domingo, 27 de março de 2011

Ver O Peso, 384 águas de Março

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.

Mercado Ver-o-Peso.
O Ver-o-Peso é um mercado situado na cidade brasileira de Belém, no estado do Pará, estando localizada na Avenida 16 de novembro. Símbolo da cidade, é sua maior atração turística e a maior feira livre da América Latina. O mercado do ver-o-peso abastece a cidade com variados tipos de gêneros alimentícios e ervas medicinais do interior paraense, fornecidos principalmente por via fluvial. Foi eleito entre as 7 Maravilhas do Brasil.
Localizado na área da Cidade Velha e diretamente às margens da baía do Guarajá, foi construído em 1625 no porto do Pirí, assim chamado na época. Enquanto um entreposto fiscal, seu nome faz jus às chamadas Casas do Ver-o-Peso, projetadas no Brasil, em 1614, para conferir o peso exato das mercadorias e cobrar os respectivos impostos para a coroa portuguesa. A partir de então foi popularmente denomindo lugar de Ver-o-Peso, dando origem ao nome do mercado, já que era obrigatório ver o peso das mercadorias que saiam ou chegavam à Amazônia, arrecadando-se os impostos correspondentes. No final do século XIX e XX, o local que temos hoje por Complexo sofreu uma série de modificações tanto funcionais quanto em sua paisagem se adaptando às necessidades e gostos da Belle Époque. Foi nessa época que houve aterramento da Baía do Guajará, amplicação do Mercado de Carne, construção do porto e o Mercado de Ferro.
O mercado faz parte de um complexo arquitetônico e paisagístico que compreende uma área de 35 mil metros quadrados, com uma série de construções históricas, dentre elas o Mercado de Ferro, o Mercado da Carne, a Praça do Relógio, a Doca, a Feira do Açaí, a Ladeira do Castelo e o Solar da Beira e a Praça do Pescador. O conjunto foi tombado pelo IPHAN, em 1997.

Hoje o Ver O Peso completa 384 anos de muitas e muitas vidas e lidas,
Hão de dizer que está velhinho:
Mas,não! Ao contrário,vai cada vez mais para o bem e o mal
ficando moço ribeirinho.

Na festa de 2016 quando a Cidade do Pará, nossa Belém da Amazônia, vai completar o quarto centenário de fundação;
a maior feira aberta da América Latina fará 391 anos.

Como então, o Ver O Peso se é da feira que se fala?
Claro, é a feira do Ver O Peso. 
Este um é mais do que cada uma de suas partes
Bicho de sete cabeças: mercado da carne e do peixe,
frutaria regional, ervas mil e raízes aos montes,
histórias em quantidade, academia do peixe frito,
universidade da maré...

O moderno abre os braços à tradição, os velhos se reconhecem
aqui e os jovens vem aprender a inventar o futuro
sem danos ao patrimônio.

O rio no mês de março sobe a Ladeira do Castelo
que nem o cacique Guaimiaba queria tomar a sua parte no Presépio
de resto quando as águas descem da Praia
é a vez da Cidade Velha se aventurar à conquista das ilhas.

E assim vai esta infinita dialética da paisagem cultural
Bicho de sete cabeças de uma geografia ribeirinha singular:

A ver o peso da tradição na reinvenção da modernidade,
o peixe frito nosso de cada dia a remoçar o velho Mercado de ferro 
cuja história vem apenas de começar agora.

sábado, 5 de março de 2011

SAUDAÇÕES MARAJOARAS A ZUMBI DOS PALMARES

saudações Marajoaras à Fundação Cultural Palmares!
votos de trabalho fecundo ao novo presidente Elói Ferreira de Araújo.

