quarta-feira, 30 de agosto de 2017

AMAZONIZAR O BRASIL É PRECISO, DESMATAR A AMAZÔNIA NÃO É LEGAL.

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aldeia Wazare em Campo Novo dos Parecis - Mato Grosso.



https://pt.wikipedia.org/wiki/Amaz%C3%B4nia  AMAZÔNIA





Indiferente às angústias e ambições humanas, o maior rio da Terra nasce modesto a 5.600 metros de altitude acima do nível mar, no Peru, cumeadas dos Andes, e desce precipitadamente as escarpas da cordilheira em busca da planície imensa compartilhada por nove países amazônicos - Bolívia, Brasil, Colômbia, Guiana, Guiana francesa, Equador, Peru, Suriname e Venezuela -, até confundir suas águas com o Atlântico após percorrer quase 7 mil quilômetros de extensão. No golfão Marajoara, dentre mais de duas mil ilhas, o Rio e o Oceano pelejam que nem titãs medindo a força das marés: e nessa luta infinita, recebendo a corrente equatorial que vem desde a Contracosta da África Ocidental até a costa do Brasil, emenda-se o rio Amazonas à Corrente das Guianas a carregar suas águas quentes ao Golfo do México para dar vida às paragens geladas do Ártico. Entendeu por que toda Água do mundo está interligada, inclusive em mais da metade do corpo humano?

É o gigantesco Amazonas - Marañón dos castelhanos, Uêne (rio) dos aruacos, Paraná-Uaçu dos tupis -, maior rio da Terra em volume de água e em comprimento (6.992,06 km). O padre Antônio Vieira o chamou "Rio Babel" (ler José Ribamar Bessa Freire, Rio Babel, a história das línguas na Amazônia), quando em 1542 o espanhol Francisco de Orellana desceu o rio acidentalmente, frei Gaspar de Carvajal que o acompanhou com outros aventureiros em dois bergantins construídos, mal e apressadamente, na floresta do Equador; descreveu diversos encontros dos espanhóis, oras amistosos e oras belicosos, com povos ribeirinhos que habitavam o "río grande de Orellana" desde tempos imemoriais. Graças aos "gados do rio" (peixe-boi, tartarugas, pirarucu, etc.), além da caça abundante, aquela gente vivia bem.

De Quito (Equador), em 1540, partiu uma grande caravana com milhares de soldados e índios, cavalos, lhamas, cachorros, porcos e bois, sob comando geral de Gonzalo Pizarro, irmão do conquistador do Peru; em marcha para descobrir e conquistar o "país da canela". Atravessou picos nevados, entrou na desconhecida Floresta Amazônica, extraviou-se e se perdeu na selva... Os índios violentados e aterrorizados pelas barbaridades dos cristãos desertaram, famintos e sem guias, os espanhóis mataram e comeram todos bois, porcos, cavalos, lhamas, cachorros... Por fim, literalmente, comeram a sola dos sapatos cozidas com ervas desconhecidas que adoeciam ou envenenavam os forasteiros. 

Esta experiência histórica - que determinou a "descoberta" do rio das Amazonas -, foi o primeiro contraste entre conhecimento tradicional local e poder imperial, posto que milhões de índios viviam nas regiões amazônicas com notável sustentabilidade. A sede de ouro, cerca de 1530, uma década depois da destruição das Índias Ocidentais no Caribe, deu início ao genocídio amazônico.

A "lenda das amazonas" (mulheres guerreiras que montavam a cavalo e amputavam um seio para manejar arco e flecha), transposta da Capadócia para o país do Eldorado, foi um acréscimo ao texto de Carvajal, o qual apenas relata, com rica fantasia, suposto ataque de índios comandados por mulheres dotadas de grande coragem e força física, a ponto de botar a correr os espanhóis com seus barcos cravados de flechas... Mais depressa a intenção de Carvajal foi dar ares de fantasia e insinuar existência de tesouros para livrar Orellana da forca, pois o "descobridor" estava acusado de crime de desertar do acampamento de seu primo Gonzalo Pizarro roubando-lhe os dois bergantins. A imaginação dos espanhóis da conquista do Peru recaia sobre as chamadas "virgens do Sol" (monjas guardiães do templo do Inca filho do deus Inti (Andes), o Sol), mulheres que se acreditava tinham fugido a esconder o tesouro no coração da selva amazônica. Estas, na verdade, seriam as "amazonas" da aventura de Orellana e frei Gaspar de Carvajal.

Curiosamente, foram portugueses que deram nome de "rio das Amazonas" ao grande rio e, por extensão, Amazônia à terra de grandes florestas chuvosas alimentadas pela imensa bacia equatorial. Os espanhóis, mais perto das populações aruaques, aprenderam destas o nome nativo do rio Uêne (água, rio), cujas terras ribeirinhas chamavam Guania e, finalmente, Guayana em castelhano (Guiana em português).  
Segundo o site do Itamaraty, a Amazônia é peça-chave da integração da América do Sul nos debates internacionais com a temática do desenvolvimento sustentável, mudança climática, combate à fome e erradicação da pobreza. Com uma população de, aproximadamente, 38 milhões de pessoas (das quais 25 milhões na Amazônia brasileira), representa 40% do território sul-americano tendo a maior floresta tropical do mundo, habitat de 20% de todas as espécies da fauna e da flora do planeta. A Bacia Amazônica contém cerca de 20% da água doce da superfície da Terra.
As regiões amazônicas trazem grandes desafios e oportunidades a seus respectivos países soberanos. Re requerem tratamento estratégico coordenado e diferenciado, objetivo comum da Organização do Tratado de Cooperação Amazônica (OTCA), bloco socioambiental formado pelos Estados nacionais que partilham o território amazônico: Bolívia, Brasil, Colômbia, Equador, Guiana, Peru, Suriname e Venezuela. As origens da OTCA remontam à iniciativa brasileira de 1978, quando os oito países amazônicos assinaram, em Brasília, o Tratado de Cooperação Amazônica (TCA), com objetivo de promover o desenvolvimento da região e o bem-estar de suas populações de modo coordenado, além de reforçar a soberania dos respectivos países sobre seus territórios amazônicos. 
Vinte anos depois do TCA, em Caracas, os ditos países firmaram protocolo de emenda ao Tratado de Cooperação Amazônica, criando a OTCA. Em dezembro de 2002, foi assinado, no Palácio do Planalto, o Acordo de Sede entre o Governo brasileiro e a OTCA, que estabeleceu a sede em Brasília, até hoje a única organização multilateral sediada no Brasil.
Nos últimos anos, a OTCA tem por alvo a Nova Agenda Estratégica de Cooperação Amazônica, aprovada em 2010, com as prioridades dos países amazônicos. Em abril de 2013, o Brasil anunciou a doação de terreno para a construção do novo edifício-sede da OTCA, contribuindo para garantir a autonomia financeira da Organização. Atualmente, se acham em execução mais de 20 iniciativas, projetos e programas, em áreas como meio ambiente, assuntos indígenas, ciência e tecnologia, saúde, turismo e inclusão social. Entre eles, destaca-se o Projeto Monitoramento da Cobertura Florestal na Região Amazônica, executado desde meados de 2011, em parceria com o Instituto Nacional de Pesquisas Especiais (INPE). O objetivo do Projeto é contribuir para o desenvolvimento regional da capacidade de monitoramento da Floresta Amazônica, por meio de instalação de salas de observação nos países-membros e de capacitação e intercâmbio de experiências em sistemas de monitoramento. As atividades planejadas para o período 2013-2017 contam com financiamento do Fundo Amazônia/BNDES, no valor de R$ 23 milhões.
A OTCA deveria ser mais incisiva sobre a Agenda 2030

