quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Agostinho Batista, poeta seringueiro, embaixador da Criaturada grande de Dalcídio.



Mestre Agostinho Batista, da Universidade da Maturidade (UMA),
Universidade Federal do Tocantins - UFT





Flauta e Uirapuru no encanto da Mata Atuá-Anajás

Em memória de Rodolpho Antonio Pereira,
meu pai. Aprendiz de música que se prezava
de ter sangue cabano e descender de índios.

Não direi (dizendo) como Pascal, “creio, porque é Absurdo!”. Mas, tão simplesmente, creio. Porque pelo sentimento do seu coração o plácido caboclo Agostinho Batista achou a paz universal, no umbro das matas do alto Atuá e Anajás. Misterioso cerne da Biodiversidade, que antigamente o profeta Isaias anunciou e o Santo de Assis cantou sem contradição nenhuma com a Ciência pura. Por necessidade e acaso aos centros da Ilha do Marajó, no delta estuarino do “Mar Doce”: o maior rio do Planeta. Enquanto o seringueiro solfejava a flauta doce p’ra matar as suas mágoas ele se viu, face à face, diante da sutil presença da poesia concreta. Viva, alada e sonante. Que só vendo para crer mais do que nunca.
Naturalmente, a maravilha se fez plumas e canto do Uirapuru como a leveza do ar que se respira com aroma de flor silvestre. Naquela hora suspensa dos movimentos aparentes do dia, no sítio mágico não se duvidaria do poder divino da mãe Natureza. Como da aparição da Virgem a qualquer andarilho vagamundo, em busca de salvação da sua vida. Abriu-se na humana consciência da biosfera um espaço que antes jazia oculto desde o descobrimento do Novo Mundo, um portal ao mundo novo.
Na verdade, o paraíso procurado na terra não estava ali nas cabeceiras dos contravertentes do Amazonas e Pará, pelos âmagos preservados da Ilha do Marajó entre árvores de borracha e lagos encantados no esquecimento da devastação amazônica. Coração (quase) imaculado da Ilha Grande. Que, no dizer do naturalista Alexandre Rodrigues Ferreira, era a “menina dos olhos” do inspetor Florentino da Silveira Frade (talvez o autor anônimo da primeira Notícia Histórica da Ilha, na metade o século XVIII, donde o sábio da Viagem Filosófica bebeu nas primeiras fontes a fim de escrever também a sua Notícia de 1783, baseada naquela e aumentada de observações e impressões próprias). Tampouco se recuperaria o Jardim do Éden pelo remendo social de Missunga, herdeiro do coronel Coutinho, no rio Paricatuba (na foz do Marajó-Açu), onde meu pai dizia os tangarás-da-mata outrora vinham bailar a horas mortas do dia, constante das páginas do romance Marajó, de seu irmão Dalcídio. Mas, o caminho à primitiva morada sagrada passava perto das cabeceiras do Atuá-Anajás, qualquer um acreditaria ao ouvir o que tem a dizer o seringueiro e folclorista Agostinho Batista, tradicional morador do Muaná. Alarmado com a perspectiva de dragas e tratores entrarem triunfantes como o Dragão da maldade rio acima a profanar o sítio onde o caboclo toca flauta e o Uirapuru canta.
Dirão os coloniais “cegos” do Sermão aos Peixes do padre Vieira, é a Preguiça mãe de todos os vícios. Direi com os sociólogos e economistas humanistas, é o Ócio pai e mãe da filosofia e apanágio de nobres cidadãos, que em exigência crescente não sabem donde vem o que consomem e querem sempre do bom e do melhor... O desequilíbrio ecológico começa no coração do homem consumidor nas cidades: não será levando o alienado “progresso” urbano aos sertões, mas – ao contrário – importando a paz do interior para as ruas, casas e apartamentos de mini-cidades e aldeias sustentáveis que a gente haverá futuro algum dia.
Como se sabe, uirapurus e tangarás são indicadores biológicos da devastação da natureza, pois só sobrevivem na mata virgem. Eis a questão sucinta do caboclo do Muaná, decidido a não trocar a primogenitude da sua gente naquele rio por um “prato de lentilhas” sob forma de cestas básicas ou salário-mínimo. Argumento que na maioria das vezes daria ar de riso a arrogantes devotos do deus Progresso (já se sabe que não de graça), acostumados que estão a passar por cima de tais ponderações “românticas”. E, portanto, estamos todos na cidade ou no interior “no mato sem cachorro” e nos mais diferentes recantos do globo os ricos cada vez mais ricos, os pobres cada vez mais pobres. E como a “coisa” já foi longe demais deliberei por consciência própria e fidelidade da defesa do Povo marajoara, dar eco ao singelo apelo de meu colega caboclo Agostinho Batista.
Mas, do mesmo modo como o milagre se manifestou a ele daquele modo; também no seu vivo argumento dá-se casamento justo e perfeito da fé com a razão. Ou, melhor dizendo o verdadeiro equilíbrio entre a qualidade de vida e o ganha pão dessa gente do fim do mundo. Pelo que valeria a pena assinalar o sítio desse acontecimento extraordinário como algo maior: nunca menos que uma ermida dedicada à Nossa Senhora do Tempo ou do Livramento, conforme a tradição dessa nossa gente católica iberiana. Assim como carece ainda recuperar, no Mapuá, o sítio da Igreja do Santo Cristo que os sete caciques nheengaíbas levantaram e o padre Antônio Vieira consagrou para todos juntos – marajoaras, tupinambás e portugueses – celebrarem a paz do Grão-Pará (Amazônia). Ora, quem conhecer a antropologia americana levantaria as mãos aos céus, ao saber desse acontecimento singular da história da Amazônia brasileira.

O lugar onde todos os lugares se resumem ou a quarta dimensão

Quando Uirapuru canta a mata se encanta. Tudo queda em silêncio e paz, dizem velhos mateiros calejados da “lei da selva”. E, portanto, aquele evento extraordinário seria ponto certo de Mutação para nova ciência do espaço-tempo relativo: na ínfima fração de um décimo de segundo, a eternidade se fazia presente. Pois, enquanto a paz é infinita a vida fica mais bonita no seio da maré. Todos os tempos e lugares se resumiram num único Lugar: que nem o Aleph, do vidente e escritor cego Jorge Luís Borges.
Paresque, o cantador da mata virgem surge do nada e ao nada retorna após o concerto.  Por acaso, o som doce da flauta do seringueiro atraiu o passarinho em necessidade de companhia. Quando um tocava, o outro calava: e tudo era a mesma música. O profano e o sagrado interagiam naquele concerto da mata virgem, que vinha da preteridade do mundo, desde os Princípios.
Pelo fio do tempo se desatava a Corda da romaria tecida de elétrons, íons, prótons, nêutrons e a infinidade de coisas que a gente não sabe e talvez nunca jamais há de saber... (com amável licença do filósofo da Latinidade, Edgar Morin). Aí, o tempo marajoara passava gota a gota. Como o sereno caindo fino das folhas, madrugada adentro, durante a evapotranspiração da floresta. Devagar, devagarzinho, quase parando... Isto o caboclo achava muito bom. Não carecia pressa ou lucro. Mas porém, não há dinheiro nenhum que pague.
Não é curioso, por exemplo, que no Velho Mundo se considera o leão, devido à força, “rei” dos animais. E, na Amazônia, um simples passarinho com sua simplicidade e canto maravilhoso reina e encanta a floresta? Que sentido o mundo poderia tirar desta lição da natureza?  Quando se sabe, ademais, que aqui vieram convergir anseios de conquista incontroláveis, com tribos antropófagas e guerreiros medievais movidos compulsivamente por ambições de diferentes paraísos. Nós não somos ingênuos quando às diversas cobiças de Norte ou Sul, aqui na faixa do Equinócio. Porém temos esperança – pela paz verde do Uirapuru – em conquistar o mundo, convencendo-o primeiramente de que a região equatorial não é “celeiro” nem “almoxarifado” de ninguém. Mas, nada menos que oportunidade única de se criar uma nova civilização. Este é o dilema amazônico, na metáfora da herança primordial e o evasivo prato feito de lentilhas do imediatismo da fome desde as Origens, que as Escrituras falaram. Erro secular do nosso colonialismo congênito.

