domingo, 29 de janeiro de 2017

Uma leitura do território da memória: enraizamento para empoderamento da comunidade.

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Arco do Triunfo marajoara: Cachoeira do Arari, ilha do Marajó - Pará - cidade sede do MUSEU DO MARAJÓ.



Quando, pela primeira vez, eu vi o Arco do Triunfo exilado à margem esquerda do rio Arari, levei um susto e manifestei minha estranheza estética nativista à companheira de viagem Ana Diniz. Nós dois estávamos a caminho do teso (sítio arqueológico) da ilha dos Bichos. Ela então me disse. "você não está vendo que isto é contra-cultura?". Desde então, quando volto a Cachoeira do Arari contemplo o monumento triunfal marajoara com outros olhos sem complexo de inferioridade. 

Por acaso, em 2004 visitei o Arco do Triunfo em Paris - aquele formidável hino napoleônico em concreto da insustentável leveza da memória dos imperadores da antiga Roma-, com uma ponta de orgulho do modesto arco de Cachoeira do Arari, brega sim mas não menos significativo que o desejo de conquista da França imperial, que as risonhas esperanças de liberdade, igualdade e fraternidade da Criaturada grande de Dalcídio. Quem dera o midiático Jack Lang, eterno ministro de Mitterrand. fosse lá tirar uma foto para ficar no acervo do museu do Padre Gallo! 

Com esta ideia absurda na cabeça imaginei um fantástico diálogo entre o Louvre e o Museu do Marajó, por exemplo. A periferia da Periferia e o primeiro mundo numa conversa cara a cara, tal qual Adão e Jeová de Michelangelo na Capela Sixtina. Por que não? Que grafiteiro mestiço se atreverá a arremedar o divino Michelangelo num retábulo de igrejinha de beira de rio? Acho que o Papa Francisco, sabendo do cometimento artístico antropofágico, abençoaria tal artista.

Acredito que foi mesmo uma pena Giovanni Gallo (Turim - Itália, 1927 - Belém do Pará - Brasil), em 1972, não ter tido conhecimento de Hugues de Varine (Moselle - França, 1935) quando o padre dos pescadores estava a quebrar cabeça para inventar do nada o "Nosso Museu do Marajó", na distante e isolada Santa Cruz do Arari. Verine por voltas de 1970, em Paris, estava inovando museus vetustos para abrir suas portas e ir ao encontro das comunidades do mundo ao ar livre. Giovanni inspirado nas fontes das musas onde Verine foi beber, teria todo o maior arquipélago fluviomarinho do planeta para fazer dele "seu" museu, que nem o futurologista Padre Antonio Vieira não sonhou. E que, mais tarde, serviu de arrimo ao Ecomuseu da Amazônia ancorado como a cobra grande na pequena ilha de Caratateu. Captou ou está difícil? 

A palavra "museu" vem do grego Musa é quer fizer lugar de inspiração. Com a musa-Ecologia ocupando corações e mentes nos anos 70 o padre italiano que deixou estremecendo as raízes marajoaras do romancista Dalcídio Jurandir (Ponta de Pedras, 1909 - Rio de Janeiro, 1979) - primeiro escritor amazônico ganhador do Prêmio Machado de Assis, 1972 - teria logo, muito mais, motivos para ostentar a Criaturada grande em primeiro lugar naquela estúrdia invenção. Se Verine soubesse imediatamente em Paris o mesmo que Dalcídio sabia no Rio de Janeiro sobre a importância do padre Gallo àquela hora no sítio da beira do lago Arari; certamente a história do Museu do Marajó até agora poderia ter sido mais feliz.

Eu mesmo, ao tempo que servi em Caiena entre 1985 e 1990, se soubesse da existência do incrível museu comunitário de Santa Cruz do Arari e Jenipapo - lugares muitos queridos em minhas recordações -, com certeza teria eu feito o meu melhor para inserir o Nosso Museu do Marajó a par da delegação do Amapá no Festival das Guianas (1986) apelaria ao meu querido amigo guianense Robert Marigard, organizador do dito festival de cultura dos países e regiões guianenses das quais o Amapá e Pará fazem parte. Eu não teria esperado até 1994, quando fiquei à disposição da Prefeitura de Ponta de Pedras com atuação cumulativa na assessoria de relações internacionais da extinta Associação dos Municípios da Ilha do Marajó (AMIM) (depois do Arquipélago do Marajó - AMAM), para intermediar o Protocolo de Cooperação Intermunicipal Marajó - Associação de Prefeitos Municipais da Guiana Francesa / Municipalidade de Sinnamary.

Com este protocolo de vizinhança transfronteiriça, pela primeira vez em 20 anos desde controvertida operação de repatriamento em massa de imigrantes brasileiros provenientes de Caiena, em 1974, autoridades e representantes da região norte do Brasil e da Guiana francesa enviaram recíprocas visitas. Primeiramente, uma delegação da Guiana francesa em Belém e Marajó, seguida de resposta brasileira a Caiena e mais municipalidades da região francesa de ultramar. Em ambas, o Padre Gallo e Museu do Marajó foram os atrativos principais. 

Foi, portanto, com estes antecedentes que se entabularam trocas turísticas, esportivas e culturais de vizinhança transfronteiriça visando mitigar impactos negativos do tráfico ilícito de pessoas e mercadorias na fronteira do Oiapoque. Pena que, então, Hugues de Varine e Giovanni Gallo nunca se tenham encontrado. Imagino se na delegação francesa naquele encontro na Guiana o Museu do Homem (Louvre) estivesse representado por Varine...

Quando, mais tarde, nosso amigo Maurice Gey mais uma vez com apoio político de Jack Lang, abriu portas ao Estado do Pará junto ao governo da região Ilha da França (região metropolitana de Paris) para que o governador francês Jean-Paul Huchon e a governadora paraense Ana Júlia Carepa tivessem, em Copenhague, reunião paralela à COP-15 (2009), tratando da cooperação sub-nacional sobre meio ambiente. Passo seguinte, o governador Huchon recebeu em Paris o secretário de estado de meio ambiente do Pará, Anibal Picanço; e o diretor de áreas protegidas do estado, biólogo Rodolfo Pereira que foram sondar oportunidades de intercâmbio técnico em matéria de mudanças climáticas.

Na oportunidade, Maurice Gey no papel de cicerone fez a ponte para uma visita informal, mas de cunho especial sobre interesse mútuo de intercâmbio entre o Museu do Quai Branly ou Museu das Artes e Civilizações da África, Ásia, Oceania Américas; fundado em 2006, aonde foram parar as velhas coleções de cerâmica marajoara arrancadas de sítios arqueológicos da ilha do Marajó. Gentilmente recebidos no gabinete do diretor Stéphane Martim, Rodolfo Pereira, sobrinho-neto de Dalcídio Jurandir e então diretor de áreas protegidas do estado do Pará, entregou exemplar da obra de Denise Schaan, Cultura Marajoara, em mãos do diretor do novo museu francês. Ficou, desta maneira, uma porta entreaberta inclusive para hipótese de futuro repatriamento de peças de coleções de cerâmica marajoara dentro de acordo nacional visando desenvolvimento socioambiental da gente marajoara. 

Fosse assim, talvez, na distância de Paris como também do Rio de Janeiro aproximado do Marajó pela correspondência fiel de Maria de Belém Menezes, onde o romancista Dalcídio Jurandir percebeu logo que o padre italiano era mais que simples missionário católico preocupado com a salvação das almas ribeirinhas. Varine teria certamente estabelecido comunicação entre o vetusto museu do Homem, em Paris, e Jenipapo, onde, muito depois, o escritor Sébastien Lapaque veio contemplar o lago Arari para reportagem do Le Figaro. Este talvez tenha sido o último jornalista estrangeiro a entrevistar Giovanni Gallo, em Cachoeira do Arari. Esse diálogo à distância entre mundos diferentes serviria para despertar a consciência histórica da Criaturada grande remanescente de antigos engenheiros pés descalços dos tesos (sítios arqueológicos) e artistas da cerâmica marajoara de mais de mil anos de idade. 