O Acordo de Paris sobre mudança climática, coloca a Amazônia na ordem do dia. E a Agenda 2030, da ONU, promete erradicar a pobreza extrema. Por que os países amazônicos não juntam as duas coisas? Os brasileiros estão, subitamente, a perceber a "sua" Amazônia em perigo. A classe artística lança campanha S.O.S. Amazônia. Oxalá este despertar da sociedade brasileira ecoe imediatamente nos mais países amazônicos levando a todos a reanimar a OTCA no coração da integração sul-americana. A Amazonidade profunda ganhe o mundo inteiro, conquistando primeiro o Brasil ao encontro de seu futuro. As populações tradicionais amazônicas, longe de ser entrave ao progresso nacional; são elas que ainda poderão sustentar o direito territorial dos países amazônicos deixando a margem da História para o centro das preocupações permanente do Estado-Nação.

Centros de Estudos Amazônicos nas principais universidades não deveriam se limitar a uns poucos especialistas, mas ganhar corações e mentes da sociedade através da extensão universitária. Amazonizar é preciso, desmatar não é legal.


quarta-feira, 16 de agosto de 2017

O tempo da vela de jupati: em busca da ancestralidade da arte naval.

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Joaquim José Codina. Tab. 1a. Original Aquarela. Barcelos, 1787, in Viagem Filosófica. Iconografia. Antropologia e Geografia, Rio de Janeiro, Conselho Federal de Cultura, 1971 número 36, vol. 1 - CAIANA  

Revista 
de Historia del Arte y Cultura Visual 
del Centro Argentino 
de Investigadores de Arte




"Nesta arqueologia poética, a carpintaria naval transformadora da primitiva ubá em igarité e a mutação colonial do apagamento de aldeias para dar lugar a vilas portuguesas como esta Bragança mestiçada ao sol do equador na “zona tórrida” das Antípodas, sem jamais perder o norte da utopia brasílica: pensamento descolonial, expressado por José Ubiratan dentre outros amazônidas insubmissos aos ditames de Pombal e sucessores, nos mostra que lugar de índio na Amazônia é na história. Por aí, a par do negro acorrentado à mesma história e de pobres casais povoadores do ultramar, somos todos descendentes dessa gente pelo empoderamento permanente do território do Norte brasileiro." -- José Varella Pereira, "Tributo a Ubiratan Rosário" 



MINHA AVÓ SOPHIA

Na verdade tia, vovó Sophia adotou o irmão recém nascido que veio a ser meu pai caboco, batizado Rodolpho Antônio e o gêmeo Manuel natimorto sepultado como anjo no cemitério da vila de Ponta de Pedras; órfãos de mãe durante o parto de minha verdadeira avó paterna: a índia Antônia Silva, nativa da aldeia da Mangabeira, em Ponta de Pedras, na ilha do Marajó. Naquele tempo, quando alguém precisava viajar para fora da ilha fazia ladainha e promessa à Nossa Senhora do Tempo: despediam-se dos parentes de casa em casa, pois podiam não retornar devido os perigos das águas e terras a percorrer na jornada.

Sophia era filha mais velha do casal, para criar o irmão caçula ela e tia Lodica ficaram solteironas. Às vezes, aquelas duas pareciam ser a mesma alma em duas pessoas diferentes. Lembro minha avozinha baixinha muito sisuda, por necessidade e acaso ela ficou sendo chefe da família e herdeira principal do chalé de seu pai viúvo capitão Alfredo Nascimento Pereira, um terrenão e tanto no centro da vila, todo plantado de árvores frutíferas e ervas medicinais de variadas espécies e utilidades. No fundo do quintal havia um covão que, durante as chuvas, se transformava em lagoa do meu pavor noturno com a cantoria dos sapos e ao amanhecer, levado pelas mãos carinhosas de vovó, terminava sendo encantamento do menino ao ver centenas de jias e rãs de todas cores e tamanhos. 

Vovó Sophia era a memória viva da família, filha de índia tapuia casada no católico com o professor primário da vila, meu avô. Este um, rábula afamado, provável descendente de cristãos-novos dentre casais dos Açores atraídos ao Maranhão e Grão-Pará, em priscas eras, com falsas promessas do paraíso na terra dos Tapuias (Tapuya tetama) conquistada pela brava nação Tupinambá sob a coroa de Portugal durante a União Ibérica (1580-1640). Vovó não sabia nada destas histórias estúrdias, mas foi a partir de suas lembranças que eu me fiz ao mar da aventura, levado pela curiosa vela de jupati e o navio encantado; a fim de saber quem inventou o mundo...

Segundo ela, sua mãe contava que a avó da avó lá dela quando se referia a tempo de grande antiguidade, usava sempre a expressão que rezava: "no tempo da vela de jupati"... A vela de jupati, pois, parecia ser marco temporal entre antiguidade e modernidade. Divisão técnica entre canoas igarités, caravelas e navio a vapor. Improviso da sobrevivência ribeirinha e a arte naval das grandes navegações. E lá estava a palma utilíssima das viagens, na beira do rio de minha infância bem debaixo do meu nariz, o precioso Jupati (Raphia taedigera), palmeira de várzea formando abundantes touceiras nas margens sob influência da maré. Como, então, os índios faziam vela de canoa com jupati? Eu não conseguia entender.

