domingo, 1 de janeiro de 2017

UTOPIA AMAZÔNIDA


Imagem relacionada
uma homenagem antropofágica a Thiago de Mello, o poeta da Floresta: acordando a manhã nos corações e mentes amazônidas do vasto mundo.


Fica decretado que agora vale a verdade. 
agora vale a vida, 
e de mãos dadas, 
marcharemos todos pela vida verdadeira.


Thiago de Mello - Estatutos do Homem




A Terra sem Mal resgatada na terceira margem do Inferno Verde




Antes de começar a chover no molhado
entre árvores e esquecimentos do inferno
que dantes era verde e era limbo e limo ardendo
em febre amarela
Seja novamente proclamado o direito universal
à Preguiça contra o império do Trabalho escravo
para maior glória dos mistérios gozosos proletários 
(dito Ócio nos negócios multinacionais do prazer).

Desde o oco do mato dizer e redizer urbi et orbi

a verdade verdadeira do Homo sapiens Tapuya 
A criatura natural da densa Floresta chuvosa
(vulgo caboco saído do mato a dente 
de cachorro, corda e baraço para amansar 
o bicho-homem na santa aldeia da Missão 
e civilizar o tapuio depois 
no Diretório dos Índios a ser súdito português):
convém todo mundo voltar ao Mito original 
Religar conhecimentos e sentimentos
refugiando-se na lenda régia da Victoria amazonica 
(vulgo vitória-régia) banhada à pálida luz de Jaci, 
nossa mãe Lua iniciando a Criaturada grande
ao rito oriental da flor de Lotus 
parenta próxima da ninfa amazônica:
pela Água, pela Terra, pelo Ar e pelo Fogo
mas principalmente pela Evolução das espécies.

Eu me refugiu na Victoria amazonica,

Tu te refugias na Victoria amazonica,
Nós nos refugiamos na Vitória amazônica.
Eles dançam em Wall Street entre choro e ranger
de dentes
perdem aposta na bolsa e no Clima o melhor da vida...

Muito antigamente porém:

Depois de partir da velha China para fronteira 
da Índia em meio a chusma de gurus,
lamas, magos e xamãs revelando o Tao
no outro lado do mundo desconhecido  
há muito tempo mesmo por uma longa curva espiral
evolutiva planetária
um chinês que já nasceu velho, chamado Lao-Tsé montou em riba de seu fabuloso búfalo filosófico
paresque pra seguir o caminho asiático
rumo ao polo norte até o estreito de Bering. 
Daí o velho virou para sul e chegou a América do Sol
se juntando secretamente a pajés aruacos e caraíbas 
da Amazônia imaginária
a fim de saber do estado geral do novo mundo presente, passado e futuro:
masporém no Xingu esta nossa gente já praticava 
a arte natural da ressurreição do Kuarup 
segredo da humanidade filha da animalidade.

Foi assim que a Floresta encantada amanheceu 
em paz desde o Congo ao Amazonas, então cegos 
e descrentes viram pela primeira vez dentro de si
aquilo que faz o maior medo do mundo:
O nigredo primordial da teoria do Inconsciente 
de um tal de Sigmund Freud
ou, cá pra nós: a primeira noite do mundo revelada
por arte mágica da cobragrande Boiúna
arte escondida no fundo do rio dentro de um caroço
de tucumã (Astrocarium vulgare), mãe 
da divina Kanhapyra, manjar de deuses pagãos.

Há muito e muito tempo, paresque

certa noite escura que nem breu
há milhões de anos saiu do berço ancestral 
da mãe África a primeira turma da diáspora 
mundo afora a fim de descobrir e povoar o mundo primitivo: 
com certeza esta gente, Criaturada grande de Dalcídio
aquele um índio sutil cafuzo do Campinho
em Ponta de Pedras,
E campos de Cachoeira na ilha dos Marajós, etc.
Pelo desvio asiático a cobragrande Makará chamada
veio ela do outro lado do mundo desovar 
no Rio Negro as primeiras lendas e homens 
em piracema ainda jitos que nem peixinhos
deixados a secar ao sol nascente em riba das pedras 
do Cucuí na beira do rio-vida.