O teimoso Padre Gallo "implodiu", viu-se privado de exercer funções sacerdotais e veio ele a falecer em desavença com o bispo da diocese, também este com notável trabalho social realizado na criação de cooperativas que, no fim da história, não se enraizaram. E, portanto, a criaturada não se empoderou daquilo que seria seu; caso a metodologia proposta por Hugues de Varine tivesse florescido nas paróquias da Diocese. O prefeito municipal de Santa Cruz do Arari tendo apoio político do povo, por sua vez longe de ajudar o Museu do Marajó a se enraizar na comunidade, voltou-se contra o padre perdendo oportunidade oferecida por aquele museuzinho esquisito e aparentemente sem importância, feito de esperanças, curiosidades e "cacos de índio", para se mostrar ao país e ao mundo. 

Em suma, ninguém soube e ninguém viu que aquela coisa risível inventada na beira do lago Arari contemplando uma gentinha que o mundo esqueceu, era de fato e de direito o primeiro ecomuseu da Amazônia e do Brasil... Antes tarde que nunca. Agora sim - há 14 anos depois da morte de Gallo a se completar no próximo mês de março -, a gente poderá descobrir a tardia novidade museológica da vila do Jenipapo, mãe do Museu do Marajó em Cachoeira do Arari: todavia, convém que a comunidade se empodere da cultura e do território ancestral de seus antepassados. 

A crucial questão que se apresenta na região amazônica a mais emblemática: Como quebrar o fado marajoara sem o mundo saber da História do Futuro, que o padre grande escreveu; da notícia histórica da Viagem Philosophica do sábio de Coimbra e, finalmente, sem haver solidariedade nacional e cooperação internacional?


No dia de aniversário de nascimento de Dalcídio Jurandir, ano de 2004; acompanhei por acaso o atual secretário de estado de turismo do Pará, Adenauer Góes; em viagem a Holanda e a França: intimamente levava eu, sem prejuízo da missão, interesse pessoal em falar de três coisas importantes para o Pará surpreender seus visitantes, Marajó, Marajó e mais Marajó (claro, meu negócio com o turismo é a capacitação para oferta de produtos de ecoturismo na comunidade). Em Paris, conseguimos nos entrevistar com Jack Lang (nasceu em Mirecourt, Vosges, França, atual presidente do Instituto do Mundo Árabe (IMA) desde 2013, trata-se de renomado político francês popular nos meios de comunicação, foi Ministro da Cultura de François Mitterrand). Daquela visita resultou convite, em nome do governo do Estado Pará, para vinda de Monsieur Lang a fim dele conhecer a capital estado e a ilha do Marajó.



Jack Lang, em Belém do Pará, 2005: ao fundo forte do Castelo, lugar de memória de fundação da cidade, agora com 401 anos de idade.

Lang veio ao Pará no natal de 2005, a cabo de mil e uma peripécias a fim de chamar atenção do Brasil e do mundo sobre o turismo que se queria implementar na Amazônia paraense. Para este fim, sucedeu-se peculiar combinação de esforços e sucessos, dentre aos quais o inestimável concurso do amigo francês apaixonado por Marajó que se chama Maurice Gey, o marajoara por adoção Adenauer Góes e este caboco pontapedrense que vos fala; foi quando Marajó recebeu a incrível visita do super star da cultura francesa, famoso pela polêmica reforma do museu do Louvre com a pirâmide de cristal. 

Aquilo foi mesmo uma loucura, a coisa elogiada por Erasmo de Roterdã. Inesquecível. Porém, um desastre do ponto de vista do "complô" que os fados e caruanas tramaram, talvez, e nós simples mortais interpretamos ao acaso no teatro da vida. São Pedro Safadinho (folclore marajoara, em Giovanni Gallo - Marajó a ditadura da água) resolveu aprontar uma boa. 
Só para mostrar aos entusiasmados anfitriões e ao soberbo ministro da Cultura de Mitterrand que nos campos de Cachoeira, paresque, quem manda são os encantados...


"Desastre! Fale-me do desastre"... Eu me lembrando da poesia do francês guianense Léon Gontran Damas, diante da torrencial chuva que desabou nos campos de Cachoeira e a ilha inteira naufragada sob o dilúvio. O casal Lang de molho no hotel, helicóptero no chão e a tripulação forçada a inventar passatempo e jogar conversa fora. Dois assessores do ministro querendo conversar com os jornalistas, autoridades estaduais e locais a fazer das tripas coração para disfarçar o mal estar. A barreira da língua para atrapalhar. Culpa de quem? A chuva nos campos de Cachoeira... Ou melhor, São Pedro.


O plano era bom. Bem detalhado desde quanto Maurice levou a Monsieur Lang um exemplar do meu Amazônia latina e a Terra Sem Mal com autógrafo. Recebidos em janeiro de 2004 no escritório particular do então deputado à Assembleia Nacional francesa e presidenciável, Adenauer fez o convite que eu fui traduzindo: motivo, solicitar apoio ao turismo no Pará com a realização da primeira Feira Internacional de Turismo da Amazônia (FITA), através de uma rota Paris - Antilhas/Guiana... Atrativo especial: o Museu do Marajó, que havia sido estrela de intercâmbio entre a Guiana francesa e o arquipélago do Marajó. Madame Lang ficou radiante quando eu a informei do potencial para concerto por músicos árabes e judeus em o nosso significativo Theatro da Paz, numa cidade chamada Belém, na Amazônia, onde vivem em harmonia comunidades de origem hebraica e libanesa. Seria, com certeza, uma mensagem forte para um mundo em conflito. Imagina isto hoje, quando o secretário geral da ONU é o português António Guterres, cujo discurso oficial no dia mundial da paz, ao tomar posse foi o compromisso prioritário com a paz mundial! Mais, os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) na Agenda 2030 da ONU.


Todavia, naquele dia seguinte ao natal de 2005, São Pedro Safadinho resolveu encalhar a viagem do ministro e comitiva a Cachoeira do Arari onde ele estava querendo plantar um pé da árvore Folha Miúda frente ao chalé (ou o que restava dele na intenção de uma reconstrução) de Dalcídio Jurandir e visitar o famoso Museu do Marajó... As crianças da rede escolar todas em seus uniformes alinhadas com bandeirinhas do Brasil e da França às mãos, esperando. Qual teria sido a reação de Lang ao se deparar com o Arco do Triunfo a olhar para o rio e os campos sem fim, que nem o jardim de Maria Antonieta, no palácio de Versalhes, pode se comparar em tamanho e beleza natural? 


Na véspera, na fazenda-hotel Camará o tempo já havia começado a fechar, mas ainda deu para Lang alcançar seu amigo ministro da cultura Gilberto Gil que se achava em Petrópolis, no Rio de Janeiro; ligação ruim, deu apenas para dizer que ele estava com sua esposa na ilha do Marajó a caminho de Cachoeira do Arari. Pediu para ambos cuidarem da difusão da obra de Dalcídio Jurandir... Passou-me o telefone para dar um alô ao ministro compatriota, mal tive tempo de ouvir do outro lado, alô, alô... Foi tudo. Marajó realmente estava (está ainda) fora do mapa.


