quinta-feira, 24 de outubro de 2013

INICIATIVA POPULAR: trocar nome "Tancredo Neves" para "Bruno de Menezes" no CENTUR.

Não esquecer é bom; Por que a Fundação Cultural do Pará tem um nome que nada fez pela cultura de nosso rico e imenso, multicultural estado?
Alguns dirão, nomes não interessam. Equívoco, nomes interessam desde os tempos primordiais, inda mais hoje com tantas questões pendentes.
sugestões, José Varella, interlocutor:
Bruno de Menezes, Tó Teixeira, mestre Setenta


 O projeto do CENTUR – CENTRO CULTURAL E TURÍSTICO é de autoria do arquiteto Euler Santos Arruda, com a colaboração dos arquitetos Edson Santos Arruda e Rafael Gonçalves. A obra foi iniciada no ano de 1978 e concluída em junho de 1986. A Fundação Cultural do Pará Tancredo Neves foi criada para administrá-lo.

A localização deste complexo é privilegiada, no centro da cidade, a quinze minutos do aeroporto internacional de Belém, oito do terminal rodoviário, próximo dos mais conceituados hotéis, bares e restaurantes de Belém, além da proximidade dos pontos turísticos mais importantes da cidade, como: Teatro da Paz, Basílica de Nazaré, Praça da República, Praça Batista Campos, Horto Municipal e do centro comercial da cidade.



MAIS RESPEITO AO PATRIMÔNIO HISTÓRICO DOS PARAENSES!


AUDIÊNCIA PÚBLICA SOBRE 'SHOPPING' BECHARA MATTAR.

Antes de tudo queremos agradecer aqueles cidadãos que compareceram a audiência pública que discutia mais os 'contras' do que os ´pros" desse projeto.
Estamos satisfeitos pois o que ouvimos serviu para confirmar que 'nem tudo são rosas' nesse projeto e que tinhamos razão de pretender de saber algo mais sobre, ele.

Os orgãos da Prefeitura, além de não respeitar a lei da transparência, não compareceram para dar explicações. O que significa isso? Vergonha ou prepotência?

Foram lembrados, na ocasião, outros atos de prepotência e de desleixe para com o nosso patrimônio histórico, feitos e permitidos por orgãos da Prefeitura.

As leis não regulamentadas, também servem para facilitar esse modo de desrespita-las, e assim permitir abusos para com o que ainda temos a salvaguardar.

Não é enchendo a Cidade Velha de bares e restaurantes que se defende nossa 'memória histórica'. A falta de previsão de estacionamento para clientes e a falta de segurança, so servem para piorar o modo de vida de quem paga o IPTU ali, ha anos. Esse método nada tem a ver com nossa história.

A Cidade Velha, esse 'centro' de atividades politicas, institucionais, religiosas e culturais, está saturado de veiculos que estacionam nas calçadas tombadas de lios. Por menor que fosse o impacto desse 'shopping', é inaudita a não previsão de estacionamentos para os clientes seja da pousada que das outras atividades que surgirão ali.

Francamente, o exemplo dado com essa autorização vai no sentido contrário do que as leis prevêem relativamente a defesa e salvaguarda do nosso patrimonio historico.

Visto que as autorizações ja decairam, podia ser o momento bom para repensar no caso e não renova-las...

Que tal uma pracinha, alí? Ia se ver muito melhor a entrada da Cidade Velha e a Sé.
BREVE COMENTÁRIO

A internet é uma revolução em curso. Tem mil e uma utilidades e outras tantas inutilidades. Deus e o Diabo montaram sítios nos bits da net. Dentre diversos posseiros desta nova mídia, nossa confreira ictiófaga da Academia do Peixe Frito, Dulce Rocque, é um belo exemplo de combatente da Cidadania. 

Ela é o terror dos avacalhadores da Cidade Velha e milita de cara limpa pela defesa do patrimônio histórico de Belém como numa trincheira.

Linhas acima, pequena amostra da luta que a nossa "Capitoa Tupinambá" empreende. Pode-se imaginar o quanto esta filha do "turco" Félix Roque(como imigrantes sírios e libaneses eram chamados no Pará, no tempo das vacas gordas da "belle époque" da Borracha, irmã do "diletante" Carlos Rocque (quanta dificuldade tem os doutos em chamar de historiador ao jornalista organizador da "Grande Enciclopédia da Amazônia"). Dulce irrita deveras a nossa boa elite papa-chibé, que em geral ignora os títulos acadêmicos dela, conquistados longe dos pagos no exílio forçado pela Ditadura.

Mas, afinal de contas quem são eles, os "inimigos" do Patrimônio? Por acaso são pessoas de má índoles, uns coronéis de seringal ou senhores feudais, ignorantes de pai e mãe? Se isto fosse verdade, então, os termos em conflito neste e outros casos seriam muito simples de entender. Todavia, o maior espanto é que as pessoas que cometem verdadeiros atentados ao patrimônio não são ignorantes, muito menos espíritos atrasados ou antissociais. Aqui está o grande mistério do "affaire" Shopping Bechara Mattar Diamond. Ou pousada Bechara Mattar... 

Já o caboco que vos fala, com sua mania de meter o bedelho em conversa alheia; pensando só com seus botões: por que esta gente, cega pelo ouro do El Dorado, não pára pra pensar? Em vez de levar a coisa a ferro e fogo, do limão faria uma limonada. Em seu lugar, eu venderia o povo da discórdia para a PMB fazer o que seja melhor para o conjunto e iria investir num hotel de charme no prédio do Paris n'América em parceria com a mesma PMB em projeto de revitalização da Praça Maranhão e rua João Alfredo. Em vez de inimigos os tupinambás de Cabelo de Velha seriam aliados...

Então, no meio do tiroteio com a elite -- não se deve diabolizar a elite belenense sob pena de enveredar por um populismo rasteiro da idade da pedra lascada -- é muito difícil alguém se expor para combater desvios daquelas autoridades e servidores públicos que deveriam ser os primeiros a defender nossa história e a dar exemplo ao restante da população. 

No caso, somos todos parte da elite política e cultural paraense. Porém poucos com a coragem de dar a cara a tapas e contrariar interesses, inclusive, de amigos pelo menos há até pouco tempo. Vale o dito: "amigo de Platão, mas mais amigo da verdade". Portanto é deveras elogiável a atitude da Senhora Dulce Rocque.

