quarta-feira, 27 de julho de 2016

Que estamos fazendo com nossa cidade?



Cidades e campos mais próximos em busca 
da humanidade que a sede de lucros separou.


"Se as cidades foram destruídas e os campos forem conservados, as cidades ressurgirão, mas se queimarem os campos e conservarem as cidades, estas não sobrevirão." -- Benjamin Franklin.


“A alimentação saudável não pode ser direito de uma única classe social. As pessoas estão adoecendo por consumirem produtos de prateleiras, por isso o acesso ao verdadeiro alimento deve ser garantido para todos e todas. O alerta dado pela pesquisadora da área alimentar, Patrícia Pinto, no painel ‘O alimento como direito, agrotóxico e saúde humana."

Mais que nunca, a desumanização de campos e cidades no mundo já foi longe demais. No Brasil, a democracia está em perigo depois de uma reconquista extremamente sacrificada. Não basta votar, é preciso que o povo seja de fato fonte do poder democrático, dia a dia a participar da construção d‪#‎CidadeMaisHumana‬, uma cidade segura e protetora de sua gente habitando o centro e os subúrbios; e todo o município sustenável com seus distritos, vilas, povoados, sítios, praias e campos. 

A diversidade cultural, patrimônio histórico e a biodiversidade integrados numa nova economia fundada nos Diretos Humanos universais para todos e todas numa cidade aberta a nacionais e estrangeiros com igual consideração. Para tBanto, instrumentos de gestão participativa e cartografia socioambiental comunitária levando em conta a AGENDA 2030, de acordo com os compromissos internacionais assumidos perante a Organização das Nações Unidas (ONU).



BELÉM DO PARÁ HÁ QUE SE LIBERTAR DA COLONIALIDADE PARIS N'AMÉRICA E ASSUMIR SUA AMAZONIDADE DE METRÓPOLE DAS ÁGUAS.



No entanto, vem de París uma outra referência, não mais inspirada no século das Luzes e na vã ambição imperial burguesa, mas para invenção do futuro socioambiental. Até 2020 Paris deverá ter 25% de sua superfície recoberta de vegetação. Um espetacular programa ecológico-econômico de seis metas envolvendo novas edificações dotadas de energia renovável, reaproveitamento da água e cobertura de hortas e jardins, além da criação de 30 hectares de espaços públicos verdes.
Tecnicamente, o potencial ecológico-econômico-cultural da capital do Estado do Pará é igual ou maior que da metrópole francesa, pois já existem áreas verdes maiores. Todavia, em matéria de educação, cultura e economia nos encontramos anos-luz atrasados em relação a qualquer capital europeia. A demolição do Grande Hotel para dar lugar a um espigão feioso é o atestado completo da alienação urbana belenense, apenas ultrapassada pelo aterro do Igarapé do Piry, no século XVIII.
Não é crime investir para ganhar dinheiro e gerar empregos, antes pelo contrário. O que se lastima é que os donos do poder troquem a primogenitura amazônica por um prato de lentilhas modernoso. O Ver O Peso é emblemático: confunde-se populismo da pior espécie com tradição e leseira por modernidade. O resultado é perda de dinheiro público e de tempo; o pixé da doca e da pedra só serve para atrair urubus. Quando o novo terminal pesqueiro jogado fora, o Mercado do Peixe e o Bolonha são uma importante infra-estrutura capaz de oferecer novas oportunidades de emprego e melhoria de salário e trabalho aos atuais talhadores, balanceiros, açougueiros, carregadores sem perspectiva de vida.
De repente, a agroecologia familiar poderia ter na feira do Ver O Peso e nas mais feiras de bairro o grande mercado que está esperando para prosperar. O peixe frito com açaí no Mercado do Peixe reformado, ao lago do churrasco de búfalo no Mercado Bolonha seriam grandes atrativos para o turismo regional gastronômico.
Que diriam as autoridades parisienses, se consultadas a este respeito? Claro, nessa hora o nosso patriotismo falaria mais alto. Embora a rebatida pretensão nossa de atrair turistas estrangeiros e nacionais. O avanço na execução da "ruralização" de Paris está sendo complementado pelas autoridades francesas através de outras iniciativas sobre o meio ambiente em todos os níveis, sendo um deles a cidadania. Um exemplo é o programa “Du vert prês de chez moi” (verde perto de mim) convidando os habitantes a se tornar jardineiros de seus bairros; oferecendo espaços próximos donde vivem. As portas de suas casas ou as ruas servem para plantar comida, arbustos e flores que façam parte do processo de tornar mais útil e agradável o entorno urbano. Agora vamos falar sério, se Paris pode se preocupar com a saúde alimentar de seus habitantes, por que as cidades brasileiras devem ser privadas de políticas públicas como essa e ficar a mercê de comidas envenenadas de prateleira?
A democracia socioambiental é realçada pela prefeitura ao convidar os cidadãos a identificar lugares perto de suas casas para plantar e guardar equipamentos, levantar cercas e muros, aproveitando espaços abandonados. Após escolher pontos de plantio, os moradores solicitam autorização que lhes permite plantar nos espaços públicos de seus bairros. A iniciativa lhes oferece consultoria e assistência técnica sobre espécies adaptadas e modos de produção, distribuição e consumo.
Os pontos agro-urbanos contribuem ao surgimento de um novo urbanismo humanizado, em que a natureza na cidade não é confinada a parques, jardins e bosques regulamentados, mas ela se encontra distribuída  por todo espaço público. Não precisa dizer que muito quintal e terreno baldio ficaria melhor cuidado, sem viveiro de mosquito da dengue e do zyka vírus. E mesmo a segurança pública poderia ser integrada a uma tamanha mobilização da cidadania.

