quinta-feira, 25 de outubro de 2012

iniciativa popular CRIATURADA GRANDE

Paulo Freire, criador do célebre método de alfabetização que leva seu nome.

Um quarto (25%) dos habitantes do arquipélago do Marajó são analfabetos. Pode-se especular o dobro deste percentual constituído pelos chamados analfabetos funcionais, aqueles que apenas assinam o nome mas não conseguem compreender um texto por mais simples que seja. Desta maneira, poder-se-ia afirmar que apenas uma quarta parte da população marajoara sabe ler e escrever de fato. Descontando ainda o grave caso de "analfabetos políticos", alguns deles diplomados, endinheirados e até donos do poder... Por outras palavras, a realidade do Marajó é que nas ilhas são encontrados algo como 300 mil brasileiros vivendo em 500 e tantas "aldeias" (comunidades locais) do delta-estuário do maior rio do mundo, sofrendo de um atrós apartheid social, causado por falta de educação básica, no cobiçado "paraíso ecológico" da Amazônia Marajoara.

Trata-se duma notável população ribeirinha que extravaza de campos e várzeas para terra-firme (continente) através do êxodo rural, fazendo trampolim de Belém e Macapá, para migrar mais longe em busca de melhores dias, inclusive além fronteira chegando até a Europa com o drama da imigração e outras modernas marginalidades. Indubitavelmente, esta crônica situação, já denunciada nos anos de 1930 na literatura de Dalcídio Jurandir, atenta contra os direitos humanos. Quando, por exemplo, esta gente sem alfabetização se lança longe das suas ilhas ancestrais pelos caminhos do mundo, notadamente jovens mulheres quase sempre vítimas preferenciais de tráfico de pessoas para a prostituição.

A cronista Eneida de Moraes, na antiga Academia do Peixe Frito formada pelo poeta Bruno de Menezes com seus confrades modernistas em torno da revista Belém Nova na onda de contra-cultura que seguiu a 'Semana de Arte Moderna' (São Paulo, 1922); chamava a estes ribeirinhos descendentes de antigas etnias marajoaras, pretos e cabocos despossuídos sem eira nem beira de a "Criaturada grande de Dalcídio".  

Por coincidência, em 2013, fruto da democratização popular pós-Cabanagem vai iniciar-se novo ciclo político nos municípios remanescentes do famigerado Diretório dos Índios (1757-1798): este regime colonial bastardo do Iluminismo português que é predecessor do municipalismo oligárquico amazônico, o qual veio a substituir no processo histórico ultramarino as aldeias catequéticas com pólo missionário formador de mão-de-obra escrava com artes e ofícios em Murtigura (Vila do Conde, em Barcarena-PA), ao mesmo tempo que o criador do Museu do Marajó, Giovanni Gallo; completará dez anos de falecimento. Para a elite papa-chibé o "museu do Gallo" é apenas uma curiosidade "exótica" da cidadezinha de Cachoeira do Arari guardado com ciúme pela comunidade local... Todavia, para todos marajoaras que tem consciência histórica e do valor social da milenar Cultura Marajoara esta obra seminal é mais que o ecomuseu que de fato ela é desde sua invenção, em 1972, na modesta Santa Cruz do Arari: com testumunho escrito deixado pelo "marajoara que veio de longe"... Trata-se de um resgate coletivo, por obra do acaso, a provocação de um caboco chamado Vadiquinho ao vigário da paróquia com o inocente desafio de um pacote de "cacos de índio", provavelmente recolhidos por ladrões de gado dentre sítios arqueológicos arrombados e saqueados por contrabandistas (cf. Giovanni Gallo, Motivos Ornamentais da Cerâmica Marajoara, apresentação da então diretora do Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG), doutora Ima Vieira; e prefácio da arqueóloga Denise Schaan, autora de "Cultura Marajoara", obra indispensável para quem quiser falar do "pobre" Marajó).

Fato importante: em 2015 se encerra o prazo convêniado pelo Brasil e outros países com a ONU para realização das Metas do Milênio: também a Amazônia brasileira deverá recordar quatrocentos anos da tomada de São Luís do Maranhão para fundação do forte do Presépio e fundação de Belém do Grão-Pará (1616) dentro de um processo de construção territorial a partir de Nova Lusitânia (Olinda, Pernambuco) implicando a guerra de expulsão de concorrentes coloniais e submissão das populações índígenas do Nordeste e Norte do país. Desde 1615 foram quarenta e quatro anos de duro combate, contando invariavelmente com arcos, remos e canoas da brava Nação Tupinambá até os confins da Amazônia. A paz do Marajó (Mapuá-Breves, em 27 de agosto de 1659) permitiu, de fato, a conquista do território tapuia que deu base ao uti possidetis real de 1750, a partir da expedição de Pedro Teixeira, de 1637 a 1639, ida e volta de Belém até a cidade de Quito (Equador).

