avô morreu no sítio de repente
Vi o caixão roxo chegar pelo rio sem mandar aviso prévio
Em casa todo mundo de luto chorava pra se acabar
Mas eu não chorei por que não sabia...
Minha tia levou-me ao Marco pra visitar mamãe no hospício
Mas ela não estava lá: aquela mulher transtornada nem me viu
Era uma pobre sentenciada, não a mãe que cantava para eu dormir
aquela amorosa dona de casa que ensaiava Pastorinhas no Itaguari
Mas eu não chorei por que não sabia...
 
Me vi deportado, condenado e preso em Belém infeliz lusitânia
Cujo crime não sei qual era: cedo aprendi o caminho da feira
Onde todo dia o mundo vinha parar e eu via o rio com gana de fugir
Da prisão dos dias mais longos e tediosos da minha vida
Longe da minha ilha da Barataria legada por Dom Quixote
Meus tios foram meus segundos país e não abandonei a escola
Fui aprendiz carpinteiro e ajudante de mecânico
Tenho boa lembrança deles: mas não podiam dar o paraíso perdido
Tão logo pude, pedi licença e embarquei na igarité "Mirasselva"
Caminho do feio é por onde veio,
Escala providencial no Mosqueiro a ver água verdejante de sal
Sempre outubro, mês do vento...
Entrada pelo Arari, de volta ao Curral Panema e Itaguari.

Pedi asilo em casa de minha avó: doce mestra...
Um dia à hora da sesta ela deu-me a ler um romance dito "Marajó"
Onde a criaturada grande de Dalcídio habita o tempo
Cairam-me as escamas dos olhos
Vi pela primeira vez na vida toda história deste fim de mundo.

///
A face oculta do cartão-postal

Pra encurtar caminho da história devo confessar
O pirralho do Fim do Mundo quis saber quem inventou o mundo
Ele como qualquer caboco fez escola pelo curso de rios e igarapés
Por fado talvez passou no vestibular da universidade da maré
Nome de fantasia o título bonito de Academia do peixefrito
Aprendeu que o Ver O Peso é cartão-postal de Belém do Pará
Isto não se há de negar sabendo quanto representam as lembranças
De tempo e lugar no curso de vida de diversos viajantes do mundo.

Masporém a um caboco que atravessou a baía pra ser feirante
Promovido logo a repórter policial iniciante e cronista por acaso
Da face oculta do Ver O Peso
Não se pode esquecer nem negar
Que o cara é canoeiro há várias gerações e veio do outro lado
Trouxe por estágio quarenta graus de febre malárica na bagagem
Bobagem ocultar tal capacitação da paisagem cultural com urubus
O outro lado da coisa.

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

UM PACTO NACIONAL PELA CULTURA MARAJOARA



Vila do Jenipapo, Santa Cruz do Arari: berço do MUSEU DO MARAJÓ 
(fiel depositário da Cultura Marajoara resgatada de "cacos de índio").



NOTÍCIA DA UNESCO INTERESSA AO MARAJÓ:
FALTA SABER SE O PARÁ POR MARAJÓ SE INTERESSA PELA UNESCO.


"Ao meu Marajó,
minha alegria,
minha tristeza,
minha conquista,
minha derrota!"
Giovanni Gallo
(Turim, Itália 1927- Belém, Brasil 2003)
"Marajó a ditadura da água" 3ª ed, 1997.


A Casa de Cultura Dalcídio Jurandir tem sede na cidade de Niterói-Rio de Janeiro e o Museu do Marajó se acha estabelecido na ilha do Marajó, em Cachoeira do Arari-Pará. Estas duas instituições são partes emblemáticas da complexa história do povo marajoara desde suas profundas raízes de mais de 1500 anos: por necessidade e acaso, a "Criaturada grande de Dalcídio" (segundo Eneida de Moraes) uniu o romancista agnóstico ao inquieto jesuíta "arariuara" numa mesma obra de revitalização da antiga Cultura Marajoara, a fim de que esta venha a ser, finalmente, empoderada pelo povo.

Portanto, a vocação da Casa e do Museu é trabalhar em conjunto como "cabeça de ponte" de um circuito cultural Rio - Pará a contribuir para melhoria de vida da gente marajoara, como manda a Constituição do Estado do Pará (Parágrafo 2º, VI, Artigo 13). Se isto ainda não aconteceu a culpa é de cada um de nós que se considera amigo do Marajó. Ainda que a realidade possa nos magoar, é fato que com a morte de Dalcídio e do Gallo, Marajó ainda não pôde encontrar quem, de fato com a competência e dedicação daqueles mestres à gentinha marajoara, possa levantar aquelas bandeiras do passado que fizeram a diferença face à leniência dos poderes constituídos e à pobreza dos debates ultimamente apresentados sobre a questão.

Por feliz coincidência, a obra romanesca iniciada em 1939, na vila de pescadores de Salvaterra, então distrito de Soure; foi reconhecida nacionalmente ao receber o Premio Machado de Assis de 1972 (o maior prêmio da literatura brasileira e o primeiro para autor da Amazônia). Enquanto, no mesmo ano de 1972, às margens do lago ancestral da primeira cultura complexa da Amazônia, outro acontecimento extraordinário na história do Marajó acontecia em Santa Cruz do Arari: o padre Giovanni Gallo, simplesmente, criava "O Nosso Museu", que mais tarde se mudaria para Cachoeira do Arari (1984), conforme o livro "Marajó; a ditadura da água". Belém, Edições "O Nosso Museu", Santa Cruz do Arari Pará 1981 - 2a Edição. Só por isto, os marajoaras deveriam considerar 1972 como um ano memorável de sua história.