sexta-feira, 15 de julho de 2016

RELENDO MARAJÓ DE DALCÍDIO JURANDIR / 3



Neuton Miranda - um marajoara honoris causa que está fazendo falta à Criaturada grande de Dalcídio Jurandir, na lembrança de uma despedida inesperada.





  As escamas dos meus olhos [3]

José Marajó Varela

3 – Sem saber me estava despedindo do camarada

Por causa da bola de leite de mangaba, que a tia Armentina me deu de presente, eu fugia da tabuada e do catecismo que nem o diabo da cruz, e ia jogar no meio da rua. Além disso, fui ao sítio do meu avô com a tia, Osmarina e a Lila a bordo de canoa montaria armada de panacarica (o milagre foi mamãe me deixar ir). Papai saiu para contratar a viagem com seu Papa Osso e mais dois remadores ajudantes. A maré deu à noite e desde a montaria largar do trapiche da Casa da Beira a escuridão tomou conta do rio Marajó-Açu.
Nas beiradas o carvão da noite desenhava monstros e castelos a meus olhos espantados onde, de dia, imperava a varja com mangues, açaizal, miritis, jupatis e aningal... Ciganas cantavam, paresque, no ninho da primeira noite do mundo acompanhando o voo das corujas... À saída da lua, em vez de chuvinha passageira de costume, uma chuva torrencial desabou, verdadeiro toró, castigando a viagem ao Serrame na noite fechada. 

Só estiou na virada da maré. Seu Papa Osso era calado e os dois cabocos ajudantes remavam e remavam sem abrir a boca. Certa hora, o piloto encostou a canoa na beira para tomar fôlego e enxugar o corpo: o dia vinha raiando devagar, a maré virou no Canal. Euzinho acordei do colo quente da tia e chamei por José do Ourém pra vir ajudar os três remadores. José nem seu Souza... Dormia, paresque, o sono da pedra com todos mais moradores do rio, encarnados ou encantados. O pequeno missunga – que eu queria ser àquela hora - tremia de frio ensopado de chuva e os escravos que antigamente abriram o Canal a braço estavam todos encantados no fundo do rio ou libertos nas estórias do lugar...

Quando o dia clareou completamente, nós íamos abaixo do sítio Terras Caídas com a força da vazante levando a montaria e dando folga aos remos, logo eu reconheci as escarpadas ribanceiras do sítio Meia Noite à direita e do Serrame pela margem esquerda: os barrancos de terra nunca se acabaram de cair com a erosão ou a Cobragrande. A ribanceira era, paresque, a marca do antigo lombo de terra que existia ali e se escavou a braços escravos ao tempo do Barão de Marajó, no governo da província do Pará, para abrir o Canal e diminuir distância entre as vilas de Cachoeira e Ponta de Pedras... Antigamente, uma viagem dessas saindo de Ponta de Pedras era obrigada a dar uma volta enorme subindo o rio da Fortaleza até o igarapé do Arapiranga varando pelos campos para pegar as cabeceiras do Moirim e sair ao rio Arari rumo à vila da Cachoeira (na verdade, o “outro rio” – como os goiabas, pontapedrenses chamamos ao Arari – nunca teve nenhuma cachoeira: era um pequeno salto que se mostrava no verão e deu nome à freguesia de Nossa Senhora da Conceição da cachoeira do rio Arari, em 1747, depois vila da Cachoeira). Hoje em dia, com a erosão das margens e o assoreamento do leito, seja inverno ou verão, não aparece mais a tal “cachoeira” do rio Arari.