QUE MELHOR SENTINELA DO BRASIL NO NORTE QUE O CIDADÃO NATIVO BEM INSTRUÍDO E SAUDÁVEL?

Problemas excepcionais exigem soluções excepcionais. O analfabetismo no Brasil tem causas bem antigas e reluta em ceder passagem. Entretanto, Paulo Freire apresentou a receita de cura deste mal e teve que se refugiar no exterior para fugir às persiguições políticas e provar que é possivel erradicar esta doença social. Lembremo-nos que Cuba resolveu o problema contando com ajuda do brasileiro Paulo Freire e depois aperfeiçoando-o com incorporação de novas técnicas, educadores cubanos ajudaram a Venezuela e Bolívia a zerar o analfabetismo nestes países.

O senador Cristovam Buarque não cansa de lembrar o retardo de nosso país neste quesito, enquanto somos potência esportiva (melhor dizendo em futebol), música popular e grande exportador de commodities podendo ostentar o sexto lugar na lista mundial das maiores economias do mundo. De modo que não se pode negar a peculiar má vontade política brasileira para eliminar a pobreza extrema associada ao seu pior indicador, o analfabetismo: pai e mãe de todas as pobrezas.




O Método Paulo Freire: alfabetização pela conscientização

O Método Paulo Freire consiste numa proposta para alfabetização de adultos desenvolvida pelo educador que lhe empresta o nome. O método nasceu em 1962 quando Freire era diretor do Departamento de Extensões Culturais da Universidade de Recife onde formou um grupo para testar o método na cidade de Angicos (RN) onde alfabetizou 300 cortadores de cana em apenas 45 dias, isso porque o processo se deu em apenas 40 (quarenta) horas de aula e sem cartilha. Freire criticava o sistema tradicional, o qual utilizava a famosa cartilha como ferramenta didática central para o ensino da leitura e da escrita. 

As tais cartilhas ensinavam por repetição de palavras soltas ou frases criadas de forma forçada, que comumente se denomina como linguagem de cartilha, por exemplo, Eva viu a uva, o boi baba, a ave voa, dentre outros mantras.

Etapas do método

  1. Etapa de Investigação: busca conjunta entre professor e aluno das palavras e temas mais significativos da vida do aluno, dentro de seu universo vocabular e da comunidade onde ele vive.
  2. Etapa de Tematização: momento da tomada de consciência do mundo, através da análise dos significados sociais dos temas e palavras.
  3. Etapa de Problematização: etapa em que o professor desafia e inspira o aluno a superar a visão mágica e acrítica do mundo, para uma postura conscientizada.

O método

  • As palavras geradoras: o processo proposto por Paulo Freire inicia-se pelo levantamento do universo vocabular dos alunos. Através de conversas informais, o educador observa os vocábulos mais usados pelos alunos e a comunidade, e assim seleciona as palavras que servirão de base para as lições. A quantidade de palavras geradoras pode variar entre 18 a 23 palavras, aproximadamente. Depois de composto o universo das palavras geradoras, elas são apresentadas em cartazes com imagens. Então, nos círculos de cultura inicia-se uma discussão para significá-las na realidade daquela turma.
  • A silabação: uma vez identificadas, cada palavra geradora passa a ser estudada através da divisão silábica, semelhantemente ao método tradicional. Cada sílaba se desdobra em sua respectiva família silábica, com a mudança da vogal. (i.e., BA-BE-BI-BO-BU)
  • As palavras novas: o passo seguinte é a formação de palavras novas. Usando as famílias silábicas agora conhecidas, o grupo forma palavras novas.
  • A conscientização: um ponto fundamental do método é a discussão sobre os diversos temas surgidos a partir das palavras geradoras. Para Paulo Freire, alfabetizar não pode se restringir aos processos de codificação e decodificação. Dessa forma, o objetivo da alfabetização de adultos é promover a conscientização acerca dos problemas cotidianos, a compreensão do mundo e o conhecimento da realidade social.

As fases de aplicação do método

Freire propõe a aplicação de seu método nas cinco fases seguintes:
  • 1ª fase: Levantamento do universo vocabular do grupo. Nessa fase ocorrem as interações de aproximação e conhecimento mútuo, bem como a anotação das palavras da linguagem dos membros do grupo, respeitando seu linguajar típico.
  • 2ª fase: Escolha das palavras selecionadas, seguindo os critérios de riqueza fonética, dificuldades fonéticas - numa seqüência gradativa das mais simples para as mais complexas, do comprometimento pragmático da palavra na realidade social, cultural, política do grupo e/ou sua comunidade.
  • 3ª fase: Criação de situações existenciais características do grupo. Trata-se de situações inseridas na realidade local, que devem ser discutidas com o intuito de abrir perspectivas para a análise crítica consciente de problemas locais, regionais e nacionais.
  • 4ª fase: Criação das fichas-roteiro que funcionam como roteiro para os debates, as quais deverão servir como subsídios, sem no entanto seguir uma prescrição rígida.
  • 5ª fase: Criação de fichas de palavras para a decomposição das famílias fonéticas correspondentes às palavras geradoras.