E toma-te chuva. O tempo passando... A madame assessora cultural, feliz até a noite passada devido ao pajé Joãozinho da boca do Camará a ter livrado de uma contratura muscular crônica, dizendo ela, que remédios e psicólogos de Paris não lhe tinham surtido efeito. Perdeu ela a serenidade com a chuvarada, todos nós gregos e troianos encalhados em Joanes: então, madame Christianne sempre teatral vira-se para Maurice e pergunta de chofre, "que vamos fazer?"... Ele toma ares misteriosos à lá Luis de Funes e responde, calmamente: "proponho suicídio coletivo"... 


Maurice é palhaço diplomado pela Comédie Française, madame fica tiririca com a tirada do palhaço da jornada enchuvarada a Cachoeira do Arari. E assim debandou a comitiva em retorno a Belém, logo que a chuva de São Pedro Safadinho permitiu retirada com segurança, já quase à boca da noite para Lang, o deputado-prefeito da cidade de Kuru, Antoinette. E Dalcídio Jurandir em correspondência a Maria de Belém escreveu: "quando Marajó desencanta?"... Aquilo é carma, fado, sina, será?



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exposição permanente de cerâmica marajoara arqueológica (instituição credenciada como fiel depositário pelo IPHAN) e reproduções feitas em oficina do próprio MUSEU DO MARAJÓ, em Cachoeira do Arari - Pará.


Tinha eu por acaso, pessoalmente, um "plano secreto"? Sim, conheci o criador do Museu do Marajó em circunstâncias curiosas no ano de 1995. Estive ausente desde 1980 até 1990, dez anos não são dez dias.  Até minha partida para Brasília e depois exterior, tivera eu uma militância na SOPREN sob comando do decano do ambientalismo na Amazônia Camilo Viana. Em 1994 fui colocado à disposição da Prefeitura de Ponta de Pedras a pedido do prefeito Bernardino Ribeiro, eleito enquanto secretário geral da Universidade Federal do Pará. Ex-secretário de finanças (1966-1967) na gestão de Antonico Malato e voluntário para projetos de cultura na administração (1978-1980) de Mário Noronha  Vislumbrei oportunidade de promover o Marajó como um todo, desde quando tomei contato com aquela história que o padre Giovanni Gallo escreveu no início do livro "Motivos Ornamentais da Cerâmica Marajoara": ... "Aproveitando as coisas que não prestam - Quase vinte anos atrás, um amigo meu, o Vadiquinho, largou um embrulho em cima da minha mesa, com um sorriso um tanto provocador. 
          -- Aqui estão uns negócios que não prestam, como o senhor gosta..." (Giovanni Gallo, Motivos Ornamentais da Cerâmica Marajoara).

Eram "cacos de índio" no falar caboco marajoara, fragmentos de cerâmica tirada de "tesos" (sítios arqueológicos) geralmente para contrabando. E que por falta de técnica e para fugir ao flagrante vão se esbandalhando e deixando cacos pelo chão. Por necessidade e acaso, o provocador Vadiquinho, sem saber, encontrou o sujeito certo para depositar aqueles cacos de índio, por lei "protegidos" pela República Federativa do Brasil. Eureca! Ou o estalo do padre Antônio Vieira... Cacos (ruínas) são férteis sementes de tempo e espaço para novas renascenças.



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Arco do Triunfo em Paris.

sábado, 28 de janeiro de 2017

Tradição pinta cuia é uma arte amazônica de grande valor identitário.

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artista plástico Theo Lima, de Icoaraci, pintando mural baseado na iconografia marajoara ancestral


Devo ao amigo Adenauer Góes o incentivo e apoio institucional na publicação de meus ensaios diletantes Novíssima Viagem Filosófica - Revista Iberiana (1999) e Amazônia latina e a Terra Sem Mal (2002). Neste último, consagrei a terceira e última parte do livro (pag. 77 e segs.) à Educação pelo barro: humilde tentativa de dialogar com a "educação pela pedra" do fino poeta pernambucano João Cabral de Melo Neto de Morte e Vida Severina: o nortista pelejando com a ditadura das águas grandes do grande rio Amazonas no barro planetário dos princípios do mundo. De outra parte, o nordestino a bom lutar contra as secas do sertão-mundo... Deste fado contraditório, de povos da Lua e povos do Sol saiu o casamento que pariu a ecocivilização amazônica.

Ao médico ortopedista de nome alemão não falta intuição. Por isto, Adenauer foi convocado para dirigir o time parauara do Turismo quando a empresa oficial estava condenada a sair de campo. Eu puderia destacar uns bons gols feitos, mas agora quero falar daquilo que faz a diferença entre o técnico acadêmico e o político atilado e sintonizado com inovações maluco-beleza e viagens na maionese que, sim, podem "dar samba". Ou melhor, um bom carimbó.

Lembro-me da vez em que Adenauer estava em Santarém com uma garbosa delegação e de repente descobriu, se não me engano, em Alter do Chão variedade de cueira de frutos pequenos, próprios para confecção de mini cuias.  O então presidente da companhia paraense de turismo não pestanejou em pedir um galho para plantar. Como se sabe, a cueira é árvore que só pega de galho. O doutor vestido de paletó e gravata não vacilou em dar um jeito para colocar um pedaço de galho de cuieira sob a camisa e embarcar de volta a Belém com o precioso "contrabando". 

Chegando, foi diretamente do aeroporto plantar o galho da cuieira de frutos miúdos no jardim da Paratur. A planta pegou bonito e cresceu até 2007, quando deixei definitivamente o serviço público após 43 anos passando pelos três níveis de administração municipal, federal e estadual, nesta ordem. Por fim, ignoro se a cuieira do doutor Adenauer frutificou não e se ela ainda está de pé.


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Cuieira (Crescentia cujete) - árvore da ecocivilização amazônica pré-colonial de 5.000 anos. 


Sertanistas quando percorrem regiões selvagens da Amazônia e encontram pés de cuieira em sabem que, provavelmente, por ali se encontra tapera de alguma maloca indígena extinta. Como outras tantas plantas nativas, a cueira chegou às populações cabocas como herança dos primeiros habitantes da região.

As cuias pintadas de Monte Alegre tornaram-se célebres e deram o apelido de "pinta cuia" aos habitantes desse município. Todo interior do Pará tem forte tradição no uso de cuias 'pitingas' (naturais) ou 'pintadas'; especialmente para servir tacacá, mingau ou o famoso "vinho" (suco) de açaí. 

Com tamanha importância na cultura paraense, a cuia foi valorizada também no artesanato antigo de Santarém com porta joias, suporte de pintura e outras finalidades. Ultimamente o artista plástico Theo Lima valorizou a cuia como suporte para grafismo com motivos ornamentais da cerâmica marajoara. Porém, agora a iconografia marajoara em cuias está em crise. E nós precisamos apoiar a arte do artista paraense e a tradição das cuias pintadas.


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grafismo marajoara aplicado a suporte vegetal de cuia em contraste à pedra de granito polida: artefato de Theo Lima, artista visual paraense.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

Eidorfe Moreira e empoderamento da Agenda 2030 global pela comunidade local.

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EIDORFE MOREIRA: 
EXPRESSÃO GEOCULTURAL AMAZÔNICA.


No campo político, a Amazônia brasileira ainda carece de grandes nomes no diálogo nacional, pan-amazônico e mundial capazes de mobilizar a sociedade regional ao advento de uma fase histórica pós-colonial encerrando, de fato, o neocolonialismo interno em todos sentidos. Todavia, por outra parte, sob conceito antropoecocultural a amazonidade, tendo concurso incontornável do filósofo Benedito Nunes na interpretação do pensamento de Eidorfe Moreira, ressalta da obra deste notável intelectual orgânico como consenso sobre a síntese de estudos amazônicos. Ou, melhor, aquilo que, genericamente, se poderia classificar como amazonologia

É claro que vários outros intelectuais amazônicos dão valiosa contribuição ao todo, cada um em seu respectivo ramo de especialidade formando a vasta diversidade de interpretações da realidade amazônica. Em contínua evolução desde tempos pré-coloniais até os nossos conturbados dias sob pressão angustiante do amanhã de nossos filhos e netos.  