Passado o Centenário de nascimento de Dalcídio Jurandir, em 2009, ano da reativação da confraria do Ver O Peso denominada ACADEMIA DO PEIXE FRITO criada nos anos de 1930 pelo poeta Bruno de Manezes com seus companheiros modernistas em torno da revista cultural Belém Nova, e decorridos dez anos da morte do criador do MUSEU DO MARAJÓ; acho que está na hora dos paraenses convocar amigos do Marajó no país inteiro e no exterior para firmar um PACTO NACIONAL PELA CULTURA MARAJOARA. Mais que nunca é preciso reconhecer que Marajó não é só um problema dos marajoaras que aí vivem, mas uma chance para o maior país amazônico do mundo, o nosso Brasil.

 A HORA E A VEZ DO MOVIMENTO MARAJÓ FORTE

Aproveito para me congratular ao Movimento Marajó Forte (MMF) e, pessoalmente, reconhecer sua notável liderança na sociedade civil, em sua vitoriosa campanha de sensibilização para criação da Universidade Federal do Marajó (UnM), no conjunto de ações que visam ao enfrentamento da pobreza, representada pelo baixo IDH recentemente divulgado. O povo brasileiro precisa saber de nossos anseios e apoiar tais movimentos nesta e outras regiões do País para o desenvolvimento regional e a integração nacional. 

Para começar, procurar se informar junto à UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO (UFRJ), mais precisamente no MUSEU NACIONAL, a respeito das coleções de arte marajoara antiga que lá se encontram e sobre a importância da Cultura Marajoara para estudos de antiguidades do Brasil. Desta maneira, procurar conhecer o Marajó para amar a Amazônia e defendê-la como patrimônio natural e cultural destinado servir de base a uma verdadeira ecocivilização, como clamam alguns ilustres visionários a exemplo de Ignacy Sachs. 

Certamente, uma primeira descoberta com esta revisão será saber que o dito MUSEU DO MARAJÓ de fato é um sui generis ecomuseu com extraordinário potencial de cobertura do maior arquipélago fluviomarítimo do mundo, através de rede museulógica de feição comunitária envolvendo dezesseis cidades, 500 comunidades locais, um portal na capital estadual e sede em Cachoeira do Arari. 

Claro está, que o Instituto Brasileiro de Museus (IBRAM) deve rever a histórica opção preferencial brasileira pelo patrimônio colonial, a fim de recuperar o tempo perdido em relação a um melhor estudo e difusão da herança dos povos originais à luz das mais recentes pesquisas arqueológicas. E o Estado do Pará, reconhecer oficialmente a Cultura Marajoara como patrimônio cultural do povo paraense, protegendo-a para uso do desenvolvimento social e cultural estadual. Como tal, o criativo invento do Gallo vai além dos muros da velha usina de extração de azeite de andiroba e ucuúba Oleica, provavelmente, esta "fábrica" fazendo parte do cemitério de projetos da velha SUDAM. É preciso saber como a comunidade "deu jeito" de saldar a dívida deixada pela falência da empresa. Prova de que a economia criativa não é sonho... 

Da lacuna deixada pela morte de Dalcídio e do Gallo, prosperou a desinformação segundo a qual o produtivo búfalo é o maior símbolo cultural do Marajó... É para isto que turistas virão de longe e voltarão às suas cidades sem, ao menos, desconfiar do importantíssimo trabalho de pesquisa da arqueóloga Denise Shaan e outros nomes consagrados que demonstram que a civilização Amazônica começou pela ilha do Marajó? Será que não temos nós competência de democratizar a pesquisa científica fora dos muros das instituições? Nós não podemos nos contentar jamais com tamanho empobrecimento cultural, que avilta ainda mais o ínfimo IDH da gente marajoara.

O povo precisa saber, para amar e defender o Brasil brasileiro: Marajó não é apenas uma "ilha". É um tesouro, a joia da coroa das Amazônias. Dalcídio escreveu à Maria de Belém Menezes, filha do poeta Bruno de Menezes: "Que o padre tire uma coleção de reportagens e faça um livro que será retrato da terra e da gente de Jenipapo.... [...] ... A foto das crianças de Jenipapo me comove, são meus netos marajoaras, alegres apesar da miséria, apesar da dura condição em que vivem... [...] O padre Giovanni é corajoso, sim senhor,  tocando em feridas velhas, na área de Jenipapo e Santa Cruz do Arari. Feridas que sangram em meu romance "Marajó". O que me surpreende é que as coisas lá não mudam, ao contrário, se agravam... [...] O padre Gallo, com muita ênfase e jeito, confirma a denúncia. Não estamos tão distantes um do outro".

  DEZ ANOS SEM O GALLO: É PRECISO PREPARAR MARAJÓ PARA REPATRIAR O PATRIMÔNIO EXILADO

Gallo foi profeta quando disse que ele, depois de morto, viria a ser um grande homem... Mas, ele não previu as dificuldades que ainda restam a fim que se cumpra sua última vontade, expressa em "Motivos Ornamentais de Cerâmica Marajora", espécie de testamento público no qual ele se tornou intérprete das vozes do silêncio dos tesos entre chuvas e esquecimento, fiel depositário de uma herança ancestral saqueada e esbandalhada mundo afora.

Agora é preciso promover uma nova fase da obra revitalizadora começada singelamente, em Santa Cruz, há quarenta anos. Qual seja, um projeto estruturante no campo da Cultura e Educação no bojo do PLANO MARAJÓ, pra valer, integrado inicialmente aos campi do Marajó da Universidade Federal do Pará (UFPA) para vir a ser em breve a futura Universidade Federal do Marajó (UnM), a cabo de exitoso processo de interiorização.

Então, a exemplo da vinculação entre a UFRJ e o Museu Nacional, desde já a UFPA e o Museu do Marajó deveriam buscar os caminhos para cooperação e a partir da criação da futura UnM a necessária encampação do Museu de forma moderna e profissional, a fim de induzir o desenvolvimento sócio-econômico e cultural regional sustentável. O mesmo se pode dizer com relação ao célebre Chalé de "Chove nos campos de Cachoeira", "Três casas e um rio" e outros romances do ciclo Extremo-Norte, eternizado pelo patrimônio imaterial dalcidiano. A casa de infância de Dalcídio permanece inabalável nas páginas do romance e pode ser reconstruído, talvez próximo ao museu.