Ao ouvir minha avó repetir, tantas vezes, aquela estória passada ao longo de gerações, eu embarcava na canoa da imaginação levado a esmo pela vela de jupati. E não é que a Raphia taedigera viceja em toda faixa tropical do mundo? O jupati tem mil e uma utilidades para populações tradicionais ribeirinhas, desde a construção de paredes divisórias de rústicas barracas cobertas de palha de ubuçu (Manicaria saccifera) ou inajá (Attalea maripa), esteios de tucumanzeiro (Astrocarium vulgare) ou siriúba (Avicennia schaueriana), com assoalho feito de juçaras de açaizeiro (Euterpe oleracea) ou tábuas de paxiúba (Socratea exorrhiza); ao fabrico de paneiros, pari para pesca de tapagem de igarapé; cacuri (curral de peixe), matapi para pegar camarão... Ouvindo aquilo eu ficava imaginando como poderia ser uma vela de jupati para canoa. 


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Jupatizal na beira do rio: paisagem amazônica típica; palmeira encontrada em toda faixa tropical da América, África e Ásia.


Era assim, portanto, na história oral desta gente a vela de jupati uma preteridade enorme. Também puderá! Enquanto a invenção histórica da nossa Amazônia tem só 400 anos e a América grande chegou há pouco aos 500; nas terras baixas da velha Tapuya tetama cinco mil anos contemplam nossa geral ignorância das coisas nativas deste país. Dos quais, mil e seiscentos anos da Cultura Marajoara, dizem os arqueólogos, primeira cultura complexa das regiões amazônicas nascida diretamente do modo de pesca primitiva de gapuia! E se a gente se lembrar que a palafita é evolução natural do tapiri do paleo-índio aruaque sobre as ramas do mangal, que se transformou por necessidade e acaso em cabana do arteiro caboco ribeirinho?

A velha aldeia da Mangabeira sito à meia légua de distância acima da aldeia nativa dos arredios Guaianá agora extintos, na margem ocidental da baía do Marajó, há 330 anos foi criada pelos padres jesuítas com índios mansos trazidos de canoa à vela da aldeia Samaúma (Barcarena) para dar início à lavoura na primeira sesmaria que a missão da Companhia de Jesus teve na ilha do Marajó. Todo povoamento indígena das ilhas do Pará e Amazonas está ligado umbilicalmente às ilhas do mar do Caribe e às antigas navegações a remo e velas de jupati. 

Dizia a avó Sophia que a avó lá dela, em certa ocasião, viajou com parentes até a Cidade do Pará atravessando a baía em curicaca, isto é, canoa de pesca. Naquele tempo, na maré seca a gente saltava da canoa ao porto passando por cima de estiva de troncos de miritizeiro (Mauritia flexuosa). As ilhas do Marajó faziam parte da área cultural guianense, envolvendo a grande ilha das Guianas, que ia do Amazonas até a ilha de Trinidad atravessando do delta do Orinoco. A multidão aruaca desenhou na própria terra virgem o Circum Caribe ao sair do oco do mundo, no Rio Negro, em canuá (canoa, palavra Taino através do espanhol) a remo. Esta piroga, batizada com as águas do mar salgado, criou velas como as asas da borboleta-amarela (Phoebis philea philea) que os índios do Pará chamavam marapanim, e, às vezes, o vento leva para o largo da beira mar.

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vela do Mucuripe

Neste vasto mundo de águas grandes, dizia o padre Antonio Vieira que os homens andavam mais com braços e remos que com as próprias pernas: 

"... navegando-se sempre por entre árvores espessíssimas de uma e outra parte, por ruas, travessas e praças de água, que a natureza deixou descobertas e desempedidas do arvoredo. E posto que estes alagadiços sejam ordinários em toda aquela costa, vê-se este destroço e roubo, que os rios fizeram à terra, muito mais particularmente naquele vastíssimo Arquipélago do rio chamado Orelhana e agora das Amazonas..."  (História do Futuro, Padre Antonio Vieira, Lisboa 1718, Belém: SECULT, 1998, p. 301)

A supimpa invenção da vela pelos índios parece ter sido evolução da ubá ou canuá nativa, onde ocorreu corrente e ventos favoráveis com a sugestão de improvisar com ramagens de mangue o descanso dos braços e remos... Daí para a vela do jupati foi só um aperfeiçoamento. Depois, provavelmente, com fio de algodão e tear já por imitação das velas das igaras chegamos nós aos novos tempos das curicacas, vigilengas e igarités. Todavia, eu não conseguia entender como se faz a tal vela de jupati até, muitos anos depois, folhear um exemplar da Viagem Philosophica, do naturalista Alexandre Rodrigues Ferreira, e ver o desenho duma antiga igarité com a dita cuja (ilustração supra), pela pena fidedigna do desenhador Codina. 


Por outra parte de minha história de família, o casarão de meus avós maternos mais parecia um museu da navegação. Ali respirava-se ares de velha marinhagem. Pelo chão em desordem, âncoras, ferragens, moitões, cabos, enxárcias, o cheiro do zarcão dos calafetos espalhado na varanda há anos e anos desde a quebra da Borracha. E, na beira do rio, num estaleiro arruinado junto ao trapiche cambaleante sob o peso do tempo e das marés, jazia o sonho do imigrante de Pontevedra na construção falhada do barco veleiro "San Thiago".  

Histórias e fantasmas ultramarinos seguiam imigrantes na ilha do Marajó. Meus avós galegos moraram no rio Curral Panema, a uma maré de distância entre os rios Arari e Marajó-Açu. Vizinhos a eles uma comunidade afrodescendente e outra notavelmente açoriana completavam o ambiente cujos meios de comunicação eram canoas a remo e igarités à vela: a igarité se apresenta como evolução da canoa montaria, que no passado foi ubá e nós chamamos "casco", feito de um tronco de árvore escavado. Com duas falcas de lado a lado, o casco passa a ser montaria, por imitação talvez do cavalo ou boi de sela nos campos. 

Com certeza, a presença de brancos e negros naquelas paragens amazônicas precisou da navegação de navios veleiros de alto mar. A construção naval primitiva evoluiu lentamente. As primeiras evidências arqueológicas do uso de barcos remontam de há 50 a 60.000 anos, na Nova Guiné. No Antigo Egito já conheciam técnicas de uso de tábuas de madeira para formar o casco das embarcações. No velho Portugal, no século XV, mudavam o termo medieval de "Tercenas" para Ribeira das Naus, abreviado para Ribeira, onde faziam estaleiros... Tão importantes estas beiras de Belém Ocidental, que el-rei Dom Manuel, para estar mais perto do sonho do comércio das Índias, mandou fazer seu palácio às ilhargas, o Paço da Ribeira. E em Belém do Grão-Pará também, não distante do Palácio do Governo, houve a Casa das Canoas que hoje é um dos mais importantes patrimônios invisíveis da Amazônia. 


segunda-feira, 14 de agosto de 2017

ECOTURISMO LITERÁRIO EM CACHOEIRA: economia solidária com a cara e a coragem marajoara.

