quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Agostinho Batista, poeta seringueiro, embaixador da Criaturada grande de Dalcídio.



Mestre Agostinho Batista, da Universidade da Maturidade (UMA),
Universidade Federal do Tocantins - UFT





Flauta e Uirapuru no encanto da Mata Atuá-Anajás

Em memória de Rodolpho Antonio Pereira,
meu pai. Aprendiz de música que se prezava
de ter sangue cabano e descender de índios.

Não direi (dizendo) como Pascal, “creio, porque é Absurdo!”. Mas, tão simplesmente, creio. Porque pelo sentimento do seu coração o plácido caboclo Agostinho Batista achou a paz universal, no umbro das matas do alto Atuá e Anajás. Misterioso cerne da Biodiversidade, que antigamente o profeta Isaias anunciou e o Santo de Assis cantou sem contradição nenhuma com a Ciência pura. Por necessidade e acaso aos centros da Ilha do Marajó, no delta estuarino do “Mar Doce”: o maior rio do Planeta. Enquanto o seringueiro solfejava a flauta doce p’ra matar as suas mágoas ele se viu, face à face, diante da sutil presença da poesia concreta. Viva, alada e sonante. Que só vendo para crer mais do que nunca.
Naturalmente, a maravilha se fez plumas e canto do Uirapuru como a leveza do ar que se respira com aroma de flor silvestre. Naquela hora suspensa dos movimentos aparentes do dia, no sítio mágico não se duvidaria do poder divino da mãe Natureza. Como da aparição da Virgem a qualquer andarilho vagamundo, em busca de salvação da sua vida. Abriu-se na humana consciência da biosfera um espaço que antes jazia oculto desde o descobrimento do Novo Mundo, um portal ao mundo novo.
Na verdade, o paraíso procurado na terra não estava ali nas cabeceiras dos contravertentes do Amazonas e Pará, pelos âmagos preservados da Ilha do Marajó entre árvores de borracha e lagos encantados no esquecimento da devastação amazônica. Coração (quase) imaculado da Ilha Grande. Que, no dizer do naturalista Alexandre Rodrigues Ferreira, era a “menina dos olhos” do inspetor Florentino da Silveira Frade (talvez o autor anônimo da primeira Notícia Histórica da Ilha, na metade o século XVIII, donde o sábio da Viagem Filosófica bebeu nas primeiras fontes a fim de escrever também a sua Notícia de 1783, baseada naquela e aumentada de observações e impressões próprias). Tampouco se recuperaria o Jardim do Éden pelo remendo social de Missunga, herdeiro do coronel Coutinho, no rio Paricatuba (na foz do Marajó-Açu), onde meu pai dizia os tangarás-da-mata outrora vinham bailar a horas mortas do dia, constante das páginas do romance Marajó, de seu irmão Dalcídio. Mas, o caminho à primitiva morada sagrada passava perto das cabeceiras do Atuá-Anajás, qualquer um acreditaria ao ouvir o que tem a dizer o seringueiro e folclorista Agostinho Batista, tradicional morador do Muaná. Alarmado com a perspectiva de dragas e tratores entrarem triunfantes como o Dragão da maldade rio acima a profanar o sítio onde o caboclo toca flauta e o Uirapuru canta.
Dirão os coloniais “cegos” do Sermão aos Peixes do padre Vieira, é a Preguiça mãe de todos os vícios. Direi com os sociólogos e economistas humanistas, é o Ócio pai e mãe da filosofia e apanágio de nobres cidadãos, que em exigência crescente não sabem donde vem o que consomem e querem sempre do bom e do melhor... O desequilíbrio ecológico começa no coração do homem consumidor nas cidades: não será levando o alienado “progresso” urbano aos sertões, mas – ao contrário – importando a paz do interior para as ruas, casas e apartamentos de mini-cidades e aldeias sustentáveis que a gente haverá futuro algum dia.
Como se sabe, uirapurus e tangarás são indicadores biológicos da devastação da natureza, pois só sobrevivem na mata virgem. Eis a questão sucinta do caboclo do Muaná, decidido a não trocar a primogenitude da sua gente naquele rio por um “prato de lentilhas” sob forma de cestas básicas ou salário-mínimo. Argumento que na maioria das vezes daria ar de riso a arrogantes devotos do deus Progresso (já se sabe que não de graça), acostumados que estão a passar por cima de tais ponderações “românticas”. E, portanto, estamos todos na cidade ou no interior “no mato sem cachorro” e nos mais diferentes recantos do globo os ricos cada vez mais ricos, os pobres cada vez mais pobres. E como a “coisa” já foi longe demais deliberei por consciência própria e fidelidade da defesa do Povo marajoara, dar eco ao singelo apelo de meu colega caboclo Agostinho Batista.
Mas, do mesmo modo como o milagre se manifestou a ele daquele modo; também no seu vivo argumento dá-se casamento justo e perfeito da fé com a razão. Ou, melhor dizendo o verdadeiro equilíbrio entre a qualidade de vida e o ganha pão dessa gente do fim do mundo. Pelo que valeria a pena assinalar o sítio desse acontecimento extraordinário como algo maior: nunca menos que uma ermida dedicada à Nossa Senhora do Tempo ou do Livramento, conforme a tradição dessa nossa gente católica iberiana. Assim como carece ainda recuperar, no Mapuá, o sítio da Igreja do Santo Cristo que os sete caciques nheengaíbas levantaram e o padre Antônio Vieira consagrou para todos juntos – marajoaras, tupinambás e portugueses – celebrarem a paz do Grão-Pará (Amazônia). Ora, quem conhecer a antropologia americana levantaria as mãos aos céus, ao saber desse acontecimento singular da história da Amazônia brasileira.