Para encerrar, os sociólogos e psicólogos sociais devem ser convocados a explicar o que se passa nessas províncias culturais das Américas latinas, dominadas por medalhões acadêmicos chapa branca e memoráveis caudilhos políticos como o inesquecível Antônio Lemos, por exemplo. 

Fácil explicar quando os acontecimentos são em Honduras, Porto Rico, Paraguai e outras periferias da Periferia. Difícil quando a coisa pega em nossa própria terra: aí, na prática, a teoria é outra... Uma coisa é a dissertação de mestrado ou a tese de doutorado. Outra bem diferente é dar um parecer técnico ou despacho sobre projeto de interesse da família de fulano ou beltrano. Se a coisa esbarra em algum ninho político-partidário então, é nitroglicerina pura. 

Pois não se pode dar passo sem pisar no pé de um compadre, ou parente, amigo do chefe; irmão do patrão et caterva.

É a cobragrande no asfalto, a demolidora do Grande Hotel, a devoradora de casarões para desocupar lugar a construtoras de espigões: a tal de OLIGARQUIA. 

Coragem, irmãos para não caírdes em tentação. Grana preta da corrupção e o azeite da demolição espreita pelos desvãos da burocracia e reina ainda soberano do ditado do Diretório dos Índios: "manda quem pode e obedece quem tem juízo". Mas, Deus seja louvado! Cresce também o número de desajuizados herdeiros do desajuizado-mor, cacique tupinambá Guaimiaba.  

domingo, 13 de outubro de 2013

E a Cabanagem se fez Cirio e romaria fluvial

Imagem aérea da procissão do Círio de Nossa Senhora de Nazaré, na manhã deste domingo (13).FOTO: ELISEU DIAS/ AG. PARÁDATA: 13.10.13BELÉM-PARÁ
o povo toma as ruas de Belém para acompanhar o Círio de Nazaré (13/10/2013).

O que move tanta gente nas ruas de Belém do Pará durante o mês de outubro? Desde os primeiros dias do mês os sinais do Círio se fazem notar, não só na capital mas em todo interior do Pará. Em especial no abastecimento da feira do Ver O Peso e em comentários nos lares, bares e lugares de trabalho como se fossem preparativos do Natal ou, noutras culturas, o grande dia de confraternização... Acredito que a resposta a esta pergunta não é simples de dar e nunca foi ou será. 

Trata-se, verdadeiramente, de um complexo cultural, social e econômico que liga a cidade de Belém, na Amazônia, a seu interior e ao exterior. Um fenômeno regional e universal ao mesmo tempo. Onde cada pessoa que comparece à romaria ou que se liga a ela pregada ao rádio, à TV ou outros meios de comunicação, tem motivo particular para participar do acontecimento que converge num grande culto ao ar livre, reunindo hoje algo em torno de dois milhões de romeiros. Procissão que se repete há 221 anos. A dona de casa, o trabalhador, profissional liberal, intelectual, crente ou não-crente; se deixa levar pelo rio de emoções que invade a cidade grande no mês de outubro. 

Digamos que a represada Cabanagem das acumuladas injustiças e frustrações do tempo, que jaz no fundão inconsciente da falta de memória e na falta de realizações pessoais e coletivas, manifestada aos poucos no varejo dos dias como um vulcão adormecido emite fumo ainda de quando em quando; converte sua sulfúria energia num ar de tempo bom... As diferenças sociais e individuais se por acaso não se anulam durante o Círio, pelo menos, se atenuam na esperança do Milagre e da catarse pelo pagamento das promessas e graças alcançadas. 

Há uma espécie de trégua no duro combate da vida aos pés da Virgem mãe. Símbolo do universo encontrado na floresta amazônica à beira do antigo caminho indígena do Maranhão. Sabemos como os Jesuítas foram hábeis artesãos barrocos e modeladores da alma indígena. E não importa quão poucos se deem conta da Tradição matriarcal impregnada na alma da gente, anterior até mesmo à romanização e ao cristianismo na Europa. A mundialização da Esperança, que assiste a todas migrações, começou um dia no passado remoto com a primitiva diáspora do seio da mãe África (portanto, o fascínio das virgens negras prenhes de magia e encantamento na Europa branca). Uma tão grande antiguidade habita o tempo da humanidade filha da animalidade. E "o homem é um animal político" (Aristóteles, o pagão pai da escolástica, que se converteu em base da doutrina social da Igreja católica ("universal"). No mundo moderno o tempo voa, todavia enquanto a gente se comunica agora com a velocidade do raio pelos fios invisíveis de satélites artificiais conectando à rede mundial de computadores; a alma coitadinha vai devagarinho pelos meandros obscuros da antiguidade que habita os corações.

Na Terra Plana das imaginações do mundo, as caravelas descobriram o espaço curvo. Deste modo, na globalização os "extremos" Oriente e Ocidente acabam por se confundir em qualquer lugar, notadamente por acaso às margens do grande rio das Amazonas. Última fronteira da Terra. Na partida desta nau tão antiga que navega o mar tenebroso está em Belém da Judeia ou da Palestina e a chegada está nesta Belém da Amazônia, cidades interligadas umbilicalmente pelo cordão mitocondrial nazareno. 

Desde a aldeia de Nazaré, na Galileia, passando pelo sítio da Nazaré, em Portugal. Uma ponte suspensa sobre o tempo e o espaço reunindo caminhos de lendas, promessas, enganos e desenganos, vidas e mortes, paixões e ressurreições em profusão de graças alcançadas. O Menino Deus no colo de sua Mãe e mãe dos homens, que nem Guaracy (o Sol, "mãe dos viventes") na religião natural de nossos antepassados indígenas: pela herança portuguesa, o Menino Jesus imperador do "Quinto Império do Mundo", utopia ecumênica plantada nas várzeas do Grão-Pará pelo "payaçu dos índios", o Padre Antônio Vieira, imperador da língua portuguesa segundo o poeta Fernando Pessoa. Profecia e poesia não se apartam dos caminhos de Belém através do mundo.

Somente uma vez, em 1835, no início da Cabanagem (1835-1840), não se realizou a procissão do Círio de Nazaré. Este hiato é um paradoxo. Compreensível, sobretudo, pelo estado de guerra-civil naquele momento: dado que ambos acontecimentos complexos são essencialmente manifestação da esperançosa alma paraense em movimento através das provações do eterno Futuro.