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foto histórica do chalé batido de vento e chuva sobre águas do dilúvio amazônico, no qual Dalcídio Jurandir viveu a infância: transfigurado nas lembranças de Alfredo como a casa do major Alberto e sua mulher dona Amélia, em Cachoeira, no romance Chove nos campos de Cachoeira e os mais da série Extremo Norte.




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O amigo leitor deve saber que Plano Ver-O-Pará - Plano Estratégico de Turismo do Estado do Pará (2012-2020) contempla seis polos de atuação, com que pretende incentivar a "indústria sem chaminés" que mais se desenvolve no mundo: Amazônia Atlântica, Araguaia Tocantins, Belém Metrópole, Marajó, Tapajós e Xingu. Aqui este modesto blogueiro não abordará mais que alguns casos relativos às regiões ecoculturais do Marajó e Salgado, comparando as áreas de proteção ambiental Algodoal-Maiandeua e do Arquipélago do Marajó, com ênfase em Cachoeira do Arari. 

No polo Amazônia Atlântica, o município turístico prioritário para a Secretaria de Estado de Turismo (SETUR) é o município de Salinópolis, onde tradicionalmente a camada social mais privilegiada do estado o elegeu como centro de veraneio e férias preferido. Esta vantagem relativa, entretanto, apresenta sérios problemas de meio ambiente e conflito social entre população nativa e veranistas. Uma situação recorrente em quase todos municípios de veraneio e que, na Europa, chegou ao ponto de ruptura com manifestações hostis e ataques frontais a estabelecimentos turísticos. 

Consequentemente, boa parcela de visitantes da velha e pacata Salinas de outrora, começa a buscar novas opções no Salgado em direção a Ajuruteua em Bragança, Algodoal em Maracanã, Marudá em Marapanim e recantos mais tranquilos e preservados de Salinópolis mesmo. A evidente deterioração do turismo massivo de praia lança alerta para que se desconcentrem empreendimentos e preservem lugares de interesse ambiental, paisagístico ou turístico antes que seja tarde e a galinha dos ovos de ouro esteja miseravelmente morta.

Se o ecoturismo literário não existisse seria preciso inventá-lo. Sobretudo, para efetuar da melhor maneira inclusão socioambiental da Criaturada grande de Dalcídio à Agenda 2030 dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS), que segundo a ONU não deixará ninguém para trás. Então, se por infelicidade geral, o Plano Ver-O-Pará falhar em seus principais objetivos, mas ainda assim no Polo Marajó houver preparado e mobilizado as mais de 500 comunidades locais da região levando-as a participar, direta ou indiretamente, do processo do ecoturismo, já poderíamos comemorar o sucesso do turismo como instrumento econômico inovador para superar a extrema pobreza. Mesmo que, por hipótese, nunca apareça um só turista naqueles recantos. Pois o Marajó tem potencial para transformar-se, rapidamente, na Costa Rica paraense em matéria de ecoturismo de base na comunidade local. 

É disto que aqui se trata, interessando a todos mais polos turísticos do Pará e a prova mais patente dessa transformação se encontra certamente na Área de Proteção Ambiental Algodoal-Maiandeua, no município de Maracanã, uma unidade de conservação de uso sustentável, conforme a Lei Estadual n°. 5.621/90 de 27 de novembro de 1990. na APA. Antiga vila de pescadores como tantas outras, todavia graças ao ecoturismo se tornou um "point" nacional e internacional de referência do desenvolvimento socioambiental sustentável interessando diretamente aos municípios de Maracanã e Marapanim envolvendo a rede de reservas extrativistas marinhas e outras unidades de conservação no Pará. O empreendedorismo familiar da população nativa não se fez de rogada acompanhando investimentos públicos e privados, hoje parte expressiva de moradores reformou a própria residência com acréscimo de anexo servindo de pousada de modo integrados aos hotéis, bares e restaurantes da ilha. Velhos pescadores com a melhoria de renda familiar só voltam ao mar por lazer e não mais por necessidade. A comunidade local está madura para ousar num passo adiante dentro do mesmo processo do desenvolvimento sustentável. Mas, a decana APA Marajó engatinha em busca de sua "vocação econômica" ao tomar decisões para o desenvolvimento e melhoria das condições de vida da gente marajoara. 

Em geral, a mídia regional mostra-se hostil à existência de unidades de conservação no Para sob o argumento equivocado de que proteção ambiental "engessa o progresso"... Todavia, o Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC), longe de prejudicar ele incentiva o desenvolvimento econômico e social, com exemplos de Fernando de Noronha e do Pantanal, este último fazendo parte da rede brasileira de reservas da biosfera (biomas da Mata Atlântica, Cerrado, Caatinga, Serra do Espinhaço e Amazônia Central), onde se espera presença do Arquipélago do Marajó e da Amazônia Atlântica a fim de completar a proteção a todos biomas brasileiros - de acordo com entendimento preliminar sobre o projeto da Reserva da Biosfera Marajó-Amazônia -, pendente de providências técnicas para finalizar candidatura à UNESCO pelo governo estadual do Pará. 

Na verdade, a respeito da Reserva da Biosfera Marajó-Amazônia perdemos oportunidade e na atual conjuntura pesa um mortal pessimismo que, todavia, poderia ser superado se lideranças das comunidades despertarem para oportunidades do Acordo de Paris sobre Mudança Climática e a Agenda 2030 dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) coordenados pela ONU.

Produto turístico não se exporta feito soja, carne, banana, madeira ou minério. Porém, do mesmo modo das commodities, o turismo ao mesmo tempo gasta com turistas brasileiros no exterior traz divisas com turistas estrangeiros no país gerando renda e empregos nos municípios turísticos de maneira mais interessante que outra qualquer atividade econômica exportadora. O que importa no negócio do turismo é chamar o consumidor a vir com seu cartão de crédito ou moeda forte contribuir ao desenvolvimento sócio-econômico local. Então, já podemos compreender que o turismo é uma arma de dois gumes, podendo ser redenção ou praga dos municípios. 

Em troca de hospitalidade (palavra-chave do sucesso do negócio turístico), o visitante nacional ou estrangeiro quer mudar de ares, provar comidas diferentes, ver novas paisagens, conhecer pessoas e costumes interessantes... Já dizia Rousseau que a educação são as viagens. No turismo há gosto para tudo, como também há turista para todos gostos. Enfim, se é verdade que o melhor lugar para o turista é aquele que também é bom para as pessoas que ali vivem, então não poderá prosperar o negócio que leva males e exclusão às populações locais. Ao contrário, o atrativo turístico inteligente convida o turista inteligente a vir conhecer e aprender com a comunidade visitada. Este é negócio que ainda terá futuro numa civilização ora em declínio.