O lugar onde todos os lugares se resumem ou a quarta dimensão

Quando Uirapuru canta a mata se encanta. Tudo queda em silêncio e paz, dizem velhos mateiros calejados da “lei da selva”. E, portanto, aquele evento extraordinário seria ponto certo de Mutação para nova ciência do espaço-tempo relativo: na ínfima fração de um décimo de segundo, a eternidade se fazia presente. Pois, enquanto a paz é infinita a vida fica mais bonita no seio da maré. Todos os tempos e lugares se resumiram num único Lugar: que nem o Aleph, do vidente e escritor cego Jorge Luís Borges.
Paresque, o cantador da mata virgem surge do nada e ao nada retorna após o concerto.  Por acaso, o som doce da flauta do seringueiro atraiu o passarinho em necessidade de companhia. Quando um tocava, o outro calava: e tudo era a mesma música. O profano e o sagrado interagiam naquele concerto da mata virgem, que vinha da preteridade do mundo, desde os Princípios.
Pelo fio do tempo se desatava a Corda da romaria tecida de elétrons, íons, prótons, nêutrons e a infinidade de coisas que a gente não sabe e talvez nunca jamais há de saber... (com amável licença do filósofo da Latinidade, Edgar Morin). Aí, o tempo marajoara passava gota a gota. Como o sereno caindo fino das folhas, madrugada adentro, durante a evapotranspiração da floresta. Devagar, devagarzinho, quase parando... Isto o caboclo achava muito bom. Não carecia pressa ou lucro. Mas porém, não há dinheiro nenhum que pague.
Não é curioso, por exemplo, que no Velho Mundo se considera o leão, devido à força, “rei” dos animais. E, na Amazônia, um simples passarinho com sua simplicidade e canto maravilhoso reina e encanta a floresta? Que sentido o mundo poderia tirar desta lição da natureza?  Quando se sabe, ademais, que aqui vieram convergir anseios de conquista incontroláveis, com tribos antropófagas e guerreiros medievais movidos compulsivamente por ambições de diferentes paraísos. Nós não somos ingênuos quando às diversas cobiças de Norte ou Sul, aqui na faixa do Equinócio. Porém temos esperança – pela paz verde do Uirapuru – em conquistar o mundo, convencendo-o primeiramente de que a região equatorial não é “celeiro” nem “almoxarifado” de ninguém. Mas, nada menos que oportunidade única de se criar uma nova civilização. Este é o dilema amazônico, na metáfora da herança primordial e o evasivo prato feito de lentilhas do imediatismo da fome desde as Origens, que as Escrituras falaram. Erro secular do nosso colonialismo congênito.