NA PAZ E NA GUERRA O POVO EM PROCISSÃO NA BUSCA DE IDENTIDADE E SALVAÇÃO: IMAGEM DA DISPERSÃO.

Raymundo Heraldo Maués ensina que o Círio de Nazaré é peça de resistência na constituição e expressão da identidade amazônica. Síntese de muitas migrações num espaço prenhe de religiosidades - assim no plural - como a dizer catolicismos e suas oposições em contexto extra-ocidental. Uma identidade construída pela histórica relação dialética e contradição entre nativos e colonos num meio ambiente peculiar do Trópico Úmido planetário.

Neste contexto de conquista e resistência territorial, desde os primeiros dias em conflito permanente entre colonizadores católicos e protestantes, entre índios de diferentes nações e escravos africanos de culturas e crenças diferentes. A encantaria nativa e africana vão dialogar no interior do sertão; a maloca e o mocambo ensaiam a grande mestiçagem. Unir forças contra o dominador branco. Mas o antropófago acaba devorado pelo grande irmão branco sob império da Lei. Todavia, cedo degredados e trânsfugas europeus aprenderiam na sobrevivência na selva que os índios e os negros fugidos do cativeiro eram-lhes mais próximos do que seus semelhantes colonizadores. 

Começa aí, em meio à tragédia de que Las Casas e Vieira denunciaram, o embrião da Cabanagem que, desde os primeiros levantes indígenas afogados em sangue e fogo, eclodiu na revolução popular amazônica de 1835. E, por mil e uma peripécias, permanece até os dias de hoje por diferentes e complexos modos cabanos (nome histórico dado aos moradores ribeirinhos de palafitas amazônicas). Para, como uma onda no mar mergulhar na multidão do Círio em romaria, a pedir justiça, paz e prosperidade para todos.

A história do Círio guarda uma tensão entre a espiritualidade popular, caótica e diversa; a formalidade do clero e o domínio do estado colonial, sucedido pelo império brasileiro e depois pela república centralizada no eixo sudeste do país. O governo e a igreja na província nem sempre estarão em sintonia, muito pelo contrário. Todavia, um e outro disputam o controle do povo, seja a massa de colonos ou a mão de obra indígena. Deste modo, o Círio e a Festa de Nazaré durante uma quinzena, como expressão de fé popular ou como espetáculo profano ("carnaval devoto") torna-se uma ópera magnífica. Onde tensões internas acabam por ganhar harmonia externa, tal qual a obra arquitetônica de uma catedral. Na qual a força da gravidade distribuída entre elementos díspares de sustentação dá lugar ao sagrado e ao belo, esteticamente falando.

Os santos canônicos comandam o espetáculo, mas pelas margens e nos escaninhos do cenário santidades africanas e ameríndias comparecem de maneira clandestina, porém perceptíveis aos olhos dos iniciados. O que faz do Círio de Nazaré um rico evento multicultural, malgrado tentativas de autoridades eclesiásticas e do governo, ao longo do tempo, em domesticar o bicho de sete cabeças da diversidade religiosa ou simplesmente cultural, dos seus diferentes participantes. Restando uma conclusão, a título precário: sem tal diversidade de expressão popular poderá, no limite, haver procissão. Mas, não haverá Círio propriamente dito.

BREVE HISTÓRIA DO CÍRIO

O Círio de Nazaré, é uma devoção a Nossa Senhora de Nazaré, considerada a maior manifestação religiosa católica do Brasil e um dos maiores eventos religiosos do mundo. Em Portugal é celebrada no dia 8 de Setembro na vila da Nazaré. Na cidade de Belém do Pará o Círio de comemora desde 1793, no segundo domingo de outubro. Com a migração paraense, se realizam procissões em outras cidades. O termo "Círio" tem origem na palavra latina "Cereus", que significa vela grande. No Brasil, no início era uma romaria vespertina, e até mesmo noturna, daí o uso de velas.

No ano de 1854, para evitar a chuva torrencial como a que havia caído no ano anterior, a procissão passou a ser realizada pela manhã. O Círio foi instituído em 1791 em Belém e até 1882, saía do Palácio do Governo. Em 1882, o bispo Dom Macedo Costa, em acordo com o Presidente da Província, Dr. Justino Carneiro, instituiu que a partida do Círio seria da Catedral da Sé, em Belém.

Portugal



Imagem de Nossa Senhora da Nazaré, Portugal.
Segundo a Lenda da Nazaré, a antiquíssima imagem da Virgem teve origem na aldeia de Nazaré, na Galileia. Representa a Virgem Maria sentada, de cor escura, tendo no seu colo o Menino Jesus, o qual amamenta. A estátua, entalhada em madeira e identificada como original dos primeiros séculos do Cristianismo, percorreu a cristandade desde Nazaré (Israel) passando por Mérida (Espanha) até surgir no ano de 711 em Nazaré (Portugal). No século XII, tornou-se símbolo de fé do cavaleiro D. Fuas Roupinho, que mandou erigir a Capela da Memória em agradecimento à Virgem (1182), após milagrosamente ter se salvo de um acidente muito grave quando, montado a cavalo, perseguia um cervo.

A capela foi erigida sobre uma gruta onde estava a sagrada imagem. Em 1377 o rei D. Fernando (1367-1383) fundou um templo maior, o Santuário de Nossa Senhora da Nazaré, para onde transferiu a imagem. Desde então, a 8 de setembro, todos anos, os portugueses se reúnem no Sítio da Nazaré, para a reverenciar. A principal romaria, o Círio da Prata Grande, vem anualmente do concelho de Mafra e transporta, numa berlinda, uma imagem de Nossa Senhora da Nazaré que não é uma réplica da Verdadeira imagem, pois esta está sentada e a imagem do Círio está de pé, existindo ainda outras diferenças. A imagem de Nossa Senhora da Nazaré venerada no Brasil, em Belém, é semelhante à imagem de Nossa Senhora da Nazaré do principal Círio português.