A vocação econômica do Marajó

Desde 1989, a Área de Proteção Ambiental do Arquipélago do Marajó (APA Marajó) não consegue tomar pé. Entretanto, esta unidade estadual de conservação ambiental tem potencial para integrar mosaico de áreas protegidas da mesorregião Marajó, em conjunto com unidades federais e municipais. De modo, a conferir destaque á candidatura oficial, reclamada desde 2003, da Reserva da Biosfera Marajó-Amazônia ao programa Homem e Biosfera (MaB), da UNESCO. Esperança de que a modalidade internacional de conservação resulte em melhoria da qualidade de vida da Criaturada grande de Dalcídio, conforme reza a Constituição do Estado do Pará, em seu Parágrafo 2º, VI, do Artigo 13 -- O arquipélago do Marajó é considerado área de proteção ambiental do Pará, devendo o Estado levar em consideração a vocação econômica da região, ao tomar decisões com vista ao seu desenvolvimento e melhoria das condições de vida da gente marajoara.

Nos anos 70, a pedido do governo estadual a Organização de Estados Americanos (OEA) formou equipe de especialistas para elaborar diagnóstico do potencial econômico do Marajó. Sobre o turismo não se tinham mais que uma leve impressão no pensamento econômico da época ainda excessivamente conservador influenciado pela colonização do chamada "celeiro do mundo". O que menos interessava no Marajó era a arqueologia vista apenas como curiosidade. Embora, escavações de sítios arqueológicos tivessem revelado ao Brasil e ao mundo maravilhas artísticas da milenar cerâmica marajoara. 

Do ponto de vista da gente marajoara, o padre Gallo (Turim, 1927 - Belém do Pará, 2003) sozinho nadando contra a correnteza fez mais pela cultura marajoara que qualquer prefeitura, representante do povo na Assembleia Legislativa, Câmara dos Deputado e Senado, Governos estadual e federal ou a UNESCO. Mais da metade da gente marajoara é analfabeta e o IDH dos municípios assusta pela pobreza da Criaturada, portanto esta gente embora seja o principal objetivo da literatura dalcidiana - de interesse antropológico e sociológico, diga-se de passagem -, não consegue ler a obra Cultura Marajoara, de autoria da arqueóloga Denise Schaan, que deveria ser indispensável a cada prefeito ou outra qualquer autoridade tendo dever político com relação ao Marajó.

Enquanto ditaduras militares grassavam na América Latina, Brasil inclusive; na França republicana no vetusto Museu do Louvre um pequeno número de museólogos dentre eles Hugues de Varine dava senhas à revolução mundial de ecomuseus e museu comunitários. No mesmo tempo, a Academia Brasileira de Letras (ABL) concedia o Prêmio Machado de Assis (1972) a Dalcídio e na longínqua e isolada Santa Cruz do Arari o padre Giovanni Gallo inventava o primeiro ecomuseu do Brasil, O Nosso Museu de Santa Cruz do Arari (1973-1981), que deu origem a O Nosso Museu do Marajó. Eu tenho impressão de que se fizermos uma enquete sobre o conhecimento de professores e alunos universitários sobre este assunto o resultado será decepcionante... Mas, a maior esperança de mudança de mentalidade da sociedade são os professores e estudantes. Os maiores aliados do desenvolvimento local sustentável que pode desejar.

Estes fatos interligados à memória da antiga vila de Cachoeira do rio Arari: a literatura de Dalcídio Jurandir, a partir de Chove nos Campos de Cachoeira e Marajó, escritos em Salvaterra; e a ecomuseologia criativa de Giovanni Gallo são as duas faces da mesma moeda, na qual o homem marajoara é o centro. Daí se evidencia o potencial turístico donde não falta história oral, realismo mágico com contadores de causos supimpas, fabulistas fora de série, artistas porretas, poetas mil, escritores extraordinários e ecocultura nativa que a mãe natureza esmerou-se ao criar bichos, plantas e gentes. Só falta despertar a povo a recuperar a memória perdida a fim de prevenir os mais graves desvios do progresso predador de paisagens e de povos nativos em todo mundo. 

A gente precisa aprender a "vender" paisagem com inteligência de quem faz arquelogia da rota do sol. Saber mostrar aos viajantes do mundo onde mora o Araquiçaua ("lugar onde o sol ata rede de dormir", do nheengatu ara (dia), ky (rede) e xawa, sítio). Maís de mil anos de civilização no delta-estuário do maior rio do mundo, lugar mítico que se acha dentro da boca do Arari - "rio das araras", de ara (arara) e ari (rio) em línguas aruaques -, a cada por do sol no fim da jornada de pesca, veneravelmente contemplado por pajés-açus iniciados na saga dos Tupinambás segundo mistérios da pajelança do Jurupari, desde as remotas praias do Salgado. 

Lugar mítico falado principalmente ao longo da costa marítima nas confabulações das antigas migrações do Maranhão ao Pará, através de trinta e tantas baías até o Furo da Mocoóca ("casa escondida", em nheengatu), varando de Maracanã a Marapanim, famosa "casa dos homens" na cultura tupi-guarani. Onde os índios guardavam objetos sagrados e praticavam cerimônias secretas do rito de Jurupari, proibidas à curiosidade das mulheres e de estranhos. Naturalmente, o hoje obscuro Araquiçaua na ilha do Marajó, em épocas recuadas quando português nem espanhol, holandês, francês ou inglês não haviam ainda pisados estas paragens; de longe no horizonte atraiu buscadores andejos da utópica Yby marãey ("terra sem mal") - paraíso terreno, onde não há fome, trabalho escravo, doença, velhice e morte -, era o Sol (Guaraci, "mãe dos viventes) a guiar a Criaturada na terra dos tapuias ("Tapuya tetama"). Embora esquecida a "terra sem males" pode aflorar do inconsciente coletivo, de diversos modos, pelas artes, pelas religiões populares e outras manifestações da gente em busca de melhores condições de vida.

Não sem assim, antigamente, o pau chichou entre falantes da "língua ruim" (nheengaíba) e abaetés (gente de verdade), falantes da "boa língua" (nheengatu). E quando os brancos chegaram com suas grandes igaras e paus de fogo, suplantando a vela de jupati, flechas envenenadas de curare e tacape, deram-se mais de quarenta anos de guerra, inclusive para expulsar holandeses e ingleses entre 1623 e 1647; até o payaçu Antônio Vieira aparecer por estas bandas a levar paz às aldeias de ambas margens do Para-Uaçu (Grão-Pará, grande mar de água doce). Pela primeira vez, por acaso, inimigos hereditários tupis e aruaques estiveram juntos sem discórdia na mesma missa: no dia histórico de 27 de agosto do ano de 1659, igreja do Santo Cristo do rio dos Mapuá (hoje a Reserva Extrativista Florestal Mapuá, no município de Breves). Sem esta pax marajoara, diz Vieira, o Pará seria de qualquer potência colonial que se unisse aos "nheengaíbas"...