História

Freire aplicou publicamente seu método, pela primeira vez no Centro de Cultura Dona Olegarinha, um Círculo de Cultura do Movimento de Cultura Popular (Recife). Foi aplicado inicialmente a cinco alunos, dos quais três aprenderam a ler e escrever em 30 horas, outros dois desistiram antes de concluir. Baseado na experiência de Angicos, onde em 45 dias alfabetizaram-se 300 trabalhadores, o Presidente da República João Goulart chamou Paulo Freire para organizar uma Campanha Nacional de Alfabetização. Essa campanha tinha como objetivo alfabetizar 2 milhões de pessoas, em 20.000 círculos de cultura, e já contava com a participação da comunidade - só no estado da Guanabara (Rio de Janeiro) se inscreveram 6.000 pessoas. Mas com o Golpe de 64 toda essa mobilização social foi reprimida, Paulo Freire foi considerado subversivo, foi preso e depois exilado. Assim, esse projeto foi abortado. Em seu lugar surgiu o MOBRAL desde então o Brasil ainda não resolveu efetivamente este grave problema.

INICIATIVA DA ACADEMIA DO PEIXE FRITO

Considerando que a Criaturada grande de Dalcídio (populações tradicionais ribeirinhas) excede a 100 mil analfabetos sitiados nas ilhas e beiras de rio, bem como grande parte desta gente ribeirinha se acha mergulhada em pobreza e violência com suas famílias vulneráveis na periferia de Belém e Macapá; uma ação concentrada a partir das duas capitais para as cidades do Marajó e interior insular deve ser planejada reunindo a União, estados e municípios, mas também a sociedade civil. 

Fica aqui a lembrança da Academia do Peixe Frito (para não dizer provocação) à consciência da Nação.

domingo, 21 de outubro de 2012

sebastianismo ressuscitado no Maranhão e Grão-Pará

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monumento monolítico do Rei Sabá (São João de Pirabas, região do Salgado - Pará).


A cultura popular amazônica casou a utopia tupinambá da Yby Marãey (terra sem mal) com o sebastianismo ultramarino. Resgatou das areias escaldantes do deserto do Marrocos os restos imortais do encoberto rei de Portugal via Belém de Judá (Palestina). E, por força da necessidade com o acaso, terminou por ancorar a ressucitada lenda lusa no rochedo do Rei Sabá, sito na costa do Pará, deixando sua espada mágica embainhada e bem guardada em segredo no Maranhão lendário; a cabo da diáspora negra de São Jorge da Mina (Guiné). 

A divina Providência ou o maravilhoso Acaso faz milagre. No caso amazônico, tudo isto foi transportado pelos caminhos da esperança dos povos do grande Cativeiro do mundo-Babilônia com os turcos encantados.  Que nem a história da familia-real de Bragança emigrada a toques de caixa com escolta inglesa diante da invasão francesa da Península Ibérica para a Bahia de Todos os Santos e o Rio de Janeiro a fim de ser devidamente deglutida, tal qual o bispo Dom Sardinha, pela Semana de Arte Moderna, em São Paulo de Piratininga, 1922, no ano do primeiro centenário da Independência do Brasil... Antropofagia obriga.

E nós aqui sob a sempre-viva confederação do equador? Debaixo do manto sutil da invenção popular pulsa o sagrado coração da Humanidade inteira através do tempo e espaço de infinitas vidas, mortes e renascimentos da Civilização universal na diversidade das gerações e individualidades. A tal Fênix da estória geral das civilizações

"Bandarra é verdadeiro profeta", bradou o payaçu dos índios a subir o rio dos Tocantins a bordo de canoa e remos tupinambás a caminho da História do Futuro: mas ele, que condenou a cegueira dos escravistas no "Sermão aos Peixes" (São Luís-MA, 1654), não enxergou grande coisa além do grosso mato do paraíso dos índios encontrado na Tapuya tetama (terra dos Tapuias) ou Grão-Pará.