No Brasil


Nossa Senhora de Nazaré, Brasil
A introdução da devoção à Senhora da Nazaré, no Pará, foi feita pelos Jesuítas, no século XVII. Embora o culto tenha se iniciado na povoação da Vigia, a tradição mais conhecida relata que, em 1700, Plácido, um caboclo, descendente de portugueses e de índios, andava pelas imediações do igarapé Murutucu (área correspondente, hoje, aos fundos da Basílica) quando encontrou uma pequena estátua de Nossa Senhora da Nazaré. Essa imagem, réplica de outra que se encontra em Portugal, entalhada em madeira com aproximadamente 28 cm de altura, encontrava-se entre pedras lodosas e bastante deteriorada pelo tempo e pelos elementos. Plácido levou a imagem consigo para casa, onde, tendo-a limpado, improvisou um altar ou oratório. De acordo com a tradição local, a imagem retornou inexplicavelmente ao lugar do achado por diversas ocasiões até que, interpretando o fato como um sinal divino, o caboclo decidiu erguer às próprias custas uma pequena ermida no local, como sinal de devoção.

A divulgação do milagre da imagem santa atraiu a atenção dos habitantes da região, que passaram a acorrer à capela, para render-lhe homenagem. A atenção do então governador da Capitania, Francisco da Silva Coutinho, também foi atraída à época, tendo este determinado a remoção da imagem para a capela do Palácio da Cidade. Não obstante ser mantida sob a guarda do Palácio, a imagem novamente desapareceu, para ressurgir em seu nicho na capela. Desse modo, a devoção adquiriu caráter oficial, erguendo-se atualmente, no lugar da primitiva ermida, uma capela, hoje a suntuosa Basílica de Nazaré. Em 1773 o bispo do Pará, Dom João Evangelista, colocou a cidade de Belém sob a proteção de Nossa Senhora de Nazaré. No início do ano seguinte, a imagem foi enviada a Portugal, onde foi submetida a uma restauração. O seu retorno ocorreu em outubro desse mesmo ano, tendo a imagem sido transportada, do porto até ao santuário, pelos fiéis em romaria, acompanhada pelo Governador, pelo Bispo e pelas demais autoridades, civis e eclesiásticas, escoltadas pela tropa. Este foi considerado o primeiro Círio.

Desde então, o Círio de Nazaré é realizado anualmente, no segundo domingo do mês de Outubro. Entre os milagres mais expressivos atribuídos à imagem de Belém, encontra-se o que envolveu os passageiros do brigue português "São João Batista". Partindo de Belém rumo a Lisboa, no dia 11 de julho de 1846, a embarcação de dois mastros à vela veio a naufragar decorridos poucos dias da partida, sendo os passageiros salvos por um bote que os conduziu de volta a Belém. Este brigue seria a mesma embarcação que, anos antes, havia transportado a imagem de Nossa Senhora de Nazaré a Lisboa, para ser restaurada; o bote que salvou os náufragos também seria o mesmo que tinha levado a imagem até ao brigue ancorado no porto de Belém. O bote passou a acompanhar a procissão a partir do ano de 1885. Apesar do Círio de Nazaré de Belém (PA) ser o mais conhecido no Brasil, o Círio mais antigo do Brasil data de 8 de setembro 1630 na cidade de Saquarema no Estado do Rio de Janeiro. Após noite tempestuosa a miraculosa imagem de Nossa Senhora de Nazaré foi encontrada por pescadores nos penedos que separa o mar da lagoa onde hoje se encontra a Igreja Matriz. Segundo a lenda, a imagem sempre retornava aos penedos onde foi encontrada, e por este motivo, os religiosos da época acreditando ser um sinal dos céus, resolveram dar início a construção de primeiramente uma capela, que mais tarde deu lugar ao templo atual. O Reconhecimento do Círio de Saquarema como o mais antigo do Brasil se deu com a visita da imagem peregrina de Belém (PA) em 23 de setembro de 2009.



Círio das Águas. Foto: Cristino Martins/Agência Pará
cerca de quinhentas embarcações de diferentes tamanhos transportaram cinquenta mil pessoas, aproximadamente, saindo de Icoaraci a Belém na romaria fluvial do Círio de Nazaré, no sábado, 12/10/2013.

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

No mês de outubro em Belém do Pará, a mensagem de fé da Amazônia para Terra sem males ao ver o peso do Círio de Nazaré.

Cerca de 2 milhões de pessoas participaram da procissão
são esperados dois milhões de romeiros no Círio iniciado, simplesmente, há 221 anos.


Para turista de primeira viagem, fica o espanto ao ver o peso da multidão semelhante a um grande rio de gente. Como quê tomada de transe parecendo cerimônia pagã igual àquelas seculares procissões nas margens do sagrado Gânges, na Índia. Tudo colabora a esta impressão hindu, inclusive a situação ribeirinha da cidade, a cara de índio do povão e o ar oriental da antiga arborização da "Cidades das mangueiras". A mangueira amiga de gente e periquitos, inimiga de asfalto e automóvel; árvore emblemática naturalizada na região que os nativos já acreditam ser da flora amazônica, tal qual os búfalos e a tradição nazarena que também veio do Oriente para o Ocidente à semelhança do aparente curso do Sol em torno da Terra. 

Ao intelectual visitante do Pará velho de guerra o Círio é carnaval devoto. Como tal, de qualquer modo, respeitável em sua manifestação onde o sagrado e o profano fazem vizinhança nem sempre tranquila: já vimos, inclusive, que o Círio virou alegoria no Sambódromo no Rio de Janeiro... Já a romaria fluvial no sábado salta do rio fervilhante de embarcações de todas cores e tamanhos para o Cais do Porto e a Santa pisa terra firme vai logo recolher-se em preparação à Trasladação, à luz de velas e círios, para a Catedral da Sé até domingo do Círio. 

Enquanto isto, o Arrastão do Pavulagem irrompe em batuque marchando com o povo de santo e da Santa a fim de sacudir com toada de boi e carimbó pelas ruas de Belém rumo ao casario da Cidade Velha a fazer inauguração da Festa que vai durar, por toda quinzena, no Arraial de Nazaré...  Haja saúde, paz e felicidade a todos e a todas.

Ao devoto de pés no chão agarrado à Corda da Berlinda, todavia, o céu e a terra se acham, aqui e agora, em Belém da Amazônia na eternidade enquanto dura o amor dos filhos de Deus à Sua santa Mãe. 