Pergunta-se aonde vamos e a resposta não é fácil nem simples de encontrar. Muitas vezes, a explosão de religiosidade entre as populações tradicionais longe de representar a identidade da cultura regional é expressão de um sentimento inferioridade e insegurança face à cultura complexa "mais forte" (dominante)... O caboco diletante que vos fala, acredita que a chamada Criaturada grande de Dalcídio Jurandir (populações tradicionais) muito tem a ensinar e também para a aprender dentro do sistema nacional de universidades abertas à terceira idade. 

Porém, apesar da infovia que já está à disposição e o que falta completar, a plataforma tecnológica pode oferecer muito mais em extensão universitária e educação continuada. De sorte, que um grande mestre como Eidorfe Moreira lido e compreendido, mais ou menos, por um caboco diletante, possa vir a ser traduzido em "caboquês". Assim, em rede virtual e real do embalo na hora da sesta pelas beiras de rios e igarapés a poderosa rádio cipó leve mato adentro o pensamento acadêmico. 

A contrapartida da rádio cipó extensionista virá, invariavelmente, através da rede de rádios comunitárias, escolas ribeirinhas, parceiras de ecomuseus e museus comunitários. A obra de Eidorfe dialoga com a filosofia da complexidade e a proposta planetária de um Edgar Morin, por exemplo. É consensual que os estudos de Eidorfe Moreira primam pela transversalidade de disciplinas e a diversidade de temas com ênfase na Amazônia. 

O problema amazônico não é só o parco número de mestres e doutores na região, mas primeiramente o alto número relativo de analfabetos adultos e analfabetos funcionais na população. Os cidadãos que sabem ler e escrever não tem gosto pela leitura, com poucas exceções, estão satisfeitos pelo noticiário de televisão e manchetes da imprensa. Em maioria absoluta, cargos de direção e assessoramento de governos municipais, estaduais e órgãos federais na região ou empresas são preenchidos por técnicos e burocratas que, orgulhosamente, desprezam poesia e filosofia. 

Especialistas em suas prestigiadas profissões, herméticas aos leigos, frequentemente são analfabetos funcionais nas profissões de seus pares acadêmicos, Muitos deles se gabam de não ler relatórios e textos com mais de três páginas. Os dispendiosos planos de "desenvolvimento" não se sustentam na realidade. Paradoxalmente, uma obra de ficção como o romance "Marajó" de Dalcídio Jurandir, escrito em 1939 na vila de pescadores artesanais de Salvaterra, distrito de Soure à época; continua em estranha atualidade. Vicente Salles viu nessa obra o primeiro romance sociológico brasileiro e de longe uma filiação ultramarina ao romance medieval ibérico de Dona Silvana... Mas a quem ele se dirige não sabe ler nem escrever... Por que será? Se o diplomado e doutorado filho do fazendeiro alguma vez foi a Portugal e voltou de lá tão ignorante da história social dos dois países como foi.

A "cerca" do latifúndio e o muro do condomínio urbano de luxo não apenas afastam ladrões de gado e assaltantes, mas também isolam ricos e pobres de um contato menos distante entre si. O resultado é um povo que não se sente incluído na sociedade e uma sociedade que não conhece o território onde ela habita e dele se sustenta. Não é preciso fazer uma tese para saber que assim a sociedade regional fica refém do passado. 

COMO A CRIATURADA GRANDE HÁ DE SE EMPODERAR DOS OBJETIVOS DA AGENDA 2030?





Dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável
O documento final da Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável - Rio+20 dispõe que o desenvolvimento de objetivos e metas, tal qual aplicado em relação aos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, seria útil na busca do desenvolvimento sustentável, por meio de ações focadas e coerentes.
Decidiu-se estabelecer um processo intergovernamental inclusivo e transparente que fosse aberto a todos, com vistas a elaborar os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS).
Após mais de três anos de discussão, os líderes de governo e de estado aprovaram, por consenso, o documento “Transformando Nosso Mundo: A Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável”. A Agenda é um plano de ação para as pessoas, o planeta e a prosperidade. Ela busca fortalecer a paz universal com mais liberdade, e reconhece que a erradicação da pobreza em todas as suas formas e dimensões, incluindo a pobreza extrema, é o maior desafio global ao desenvolvimento sustentável. As ações da Agenda 2030 e dos ODS são baseadas em cinco eixos de atuação, também conhecidos como cinco "P´s": planeta, pessoas, paz, prosperidade e parcerias.

A Agenda consiste em uma Declaração, 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável e as 169 metas, uma seção sobre meios de implementação e de parcerias globais, e um arcabouço para acompanhamento e revisão.
O conjunto de objetivos e metas demonstram a escala e a ambição desta nova Agenda universal. Os ODS aprovados foram construídos sobre as bases estabelecidas pelos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM), de maneira a completar o trabalho deles e responder a novos desafios. São integrados e indivisíveis, e mesclam, de forma equilibrada, as três dimensões do desenvolvimento sustentável: a econômica, a social e a ambiental.
Aprovados na Cúpula das Nações Unidas sobre o Desenvolvimento Sustentável (25-27 de setembro 2015), a implementação dos ODS será um desafio, o que requererá uma parceria global com a participação ativa de todos, incluindo governos, sociedade civil, setor privado, academia, mídia, e Nações Unidas.
Do global para o local
Os ODS, embora de natureza global e universalmente aplicáveis, dialogam com as políticas e ações nos âmbitos regional e local.
Na disseminação e no alcance das metas estabelecidas pelos ODS, é preciso promover a atuação dos governantes e gestores locais como protagonistas da conscientização e mobilização em torno dessa agenda.

Objetivos

Em setembro de 2015, 193 países acordaram os seguintes Objetivos de Desenvolvimento Sustentável:[1]

  1. Erradicação da pobreza - Acabar com a pobreza em todas as suas formas, em todos os lugares.
  2. Fome zero e agricultura sustentável - Acabar com a fome, alcançar a segurança alimentar e melhoria da nutrição e promover a agricultura sustentável.
  3. Saúde e bem-estar - Assegurar uma vida saudável e promover o bem-estar para todos, em todas as idades.
  4. Educação de qualidade - Assegurar a educação inclusiva, e equitativa e de qualidade, e promover oportunidades de aprendizagem ao longo da vida para todos.
  5. Igualdade de gênero - Alcançar a igualdade de gênero e empoderar todas as mulheres e meninas.
  6. Água limpa e saneamento - Garantir disponibilidade e manejo sustentável da água e saneamento para todos.
  7. Energia limpa e acessível - Garantir acesso à energia barata, confiável, sustentável e renovável para todos.
  8. Trabalho de decente e crescimento econômico - Promover o crescimento econômico sustentado, inclusivo e sustentável, emprego pleno e produtivo, e trabalho decente para todos.
  9. Inovação infraestrutura - Construir infraestrutura resiliente, promover a industrialização inclusiva e sustentável, e fomentar a inovação.
  10. Redução das desigualdades - Reduzir as desigualdades dentro dos países e entre eles.
  11. Cidades e comunidades sustentáveis - Tornar as cidades e os assentamentos humanos inclusivos, seguros, resilientes e sustentáveis.
  12. Consumo e produção responsáveis - Assegurar padrões de produção e de consumo sustentáveis.
  13. Ação contra a mudança global do clima - Tomar medidas urgentes para combater a mudança climática e seus impactos (*).
  14. Vida na água - Conservação e uso sustentável dos oceanos, dos mares, e dos recursos marinhos para o desenvolvimento sustentável.
  15. Vida terrestre - Proteger, recuperar e promover o uso sustentável dos ecossistemas terrestres, gerir de forma sustentável as florestas, combater a desertificação, deter e reverter a degradação da Terra e deter a perda da biodiversidade.
  16. Paz, justiça e instituições eficazes - Promover sociedades pacíficas e inclusivas par ao desenvolvimento sustentável, proporcionar o acesso à justiça para todos e construir instituições eficazes, responsáveis e inclusivas em todos os níveis.
  17. Parcerias e meios de implementação - Fortalecer os meios de implementação e revitalizar a parceria global para o desenvolvimento sustentável.
(*) Reconhecendo que a Convenção Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC) é o fórum internacional intergovernamental primário para negociar a resposta global à mudança do clima