O empate da hidrovia e a mais valia da biosfera

A Vila de Muaná (1823) já nos deu régua e compasso. O desconhecido rio dos Mapuá (1659) mostrou a autodeterminação das nações indígenas marajoaras a todo mundo – velho ou novo – a caminho da justiça e da paz. Enfim, a Ilha Grande de Joanes ou Marajó (aliás, Analáu Hohynkáku, Marinatambalo, Ilha Grande dos Nheengaíbas, idem dos Aruans) foi vestibular do sábio Alexandre Rodrigues Ferreira (ajudado pelo inspetor Florentino da Silveira Frade e o sargento-mor índio Severino dos Santos), na Viagem Filosófica ao interior da Amazônia, e nos mandou a sua Notícia Histórica (1873).
Aqueles que, num simulacro de democracia, decidem graciosamente sobre o destino da brava gente marajoara sem a escutar e interpretar legítima e verdadeiramente. Ou falam de boca cheia sobre “a maior ilha marítimo-fluvial do mundo” no estuário da maior bacia fluvial do planeta; por acaso, sem jamais saber o que significa sobreviver naquelas condições ilhadas:
Já leram sobre a Carta-Patente do Pe. Antônio Vieira aos Sete Caciques Nheengaíbas? Sabem todas as conseqüências históricas e jurídicas da resposta (sem a qual a viagem de Pedro Teixeira teria sido mera curiosidade geográfica semelhante à “descoberta” das amazonas por Orellana e a revogação da “linha” de Tordesilhas impossível, em 1750) à luz do Direito Internacional moderno e suas possíveis interpretações no campo da democracia contemporânea? Tiveram eles a acima dita Notícia Histórica? Conservam dela o essencial sobre a antiguidade humana e a riqueza biogeográfica da ilha? Que o naturalista diz ter visto nesta Ilha Grande (50 mil km², povoada desde 1000 anos antes da Era Cristã) o potencial de uma província. E, pode-se dizer até, credencial suficiente para as Ilhas ser consideradas os “Países-Baixos” do novo trópico, por exemplo.
Os nobres senhores sabem a história verdadeira da adesão do Pará à independência do Brasil? Os amazônidas não faziam parte do Brasil antes de 1823 (isto é, há apenas 180 anos), nem o Grão-Pará esteve diretamente ligado ao Vice-Reino do Brasil durante a permanência da Família Real no Rio de Janeiro, mas sempre ao Reino de Portugal. Os paraenses deliberaram conquistar a nacionalidade brasileira, a 14 de Abril em Belém; e proclamaram tal decisão, a 28 de Maio em Muaná, pagando o gesto de liberdade com o próprio sangue. Porém, o arreglo neocolonial de 15 de agosto deixou cair a máscara ente 16 e 17 de outubro; perpetuando a humilhação do Povo do Pará até à convulsão popular de 1835 e a repressão genocida de 1836 a 1840: traições e falsificações históricas hereditárias e a previsível ira popular.
Se honestamente os senhores não sabem – pelo amor à República Federativa e à pátria comum latino-americana de seus filhos e netos – voltem depressa aos bancos escolares. E escutem, por favor, o que essa gente cabocla tem a dizer! Pois, a repetência colonial do gigante adormecido Brasil no berço esplêndido da América do Sol ainda não deixou aprender a lição: não há meio que se sustente nem ambiente que preste, onde a gente da terra for excluída dos benefícios da Obra. Os ecos da Cabanagem reboando pelas entranhas da varja nos açaizais povoados de más lembranças, em frente à cidade, não nos deixam dormir sossegados...
Então, vi o velho seringueiro conhecido de Chico Mendes e afeiçoado amigo de Giovanni Gallo (que Deus os tenha). Ele falava a verdade do seu sentimento quando explicava as razões contra a escavação e dragagem do canal da Hidrovia do Marajó nas cabeceiras dos rios Atuá e Anajás. Achou importante que se cogitasse, na hora, implantar na Ilha uma reserva da biosfera. Este assunto ele pouco entende, porém aprovaria qualquer coisa para deixar de lado a destruição de lagos e matas donde extraiu as mais interessantes lendas do seu repertório e as cento e tantas “estradas” de seringa que foram sustento de sua gente.
Dizendo ele que, ao contrário do que se ouve a favor da obra de seus pesadelos, os caboclos ribeirinhos nada têm a ganhar com o projeto adorado por alguns empreiteiros e transportadores de carga. Que a gentinha dos rios apartados tem seus nomes tomados em vão para dourar a pílula da devastação daqueles estirões. Que, na verdade, seria deixada a ver navios. Visto que a hidrovia não mostra nenhuma ação direta de inclusão social se não em tese, com os decantados benefícios indiretos do “progresso”. Mas tão só a redução de alguns quilômetros para economia de fretes e aumento de lucros no transporte de cargas.
Segundo deu a entender, em vez de fixar caboclos nas terras de seus antepassados, a súbita abertura de trechos isolados à concorrência de fora seria mais depressa motivo para os ribeirinhos deixarem os sítios da sua pobreza e ir aumentar invasões da miséria nos subúrbios das cidades, à vizinhança de outros atropelados do Desenvolvimento. Em princípio, o nosso amigo seringueiro não é contra hidrovias. Aliás, o que é um rio navegável? Por que não cuidam antes das “hidrovias” naturais que são rios, furos, lagos e igarapés? Será que só vale a pena meter draga onde seria melhor conservar a natureza? Há – diz ele –, qualquer coisa que não entende nessa discussão. E, portanto, está contra – tão-só – à destruição de recantos remotos da sua estimação, nas funduras da mata entre rios Atuá-Anajás.
Crente do poder divino das coisas naturais e sobrenaturais gravou na memória cenas vividas na solidão dos centros da Ilha Grande. Onde plasmódio e curupiras fazem permanente morada. E onde o comum dos mortais nunca meteu os pés ou jamais colocou as mãos em cima. O atento ouvinte parece ver nas pupilas acendidas daquele um a vidência de tempos pretéritos e futuros, como num filme que o próprio personagem vai narrando com voz firme e serena.

Primeira Conferência de Meio Ambiente do Marajó

O tempo, vários ataques de malária e carências mil da lida botaram marcas inconfundíveis no amável rosto do seringueiro. A gente acabava de ouvir histórico discurso proferido pela senhora prefeita de Muaná, anfitriã do encontro, dona Ortensia Guimarães. Digna matriarca na melhor tradição marajoara do relevante papel da mulher na comunidade. A gestora marajoara declarou abraçar a causa da reserva da biosfera em Marajó, proposta pelo Grupo em Defesa do MarajóGDM, a Cooperativa Ecológica das Mulheres Extrativistas do MarajóCEMEM e a Corporação Associativo-Ambiental PanamazônicaCAMPA; acolhida por unanimidade no encontro de Muaná.
Causou-nos grata surpresa a Conferência preparatória às conferências de Belém e Brasília, donde partiu o apelo democrático do Marajó dirigido à ONU, através da República Federativa do Brasil, que não poderia ter melhor lugar a sua legitimação. Pois se trata do povo e da cidade que afrontou no passado o poder colonial, proclamando com todas as conseqüências a luta popular, resistência armada, prisão, humilhações, deportação e mortes no Tejo ingrato e distante. Padecimentos no cárcere de S. Julião, onde penaram também outros mártires da Amazônia. Tais como o sábio jesuíta João Daniel, primeiro naturalista da região amazônica.
Pois foi em Muaná que ocorreu a gloriosa Adesão da província ultramarina do Grão-Pará (Amazônia portuguesa) à independência do Brasil (28/05/1823). Sem dúvida, o vetusto e singelo monumento da praça 28 de Maio, com a lápide dos heróis de Muaná, embora desconhecido da intelectualidade tupiniquim, representa o melhor testemunho dos justos e originais motivos da Cabanagem.
Daí porque barões assinalados da historiografia oficial desconhecem os feitos da cidade-monumento de Muaná. E relegam a praça da adesão à inclemência do sol e das chuvas para destacar, indevidamente, datas e sítios desfocados da realidade histórica. Compensada apenas pelo aprazível consolo das tardes ao pôr do sol, quando da chegada de bandos ruidosos de japiins que vêm pernoitar na arborizada praça ao lado e entoar o réquiem dos heróis esquecidos da amazonidade brasileira.
Com tais antecedentes, a candidatura do Marajó ao programa “Homem e Biosfera” da UNESCO e à rede mundial de reservas da biosfera (à semelhança do Pantanal, Cerrado, Caatinga e Amazônia Central, no Brasil; e mais de 240 reservas em todo o mundo) tem sabor de um resgate extraordinário. Longe disto representar a temida “internacionalização” da Amazônia, significará ao contrário reconhecimento da autonomia regional democrática assegurada pelas leis do País.
  Ao ouvir as explicações dadas pelos proponentes, o caboclo adverso à construção do canal da hidrovia nos confins das “suas” matas onde canta o uirapuru suspirou pelo sucesso da reserva da biosfera. Acho que ele teme que a construção – ao longo de 32 quilômetros de canal, o dobro em diques de contenção e docas de manobra para balsas de até 8 metros de largura com mais de um metro de calado – venha a perturbar o sossego da mãe do rio (a Cobra grande). Podendo vir daí algo temível também no plano metafísico, além da chamada ecologia... Não é por causa um vago conceito de meio ambiente que ele está contra. Ou por molestar teorias complicadas que não entende nem morto. Mas, sim pelo motivo de que tal escavação seria o túmulo do seringal da sua vida. Cemitério dos derradeiros “mondongos”; fim dos berçários de alevinos e reservatórios da fauna e da flora aquática. Até as onças que ainda restam escondidas por lá e os jacarés e cobras que escaparam da sanha humana, teriam que se defender atacando animais domésticos. A, assim, acabariam os seus dias caçados até a extinção total.
Considero o caboclo de quem falo (como tantos outros da mesma escola) mestre em “desenvolvimento sustentável”. Método supimpa de produção, distribuição e consumo que, talvez, foi vislumbrado desde as entrelinhas da História do Futuro, na utopia barroca de Antônio Vieira. E no fabuloso Tesouro Máximo Encontrado no Amazonas, da escrita arcaizante do padre João Daniel. Este fez observatório no Moju (séc. XVIII) e Vieira (séc. XVII) anteviu a vocação natural hidroviária do planeta amazônico; ao deparar “avenidas, ruas e praças d’água” nos Estreitos de Breves: “clímax igapóreo” da Terra, na expressão de Eidorfe Moreira. O Padre grande esteve a poucas léguas do sítio ecológico que o nosso amigo jurou defender.
E, portanto, cristãos novos e velhos do Grão-Pará careciam de entendimento justo e perfeito da Carta do Apóstolo Tiago às Tribos Perdidas, segundo a Bíblia Sagrada. Nosso personagem tem nome de convertido, talvez por necessidade e acaso da conservação da memória e do meio ambiente de seus antepassados na preocupação de seus netos e da mais descendência que há de vir. Ele se chama, simplesmente, Agostinho Batista. Ademais, folclorista e escritor popular, além de seringueiro, mateiro experiente e flautista encantador de passarinhos da mata. Uma extraordinária atração ecoturística do Marajó a procura de empreendedor que o queira transformar em “produto”, com a nobre finalidade da geração de empregos e renda na comunidade tradicional de Muaná.