Se alguém diante do magnífico cenário amazônico feito de sol, calor, mãos, pés, braços, rostos, corpos desfeitos em suor, lágrimas, sangue quente correndo nas veias pela força bruta despendida, pedindo água - muita água, a maior sede do mundo diante do maior rio da Terra e do Mar-Oceano - , se então alguém pensar um instante na grande Vida mãe de todas vidas e mortes, creio eu, não pecará contra a humanidade nem faltará com a verdade da vida. 

Não sei se devo rezar a ela e me ajoelhar a seus pés seja na forma de um ícone materno, diante de uma criança ou da mulher amada. Mas sei que a vida é sagrada e que toda vida é bela: o corpo - seja humano, vegetal ou animal - é seu verdadeiro templo como ensinam velhas tradições da humanidade. Enfim, todos nós numa diversidade infinita somos apenas um: que nem esta multidão de diferentes classes e origens unidas pela fé à Virgem de Nazaré... 

Eis a leitura da nazarena metáfora de Belém do Grão-Pará pelos caminhos da Dispersão do velho mundo até a "última fronteira da Terra", Amazônia. Como, então, podemos nos ferir e matar mutuamente sem esse antigo Mal recair sobre cada um de nós e de todos indistintamente? Como podemos aceitar sem remorso a salvação de poucos e a danação de muitos? Como podemos acreditar que os frutos do mal que praticamos não hão de recair sobre nossos filhos e os filhos de nossos semelhantes? Como aceitar que aquele Jesus de Nazaré, filho do pobre carpinteiro da aldeia, tendo morrido na Cruz por todos, a sua obra seja motivo de crimes contra a humanidade, como clamaram os padres Las Casas e Antônio Vieira, por exemplo? 

Então, se as tradições religiosas ainda não foram bastante para converter o impiedoso coração deste mundo curvado pela fome, escravidão, doença, velhice desamparada e morte sem perdão... Pelo menos a ciência, iluminada pelo amor à vida, seja ela capaz de santificar-se e mostrar uma saída à razão desumana e à fé cega, faca afiada, da intolerância.

De acordo com o poeta Fernando Pessoa, "tudo vale a pena se a alma não é pequena"... Assim, no Círio de Nazaré, não procurem a deusa Razão na cidade fundada pelo impossível acordo entre portugueses de corda e baraço e índios antropófagos. Já pensaram? Pensem naqueles de boa fé, como o caboco Plácido, devoto da Virgem de Nazaré. Pensem na mítica Terra sem males que conduziu a brava nação Tupinambá em busca do sonho em encontrar uma terra semelhante a dos antigos hebreus em busca da terra onde mana mel e leite... Pensem na Palestina dilacerada, tal qual, a Amazônia violentada pelas lendas do El-Dorado, das "amazonas" e do "celeiro do mundo"... Agora sim é a hora e a vez da teoria do milagre. Se há um lugar na Terra onde este decantado "milagre" existe ele se chama agora Amazônia, outrora Grão-Pará, antiga terra dos Tapuias.


 O QUE VOCÊ VAI FAZER EM KATHMANDU?

Como se sabe o Nepal tem no turismo religioso uma de suas principais fontes de renda. E o Pará pretende desenvolver o turismo religioso em torno do Cirio. Certamente, raros turismólogos e empresários do ramo de negócios turísticos concordariam com as "heresias" do leigo que digita este blogue estúrdio. Em primeiro lugar, comparar o Pará com o pequeno reino do Himalaia já é absurdo. Ainda mais traçar paralelo entre a maior festa religiosa dos paraenses, de tradição católica portuguesa; e o exotismo de Kathmandu com sua forte tradição budista e hindu.

Entretanto, há aspectos que se poderiam comparar entre os dois destinos de turismo religioso. A distância entre mercado emissivo e o destino; barreira linguística e cultural, insuficiência de infra-estrutura. Acredito que a maior parte de turistas que vai a Kathmandu chega até lá graças a uma curiosidade especial pelo tipo de turismo religioso oferecido e a um marketing bem sucedido.

Poucos desses turistas vão a Kathmandu por uma motivação religiosa propriamente dita, todavia a maioria demanda um tipo de espiritualidade que se poderia dificilmente chamar de religiosa conforme nos acostumamos a chamar. O principal atrativo turístico do Nepal é a natureza do vale de Kathmandu, declarado patrimônio mundial da humanidade pela UNESCO, em 1979. 

Trata-se de um sítio protegido cuja herança cultural é representada por sete monumentos e edificações que tornaram Kathmandu mundialmente famoso por sua produção artística e histórica. Fica claro que aí a natureza e a cultura foram parceiras pelas mãos de seus nativos. A UNESCO preocupa-se com o crescimento urbano para que este siga sendo harmonioso com o sítio. Não só o budismo serve de atração aos visitantes, que encontram também antigos templos hinduístas.

O mundo ocidental saturado de utilitarismo, concorrência e conflitos mortíferos procura nas viagens a lugares distantes e exóticos, um contraponto a estilo de vida que leva. A Amazônia lendária é percebida lá fora com uma aura de magia. A imagem da festa do Círio está prenhe de símbolos e mensagens que ainda precisam ser melhor compreendidas e estudadas pelos profissionais de cultura e ecossocioecnomia para se tornar produtos de turismo religioso. Inevitavelmente que o proselitismo religioso está presente neste produto, nem poderia ser de outra forma. Mas é importante aprender com o Nepal, o turismo religioso não é religião. Além disto, para os foros de cidade civilizada é auspicioso que a população de Belém tenha no Círio um momento ecumênico, se não eclético ou holístico; como prova o louvável concurso de membros da igreja pentecostal Assembleia de Deus para conforto dos romeiros do Círio.

Belém que já se notabiliza pela boa convivência entre judeus e libaneses e que foi palco da "heresia judaizante" do "payaçu dos índios", Padre Antônio Vieira, condenado pela Inquisição; dá passos largos para manifestar um exercício de tolerância mútua que se ainda está longe do ideal pelo menos sinaliza no sentido de que um outro mundo é possível. 



Abaixo, cena de evangélicos distribuindo café e pão a católicos e mais promesseiros do Cirio de Nazaré, Belém do Pará, em 2012


segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Festividade do Glorioso São Sebastião do Marajó no Patrimônio Cultural Brasileiro


imagem centenária cultuada pela Irmandade do Glorioso São Sebastião, em Cachoeira do Arari, na ilha do Marajó.