A realidade histórica demonstra, todavia, que aquelas pazes do Marajó foram precárias. Só no século seguinte, com a vinda de escravos africanos através de São Luís do Maranhão, puderam os colonizadores refrear a fuga de "negros da terra" (escravos indígenas) de volta ao mato donde haviam sido capturados, mediante incentivos para o índio e a "negra da Guiné" (escrava africana) formar casal. Desta maneira, o "rabo de saia" e os filhos cafuzos prendiam à senzala o índio indispensável. Se bem que, em certas oportunidades, este mesmo índio cativo irredutível abriu as portas da escravidão guiando e mostrando a irmãos negros o caminho dos mocambos e da liberdade, como ensina Flávio Gomes dos Santos na obra fundamental A hidra e os pântanos.

Todavia, colonos do Pará famintos de trabalho escravo de "negros da terra", para ficar mais à vontade nas suas costumeiras violências, expulsaram o padre grande dos índios com seus confrades jesuítas, no ano de 1661, Vieira seguiu a Portugal para ser preso e condenado por heresia pelo tribunal da Inquisição, enquanto no paço El-Rei dom Afonso VI, em 1665, doou a ilha dos Nheengaíbas a seu secretário de estado dom Antônio de Sousa de Macedo, como capitania hereditária da Ilha Grande de Joanes.

Porém, os ditos nheengaíbas, resistindo como puderam, não cederam espaço aos sesmeiros do donatário até o primeiro curral de gado do carpinteiro português Francisco Rodrigues Pereira, em 1680 no rio Arari, vencendo o medo que os brancos tinham da má fama dos índios aruãs e anajás bravios, negros quilombolas e desertores que viviam pelos centros desconhecidos da ilha do Marajó. Mais ou menos pelo mesmo ano, os índios Iona (aportuguesados como Joanes) ou sacacas acossados pelos belicosos Aruãs (cf. relato do sargento-mor de milícia da vila de Monforte, índio sacaca Severino dos Santos, a Alexandre Rodrigues Ferreira em "Notícia Histórica da Ilha Grande de Joanes, ou Marajó" (1783), buscaram ajuda dos portugueses do Pará para enfrentar seus antigos inimigos, que antigamente os haviam empurrado dos centros da ilha para a costa-fronteira do Pará. Com sorte, pela derradeira vez que os Aruãs desceram o igarapé Jubim para atacar os Joanes estes se anteciparam com seus novos amigos vindos do Pará com armas de fogo. O inimigo fugiu em debandada a se esconder no igarapé Água Boa, onde os alcançaram portugueses e ionas que deram fim àqueles aruãs bravios. E nunca mais voltaram... 

No dia 20 de novembro de 1756 - atualmente Dia Nacional da Consciência Negra e que deveria coincidir com Dia Nacional da Cultura Marajoara, caso a gente derrotasse a colonialidade que impera em nossa sociedade -, segundo o sábio de Coimbra, Alexandre Rodrigues Ferreira, na "Notícia Histórica" (1783), o fundador da vila da Cachoeira do rio Arari e inspetor oficial da ilha do Marajó, capitão Florentino da Silveira Frade achou o primeiro teso (sítio arqueológico) que se tem notícia na crônica colonial do estado do Grão-Pará e Maranhão (1751-1823). Era o teso do Pacoval do rio Arari, o mais espoliado de todos sítios arqueológicos desde o governo do Barão de Marajó na Província do Pará (cf. a obra clássica As Regiões Amazônicas, deste autor): ironia da história, localizado no Igarapé do Severino confronte à vila do Jenipapo; donde provavelmente o caboco Vadiquinho, amigo do padre Gallo, coletou "cacos de índio" para provocar o padre que gostava de "coisas que não prestam"... Nasceu assim o primeiro ecomuseu que se tem notícia por estas paragens deixadas entre chuvas e esquecimentos.

O chalé de Alfredo sobrevive no romance dalcidiano e na memória de milhares de leitores da obra, no Brasil e no exterior. Não importa se na realidade a velha casa do capitão Alfredo Nascimento Pereira, secretário da intendência ao tempo do coronel Bento de Miranda Lobato, foi ao chão sob o peso dos invernos ao longo de mais de cem anos de existência. Pela magia do caroço de tucumã nas mãos do menino Alfredo o chalé está a salvo do dilúvio e do esquecimento, os olhos de Eutanazio vagam com os pirilampos na noite dos campos e o mito da primeira noite do mundo está preservado com os bichos, os habitantes do mundo e os encantados. A cristurada grande de Dalcídio apesar da pobreza e da dura luta pela sobrevivência se reconhece no "índio sutil" e com ele se empodera da terra ancestral de seus antepassados.  

Sabe-se o quanto rico é o potencial turístico da Amazônia paraense. Entretanto, transformar esse diamante bruto em produto é que são elas... Não se faz produto turístico por decreto nem porque um famoso estudioso quer. Será preciso integrar recursos públicos e privados de diferentes níveis, começando preliminarmente com que as pessoas que vivem no lugar a ser visitado recepcionem os autores visados e suas obras de modo a revelar o patrimônio invisível aos olhos dos próprios moradores. 

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Se este primeiro passo acontecer de fato, será catalisador da hospitalidade da comunidade. Com a melhoria da hospitalidade a qualidade de vida da cidade e do meio rural já experimenta mudança em relação à qualidade de vida local. Sem necessidade de propaganda a população percebe, então, que algo está em movimento no sentido de uma busca coletiva de conhecimento sobre a história social, a natureza e os costumes do lugar. Um novo olhar sobre crianças portadoras do futuro e velhos senhores da memória, o papel das mulheres educadoras da casa e dos jovens através de uma educação patrimonial valorizada e continuada.  A escola da infância passa a ser vista pela comunidade como viveiro das sementes do futuro. 


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Aí estará plantada a boa esperança de renda municipal justa e empregos de qualidade. Nós falamos muito em "desenvolvimento sustentável" e muitas vezes não nos damos conta de que sem o desenvolvimento humano local a economia não pode prosperar. Muitas vezes, no caso de Cachoeira do Arari, nos esquecemos da história da fábrica OLEICA (Oleoginosas de Cachoeira do Arari), suas expectativas de riqueza e geração de emprego, inconsistências sócio-econômicas e a inevitável falência. Até que, inviabilizada a manutenção da empresa foi sucedida com vantagem para o povo cachoeirense pelo Museu do Marajó 

O ícone Alfredo, sem dúvida, principal personagem de nove dos onze romances de Dalcídio Jurandir premiado pela Academia Brasileira de Letras com o Prêmio Machado de Assis de 1972 - único até hoje para romancista da Amazônia -, pelo conjunto da obra, é o maior atrativo de Cachoeira do Arari. Porém, Cachoeira possui outros autores e valores culturais para produtos turísticos que seriam promovidos mediante destaque da obra mais conhecida nacional e internacionalmente. 