Marajó um lugar não como qualquer outro

  Tal qual o convertido Agostinho marajoara, também eu sou caboclo “educado” para matar ou morrer na dura lei da selva, que a sobrevivência nos sítios ensina sem compaixão. Aqui a gente não carecia de cartão de crédito, botijão de gás, vale transporte e cesta básica até há pouco tempo. A gente só precisava da ajuda de Deus primeiramente e, depois, de cachorro farejador, munição, espingarda e pontaria certeira. Fora disso, qualquer um se tornava “panema” e – Deus o livre! – precisava de caridade alheia todos os dias. Se desse, então, p’ra “mexer” na propriedade dos brancos a coisa ficava “peor” e cedo ou tarde, acabava dando com os costados na cadeia de São José...
Assim, a gente se ri do pessoal da cidade. Que, diz-que, quer porque quer o tal “desenvolvimento” a qualquer preço. E, subjugados à lei do Cão, ficamos ilhados e peiados a ver navios levar madeira de lei, minério e peixe ao estrangeiro a troco de um prato-feito de “lentilhas” na figura ridícula do salário mínimo (quando há). Por esta inglezia já fui adepto do Progresso e da Civilização. Por sorte, tive algum curupira por padrinho que me desviou do caminho da devastação. Tal qual, paresque, aconteceu com o parente Agostinho Batista. Eu escrevi loas à criação de um território federal do Marajó (anos 60) e fiz propaganda da hidrovia (anos 80), sem medir as conseqüências da economia de alguns quilômetros a menos entre Macapá e Belém. Continuo eu, sim, favorável à óbvia opção das hidrovias naturais da Amazônia. Que são os rios, com o mínimo de intervenção e o máximo de prudência científica e responsabilidade social e ambiental.
  Já pairava uma dúvida em meu espírito sobre a mais valia para a população tradicional entre uma reserva da biosfera ou a construção de um canal artificial de navegação de 32 quilômetros, rasgando áreas isoladas e quase intocadas. Eu não me impressionava com a conversa fiada do impacto ambiental sobre peixinhos misturados e confundidos – diziam – pelas águas emendadas. Quem conhece nossa hidrografia dava boas risadas dessa estória, com razão. Considero que não existe parto sem dor, assim como não há desenvolvimento econômico com custo ambiental zero. O que faz a diferença é a verdadeira questão do IDH da população local: o resto, conversa mole p’ra boi dormir...
Agora, todavia, percebo que a hidrovia não seria apenas um parto, mas um estupro. Tendo por vítima além da natureza também a gente ribeirinha, ao contrário do que se dizia... Muito me impressiona saber do enorme volume de mais de 13 milhões de metros cúbicos de terra, lama, biomassa e material orgânico a inevitavelmente entrar em decomposição, quando for retirado dos “mondongos” para dar lugar ao canal de navegação. Neste caso, o mínimo que se tem a fazer é ir em expedição tirar as dúvidas in loco, levando gregos e troianos ao terreno.
Onde será depositado o material extraído do “valão”, sem enterrar e entulhar o entorno? Aí mora o perigo. Para depositar mais longe, implicaria custos mais elevados que talvez justificassem alternativas que não a construção do canal. Dentre as quais, melhor aproveitamento dos cursos naturais com inovação tecnológica em equipamentos de transporte e navegação. Na verdade, a maioria dos membros do GDM não está convencida da necessidade do “furo” artificial, numa região que, por natureza, já se chama Furos de Breves.
Talvez os pesquisadores não soubessem, exatamente, e só ouviram falar do ecossistema a ser atravessado e alterado pela hidrovia. Nossas canoas motorizadas cruzam os centros da Ilha em diversas direções, ao tempo das cheias. A alegada abertura do canal para socorro de caboclos ilhados lembraria que a dragagem do Canal Tartarugas em meios a debates pela imprensa, depois de feita caiu em silêncio e não teve estudo a posteriori. De modo a prever as conseqüências possíveis sobre escavação de novo canal, este com maiores impactos para passagem de balsas e barateamento de fretes entre Macapá e Belém. Significativamente, uma região de extraordinária vocação hidroviária e de recursos aquáticos não tem centro de pesquisa e formação técnica especializada à altura do potencial.
Penso que uma alternativa à Hidrovia do Marajó se oferecerá a partir da Alça Viária, que ainda não havia nos anos 80; quando se aventou a idéia dessa ligação transmarajora em Macapá. Franklin Rebelo e eu (em artigo publicado em “O Liberal”) fizemos eco na imprensa em Belém sobre o assunto. Com o distrito industrial e portuário de Vila do Conde, entretanto, mudou-se o eixo viário do Pará em direção à bacia do Tocantins. Assim, em vez de abrir os centros da ilha do Marajó sem estudos ecológicos completos melhor será investir na perenização do lago Arari e na infra-estrutura portuária de Abaetetuba (centro tradicional de intercâmbio com as Guianas). Que, não só melhor atenderia o transporte hidroviário para as microrregiões de Portel e Furos de Breves, no Marajó, como também faria a ligação com a Zona Franca Santana-Macapá e a área metropolitana de Belém com transporte modal mais moderno e mais rápido, implicando, portanto em melhor produtividade. É claro que esta opção não existia ao começo dos estudos para o projeto em questão.
Tendo em vista a construção das eclusas de Tucuruí para aproveitamento da Hidrovia Araguaia-Tocantins, eventual operação de carga em Abaetetuba com destino ao Amapá e as Guianas poderá ser feita sem prejuízos com o cancelamento final do projeto da hidrovia do Marajó. Pois a ligação portuária Abaetetuba-Santana substituirá com vantagem a inicialmente prevista com projeção rodoviária para o Oiapoque em direção a Caiena e Puerto Ordaz (Venezuela) em face de Trinidad e Tobago e o rosário ilhéu do Caribe, via a hidrovia natural do Tajapuru.
Deste modo, entre mortos e feridos, escaparemos todos e o seringueiro Agostinho Batista agradecerá com o dueto com o Uirapuru da sua estimação, assistido alguma vez por ecoturistas maravilhados. Não antes que meu fraterno camarada Franklin Rebelo haja vencido o cruel isolamento da Contracosta. Com a inclusão da sua sonhada “Rodoleste (rodovia do leste marajoara) ao projeto governamental Costa do Sol. Pelo qual, a ligação em ferry-boat Barcarena – Ponta de Pedras se estenderá por estrada pelos campos de Ponta de Pedras aos campos de Cachoeira, continuando por Santa Cruz do Arari até às margens da Contracosta, em face da Ilha Mexiana.
A exemplo do Pantanal, o Marajó deve fazer opção preferencial pelo seu potencial ecológico com inovação tecnológica compatível, de modo a se tornar referência ecoturística do Pará. Muito melhor para todos e não apenas para alguns.