CONVITE para descobrimento da NEGRITUDE amazônica profunda, na ilha do Marajó,
donde o piloto de Cristóvão Colombo, o espanhol Vicente Yañez Pinzón, três meses antes do "descobrimento" do Brasil sequestrou 36 "índios" -- os primeiros "negros da terra" da América do Sul, cf. PAPAVERO in "O Novo Éden" -- venham ver o peso da transversalidade da obra do poeta da negritude amazônica BRUNO DE MENEZES e o romanceiro do "índio sutil" DALCÍDIO JURANDIR www.dalcidiojurandir.com.br

o caboco marajoara, filho de índios e negros aculturados por "brancaranas" degredados debaixo da LINHA DO EQUADOR projeta a negritude para além da melanina...

a "academia do peixe frito", na feira do Ver O Peso em Belém com a tradição (morta hoje, podendo ser revitalizada amanhã com todo potencial da DIVERSIDADE CULTURAL AFROLUSOAMAZÔNICA) de S. Benedito da Praia está, há 70 anos, pregando no deserto diante do AUTISMO da elite da cultura brasileira (incluside "representantes" do Povo Marajoara e autoridades do Pará).

As ilhas da AMAZÔNIA MARAJOARA -- espaço territorial do tamanho de Portugal com população comparável a do vizinho Suriname, p. ex.; noves fora o êxodo rual do Marajó na área metropolitana e entorno de Belém, zona Macapá-Santana do Amapá e imigrandes "clandestinos" nas Guianas -- fazem parte da PAISAGEM CULTURAL DO DELTA-ESTUÁRIO PARÁ-AMAZONAS e o Ver O Peso é portal incontornável da mesma.

A CULTURA MARAJOARA www.marajoara.com é a mais antiga cultura complexa da Amazônia (pra não dizer do Brasil...), com 1500 anos de idade.

Os sítios arqueológicos estão quase todos arrombados e pilhados por saques e contrabando desde o achado pelos brancos, no DIA 20 DE NOVEMBRO DE 1756; do primeiro deles (o teso do Pacoval do lago Arari)...

ver marcas da destruição do patrimônio marajoara na obra "Cultura Marajoara" da arqueóloga gaúcha Denise Schaan, ed. SENAC-SP, 2010... Mais de 10 grandes museus no país e no exterior detém coleções de cerâmica marajoara pré-colombiana sem nenhuma RESPONSABILIDADE SOCIOAMBIENTAL em relação às populações tradicionais do Marajó (afrodescendentes, cabocos e quilombolas), o que poderia ocorrer mediante AMPARO governamental (União, Estado e Municípios da região, 16 exatamente) ao MUSEU DO MARAJÓ www.museudomaarajo.com.br

A última vontade do fundador do ECOMUSEU marajoara (que, de fato, é isto que ele é) ficou expressa na obra "Motivos Ornamentais da Cerâmica Marajoara" de Giovanni Gallo: transformar a "Associação O Museu do Marajó" mantenedora do museu em uma fundação...

É claro que o responsável por este blog, sob ponto de vista das autoridades e algumas pessoas que por acaso se tornaram "herdeiros" do Museu do Marajó; não tinha mais que se meter aonde não foi chamado. Mas, na verdade, este "carma" me foi repassado por meus antepassados brancos ignorantes da tradição da própria terra onde enterraram os seus ossos, pretos despossuídos de tudo inclusive de memória da mãe África distante e índios "nheengaíbas" e "abaetés" inocentes úteis da malfadada Colonização...

o caboco que vos fala está na situação solitária do "índio sutil" e do padre insubmisso à hierarquia que acabou sendo "o homem que implodiu". Felizmente ou infelizmente não está em meus planos implodir ou explodir coisa nenhuma e quanto a me comparar a Dalcídio não tenho eu tamanha merecendência...

sou apenas um escrivinhador insone numa ilha sonâmbula que manda mensagens a todos e a ninguém. Tudo que escrevo é apenas o interminável ensaio da garrafa de náufrago duma civilização neotropical embargada à força da conquista do rio das "amazonas"... Meu compromisso é com as gerações futuras: tal qual o desconhecido pescador de gapuia, por necessidade e acaso, arquiteto dos tesos de aldeias e necrópoles suspensas sobre campos alagados para contemplação de manadas de búfalos.

que se não engane a respeito deste blog: ele não está contra nem a favor de nenhuma "tribo" sejam elas de batalhadores locais pela sorevivência ou de engravatados a serviço de palácios. Mas, gostaria de acrescentar um mãozinha de argila à obra dos antigos deixada para trás entre chuvas e esquecimento; a fim de operar o milagre da renascença dos campos encharcados na aurora do futuro mais justo para aqueles que hão de vir na sucessão dos tempos.