O que será que o patrimônio cerâmico do Marajó está fazendo longe da ilha e de contexto, coleções de cerâmica marajoara retiradas, sabe Deus como, lembrando informações do Barão de Marajó na obra "As regiões amazônicas", por exemplo. A descoberta do teso do Pacoval em 20 de novembro de 1756, pelo fundador da freguesia de N.S. da Conceição da Cachoeira do rio Arari, no ano de 1747, Florentino da Silveira Frade, tesos arqueológicos do Marajó para museus do mundo (cf. "Cultura Marajoara", Denise Shaan, ed. SENAC, São Paulo, 2010)... 



DO ALTO DO PACOVAL 1500 ANOS NOS CONTEMPLAM

Que o museu do Gallo é ecomuseu não há dúvida. Todavia, um ecomuseu que o Brasil e o mundo desconhecem. Os dalcidianos adoram o ciclo so Extremo-Norte, mas com as exceções de praxe, não enxergam na Criaturada grande o homem Dalcídio mergulhado no barro dos começos do mundo, como Jorge Amado saudou o "índio sutil" na Academia Brasileira de Letras (ABL), na sessão solene para entrega do Prêmio Machado de Assis (1972). 

O mesmo acontece com o padre Gallo; ajudado providencialmente pelo caboco Vadiquinho que chegou com o estranho presente de "cacos de índio", provavelmente, recolhidos do arrombamento do sítio arqueológico em frente à vila do Jenipapo, o dito teso do Pacoval. Logo estava feito o inverossímel museu de curiosidades para atrair a cumplicidade de cabocos genericamente acusados de ser "ladrões de gado", colaboradores ocasionais de um padre teimoso como o diabo, metido a contrariar o bispo diocesano também este pra lá de voluntarioso e a criticar os políticos. 

Saiu caro a "brincadeira"... E o castigo veio a galope!
O livro "Marajó; a ditadura da água" é, paresque, o romance "Marajó" vivenciado 40 anos depois deste ter sido escrito na vila de pescadores de Salvaterra. Mais uma coincidência, em 1960, Salvaterra e Santa Cruz juntas chegavam à emancipação municipal: esta última desmembrada de Ponta de Pedras, que foi desmembrada de Cachoeira, que foi desmembrada da Vila de Monsarás, que hoje é distrito de Salvaterra; que foi desmembrada de Soure... 

Aqui a antiga aldeia dos "Maruanazes" (deve-se dizer Maruaná), ali a aldeia dos Joanes (aliás Iona ou Sakaka) que algum dia deu nome à Capitania hereditária da Ilha Grande de Joanes (que era Ilha Grande dos Nheengaíbas, dos Aruans, Marinatambalo (segundo Pinzón), aliás Analau Yohynkaku (cf. Ferreira Penna), enfim Marajó.
Cada um faz sua refazenda como pode, Marajó do padre coincide com Marajó do romancista, porém um e outro tem lá suas particularidades. São dezesseis Marajós, que são os municípios num território do tamanho de Portugal, algo como 1700 ilhas mais a microrregião continental de Portel, que dobra de tamanho o "arquipélago"; onde mais de 500 aldeias ou comunidades se dispartem. 

Temos que saber o que é um ecomuseu para levar O Nosso Museu do Marajó para muito além de Cachoeira e até de Belém, sem arredar o museu do Gallo de Cachoeira do Arari nenhum passo. A questão é, como aumentar a área de atuação do ecomuseu sem diminuir em nada seu patrimônio ou competência local.

Podia assim tamanha biodiversidade e diversidade cultural se reduzir unicamente ao romance de Dalcídio Jurandir ou aos livros e museu de Giovanni Gallo? Eis aqui uma questão da "ilha" que são ilhas do Marajó...



Para a Criaturada grande o "homem do Pacoval" (cf. Raymundo de Morais); é o começo da história com o barro dos começos do mundo. O índio sutil transformou fragmentos da memória numa obra de ficção monumental e o marajoara que veio de longe, provocado pelo caboco Vadiquinho; fez o milagre de uma ressurreição inesperada: resiliência cultural de simples cacos de índio que nos remetem à solidão ecológica dos tesos com sua muda acusação à indiferença da Civilização dos conquistadores e colonizadores. (José Varella Pereira).

O tráfico de bens culturais: o crime organizado e o roubo do nosso passado




14 de novembro de 2012 - O crime organizado transnacional é frequentemente associado com atividades transfronteriças, tais como o tráfico de armas, de drogas e de seres humanos. No entanto, esta ligação é muitas vezes ignorada quando se trata de tráfico de bens culturais. Embora haja evidências de uma quantidade substancial de saques em todo o mundo, as ações de combate ao tráfico de bens culturais até agora não se igualam à severidade ou à extensão do crime. Apesar dos acordos e legislação estabelecidos por organizações como a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) para frear a compra e a venda de artefatos escavados ilegalmente, só nos últimos anos os esforços internacionais para enfrentar o papel das redes do crime organizado que cometem este crime tem vindo à tona.
Mais recentemente, na sexta sessão da Conferência das Partes da Convenção das Nações Unidas contra o Crime Organizado Transnacional, realizada no início de outubro em Viena, o tráfico de bens culturais foi reconhecido como um aspecto importante a ser tratado. Um evento paralelo, organizado pelo Governo dos Estados Unidos, discutiu os esforços em curso para combater este crime e forneceu detalhes sobre o suas ações, enquanto uma sessão técnica abrangeu o importante papel da cooperação internacional no combate ao problema transnacional. Este foco no crime organizado segue duas reuniões anteriores do painel intergovernamental (em 2009 e início de 2012), coordenadas pelo UNODC.
Infelizmente, em muitos países, existem constantemente evidências de saques generalizados, muitas vezes por organizações com linhas claras de autoridade, cujo único objetivo é o lucro. Isto não apenas estimula o crime organizado transnacional (considerando que a maioria dos objetos são transportados internacionalmente), como também destrói o contexto histórico dos objetos e a capacidade de reunir conhecimento sobre o passado e de construir um entendimento sobre nossa história coletiva. Esse crime também tem um impacto imensurável sobre a identidade cultural do país de origem. 