NOTÍCIA AUSPICIOSA A TODOS MARAJÓS DAS ILHAS E DA TERRA FIRME
O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), publicou no Diário Oficial da União de 04.10.2013, AVISO do Registro da Festividade do Glorioso São Sebastião na Região do Marajó no Patrimônio Cultural Brasileiro. A curadoria desta tradição marajoara é realizada pela Irmandade do Glorioso São Sebastião (IDGSS) que irá comemorar o acontecimento com todos parceiros que contribuíram para o referido Registro Nacional.
"A festa em homenagem a São Sebastião na cidade de Cachoeira do Arari, segundo relatos de moradores da cidade, acontece há mais de 100 anos. É uma das mais expressivas da ilha do Marajó e reúne de 10 a 20 de janeiro, pessoas de todos os cantos, do Pará e de outros estados do Brasil. Embora  o dia do Santo seja dia 20 de Janeiro, a preparação da festa começa seis meses antes, em Julho, quando um grupo de foliões começa a percorrer casas, fazendas e retiros da região, rezando ladainhas em latim e cantando folias na chamada "esmolação", com o fim de arrecadar recursos e donativos para os dias de festa.

São percorridos retiros e fazendas nos municípios de Cachoeira do Arari, Ponta de Pedras, Santa Cruz do Arari e Chaves. No itinerário são visitadas mais de duzentas localidades, a cavalo ou de barco. A comissão é constituída por violeiros, tamborineiro e bandeireiro e tem como repertório músicas em reverência ao Santo. 


As folias constituem um repertório ligado a procissão que a Comissão faz durante o período da esmolação; suas letras geralmente glorificam o Santo e pedem licença para entrar nas casas visitadas por ele. A ladainha por sua vez está ligada às devoções familiares e é rezada em frente ao Santo; é cantada em latim, nas novenas nas casas das pessoas e no final da festa. As marchinhas são tocadas pela  banda de música, durante o período em que os mastros caminham pela cidade para serem levantados (dia 10) e depois derrubados (dia 20)."
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Fonte: FOLIAS DE SÃO SEBASTIÃO - IPHAN




CONTEXTO HISTÓRICO E CULTURAL DA TRADIÇÃO:
parceria de Santo Antônio e São Sebastião na conquista das Amazonas (sem esquecer de São Pedro e São Benedito).

Vem de muitas datas o culto do santo milagroso que passou à cultura luso-brasileira com tanta força, a bem dizer, com o descobrimento do Brasil e a luta entre lusos e franceses na conquista da baía da Guanabara, culminando com o milagre e aliança do destemido cacique Arariboia, que ao lado de Estácio de Sá, com tão poucas armas fez em nome de Portugal o vencedor e fundador da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, em 1º de março de 1585.

Na ilha do Marajó o culto de São Sebastião é tardio em relação a sua devoção no Brasil colonial. Mas, curiosamente, o Sebastianismo chegou aqui antes do culto a São Sebastião quando em Portugal foi ao contrário. Pois, como se deve saber, a invenção da Amazônia há 400 anos é uma aventura portuguesa, com certeza, movida a sebastianismo dentro da União Ibérica (1580-1640): compensação cultural à tragédia histórica da morte de Dom Sebastião (Lisboa (Portugal), 20/01/1554 - Alcácer Quibir (Marrocos), 04/08/1578). 

E a conquista portuguesa de Mariocai (Gurupá), em 1623, foi atribuída ao milagre de Santo Antônio por intermédio dos frades do convento do Una no recrutamento de arcos e remos Tupinambás, donde a homenagem ao santo português com o forte de Santo Antônio de Gurupá. Todavia esta conquista e até mesmo a entrada pioneira de Pedro Teixeira, de Belém do Pará a Quito (Equador), de 1637 a 1639, não teria futuro se houvesse fracassado a missão pacificadora da Companhia de Jesus junto aos invencíveis inimigos Nheengaíbas - senhores das ilhas desde o passado remoto - como explica em detalhes o Padre Antônio Vieira.

Ora, o Sebastianismo foi promotor da restauração da independência de Portugal (1º de dezembro de 1640) e, por extensão, da conquista do Maranhão aos franceses (1615), passando pela expulsão dos Hereges (protestantes) holandeses e britânicos (1623-1647) durante 44 anos de guerra até as pazes de Mapuá (Breves), a 27 de agosto de 1659.

Da jornada das pazes dos Nheengaíbas só temos o teatro barroco do "payaçu dos índios". Este teatro parece ser ato contínuo da carta "As Esperanças de Portugal", escrita em viagem à aldeia Camutá-Tapera (Cametá) quatro meses antes da viagem a Mapuá. Aos olhos racionalistas de hoje o relato é, em grande parte, inverossímil... Mas aí que iluministas e positivistas se enganam: carece embarcar no espírito de época (século XVII). 

E, neste caso, a prova material do "milagre" de Santo Antônio é o forte de Gurupá, enquanto que as pazes dos Nheengaíbas sob as graças do Sebastianismo se provam na sua imediata consequência: o acordo dos ditos índios inimigos em fundar as aldeias jesuíticas - no mesmo ano de 1659 - , na terra firme disputada pelos guerreiros Tupinambás; de Aricará [Melgaço] e Aracaru [Portel] a partir de 1758, sob o Diretório dos índios (1757-1798) anti-jesuítico.

Ainda falta interesse acadêmico suficiente para a educação nacional se empoderar da amazonidade. O papel histórico do Padre Antônio Vieira na consolidação da posse portuguesa no Grão-Pará, ruptura da "linha" de Tordesilhas e adesão dos Nheengaídas à causa Sebastianista (cerne do Quinto Império do Mundo ou Reino de Jesus Cristo consumado na terra) a par dos direitos humanos dos povos indígenas é, evidentemente, chave para o entendimento atual da Festividade de São Sebastião. Em boa hora registrado pelo IPHAN no Patrimônio Cultural Brasileiro.

Seja este ato oficial entendido como um chamado federativo à boa convivência entre todos e todas. Sabemos que na cultura marajoara nem tudo são flores. A integração precisa ser algo mais que um discurso, como a democracia não pode ser uma concha vazia (na lição de vida de Nelson Mandela).