SUGESTÃO DE TRABALHO

unir forças dos movimentos sociais indígenas e afrodescendentes sobre a questão marajoara, tendo a singularíssima Ilha do "homem malvado" (o marajó), falante da "língua ruim" ("nheengaíba); como a capital brasileira da NEGRITUDE: 20 DE NOVEMBRO, DIA NACIONAL DA CONSCIÊNCIA NEGRA /e/ DA CULTURA MARAJOARA

algum comentário?

sexta-feira, 4 de março de 2011

FALA TURINO!

 a tribuna do Ver O Peso tem a honra de passar a palavra ao companheiro Célio Turino, o "pai" dos Pontos de Cultura:

---------- Mensagem encaminhada ----------
De:
Célio Turino <celioturino65@gmail.com>
Data: 4 de março de 2011 14:08
Assunto: (UmaNovaCulturaPolitica) Opinão sobre convenios com entidades da sociedade e sugestãod e legislação
Para: umanovaculturapolitica@googlegroups.com


Amigos,

Tenho acompanhado este debate em torno das políticas do MinC evitando declarações. Isto porque o tempo do governo da presidenta Dilma ainda é muito curto e qualquer entrada na discussão da parte de alguém que participou do governo Lula e não esta mais no governo pode ser mal interpretada. Todos sabemos que o comum no debate entre política e governo é reduzir opiniões e princípios a meros instrumentos de disputa de poder, por isso, em respeito ao momento e aos princípios do programa Cultura Viva tenho me mantido afastado do debate. Não que isto signifique omissão, muito pelo contrário, ou alheiamento ao debate (tenho procurado ler tudo que tem sido discutido no processo). Quanto às minhas opiniões, conceitos e princípios, julgo que já estão bem explicitadas em livro e artigos, tanto em relação às práticas quanto ao pensamento, afinal, como gestor público que também é escritor e pensador da cultura, sempre torno públicas minhas posições.

Isto esclarecido, gostaria de entrar no debate sobre alternativas de legislação na relação entre Estado-Sociedade (e sem que isto pressuponha nenhum juízo de valor em relação às posições da atual gestão no MinC).