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Rodovia Dalcídio Jurandir (PA-154) integrando Cachoeira do Arari, Salvaterra, Soure e Santa Cruz do Arari. Conexão rodo-hidroviária com Belém através do porto Foz do Camará ou, futuramente, por Ponta de Pedras - Vila de Mangabeira, quando se concluir o projeto turístico da Rota do Sol Marajoara sobre a antiga Costa-Fronteira do Pará.

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

SIMULTÂNEO AO PRIMEIRO ECOMUSEU DO MUNDO NASCEU POR ACASO NA ILHA DO MARAJÓ O PRIMEIRO ECOMUSEU DO BRASIL.


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foto: Giovanni Gallo / arquivo do Museu do Marajó

"A obra começou quando Giovanni pretendeu despertar a consciência histórica e social daquele empobrecido povo. Os pescadores, acostumados em suas incursões diárias aos sítios arquelógicos, dando sequência à costumeira destruição do passado, reagiram de maneira insólita, levando como oferta ao irrequieto padre aquilo que diziam ser "cacos de índios". - Apresentação / Ima Célia Guimarães Vieira, Presidente do Museu do Marajó, Belém, 27/04/2005, página XV, in "Motivos Ornamentais da Cerâmica Marajoara", Giovanni Gallo: Cachoeira do Arari, 3ª ed. O MUSEU DO MARAJÓ, 2005.





O Museu do Marajó é ecomuseu comunitário.

É atrevido afirmar uma coisa destas, comparando sem mais nem menos a supimpa invenção de Hugues de Varine evadindo-se do Louvre a fim de tomar ar fresco na civilizada e envelhecida França e a bárbara aventura por acaso de um padre italiano teimoso que 'impodiu' sob o pesado carma da grande ilha-mundo, chamado Giovanni Gallo (Turim, 1927 - Belém do Pará, 2003). O padre queria ser santo (autobiografia O homem que implodiu). Todavia, após sua morte ele foi solenemente declarado reincarnação de um grande cacique marajoara das antigas nações indígenas, por um visitante misterioso do Museu do Marajó que chegou e partiu de repente. Ninguém soube dizer quando ele chegou e saiu da cidade de Cachoeira do Arari. Quando um amigo me deu esta fantástica notícia eu não me abalei e até pensei dos sete caciques que, há 358 completos no próximo dia 27, celebraram as pazes com portugueses e inimigos tupinambás no rio dos Mapuá, segundo a missão pacificadora do padre Antônio Vieira.

Acho eu que por esta o Gallo velho não esperava: espírito caruana é fogo e com pajé não se brinca. "Graças a Deus eu tive sorte. Se o pajé tivesse dito que eu sou um safado, ninguém, nem o Papa com uma carta encíclica, teria força bastante para reabilitar-me." (Giovanni Gallo, Marajó, a ditadura da água, citado, página 62).  "O pajé no Marajó é uma realidade. Quem quiser negá-lo é cego ou mentiroso." (Idem, página 207).


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O marajoara que veio de longe para estremecer as raízes marajoaras do escritor da Criaturada grande, Dalcídio Jurandir (Ponta de Pedras, 1909 - Rio de Janeiro, 1979), no purgatório amazônico em busca de salvar a missão. De longe, do Rio de Janeiro onde vivia, o premiado escritor agnóstico viu logo a raridade daquele padre italiano:"... Que qualidade de sábio e repórter! O povo, os bichos, as águas sabem convier com ele. O padre enfrenta a realidade, não simplifica. Tem uma dose de compreensão da mais alta. Lendo-o fico com as minhas raízes marajoaras estremecendo.
     "Que o padre tire uma coleção de reportagens e faça um livro que será retrato da terra e da gente de Jenipapo." (Dalcídio Jurandir, Correspondência com Maria de Belém Menezes). 

Então, de fato, naqueles sete anos passados entre chuvas e esquecimentos a comunidade do Jenipapo foi propriamente dito o ecomuseu do lago Arari com o povo todo, os bichos e as águas a que o autor do primeiro romance sociológico brasileiro - Marajó - se referiu em carta sobre as reportagens de Giovanni Gallo. O livro acabou saindo com título de Marajó, a ditadura da água, edições "O Nosso Museu" Santa Cruz do Arari - Pará, 1980. O prefaciador da primeira edição Afonso Kautau, datando de Belém em agosto de 1980, refere-se à reunião na redação do jornal (provavelmente O Liberal) onde "Giovanni me fez ver a necessidade da publicação de um artigo seu, com a máxima urgência, com o seguinte argumento:
     - Esse texto, publicado no jornal, é o meu passaporte para as autoridades

Na mídia da capital o padre de Santa Cruz e Jenipapo encontrou não apenas veículo para chamar atenção sobre sua gente esquecida, mas também o amigo e irmão das horas difíceis, o operário gráfico Antônio Smith, bragantino de nascença. Podia-se dizer, respeitosamente, que Quixote encontrou Sancho nas oficinas do jornal, dali em diante Giovanni teria com quem dividir parte de seus problemas: sim, o Gallo estava arranjando encrenca e sem querer prestes a suceder Dalcídio no papel principal de zelador da Criaturada... 

Pena que ele não leu Dalcídio como seria preciso a fim de entender melhor a Criaturada grande, confessou isto em público no auditório da Fazendola (Museu do Marajó), em novembro de 2001, durante o Colóquio Dalcídio Jurandir: 60 anos de Chove nos campos de Cachoeira. Já era um tanto tarde, pois o romancista havia falecido em 1979 e o padre insubmisso viria a morrer menos de dois anos depois, em março de 2003, sem que os dois maiores mestres da gente marajoara tivessem se encontrado pessoalmente algum dia na vida. Imagina, então, se aqueles dois conversassem amiúde? 

O afrodescendente filho de dona Margarida Ramos se fez voz de uma gentinha à margem da história que ele transformou em Criaturada grande, aquele menino saiu de Cachoeira aos treze anos de idade para ir estudar na capital (ler Primeira Manhã, um dia na vida do autor e mais de trezentas páginas contando o desencanto de Alfredo com o ensino no ginásio e a vida na cidade grande). Dalcídio José Ramos Pereira (Dalcídio Jurandir) teve sua escola na redação dos jornais e na militância do Partido Comunista Brasileiro (PCB) seguindo o Cavaleiro da Esperança, Luís Carlos Prestes. Pouco a pouco, ele se tornaria intelectual orgânico, consagrando-se a sua criaturada grande das Ilhas, Baixo Amazonas e ilha do Marajó... 