ECOMUSEUS E MUSEUS COMUNITÁRIOS DEVEM SER  
CORAÇÃO PULSANTE DE CIDADES EDUCADORAS


Entre os dias 1 e 4 de junho deste ano, a cidade de Rosário na Argentina, receberá o XIV Congresso Internacional de Cidades Educadoras. Será o primeiro do gênero nas Américas, que têm atualmente 12 países e 60 cidades cadastradas na Associação Internacional de Cidades Educadoras (AICE).
Em 1990, durante o primeiro congresso da AICE, em Barcelona, uma carta de princípios foi redigida, esboçando algumas das características que fazem de uma cidade um ambiente educador. Baseada na Declaração Internacional dos Direitos Humanos, a carta entende que as cidades são espaços plenos de oportunidades educativas, que podem ser potencializadas ou esquecidas. E reafirma: aprender é um processo para todas as idades e para toda a vida.
Entre tantos países e cidades, não faltaram diferentes aplicações destes princípios. Cada prefeito, gestor, diretor de escola, professor, coletivo ou organização da sociedade civil que se aproxima da ideia realiza um aporte único, alicerçado em sua realidade e em sua prática no território. Além dos vinte pontos do texto do I Congresso, muitos outros vão sendo criados diariamente por todos aqueles e aquelas que olham para a educação como algo que ocorre também fora dos muros das escolas.
AICE
Hoje a AICE conta com um total de 36 países e 485 cidades filiadas ao redor do mundo.
Para debater estes diferentes aspectos, o Portal Aprendiz dá início a uma série de reportagens sobre experiências, conceitos e princípios que sublinham a atuação das Cidades Educadoras em suas diferentes formas. Nesta edição, perguntamos às pessoas que atuam na cultura, na educação, no urbanismo, na preservação e acesso ao patrimônio, na inclusão e na infância por que faz sentido falar em Cidades Educadoras no Brasil.

A classe média deveria ser a ponte de ascensão social para os pobres e passaporte de contado com os ricos. Termina que assim não é. Invejando os ricos, a classe média como disse Milton Santos não quer direitos, mas aspira a privilégios. Sonha com o muro "protetor" do condomínio urbano e fica indiferente à cerca de arame farpado do latifúndio armado de pistoleiros. Esta tamanha alienação e indiferença está destruindo as cidades e tornando a vida rural num inferno comparável à guerra das favelas.


Ecomuseu da Amazônia: uma experiência ao serviço do desenvolvimento comunitário no município de Belém-PA

Maria Terezinha R. Martins


O Ecomuseu da Amazônia teve como antecedente e ponto de partida a criação do Subsistema de Educação e Cultura para um Desenvolvimento Sustentável no município de Belém-PA (1995/6), nasceu em 2007, sob a gestão da Secretaria Municipal de Educação de Belém, com o desafio de integrar os diversos segmentos da sociedade, ao seu “inteiro ambiente”, a partir da conscientização e valorização de sua história, de seu patrimônio natural e cultural. Em 2008, foi integrado ao Centro de Referência em Educação Ambiental – Fundação Escola Bosque Professor Eidorfe Moreira, sob a tutela da Prefeitura Municipal de Belém. Atua em quatro áreas, integrando as seguintes comunidades: Distrito de Icoaraci (Cruzeiro e Vicentinos); Ilha de Caratateua (bairros São João do Outeiro, Fama, Tucumaeira, Curuperé e Nova República); Ilha de Cotijuba (comunidades do Poção e Faveira); e Ilha de Mosqueiro (comunidades do Caruaru, Castanhal do Mari-Mari e Assentamentos Paulo Fonteles e Mari Mari). As ações desenvolvidas pelo Ecomuseu objetivam o fomento de atividades regionais, a metodologia considera o patrimônio das comunidades como uma matéria prima endógena. Nesse contexto, os resultados das ações desenvolvidas pelas comunidades já começam a mostrar que vem provocando reflexões e mudanças de atitudes das pessoas, contribuindo para a mobilização popular da região, no sentido de reafirmar processos históricos e culturais, promovendo ainda o desenvolvimento de práticas sustentáveis.

A imagem pode conter: planta, árvore, céu, atividades ao ar livre e natureza
Fundação Escola Bosque Professor Eidorfe Moreira - ilha de Caratateua, Belém - Pará.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Fado Tropical

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Fotografia de descerramento da placa da "Rua de Belém do Pará - Cidade Irmã", em Aveiro (Portugal) em sinal de reciprocidade ao ato da municipalidade de Belém do Pará, em 1970, no dia do aniversário da cidade; que mudou o nome da rua Tomazia Perdigão para "Rua de Aveiro - Cidade Irmã", na Cidade Velha, no quadro das relações de amizade luso-brasileiras. A antiga rua Tomázia Perdigão, depois Rua Aveiro - Cidade Irmã, sito à ilharga ocidental do Museu de História do Pará faz parte do roteiro histórico da Cabanagem (1835-1840).



A essa se ficou chamando «Rua de Belém do Pará – Cidade Irmã» e as lápidas que a indicam foram festivamente descerrados pelos Drs. Leandro Tocantins, por feliz casualidade um belemense que ocupa o cargo de adido cultural junto à Embaixada do Brasil em Lisboa, e que a representava nas solenidades consagradoras da irmanação, e pelo também historiador Dr. Augusto Meira, transbordante de comunicabilidade, mestre de afervoramentos de lusitanismo.
Ao Prof. Dr. Stélio Maroja coube cimentar – e a ninguém melhor competiria a tarefa – a primeira pedra para o monumento que enlaçará os brasões das duas urbes e perpetuará a sua fraternidade.
Sucederam-se sessões, homenagens, visitas a lugares históricos como a Vila da Feira e o Buçaco, a pontos turísticos de maior beleza panorâmica, – da ria, a Vale de Cambra –, a indústrias e museus e templos; homenagens e reiterações de simpatia. Efectuaram-se romagens à terra de Frei Caetano Brandão, um inolvidável prelado paraense, e à casa onde nasceu Ferreira de Castro, o autor aureolado da «Selva», universalizada epopeia da Amazónia. Recordaram-se melhor laços da união de Aveiro a Belém, um bispo cheio de piedade nascido a meia légua da cidade – D. Miguel de BuIhões – e um Governador setecentista de Grão-Pará, natural da própria cidade – ainda então vila –, João da Maia da Gama, que deixou memória da sua acção e antes se distinguira por actos de heroísmo.
Mostramo-nos como somos. Abrimo-nos. Procuramos merecer a honra cativante da escolha em que fomos espontaneamente distinguidos. E cremos ter conseguido cingir mais forte os laços com que voluntária e jubilosamente nos deixamos prender à «Cidade-Irmã» de Belém, e aos seus Filhos, irmãos-belemenses.
EDUARDO CERQUEIRA
 AVEIRO E O SEU DISTRITO
N.º 9
Publicação Semestral da Junta Distrital de Aveiro
Junho de 1970








O rio Amazonas corre Trás-os-Montese numa pororoca deságua no Tejo.