SOBRE GESTÃO: o modelo adotado no Cultura Viva é a Gestão Compartilhada e Transformadora. Este é um conceito e não meras palavras, ele pressupõe a prospecção de novas relações entre Estado-Sociedade e um novo tipo de Estado; o que exercitamos até aqui são pequenas brechas que devem ser ainda mais alargadas no processo de desenvolvimento desta relação. Recuperando o histórico do programa diria que a opção pela forma convênio aconteceu porque esta foi a única alternativa oferecida no momento (apresentada pela consultoria jurídica do MinC) e que se a opção fosse uma outra forma, talvez nem tivessemos saído das intenções. De certa maneira, até para entender os limites desta modalidade, foi necessaário que a enfrentássemos. E notem, houve mudanças no processo e em função de nossa atuação (as parcelas passaram de semestrais para anuais; o Ministério do Planejamento editou nova IN - instrução normativa - aceitando 15% de despesas administrativas; quando das redes municipais e estaduais a contrapartida por parte das entidades - 20% do convênio- foi eliminada). Tudo isso só foi possível graças ao enfrentamento da modalidade convênio. Também começamos a adotar a modalidade Prêmio (dezenas de prêmios e milhares de contemplados), não somente para Ações, como também para os próprios Pontos de Cultura (São Paulo adota esta modalidade nos 300 pontos da rede estadual e outros governos podem adotar a mesma solução - aqui atento ao fato que isto foi resultado de um ano e meio de negociação com o gov de sp e respectivos jurídicos e, pelo que tenho acompanhado, o gov do estado tem tido uma atuação de profundo respeito ao acordado).
Com este breve histórico, quero mostrar que houve grandes evoluções na gestão do programa e hoje os problemas de prestação de contas e gestão de convenios reduzem-se a 20% do total dos Pontos de Cultura (exatamente aqueles que fizeram os convenios diretos com o MinC e em alguns governos de início). Não fazer este diagnóstico significa caminhar em um pântano em que todos se enredam num processo de não solução .
Qual a solução para esses 20% (aproximadamente 600 Pontos)?
A Anistia da prestação de contas contábil (admitindo-se retroativamente a apresentação de despesas administrativas conforme nova instrução do Min. Planejamento e pagamento de dirigentes de entidades desde que prestadas em atividade finalistica e não de gestão da entidade - o que já permitido na IN e que só tem emperrado por falta de uniformização e entendimento da mesma) desde que o cumprimento do objeto seja comprovado (afinal, foi a própria entidade que disse o que iria fazer e não há motivos para que esta comprovação não aconteça em fotos, depoimentos e relatórios). Esta decisão é plenamente possível e muito usada (vejam exemplos com as dividas de ruralistas, quase todo ano sendo renegociadas e abonadas) e depende de decisão política para além do MinC.
Há outros problemas de gestão que podem ser solucionados de forma infralegal, por procedimentos internos:
- A secretaria responsável tem que ter estrutura funcional para realizar seu trabalho (entre 2004 e 2010 contatamos com um único gerente e 4 subgerentes para todas as funções - conveniarmento, acompanhamento, fiscalização e controle- e uma quantidade mínima de funcionários. Não pode ser assim, há um princípo em gestão pública que deve ser seguido: ("quem seleciona não contrata, quem contrata não acompanha, quem fiscaliza não paga, quem paga não fiscaliza a prestação final"). Não pensem que não levantei este princípio diversas vezes em minhas reinvindicações por melhor estrutura funcional, mas não consegui este intento e nem é o caso de retomar os motivos. Quem sabe agora;
- O Fluxo antecede a estrutura. Este é um princípio filosófico (já devem ter ouvido isto em minhas conversas com os Pontos: Heráclito, Hegel, fenomenologia, etc) que praticamente definiu a construção teórica do Cultura Viva. É o dinamismo de um fluxo contínuo que permite a vida e ele deve acontecer em toda relação entre Sociedade e Estado. Quando o governo interrompe o fluxo, não cumpre compromissos, atrasa pagamentos, muda formatos, ele quebra este processo. E neste caso, temos que admitir, o principal responsável pelo interrompimento do fluxo e descumprimento de contratos tem sido o própio governo, trazendo grandes transtornos às entidades conveniadas. Imaginem se essa quebra acontecesse no pagamento da dívida pública? Ou em um organismo vivo? Há o necrosamento, a gangrena.

SOBRE A SOLUÇÃO LEGAL:
Voces sabem que sempre defendi que a lei CULTURA VIVA fosse de iniciativa popular, tenho falado isso há anos. Infelizmente o movimento não revelou força, compreensão e até mesmo maturidade para elaborar esta lei. Paciência, vamos tentar recuperar as oportunidades perdidas e ir em frente. O modelo de lei voces podem ver na que foi apresentada na Argentina (Cultura Viva Comunitária) no final do ano passado e elaborada pelo próprio movimento cultural argentino com o nosso auxílio, e que começa a replicar em diversos paises. Esta lei garante o programa Cultura Viva e seus princípios básicos (autonomia, protagonismo, empoderamento, desenvolvimento em rede), por isso é necessária.
Porém, precisamos de mais uma lei, com abrangência para além do Cultura Viva. A LEI DA AUTONOMIA E PROTAGONISMO SOCIAL. Que lei é esta? Uma lei que coloque este processo de compartilhamento entre Estado e Sociedade em um marco diferente da 8.666, que é a lei geral de licitações e que foi pensada muito mais para a contratação e acompanhamento de compras e serviços pelo Estado, que são de natureza distinta das motivações para parcerias com organizações da sociedade. Pelo que tenho aocmpanhado, o minsitro Gilberto Carvalho (Secretaria Geral da Presidencia) está incumbido desta função. É lá que vcs tem que negociar esta outra lei, mais que necessária (depois, se quiserem, posso escrever sobre como imaginei esta lei). Percebam que aqui os benefícios serão gerais, atendendo igualmente a coletivos ambientais, núcleos de educação popular, gestão participativa na saúde, etc. Neste caso eu diria que os Pontos de Cultura tem uma grande contribuição a prestar, pois, em razão da experiência que tivemos nestes 6 anos, talvez representem o que de mais avançado se contruiu neste sentido.