Embora a magnitude desse crime seja extensa, o valor do tráfico de bens culturais é muito difícil de quantificar. Como se trata de um crime muito clandestino, no qual invariavelmente itens ilegais se misturam aos legais, é difícil distinguir entre o comércio lícito e ilícito. Pode-se, no entanto, argumentar que, dada a atração de criminosos por mercados lucrativos, esta área representa uma importante fonte de renda para os grupos do crime organizado. 

Com estes grupos cada vez mais envolvidos com o tráfico de bens culturais, tanto através de canais legítimos, tais como leilões e Internet, e canais em mercados ilícitos, este crime é um problema que afeta todos os países. 

As evidências apontam para a interconcetividade de redes do crime organizado transnacional, com redes usando as mesmas rotas e modus operandi para contrabandear bens culturais como aqueles usados ​​para transportar drogas, armas e outros materiais ilícitos. O tráfico de bens culturais é também uma importante fonte para a lavagem dos produtos do crime. 

Em resposta ao tráfico de bens culturais, o UNODC trabalha para aproveitar o potencial da Convenção das Nações Unidas contra o Crime Organizado Transnacional. Muitas das disposições da Convenção são relevantes a este respeito e, em última instância, permite aos Estados Partes combater o crime organizado transnacional para proteger sua herança cultural comum. 

O UNODC também trabalha de outras formas, em campo, para lidar com esta ameaça. Em 2003, criou o Programa de Controle de Contêineres, em colaboração com a Organização Mundial das Alfândegas. Embora inicialmente criado para ajudar os países a interditar carregamentos de drogas, o programa tem ajudado a identificar cada vez mais os movimentos ilegais de outros bens, incluindo bens culturais. Os policiais que haviam sido treinados pelo Programa foram recentemente capazes de interceptar, entre outras coisas, dois cânones dos séculos XVII e XVIII, que haviam sido roubados do Patrimônio Mundial da UNESCO do Forte de San Lorenzo no Panamá (e haviam sido declarados como sucata). No mesmo contêiner, foram encontradas rodas de quatro centenas de anos da primeira estrada de ferro do Canal do Panamá que estavam sendo ilegalmente removidas. Junto ao elevado número de outros itens roubados a cada ano, o roubo desses itens seria uma perda histórica não apenas para os cidadãos do país em questão, mas também para a humanidade em geral.

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

TRAGÉDIA BREGA: A PRESEPADA DOS BISNETOS DO SARGENTO-MOR SEVERINO SACACA DOS SANTOS. Ou, Com Quantos Paus Se Faz Uma Canoa.


Praia do Pesqueiro - Soure - Ilha de Marajó - PA
Nós, os cabocos, tirados do mato a laço e baraço pra ser vítimas da fome no ventre avultado do Diretório dos Índios, obrigados a trabalhar de sol a sol pra sustentar a imensa colonização amazônica; somos acanhados descendentes de "negros da terra" na antiga terra dos Tapuias. A gente carece saber de todas estas coisas pra nos libertar sem ódio e medo do outrora inimigo conquistador das Antilhas e da Terra Firme. Vencer o complexo de inferioridade que habita o fundão do inconsciente coletivo. Criar coragem de acordar os sumanos "caboclos" confusos que ainda dormem, paresque, "mundiados" pela Cobragrande do Mar-Tenebroso, bicho do fundo que veio debaixo da quilha das caravelas nas marés grandes de sizígia e subiu rio acima, diz-que, para ocupar o "espaço vazio" do rio Babel. Ou, das Amazonas, até os confins... 

Tragédia brega da desmemoriada descendência daqueles nossos 36 parentes Aruãs da Contracosta, levados a muque como primeiros escravos da América do Sul, em fins de um janeiro inglório do ano de 1500, do "descobrimento" oficial do Brazyl, durante a gentil passagem daqueles dez dias de abril da frota de Pedro Álvares Cabral em Porto Seguro, na Bahia de Todos os Santos, a caminho das Índias Orientais. O assalto da aldeia Aruã e sequestro dos índios da ilha Marinatambalo [Marajó] foi cometido por um tal capitão Vicente Yañez Pinzon, piloto de Cristovão Colombo. 

Mas, como um caboco qualquer poderia saber que os tais 36 negros da terra eram índios "aruans", já que isto não está escrito em nenhuma bendita fonte de história chapa branca? Tão só pela arte preciosa da suposição como poderosa verruma da História... Suposição? Justamente! Suposição é sinônimo de cenário, pressuposto, suspeita, teoria, conjectura... 

No mato sem cachorro das fontes canônicas, sem suposição e arrojo na demanda da verdade, a história da gente não vai pra frente. Só idiotas de carteirinha assinada em papel passado fazem fé absoluta da "verdade verdadeira" chancelada pela turma da nobreza (ver a obra guia de encomenda do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB), sob auspícios do Imperio Brazileiro, Como se deve escrever a história do Brasil”, de Carl Friedrich Philipp Von Martius). 

Com raras exceções, nossos descobridores, conquistadores, colonizadores e civilizadores em geral não sabiam da milenar História oral do Brasil brasileiro: esta, na verdade, é um descobrimento tardio cá próximo aos anos 80 do século passado, à luz do últimos conhecimentos da Antropologia e Arqueologia Americana. Até então, nossos mentores do Diretório Pombalino estavam cegos e surdos, todavia prontos a ensinar e mandar de qualquer maneira: sempre com o ditado à ponta da língua: manda quem pode e obedece quem tem juízo...  Sendo, todavia, o primeiro rebelde da América um certo índio taino chamado Hatuey, cuja memória resiste ao tempo da infâmia num monumento granítico erguido, lá no Caribe, na ilha de Cuba.