Não tenho ido ao Marajó já faz um par de tempo. Se não me falha a memória, a última vez que lá estive foi em Cachoeira do Arari a acompanhar meu camarada Neuton Miranda, em 2010, numa entrega de títulos de autorização de uso de terras do patrimônio da União, do Projeto Nossa Várzea de regularização fundiária. Aposto que se Dalcídio vivo fosse lá no Rio, a sua fiel correspondente Maria de Belém Menezes adoraria lhe colocar a par dos acontecimentos; dizendo ela que, enfim, tinha chegado a vez e a hora da Criaturada grande. Tal qual ela fez quando das reportagens do padre Giovanni Gallo (do correio Belém-Rio saiu o livro “Marajó, a ditadura da água”, de Giovanni Gallo, como todo mundo sabe: “Lendo-o fico com as minhas raízes marajoaras estremecendo” ... “Que o padre tire uma coleção de reportagens e faça um livro que será retrato da terra e da gente de Jenipapo.” (Dalcídio Jurandir / Correspondência com Maria de Belém Menezes).

Na juventude fui discreto ativista do "partidão" (PCB) entrei no PCdoB por causa da Criaturada grande de Dalcídio, quando se iniciou no Marajó a regularização de terras de marinha. Neuton Miranda Sobrinho além de me convidar a ser voluntário da força-tarefa do Nossa Várzea no Marajó, sabendo que o gesto fazia homenagem à família do “índio sutil”, mais de uma vez levou-me a participar de reuniões públicas para entrega de títulos de autorização de uso de terras de marinha pela população ribeirinha. Um pequeno grande passo para resgate de uma dívida histórica enorme...

Para se compreender o antigo conflito entre a pesca tradicional e a pecuária (inclusive a origem do roubo de gado a partir do abigeato) seria necessário ler a obra do padre Gallo e saber como foi que ele se meteu na briga marajoara, que nem cego em meio ao tiroteio e acabou por “implodir” (ler “O homem que implodiu”, pessoas próximas do autor dizem que ele cogitou dar título de ‘o homem que virou bosta’ a sua autobiografia). Melhor, descobrir o romance socioambiental dalcidiano (digo eu) a fim de revelar o Marajó profundo. Onde – na terceira margem do rio – espectros de índios, negros e brancos quase pretos de tão pobres; se confundem aos diversos dramas dos vivos. Por exemplo, quando o personagem emblemático de feitores de latifúndio (mais realistas do que o rei), Manuel Raimundo suposto gerente das fazendas do Coronel Coutinho (símbolo do morgadio marajoara herdeiro da Capitania hereditária da Ilha Grande de Joanes (1665-1757) e do Diretório dos Índios (1757-1798) com os Contemplados) fecha o Abaí para reservar água unicamente ao gado e proíbe a pesca; o conflito social estala e agita o protesto do cantador de chula Ramiro traduzindo o drama miúdo, quase desprezível, da criaturada.

Naquele dia nem eu nem Neuton sabíamos que era a despedida e o fim da inédita parceria na última viagem a Cachoeira do Arari, inclusive visita ao Museu do Marajó, donde nós dois saímos com o livrão da arqueóloga Denise Shaan, “Cultura Marajoara”: um circunstanciado libelo contra a leniência federal, estadual, municipal e da sociedade em geral a respeito (ou antes, falta do dito) ao mais antigo e representativo patrimônio histórico e artístico nacional. Neuton me deu a honra de entregar pessoalmente o documento a um antigo morador do Caracará: nunca fui ao Caracará, porém esse lugar mora em minhas recordações de infância por via de um pitoresco relato de juventude que meu pai fazia sobre a história duma acirrada disputa sobre cerca entre terras de criadores de gado vizinhos (história digna de romance de Dalcídio Jurandir: no Marajó, “criador” é quem pratica agropecuária familiar e mora no lugar; fazendeiro dono de muitas cabeças e muitos hectares de terra geralmente de herança e reside na cidade: que nem Coronel Coutinho, personagem do romance “Marajó”, faz parte efetiva do poder local e da oligarquia da província).
Os ditos criadores do Caracará pelejavam na comarca. 

O juiz despachara uma diligência “in loco” e talvez por amizade a meu avô capitão Alfredo, rábula considerado; nomeou papai como um dos “desempatadores” ad hoc... A diligência se transformou em excursão, na verdade uma pândega a custa dos litigantes... Ao amanhecer zarpou do Trapiche municipal de Ponta de Pedras a lancha do município “Siqueira Campos”, suponho, lotada de autoridades da justiça, o Meritíssimo a bordo em pessoa. A “Siqueira” venceu o Marajó-Açu, alcançou o igarapé Puxador no tempo previsto de viragem da maré, varou o Canal para o rio Curral Panema, passou o Furo das Laranjeiras contornando a ilha de Santana; e chegou coisa de meia hora da tarde à Boca do Arari.

Ainda faltavam muitos estirões até a casa da fazenda. A lancha subiu o rio Caracará aonde a água deu calado... Para continuar, a comissão ad hoc teve que deixar a Siqueira esperando o regresso da diligência, dali adiante só havia um rego d’água descendo dos campos de Cachoeira. Então, todos embarcaram num possante batelão que avançava a peso de varejão empurrado por dois pretos parrudos, daquela qualidade de preto azul de tão preto... Meia légua depois era o fim do caminho para varejão. Masporém, ainda não terminava a viagem de desempate da cerca. Daí em frente, dois vaqueiros com feição de índio, atrelaram o dito batelão ao rabicho de dois búfalos erados (quer dizer animal de era, adulto e bem crescido). 

Esta foi a primeira vez, que me lembro, ter escuta a palavra “búfalo”; pela descrição que meu pai fazia o bichão me pareceu desconforme como elefante que a gente via em foto. Os búfalos de verdade arrastavam o batelão a caminho da fazenda. Terminou o lamaçal, então os búfalos e seus vaqueiros cara de índio destribalizado ficaram pra trás...
Misericórdia! O doutor Juiz, rosado já que nem camarão frito; mal conseguia andar com as suas reúnas sobre as terroadas escaldantes. O resto da delegação da comarca a bom se abanar com grandes chapéus (sombreiros) de carnaúba. Onde, finalmente, a fazenda e a cerca da questão? Longe, muito longe ainda... 

Fome e sede assediavam a diligência, o sol já cambava pra riba do Araquiçaua na outra margem do Arari. Foi quando, no tremelique da canícula à distância, malmente, se começou avistar uma nuvem de poeira rasteira, um borrão que paresque se aproximava a galope: era a cavalhada... O secretário Ophir animou-se, queria logo montar o melhor animal, o mais fogoso depois da escolha pessoal do doutor Juiz, naturalmente... Um vaqueiro de confiança do dono da fazenda foi chegando e perguntou quem era o filho do capitão Alfredo. Disseram, Rodolpho... O homem vinha com recomendação para cuidar do rapaz, que não era acostumado naquelas bandas. Por acaso, o fazendeiro conhecia o Capitão Alfredo? Este um recomendou o filho? Rodolpho ficou encafifado...  Se calhar, seu pai e o fazendeiro do Caracará eram conhecidos ao tempo da intendência do coronel Bento Lobato, de quem o capitão Alfredo Pereira foi secretário municipal em Cachoeira... Ou, talvez quando a comarca passou para Ponta de Pedras o dito cujo foi se aconselhar com o Solicitador sobre a questão da cerca?

O vaqueiro nomeado anjo da guarda do filho do Solicitador (advogado aprovisionado, o dito Capitão meu avô) exagerava em seus cuidados ao moço desempatador ad hoc...  Precisava, então, um cavalo velho da raça do Rocinante, paresque? A cavalhada chispou. Ophir à frente de todos porfiava. A custo, Rodolpho conseguiu montar, mas o animal teimava em ficar parado com seu triste cavaleiro feito uma estátua equestre sob o sol lavrado... O vaqueiro cuidador de cavaleiro de primeira cavalgada, disse: “Sô menino, dei-lhe logo uma rimpada na anca e bata com o calcanhar no vazio, se não a gente não sair daqui hoje”...

Papai tinha medo que o cavalo se espantasse e lhe derrubasse da sela. O homem falou, “não tenha medo, o cavalo tá pedindo que o mundo não se acabe”... Aí o vaqueiro encostou sua montaria à ilharga do rocinante e pegando a rédea foi puxando o bicho para frente: deu certo... Mas havia um pequeno córrego no caminho e cavalo estancou o trote e baixou a cabeça, a modo medir o salto... Na hora, o cavaleiro bisonho viu-se arremessar violentamente ao chão para frente. Felizmente, evitado pelo salto quando, desta vez, quase caiu para trás... 

Passados dois sustos no mesmo instante, já o desempatador começava a se ajeitar atiçado pela fome. “Evém a chuva!”, gritou o vaqueiro. Rodolpho não respondeu, a ventania lhe tirou da cabeça o chapelão de palha que ficou preso pela tira no pescoço. Com a chuva o cavalo se espertou seguindo a égua montada pelo vaqueiro. Claro que os dois foram os últimos a chegar na fazenda, já ao fim da tarde. A diligência, o Juiz à frente; estava uniformizada com camisas e calções do time de futebol do Caracará visto que as roupas que levavam chegaram ensopadas. À noite vieram muitos vizinhos e vizinhas para ladainha e festa, era muita gente montada a cavalo e bois de sela. Dançaram a noite inteira e logo de manhã começaram a voltar a Ponta de Pedras. Sobre o desempate da cerca, propriamente dito, não se falou mais. 

segunda-feira, 11 de julho de 2016

RELENDO MARAJÓ DE DALCÍDIO JURANDIR / 2




4a. edição - Belém: Editora Universitária / UFPA; Rio de Janeiro:
Casa Rui Barbosa, 2008.


As escamas dos meus olhos [2]

José Marajó Varela

2 – Missunga, 83 anos: Deus e Darwin nas ilhas do Marajó.

A volta ao Marajó em dez dias, nas páginas do romance homônimo de Dalcídio Jurandir: fui assim devagar seguindo os dramas miúdos da criaturada e as façanhas malinas dos brancos. Segui do rio Paricatuba com a canoinha da releitura, passei ao Marajó-Açu numa remada ligeira, pisei terra na vila de Ponta de Pedras, pela estrada fui a Mangabeira em companhia de Orminda, ao Jaguarajó com Ciloca, o leproso... Morei numa barraquinha de seringueiro no rio da Fábrica assistindo a depressão de Missunga roído de remorsos pela morte de Guita e “vi” os delírios de Alaíde atacada pela febre de malária; na vila da Cachoeira subi a torre da igreja pra espiar a marca da sina de Orminda possuída pela Pomba Gira, deitada em riba do assoalho com o diabo em figura de sacristão... Montei o Cavalo Marinho encantado no Alto Arari a fim de escutar de novo as chulas de Ramiro; chorei a morte do vaqueiro Gaçaba comido pelas piranhas. Visitei o pajé Mestre Gesuíno no Camará, em Salvaterra me lembrei do “índio sutil” a escrever dois romances de uma vez; ... Soure, Cajuúna, Pesqueiro, Anajás, Muaná, Bagre...  

A geografia humana de Dalcídio, na paisagem cultural desigual, emendando campos e florestas, história de verdade e jogo de ficção, encantaria e realidade. Complexidades da terra e do céu. Meandros de rios, lagos, furos e igarapés que evoluem em ressonância com os meandros dos sonhos e imaginações da terra e da gente (São Pedro Safadinho e Darwin em ardida discussão acerca da teoria da Origem das Espécies. Deus e o Diabo a disputar o terreno da malhada em luta marajoara, que nem dois touros búfalos agigantados no meio da chuva grossa entre raios e trovões). Ofende?

Em 1756, o capitão Florentino da Silveira Frade saiu do Igarapé Puca (rio da Fábrica) abaixo e retornou ao mesmo ponto de partida, depois de 22 dias de viagem redonda, a toda pressa, encostando na beira apenas para dormir, rodeando a ilha grande – esta uma maior que os Países Baixos – ia ele em canoa ligeira esquipada de 4 remos por banda... Marajó é um mundo! Mundão de rezas a Deus e aos santos, invocação aos espíritos telúricos chamados caruanas: prova viva da seleção das espécies... Pouca gente sabe que o naturalista inglês Alfred Russel Wallace, co-autor com Charles Darwin da teoria da Evolução,  fez curiosas observações na ilha Mexiana e na Contra-Costa da ilha do Marajó, na segunda metade do século XIX: saiu ele dizendo que o caboco marajoara é um tremendo despistador e que a cantoria dos pretos, que não agradou a seus ouvidos britânicos, é na verdade a memorização repetitiva de uma gesta do quotidiano surdida da tradição oral:

Siriá, meu bem siriá.
Estava dormindo, vieram me acordar.
Siriá, meu bem siriá.
Estava dormindo, vieram me acordar.
Se eu soubesse, não vinha do mato.
Pra tirar sarará do buraco.
Se eu soubesse, não vinha do mato.
Pra tirar sarará do buraco
”....

Antão, ao contrário do que disse o preclaro Euclides da Cunha, o homem não é intruso no cenário amazônico (vírgula, o homem amazônico propriamente dito... Aquela subespécie que, risonhamente, o naturalista Alexandre Rodrigues Ferreira classificou de Homo sapiens var. Tapuya, na “Viagem Philosophica”)... No caso, a verdade verdadeira é que o intruso em questão foi o homem branco europeu querendo o bruto conquistador impor os seus costumes e as suas leis, na busca louca de tesouro e fama por força das armas e os barões assinalados... Já que o preto trazido preso na corrente também ele não veio convidado dos índios, masporém mais depressa pela necessidade o negro se fez irmão dos índios, os antigos senhores deste estúrdio chão.

Dalcídio conta na eternidade imaterial da letra do romance, a efemeridade da história real e imaginária sempre em fluxo no ciclo das águas deste mundo anfíbio do homem marajoara, largado aí ao deus dará... Mundo esfatiado, é bem verdade, ilhas grandes e pequenas, de dentro e de fora; noves fora a terra firme (microrregião continental de Portel, onde o homem branco pela primeira vez pisou e meteu os pés pelas mãos... Feitoria holandesa de Mariocai (Gurupá), inaugurado o escambo de miçangas por gados do rio, trazendo dependência do comércio de manufaturas, tráfico de escravos africanos e drogas do sertão, vício da maldita da cachaça ("mulher branca"), gripe, sarampo, alastrim, trabalho insano para os índios... Porção descosturada de diversos mundinhos federais, estaduais, municipais igualmente panemas...  E a misteriosa terra encharcado dos mondongos, o fundo do prato: a Jebre falada e imaginada, mãe da febre, refúgio antigo de índios bravios, desertores e escravos fugidos que existiam pelos centros da ilha e – por necessidade e acaso, diria Darwin – se tornaram contumazes ladrões de gado e discípulos fiéis de pajés de sete fôlegos. Cada cantão, tem santo de guarda, mãe do rio; dono branco, coronéis de barranco e patrão de fazendas e barracões, vilas e povoados que são que nem retiros e dependências de casa-grande...  

A Criaturada grande tem lá cinco mil anos de parentesco e evolução local com a mãe natureza no golfão Marajoara. Esta brava gente caboca apesar de deserdada de direitos humanos pela imperial doutrina cristã ocidental do jurisconsulto Gines de Sepúlveda é, sim, legítima herdeira da antiga Cultura Marajoara. Que hoje, teimosamente e por conta própria, o MUSEU DO MARAJÓ representa desde a ousadia desvairada do padre insubmisso Giovanni Gallo, em 1972, à margem do grande lago Arari onde a cerâmica marajoara atingiu seu apogeu no teso do Pacoval, cerca de 1300.

Há 83 anos, o tio preparava do barro dos começos do mundo aquela criatura danada pela Fatalidade das sesmarias dos Barões de Joanes, ladrões das terras indígenas dos Nheengaíbas (aliás, Nuaruaques): Missunga (senhorzinho, em língua banto), aliás doutor Manuel Coutinho (o esboço do romance com titulo provisório de “Missunga”, ano de 1933). Marinheiro de primeira viagem, há sessenta anos, eu devorei rudemente as páginas de "Marinatambalo" (1939) “Marajó” (1947) de um só fôlego, apesar de malmente saber ler e escrever: depois de minha primeira leitura de Dalcídio Jurandir, louvado seja o Divino Espírito na escolha do papa argentino Francisco para o Trono do Pescador anunciando a boa nova do Evangelho da alegria, deixando Jesus de Nazaré, com o peso da Cruz, entrar no luxuoso Vaticano e expulsar o Anti-Cristo imperador do reino deste mundo. 

Antão, paresque, o verdadeiro “fim da História” será o derradeiro suspiro da máfia rentista amasiada com a pecúnia na cúria romana, dos pedófilos dementes nos quais o velho rei do gado Coronel Coutinho se espelhava... Acabar com a mentira do celibato dos padres safados (no Muaná, antigamente, dizia minha avó, um padre velho e caduco numa igreja velha confundia padre nosso com ave maria; corregido de perto pela prestativa concubina tapuia durante as ladainhas à luz de candeia de azeite de andiroba); há que excomungar o deus Mercado e castigar os vendilhões do templo...

Me lembro que tia Mentica vindo de Belém do Pará a Ponta de Pedras em igarité de carreira acompanhada da sua concunhada Osmarina e da Lila prima de seu marido, o português de Póvoa de Varzim, tio Xandico; para ir de montaria a remo, urgente, ao sítio Serrame visitar meu avô Chico Varela que, diz-que, estava doente passando mal no rio do Canal (na verdade o velho se achava rígido e são como o campônio de Souto Maior (Pontevedra), na Galícia; que ele era apesar dos anos de desterro no Curralpanema entre açorianos esquecidos das suas próprias origens e igualmente desterrados, índios desmemoriados e mestiçados a beça e pretos descendentes dos alforriados da Princesa Isabel). 

Deu-me a tia, além do catecismo capa branca cheirando à tinta; também de presente uma linda bola de leite de mangaba, feita à mão pela boa gente da Mangabeira descendente de índios parentes de mea avó Antônia. Naquele tempo, havia um mangabeuara chamado Artur, por apelido Caminhão... Este um carregava aturá na costa cheio de rumas de gêneros da roça e alguma piraíba pescada de espinhel na maré da tarde, pra vender na vila. O Caminhão levava de volta a Mangabeira, mais dez quilômetros a pé; o querosene pra lamparina, sal, café e açúcar do costume. Agora em minhas lembranças na velhice se misturam o trabalho infantil na criancice roubada do tio Xandico, na pobreza portuguesa com certeza, e a carga pesada sobre o lombo do Artur. Aquele caboco feio com seu terçado a relampejar no caminho que me metia medo das histórias dos cabanos. 

sexta-feira, 8 de julho de 2016

RELENDO MARAJÓ DE DALCÍDIO JURANDIR


"Marajó" (1947, 325 páginas, José Olympio Editora)









As escamas dos meus olhos
José Marajó Varela

1 - Um ensaio caboco (quase autobiográfico).


Marambaia, aldeia de Belém do Grão-Pará, Sexta-feira, 1º de julho de 2016. Rua da Mata (minto, Benfica) antiga boca de sertão do caminho do Maranhão transformada em subúrbios-dormitórios... Cidade morena afrolusobrasileira, metrópole equinocial: margens da baía do Guajará, ilhas cabanas banhadas pelo rio de Guamá [cacique dos Aruã e Mexiana do Marajó velho de guerra], país antigo da Amazônia oriental que tem porto de mar no Caribe.  
O caboco velho que vos fala, por acaso, viu-se privado por um momento de seu ópio moderno, a tal de internet... Antão, em crise de abstinência fui pedir ajuda aos velhos livros deixados de lado na estante, onde há tempos me pediam pra deixar de bandalheira, levantar, bater poeira, espantar as traças e novamente conversar com eles...  Olha só quem me chama, psiu... psiu... É o meu velho “Marajó” querendo, paresque, ser relido desta vez com outros olhos! Algo me diz que um livro é como um rio que a cada viagem diferente vai revelando seus segredos. Masporém, quando a gente acha que já leu tudinho, eis uma frase esquecida, uma palavra mal compreendia, nova conotação... Afinal se deve respeitar o direito autoral e a vontade do autor, mas há que se compreender as limitações da leitura: assim é se lhe parece. O livro não muda, muda a percepção do leitor no tempo e no espaço. Sobre Dom Quixote, dizem que há um tempo de ler Cervantes para rir, na mocidade, e outro na maturidade para chorar...

Que me parece agora o romance “Marajó”, esboçado em 1933 como “Missunga”, acabado de escrever em 1939 com título de “Marinatambalo” e publicado  em 1947? Andando, outra vez naquelas páginas, pelo Paricatuba, vila de Ponta de Pedras, Campinho, Mangabeira, Cachoeira, Belém dos anos 30 (antes mesmo de eu nascer) e Lago Arari na paisagem da estória, que coincidências acharei com a história dos lugares de mesmo nome contemplados pelo autor? Tantos personagens e localidades que me parecem tirados da vida real para habitar o romance. O estranho Tomás do Mato, por exemplo, que praticamente negligenciei na primitiva leitura; corresponde quase em tudo a um pobre e infeliz aluado chamado Tomás do Mato que, em priscas datas, eu conheci em casa de meu avô materno, no sítio Serrame. Já o povo, antes do romanista, inventava estória sobre o homem desconhecido que apareceu ali pelas beiras do Canal e, de vez enquando, desaparecia pelo mato quando era tempo de lua... Quantas vezes o menino Dalcídio com seus país pernoitou no sítio Serrame, fazendo escala de viagem a remo entre as vilas da Cachoeira e de Ponta de Pedras ouvindo ele sisudas conversações dos meus avós Alfredo Nascimento Pereira e Francisco Perez Varela? Aquelas longas viagens antigas, quando os bichos do fundo conversavam com os pajés e a natureza se convertia em paisagem mágica para distrair a dor e o sofrimento humano.

No dia 17 p.p., participei na Universidade do Estado do Pará (UEPA) do primeiro Dia de Alfredo (16 de Junho) criado pela lei municipal 9164, de 18 de dezembro de 2015, de autoria do vereador Moa Moraes, da Câmara Municipal de Belém. O vereador é bisneto do motorneiro Argemiro Dias do Nascimento, que foi empregado da companhia inglesa de bondes e eletricidade do Pará, membro ativo do PCB, preso pela polícia política do Estado Novo e companheiro de cela de Dalcídio no presídio São José (1937) [hoje polo joalheiro São José Liberto]. No ato na UEPA, o professor Paulo Nunes, bondosamente, me presenteou com um magnífico carocinho de tucumã (símbolo emblemático de Alfredo, criatura imortal de Dalcídio Jurandir no ciclo literário Extremo Norte e que, muita merecendência para um caboco velho, me vale paresque como diploma honoris causa da Academia do Peixe Frito) e o amigo indagou qual meu romance preferido na obra do autor marajoara.

Em vez d’eu lhe responder logo, dizendo o “Chove” (“Chove nos campos de Cachoeira”, onde toda saga de Alfredo lá se concentra) contei aos presentes uma história dando voltas que nem o rio Arari desde o Lago até a Boca, na baía. Por acaso, lá fora da UEPA chovia a cântaros e uma greve brindava o dia... Por acaso também, em Ponta de Pedras, há mais de sessenta anos, minha saudosa avó Sophia apresentou-me o “Marajó” do tio Dalcídio e sendo este o primeiro romance que eu li na vida acabou o dito para mim sendo um curso de alfabetização política e sentimental que não completei ainda... Dali em diante, mesmo sem saber ler e escrever corretamente, me surdi a querer fazer que nem aquele famoso parente escritor vivendo ele no Rio de Janeiro.

Deixa estar, que quando isto aconteceu eu tinha mais ou menos dezesseis anos de idade, tapado que nem uma porta. Embora para quem teve sorte de frequentar o grupo escolar da vila, já escrevendo o suficiente para aumento do número de eleitores. Masporém, ainda não havia eu idade completa para tirar título de eleitor nem pra servir o exército. Naquele tempo, analfabeto não votava... Quer dizer, antão, que como leitor de romance eu era um bom jogador de bola de rua...

Confesso que o livro do tio foi para mim, naquele inesperado encontro, como uma história bacana da vila de Ponta de Pedras, a mesma que se ouvia vulgarmente contada na boca da gente. Masporém, nas suas páginas para o leitor despreparado à recepcionar a obra romanesca, eram como falassem dezenas de contadores de história, tal qual na tradição oral de tio Vicente rezador goiaba pelos sítios na espera de devotos para ladainha, o casal dona Branca Moraes e seu Ciro nas mil e uma noites dos Açores, talvez, importadas no Curralpanema: “Branca Flor, já dorme?... Não, senhor”. O vento da noite rolando no terreiro trazia estória pra dentro da casa na beira do rio, fracamente iluminada à luz de lamparinas. A escuridão vinha dos campos queimados, os vagalumes carregavam o mito da primeira noite do mundo e do fundo do rio boiava a lenda da Cobragrande. Então a estória dava sono e a chave do reino dos sonhos, quando não de escuros pesadelos.

Mas, que história afinal de contas era aquela do meu tio morando longe e ao mesmo tempo perto da gente em seu modo tão certo de contar estoria? Se, na verdade, muitos livros festejados de história resultam em estória da Carochinha, o “primeiro romance sociológico brasileiro” (apud Vicente Salles), vestido de ficção, rompe a crosta dura da realidade para mostrar o drama da criaturada, a tragédia humana prisioneira do tempo: tal qual dona Silvana presa na torre do castelo de seu pai incestuoso e a infeliz Orminda marcada por sina cruel na torre duma igreja do anti-Cristo... Estigma colonial que, desde início, Las Casas pôs a nu. Mas, vá a criaturada saber sem aprender a ler!...

Com “Marajó” às mãos, caíram-me as escamas dos olhos: pena que Alfredo não está lá. Ou está oculto pelas margens, na pessoa física do autor? Ele não seria o alter ego de Dalcídio? A cabo da primeira leitura, vi a Criaturada grande em carne e osso, passando pelo rio e a rua, na porta do Mercado, na igreja, apanhação de açaí, tiração de lenha, embarque e desembarque de gado brabo para o Curro... Os senhores e senhoras da história podiam ter lá seus nomes trocados e inventados na estória, masporém a leitura desta gente era ao pé da letra, diferente da academia... Os conterrâneos conheciam bem os personagens apesar do jogo atrás do manto de fantasia. Descobriam parentes e aderentes retratados: dali em diante, comecei a entender o porquê de certa censura do arcebispo Dom Mário de Miranda Vilas Boas à obra de Dalcídio Jurandir, desaconselhada aos católicos do Pará, conforme o catecismo capa branca (novinho em folha) que tia Armentina me havia dado em preparação à minha primeira comunhão na igreja matriz de Nossa Senhora da Conceição de Ponta de Pedras.


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