As relações dialéticas entre o Mito e a História desembarcaram na Amazônia com a garrida bagagem messiânica barroca do Padre Antônio Vieira; em Camutá-Tapera (Cametá-PA, 1659), a bordo da carta secreta por ele enviada ao bispo do Japão cifrada com título ambíguo de "As Esperanças de Portugal". Como um vidente do futuro, o missionário resgatou do passado distante do velho mundo as tribos perdidas do cativeiro da Babilônia: para este efeito deveras maquiavélico, escorou-se de caso pensado no rabino Menassé ben Israel, de Amsterdã (Holanda), vendo ele que nem o judeu português exilado as "Esperanças de Israel" nos índios do Novo Mundo

O histórico ano de 1659 é marco fundamental da amazônidade. No mês de abril abriram-se as esperanças de justiça e paz pela libertação de todas as Índias ocidentais e orientais com anúncio embrionário da História do Futuro. E a 27 de agosto, com esplendor do realismo-mágico avant la lettre, no rio dos Mapuá (Breves-PA, hoje a importante Reserva Extrativista Mapuá - RESEX Mapuá), as pazes das ilhas do Marajó deram cabo a 44 anos de guerra suja pela conquista do Maranhão (1615) e o rio das Amazonas mediante aliança de caraíbas, mamelucos e soldados portugueses à margem da União Ibérica (1580-1640) e da luta do povo português para restauração da Independência de Portugal: um tempo essencialmente sebastianista

Assim foi construída a territorialidade norte do Brasil e concretizada, dentre 1001 contradições; a Amazônia brasileira tal qual como hoje nós a temos e ainda sonhamos amanhã ela deverá ser para o bem geral da América do Sol inteira (América tropical).

Todavia, o profeta temerário do Quinto Império do Mundo que guiado e levado pelos índios guerreiros atravessou ida e volta todas as baías entre o Maranhão e o Pará diversas vezes não viu o rei Dom Sebastião, sentado na beira do mar à espera do tempo do avenir, como a gente do Salgado o vê com olhos da fé na escultura natural da pedra. 

Quem dera agora nos 400 anos de invenção da Amazônia por sua própria gente sem eira nem beira, abram-se os olhos da História para a utopia evangelizadora do reino de Jesus Cristo consumado na terra. Era messiânica ou revolucionária do Espírito Santo quanto, segundo a dita utopia judeus, cristãos, mulçumanos e todos manos e manas crentes e não crentes da Terra sem males construirão juntos a augusta Paz planetária.  Ama e sonha Amazônia com teus mitos e lutas cabanas de libertação.

Saravá, o filósofo luso-brasileiro Agostinho Silva, viva o teórico da internet Pierre Levy; salve Dom Sebastião!


quarta-feira, 10 de outubro de 2012

A LUTA POLÍTICA PELA HUMANIZAÇÃO DO ESPAÇO

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espaço São José Liberto: antigo convento e presídio cuja construção deu lugar ao bairro operário do Jurunas, em Belém do Pará.




Belém da Amazônia:
400 janeiros e 1001 contradições do rio Babel.

Vem da aldeia do rádio, no Jurunas, que nem transe tremeterra das tribos extintas, com somzão tecnobrega e a musa Gaby Amarantos conquistando o Brasil brasileiro. Show bem cabano da democracia tupiniquim reinventando e liberando a pirapuracéia proibida no arraial de Nazaré pelo arcebispo (ler a história do Círio pelo jornalista e historiador Carlos Rocque). Vem também do Jurunas criativo o exemplo trabalhador do Vereador Gonçalo Duarte, o qual não sabia fazer discurso bacana na Câmara, masporém de enxada em punho limpava valas e capinava ruas do bairro das tribos como ninguém...

 

Atualmente o Jurunas é um dos bairros mais populosos da capital paraense, recebe inúmeras visitas de pessoas do interior do estado que vem à cidade grande tratar de variados assuntos e muitas vezes se hospedam em casas de parentes e amigos conforme antigos usos e costumes locais. Sua formação populacional se deve à construção do antigo presídio São José, que hoje é o espaço turístico e cultural São José Liberto, transformados do convento da ordem de Nossa Senhora da Piedade, datando de 1749. Junto com o bairro do Guamá forma a maior parte residencial da cidade de Belém. Está situado na zona sul de Belém, fazendo limites com o bairro da Cidade Velha a oeste, o bairro Batista Campos ao norte, o bairro da Condor a leste e o rio Guamá ao sul. O antigo convento e depois quartel antes de ser utilizado como cadeia pública é hoje um dos mais visitados pontos turísticos de Belém: um dos lugares do roteiro da Cabanagem iniciada pelo assalto da cidades pelos combatentes ribeirinhos na madrugada de 7 de janeiro de 1835, para vingar a morte do cônego Batista Campos ocorrida nas matas de Barcarena, onde se refugiara para escapar da perseguição movida pelo presidente da província Bernardo Lobo de Souza. Em 1937 e 1938 o São José serviu de cárcere a presos políticos como Dalcídio Jurandir, Argemiro Nascimento e outros militantes da Aliança Nacional Libertadora (ANL) durante a caça aos comunistas pelo governo fascista de Getúlio Vargas após a chamada Intentona de 1935: por coincidência, no primeiro centenário da Cabanagem...  O Jurunas é sede de tradicionais escolas de samba de Belém, como a Academia de Samba Jurunense, ´´Rancho Não Posso Me Amofiná" e Coração Jurunense. Um dos mais antigos blocos de carnaval do bairro, sugestivamente se chamava "Os Carpinteiros"...