No que diz respeito especialmente aos olvidados "Nheengaíbas" (Marajoaras) todos aqueles descobridores do passado colonial eram ignorantes de pai e mãe sobre o verdadeiro tesouro que ainda hoje o Brasil e o mundo não sabem (noves fora poucos pesquisadores acadêmicos), existe há mais de mil e tantos anos no interior da terra Tapuia, pelos centros desconhecidos da ilha grande dos Joanes. Ou, Marajó.

Daí a razão maior para lembrar, em dose dupla, o libertador dia 20 de Novembro - DIA NACIONAL DA CONSCIÊNCIA NEGRA e DIA NACIONAL DA CULTURA MARAJOARA (data nacional ainda a ser oficialmente reconhecida) - as duas faces da mesma moeda da luta brasileira, do Oiapoque ao Chuí, para fundar o pensamento descolonial no mundo inteiro. 

Portanto, carece saber: a gente deve tratar muito bem o irmão Búfalo (Bubalus bubalis), vindo lá da Ásia pelo caminho inverso das Índias, que nem os "nossos índios", trazer força de trabalho animal, carne e leito para alimentação do nosso povo em segurança alimentar na economia solidária, sobretudo na agricultura e agropecuária familiar. Mas, o Búfalo não nos representa como símbolo cultural, deixemos de besteira. 

Quem representa, de verdade, os cabocos e cabocas brasileiros (índios iberianos "saídos do mato") é a cerâmica marajoara de mil e tantos anos de idade: certidão de idade do Brasil brasileiro lavrada em páginas de argila pela escrita ideográfica das matriarcas da amazonidade. Primeiro patrimônio histórico e artístico nacional destinado a recuperar a memória da brava gente levando o antigo país do Futuro a descobrir o mundo, lá fora, pelos caminhos da História. 

Portando, O Nosso Museu do Marajó a par da futura Universidade Federal do Marajó (UnM), em esforço concertado para melhorar o IDH da região, deve vir a ser amparado decisivamente pela União Federal, o Estado do Pará, a comunidade de Municípios marajoaras e, principalmente, por todos nós. Para este museu do homem marajoara vir a ser preparado, condignamente, em cooperação internacional com a UNESCO a recepcionar repatriamento do acervo exilado no exterior desde a Exposição Universal de Chicago, ocorrida nos Estados Unidos, em fins do século XIX.

Mas, se a consciência da negritude já foi reconhecida pelo Congresso Nacional, entretanto o primeiro cacicado da Amazônia (sociedade organizada com embrião de estado) reconhecido pela ciência como o mais antigo achado na ilha do Marajó resta ao abandono entre chuvas e esquecimento... 

... Por que será? Eis uma tímida explicação na imagem desfocada do antigo Pesqueiro Real - pálida lembrança do trabalho escravo sob regime do Diretório dos Índios - fim do mundo das velhas etnias Iona (Joanes ou Sakaka) - provavelmente, descendentes de antigos inventores da Cultura Marajoara, iniciada com o barro dos começos do mundo amazônico cerca do ano 400 -, paisagem morta que reluta em enfrentar o mal de Alzheimer coletivo. Uma história envergonhada que se esconde da memória dos "caboclos" a passos trôpegos por ínvias trilhas do prodigioso "potencial" do ecoturismo na Reserva Extrativista Marinha de Soure, a primeira reserva extrativista marinha na Amazônia em terras de antigas aldeias de índios "Maruanases" [Maruaná], beira de praia do Céu, Pesqueiro e Cajuúna na grande ilha dos Joanes ou Marajó... 

UM CERTO ÍNDIO SACACA QUE CHEGOU A SARGENTO-MOR DA VILA DE MONFORTE.

No mês de novembro do ano de 1783, há exatos 230 anos passados, o sábio de Coimbra Alexandre Rodrigues Ferreira começava sua monumental "Viagem Filosófica" ao desembarcar na ilha do Marajó. Exatamente, a tal vila de Monforte improvisada pelo arbítrio do Marquês Pombal, se achava em riba do sítio arqueológico que, no passado distante, foi aldeia dos índios Joanes (hoje lugar de Joanes Velha, no distrito de Joanes, município de Salvaterra). Mas o sábio e seu competente guia de viagem, pisando sobre as ruínas do teso, não viram aquele sítio ancestral. Nem o velho sargento-mor de Ordenanças da vila, Severino dos Santos (um índio sacaca de mais de 70 anos de idade), fonte da história oral de seu povo, não lhes disse nada sobre isto e nem lhe perguntaram, segundo a "Notícia Histórica da Ilha Grande de Joanes, ou Marajó" (separata da Viagem Philosophica), de 1783. Cada um com os seus segredos à parte a bordo da mesma viagem. 

O sábio de Coimbra não disse a que veio. Nem falou nada de seu venerável mestre carbonário, o sábio italiano Domenico Vandelli (Domingos Vandelli) contratado por Pombal para a reforma da Universidade de Coimbra e orientar o inventário de tudo quanto se pudesse extrair das colônias para enriquecer o reino... O Inspetor da ilha não informou o fato de que o relato anônimo "Notícia da Ilha Grande de Joannes", escrito cerca de trinta anos antes do primeiro capítulo da "Viagem Filosófica" (1783-1792) e que se iria achar mais tarde na Real Biblioteca do Porto (Portugal), era de sua autoria... Não informou porque era extrato de relatório de inspeção secreta para sequestro das fazendas dos jesuítas? E, portanto, a "Notícia Histórica" (1783) ao leitor de hoje parece claro como baseada naquela primeira "Notícia"... Por que, então, o velho índio abriria sua boca para dizer aos brancos mais do que o perguntado? Ou do que lhe interessava falar àquela hora oferecida pelo divino acaso ou calar-se para sempre... O evolucionista Alfred Russel Wallace ("Viagem pelo Amazonas e rio Negro", Londres 1853), que esteve no Marajó, em 1848, explica... Logo, sem o artifício da suposição na bagagem, o viajante do século XXI ficará mais perdido do que o "descobridor" do rio das Amazonas (Francisco de Orellana) em sua fatídica volta ao cenário amazônico, no ano da sua morte, 1544.