O empate da hidrovia e a mais valia da biosfera

A Vila de Muaná (1823) já nos deu régua e compasso. O desconhecido rio dos Mapuá (1659) mostrou a autodeterminação das nações indígenas marajoaras a todo mundo – velho ou novo – a caminho da justiça e da paz. Enfim, a Ilha Grande de Joanes ou Marajó (aliás, Analáu Hohynkáku, Marinatambalo, Ilha Grande dos Nheengaíbas, idem dos Aruans) foi vestibular do sábio Alexandre Rodrigues Ferreira (ajudado pelo inspetor Florentino da Silveira Frade e o sargento-mor índio Severino dos Santos), na Viagem Filosófica ao interior da Amazônia, e nos mandou a sua Notícia Histórica (1873).
Aqueles que, num simulacro de democracia, decidem graciosamente sobre o destino da brava gente marajoara sem a escutar e interpretar legítima e verdadeiramente. Ou falam de boca cheia sobre “a maior ilha marítimo-fluvial do mundo” no estuário da maior bacia fluvial do planeta; por acaso, sem jamais saber o que significa sobreviver naquelas condições ilhadas:
Já leram sobre a Carta-Patente do Pe. Antônio Vieira aos Sete Caciques Nheengaíbas? Sabem todas as conseqüências históricas e jurídicas da resposta (sem a qual a viagem de Pedro Teixeira teria sido mera curiosidade geográfica semelhante à “descoberta” das amazonas por Orellana e a revogação da “linha” de Tordesilhas impossível, em 1750) à luz do Direito Internacional moderno e suas possíveis interpretações no campo da democracia contemporânea? Tiveram eles a acima dita Notícia Histórica? Conservam dela o essencial sobre a antiguidade humana e a riqueza biogeográfica da ilha? Que o naturalista diz ter visto nesta Ilha Grande (50 mil km², povoada desde 1000 anos antes da Era Cristã) o potencial de uma província. E, pode-se dizer até, credencial suficiente para as Ilhas ser consideradas os “Países-Baixos” do novo trópico, por exemplo.
Os nobres senhores sabem a história verdadeira da adesão do Pará à independência do Brasil? Os amazônidas não faziam parte do Brasil antes de 1823 (isto é, há apenas 180 anos), nem o Grão-Pará esteve diretamente ligado ao Vice-Reino do Brasil durante a permanência da Família Real no Rio de Janeiro, mas sempre ao Reino de Portugal. Os paraenses deliberaram conquistar a nacionalidade brasileira, a 14 de Abril em Belém; e proclamaram tal decisão, a 28 de Maio em Muaná, pagando o gesto de liberdade com o próprio sangue. Porém, o arreglo neocolonial de 15 de agosto deixou cair a máscara ente 16 e 17 de outubro; perpetuando a humilhação do Povo do Pará até à convulsão popular de 1835 e a repressão genocida de 1836 a 1840: traições e falsificações históricas hereditárias e a previsível ira popular.
Se honestamente os senhores não sabem – pelo amor à República Federativa e à pátria comum latino-americana de seus filhos e netos – voltem depressa aos bancos escolares. E escutem, por favor, o que essa gente cabocla tem a dizer! Pois, a repetência colonial do gigante adormecido Brasil no berço esplêndido da América do Sol ainda não deixou aprender a lição: não há meio que se sustente nem ambiente que preste, onde a gente da terra for excluída dos benefícios da Obra. Os ecos da Cabanagem reboando pelas entranhas da varja nos açaizais povoados de más lembranças, em frente à cidade, não nos deixam dormir sossegados...
Então, vi o velho seringueiro conhecido de Chico Mendes e afeiçoado amigo de Giovanni Gallo (que Deus os tenha). Ele falava a verdade do seu sentimento quando explicava as razões contra a escavação e dragagem do canal da Hidrovia do Marajó nas cabeceiras dos rios Atuá e Anajás. Achou importante que se cogitasse, na hora, implantar na Ilha uma reserva da biosfera. Este assunto ele pouco entende, porém aprovaria qualquer coisa para deixar de lado a destruição de lagos e matas donde extraiu as mais interessantes lendas do seu repertório e as cento e tantas “estradas” de seringa que foram sustento de sua gente.
Dizendo ele que, ao contrário do que se ouve a favor da obra de seus pesadelos, os caboclos ribeirinhos nada têm a ganhar com o projeto adorado por alguns empreiteiros e transportadores de carga. Que a gentinha dos rios apartados tem seus nomes tomados em vão para dourar a pílula da devastação daqueles estirões. Que, na verdade, seria deixada a ver navios. Visto que a hidrovia não mostra nenhuma ação direta de inclusão social se não em tese, com os decantados benefícios indiretos do “progresso”. Mas tão só a redução de alguns quilômetros para economia de fretes e aumento de lucros no transporte de cargas.
Segundo deu a entender, em vez de fixar caboclos nas terras de seus antepassados, a súbita abertura de trechos isolados à concorrência de fora seria mais depressa motivo para os ribeirinhos deixarem os sítios da sua pobreza e ir aumentar invasões da miséria nos subúrbios das cidades, à vizinhança de outros atropelados do Desenvolvimento. Em princípio, o nosso amigo seringueiro não é contra hidrovias. Aliás, o que é um rio navegável? Por que não cuidam antes das “hidrovias” naturais que são rios, furos, lagos e igarapés? Será que só vale a pena meter draga onde seria melhor conservar a natureza? Há – diz ele –, qualquer coisa que não entende nessa discussão. E, portanto, está contra – tão-só – à destruição de recantos remotos da sua estimação, nas funduras da mata entre rios Atuá-Anajás.
Crente do poder divino das coisas naturais e sobrenaturais gravou na memória cenas vividas na solidão dos centros da Ilha Grande. Onde plasmódio e curupiras fazem permanente morada. E onde o comum dos mortais nunca meteu os pés ou jamais colocou as mãos em cima. O atento ouvinte parece ver nas pupilas acendidas daquele um a vidência de tempos pretéritos e futuros, como num filme que o próprio personagem vai narrando com voz firme e serena.

