quarta-feira, 2 de março de 2011

OITO ANOS DEPOIS A SEGUNDA MORTE DE GIOVANNI GALLO

No próximo dia 10, irá completar-se oito anos do falecimento de Giovanni Gallo (Turim / Itália, 27/04/1927 - Belém do Pará / Brasil, 10/03/2003). Quando se lê sua autobiografia "O homem que implodiu", sabendo da história do Museu do Marajó, fica-se com impressão do drama "Seis personagens à procura de autor", de seu compatriota Luigi Pirandello (1867-1936). No caso, o próprio Gallo representa as personagens e o diretor de ensaio... 

A obra de Pirandello, escrita em 1921, descreve um ensaio de teatro invadido por seis personagens rejeitadas por seu criador. Elas tentam convencer o diretor a encenar suas vidas e ele protesta por seu ensaio ser interrompido daquela maneira. Porém, a seguir o diretor começa a se interessar pelo inusitado da cena que se apresenta face a seus olhos. As personagens, então, demostram que mereciam a chance e acabam por o convencer a tornar-se o autor do drama. 

As discussões entre personagens e diretor compõem uma análise filosófica do teatro. A peça divide-se entre narrativa e aspectos paralelos que ganham a cena. A discussão entre autor e personagens constrói também um forma de fazer teatro. As personagens tentam mostrar que suas vidas são reais em relação ao palco. E o diretor, defendendo a relatividade do palco, toma como parâmetro a vida "real"... A peça entra, todavia, noutro aspecto: torna-se estudo metalinguístico do teatro, a arte discutindo a si mesma. A forma de representar proposta pelo diretor é rejeitada pelas personagens. Elas não querem ser representadas por atores: afinal de contas, como alguém pode representar melhor a vida de um personagem do que ele mesmo?

Logo, na primeira morte de Giovanni Gallo, ele se fez personagem principal num drama antigo. Para encarnar o papel requerido, termina por "implodir" após numa decisão solitária enquanto a vila, o rio e os campos dormem a mítica "primeira noite do mundo", desistir de um suicídio anunciado. Então, vai até o fim da deriva até o último suspiro num absurdo leito de hospital (para quem desejava morrer feito um caboco de beira de rio...), mas ele não traiu o compromisso de consciência assumido consigo mesmo diante da solidão cósmica daquele decandente mundinho de pescadores lacustres e vaqueiros excluídos pela história social.  

De fato, foi uma tão completa implosão do homem que se fez sepultar no Arboreto do museu numa réplica de teso (sítio arqueológico)... De tal sorte, que o fantasma do padre renegado pela hierarquia diocesana encarnou no mito inventado pela própria gente do lugar. Como antes o folclore popular era matéria prima do inventor do dito museu. É de dialética e antropofagia cultural que nós estamos tratando. Pois não?


Oito anos depois, voltou-se à estaca zero: o drama pirandeliano perdura. Mas, agora parece que se vai completar a implosão final do personagem italiano um dia, subitamente, aparecido nos campos de Cachoeira sob chuva e sol... Mas, talvez para o rito ser consumado carece a morte total da antiga Cultura Marajoara com o lago agonizante, o problemático Museu do Marajó, o chalé de Dalcídio Jurandir e toda mais história da velha vila da Cachoeira sumir no assoreamento do rio Arari.

VISITE / SEJA MAIS UM AMIGO DO MUSEU DO MARAJÓ
S.O.S CULTURA MARAJOARA


Exposição Permanente

(texto de Giovanni Gallo com registro do livro de visitas)

A nossa Exposição Permanente certamente é pobre no sentido monetário: o prédio é periclitante, não há goteiras e sim cachoeiras,... Faltam vitrines, falta espaço para novas vitrines, faltam recursos, falta pessoal, sobretudo a sobrevivência é incerta.

Apesar da nossa miserabilidade, este museu agrada todo mundo: o gringo e o marajoara; o PhD e o caboclo.

São eles que falam:

- Ça nést pas un musée, cést un grand voyage.

- Interessante e cheio de criatividade. As mais sofisticadas partes do mundo podem aprender aqui não somente sobre a história, mas também como apresentar e tornar interessante o nosso passado.




- Dieses Museum ist wirklich das originellste, das wir já gesehen haben.

- Eu não visitei o museu, vivi o Museu!

- Great Museum. Great Job! Thanks - I'll be back soon!

- Un gruppo di italiani di Venezia e Modena ha visitato questo museo, ne siamo rimasti entusiasti.

- C'est la banque de données la plus mecanique e vaut tous les ordinateurs.

- Eu sinceramente gostei muitíssimo do Museu do Marajó, porque eu sou marajoara, mas simplesmente não conhecia nada do Marajó.

- Todos os museus deveriam ser tan fascinantes y divertidos como el Museo del Marajó. Me lleno de alegria. Es um lugar onde um puede volver y volver y volver.

- Nunca imaginei algo com tamanho enriquecimento intelectual.

- Nunca tinha visto um museu, mas este é o melhor de todos: é mesmo pai d’égua!



O que é aquela certa coisa diferente, característica do nosso Museu que, apesar da deficiência de recursos materiais e humanos, desperta a simpatia e a aceitação dos visitantes?

É o nosso interesse pelo Homem. Em cada objeto sempre domina a preocupação de apresentar não uma peça material, morta ou, desculpem!, uma peça de museu - mas uma emanação do homem marajoara.

O Museu procura, pesquisa este Homem marajoara (sem perder de vista o homem global) e o descobre em cada peça, através da sua arte, dos seus costumes, da sua história.

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