Belém é uma cidade de bairros temáticos: o Umarizal conta a odisséia paraense para adesão ao Brasil independente. O Marco lembra a Guerra do Paraguai onde paraenses, como meu bisavô Raymundo que voltou com vida trazendo uma imagem de Santa Rita de Cássia achada no campo de batalha e a fatal tuberculose que o matou em casa rodeado dos seus; foram recrutados supostamente como “voluntários da Pátria” para atacar a pátria dos outros, sem atinar o por quê... Desta guerra contam que oficiais militares muito se admiravam ao ouvir soldados paraenses e paraguaios, durante pausas de fogo; de uma lado e outro da trincheira a se perguntar uns e outros, numa língua estranha; que diabos estavam a fazer naquela guerra alheia. Era o velho nheengatu, língua-geral de índios cristianizados; o veículo de comunicação que os oficiais não compreendiam. O bairro dos Jurunas evoca os Tupinambás, Tamoios, Mundurucus, Caripunas, Tembés, Pariquis, Apinagés... A mestiçagem cultural fez morada no Jurunas, como também em outros bairros como a Pedreira, Guamá, Telégrafo. A Campina desde o início se mostrou proletária e cabana, onde nordestinos como Eduardo Nogueira Angelim criaram fama nas arruaças com os brancos da Cidade Velha...

ESCOLA NASCIDA DAS ENTRANHAS DO DIRETÓRIO DOS ÍNDIOS

Ora, dirão os universitários (esses uns que leram Marx, Weber e outros catataus do pensamento político do velho continente, mas -- com raras exceções -- não pegaram o espírito da coisa...): o cargo de Vereador é só pra ver aquilo que o Prefeito faz ou deixa de fazer; tomar iniciativa de projetos de lei local, aprovar orçamento municipal e só. Portanto, no juízo teórico, é feio bancar gari, fazedor de coisas do bairro... Melhor será (dizem sábios burgueses) curtir o ar refrigerado e gastar verba de representação de gabinete com amigos do peito a fazer fofoca e contar piada durante horário de expediente... 

Não sabem os jurisconsultos de elite que valas sujas e enxadas já deram votos e até elegeram prefeitos, como o caso de um notável descendente libanês e comerciante de peso da praça, que para alçar voo ao poder municipal não vacilou em calçar botas sete léguas e botar luvas de limpeza para comandar a limpeza de bairros donde o patrício saiu triunfante para a cadeira número um do palácio Antônio Lemos. Com exemplo maior, mais recente, do atual alcaide de Belém; modesto migrante do interior expulso de seus pagos pelo êxodo rural e na falta de oportunidades locais foi seguidor, no pobre bairro do Guamá, da escola jurunense fundada pelo digno vereador trabalhador Gonçalo. Este um sempre folclorizado pela granfinagem 'experta' e louvadores chapa branca em redações de jornal e colunas sociais.  

Vejam só, paresque, como se fazem as diferentes classes sociais no tempo e no espaço pelos caminhos da Dispersão das tribos perdidas (está no Livro de Tiago)... Cala-te boca: a língua é um perigo mortal! É mais fácil um camelo passar pelo cu de uma agulha, do que um rico entrar no reinos dos céus ou habitar a Terra sem males (o lugar mágico dos índios, onde não existe fome, trabalho escravo, doenças, velhice e morte)... Nesta expedita Belém ultramarina já se viu coisas do arco da velha que até Zeus duvida: por exemplo, preto virar branco (com testemunho imparcial do naturalista inglês Henry Bates) conforme os caprichos da Sorte grande. Não é por acaso as imensas filas de todas as classes dos "tristes tropiques" nas casas lotéricas em busca da Mega Sena. Quando da primeira viagem ao Pará o inglês ficou amigo de certo trabalhador negro liberto, sujeito decente; masporém quis o destino que na viagem seguinte o negro estivesse "branco", branquinho da silva, depois de amealhar uma pequena fortuna, não importa como... Aqui o dito romano "pecunia non olerit" ("dinheiro não tem cheiro", lavou está limpo e purificado) tem grande fama. 