O fado tropical comete uma subversão de tal sorte, que, mal comparado, faz parecer café pequeno o "papel forte" do padre Antônio Vieira, diante da ordem imperial então reinante na Europa. O padre foi improvisado diplomata secreto da Restauração do reino lusitano em Paris e Amsterdã, com o projeto transcontinental, super secreto, da vinda da Família Real para a Amazônia a fim de fazer de Dom João de Bragança rei do Grão-Pará. Há quem pense que o Marquês de Pombal, cem anos depois de Dom João IV, cogitou trasladar o medroso e namorador Dom José I com a Corte Real segundo o plano original de Vieira. E, por esta secreta decisão, teria ele concordado em deixar o arquiteto italiano Antônio José Landi em Belém do Pará a construir igrejas e palácios da futura metrópole imperial, em vez de o requisitar para fazer parte da equipe de reconstrução de Lisboa, destruída pelo terremoto de 1755. Pode ser. O certo na Amazônia é que tudo é incerto, dizia Paul Le Cointe, naturalista e cônsul da França em Belém do Pará.Desta vez, o poderoso ministro de Dom José I, "déspota esclarecido", queria supostamente permutar o território do reino na Península Ibérica pela parte espanhola na América do Sul. Plano arrojado, porém duas vezes falhado, pois é fado de magos visigodos e celtiberos de muita antiguidade e mistério, o zelo do velho torrão da Ibéria onde Viriato enterrou o umbigo e seus ossos. Desta vez parece que o famoso 'estalo' do padre Vieira perdeu prazo de validade e o "papel forte" ficou sendo a maior fraqueza geopolítica do conselheiro do rei, pela aventura diplomática gorada a Companhia de Jesus o enquadrou com ameaça de expulsão; a Inquisição não perdeu tempo para botar o papel forte na ordem do dia, denunciando a suposta tutela da França em Portugal contra a Espanha como plano secreto judeu para vingar-se dos Reis Católicos. O plano de Vieira era digno de Maquiavel envolvia o príncipe herdeiro de Portugal Dom Teodósio e a princesa francesa Anne Marie d'Orléans... Sabe-se, porém, que o dissimulado italiano Cardeal Mazzarino, que fazia a real cabeça da França seiscentista; tinha outras ideias a respeito da cobiçada Anne Marie, ademais Dom Teodósio morreu precocemente e Dom João não se deixou levar mais pela perigosa "lábia" do padre...Já que ao bárbaro e desconhecido Amazonas de antanho não apetecia ir se civilizar na Europa, foi como se a civilização ibérica - noutro estalo mágico do padre Vieira - resolvesse conquistar corações e mentes pagãs no rio Babel: foi assim que o payaçu dos índios, quase a fugir da polícia do rei e das intrigas da corte, fez velas rumo ao Maranhão (Amazônia colonial), trocando punhos de renda para vestir a roupeta do missionário jesuíta entre colonos boçais e selvagens escravizados. Terminou expulso e condenado por heresia judaizante pelo tribunal do Santo Ofício... Mas sorte teve o italiano Landi com seu palácio que hoje é museu e igrejas de pedra e cal que testemunham a época dos Setecentos; que o padre com a sua arquitetura de palavras e utopia sebastianista na impossível paz e reconciliação do Grão-Pará com a Cristandade.Eis que ouvir cantar e falar o Fado Tropical - no Rio de Janeiro, Salvador da Bahia, São Luís do Maranhão, em Belém do Grão-Pará, Belém Ocidental e toda parte mais do mundo onde se fala português -, quando o mundo faz pacto para erradicar a extrema pobreza, até 2030, não deixando ninguém atrás. E, mais ainda, o sistema multilateral da Terra-Pátria nomeou providencialmente com missão pacificadora a um cidadão português chamado António Guterres, experimentado deslindador de conflitos do mundo, para reger na ONU o concerto das nações. No fim da história do longo século XIX, com suas guerras quentes e frias, escutar o fado tropical nesta hora escura desde complexo século cheio de dúvidas e dívidas, divididos no presente entre o passado e o futuro; sob encanto da arte plumária dos índios e a sedução barroca jesuítica da História do Futuro, há também que ver o peso do espaço. Portanto, que se emprestar os olhos do peixinho do mar, chamado quatro-olhos (tralhoto, Anableps anableps) do Sermão aos Peixes, e compreender a insustentável leveza do rio de Heráclito em seu fluxo infinito: saber da terceira margem do rio onde habita a Encantaria em toda sua prolixa diversidade de mundos e fundos paralelos ao que nos parece real. E que aquilo que ontem poderia ter sido mas não foi; talvez ainda poderá ser amanhã sob nova perspetiva e noutra feição. Por exemplo, por necessidade e acaso que a história política e social de Portugal explica, a ressurreição simbólica d'el-rei Dom Sebastião (morto em batalha no Marrocos em 1578) deu-se em 1640 na figura real de Dom João IV de Portugal, supostamente como profetizara em trovas o poeta sapateiro Gonçalo Annes, o célebre Bandarra. Se não foi assim, de verdade; na era da pós-verdade será... Só a Poesia salva da loucura congênita a humanidade filha da animalidade. E o inculto navegador lusíada, que ignorava a ciência aristotélica de Santo Agostinho, dizendo que somente os anjos podiam atravessar a zona tórrida das regiões antípodas do mundo sem suas asas se tornarem cinzas, passou além do Bojador em santa ignorância no fito das riquezas das Índias... Logo, se o não saber é a primeira condição do saber (conforme Sócrates), Portugal além de ser primeiro a descobrir mares nunca dantes, também por acaso descobriu a tal pós-verdade (ou seria antes proto verdade, em realidade?) muito antes dos tempos pós-modernos.Corria o ano ditatorial de 1973 e fazia escuro igualmente no Brasil e Portugal, porém o destino do vasto mar de Fernando Pessoa - tal qual a sina condoreira do poeta da Floresta, Thiago de Mello -, fadou a Chico Buarque e Ruy Guerra cantar o fado a fim de despertar do destino colonial os povos enlaçados da mesma trágica história: angolanos, brasileiros, cabo-verdianos, guineenses, moçambicanos, portugueses, são-tomenses e dos mais países e comunidades de língua portuguesa. As trevas da primeira noite do mundo invadiam a Terra, então carecia ouvir cantar o galo na certeza de que há auroras que ainda não brilharam e que a manhã sempre há de vir. Poetas e profetas quase todos tem a mesma sina secreta de gestar o amanhecer de um futuro dia... Ninguém nasce profeta ou poeta (todos igualmente nascem dotados de Magia: poucos, entretanto, deixam de trocar o direito humano à Poesia por um prato de lentilhas). É a necessidade mãe de todas invenções quem faz de um ou de outra uma sibila ou um vate. Se é verdade que o padre grande dos índios, Antônio Vieira; levado em canoa a remos de "índios cristãos" a navegar águas amazônicas a caminho da aldeia indígena de Cametá, bradou de repente: Bandarra é verdadeiro profeta! Aquele grito calado no fundo do peito e da sua alma solitária e ferida pelo fracasso do papel forte e as loucas incertezas do Quinto Império do mundo, que o faziam queimar vivo no fogo-fátuo do inferno verde; talvez acordasse o bicho do fundo, a cobra grande Boiúna, quebrando com a mortal curiosidade dos três escravos da mãe d'água, mandados buscar o mito da primeira noite do mundo escondido no fundo do rio dentro, o caroco mágico de tucumã (Astrocarium vulgare). Este nigredo (inconsciente coletivo) danado, herdado por certo da animalidade nossa tataravó; transposto com pena e tinta ao papel das esperanças, livre das servidões do homem refugia-se no reino dos mitos, asila-se no terreno da história de uma maneira sempre impossível de separar da realidade, os sonhos e pesadelos da humanidade. Por isto é preciso cantar e despertar campos e cidades do mundo inteiro!Se os povos ouvirem cantar o galo, o sol da manhã sempre irá brilhar até nos dias de sexta feira mais cinzentos. Porém, segundo João Cabral de Melo Neto, um galo sozinho não tece a manhã: ele precisará sempre de outros... Veja bem, no império colonial o sol nunca se punha. Todavia, ao mesmo tempo, por mais pobre que seja um camponês em qualquer parte da Terra há de possuir, pelo menos, um galo madrugador como despertador. Assim, também o seu vizinho mais próximo: de sorte que de galo em galo, de quintal em quintal, de campo em campo até a cidade; todas manhãs cobrem de luz e coragem a superfície inteira do planeta. Mas, sobretudo, pelo modo de cantar hão de saber os povos do mundo onde e como o galo canta... Nos Quinhentos, o rei de França se levantou contra o papa espanhol Rodrigo Bórgia, Alexandre VI, protestando contra o "Testamento de Adão" que repartiu o mundo, achado e por achar, entre os reis de Espanha e Portugal. Se já não bastasse o imenso furacão no Caribe, desatado pelas naus de Colombo; os índios do Maranhão e Grão-Pará muito mais se espantaram das mágicas que os brancos faziam. Que nem um doutor acadêmico há de se sentir abestado face à Joana Carda com a vara de negrilho na mão capaz de prodígio extraordinário pela arte de Saramago, tanto quanto Joaquim Sassa com uma pedra arremessada ao mar, José Anaiço, Pedro Orce e Maria Guavaira interligados pelo realismo mágico a vagar sem rumo no mar imaginário do poeta Pessoa, a bordo de uma jangada de pedra desprendida da Europa. Carmas vetustos e fados ancestrais, por certo, levam a navegar por mares nunca dantes. O homem já está quase chegando a Marte: tudo começou talvez quando o primeiro pescador, por acidente, se afastou da terra levado embora pelo vento e a corrente...Pena que Saramago não atendeu ao convite para emendar caminhos de Portugal e da Amazônia lusitana: assim, a jangada nunca pôde escalar em Bragança, Sintra, Caldas da Rainha, Chaves, Soure, Salvaterra, Santarém, Aveiro, Óbidos, Barcarena e outras mais cidades portuguesas da Amazônia que mais parecem dar razão à história, mal contada, do traslado da Família Real de Portugal ao Grão-Pará, duzentos anos antes de Dom João VI com a corte portuguesa no Rio de Janeiros. Pois muito bem, a corte de Dom João não veio, porém Dom Sebastião aqui chegou são e salvo a bordo da frota dos Turcos Encantados e ressuscitou seu reino ao longo do litoral do Maranhão e Pará.Meus pobres dons de pajé reprovado pelos caruanas por falta de fé, foram insuficientes para levar contracorrente equatorial marítima a garrafa de náufrago do degredado dos Açores até Lanzarote, nas ilhas Canárias, destinada a José Saramago... O poderoso vento leste batendo contra pela proa empurrou longe e a corrente equatorial recusou transportar a estúrdia mensagem do caboco marajoara (José Varella Pereira, Revista Iberiana: Belém do Pará, 1999) ao festejado ganhador do prêmio Nobel. Agora é tarde? Precisava antes saber a verdade verdadeira sobre a controversa travessia do Atlântico Sul pelo imperador mandinga Abubakari, em 1311, à frente de uma flotilha com dois mil súditos. Então, sob ditadura do poderoso vento oceânico que sopra desde o cabo das Tormentas (Boa Esperança), na contracosta africana; a garrafa mágica com a carta imaginária do náufrago dos descobrimentos; foi confiada finalmente à corrente do Amazonas rumo norte, destinada a passar antes pela ilha da Martinica, nas Antilhas, para coletar o Cahier d'un rétour au pays natal, obra-prima de Aimé Cesaire; para ser entregue em Lanzarote, ao encontro da Jangada de Pedra ao largo à deriva levando a bordo a teoria do segredo das antigas navegações gregas e cartaginesas. Então, nessa fantástica navegação já se poderia avistar desde a jangada em alto mar, o Navio Encantado com carregamento de mitos e lendas da Floresta Amazônica, música a bordo e mortos dos seringais da Belle Époque. Dalcídio Jurandir (1909 - 1979) conversando com Ferreira de Castro (1898-1974) sobre a Selva e Belém do Grão-Pará. O escritor português falando da terra em que nasceu, Ossela, no concelho de Oliveira dos Azeméis, distrito de Aveiro. Lembra-se dos seus pais camponeses, com apenas oito anos de idade ficou órfão de pai. Emigrou aos 12 anos vivendo algum tempo em Belém do Pará antes de seguir para trabalhar na floresta amazônica na extração da borracha.
O escritor luso lembraria ainda que foi seringueiro durante quatro anos. Nessa tempo escreveu contos e crônicas, aos 14 anos o primeiro romance “Criminoso por Ambição”, publicado como folhetim em 1916, quando ele retornou a Belém do Pará continuou colaborando para jornais e revistas. Há coisa, mais ou menos, de dez anos passados disse-me um amigo luso de velha cepa, ter feito conhecimento de Ferreira de Castro, lido grande parte de suas obras e durante algumas conversas em Lisboa ter escutado do mesmo a história reservada de que, certa vez, em Belém do Pará o escritor se aproximou do fundo do poço da amargura e depressão. Então, ele teria pensado dar cabo à própria vida subindo furtivamente os degraus à torre da igreja da Sé para de lá do alto se atirar à rua sobre a calçada: mas, ao atingir o último degrau e passar ao campanário para ir ao encontro dos braços da Morte, o quase suicida viu ao longe a verdejante floresta das ilhas da baía do Guajará, onde todos dias ribeirinhos labutam sem perder fé na vida. 
O galope doido de seu coração se acalmou e o juízo clareou, no mesmo instante, à beira do abismo. Como o milagre da salvação de dom Fuas Roupinho montado em seu cavalo desembestado pelo Diabo atrás da caça e salvo no último momento ao implorar a graça da Virgem de Nazaré; a rodopiar na beira do penhasco que se vê pintada do carro dos milagres no Círio em Belém do Pará. Calmamente, o arrependido escritor desceu a escadaria interna da igreja vazia àquela hora do dia. Assim, mais que nunca, viveu o escritor da floresta para contar ao mundo o que é a sofrida vida humana à margem da história, seja na civilizada Europa ou no fim do mundo entre árvores e esquecimentos.
Em 1919 - na ilha do Marajó, Dalcídio tinha apenas dez anos de idade e morava no chalé de Chove nos campos de Cachoeira com seus pais e irmãos -, Ferreira de Castro regressou a Portugal e ainda na terra natal enfrentou dificuldades até seu trabalho começar a ser reconhecido. Em 1922 - ano do centenário da independência do Brasil e da Semana de Arte Moderna de São Paulo -, publicou o romance Carne Faminta e em 1923 O Êxito Fácil, obras que o tornaram conhecido. 
Entre 1925 e 1927 ele foi redator do jornal O Século e dirigiu o jornal O Diabo. Colaborou com as revistas O Domingo Ilustrado e Ilustração. A publicação do romance Emigrantes aconteceu em 1928 - ano do Manifesto Antropofágico, de Oswald de Andrade -, seu prestígio de escritor enfim foi reconhecido em diversos países. A obra-prima A Selva saiu em 1930, então seu confrade Dalcídio em companhia de Bruno de Menezes andava pelo Ver O Peso, em Belém do Pará, nas traquinagens boêmias da Academia do Peixe Frito. Em 1934, a ditadura de Salazar se estabeleceu e Ferreira de Castro abandonou o jornalismo. O Estado Novo brasileiro com Getúlio Vargas iria seguir o mesmo fado absolutista português herdado do império colonial... A literatura social de Ferreira de Castro, nascida da floresta amazônica com o drama de seringueiros e outras gentes humildes, tão próximas à criaturada de Dalcídio, se inclina ao neorealismo. Pouco depois da Revolução dos Cravos Ferreira de Castro faleceu na cidade do Porto, Portugal, no dia 29 de junho de 1974. Não antes dele prefaciar, em maio, a edição portuguesa do romance Belém do Grão-Pará, de Dalcídio Jurandir.
O prefácio começa por repudiar prefácios em geral, porém abrindo exceção, sobretudo, a pedido de seu amigo Lyon de Castro que portanto devia conhecer o romance paraense da queda da Borracha.
O autor de A Selva escreve: "Escritores e poetas de todo mundo uni-vos contra os prefácios que tão esperançadamente solicitais!
Mas, pensando eu assim, porque acedi ao desejo de  Lyon de Castro, meu velho amigo, estou aqui a escrever um prefácio?
Apesar de celebrado, desde há anos, pelos maiores críticos literários do Brasil, como um dos mais importantes romancistas actuais do seu país, tão rico de ficcionistas, Dalcídio Jurandir era, até agora, desconhecido em Portugal.  
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Dalcídio Jurandir nasceu no Marajó. Nasceu numa grande ilha, de tal modo situada no delta do Amazonas que lembra, se a virmos no mapa ou de avião, uma gigantesca presa verde na boca aberta de incomensurável serpente cor de barro.
Se algum dia a literatura teve ali uma episódica florescência, jamais a brisa da glória expandiu o seu perfume, longe e demoradamente, no tempo e no espaço.
A ilha possuía, contudo, um privilégio. De todas aquelas vastas paragens, vizinhas do Atlântico, só ela encerrava nas entranhas um valioso espólio arqueológico, as famosas “marajoaras”, cerâmicas velhas de séculos, hoje a prestigiarem vários museus do mundo.
Cerâmicas muito quietinhas e silenciosas no subsolo e milhares de manadas de bovinos pastando na superfície era a síntese que se fazia do Marajó. Do espírito dos artistas  remotos só haviam ficado, além do mistério, aqueles magníficos vasos, alguns simbolicamente partidos.  Mas a ilha moderna, de vaqueiros, de fazendeiros e de bois, parecia não ter alma.  Certamente que alguns poetas, no país onde fulguraram sempre muitos, lha terão pressentido ou emprestado a sua.  Não guarneceriam, porém, a história literária.
Esse condão reservara-o a ilha para Dalcídio Jurandir. Ele foi o redescobridor e o intérprete do Marajó. Ele foi, não só para o Marajó, mas para o Estado do Pará, o que Jorge Amado, Lins do Rego, Raquel de Queiroz e outros grandes romancistas tinham sido nos anos 30, para os Estados do Nordeste brasileiro.
Dalcídio Jurandir que esqueceu a singular natureza da sua terra, mas ocupa-se principalmente dos habitantes."
Será o 'carma' que os hindus ensinam algo semelhante ao fado, que as fadas fadam sobre as coisas e pessoas? E para se quebrar a sina carece saber toda história e estória do encanto tendo coragem no coração para enfrentar a Esfinge? Esse encontro mágico que o fado tropical vai nos atormentando a navegar os mares do Sul por onde vão à deriva a jangada de pedra e o navio encantado; pode ser talvez o destino do Édipo ocidental querendo matar o Laio asiático, morrendo de desejos pela mãe África em imagem de Jocasta.
"É que há distância entre intenção e gesto
E se o meu coração nas mãos estreito
Me assombra a súbita impressão de incesto".
Fado, sina, destino, sorte, vaticínio, profecia, oráculo. Canção marejada de saudades, música e dança, energia misteriosa que afeta o destino e a sorte humana desde priscas eras quando as fadas tinham poder de fadar. De lançar fado, sina no destino das coisas e das pessoas. Uma crença de grande antiguidade na história da humanidade que atravessa tempos modernos sob diferentes roupagens, tais como fenômenos de clarividência, paranormais e parapsicológicos, que atestariam a realidade do "mundo invisível" onde vivem fadas e outros seres mágicos da Natureza sutil. No romance Marajó, de Dalcídio Jurandir, acha-se presente o tema do incesto do velho romance ibérico e direito feudal do morgadio português. A obra literária de Dalcídio Jurandir indaga: Quando Marajó desencanta?
Melhor será talvez nunca desencantar da magia ingênua das crianças marajoaras. Mas, despertar os adultos do transe que já se substitui pelo alcoolismo, as drogas, o vício do consumismo, o ópio das crenças alienantes. A velha Lusitânia prenhe de mitos e lendas maravilhosas, arrematou o imaginário céltico, anglo-saxão, nórdico mas não curou para evitar ser colonizada pelo império greco-romano; conquistado pelos Mouros; reconquistado pela cristandade; para cumprir o fado tropical em Áfricas, Américas, Ásia e Oceania. Se mais mares e oceanos houvesse na Terra-Pátria o nauta português chegaria lá com sua sina. 
Fado Tropical