Esta gente tapuia saiu nua do oco da terra, cresceu e apareceu nas ilhas e na terra firme há dez mil anos atrás.


N
a grande ilha do Marajó atravessada na boca
do gigante Amazonas nós já tínhamos civilização 
há mil e tantos anos
donde a arte primeva brasílica da cerâmica marajoara, tapajônica, maracá e outras tantas foi levada dos tesos arrombados e contrabandeada sem foguete nem bilhete 
pra ser vista e admirada mundo afora.
Pena que a Criaturada grande à margem da história
ficou só a ver navios quando seus tesouros foram embora.

Nem todo profeta é poeta

Masporém todo poeta é profeta.
Thiago tem nome do subversivo mano de Jesus Cristo,
Forte coisa: se o Rabi da Galileia
não fosse ele mesmo o primeiro comunista da Terra
sem males
("mais fácil um camelo passar pelo fundo duma agulha, que um rico entrar no reino dos céus" - Mat 19:24).

Com perdão de Fernando Pessoa, o caboco sentencia:

Tudo vale a pena se a alma não é panema...
Pra quê então Bandeira ir se asilar em Parságada
se melhor seria Bandeira ser amigo da rainha 
das amazonas no Espelho da Lua
onde cada mulher escolhe o caboco valente
que será seu rei por sete dias e sete noites
no maravilhoso jogo do amor?
Se a gente tem Porantim do Bom Socorro 
e encantaria na comuna de Barreirinha,
se o imenso rio Amazonas corre para o Mar-Oceano
a chamar os povos a Paz mundial dos viventes, 
humanos ou não.
O poeta da Floresta é profeta da antiga utopia  
antropofágica e prega o ajuri do Bom Selvagem junto
aos filhos de Ajuricaba e Nheengaíbas cabanos
tal qual por acaso ou iluminação do divino Espirito santo
Os sete caciques piratas do Marajó
e o paya-açu dos índios Antônio Vieira acompanhado
de seus inseparáveis "índios cristãos" de arco e remo
(pra não dizer Tupinambá) fizeram as pazes 
do Santo Cristo de Mapuá há quase 400 anos...
sendas ocultas da Terra sem Mal
demanda infinita do lugar encantado, onde não há

Fome

Trabalho escravo
Doença
Velhice
Morte.


Resultado de imagem para imagem do porantim indigena


Iluminado pela luz eterna da liberdade universal 
e plena consciência da grande vida multidiversa
O poeta sabe que todo mundo em qualquer lugar
tem lá também sua utopia igual a Terra sem Mal.
No entanto, outrora sem saber nadinha um belo dia nasceu o pirralho ribeirinho 
Amadeu Thiago de Mello 
filho de seu Pedro Tiago de Melo e dona Maria Mituoso
de Melo.
O jitinho veio ao mundo no lugarzinho chamado 

Porantim do Bom Socorro, município de Barreirinha, 
à margem direita do Paraná do Ramos, 
o paraná mais comprido do maior rio do mundo. 

Pena que esta nossa gente de mil e uma línguas extintas

não entenda mais patavina da língua-geral Nheengatu, pena que o genial Candido Portinari não pintou
a Terra sem Mal nos murais das Nações Unidas...
Assim, perdeu graça saber o que há de extraordinário
um grande poeta vir à luz num sítio amazônico legal 
que se chama Porantim sem mais socorro 
da antiga revolução ecocultural antropofágica.

Ah, meu bom porantim! Porantim mágico! 

Remo armorial assim sem ti em minhas mãos trêmulas 
e desertas de arte
Me perco no labirinto dos rios e igarapés da memória.

A quantos mundos tu levaste, oh Porantim 

o menino ribeirinho de Barreirinha e por que não te lembraste mais de mim?

Resultado de imagem para porantim do bom socorro
Casa em Porantim do Bom Socorro - primeiro projeto de Lucio Costa para Thiago de Mello, anos 70 (única incluída pelo próprio Lucio Costa em seu livro).

Um comentário: