terça-feira, 20 de maio de 2014

Odisseia do cru e do cozido: do nomadismo da fome à fome de sabores exóticos. Metendo Lévy-Strauss na academia do peixe frito.



A cultura alimentar dos lugares conta a história do Homem movido pela fome hereditária a descobrir o mundo. Depois da invenção da agricultura, ajudado pela mãe natureza, o nômade apenas saído do mito da Primeira noite do mundo cobiçou o Ócio e se tornou sedentário.  Primeiro comer, depois filosofar...

Expulso do paraíso, que era o útero da Terra, pelo parto da memória urge caminhar a fim de reencontrar o jardim do Éden sonhado. Uma vez saciado o peregrino do caminho dá asas à imaginação mitifica o mundo e transforma a comida costumeira em arte culinária. 

Este segredo sutil foi desvendado por Lévi-Strauss em sua famosa viagem ao Brasil Central entre os Bororos, que por sua vez deu lume ao famoso livro "O cru e o cozido". Na Amazônia típica curupira come peixe cru, índio o assado, caboco vai de caldeirada por causa do pirão e intelectual do Ver O Peso se alimenta de peixe frito e açaí, deixando o pato no tucupi para os mais ricos do pedaço. Diz-me o que comes e eu te direi quem és...

Viajantes do novo mundo como compartilhavam suas viagens com os leitores com um olhar particular como num passe de mágica, levando-os a outro tempo. Lévy-Strauss leva o leitor a despertar a curiosidade gustativa numa viagem pelo universo mítico ameríndio, uma experiência "antropofágica" sofisticada numa obra que autor mantém relação com sua própria trajetória. 

O ponto de partida do primeiro volume (O cru e o Cozido, 2004 [1964]) foi um mito do povo Bororo, do Brasil Central, sobre um certo desaninhador de pássaros em torno do tema da "conquista da cultura". Daí ele viaja a América do Norte. Nas Mitológicas, a transição de um hemisfério ao outro do continente americano se dá em "progressões em rosáceas", onde avança à medida que se amplia o diálogo mitológico.  Talvez o leitor não esteja avisado que mito não é, exatamente, sinônimo de falso ou mentira. Mas, a realidade vista por outro prisma...

Não é verdade que a idade dos mitos é coisa do passado. No mundo contemporâneo vivemos cercados de mitos e o marquetingue vive explorando a profunda mina mitológica. Os cinco sentidos humanos são excitados pela imaginação com a curiosidade do que se há de ver, cheirar, ouvir, sentir e saborear com aquela "novidade" procurada que ainda falta para completo descobrimento do mundo.

Claude Lévi-Strauss dizia que odiava as viagens e os "exploradores" (naturalistas), mas as Mitológicas são um convite aos leitores para embarcar numa viagem sem nenhuma garantia de nada. Tudo se transformava, então, num mito da mitologia. Quem pode garantir que o mate verde amargo é um rito indispensável da cultura gaúcha e que ir a academia do peixe sem provar açaí puro é como cometer sacrilégio?

Há tabus por toda parte. Nas palavras de François-René de Chateaubriand, autor de Viagem à América (1827), "Por mais diversos que sejam os caminhos, os viajantes chegam ao ponto de encontro."

Por que povos afastados da América do Sul e do Norte elaboraram narrativas com tantos pontos comuns? Os mitos segundo Lévi-Strauss se pensam entre si ao mesmo tempo em que pensam a sociedade de onde eles vêm. Se imaginar é viajar, os mitos não se esgotam suas possibilidades de inventar novos caminhos e atalhos para vislumbrar as possibilidades fundamentais da inteligência. 

No primeiro volume, o cru e o cozido são a dicotomia básica. No segundo (Do mel às cinzas, 2005 [1967]) trata da oposição entre o mel e o tabaco. O mel ligado à ideia de natureza e o tabaco ao mundo sobrenatural. Ambos volumes são voltados a metáforas culinárias na representação dessas passagens, no primeiro o empoderamento da cultura, e no segundo os mitos narram a perda e a regressão à natureza. 

De um lado, a conquista do fogo de cozinha, dos ornamentos, da carne de caça e das plantas cultivadas; de outro, a perda do mel cultivado para as abelhas e as árvores, da carne de caça, das artes da civilização e até mesmo das categorias lógicas. No terceiro volume (A origem dos modos à mesa, 2006 [1968]), vai-se às planícies da América do Norte através de um mito amazônico. Se os mitos dos primeiros volumes operam oposições espaciais (alto e baixo, céu e terra, sol e humanidade), as narrativas norte-americanas do terceiro operam oposições temporais (lento e rápido, duração igual ou desigual, dia e noite), enquanto encenam uma reflexão sobre a moral em termos do comportamento humano e em analogia com os fenômenos cósmicos, astronômicos e meteorológicos. 

A culinária reaparece como uma tecnologia da mediação, que permite a passagem entre esses operadores binários, como do cru ao cozido. Depende dessas tecnologias, do xamanismo e dos rituais, sobretudo, o cuidado e a manutenção de uma ordem cósmica – ou mesmo da condição humana – que se poderia dizer "temperada", assim como um instrumento musical afinado, em equilíbrio. 

Com esta breve compilação queremos provocar uma reflexão: se Lévy-Strauss visitasse o Ver O Peso? Isto é neo-estruturalistas, capazes de adivinhar no peixe frito simbolizações arcaicas e futuristas ao mesmo tempo... Sem esquecer a dialética do Ócio e a violência do império do trabalho, sem o que não há açaí pra ninguém. 


quinta-feira, 15 de maio de 2014

aos Amigos da ACADEMIA DO PEIXE FRITO

Bruno de Menezes, (Belém, 21 de março de 1893 — Manaus, 2 de julho de 1963)



COMUNICADO: PREMISSAS

Car@s amig@s,

Seis anos se passaram do Centenário de nascimento de Dalcídio Jurandir (2009), quando no ano anterior foi relançada a "Academia do Peixe Frito" então em "recesso" há mais de 40 anos desde a morte de Bruno de Menezes, ocorrida em Manaus no ano de 1963. 

Significa dizer que a nova APF completa, no ano corrente, sete anos de atividades: tempo de assumir formato mais consistente. Sobretudo, face aos próximos festejos dos 400 anos da cidade de Belém do Pará e ao processo de revitalização do Ver O Peso com seu respectivo reconhecimento nacional e internacional em curso.

Eis o crucial desafio que se nos impõe neste exato momento: 

após os ditos sete anos (2008-2014), enrolar a bandeira memorial de São Benedito da Praia e entregar ao ostracismo a memória dos modernistas do Pará, seguidores amazônidas do proclama da Semana de Arte Moderna (1922) de São Paulo; como esteve de fato durante quatro décadas até o despertar do Centenário de Dalcídio Jurandir. 

Ou bem, convocar novos voluntários à causa do patrimônio histórico paraense e avançar de tal modo com a consolidação do centro de memória de Bruno, Tó Teixeira, Eneida, Abguar Bastos, Rodrigues Pinajé, Dalcídio, Adalcina Camarão, Jacques Flores, Vicente Salles e muitos outros que a lembrança já nos foge; com tudo que a obra e a vida de cada um representa para identidade cultural da brava gente paraense.

Tal renascimento, correspondente a um kuarup da cultura imaterial da velha confraria do Peixe Frito, caminhar como um aríete com a imagem do cacique Guaimiaba (“cabelo de velha) abatendo muralhas sociais e políticas invisíveis dentro do processo geral de revitalização do Ver O Peso.

Isto sim, há de ser garantia de que a identidade e participação da "Criaturada grande de Dalcídio" nunca será apartada de seu principal lugar de memória na história do Pará: a Campina e a Cidade Velha, bairros tombados pelo IPHAN tendo com o Ver O Peso relação umbilical, que terão nesta confraria uma janela permanentemente aberta sobre a baía e ilhas do Guajará levando a paisagem cultural mais longe, no rumo do Marajó e do Caribe. Fronteira das culturas reivindicando o tempo pré-colombiano da nossa história completa e não só um pedaço mal contado dela.

Claro, um pensamento descolonial. Queremos, simbolicamente, restabelecer a aldeia de "Mairy" na Cidade Velha - apagada lembrança da participação da França Equinocial na invenção da Amazônia latina -, com a ancestralidade da terra Tapuia e recolocar o guerreiro Tupinambá no forte do Presépio ao lado do valente soldado português desconhecido. 

Refazer o impossível acordo de paz dos Nheengaíbas em Mapuá (Breves), dando cabo a 40 anos de guerra entre as duas margens do Pará: com que, por si só, a ancestral Cultura Marajoara terá lugar de honra nas festas dos 400 anos já de Belém da Amazônia, avenir da capital do Pará. 

Sem a indispensável participação de nossos antepassados "negros da terra" e "negros da Guiné" não haveria 400 anos de Belém pra ninguém!.. É disto que se trata, além de comer peixe frito ao azeite de patauá com pirão de açaí, naturalmente...

A informalidade da confraria de amigos deve, doravante, ser substituída por entidade jurídica e administrativamente constituída para, de uma parte ser zeladora do patrimônio cultural imaterial daquela confraria de amigos dos anos 30, no século vinte, e de outra corresponder aos dias atuais do centro histórico de Belém tendo no Ver O Peso sua república.

OBJETIVOS DA SOCIEDADE DE AMIGOS

Artigo 1º - A Sociedade Amigos da Academia do Peixe Frito, designada pela sigla S.A.PEIXEFRITO, fundada em 12 de janeiro de 2014, é uma associação sem fins lucrativo, com duração por tempo indeterminado, sede provisória à Travessa 14 de Março, número 677, bairro do Umarizal, na cidade de Belém, Estado do Pará. 
 
Artigo 2º - A Sociedade tem por finalidade conduzir interesses da comunidade na curadoria e conservação da denominada ACADEMIA DO PEIXE FRITO zelando para obtenção e promoção de seu registro no patrimônio cultural imaterial do Município de Belém, Pará; tendo em vista a memória do movimento modernista amazônida dos anos 30 em torno da revista cultural “Belém Nova”, sob liderança do poeta Bruno de Menezes; providenciando correspondentes meios administrativos, técnicos e culturais para bom uso do supracitado bem patrimonial pela comunidade, dentro das normas deste Estatuto e seguintes diretrizes: 
 
    I – Pleitear, junto a entidades ou autoridades, sempre que necessário, a devida locação e conservação de imóvel para funcionamento da S.A.PEIXEFRITO em seu mister de mantenedora da ACADEMIA DO PEIXE FRITO; 
 
    II – Obter de pessoas físicas e jurídicas doação de documentos que completem ou enriqueçam o acervo da Sociedade, desde que esta aprove, previamente e por escrito, a aquisição de modo que esta entidade funcione como centro de memória e ecomuseu do Ver O Peso na paisagem cultural do Guajará; 
 
    III – Obter, de pessoas físicas ou jurídicas, donativos para formar fundo especial destinado à plena realização dos seus objetivos, inclusive atividades educativas e socioambientais voltadas para feirantes, trabalhadores e usuários do espaço socioambiental e cultural do Ver O Peso;


    IV – Firmar convênios com pessoas jurídicas de direito público e de direito privado levando em contas os objetivos deste estatuto; 
   
      V – Apoiar atividades educativas, científico-culturais e socioambientais da S.A.PEIXEFRITO; 


    VI – Prestigiar entidades parceiras e atividades afins nos pedidos que lhe forem formulados. 




AGENDA 2014


I - CONVOCAR assembleia geral para discussão e aprovação dos Estatutos da confraria;

II - providenciar eleição da diretoria tendo como prioridade tratativas junto ao governo municipal para reconhecimento da "Academia do Peixe Frito", nos termos supracitados, no patrimônio cultural imaterial da cidade de Belém;


III - prestar apoio a projeto de lei, em tramitação na Câmara Municipal de Belém, dotando o Solar da Beira de um "Centro de Cultura Ribeirinha da Amazônia", como referência para o Centro Histórico e seu entorno insular;

IV - junto ao Solar da Beira ou, alternativamente, noutro imóvel do complexo do Ver O Peso servindo somente como suporte de gerenciamento do espaço natural e paisagem cultural, criar o "Ecomuseu do Guajará", contemplando o Ver O Peso e ilhas do arquipélago do Guajará em participação da rede de centros de memória e pontos de cultura;

V - procurar manter a comunidade informada a respeito do processo de indicação do Ver O Peso à categoria de paisagem cultural brasileira (IPHAN) e patrimônio mundial da UNESCO: seus resultados quaisquer que eles sejam devem mobilizar a comunidade no sentido de promover informação sobre procedimentos recomendados tanto pelo IPHAN quanto pela UNESCO, para empoderamento dos espaços de memória pela população concernente;

VI - com tal disposição a S.A.PEIXEFRITO, considerando a importância do turismo literário como instrumento de formação da hospitalidade para atividades turísticas de extensão educativa dentre outras, deverá assumir liderança para adoção, pela sociedade e instituições; do proposto DIA DE ALFREDO (16 DE JUNHO) correspondente à data da morte do escritor Dalcídio Jurandir e coincidência do Bloom's Day, na Irlanda, referência internacional do romance Ulisses, de James Joyce, em turismo literário;

VII - no bojo do turismo literário supra, promover a cultura alimentar tradicional paraense como elemento de geração de emprego e renda na agricultura familiar, conforme recomendações da FAO; integrada à cadeia produtiva do turismo com base na comunidade;

VIII - a fim de realizar seu objetivos consoante seus estatutos e regimento a confraria adotará programa de voluntariado e extensão denominado Universidade da Maré criando, para isto, plataforma de marketing e comunicação aberta ao público;

IX - A S.A.PEIXEFRITO dará especial apoio a campanhas de erradicação do Analfabetismo, sobretudo entre populações ribeirinhas, quilombolas e comunidades de pesca artesanal, colaborando para advento duma educação ribeirinha de excelência no escopo da educação regional e nacional;

X - por consequência, a confraria dará prioridade em suas atividades à difusão do livro de autores associados a mesma e buscará meios e parcerias para tradução da obra de Bruno de Menezes, Dalcidio Jurandir e mais membros da antiga APF, assim que de seus homólogos estrangeiros contribuindo a maior compreensão comparativa do pensamento cultural da primeira metade do século passado e sua evolução socioambiental até os nossos dias.

domingo, 4 de maio de 2014

eu vou pra Vilarana



As conversas entre comadres, os fatos do dia a dia dos antigos vilarejos e muitas outras curiosidades voltaram a povoar o imaginário do Parque Cultural Vila de São Vicente, na Praça João Pessoa, em São Vicente. Atividade marcante quando da inauguração do parque, há mais de 12 anos, as cenas teatrais com diálogos de época retornaram nesta sexta-feira (14), e poderão ser conferidas também aos sábados, domingos e feriados.

Atores do grupo de teatro do CAMPSV se revezam nos diálogos, que têm produção, textos e figurinos são da Secretaria da Cultura, que administra o local. Apesar de continuar em processo de reforma, a Vila mantém portas abertas à visitação, de terça a domingo, das 10 às 19h.

A cada dois meses um novo grupo de teatro da Cidade vai se apresentar na instalação cenográfica, que remonta à época da fundação daquela que seria a primeira Vila do Brasil. Não há cobrança de ingresso e na sequência virão ainda atores das companhias Dons, Taetro, Héteros, Tartufos Cênicos e Vozes em Cena. A ordem de atuação bimensal foi decidida pelas companhias de teatro.


Vilarana, a vila quem nem vila era.

Vilarana é utopia do vilarejo na periferia global onde o tempo espera e sempre é primavera...  Esperança antropoética do retorno ao país natal através da espiral evolutiva de um milhão de aldeias kibutzianas no mundo pós-industrial do velho homem lobo do Homem. 

Melhor dizendo, Vilarana é utopia ribeirinha da cidade humana no concerto das nações verdadeiramente unidas e democráticas pela reforma da ONU. Se a montanha não vem a Maomé, Maomé vai à montanha... Se a Lei internacional não chega às margens da História para derrubar os muros do Apartheid mundial - que separa 99% da população da Terra de 1% de donos do Poder -, protegendo os sem eira nem beira, os ribeirinhos da Modernidade conservadora vão à luta ocupar as cidades. 

E não tem mais açaí e peixe frito pra ninguém! (atenção: isto é uma metáfora, não carece ir denunciar a gente na OMC nem privatizar rios, lagos, mares e igarapés... Pelo amor de Zeus!).

Cada migrante ou imigrante na cidade grande traz na bagagem sua vilarana, lugarejo ideal que toca a alma na canção "Vilarejo" pela voz amorosa de Marisa Monte. Sonhado chão das recordações que talvez não nos deixaria partir se a realidade fosse outra no lugar onde a sorte ingrata nos apartou da terra natal. 

Isto me ocorreu ao relembrar minha imaginária Vilarana nesta manhã quando, no Twitter, delegado da Polícia Federal no exercício de cargo eleito de Deputado Federal, sem comentário, pergunta aos leitores o que eles acham de certa matéria no jornal Folha de S. Paulo. Lá se lê que a Câmara Municipal da maior cidade da América do Sul tem uma tenebrosa "bancada da bala", composta de policiais militares da reserva eleitos por cidadãos aterrorizados pela violência urbana. 

Não será isto, por acaso, um fenômeno global que afeta as relações internacionais Norte-Sul e faz voltar hordas assassinas neofascistas por todo lado? E Nelson Mandela já morreu, pouco tempo depois de Washington retirar seu nome da famigerada lista de "terroristas", devido ao grande crime de Madiba se opor ao terrorismo de estado no regime de Apartheid apoiado, durante tanto tempo, pelas potências brancas justiceiras ocidentais.

O caso me fez lembrar, lá pelos anos de 80, uma conversa à saída do "bandejão" do Itamaraty entre um diplomata paulistano descendente de imigrantes russos, um aluno do Instituto Rio Branco oriundo do Mato Grosso e este caboco marajoara saído do mato, que vos fala - inventor da desconhecida Vilarana - , então secretário administrativo da Divisão de Fronteiras naquele ministério da Esplanada, em Brasília (DF). Àquela altura, o caos urbano já preocupava o país do futuro envolvido pelas "Diretas Já" a cabo das trevas da Ditadura...

O diplomata comentava notícia do dia e o estudante procurava explicação para o fenômeno explosivo do crescimento desordenado das metrópoles da América Latina. Como de hábito, meti eu minha colher enferrujada na conversa sentenciando, gravemente: 'toda cidade grande não é mais que um conjunto de cidades pequenas'... 

Talvez hoje o ex-aluno e agora embaixador em posto-chave da nova política latino-americana e o ministro de carreira no cargo de cônsul-geral em importante posto na Europa, outrora segundo-secretário, não se lembrem mais daquela conversa de circunstância. Todavia, o problema das migrações e crescimento descontrolado das cidades está na ordem do dia. A cidade de São Paulo em transe numa encruzilhada da Avenida Paulista...

A teoria da dependência demonstra que, após a independência das colônias da velha Europa na América, a colonialidade das elites transplantadas aos novos países continua oferecendo o cruel espetáculo das veias abertas da América Latina, no dizer abrasivo de Eduardo Galeano. O arcaico Ocidente sanguinário fanático, patriarcal e autoritário oriundo das piores tradições do Oriente foi desterrado pela mãe Europa para ocupar o "novo mundo" edificando, nesta margem do Oceano, o Extremo Ocidente. Cuja matriz imperial são os Estados Unidos WASP (branco, anglo-saxão e protestante), mais unida ao Reino Unido que aos estados americanos (lembrai-vos da doutrina Monroe reprovada no teste da guerra das Malvinas). 

Que tem a ver? 

A conquista e colonização da Ameríndia pelas monarquias cristãs da Europa para dar lugar das nações indígenas aos conquistadores e colonos em maior parte indesejáveis dos guetos das cidades e camponeses pobres excluídos da concentração da propriedade rural, produziu o maior crime de lesa humanidade que se tem notícia, depois do Holocausto e da hecatombe atômica de Nagazaki e Hiroxima: o cativeiro negreiro das Américas.

Em São Paulo de Piratininga se levantou a primeira vila do Brasil, São Vicente. De São Vicente saíram tropas de Bandeirantes matabugres façanhudos à conquista dos sertões e descoberta de ouro. Criou-se a ideologia bandeirantes que ainda ecoa nos sucessivos e controversos planos de "desenvolvimento" da Amazônia da ditadura de Vargas à democracia popular de Lula e Dilma lá. A Capital sofre e São Vicente oferece uma oportunidade de visitar o passado para reinventar o país do futuro.

CHOVE NOS CAMPOS DE CACHOEIRA E DALCÍDIO E O GALLO JÁ MORRERAM

São Vicente nos sugere, pelo turismo com a comunidade, uma volta ao vilarejo. A grande São Paulo com a locomotiva fora dos trilhos, também poderia com uma poderosa utopia capaz de mobilizar toda rede mundial de metrópoles a qual ela pertence, e assim tornar-se ela mesma um conglomerado de mini-cidades autogestionárias e sustentáveis. Claro, a estrada de mil léguas começa com o primeiro passo e pode ser - neste caso -, o primeiro passo foi dado em São Vicente a fazer a paz dos indios e das bandeiras de volta ao lugarejo...

Da minha parte, eu vou pra Vilarana! Esta viagem é mui antiga. A vila que nem vila era foi tirada do barro do Fim do Mundo, nas ilhargas da antiga vila de Itaguary; ela mora comigo em qualquer lugar onde eu for. Um dia estive em Vilarana de Cachoeira do Arari e vi que ali já não estava mais de pé a casa de "Chove" com Alfredo de Dalcídio Jurandir e para o lado do Choque o padre Giovanni Gallo implodiu e seus herdeiros se dividiram em briga pelo espólio do museu... 

Hoje, pensando bem a respeito da pergunta do Deputado Delegado, eu quis responder à angustiosa questão da desordem urbana. Para isto, pode ser que eu precisasse me mudar para Brasília ou Niterói, terra do índio Arariboia. Mas eu queria armar barraca em Aracaju. Ou no Nordeste Paraense ser pescador numa resex. Melhor seria, então, ir a Porto Caribe na rota de Abubakari II e sua flotilha de dois mil caiaques pedir asilo na Martinica, pais do imortal Aimé Cesaire... Por enquanto vou ficando por aqui e mando lembranças a toda gente que gosta de gente.

Vilarejo

Marisa Monte

Há um vilarejo ali
Onde areja um vento bom
Na varanda, quem descansa
Vê o horizonte deitar no chão
Pra acalmar o coração
Lá o mundo tem razão
Terra de heróis, lares de mãe
Paraiso se mudou para lá
Por cima das casas, cal
Frutas em qualquer quintal
Peitos fartos, filhos fortes
Sonho semeando o mundo real
Toda gente cabe lá
Palestina, Shangri-lá
Vem andar e voa
Vem andar e voa
Vem andar e voa
Lá o tempo espera
Lá é primavera
Portas e janelas ficam sempre abertas
Pra sorte entrar
Em todas as mesas, pão
Flores enfeitando
Os caminhos, os vestidos, os destinos
E essa canção
Tem um verdadeiro amor
Para quando você for