Primeira Conferência de Meio Ambiente do Marajó

O tempo, vários ataques de malária e carências mil da lida botaram marcas inconfundíveis no amável rosto do seringueiro. A gente acabava de ouvir histórico discurso proferido pela senhora prefeita de Muaná, anfitriã do encontro, dona Ortensia Guimarães. Digna matriarca na melhor tradição marajoara do relevante papel da mulher na comunidade. A gestora marajoara declarou abraçar a causa da reserva da biosfera em Marajó, proposta pelo Grupo em Defesa do MarajóGDM, a Cooperativa Ecológica das Mulheres Extrativistas do MarajóCEMEM e a Corporação Associativo-Ambiental PanamazônicaCAMPA; acolhida por unanimidade no encontro de Muaná.
Causou-nos grata surpresa a Conferência preparatória às conferências de Belém e Brasília, donde partiu o apelo democrático do Marajó dirigido à ONU, através da República Federativa do Brasil, que não poderia ter melhor lugar a sua legitimação. Pois se trata do povo e da cidade que afrontou no passado o poder colonial, proclamando com todas as conseqüências a luta popular, resistência armada, prisão, humilhações, deportação e mortes no Tejo ingrato e distante. Padecimentos no cárcere de S. Julião, onde penaram também outros mártires da Amazônia. Tais como o sábio jesuíta João Daniel, primeiro naturalista da região amazônica.
Pois foi em Muaná que ocorreu a gloriosa Adesão da província ultramarina do Grão-Pará (Amazônia portuguesa) à independência do Brasil (28/05/1823). Sem dúvida, o vetusto e singelo monumento da praça 28 de Maio, com a lápide dos heróis de Muaná, embora desconhecido da intelectualidade tupiniquim, representa o melhor testemunho dos justos e originais motivos da Cabanagem.
Daí porque barões assinalados da historiografia oficial desconhecem os feitos da cidade-monumento de Muaná. E relegam a praça da adesão à inclemência do sol e das chuvas para destacar, indevidamente, datas e sítios desfocados da realidade histórica. Compensada apenas pelo aprazível consolo das tardes ao pôr do sol, quando da chegada de bandos ruidosos de japiins que vêm pernoitar na arborizada praça ao lado e entoar o réquiem dos heróis esquecidos da amazonidade brasileira.
Com tais antecedentes, a candidatura do Marajó ao programa “Homem e Biosfera” da UNESCO e à rede mundial de reservas da biosfera (à semelhança do Pantanal, Cerrado, Caatinga e Amazônia Central, no Brasil; e mais de 240 reservas em todo o mundo) tem sabor de um resgate extraordinário. Longe disto representar a temida “internacionalização” da Amazônia, significará ao contrário reconhecimento da autonomia regional democrática assegurada pelas leis do País.
  Ao ouvir as explicações dadas pelos proponentes, o caboclo adverso à construção do canal da hidrovia nos confins das “suas” matas onde canta o uirapuru suspirou pelo sucesso da reserva da biosfera. Acho que ele teme que a construção – ao longo de 32 quilômetros de canal, o dobro em diques de contenção e docas de manobra para balsas de até 8 metros de largura com mais de um metro de calado – venha a perturbar o sossego da mãe do rio (a Cobra grande). Podendo vir daí algo temível também no plano metafísico, além da chamada ecologia... Não é por causa um vago conceito de meio ambiente que ele está contra. Ou por molestar teorias complicadas que não entende nem morto. Mas, sim pelo motivo de que tal escavação seria o túmulo do seringal da sua vida. Cemitério dos derradeiros “mondongos”; fim dos berçários de alevinos e reservatórios da fauna e da flora aquática. Até as onças que ainda restam escondidas por lá e os jacarés e cobras que escaparam da sanha humana, teriam que se defender atacando animais domésticos. A, assim, acabariam os seus dias caçados até a extinção total.
Considero o caboclo de quem falo (como tantos outros da mesma escola) mestre em “desenvolvimento sustentável”. Método supimpa de produção, distribuição e consumo que, talvez, foi vislumbrado desde as entrelinhas da História do Futuro, na utopia barroca de Antônio Vieira. E no fabuloso Tesouro Máximo Encontrado no Amazonas, da escrita arcaizante do padre João Daniel. Este fez observatório no Moju (séc. XVIII) e Vieira (séc. XVII) anteviu a vocação natural hidroviária do planeta amazônico; ao deparar “avenidas, ruas e praças d’água” nos Estreitos de Breves: “clímax igapóreo” da Terra, na expressão de Eidorfe Moreira. O Padre grande esteve a poucas léguas do sítio ecológico que o nosso amigo jurou defender.
E, portanto, cristãos novos e velhos do Grão-Pará careciam de entendimento justo e perfeito da Carta do Apóstolo Tiago às Tribos Perdidas, segundo a Bíblia Sagrada. Nosso personagem tem nome de convertido, talvez por necessidade e acaso da conservação da memória e do meio ambiente de seus antepassados na preocupação de seus netos e da mais descendência que há de vir. Ele se chama, simplesmente, Agostinho Batista. Ademais, folclorista e escritor popular, além de seringueiro, mateiro experiente e flautista encantador de passarinhos da mata. Uma extraordinária atração ecoturística do Marajó a procura de empreendedor que o queira transformar em “produto”, com a nobre finalidade da geração de empregos e renda na comunidade tradicional de Muaná.