Na viagem à ilha do Marajó, estava Alexandre Ferreira em mãos do capitão Florentino da Silveira Frade. Como este último dependia, praticamente em tudo, aos índios mansos e pretos escravos da sua fazenda. Principalmente ao fiel Severino Sacaca para dar conta do recado sob regime do Diretório que substituiu as Missões religiosas. O dono da fazenda Ananatuba e fundador da freguesia de Nossa Senhora da Conceição da Cachoeira do rio Arari em seu encargo nomeado pelo Governador Francisco Xavier de Mendonça Furtado descobriu, por acaso, o teso do Pacoval do rio Arari na data de 20 de novembro de 1756. Dele a primeira notícia (no citado relato anônimo), um registro lamentável é verdade. Mesmo assim, desde a desastrada viagem de Pinzón, a primeira vez em que se escreveu algo de interesse sobre a antiguidade dos povoadores indígenas da ilha do Marajó. A moderna arqueologia marajoara com Denise Schaan, trezentos anos depois do achado de Florentino Frade, diria mais do que se trata em realidade.

Junto ao teso famoso (motivo da obra "O homem do Pacoval", de Raymundo de Morais) - imagem da destruição da Cultura Marajoara - sai o Igarapé do Severino. Que Severino será este? Será que ninguém nunca jamais se perguntou? Pois é preciso ler o que o sargento-mor Severino dos Santos contou ao naturalista Alexandre Ferreira. Se o viajante quiser aventurar-se a andar pelos campos de Cachoeira a visitar os tesos do caminho das águas será melhor para o exercício das muitas suposições que assaltam o leitor desnorteado pelas falsas pistas deixadas pela colonização.

A notícia da história oral dos Sacacas segundo Severino dos Santos acha-se dentro da "Notícia Histórica" (1783), que muito se parece com a anônima "Notícia da Ilha Grande de Joannes", trinta anos mais nova que a segunda. Não precisa ter imaginação de autor de novela para ceder à suposição óbvia de que o impacto do conflito aberto entre iluministas e escolásticos na Europa desabava com força sobre os pobres índios "libertos" do Marquês de Pombal em luta contra a Companhia de Jesus. Misericórdia! Um lado e outro empenhados à liberdade dos índios e salvação de suas almas condenadas ao limbo da Civilização. Tal qual agora se vê todos pela melhoria do IDH da gente marajoara... 

Severino começa por contar como foi que a sua gente ficou sendo chamada Sacaca, durante faxina de índios para construção da fortaleza de Nossa Senhora das Mercês da Barra (1685), numa ilhota em frente a Val de Cães, que transformada em paiol explodiu atingida por um raio, no ano de 1947. Os Iona em guerra com os Aruãs foram aconselhados pelos seus parentes Caripunas a pedir ajuda militar aos portugueses no Pará para se defender dos costumeiros ataques de sempre. Por sorte, um parente Iona chamado Sapatu, capturado pelos Tupinambás caçadores de escravos; os reconheceu e intermediou o acordo com os lusos que concordaram ir ao Marajó com ajuda armada a troco de mão de obra na construção daquela fortaleza. Como os Iona estivessem com pressa para retornar à aldeia gritavam uns aos outros na própria língua, dizendo continuamente "Sakakun, sakakun!" (rápido, rápido). 

Assim, os Iona ou Juanas/Joanes ficaram conhecidos como Sacacas, desde então. E, por acaso, depois de massacrarem o jesuíta Luiz Figueira e seus confrades (1645) cuja culpa recaiu sobre os ferozes "Aruans", acusados de devorar os náufragos segundo a contra-informação dos antropófagos Tupinambás, chamados "índios cristãos" na crônica colonial portuguesa; ficaram amigos dos portugueses e juntos saíram à frente dos ditos cujos inimigos surpreendidos em derradeiro assalto através do Igarapé Jubim. Terminando a guerra a favor dos Sacacas com banho de sangue no Igarapé Água Boa como escarmento a todas futuras gerações.

Este fato histórico, certamente, repetido à exaustão de geração a geração da aldeia dos Joanes desde a ultima batalha e final da guerra com os Aruãs, provavelmente, chegou aos ouvidos do inspetor Florentino Frade que apresentou o sargento-mor ao naturalista. Assim, pelo escrupuloso depoimento do índio transcrito à notícia histórica da "Viagem Filosófica", nós ficamos sabendo da velha rixa existente entre nações indígenas diferentes, na foz do Amazonas, num horizonte de, pelo menos, quatro séculos desde a grande migração dos Aruãs, cerca de 1300, através do Cabo do Norte (Amapá) para as ilhas de Caviana, Mexiana e contracosta da ilha grande do Marajó.

Na verdade, disse o velho índio, os Sacacas se chamavam Iona, aportuguesado em Juianas e finalmente Joanes. Viviam os Iona pelos centros da ilha onde havia aldeias sobre tesos levantados do chão, por dentro de "ilhas" em campos alagados e dentro do mato nas varjas... Sua memória ainda alcançava nomes de velhos lugares de moradia de seus parentes, tais como Laranjeiras, Dois Irmãos, Flecheiras, Curuxis dentre outros...