Enfim, ainda há muito por fazer, mas muito já foi feito e sei que, com base em bons princípios e propósitos, construiremos um Estado  de novo tipo, ampliado e baseado na relação de confiança e não do controle.

Bom movimento a tod@s

CÉLIO TURINO

PS - como não participo de nenhuma outra lista de discussão que não esta, por favor, quem considerar que é o caso, pode replicar estas considerações. Também estou anexando um recente artigo que escrevi sobre o Cultura Viva e publicado na revista Princípios e outros dois sobre gestão publica da cultura e a experiência de gestão no MinC, que fazem parte do meu livro PONTO DE CULTURA, o Brasil de baixo para cima.

DELTA-ESTUÁRIO DO MAIOR RIO DA TERRA

O mapa da ilha

Localizada na foz do rio Amazonas, no estado do Pará, a Ilha do Marajó faz parte do arquipélago e região que constituiu a "Amazônia Marajoara"; a ilha grande foi ocupada no início do século XVII, a partir de 1623 com a tomada de Gurupá pelos portugueses, donde os holandeses foram expulsos. Em realidade, só depois da pacificação dos "Nheengaíbas" [grupos nuaruaques que dominavam as Ilhas e ameaçavam a posição portuguesa no Pará], em 1659; e com a construção do primeiro curral de gado no rio Arari, em 1680, teve início a colonização da Ilha do Marajó. 

Antes da colonização, um longo período pré-colonial se desenvolveu durante cerca de 5.000 anos. Entre os anos 400 e 500, depois de Jesus Cristo; teve início na microrregião Arari a primeira cultura complexa (tipo cacicado) da Amazônia: a célebre Cultura Marajoara cuja cerâmica, levadas de sítios arqueológicos na ilha, se acha dispersa em vários museus no país e no exterior. Em detrimento do único museu em toda a região marajoara (16 municípios e quase 500 mil habitantes) -- o controvertido MUSEU DO MARAJÓ www.museudomarajo.com.br. A colonização inicial do Marajó deu-se através de ordens religiosas (Jesuítas, Mercedários e Carmelitas) mediante a catequização dos nativos e implantaram as primeiras fazendas de gado sob a posse dos donatários da Capitania hereditária da Ilha Grande de Joanes (1665 -1757) que distribuiram sesmarias, inclusive a particulares. 

Daí a origem dos famosos latifúndios da ilha com seus quase cinquenta mil quilômetros quadrados - área equivalente à do estado do Rio de Janeiro e maior que a Suiça. A Ilha do Marajó fica dividida em duas microrregiões – Furos de Breves à oeste com densas florestas de várzeas inundadas e Arari à leste com campos baixos, secos no verão e alagados no inverno – e com uma população em torno de 400 mil habitantes, distribuídos em doze municípios. A ilha apresenta diversidade cultural construída no sincretismo dos saberes de seus habitantes naturais, africanos e europeus como em todo o país. 

No entanto, fatores como sua localização e conformação geográfica natural, a inerente dificuldade de comunicação e transporte entre suas cidades e a capital do estado, Belém; seu isolamento e sua realidade sócio-política quase feudal ainda em pleno século XXI, tornam o Marajó um lugar ímpar, onde seu povo construiu um universo cultural próprio que surpreende e maravilha aqueles que por lá transitam, sem a ótica, o preconceito e a prepotência dos colonizadores.

[ editado com http://marajoando.blogspot.com/ ]

quarta-feira, 2 de março de 2011

OITO ANOS DEPOIS A SEGUNDA MORTE DE GIOVANNI GALLO

No próximo dia 10, irá completar-se oito anos do falecimento de Giovanni Gallo (Turim / Itália, 27/04/1927 - Belém do Pará / Brasil, 10/03/2003). Quando se lê sua autobiografia "O homem que implodiu", sabendo da história do Museu do Marajó, fica-se com impressão do drama "Seis personagens à procura de autor", de seu compatriota Luigi Pirandello (1867-1936). No caso, o próprio Gallo representa as personagens e o diretor de ensaio... 

A obra de Pirandello, escrita em 1921, descreve um ensaio de teatro invadido por seis personagens rejeitadas por seu criador. Elas tentam convencer o diretor a encenar suas vidas e ele protesta por seu ensaio ser interrompido daquela maneira. Porém, a seguir o diretor começa a se interessar pelo inusitado da cena que se apresenta face a seus olhos. As personagens, então, demostram que mereciam a chance e acabam por o convencer a tornar-se o autor do drama. 