Marajó um lugar não como qualquer outro

  Tal qual o convertido Agostinho marajoara, também eu sou caboclo “educado” para matar ou morrer na dura lei da selva, que a sobrevivência nos sítios ensina sem compaixão. Aqui a gente não carecia de cartão de crédito, botijão de gás, vale transporte e cesta básica até há pouco tempo. A gente só precisava da ajuda de Deus primeiramente e, depois, de cachorro farejador, munição, espingarda e pontaria certeira. Fora disso, qualquer um se tornava “panema” e – Deus o livre! – precisava de caridade alheia todos os dias. Se desse, então, p’ra “mexer” na propriedade dos brancos a coisa ficava “peor” e cedo ou tarde, acabava dando com os costados na cadeia de São José...
Assim, a gente se ri do pessoal da cidade. Que, diz-que, quer porque quer o tal “desenvolvimento” a qualquer preço. E, subjugados à lei do Cão, ficamos ilhados e peiados a ver navios levar madeira de lei, minério e peixe ao estrangeiro a troco de um prato-feito de “lentilhas” na figura ridícula do salário mínimo (quando há). Por esta inglezia já fui adepto do Progresso e da Civilização. Por sorte, tive algum curupira por padrinho que me desviou do caminho da devastação. Tal qual, paresque, aconteceu com o parente Agostinho Batista. Eu escrevi loas à criação de um território federal do Marajó (anos 60) e fiz propaganda da hidrovia (anos 80), sem medir as conseqüências da economia de alguns quilômetros a menos entre Macapá e Belém. Continuo eu, sim, favorável à óbvia opção das hidrovias naturais da Amazônia. Que são os rios, com o mínimo de intervenção e o máximo de prudência científica e responsabilidade social e ambiental.
  Já pairava uma dúvida em meu espírito sobre a mais valia para a população tradicional entre uma reserva da biosfera ou a construção de um canal artificial de navegação de 32 quilômetros, rasgando áreas isoladas e quase intocadas. Eu não me impressionava com a conversa fiada do impacto ambiental sobre peixinhos misturados e confundidos – diziam – pelas águas emendadas. Quem conhece nossa hidrografia dava boas risadas dessa estória, com razão. Considero que não existe parto sem dor, assim como não há desenvolvimento econômico com custo ambiental zero. O que faz a diferença é a verdadeira questão do IDH da população local: o resto, conversa mole p’ra boi dormir...
Agora, todavia, percebo que a hidrovia não seria apenas um parto, mas um estupro. Tendo por vítima além da natureza também a gente ribeirinha, ao contrário do que se dizia... Muito me impressiona saber do enorme volume de mais de 13 milhões de metros cúbicos de terra, lama, biomassa e material orgânico a inevitavelmente entrar em decomposição, quando for retirado dos “mondongos” para dar lugar ao canal de navegação. Neste caso, o mínimo que se tem a fazer é ir em expedição tirar as dúvidas in loco, levando gregos e troianos ao terreno.
Onde será depositado o material extraído do “valão”, sem enterrar e entulhar o entorno? Aí mora o perigo. Para depositar mais longe, implicaria custos mais elevados que talvez justificassem alternativas que não a construção do canal. Dentre as quais, melhor aproveitamento dos cursos naturais com inovação tecnológica em equipamentos de transporte e navegação. Na verdade, a maioria dos membros do GDM não está convencida da necessidade do “furo” artificial, numa região que, por natureza, já se chama Furos de Breves.