BISNETOS DO ÍNDIO SEVERINO SOMOS TODOS NÓS

Será que estão me entendendo, esta gente? A História não é para os mortos do teso do Pacoval. Mas, para nós, os cabocos...  Para informação dos bisnetos do índio Severino dos Santos. Esta gente que tem vergonha de ser descendente de índios. Uns não sei quantos "civilizados" doidos pelo brega e a micareta no país do Carnaval... Alguns até pobres endinheirados que pensam que o centro do mundo fica em Miami e nada querem saber de IDH dos pobres marajoaras. 

Para estes pobres de espírito deveria servir a notícia histórica do primeiro sítio arqueológico da ilha do Marajó, que está fazendo no próximo dia 20, portanto, 257 anos. Nós, os cabocos filhos desta cabulosa história não podemos perder nenhum fragmento de memória para recriar nossa história, a exemplo do padre Giovanni Gallo, que a partir de "cacos de índio" inventando o incrível Museu do Marajó na tentativa de recobrar a memória do povo remanescente de antigos ceramistas marajoaras...

Os senhores da historiografia oficial nos disseram que Cristovão Colombo descobriu a América no dia 12 de outubro de 1492. Também que o nome América é devido a Américo Vespúcio, um e outro italianos... Quando acaba, a história é outra: América, vem de Americ, o "país do vento", em língua maya: região de montanhas à beira do lago Nicarágua, na América Central... Na verdade, Colombo era judeu português convertido ao catolicismo, espião do rei de Portugal Dom João II; seu nome de batismo seria Salvador Gonçalves Zarco, neto do navegador João Gonçalves Zarco, descobridor da ilha da Madeira e donatário de Porto Santo. Nasceu Colombo, aliás Salvador Zarco, na vila de Cuba, no Alentejo, em Portugal.

Quando, Colombo achou a América topou por acaso a ilha Guaanani, habitada pelos Lucayos, onde a guarnição das três caravelas - a Pinta, a Niña e a Santa María - pela primeira vez botou os pés no Novo Mundo. Logo, ele batizou a ilha "descoberta" com o nome de Salvador valendo-se de ambiguidade sob a capa de homenagem a Jesus Cristo implícito no apelido de "Cristóforo" [Cristovão], portador de Cristo, como na lenda síria de São Cristovão. E Zarco é nome árabe, com significado de "olhos azuis": sugerindo que judeus da Diáspora viveram em paz nos domínios mulçumanos... Já Colombo começou a escravizar os Lucayos, tão logo "descobriu" a America; para ir procurar ouro no Haiti, que ele chamou de Hispaniola.

Pinzón estava lá no Caribe, é natural que haja repetido a história quando cá chegou em Marajó. Dali do Haiti passou Colombo a Cuba, cujo nome ficou sendo lembrança de sua vila natal em Portugal. Nome de origem árabe, como o nome de família Zarco; ademais na vila de Cuba lusa havia a rua da Mouraria. Estes aventureiros moçárabes e cristão-novos não queriam descobrir e conquistar nada mais que ouro e fama. Contra tal violência, levantou-se no Hayti o cacique dos Tainos chamado Hatuey - o primeiro rebelde da América - passando à ilha de Cuba com seus valentes para avisar aos mais que o deus dos cristãos era, na verdade, o maldito ouro. Dizia ele que os índios deveriam jogar ao mar seus ornamentos feitos desse perigoso metal e que escondessem caminhos para minas, na tentativa de que os conquistadores desenganados da procura fossem embora. 

Vã ilusão! Nunca mais os europeus deixaram de chegar cada vez em maior número, ávidos de tesouros. O dominicano Bartolomeu de Las Casas documentou os crimes dos conquistadores em sua obra famosa Brevíssima relação da destruição das Índias, na qual descreve o terror da "civilização". O bravo Hatuey, entretanto, foi queimado vivo. Mas, o índio Guamá continuou a luta contra os espanhóis passando ele a Jamaica até a destruição das Índias ocidentais chegar ao México, Peru e outras regiões do novo continente. 

No Pará, sem embargo, o naturalista de Coimbra Alexandre Rodrigues Ferreira, com rigor científico classificou o bicho-homem amazônico como sub-homem. Ou seja, Homo sapiens, variedade Tapuya... Vá lá, a verdadeira história desta gente não livra a cara de festejados acadêmicos chapa branca. Mas, não aborrece viajantes do mundo que detestam comer gato por lebre. Os visitantes que odeiam saber, depois, que lhes venderam a dança do fogo dos pele-vermelha apaches como se fosse a própria pirapuraceia de velhos indígenas do Pará...

... o viajante da "novíssima viagem" depois de inventar atalhos na rota de Alexandre Rodrigues Ferreira ou pegar carona de Saramago pelos caminhos de Almeida Garrett termina por recordar os quatro portugueses da frota de Cabral que, em Porto Seguro, começaram a história luso-brasileira do Brasil: um certo Afonso Ribeiro, criado de dom João Tello, e outro degredado que Pero Vaz de Caminha não escreveu o nome, ambos mandados viver com os índios para aprender deles a língua e os costumes.  Já se sabe pra quê... Os concorrentes de Portugal não fizeram diferente, nem mesmo as ordens religiosas atuaram doutra maneira na conquista das almas do rio Babel.

Dos quatros povoadores que iniciaram o cunhadismo brasílico com as índias, chama atenção dois grumetes fugidos duma caravela a fim de, espontaneamente, se naturalizar na nova terra antes de todos mais brasileiros adotivos até os dias de hoje. Estes dois desertores da frota do descobrimento do Brasil a caminho das Índias orientais, justamente, mereceram ser lembrados ao fim da viagem iberiana, como exemplo de decisão em inventar o futuro sem olhar pra trás: fato pelo qual o que fora ibérico na hora da partida, depois da travessia da zona tórrida das antípodas pelo batismo pelo sol do equador e da chegada a terra brasílis; converteu-se em iberiano. 