Para grande espanto do viajante Bates seu informante esclareceu sobre o estúrdio fenômeno amazônico, dizendo-lhe por arremate da tese: "pode um negro ser rico?"... Este liberto pelo menos, graças ao invulgar talento para os negócios e a boa sorte, o dinheiro graças a Deus o promoveu à augusta categoria social dos "brancos" da província. Inversamente, no Pará e alhures, podem ser encontrados pobres branquelos de olhos azuís e cabelo louro socialmente decaídos à condição de "preto"... Daí talvez se criou a expressão popular que diz que esta ou aquela situação difícil "está preta" ou que alguém face ao perigo "viu a coisa preta". Égua da inventividade racista!!!... Todavia esta gente brancarana, descendente geralmente de degredados e exilados sem eira nem beira nem ramo de figueira, viu a coisa preta no Maranhão e Grão-Pará e aí roeu uma pupunha.

O diabo é que, enquanto o mestre pronto-socorrista de bairro Vereador Gonçalo Duarte sempre alvo de chacotas caiu no esquecimento, alguns discípulos dele vão bem muito obrigado. E continuam ganhando votos à beça e fazendo carreira de vento em popa. Não necessariamente em benefício do povo, bem entendido... É uma desgraça redobrada quando pobre vira rico e logo se esquece da pobreza para reproduzir desigualdades e preconceitos historicamente adquiridos da Conquista e Colonização das regiões ultramarinas; originalmente povoadas de ricas civilizações nativas -- como é exemplo a ecocivilização Marajoara de 1500 anos de idade --, que foram forçadas a empobrecer a ferro e fogo para enriquecer pobres e indesejáveis emigrantes do velho mundo deportados pouco mais ou menos como negros escravos vendidos pelos próprios irmãos de raça a mercadores negreiros. Ou nunca se ouviu falar de um certo capitão de navio chamado Simão Estácio da Silveira, o primeiro gato de nossa história, que em 1618 escreveu panfleto aos pobres de Portugal (leia-se, Açores) lhes prometendo o paraíso no Maranhão? Astúcia de cristão-novo com as mentiras de praxe, obrigado pela necessidade do gueto pisado pela arrogante estupidez do anti-semitismo de cristãos-velhos e ignorantes até a alma... Na verdade, este mercador das arábias queria conquistar por conta e risco alheio o famoso "rio das Almazonas" rico de tesouros imagináveis e povoado de bárbaros pagãos cujos "dialetos" não havia as letras F L R (pelo motivo, falso aliás; de que supostamente índio não tem Fé (religião), Lei e Rei (governo). Como pode uma cidade se tornar metrópole, sem descarregar os vícios da ignorância da História?

Acho eu que algo está errado nessa estória geral das tribos perdidas lá e cá. Sabiam que a velha Câmara de Belém requereu ao rei a extinção e cativeiro dos índios das ilhas do Marajó sob acusação de piratas? Que os Jesuítas foram expulsos, em 1661 e 1760, por estorvar o cativeiro dos índios? E que o governador do Maranhão e Grão-Pará, Andre Vidal de Negreiros (filho de índia e português) propôs levar a capital do estado-colônia para Joanes [Marajó], vetado pelos vereadores de então, "Homens-Bons" que da outra margem do grande rio só queriam braços escravos? 

Ora, a história só se repete como farsa: precisamos exorcizar nossos demônios pessoais e coletivos... Ao contrário do que dizem jurisconsultos burgueses, não creio que é defeito vereador fazer parte de prefeito quando este um deixa furos e moradores reclamam socorro a ouvidos de mercador. Melhor que gritar à toa na tribuna e falar mal da escuridão, seria bom logo acender uma vela... Ótimo quando a ação prática atiça a concorrência de outros voluntários locais ou os serviços municipais prevendo o desgaste político chegam depressa a remediar o mal feito que faziam e esqueciam. No caso, pior é prefeito meter o bico nas discussões de vereadores ou botar os pés pelas mãos nas funções da Câmara... Mas disto jornalões ávidos de verba publicitária não dão um pio (quando falam, o respeitável publico já sabe que os ditos cujos querem mamar). Pelo contrário da função social da imprensa, os falsários da "comunicação" induzem o leitor a acreditar que o errado está certo. Enquanto a Constituição e a Lei orgânica dos Municípios resta sendo letra morta sobre a velha prática adquirida desde a era da capitania-mor.

Claro, o sistema municipal brasileiro é arcaico: e a elite tão apaixonada pelo “primeiro mundo” quando fala em reforma política a última coisa que lembra é mexer com as sabidas contradição e confusões de poderes entre prefeitos e vereadores. Caraca! Já estamos na segunda década do século XXI, nossos velhos caciques nativos e mestres da civilização regional já morreram e ainda não apareceram discípulos da amazonidade à altura do desafio do "país que se chama Pará" e todas mais regiões amazônicas configuradas no Tratado de Cooperação Amazônica (TCA), sob obrigação da OTCA no conjunto da diplomacia de integração da América Latina e Caribe: masporém, como ensinou Eric Hobsbawn a gente patina ainda na lama do longo século XIX, com as ilusões e fantasias da "Belle époque" e alegoria de "Paris n'América". E a expressão geográfica de Belém do Pará sempre nas calendas gregas, malgrado a tese geoestratégica inovadora Coudreau-Eidorfe Moreira, jogada pra escanteio e que não serve agora nem pra TCC de universidade particular.