As discussões entre personagens e diretor compõem uma análise filosófica do teatro. A peça divide-se entre narrativa e aspectos paralelos que ganham a cena. A discussão entre autor e personagens constrói também um forma de fazer teatro. As personagens tentam mostrar que suas vidas são reais em relação ao palco. E o diretor, defendendo a relatividade do palco, toma como parâmetro a vida "real"... A peça entra, todavia, noutro aspecto: torna-se estudo metalinguístico do teatro, a arte discutindo a si mesma. A forma de representar proposta pelo diretor é rejeitada pelas personagens. Elas não querem ser representadas por atores: afinal de contas, como alguém pode representar melhor a vida de um personagem do que ele mesmo?

Logo, na primeira morte de Giovanni Gallo, ele se fez personagem principal num drama antigo. Para encarnar o papel requerido, termina por "implodir" após numa decisão solitária enquanto a vila, o rio e os campos dormem a mítica "primeira noite do mundo", desistir de um suicídio anunciado. Então, vai até o fim da deriva até o último suspiro num absurdo leito de hospital (para quem desejava morrer feito um caboco de beira de rio...), mas ele não traiu o compromisso de consciência assumido consigo mesmo diante da solidão cósmica daquele decandente mundinho de pescadores lacustres e vaqueiros excluídos pela história social.  

De fato, foi uma tão completa implosão do homem que se fez sepultar no Arboreto do museu numa réplica de teso (sítio arqueológico)... De tal sorte, que o fantasma do padre renegado pela hierarquia diocesana encarnou no mito inventado pela própria gente do lugar. Como antes o folclore popular era matéria prima do inventor do dito museu. É de dialética e antropofagia cultural que nós estamos tratando. Pois não?


Oito anos depois, voltou-se à estaca zero: o drama pirandeliano perdura. Mas, agora parece que se vai completar a implosão final do personagem italiano um dia, subitamente, aparecido nos campos de Cachoeira sob chuva e sol... Mas, talvez para o rito ser consumado carece a morte total da antiga Cultura Marajoara com o lago agonizante, o problemático Museu do Marajó, o chalé de Dalcídio Jurandir e toda mais história da velha vila da Cachoeira sumir no assoreamento do rio Arari.

VISITE / SEJA MAIS UM AMIGO DO MUSEU DO MARAJÓ
S.O.S CULTURA MARAJOARA


Exposição Permanente

(texto de Giovanni Gallo com registro do livro de visitas)

A nossa Exposição Permanente certamente é pobre no sentido monetário: o prédio é periclitante, não há goteiras e sim cachoeiras,... Faltam vitrines, falta espaço para novas vitrines, faltam recursos, falta pessoal, sobretudo a sobrevivência é incerta.

Apesar da nossa miserabilidade, este museu agrada todo mundo: o gringo e o marajoara; o PhD e o caboclo.

São eles que falam:

- Ça nést pas un musée, cést un grand voyage.

- Interessante e cheio de criatividade. As mais sofisticadas partes do mundo podem aprender aqui não somente sobre a história, mas também como apresentar e tornar interessante o nosso passado.




- Dieses Museum ist wirklich das originellste, das wir já gesehen haben.

- Eu não visitei o museu, vivi o Museu!

- Great Museum. Great Job! Thanks - I'll be back soon!

- Un gruppo di italiani di Venezia e Modena ha visitato questo museo, ne siamo rimasti entusiasti.

- C'est la banque de données la plus mecanique e vaut tous les ordinateurs.

- Eu sinceramente gostei muitíssimo do Museu do Marajó, porque eu sou marajoara, mas simplesmente não conhecia nada do Marajó.

- Todos os museus deveriam ser tan fascinantes y divertidos como el Museo del Marajó. Me lleno de alegria. Es um lugar onde um puede volver y volver y volver.

- Nunca imaginei algo com tamanho enriquecimento intelectual.

- Nunca tinha visto um museu, mas este é o melhor de todos: é mesmo pai d’égua!