Ou seja, sumano "saído do mato", caboco...  Por certo, estes dois exilados dentre os até então pacíficos selvagens da Bahia, tal qual soldados desertores no Pará de que fala a "Notícia Histórica da Ilha Grande de Joanes, ou Marajó", que se juntaram aos índios bravios (leia-se, Aruãs) e escravos fugidos da senzala para os mocambos dos centros da ilha grande; se acham nos primórdios da brasilidade.

"Foram então estes quatro portugueses, debaixo do descobridor oficial, que inauguraram a nossa história: dois degredados e dois marujos fugidos de bordo".  O viajante disse adeus, dizendo ele: "Depois é lembrar um pouco ou esquecer para sempre" (José Varella Pereira, ensaio "Novíssima Viagem Filosófica", em REVISTA IBERIANA - Belém: Secult, 1999, p. 325).

http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/e/e8/Hatuey_monument%2C_Baracoa%2C_Cuba.JPG/180px-Hatuey_monument%2C_Baracoa%2C_Cuba.JPG
estátua do Cacique taino Hatuey, em Cuba

sábado, 2 de novembro de 2013

FESTA DOS MORTOS QUE VIVEM EM NOSSOS CORAÇÕES


          ritual do Kuarup entre povos originais do Xingu



A verdadeira morte é o esquecimento.

 
O Quarup é um ritual de homenagem aos mortos ilustres celebrado pelos povos indígenas da região do Xingu, no Brasil. O rito é centrado na figura de Mawutzinin, o demiurgo e primeiro homem do mundo da sua mitologia. Em sua origem o Quarup teria sido um rito que objetiva trazer os mortos de novo à vida.

O mito original

Mawutzinin, desejando trazer os mortos de volta, entrou no mato e cortou três troncos de kuarup esses troncos eram abençoados por Anubis , entretanto , levando-os para o centro da aldeia. Ali os pintou e adornou com colares e penas. Mandou que fincassem os troncos no chão, e chamou duas cutias e dois sapos cururu para cantarem com ele, e distribuiu peixes e bijus para o povo comer.
Incrédulos, os índios não cessavam de perguntar se os troncos iriam mesmo virar gente, ao que Mawutzinin respondia que sim, os troncos virariam gente. Então o povo da aldeia começou a se pintar e gritar. Cessada a cantoria, os índios quiseram chorar junto aos kuarup, pois representavam seus mortos, mas Mawutzinin os impediu, dizendo que viveriam, e por isso não podiam ser chorados.
No dia seguinte o povo quis ver os kuarup, mas Mawutzinin não deixou, dizendo que todos deviam esperar a transformação por mais um tempo. À noite os troncos começaram a se mexer, como se o vento os balançasse, e Mawutzinin ainda não permitiu que a gente os visse. Os sapos cururu e as cutias então cantaram para que assim que virassem gente os troncos fossem ao rio se banhar.

Quando o dia clareou a transformação já era evidente: da metade para cima os troncos já tinham forma humana. Os cantos continuavam, e Mawutzinin ordenou que todos os índios se recolhessem para suas ocas e não saíssem. Ao meio-dia a transformação já estava quase completa, e Mawutzinin chamou o povo para que saísse das ocas e fizesse uma grande festa, com gritos de alegria, mas aqueles que tivessem tido relações sexuais durante a noite não tiveram permissão para sair. Apenas um índio foi por isso impedido, mas não aguentando a curiosidade, saiu também, quebrando o encanto, e os kuarup voltaram a ser madeira.

Zangado, Mawutzinin disse que doravante os mortos não reviveriam mais no Quarup, seria apenas uma festa. E mandou que os troncos fossem removidos e lançados na água, ou no meio da mata, e assim foi feito.

O ritual

   A luta do huka-huka durante o Quarup 

O Quarup é realizado sempre em homenagem a uma figura ilustre, seja por sua linhagem seja por sua liderança, e é uma grande honra prestada a esta pessoa, colocando-a no mesmo nível dos ancestrais que viveram no tempo em que Mawutzinin andava entre os homens, e incorporando-a à história mítica.

Tipicamente o ritual inicia com a chegada de grupos de índios de outras aldeias, que ocorre em meio a muitas danças. Depois alguns índios vão ao mato e cortam um tronco de kuarup, constroem uma cabana de palha em frente à Casa dos Homens, e sob ela fincam o tronco no chão. A seguir o tronco recebe uma decoração, acompanhada de cantoria que elogia o aspecto formoso do morekwat (chefe) que está sendo homenageado, falando com ele como se se tratasse de uma pessoa viva.

Após estes preparativos, chegam os índios restantes, e acomodam-se na periferia da aldeia. Arma-se uma fogueira em frente ao tronco, sucedem-se danças e cantos, e um índio de cada grupo vai ao fogo recolher uma chama para acender as fogueiras dos grupos.
À noite acontece o momento de ressurreição simbólica do chefe homenageado, sendo um momento de grande emoção. Então as carpideiras começam o choro ritual, sem que os cantos em volta sejam interrompidos. Aos primeiros raios do sol do dia seguinte o choro e o canto cessam, os visitantes anunciam sua chegada com gritos, e iniciam competições entre os campeões de cada tribo, seguidas de lutas grupais para os jovens.

Então o morekwat da aldeia que sedia o Quarup se ajoelha diante do morekwat de cada tribo visitante e, em sinal de boas vindas, lhe oferece peixe e biju, que são distribuídos entre os seus.
Terminadas as lutas ocorre um ritual de troca, moitará, onde cada aldeia oferece produtos de sua especialidade. O ritual é encerrado com o tronco sendo lançado às águas.

(Vide Kuarup / Wikipedia).


NESTE DIA, AS NOSSAS RECORDAÇÕES AOS MORTOS DA NOSSA VIDA: SEM OS QUAIS TODOS NÓS NÃO ESTARÍAMOS AQUI E AGORA. TODOS NÓS, IGUALMENTE, COM CERTEZA, NO AMANHÃ SEREMOS UM DELES.