Sem saber, tal qual aprendiz de feiticeiro; o padre estava sendo 'descatequizado' pela dita Criaturada do "índio sutil" (discurso de recepção proferido por Jorge Amado para outorga do Prêmio Machado de Assis de 1972 a Dalcídio Jurandir pelo conjunto da obra em onze romances). Antigos conflitos de classe e tensões sociais do momento afloram no pequeno município de Santa Cruz do Arari: Gallo era daltônico e um pouco ingênuo no jogo político...

Dalcidio começou a rascunhar o romance seminal Chove nos campos de Cachoeira na distante Gurupá, na função de secretário da prefeitura sob gestão do interventor Rainero Marajó, amigo e protetor que lhe doava livros da literatura clássica com que o filho da preta descendente de escravos e do branco da pequena burguesia do Marajó aprendeu a jogar o jogo. Saiu da prefeitura e foi alfabetizar os filhos de um dono de seringal no rio Baquiá (certamente, ele gostaria de saber que hoje aquelas paragens são terras públicas da Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS Itatupã-Baquiá), administrada pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade - ICMBio.  

O jovem escritor marajoara iniciou em Gurupá sua carreira literária e o derradeiro romance, Ribanceira, escrito no Rio de Janeiro viria ser o fim da odisseia entre as ruínas idílicas da belle époque da Borracha, no dizer de Pedro Maligo. A fiel Penélope figura a Criaturada a esperar o herói na ilha de Ítaca-Marajó. Naquele tempo é claro que Dalcídio José não era ainda Dalcídio Jurandir, e Giovanni Gallo, filho de operário italiano sob o fascismo de Benito Mussolini; sequer havia nascido. A herança dalcidiana é pesada, mesmo para padre jesuíta aculturado no Marajó velho de guerra... relembrando o padre grande dos índios Antônio Vieira, há mais de trezentos anos. 

Com o Estado Novo (fascista) de Getúlio Vargas a outrora província do Pará caçou e meteu no xadrez conhecidos comunistas da capital, entre estes o filho do capitão Alfredo Nascimento Pereira, rábula e devoto de Santa Rita de Cassia na pacata vila de Ponta de Pedras. Um escândalo na paróquia de Nossa Senhora da Conceição, onde o tio Manoel Ramos, irmão de sua mãe; era sacristão e o viu nascer numa modesta barraca coberta de palhas de sua propriedade no bairro do Campinho... Dalcídio saiu do Presídio São José lugar mal afamado onde se castigavam ladrões de gado e outros marginais ou criminosos, reassumiu cargo de inspetor da educação pública e foi servir no município de Soure, morou de fato na vila de Salvaterra distrito daquele... Pobrezinha, Salvaterra em 1929 era uma vila de pescadores: foi aí que Dalcídio, finalmente, escreveu o Chove nos campos de Cachoeira, dizendo ele que não sobrou nada do calhamaço iniciado em Gurupá... Guiomarina sua mulher vergada sobre a máquina datilográfica que ele cometeu a loucura de comprar a prestação, fiado nos magros ordenados mensais quase sempre atrasados. Ficou devendo na taberna do amigo em Salvaterra e dormiu no chão quando a velha rede puída pelo uso se rompeu. Em Salvaterra salvou o primeiro romance da mocidade. Escreveu também o segundo, Marinatambalo, que foi publicado com título de Marajó por sugestão do editor. Vicente Salles, no artigo Chão de Dalcídio enxergou neste o primeiro romance sociológico brasileiro e viu ainda na obra o paradigma do romance medieval ibérico Dona Silvana, com o tema do incesto sugerido no drama da desejada Orminda e os remorsos de Missunga, herdeiro do fazendeiro coronel Coutinho.

Toda vez que penso como poderia ser um ecomuseu com a cara marajoara, eu me lembro da música A Casa, de Vinícius de Moraes: "Era uma casa muito engraçada / Não tinha teto, não tinha nada"... Vou desenhando no ar a imaginária casa de Alfredo, alter-ego do escritor Dalcídio Jurandir, tirada das páginas do romance "Chove nos campos de Cachoeira": o famoso chalé na beira do rio, batido de vento e chuva; que na realidade na irônica baixada de Petrópolis foi residência de meu avô paterno Alfredo Nascimento Pereira, secretário da intendência e editor do jornalzinho cachoeirense O Arary, impresso manualmente na própria casa, com quintal aos fundos onde a família criava vacas e ovelhas, dando para o largo campo e que na cheia do rio flutuava sobre as águas do dilúvio que nem a arca do velho Noé bíblico.

Então, eu me recordo da curiosa invenção que o padre Giovanni Gallo fez sem nada entender de ecomuseu ou de qualquer outra coisa digna de se chamar museu, em 1973, em Santa Cruz do Arari - na ilha do Marajó, à margem do grande lago onde a ancestral Cultura Marajoara nasceu-, ao mesmo tempo que na gloriosa França era criado, na comunidade de Creusot Montceau; o primeiro ecomuseu do mundo. Com certeza, uma belíssima revolução da memória coletiva dos lugares da Terra!

Quarenta anos depois, Dalcídio Jurandir e Giovanni Gallo já morreram e a revolucionária criação de Hugues de Varine e outros inovadores alastrou-se pelos quatro cantos do mundo: mas o Brasil ainda não sabe de verdade da história do museu do Gallo, nem o povo marajoara descobriu as potencialidades de um museu comunitário ao ar livre onde o acervo são as pessoas que sabem a história do lugar, as vilas, rios, florestas, mitos, o folclore, as danças, a cultura popular, artesanato e a memória do povo passada de geração a geração.

Então, quando a gente aprende a história social da gente marajoara e o motivo pelo qual, no exílio do fim do mundo, o jesuíta italiano se decidiu pela loucura daquilo que ele chamou O Nosso Museu em Santa Cruz do Arari, centros da ilha do Marajó (ler Marajó, a ditadura da água, de Giovanni Gallo) arrostando a incompreensão do bispo diocesano e malquerença de políticos e poderosos da região. Ao mesmo tempo que se tem uma pequena noção do que seria razoavelmente um "museu" naqueles ermos; fica-se deveras impressionado que, até hoje, os museólogos em geral não se tenham dado conta de que por necessidade e acaso das ruínas "invisíveis" da mais antiga civilização amazônica haja surgido, por necessidade e acaso, o primeiro ecomuseu brasileiro.