O que é aquela certa coisa diferente, característica do nosso Museu que, apesar da deficiência de recursos materiais e humanos, desperta a simpatia e a aceitação dos visitantes?

É o nosso interesse pelo Homem. Em cada objeto sempre domina a preocupação de apresentar não uma peça material, morta ou, desculpem!, uma peça de museu - mas uma emanação do homem marajoara.

O Museu procura, pesquisa este Homem marajoara (sem perder de vista o homem global) e o descobre em cada peça, através da sua arte, dos seus costumes, da sua história.

terça-feira, 1 de março de 2011

SALVE 8 DE MARÇO

Marcha das Margaridas dos sertões a Brasília

Para Bia, em seu aniversário
no Dia da Mulher.

Definitivamente, este ano não será igual ao que passou. Além de janeiro ter começado cheio de esperanças com a posse da primeira brasileira na Presidência da República, quando agosto chegar nosso Brasil brasileiro irá ver passar a terceira marcha do movimento das trabalhadoras do campo e da floresta. Saudades de Lula ainda vão restar, mas desta vez a Marcha das Margaridas vai encontrar a companheira Dilma lá, mulher de luta que venceu a Ditadura com as armas pacíficas da democracia popular. A “mulherada” da classe trabalhadora rural vai falar com a Presidenta de mulher para mulher; ouvir e dizer onde o sapato aperta desde os rincões mais distantes da pátria amada.

Nunca dantes na história deste país varonil o bom futuro esteve tão prestes a acontecer, para todos e todas, assim num pacto matriarcal cheio de graça e malícia feminina. Ainda mais que noutras plagas do mundo caótico inventado por nós homens, a revolução jasmim anda veloz como vento do deserto a derrubar regimes caducos e ditadores com prazo vencido. A primeira Marcha das Margaridas aconteceu no ano 2000 e se refaz ao mês de agosto a cada três anos. Homenagem singela à memória da líder sindical Margarida Maria Alves, no dito mês em que ela foi assassinada pelo latifúndio medonho, há 26 anos. Até hoje o crime está impune.

Em 1983, a mando de poderosos, Margarida tombou sobre a terra que queria ver irmãmente dividida. Logo, de todas as partes muitas Margaridas se levantaram do chão e, em 2007, a marcha mobilizou 50 mil Margaridas até Brasília. A reivindicação versou sobre combate à violência, segurança alimentar, terra, água, agroecologia, trabalho, renda e economia solidária. Este ano elas já serão algo como 100 mil. O movimento das mulheres é uma das principais mobilizações do sindicalismo rural, a Marcha será realizada nos dias 16 e 17 de agosto de 2011, na Esplanada dos Ministérios. Neste ano o lema será “2011 razões para marchar por desenvolvimento sustentável com justiça, autonomia, igualdade e liberdade”, quando a Contag espera reunir as mulheres trabalhadoras rurais em Brasília para negociar políticas públicas para o povo do campo, da floresta e do litoral.




Marcello Casal Jr.
Agência Brasil
(Foto: Marcello Casal Jr./ABr)
  
A primavera do florão da América do Sol e da Lua! Inclusão social, distribuição de renda, direitos humanos com carinho é coisa boa que a “patroa” da gente gosta: haja fotos ao lado de Dilma Rousseff, emoção e gravação de vídeos no celular para mandar via internet ou levar de volta à comunidade a fim de compartilhar recordação das trabalhadoras do campo, floresta e litoral no Planalto com o sucesso sem par da primeira Presidenta do maior país amazônico do mundo. Sim, o nosso Brasil velho de guerra na luta pela Terra sem Mal: maior mais amazônico do planeta! Já não se falará mais da ocupação da Amazônia brasileira, mas da conquista patriótica do Brasil das amazonas, país das mulheres guerreiras: não é pouca coisa não tal revolução verde e amarela, digam lá o que disserem os entreguistas, os indolentes, os indiferentes, os agiotas do câmbio, amigos da onça e inimigos da gente brasileira.