José Varella, do GDM.
Belém do Pará, 12/10/2003.

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

27 DE AGOSTO, DIA DA PAX DOS NHEENGAIBAS [MARAJOARAS].


(ilustração)



Vista da Igreja de Santo Alexandre (Foto de Geraldo Ramos)
igreja de Santo Alexandre e convento dos jesuítas no Pará (foto Geraldo Ramos), traçado do século XVIII por Antonio José Landi. O conjunto original, construído pelos próprios jesuítas no século XVII, onde teriam ocorrido os fatos relatados abaixo, foi modificado pelo arquiteto italiano.





COMENTÁRIOS


à carta do Padre Antônio Vieira, datada de 11 de fevereiro de 1660, feita em Belém do Pará e dirigida à Regente do reino de Portugal, Dona Luísa de Gusmão, na menoridade de Dom Afonso VI, sucessor de Dom João IV, este último chamado O Restaurador por ter restabelecido a independência de Portugal, em 1º de dezembro de 1640, dando fim à União Ibérica (1580-1640).




Vieira permaneceu no estado do Maranhão e Grão-Pará entre 1653 e 1661. Durante este período, crucial para posse portuguesa na Amazônia, recentemente conquistada com a tomada de São Luís do Maranhão (1615) e fundação de Belém do Pará (1616), ainda nos termos do tratado de limtes entre a Espanha e Portugal, assinado em Tordesilhas (Espanha) e 1494 e que seria substituído somente em 1750, pelo tratado de Madri.  Isto quer dizer que, segundo o supracitado tratado, a fronteira amazônica entre as duas coroas ibéricas passa sobre a chamada Costa-Fronteira do Pará (litoral oriental da ilha do Marajó), deixando a posse de Portugal da baía do Marajó a leste e para Espanha todo o arquipélago a oeste. 

A tomada de Gurupá, em 1623, com ajuda imprescindível dos guerreiros Tupinambás e o acordo de paz de Mapuá (Breves), em 1659, com os índios rebeldes de etnia Nuaruaques, chamados Nheengaíbas; possibilitaram a navegação pacífica de canoas de bandeira portuguesa entre o Rio Pará [Pará-Uaçu dos tupis, hoje a corruptela local Parauaú, donde a tradução Grão-Pará à língua portuguesa] e o Amazonas, promovendo a efetiva "ruptura" da linha de Tordesilhas em conformidade com uti possidetis do direito romano.

O papel histórico de Vieira na Amazônia portuguesa não se limitou apenas à catequese missionária. Está explicado pela geopolítica europeia do século XVII. Mais conhecido pela oratória, todavia o "payaçu dos índios" do Pará havia percebido claramente que a expulsão dos judeus e o antissemitismo na Península Ibérica eram principal causa da decadência dos reinos católicos, pela evasão de capital junto com mercadores de religião judaica. Consequentemente, a ascensão econômica e militar dos reinos Hereges (protestantes) da Holanda e Inglaterra.

A questão dos judeus obrigados a se converter cristãos na Espanha e em Portugal ficou conhecidos como "marranos" na Espanha e "cristãos-novos" em Portugal e gerou uma das mais odiosas perseguições na história da humanidade, somente superada pelo Holocausto durante o regime nazista na Alemanha. O tribunal do Santo Ofício foi instrumento desse crime contra os direitos humanos.

Educado na Bahia no colégio dos Jesuítas onde se tornou padre, Vieira entrou em contato com a catequese dos índios e viveu sobressaltos da invasão holandesa no Nordeste. Aos 33 anos de idades foi mandado a Portugal junto com delegação do governo geral do estado do Brasil jurar adesão da colônia ao novo rei Dom João IV. Logo ele conseguiu conquistar a confiança do monarca tornando-se conselheiro real. Preocupou-se do estado econômico do reino abalado pela guerra de independência e convenceu o rei a mudar de estratégia para a guerra defensiva: deste modo, os lavradores podiam retornar ao campo embora sempre alertas ao primeiro chamado às armas em caso dos espanhóis atravessar a fronteira. Com esta tática o reino conseguiu respirar e concentrar-se na diplomacia para reconhecimento de sua independência. Dom João nomeia Vieira como conselheiro do embaixador português na França e na Holanda, este é um período agitado, e inclusive uma missão especial em Roma para negociar o casamento do príncipe Dom Teodoro, que fracassou e anos depois o príncipe veio a falecer. A estrela de Viera começa a ser ofuscada por poderosos inimigos na corte, notadamente a ala mais conservadora e claramente antissemita dos chamados cristãos-velhos, fortemente arrimados na Inquisição.

Em Amsterdã (Holanda) Vieira entrou em contato com o rabino português Menassé ben Israel (Manoel Soeiro, nascido na ilha da Madeira). Este escreveu a obra "As Esperanças de Israelna qual propagava que os índios americanos seriam, em verdade, as Tribos Perdidas do Cativeiro da Babilônia e teve influência sobre o pensamento político de Vieira. De modo que, na Amazônia, ele iria encontrar um campo prático para colocar em ação aquelas ideias que já vinham sendo trabalhadas pelos Jesuítas na América Latina. 

O "Sermão aos Peixes", proferido em São Luís-MA em 1654 enquanto ele viajava quase clandestino para obter a Lei de abolição dos cativeiros indígenas (1655), é uma demonstração dessa teoria que se acha à raiz dos direitos humanos universais e mais tarde da Teologia da Libertação. A morte de Dom João IV, em 1656, teve grande consequências na conduta de Vieira. Desamparado e sentido que seus inimigos apertavam o laço; ele abandona o resto de prudência, a caminho da aldeia Camutá-Tapera [Cametá-PA] escreve secretamente ao confrade e confidente bispo do Japão (com sede em Lisboa), a famosa carta "As Esperanças de Portugal", em abril de 1659. 

No mesmo ano ele, como superior da Missão e tutor dos povos indígenas, na forma da Lei de 1655; mandou dois índios nheengaíbas (cativos do colégio de Santo Alexandre) como mensageiros aos rebeldes que dominavam as ilhas do Marajó e exasperavam a Câmara de Belém pelos assaltos às canoas de caça a escravos e extração das drogas da floresta; lhes propondo um acordo de paz. Claro está que a carta de 11/02/1659 é uma peça teatral destinada a causar efeito em Lisboa, todavia o documento deixa importantes pistas para estudo da história dos Tupinambás e Nheengaíbas - na guerra e na paz - como protagonistas da invenção da Amazônia Brasileira, prestes a comemorar 400 anos.





LITERATURA BRASILEIRA
Textos literários em meio eletrônico
Cópia de uma carta para El-Rei Nosso Senhor, do Padre Antônio Vieira

Edição referência:

Sermões, Padre Antônio Vieira. Vol. XII. Erechim: Edelbra, 1998

 