É óbvio que a religião dos Tupinambás (apud Florestan Fernandes e muitos outros), com a utopia selvagem da Terra sem mal, explica a fundamental presença do "bom selvagem" na invenção da Amazônia. A catequese dos índios do Marajó, a mestiçagem cultural a partir de casamentos entre índias e colonos portugueses, índios e escravas negras, o amasio dos brancos com negras e índias cativas. Tudo isto, nas condições ecológicas e geográficas do isolamento insular num arquipélago de 2.500 ilhas, aproximadamente, varrido por surtos de peste de bexigas (varíola), febre amarela, malária, sarampo, episódios de fome, doenças que devastavam os rebanhos inclusive; predispôs ao pedido de socorro ao Glorioso São Sebastião.

O crente acredita em milagre e o não-crente acredita na resiliência da natureza e da vida. Uma coisa e outra talvez estejam mais próximas da realidade do que, geralmente, se crê. 

 CATOLICISMO E SINCRETISMO

São Sebastião nasceu em Milão, na Itália, de acordo com Santo Ambrósio, por volta do século III, embora haja versões de que tenha nascido em Narbonne, na França. Pertencente a uma família cristã, foi batizado em criança. Mais tarde, tomou a decisão de engajar-se nas fileiras romanas e chegou a ser considerado um dos oficiais prediletos do Imperador Diocleciano. 

Contudo, nunca deixou de ser um cristão convicto e ativo. Fazia de tudo para ajudar os irmãos na fé, procurando revelar o Deus verdadeiro aos soldados e aos prisioneiros. Secretamente, Sebastião conseguiu converter muitos pagãos ao cristianismo. Até mesmo o governador de Roma, Cromácio, e seu filho, Tibúrcio, foram convertidos por ele.

Em certa ocasião, Sebastião foi denunciado, pois estava contrariando o seu dever de oficial da lei. Teve, então, que comparecer ante o imperador para dar satisfações sobre o seu procedimento.
Diante do Imperador, Sebastião não negou a sua fé e foi condenado à morte, sem direito à apelação. Amarrado a um tronco, foi varado por flechas, na presença da guarda pretoriana. No entanto, uma viúva chamada Irene retirou as flechas do peito de Sebastião e o tratou.

Assim que se recuperou, demonstrando muita coragem, se apresentou novamente diante do Imperador, censurando-o pelas injustiças cometidas contra os cristãos, acusando-o de inimigo do Estado. Perplexo com tamanha ousadia, Diocleciano ordenou que os guardas o açoitassem até a morte. O fato ocorreu no dia 20 de janeiro de 288.

São Sebastião é um santo muito popular e padroeiro do município do Rio de Janeiro, dando seu nome à cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. Reza a lenda que, na batalha final que expulsou os franceses que ocupavam o Rio, São Sebastião foi visto de espada na mão entre os portugueses, mamelucos e índios, lutando contra os franceses calvinistas. Além disso, o dia da batalha coincidiu com o dia do santo, celebrado em 20 de janeiro. São Sebastião é o protetor da humanidade contra a fome, a peste e a guerra.


                                 Na Umbanda, São Sebastião corresponde a Oxóssi

Oxóssi é o orixá masculino iorubá responsável pela fundamental atividade da caça. Por isso na África é também cultuado como Ode, que significa caçador.

No Brasil, o orixá tem grande prestígio e força popular, além de um grande número de filhos, recebendo o título de Rei das Matas. Seus símbolos são ligados à caça: no candomblé, tem um ou dois chifres de búfalo dependurados na cintura. Na mão, usa o eruquerê (eiru), que são pelos de rabo de boi presos numa bainha de couro enfeitada com búzios.

O filho de Oxóssi apresenta arquetipicamente as características atribuídas ao orixá. Representa o homem impondo sua marca sobre o mundo selvagem, nele intervindo para sobreviver, mas sem o alterar. Oxóssi desconhece a agricultura, não muda o solo para plantar, apenas recolhendo o que pode ser imediatamente consumido: a caça.

No tipo psicológico a ele identificado, o resultado dessa atividade é o conceito de forte independência e de extrema capacidade de ruptura, o afastar-se de casa e da aldeia para se embrenhar na mata a fim de caçar.

Geralmente Oxóssi é associado às pessoas joviais, rápidas e espertas, tanto mental como fisicamente. Tem portanto, grande capacidade de concentração e de atenção, aliada à firme determinação de alcançar seus objetivos e a paciência para aguardar o momento correto para agir. Buscam preferencialmente trabalhos e funções que possam ser desempenhados de maneira independente, sem ajuda nem participação de muita gente, não gostando do trabalho em equipe. Ao mesmo tempo, é marcado por um forte sentido de dever e de uma grande noção de responsabilidade. Afinal, é sobre ele que recai o peso do sustento da tribo.


Fonte:
Os Orixás, Editora Três

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

NOSSA UNIVERSIDADE DA MARÉ








frutos de Jupati (Rhafia vinífera) palmeira riberinha largamente encontrada pelas margens de rios sob influência da maré e na costa do Atlântico das regiões equatoriais da África e América. Conhecida desde muito antigas populações tradicionais, a palmeira Jupati fornece material para pesca, navegação à vela, arquitetura, remédio caseiro, artesanato e objetos de culto numa extensa civilização atlântica ribeirinha de grande antiguidade.



O TEMPO DA VELA DO JUPATI NA ERA DA INTERNET

Com a globalização e a educação continuada à distância hoje só não aprende quem não quer. Entretanto, quanto o ter precede o ser é claro que o saber fica reduzido ao interesse do mercado. O diabo que este reducionismo economicista, muitas vezes, escamoteia importantes segmentos de economia popular não-monetárias que são bases de comunidades locais e regionais.

Nas regiões Amazônicas - periferias da Periferia -, por exemplo, que seria das populações tradicionais sem usos e costumes ancestrais que não figuram nas estatísticas do IBGE e muito menos da Bolsa? Não faz muito tempo que produtos agroextrativistas como Açaí, copuaçu, bacuri ou o "peixe do mato" e de segunda categoria não figuravam na pauta de exportação e consumo pelas classes sociais privilegiadas.  Entretanto, o cacau e castanha-do-Pará como produtos nativos movimentaram o ciclo de "drogas do sertão" sob o eufemismo das "tropas de resgate", para mascarar a caça ao índio para o mercado regional de trabalho escravo.