Na certa, só uma escassa minoria acadêmica está consciente de que o encontro das Margaridas em Brasília remete a nação à legenda do fabuloso El Dorado no “rio das amazonas”; símbolo de nosso tesouro natural cobiçado pelo mundo inteiro. Terra da promissão aonde vão bater migrações carentes, “celeiro do mundo”. Tal qual como na antiguidade caravanas famintas buscavam os solos férteis do vale do Nilo com sua dádiva na civilização do Egito antigo. Enquanto, no Planalto brasileiro, as Águas Emendadas se encaminham pelas veias do gigante Brasil em direção ao São Francisco, ao Prata e ao Amazonas levando às planícies o precioso líquido até onde há sede de integração continental e portos a alimentar para o vasto mundo.

Na volta da Marcha aos pagos as Margaridas irão rememorar com os companheiros, filhos e mais parentes o significado desta jornada histórica, na verdade começada nos primórdios da Revolução de 1930, com a Coluna Prestes a tocar alvorada e marchar pelo sertão adentro. Os brutais assassinatos de Chico Mendes e Margarida Alves se confundem como estuário do rio de sangue da história do bravo Povo Brasileiro, de Norte a Sul. O rico Norte das águas conquistado pelo braço forte do Nordeste, estão ambos redimidos pelo sangue valente de Chico Mendes e Margarida, esta mestra sertaneja que foi morta à porta de sua casa na cidade de Alagoa Grande, Paraíba, em 1983, a mando do latifúndio. Aquele pelo mesmo motivo assassinado quando queria o seringal em pé e os seringueiros senhores de seus direitos e da sua liberdade. Ela era presidenta do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Alagoa Grande e fundadora do Centro de Educação e Cultura do Trabalhador Rural. Seu “crime”, pelo qual foi executada, foi ensinar e incentivar trabalhadores a buscar na Justiça garantia de direitos prometidos pelas leis do Trabalho.

Tornou-se Margarida símbolo de coragem, resistência e luta. Um exemplo de vida para cada mulher trabalhadora para resistir, lutar contra a discriminação e violência no campo, qualificar, mobilizar e participar das lutas por igualdade de gênero, por justiça e paz no campo. Agora é a vez e a hora das mulheres trabalhadoras, artífices duma civilização de povos das águas forjados na construção de um novo mundo em crescente escassez do precioso líquido.

 Red rose.jpg


Alguns dizem que bastaria abolir o capitalismo da face da Terra, como uma nova abolição da escravatura ou fórmula mágica. Mas, eu tenho cá as minhas dúvidas de que não basta isto, aliás, não é nada fácil. Com exemplo do trabalho escravo que ainda existe e não só no campo. Por isto, faz parte de minha utopia acreditar que além do socialismo mais avançado o futuro do homem dependente do triunfo presente da mulher. Pelo simples fato de o ser social do amanhã depende hoje de sua mãe: como esta, para o certo e o errado, dependeu da mãe dela desde a vida intra uterina. Portanto, a menina hoje iludida e enganada pela propaganda do consumo alienado e a manipulação da folia irresponsável; não poderá jamais ter filhos dignos e saudáveis, enquanto ela continua escrava de diferentes modos de exploração do homem pelo lobo do homem.

É isto que me faz pensar a Marcha das Margaridas ao encontro da radiosa Brasília, que a magnífica marcha de mulheres trabalhadoras do campo seja alvorada do verdadeiro casamento da Biodiversidade com a Diversidade Cultural. Do enlace entre Natureza e Cultura haja bons filhos, dentre os quais o empoderamento dos recursos naturais e culturais pelas populações extrativistas tradicionais com sua conseqüente realização social e econômica sob benções da Ciência e Tecnologia aplicadas ao justo e perfeito desenvolvimento sustentável. Que seja um enorme sucesso a mobilização pela Contag, com o apoio das centrais sindicais (CUT e CTB), e outros parceiros como o Movimento de Mulheres Trabalhadoras Rurais do Nordeste (MTR-NE), Movimento Interestadual das Quebradeiras de Coco Babaçu (MIQCB), Movimento de Mulheres da Amazônia (MMA), Marcha Mundial das Mulheres (MMM), Rede de Mulheres Rurais da América Latina e do Caribe (Redelac) e Coordenação das Organizações dos Produtores Familiares do Mercosul (Cooprofam). E, com este apoio sempre em mente, a Presidenta Dilma avance no cumprimento de promessas de campanha e vá mais além pelo bem de todos e todas brasileiras do presente e futuras gerações.