O grande público do voto OBRIGATÓRIO não sabe, por exemplo, que nos ditos países desenvolvidos além do voto ser facultativo câmaras ou conselhos municipais, variando de país para país, são o nível único de coeltividade encarregado da gestão local. De modo que ser presidente de câmara ou “prefeito” é tudo a mesma coisa. Ali não há esta contradição brasílica básica do eleitorado votar separadamente o cargo de Prefeito para um lado e a maioria de Vereadores para outro... Acompanhem a novela das relações contraditórias entre prefeitos e vereadores de partidos opostos ou mesmo de mesmo partido, e descobrirão que mais da metade das confusões e casos de mensalinhos e outras maracutaias nascem aí... 

A eleição nessas cidades famosas de "primeiro mundo" acontece em lista partidária, a fulanização se reduz e o partido não pode ser de mintirinha, assim o município de fato se torna base do estado nacional. Detalhe importante, o exercício de Vereador é GRATUITO, em compensação o cidadão Vereador pode acumular função de prefeito, deputado, senador, ministro...  Cuida da vida normalmente como qualquer cidadão, pois cargo político não é profissão. Há vários casos de vereador/prefeito reeleito tantas vezes queira a maioria de eleitores do Município (com M maiúsculo).

Então a pergunta que não quer calar: quem é, de fato, que toca a Administração Municipal? Da Câmara sai o Presidente do Conselho e os mais Vereadores formam o colegiado  executivo no papel oficial de Representantes do Povo: sob este comando político coletivo. Cada comissão tem função de supervisão a qual a respectiva secretaria executiva sob coordenação técnico-administrativa de carreira realiza as determinações políticas do Conselho Municipal eleito diretamente pelo Povo. No caso de Belém, se fosse adotado este princípio que vem de diversos países desenvolvidos, seria prefeito o vereador que conquistasse a maioria de votos de seus pares. Claro que este modelo não é perfeito, mas poderia ser menos "pior" do que se vê nestes Brasis surdidos das capitanias hereditárias há quinhentos anos.

Então, viva o vereador trabalhador jurunense Gonçalo Duarte, por necessidade e acaso, precuror da moderna gestão local em Belém do Grão Pará... enquanto “seu” prefeito não vem. E lá na minha terra, Ponta de Pedras, o falecido vereador Abaeté (Raimundo Rodrigues); antes que tudo era ele um autêntico líder comunitário da vila de Mangabeira (antiga aldeia de catequese de índios pescadores) e "curador" (pajé misturado com agente municipal de saúde) de gente ribeirinha aos montes, imbatível nas eleições. Seria ele clientelista? Ou antes um homem realista e justo que sabia onde o sapato aperta, pelo bom motivo de ser ele mesmo parte daquele povo humilhado e maltratado que representava no "legislativo mirim".  

As universidades merecem críticas severas quando fazem a cabeça dos cabocos (seja por formação ou extensão), como sonâmbulas seguindo a triste receita do Diretório dos Índios, de modo que a “branquização” iluminista de duzentos anos passados ainda é ordem do dia no século da Democracia... Muitas vezes - como se queixava o Cacique Seattle dos senhores dos Estados Unidos - a educação dos brancos deixa filhos de pretos e cabocos inúteis para lidar com os principais problemas da região e transformar municípios de baixo IDH "comme il faut". Quem leu o romance “Primeira Manhã” de Dalcídio Jurandir; e achou o estilo uma graça, mas não pescou o protesto do calouro do interior contra a esterilização do Liceu paraense, não entendeu nadinha... Belém nas mãos do povo parauara nos 400 anos da cidade fundada por Castelo Branco em acordo com caciques Tupinambás, repercutindo batuque modernista com gosto de açaí por aí afora... S’imbora! Bruno de Menezes e confraria do apocalypso na Academia do Peixe Frito; festa profana de São Benedito da Praia (codinome do orixá Ossain), padroeiro das vendedoras de ervas e mandingas do Ver O Peso.