CÓPIA DE UMA CARTA PARA EL-REI NOSSO SENHOR
sobre as missões do Ceará, do Maranhão, do Pará e do grande Rio das Amazonas.
ESCRITA PELO PADRE ANTÔNIO VIEIRA da Companhia de Jesus, Pregador de Sua Majestade, e Superior dos religiosos da mesma Companhia naquela conquista. No ano de 1660.
SENHOR
Obedecendo à ordem geral e última de V. Majestade, dou conta a V. Majestade do estado em que ficam estas missões, e dos progressos com que por meio delas se vai adiantando a fé e cristandade destas conquistas, em que também se verá quão universal é a prudência com que Deus assista ao feliz reinado de Vossa Majestade em toda a Monarquia, pois no mesmo tempo em que do Reino se estão escrevendo vitórias milagrosas às conquistas, escrevemos das conquistas ao Reino também vitórias, que com igual e maior razão se podem chamar milagres. Lá vence Deus com sangue, com ruínas, com lágrimas e com dor da cristandade; cá vence sem sangue, sem ruínas, sem guerra; e ainda, sem despesas; e em lugar da dor e lágrimas dos vencidos - que em parte também toca aos vencedores - com alegria, com aplauso, e com triunfo de todos, e da mesma Igreja, que, quanto se sente diminuir e atenuar no sangue que derrama em Europa, tanto vai engrossando e crescendo nos povos, nações e províncias que ganha e adquire na América.
Trabalharam este ano nas missões desta conquista vinte e quatro religiosos da Companhia de Jesus, os quinze deles sacerdotes, divididos em quatro colônias principais do Ceará, do Maranhão, do Pará e do Rio das Amazonas. Nestas quatro colônias, que se estendem por mais de quatrocentas léguas de costa, tem a Companhia dez residências, que são como cabeças de diferentes cristandades a elas anexas, a que acodem os missionários de cada uma em contínua roda, segundo a necessidade e disposição que se lhes tem dado. O trabalho, sem encarecimento, é maior que as forças humanas, e, se não fora ajudado de particular assistência divina, já a missão estivera sepultada com os que nela por esta mercê do céu conservam e continuam as vidas.
O fruto corresponde abundantemente ao trabalho, porque é grande o número de almas de inocentes e adultos que dentre as mãos dos missionários, por meio do batismo, estão cotidianamente voando ao céu sendo muito maior a quantidade dos que, recebidos os outros sacramentos, nos deixam também certas esperanças de que se salvam. Porque, ainda que há outras nações de melhor entendimento para perceberem os mistérios da fé, e passar da necessidade dos preceitos à perfeição dos conselhos da lei de Cristo, não há porém nação alguma no mundo que ainda naturalmente esteja mais disposta para a salvação, e mais livre de todos os impedimentos dela, ou seja dos que traz consigo a natureza, ou dos que acrescenta a malícia. Estes são os frutos ordinários que se colhem e vão continuando nestas missões, em que há casos de circunstâncias mui notáveis, cuja narração e história se oferecerá a V. Majestade quando Deus e V. Majestade for servido de que tenhamos mãos para a seara e para a pena.
Vindo às coisas particulares, fizeram-se este ano três missões ou entradas pelos rios e terras adentro, e foram a ela três padres com seus companheiros, professos todos de quatro votos, e os mais antigos, e de maior autoridade em toda a missão por serem estas as empresas de maior trabalho, dificuldade e importância, toda por mercê de Deus, sucederam felizmente.
O padre Francisco Gonçalves, provincial que acabou de ser da Província do Brasil, foi em missão ao Rio das Amazonas e Rio Negro, que de ida e volta é viagem de mais de mil léguas, toda por baixo da linha equinocial, no mais ardente da Zona Tórrida. Partiu do Maranhão esta missão em quinze de agosto do ano passado de mil seiscentos cinqüenta e oito, e, atravessando por todas as capitanias do Estado, foi levando em sua companhia canoas, e procuradores de todas para o resgate dos escravos; e foi esta a primeira vez que o resgate se fez por esta ordem, para que os interesses dele coubessem a todos, e particularmente aos pobres, que sempre, como é costume, eram os menos lembrados.
Haverá catorze meses que continua a missão pelo corpo e braços daqueles rios, donde se tem trazido mais de seiscentos escravos, todos examinados primeiro pelo mesmo missionário, na forma das leis de V. Majestade. E já o ano passado se fez outra missão deste gênero aos mesmos rios, pelo padre Francisco Veloso, em que se resgataram e desceram outras tantas peças, em grande benefício e aumento do Estado, posto que não é esta a maior utilidade e fruto desta missão. Excede esta missão do resgate a todas as outras em uma diferença de grande importância, e é que nas outras missões vão-se somente salvar as almas dos índios, e nestas vão-se salvar as dos índios e as dos portugueses, porque o maior laço das consciências dos portugueses neste Estado, de que nem na morte se livravam, era o cativeiro dos índios, que sem exame, nem forma alguma de justiça, debaixo do nome de resgate, iam comprar ou roubar por aqueles rios. E a este grande dano foi V. Majestade servido acudir por meio dos missionários da Companhia, ordenando V. Majestade que os resgates se fizessem somente quando fossem missões ao sertão, e que só os missionários pudessem examinar e aprovar os escravos em suas próprias terras, como hoje se faz, e, depois de examinados e julgados por legitimamente cativos, os recebem, e pagam os compradores, conseguindo os povos por esta via o que se tinha por impossível neste Estado que era haver nele serviço e consciência. Assim que, Senhor, por mercê de Deus, e benefício da lei de V Majestade, se têm impedido as grandes injustiças, que na confusão e liberdade do antigo resgate se cometiam, que foi a ruína espiritual e temporal de toda esta conquista, sendo certo que, se o fruto deste gênero de missões se computar e medir, não só pelos bens que se conseguem, senão pelos males que se impedem e se atalham, se deve estimar cada uma delas por uma das grandes empresas e obras de maior serviço de Deus que tem toda a Cristandade. Além destes bens espirituais e temporais, se conseguem muitos outros, por meio da mesma missão, em todas as terras por onde passa, porque se batizam muitos inocentes e adultos, que estão no extremo perigo da vida, que logo sobem ao céu; e se descobrem novos  temas, novos rios e novas gentes, como agora se descobriram algumas nações onde nunca tinham chegado os portugueses, nem ainda agora chegaram mais que os padres. E assim como nas nossas primeiras conquistas se levantaram padrões das armas de Portugal em toda a parte onde chegavam os nossos descobridores, assim aqui se vão levantando os padrões da sagrada cruz, com que se vai tomando posse destas terras por Cristo e para Cristo.
Foi companheiro nesta missão o padre Manoel Pires, bem conhecido nesse Reino com o nome de clérigo de Paredes, o qual, depois da ermida e fonte milagrosa que o deu a conhecer naquele sítio, estando retirado em um ermo de Roma fazendo vida solitária, por particular instinto do céu, veio a pé a Portugal, e pediu ser admitido na Companhia, para servir a Deus nas missões do Maranhão; e já o tem feito nesta, e na do ano passado pelo mesmo Rio das Amazonas, com grande zelo das almas.