Desta massagada emerge a "Criaturada grande de Dalcidio" (populações tradicionais ribeirinhas) com sua mais valia, seus conhecimentos, culturas, modos de falar, sua história marginalizada e geografia de resistência em quatro séculos de conquista e colonização do Extremo Ocidente tropical desde um passado de, pelo menos, cinco mil anos de idade. A Cultura Marajoara, com apoio na antropologia americana, é indubitavelmente a mãe da civilização amazônica. Espelho para a Ecocivilização do amanhã.

A invenção da internet não apenas é a principal ferramenta da globalização do mercado. Ela também produz a sua própria contradição anti-mercadológica, quando desenterra conhecimentos pela arqueologia digital e fomenta valores ecossocioeconômicos que pareciam perdidos ou nunca dantes foram conectados, mas existem aí bem debaixo do nariz do sistema econômico e monetário internacional. A história natural do Jupati ou Palha da Costa (Raphia vinífera), por exemplo.

Por suposto e para ficar só aqui, numa provocação ao pensamento econômico regional, quanto foi contabilizado peixe, camarão e açaí fornecido por famílias produtores de pesca e agroextrativismo da ilha do Marajó ao mercado de consumo do distrito industrial de Barcarena e Vila do Conde? Dirá, talvez, um aluno de primeiro ano que trabalhadores da Albras/Alunorte não comem Raphia vinífera. Muito menos o lucro da multinacional norueguesa Norks Hydro, controladora da indústria produtora de alumínio no Pará, contém um tostão sequer de trabalho da população caboca extrativista de Jupati.

Ledo engano! A alta tecnologia que alimenta o primeiro mundo come, muito, do trabalho extrativista, dos conhecimentos tradicionais e do IDH das populações da Periferia. Sem Jupati não há cacuri nem matapi. E o peixe e camarão regional encontrados em feiras e mercados locais, inclusive Barcarena e Vila dos Cabanos; ficariam mais caro se produzidos com tecnologia diferente. O que, aliás, já é a tendência para fazer face ao esgotamento de recursos pesqueiros. De todo modo, não se pense que poderá ser esquecido sem prejuízo o modo de produção tradicional, pois mesmo com a aquicultura de escala haverá sempre necessidade de pesquisa ictiológica, criação de centros de estudo e reprodução com captura de exemplares na natureza.

A correspondência postal de outrora entre a filha do poeta Bruno de Menezes, Maria de Belém Menezes; e o autor de "Chove nos campos de Cachoeira", sobre coisas do Marajó e Belém do Pará, hoje pode ser continuada, diariamente, não apenas por duas ou quatro pessoas mais grupos aos milhares. Uma verdadeira universidade aberta supletiva, notadamente à rede de universidades da terceira idade. 

Desta maneira, o marajoara Raimundo Pereira Dias, ribeirinho do rio Marajó-Açu, hoje vivendo no Rio de Janeiro postou a foto acima que aqui vai por ilustração do blogue, em grupo no Facebook destinado a filhos e amigos do município de Ponta de Pedras (um dos 16 municípios da mesorregião Marajó). Proponha ele ao grupo identificar a espécie dos frutos em tela. Ninguém acertou. Todavia todos algum dia colheram na vida benefícios da palmeira selvagem de beira de rio que viceja pela larga área intertropical.


O QUE É EDUCAÇÃO 
      apud Carlos Rodrigues Brandão
    EDUCAÇÃO? EDUCAÇÕES: APRENDER COM O ÍNDIO 
Pergunto coisas ao buriti; e o que ele responde é: a coragem minha.
Buriti quer todo o azul, e não se aparta de sua água – carece de espelho. 
Mestre não é quem sempre ensina, mas quem de repente aprende.
           João Guimarães Rosa – Grande Sertão: Veredas


O blogueiro presepero que vos fala, que nem Guimarães Rosa com respeito ao pé de buriti ou miritizeiro ávido do infinito céu azul e ao mesmo tempo abeberando-se de sua beira d'água. Tem este caboco velho a palmeira Jupati em grande conta, como a palma de sua mão aberta aos quatro ventos e seus frutos entregues à maré que leva o pensamento ribeirinho à dispersão para saber quem inventou o vasto mundo. Masporém, com suas raízes afincadas nos tijucos desta vida, tal qual o jupati ele jamais se aparta de sua beira de rio imaginário. Onde ao pé da touça do jupatizeiro mágico canta a saracura e o cara se faz zelador da memória das terra de marinha com a Criaturada grande de Dalcídio por posseiros do verde vago mundo de Benedicto Monteiro. 

Um valor sentimental como lembrança duma querida avó rica em sabedoria. Avó Sophia (na verdade tia, avó postiça por morte da mãe índia de meu pai caboco) a qual ensinara a seu neto que a avó dela, índia marajoara da aldeia da Mangabeira (origem de Ponta de Pedras), quanto se referia a coisas de muita antiguidade dizia que isto ou aquilo era, paresque, "do tempo da vela de jupati"... 

Na imaginação do pirralho, em canoa tapuia (tapouille em língua crioula da Guiana e Antilhas) à vela de Jupati, a curiosidade singrava por mares nunca dantes... Como em outras regiões do mundo antigo, na América ameríndia predominou a vela quadrada. Quem é povo de maré sabe como, muitas vezes, indo-se em canoa a remo e o vento soprando a favor a gente improvisa "vela" expedita com ramo de mangue tirado da beira, uma palma de miriti ou de jupati... E aproveita a viagem para descansar os remos espichando a conversa e encurtando o tempo.

Gastão Cruls na grande, literalmente, "Hiléia Amazônica" (1944) dá razão ao educador Carlos Rodrigues Brandão quando diz que o cidadão moderno devia aprender com os índios. Pois estes têm imensa capacidade de aprender diretamente da natureza. Mais que nunca é preciso ouvir estrelas, conversar com árvores e plantas, aprender com os animais... Isto que há de operar a refazenda de um milhão de aldeias conectadas por satélites artificiais e a rede de saberes tradicionais. Religar os conhecimentos mediante costura da maturidade da população de terceira idade.

Descobrir, que a descoberta do Brasil através do caminho marítimo equatorial trouxe antes de Colombo, Pinzón e Cabral o imperador mandinga Abu Bakari II: e antes de todos navegadores os frutos do Jupati dentre tantas plantas dispersas pelas águas. Sem esquecer que em algum tempo geológico muito distante África e América foram um único continente. Ali a mãe de toda humanidade e aqui as esperanças de que, de fato, ainda se possa fazer um Novo Mundo.