Chico Buarque e Ruy Guerra

Oh, musa do meu fado Oh, minha mãe gentil
Te deixo consternado No primeiro abril
Mas não sê tão ingrata Não esquece quem te amou
E em tua densa mata Se perdeu e se encontrou

Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal
Ainda vai tornar-se um imenso Portugal

"Sabe, no fundo eu sou um sentimental
Todos nós herdamos no sangue lusitano uma boa dose de lirismo
(além da sífilis, é claro)
Mesmo quando as minhas mãos estão ocupadas em torturar, esganar,
trucidar
Meu coração fecha os olhos e sinceramente chora..."

Com avencas na caatinga Alecrins no canavial
Licores na moringa Um vinho tropical
E a linda mulata Com rendas do Alentejo
De quem numa bravata Arrebato um beijo

Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal
Ainda vai tornar-se um imenso Portugal

"Meu coração tem um sereno jeito
E as minhas mãos o golpe duro e presto
De tal maneira que, depois de feito
Desencontrado, eu mesmo me contesto
Se trago as mãos distantes do meu peito
É que há distância entre intenção e gesto
E se o meu coração nas mãos estreito
Me assombra a súbita impressão de incesto
Quando me encontro no calor da luta
Ostento a aguda empunhadura à proa
Mas o meu peito se desabotoa
E se a sentença se anuncia bruta
Mais que depressa a mão cega executa
Pois que senão o coração perdoa"

Guitarras e sanfonas, Jasmins, coqueiros, fontes
Sardinhas, mandioca 
Num suave azulejo
E o rio Amazonas Que corre Trás-os-Montes
E numa pororoca Deságua no Tejo

Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal
Ainda vai tornar-se um império colonial

Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal
Ainda vai tornar-se um império colonial

Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal
Ainda vai tornar-se um império colonial

Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal
Ainda vai tornar-se um império colonial  

https://www.youtube.com/watch?v=NfjaFMah7sE