A segunda entrada se fez pelo grande Rio dos Tocantins, que é na grandeza o segundo de todo o Estado, e povoado de muitas nações, a que ainda se não sabe o nascimento. Foi a esta missão o padre Manoel Nunes, lente de prima de Teologia em Portugal, e no Brasil superior da casa e missões do Pará, mui prático e eloqüente na lingua geral da terra. Levou quatrocentos e cinqüenta índios de arco e remo, e quarenta e cinco soldados portugueses de escolta, com um capitão de infantaria. A primeira facção em que se empregou este poder foi em dar guerra, ou castigar certos índios rebelados de nação inheiguaras, que o ano passado, com morte de alguns cristãos, tinham impedido a outros índios da sua vizinhança que se descessem para a Igreja e vassalagem de V. Majestade. São os inheiguaras gente de grande resolução e valor, e totalmente impaciente de sujeição; e, tendo-se retirado com suas armas aos lugares mais ocultos e defensáveis das suas brenhas, em distância de mais de cinqüenta léguas, já foram buscados, achados, cercados, rendidos e tomados quase todos, sem dano mais que de dois índios nossos levemente feridos. Ficaram prisioneiros duzentos e quarenta, os quais, conforme as leis de V. Majestade, a título de haverem impedido a pregação do Evangelho, foram julgados por escravos, e repartidos aos soldados. Tirado este impedimento, entenderam os padres na conversão e condução dos outros índios, que se chamam poquiguarás, em que padeceram grandes trabalhos, e venceram dificuldades que pareciam invencíveis. Estava esta gente distante do rio um mês de caminho, oude não caminho, porque tudo são bosques cerrados, atalhados de grandes lagos e serras, e eram dez aldeias as que se haviam de descer, com mulheres, meninos, crianças, enfermos, e todos os outros impedimentos que se acham na transmigração de povos inteiros. Enfim, depois de dois meses de contínuo e excessivo trabalho e vigilância-que também era mui necessária chegaram os padres com esta gente ao rio, onde os embarcaram por ele abaixo para as aldeias do Pará, em número por todos até mil almas. Não se acabou aqui a missão, mas, continuando pelo rio acima, chegaram os padres ao sítio dos tupinambás, donde haverá três anos tínhamos trazido mil e duzentos índios, que todos se batizaram logo; e por ser a mais guerreira nação de todas, são hoje gadelha destas entradas. Os tupinambás que ficaram em suas terras seriam outros tantos como os que tinham vindo, e eram os que agora iam buscar os padres, mas acharam que estavam divididos em dois braços do mesmo rio, um dos quais, por ser na força do verão, se não podia navegar. Avistaram-se comestes por terra, e, deixando assentado com eles que se desceriam para o inverno, tanto que as primeiras águas fizessem o rio navegável, com os outros, que eram quatrocentos, se recolheram ao Pará, tendo gastado oito meses em toda a viagem, que passou de quinhentas léguas. Deixaram também arrumado o rio com suas alturas, diligência que até agora se não havia feito, e acharam pelo sol que tinham chegado a mais de seis graus da banda do sul, que é pouco mais ou menos a altura da Paraíba. Os índios, assim tupinambás como poquiguarás, se puseram todos nas aldeias mais vizinhas à cidade, para melhor serviço da República, a qual ficou este ano aumentada com mais de dois mil índios escravos e livres: mas nem por isso ficaram nem ficarão jamais satisfeitos seus moradores, porque, sendo os rios desta terra os maiores do mundo, a sede é maior que os rios.
Demais destas duas missões se fez outra à ilha dos nheengabas, de menos tempo e aparato, mas de muito maior importância e felicidade. Na grande boca do Rio das Amazonas está atravessada uma ilha de maior comprimento e largueza que todo o Reino de Portugal, e habitada de muitas nações de índios, que, por serem de línguas diferentes e dificultosas, são chamados geralmente nheengaíbas. Ao princípio receberam estas nações aos nossos conquistadores em boa amizade; mas depois que a larga experiência lhes foi mostrando que o nome de falsa paz, com que entravam, se convertia em declarado cativeiro, tomaram as armas em defensa da liberdade, e começaram a fazer guerra aos portugueses em toda à parte. Usa esta gente canoas ligeiras e bem armadas, com as quais não só impediam e infestavam as entradas, que nesta terra são todas por água, em que roubaram e mataram muitos portugueses, mas chegavam a assaltar os índios cristãos em suas aldeias, ainda naquelas que estavam mais vizinhas às nossas fortalezas, matando e cativando; e até os mesmos portugueses não estavam seguros dos nheengaíbas dentro de suas próprias casas e fazendas, de que se vêem ainda hoje muitas despovoadas e desertas, vivendo os moradores destas capitanias dentro em certos limites, como sitiados sem lograr as comodidades do mar, da terra e dos rios, nem ainda a passagem deles, senão debaixo das armas. Por muitas vezes quiseram os governadores passados, e ultimamente André Vidal de Negreiros, tirar este embaraço tão custoso ao Estado, empenhando na empresa todas as forças dele, assim de índios como de portugueses, com os cabos mais antigos e experimentados; mas nunca desta guerra se trouxe outro efeito mais que o repetido desengano de que as nações nheengaíbas eram inconquistáveis, pela ousadia, pela cautela, pela astúcia e pela constância de gente, e, mais que tudo, pelo sítio inexpugnável com que os defendeu e fortificou a mesma natureza É a ilha toda composta de um confuso e intrincado labirinto de rios e bosques espessos, aqueles com infinitas entradas e saídas, estes sem entrada nem saída alguma, onde não é possível cercar, nem achar, nem seguir, nem ainda ver ao inimigo, estando ele no mesmo tempo debaixo da trincheira das árvores, apontando e empregando as suas flechas. E por que este modo de guerra volante e invisível não tivesse o estorvo natural da casa, mulheres e filhos, a primeira coisa que fizeram os nheengabas, tanto que se resolveram à guerra com os portugueses, foi desfazer e como desatar as povoações em que viviam, dividindo as casas pela terra dentro a grandes distâncias, para que em qualquer perigo pudesse uma avisar às outras, e nunca ser acometidos juntos. Desta sorte ficaram habitando toda a ilha sem habitarem nenhuma parte dela, servindo-lhes porém em todas os bosques de muro, os rios de fosso, as casas de atalaia, e cada nheengaíbade sentinela, e as suas trombetas de rebate. Tudo isto referimos por relação de vista do padre João de Sotomaior, o qual, como o padre Salvador do Vale, no ano de seiscentos cinqüenta e cinco, navegou e pisou todos estes sertões dos nheengabas, entre os quais lhes ficou uma imagem de Cristo crucificado, que trazia no peito, a qual mandou a um príncipe gentio, em fé da verdade e da paz com que esperava por ele, o que o bárbaro não fez, nem restituiu a sagrada imagem. Foi este caso então mal interpretado de muitos, e mui sentido de toda a gente de guerra daquela entrada, de que era cabo e sargento-mor Agostinho Correia, que depois foi governador do Estado, o qual refere hoje que lhe disse então o padre Sotomaior que aquele Senhor, que se deixara ficar entre os nheengaíbas, havia de ser o missionário e apóstolo deles, e o que os havia de converter à sua fé.
Chegou, finalmente, o ano passado de mil seiscentos cinqüenta e oito o governador Dom Pedro de Melo com as novas da guerra apregoada com os holandeses, com os quais alguma das nações dos nheengabas há muito tempo tinham comércio, pela vizinhança dos seus portos com os do Cabo do Norte, em que todos os anos carregam de peixe-boi mais de vinte navios de Holanda. E entendendo as pessoas do governo do Pará que, unindo-se os holandeses com os nheengaíbas seriam uns e outros senhores destas capitanias, sem haver forças no Estado-ainda que se ajuntassem todas -para lhes resistir, mandaram uma pessoa particular ao governador, em que lhe pediam socorro e licença, para logo, com o maior poder que fosse possível, entrarem pelas terras dos nheengaíbas, antes que, com a união dos holandeses, não tivesse remédio esta prevenção, e com ela se perdesse de todo o Estado. Resoluta a necessidade e justificação da guerra, por voto de todas as pessoas eclesiásticas e seculares, com quem Vossa Majestade a manda consultar, foi de parecer o padre Antônio Vieira que enquanto a guerra se ficava prevenindo em todo o segredo, para maior justificação, e ainda justiça dela, se oferecesse primeiro a paz aos nheengaíbas, sem soldados nem estrondo de armas, que a fizessem suspeitosa, como em tempo de André Vidal tinha sucedido. E porque os meios desta proposição da paz pareciam igualmente arriscados, pelo conceito que se tinha da fereza da gente, tomou à sua conta o mesmo padre ser o mediador dela, supondo porém todos que não só a não haviam de admitir os nheengaíbas, mas que haviam de responder com as flechas aos que lhes levassem semelhante prática, como sempre tinham feito por espaço de vinte anos, que tantos tinham passado desde o rompimento desta guerra.
Em dia de Natal do mesmo ano de mil seiscentos cinqüenta e oito despachou o padre dois índios principais, com uma carta patente sua a todas as nações dos nheengaíbas, na qual lhes segurava que por benefício da nova lei de V. Majestade, que ele fora procurar ao Reino, se tinham já acabado para sempre os cativeiros injustos, e todos os outros agravos que lhes faziam os portugueses; e que, em confiança desta sua palavra e promessa, ficava esperando por eles, ou por recado seu, para ir às suas terras; e que em tudo o mais dessem crédito ao que em seu nome lhes diriam os portadores daquele papel. Partiram os embaixadores, que também eram de nação nheengaíba, e partiram como quem ia ao sacrifício-tanto era o horror que tinham concebido da fereza daquelas nações até os de seu próprio sangue, assim, se despediram, dizendo que se até o fim da lua seguinte não tomassem, os tivéssemos por mortos ou cativos. Cresceu e minguou a lua aprazada, e entrou outra de novo, e já antes deste termo tinham profetizado o mau sucesso todos os homens antigos e experimentados desta conquista, que nunca prometeram bom efeito a esta embaixada; mas provou Deus que valem pouco os discursos humanos onde a obra é de sua Providência. Em dia de Cinza, quando já se não esperava, entraram pelo colégio da Companhia os dois embaixadores vivos e mui contentes, trazendo consigo sete principais nheengaíbas, acompanhados de muitos outros índios das mesmas nações. Foram recebidos com as demonstrações de alegria e aplauso que se devia a tais hóspedes, os quais, depois de um comprido arrazoado, em que desculpavam a continuação da guerra passada, lançando toda a culpa, como era verdade, à pouca fé e razão que lhes tinham guardado os portugueses, concluíram dizendo assim: Mas depois que vimos em nossas terras o papel do padre grande, de que já nos tinha chegado fama de que, por amor de nós, e da outra gente da nossa pele, se tinha arriscado às ondas do mar alto, e alcançado de el-rei para todos nós as coisas boas, posto que não entendemos o que dizia o dito papel mais que pela relação destes nossos parentes, logo no mesmo ponto, lhes demos tão inteiro crédito que esquecidos totalmente de todos os agravos dos portugueses, nos vimos aqui meter entre suas mãos, e nas bocas das suas peças de artilharia, sabendo de certo que debaixo da mão dos padres, de quem já de hoje adiante nos chamamos filhos, não haverá quem nos faça mal. - Com estas razões tão pouco bárbaras desmentiram os nheengaíbas a opinião que se tinha da sua fereza e barbaria, e se estava vendo nas palavras, nos gestos, nas ações e afetos com que falavam, o coração e a verdade do que diziam. Queria o padre logo partir com eles às suas terras, mas responderam, com cortesia não esperada, que eles até aquele tempo viviam como animais do mato, debaixo das árvores; que lhes déssemos licença para que logo fossem descer uma aldeia para abeirado rio, e que depois que tivessem edificado a casa e igreja, em que receber ao padre, então, o viriam buscar muitos mais em número, para que fosse acompanhado, como convinha, sinalando nomeadamente que seria para o São João, nome conhecido entre estes gentios, pelo qual distinguem o inverno da primavera. Assim o prometeram, ainda mal cridos, os nheengaíbas, e assim o cumpriram pontualmente, porque chegaram às aldeias do Pará cinco dias antes da festa de São João, com dezessete canoas, que, com treze da nação dos combocas, que também são da mesma ilha, faziam número de trinta; e nelas outros tantos principais, acompanhados de tanta e boa gente, que a fortaleza e cidade se pôs secretamente em armas.
Não pôde ir o padre nesta ocasião, por estar mortalmente enfermo; mas foi Deus servido que o pudesse fazer em dezesseis de agosto, em que partiu das aldeias do Comutá em doze grandes canoas, acompanhado dos principais de todas as nações cristãs, e de somente seis portugueses, com o sargento-mor da praça, por mostrar maior confiança. Ao quinto dia de viagem entraram pelo rio dos mapuaeses, que é a nação dos nheengaíbas que tinha prometido fazer a povoação fora dos matos, em que receber aos padres; e duas léguas antes do porto saíram os principais a encontrar as nossas canoas em uma sua grande e bem equipada, empavesada de penas de várias cores, tocando buzinas, e levantando pocemas, que são vozes de alegria e aplauso, com que gritam todos juntos a espaços; e é a maior demonstração de festa entre eles, com que também de todas as nossas se lhes respondia. Conhecida a canoa dos padres, entraram logo nela os principais, e a primeira coisa que fizeram foi presentar ao padre Antônio Vieira a imagem do santo Cristo do padre João de Sotomaior, que havia quatro anos tinham em seu poder, e de que se tinha publicado que os gentios a tinham feito em pedaços, e que, por ser de metal, a tinham aplicado a usos profanos, sendo que a tiveram sempre guardada, e com grande decência, e respeitada com tanta veneração e temor, que nem a tocá-la, nem ainda a vê-la se atreviam. Receberam os padres aquele sagrado penhor com os afetos que pedia a ocasião, reconhecendo eles, os portugueses, e ainda os mesmos índios, que a este divino Missionário se deviam os efeitos maravilhosos da conversão e mudança tão notável dos nheengabas, cujas causas se ignoravam. Logo disseram que desde o princípio daquela lua estiveram os principais de todas as nações esperando pelos padres naquele lugar, mas que, vendo que não chegavam ao tempo prometido, nem muitos dias depois, resolveram que o padre grande devia de ser morto, e que com esta resolução se tinham despedido, deixando porém assentado antes que dali a catorze dias se ajuntariam outra vez todos em suas canoas, para irem ao Pará saber o que passava, e, se fosse morto o padre, chorarem sobre a sua sepultura, pois já todos o reconheciam por pai. Chegados, enfim, à povoação, desembarcaram os padres, com os portugueses e principais cristãos, e os nheengarbas naturais os levaram à igreja que tinham feito de palma, ao uso da terra, mas muito limpa e concertada, à qual logo se dedicou a sagrada imagem, com o nome da igreja do Santo Cristo, e se disse o Te Deum laudamus em ação de graças. Da igreja a poucos passos trouxeram os padres para a casa que lhes tinham preparado, a qual estava muito bem traçada, com seu corredor e cubículos, e fechada toda em roda com uma só porta, enfim, com toda a clausura que costumam guardar os missionários entre os índios. Mandou-se logo recado às nações, que tardaram a vir mais ou menos tempo, conforme a distância; mas enquanto não chegaram as mais vizinhas, que foram cinco dias, não esteve o demônio ocioso introduzindo nos ânimos dos índios, e ainda dos portugueses, ao princípio por meio de certos agouros, e depois pela consideração do perigo em que estavam, se os nheengaíbas faltassem à fé prometida, tais desconfianças, suspeitas e temores, que faltou pouco para não largarem a empresa, e ficar perdida e desesperada para sempre. A resolução foi dizer o padre Antônio Vieira aos cabos que lhe pareciam bem as suas razões, e que conforme a elas se fossem embora todos, que ele só ficaria com seu companheiro, pois só a eles esperavam os nheengaíbas, e só com eles haviam de tratar. Mas no dia seguinte começou a entrar pelo rio, em suas canoas, a nação dos mamaianases, de quem havia maior receio, por sua fereza, e foram tais as demonstrações de festa, de confianças, e de verdadeira paz que nesta gente se viram, que as suspeitas e temores dos nossos se foram desfazendo, e logo os rostos e os ânimos e as mesmas razões e discursos, se vestiram de diferentes cores.
Tanto que houve bastante número de principais, depois de se lhes ter praticado largamente o novo estado das coisas, assim pelos padres como pelos índios, das suas doutrinas, deu-se ordem ao juramento de obediência e fidelidade; e para que se fizesse com toda a solenidade de cerimônias exteriores-que valem muito com gente que se governa pelos sentidos - se dispôs e fez na forma seguinte: ao lado direito da igreja estavam os principais das nações cristãs, com os melhores vestidos que tinham, mas sem mais armas que as suas espadas; da outra parte estavam os principais gentios, despidos e empenados ao uso bárbaro, com seus arcos e flechas na mão, e entre uns e outros os portugueses. Logo disse Missa o padre Antônio Vieira, em um altar ricamente ornado, que era da Adoração dos Reis, à qual Missa assistiam os gentios de joelhos, sendo grandíssima consolação para os circunstantes vê-los bater nos peitos, e adorar a Hóstia e o Cálix, com tão vivos efeitos daquele preciosíssimo sangue, que, sendo derramado por todos, nestes, mais que em seus avós, teve sua eficácia. Depois da Missa assim revestido nos ornamentos sacerdotais, fez o padre uma prática a todos, em que lhes declarou, pelos intérpretes, a dignidade do lugar em que estavam; e a obrigação que tinham de responder com limpo coração, e sem engano, a tudo o que lhes fosse perguntado, e de o guardar inviolavelmente depois de prometido. E logo fez perguntar a cada um dos principais se queriam receber a fé do verdadeiro Deus, e ser vassalos de el-rei de Portugal, assim como o são os portugueses, e os outros índios das nações cristãs e avassaladas, cujos principais estavam presentes, declarando-lhes juntamente que a obrigação de vassalos era haverem de obedecer em tudo às ordens de Sua Majestade, e ser sujeitos a suas leis, e ter paz perpétua e inviolável com todos os vassalos do mesmo senhor, sendo amigos de todos seus amigos, e inimigos de todos seus inimigos; para que nesta forma gozassem livre e seguramente de todos os bens, comodidades e privilégios, que pela última lei, do ano de mil seiscentos cinqüenta e cinco, eram concedidos por Sua Majestade aos índios deste Estado. A tudo responderam todos conformemente que sim, e um principal, chamado Piié, o mais entendido de todos, disse que não queria prometer aquilo. E como ficassem os circunstantes suspensos na diferença não esperada desta resposta, continuou dizendo que as perguntas e as práticas que o padre lhes fazia que as fizesse aos portugueses, e não a eles, porque eles sempre foram fiéis a el-rei, e sempre o reconheceram por seu senhor desde o princípio desta conquista, e sempre foram amigos e servidores dos portugueses; e que, se esta amizade e obediência se quebrou e interrompeu, fora por parte dos portugueses, e não pela sua; assim, que os portugueses eram os que agora haviam de fazer ou refazer as suas promessas, pois as tinham quebrado tantas vezes, e não ele e os seus, que sempre as guardaram, Foi festejada a razão do