Talvez os pesquisadores não soubessem, exatamente, e só ouviram falar do ecossistema a ser atravessado e alterado pela hidrovia. Nossas canoas motorizadas cruzam os centros da Ilha em diversas direções, ao tempo das cheias. A alegada abertura do canal para socorro de caboclos ilhados lembraria que a dragagem do Canal Tartarugas em meios a debates pela imprensa, depois de feita caiu em silêncio e não teve estudo a posteriori. De modo a prever as conseqüências possíveis sobre escavação de novo canal, este com maiores impactos para passagem de balsas e barateamento de fretes entre Macapá e Belém. Significativamente, uma região de extraordinária vocação hidroviária e de recursos aquáticos não tem centro de pesquisa e formação técnica especializada à altura do potencial.
Penso que uma alternativa à Hidrovia do Marajó se oferecerá a partir da Alça Viária, que ainda não havia nos anos 80; quando se aventou a idéia dessa ligação transmarajora em Macapá. Franklin Rebelo e eu (em artigo publicado em “O Liberal”) fizemos eco na imprensa em Belém sobre o assunto. Com o distrito industrial e portuário de Vila do Conde, entretanto, mudou-se o eixo viário do Pará em direção à bacia do Tocantins. Assim, em vez de abrir os centros da ilha do Marajó sem estudos ecológicos completos melhor será investir na perenização do lago Arari e na infra-estrutura portuária de Abaetetuba (centro tradicional de intercâmbio com as Guianas). Que, não só melhor atenderia o transporte hidroviário para as microrregiões de Portel e Furos de Breves, no Marajó, como também faria a ligação com a Zona Franca Santana-Macapá e a área metropolitana de Belém com transporte modal mais moderno e mais rápido, implicando, portanto em melhor produtividade. É claro que esta opção não existia ao começo dos estudos para o projeto em questão.
Tendo em vista a construção das eclusas de Tucuruí para aproveitamento da Hidrovia Araguaia-Tocantins, eventual operação de carga em Abaetetuba com destino ao Amapá e as Guianas poderá ser feita sem prejuízos com o cancelamento final do projeto da hidrovia do Marajó. Pois a ligação portuária Abaetetuba-Santana substituirá com vantagem a inicialmente prevista com projeção rodoviária para o Oiapoque em direção a Caiena e Puerto Ordaz (Venezuela) em face de Trinidad e Tobago e o rosário ilhéu do Caribe, via a hidrovia natural do Tajapuru.
Deste modo, entre mortos e feridos, escaparemos todos e o seringueiro Agostinho Batista agradecerá com o dueto com o Uirapuru da sua estimação, assistido alguma vez por ecoturistas maravilhados. Não antes que meu fraterno camarada Franklin Rebelo haja vencido o cruel isolamento da Contracosta. Com a inclusão da sua sonhada “Rodoleste (rodovia do leste marajoara) ao projeto governamental Costa do Sol. Pelo qual, a ligação em ferry-boat Barcarena – Ponta de Pedras se estenderá por estrada pelos campos de Ponta de Pedras aos campos de Cachoeira, continuando por Santa Cruz do Arari até às margens da Contracosta, em face da Ilha Mexiana.
A exemplo do Pantanal, o Marajó deve fazer opção preferencial pelo seu potencial ecológico com inovação tecnológica compatível, de modo a se tornar referência ecoturística do Pará. Muito melhor para todos e não apenas para alguns.

José Varella, do GDM.
Belém do Pará, 12/10/2003.

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