bárbaro, e agradecido o termo com que qualificava sua fidelidade; e logo o principal que tinha o primeiro lugar se chegou ao altar onde estava o padre, e lançando o arco e flechas a seus pés, posto de joelhos, e com as mãos levantadas, e metidas entre as mãos do padre, jurou desta maneira: Eu, fulano, principal de tal nação, em meu nome, e de todos meus súditos e descendentes, prometo a Deus e a el-rei de Portugal a fé de nosso Senhor, JESUS Cristo, e de ser - como já sou de hoje em diante - vassalo de Sua Majestade, e de ter perpétua paz com os portugueses, sendo amigo de todos seus amigos, e inimigo de todos seus inimigos; em obrigo de assim o guardar e cumprir inteiramente para sempre. -Dito isto, beijou a mão do padre, de quem recebeu a bênção, e foram continuando os demais principais por sua ordem na mesma forma. Acabado o juramento, vieram todos pela mesma ordem abraçar aos padres, depois aos portugueses, e ultimamente aos principais das nações cristãs, com os quais também tinham até então a mesma guerra que com os portugueses; e era coisa muito para dar graças a Deus ver os extremos de alegria e verdadeira amizade com que davam e recebiam estes abraços, e as coisas que a seu modo diziam entre eles. Por fim, postos todos de joelhos, disseram os padres o Te Deum laudamus, e saindo da igreja para uma praça larga, tomaram os principais cristãos os seus arcos e flechas, que tinham deixado fora, e, para demonstração pública do que dentro da igreja se tinha feito, os portugueses tiravam as balas dos arcabuzes, e as lançavam no rio, e disparavam sem bala; e logo uns e outros principais quebravam as flechas e tiravam com os pedaços ao mesmo rio,cumprindo-se aqui a letra: Arcum conteres, et confringet arma. - Tudo isto se fazia ao som de trombetas, buzinas, tambores, e outros instrumentos, acompanhado de um grito contínuo de infinitas vozes, com que toda aquela multidão de gentes declarava sua alegria, entendendo-se este geral conceito em todas, posto que eram de mui diferentes línguas. Desta praça foram juntos todos os principais com os portugueses, que assistiram ao ato, à casa dos padres, e ali se fez termo jurídico e autêntico de tudo o que na igreja se tinha prometido e jurado, que assinaram os mesmos principais, estimando muito, como se lhes declarou, que os seus nomes houvessem de chegar à presença de V. Majestade, em cujo nome se lhes passaram logo cartas, para em qualquer parte e tempo serem conhecidos por vassalos. Na tarde do mesmo dia deu o padre seu presente a cada um dos principais, como eles o tinham trazido, conforme o costume destas terras, que a nós é sempre mais custoso que a eles. Os atos desta solenidade que se fizeram foram três, por não ser possível ajuntarem-se todos no mesmo dia; e os dias que ali se detiveram os padres, que foram catorze, se passaram todos, de dia, em receber e ouvir os hóspedes, e de noite em contínuos bailes, assim das nossas nações como das suas, que, como diferentes nas vozes, nos modos, nos instrumentos e harmonia, tinham muito que ver e que ouvir. Rematou-se este triunfo da fé com se arvorar no mesmo lugar o estandarte dela, uma formosíssima cruz, na qual não quiseram os padres que tocasse índio algum de menor qualidade, e assim foram cinqüenta e três principais os que a tomaram aos ombros, e a levantaram com grande festa e alegria, assim dos cristãos como dos gentios, e de todos foi adorada. As nações de diferentes línguas, que aqui se introduziram, foram os mamaianás, os aroãs e os anaiás, debaixo dos quais se compreendem mapuás, paucacás, guajarás, pixipixis, e outros. O número de almas não se pode dizer com certeza; os que menos o sabem dizem que serão quarenta mil, entre os quais também entrou um principal dos tricujus, que é província à parte na terra firme do Rio das Amazonas, defronte da ilha dos nheengaíbas; e é fama que os excedem muito em número, e que uns e outros fazem mais de cem mil almas. Deixou o padre assentado com estes índios que no inverno se saíssem dos matos, e fizessem suas casas sobre os rios, para que no verão seguinte os pudesse ir ver todos as suas terras, e deixar alguns padres entre eles, que os comecem a doutrinar; e com estas esperanças se despediu, deixando-os todos contentes e saudosos. Pareceu aos padres trazerem consigo, até tomarem, a imagem do Santo Cristo, a qual, por comum aplauso e devoção do clero, das religiões e da República, foi recebida na cidade do Pará em soleníssimo triunfo, dando todos a glória de tamanha empresa a este Senhor, e confessando que só era e podia ser sua.
Este é, senhor, por maior-e sem casos particulares e de muita edificação, por brevidade-o fruto que colheram este ano na inculta seara do Maranhão os missionários de V Majestade, e estes os aumentos da fé e da Igreja, que conseguiram com seus trabalhos, não sendo de menor consideração e conseqüência as utilidades temporais e políticas que por este meio acresceram à coroa e Estados de V Majestade, porque, os que consideram a felicidade desta empresa, não só com os olhos no céu, senão também na terra, têm por certo que neste dia se acabou de conquistar o Estado do Maranhão, porque com os nheengaíbas por inimigos, seria o Pará de qualquer nação estrangeira que se confederasse com eles; e com os nheengaíbas por vassalos e por amigos, fica o Pará seguro, e impenetrável a todo o poder estranho. O mesmo entenderam a respeito dos índios tobajarás, da Serra de Ibiapaba, todos os capitães mais antigos e experimentados desta conquista, os quais o ano passado, sendo chamados a conselho pelo governador, sobre as prevenções que se deviam fazer para a guerra que se temia dos holandeses, responderam todos uniformemente que não havia outra prevenção mais que procurar por amigos os índios tobajarás da serra, porque quem os tivesse da sua parte, seria senhor do Maranhão. Estes índios de Ibiapaba, como já dei conta a V. Majestade, por espaço de vinte e quatro anos, em que esteve tomado Pernambuco, foram não só aliados, mas vassalos dos holandeses, e ainda cúmplices das suas heresias; mas depois que foram em missão a esta gente dois religiosos da Companhia, que residem sempre com eles, sobre estarem convertidos à fé os que eram gentios, e reconciliados coma Igreja os que eram cristãos, assim eles, como todos os outros índios daquela costa, estão reduzidos à obediência de V. Majestade, e ao comércio e amizade dos portugueses, e ainda a viver nas mesmas terras do Maranhão, aonde muitos se têm passado. Assim que, Senhor, o Estado do Maranhão até agora estava sitiado de dois poderosos inimigos, que o tinham cercado e fechado entre os braços de um e outro lado, porque, pela parte do Ceará o tinham cercado os tobajarás da serra, e pela parte do Cabo do Norte - que são os dois extremos do Estado - os nheengaíbas, E como estas nações ambas tinham comunicação com os holandeses, e viviam de seus comércios, já se vê os danos que desta união se podiam temer, que, ajuízo de todos os práticos do Estado, não era menos que a total ruína Mas de todo este perigo e temor foi Deus servido livrar aos vassalos de V. Majestade, por meio de dois missionários da Companhia, e com despesa de duas folhas de papel, que foram as que de uma e outra parte abriram caminho à paz e à obediência, com que V Majestade tem hoje estas formidáveis nações, não só conquistadas e avassaladas para si, senão inimigas declaradas e juradas dos holandeses, conseguindo Deus por tão poucos homens desarmados, em tão poucos dias, o que tantos governadores em mais de vinte anos, com soldados, com fortalezas, com presídios e com grandes despesas, sempre deixaram em pior estado, para que acabe de entender Portugal, e se persuadam os reais ministros de V. Majestade, que os primeiros e maiores instrumentos da conservação e aumento desta Monarquia são os ministros da pregação e propagação da fé, para que Deus a instituiu e levantou no mundo.
O que agora representamos, senhor, prostrados todos os religiosos destas missões aos reais pés de V. Majestade, é que seja V. Majestade servido de mandar acudir-nos, e acudir estas almas com o socorro pronto que é necessário, para que se conserve o que se tem adquirido. Toda a conservação destes índios, e a perseverança na fé e lealdade que têm prometido, consiste em assistirem com eles alguns religiosos da Companhia, que os vão sustentando e confirmando nela, e desfazendo qualquer ocasião ou motivo que se ofereça em contrário; e, sobretudo, que sejam sua rodela, como eles dizem, contra o mau trato dos portugueses, de que só se pode desconfiar e de que só dão por seguros debaixo do amparo e patrocínio dos padres. Podem vir padres do Brasil, podem vir padres de nações estrangeiras, mas os mais prontos e efetivos são os que podem vir de Portugal em menos de quarenta dias de viagem. A matéria é tão importante, e de tão perigoso regresso, que não sofre dilação; e, assim, esperamos sem falta, até a monção de março, o socorro que pedimos. Sirva-se V. Majestade, senhor, de mandar vir para esta missão um numeroso socorro destes soldados de Cristo e de V. Majestade, e por cada um prometemos a V. Majestade muitos milhares de vassalos, não só que nós iremos buscar aos matos, senão que eles mesmos venham a buscar-nos, de que cada dia temos novos embaixadores. Tanto tem importado à fé a fama das novas leis de V. Majestade, e dos missionários que a pregam e as defendem. A muito alta e muito poderosa pessoa de V. Majestade guarde Deus, como a Cristandade, e os vassalos de V. Majestade havemos mister. Maranhão, 11 de fevereiro de 1660.
P. Antônio Vieira 





moradores do rio Mapuá (município de Breves - Marajó - Pará) chegando à comunidade Santa Rita para inauguração de Posto Municipal de Saúde: descendentes dos Nheengaíbas, Criaturada grande de Dalcídio Jurandir.