Comendo gato por lebre, frango congelado por pato no tucupi; bagre por filhote; o turista desavisado não pode adivinhar o que se esconde sob a paisagem cultural de Belém e Ilhas da Amazônia Marajoara. Ainda que a Campina e a Cidade Velha – tombadas pelo vetusto IPHAN –  venham a ser retocadas com as tintas importadas da “belle époque” o “city tour” não terá alma e coração de ‘flaneur’. Enquanto a cidade fugir para o reino das nuvens, com medo do rio e da pobreza ribeirinha importada da margem esquerda que o verde oculta do mato conquistado a ferro e fogo aos antigos nativos Tapuias por arcos e remos Tupinambás aliados a mamelucos e soldados lusitanos encapetados na primeira hora.

É quando a gente pisa a Terra Firme (continente) desde a península da Cidade do Pará convidado a fazer viagem a modo de Saramago na “Viagem a Portugal(ler "Novíssima Viagem Filosófica", de José Varella Pereira, em REVISTA IBERIANA, Secult: Belém, 1999). Uma excursão criativa aos 400 anos deveria nos transportar da Feliz Lusitânia (Pará), a partir da Casa das Canoas antes de curtir o Museu de Arte Sacra... Para ir visitar Nova Lusitânia (Pernambuco) para ir depois à velha Lusitânia (Portugal), passando pela Galícia através do Caminho de Santiago a fim de concluir a viagem ao tempo de Belém Ocidental (Lisboa). Logo, querendo ir mais longe, na Palestina, em Belém irmã mais velha desta nossa "casa do pão" da terra e talvez chegar até a aldeia de Nazaré para adivinhar os meandros do caminho da paz universal: não exatamente como peregrino, mas acima de tudo com espírito de reverência como um historiador curioso da trama entre espaços sagrados e profanos, que nem Renan... Ou melhor, seguindo a trilha intelectual de Morin através da complexidade antropoética que leva o viajante do mundo a fazer a aposta dupla de Pascal (a Terra sem males está aqui e agora; ou há de vir no tempo além do futuro). Não importa, para a vida o que importa é o eterno presente cujo rio não se mergulha duas vezes... A morte a Deus pertence.

Masporém, quando em Belém da Amazônia se depara com a praça de República a história muda de figura diante do Theatro da Paz lembrando ao viajante o fim da Guerra do Paraguai (cujo teatro guarda link secreto com a ópera “O Guarani” repetida à boca da noite pela Voz do Brasil. E os nossos cabanos sobreviventes do genocídio amazônico, chamados diz-que, Voluntários da Pátria recrutados à força que nem as tropas do Pará tiradas de aldeias indígenas a dentes de cachorro e pau de fogo pra ser domesticadas nas missões e transportadas a bordo do famigerado Diretório dos Índios (1755-1798) sob condição civilizada de súditos d’el-rei de Portugal. Caminhamos para 2016!

Bom Futuro

Imagine, agora que a esperança venceu o medo; uma pequena aldeia que descentraliza a cidade, onde a gente simples luta com fé na vida, trabalha e dança na certeza de melhores dias sabendo já que a maior riqueza regional não é minério nem madeira, mas sim saúde, educação, cultura e meio ambiente para a paz. O resto vem por consequencia na solidariedade duma indústria e economia criativas longe do tumulto das grandes cidades violentas, degradas e infartadas por uma industria alienadora. 

Toda metrópole é conjunto de pequenas cidades humanizadas, chamados bairros. Lugar onde todo mundo se conhece pelo nome... A aldeia do Jurunas é exemplo histórico e geográfico das sucessivas transformações de Belém, para o bem e o mal. Sempre o Jurunas foi uma puxada da Cidade Velha, desde a antiga Comedia do Peixe Boi (praça Amazonas), lugar bucólico onde gados do rio iam pastar. O Jurunas foi o fim da picada para o primitivo Horto das especiárias furtadas do "jardin du roi" em Caiena durante a invasão anglo-portuguesa (1809-1817) com o antecedente do furto do café por Palheta, em 1723, durante missão para buscar vivo ou morto o cacique Guaiamã (que deu nome ao Guamá), dos Aruãs e Mexianas, da ilha do Marajó. Caminho do Ver O Peso mato adentro rumo ao presídio São José pela estrada que se tornou Avenida 16 de novembro (homenagem à República, na data em que o Pará tomou conhecimento de falecimento do Império do Brazil), na continuação da Avenida Portugal e rua Marquês de Pombal...  Nós não sabíamos que a paisagem cultural da Cidade se emenda naturalmente com o Guajará e as ilhas até o Marajó. Nossos prefeitos e vereadores, cansados de olhar ao próprio umbigo e sem mais tempo para ler os mestres da amazonidade; sob tensão permanente de uma eleição no rabo da outra, nem desconfiam do que se trata nestas mal traçadas linhas.

Mesmo assim, nossos votos aos eleitos de 2012 vão no sentido de que os bairros de Belém se revitalizem em "aldeias" ou condomínios verticais ou horizontais autogestionários. Sejam uma referência socioambiental e econômica para o novo Brasil que está nascendo do mundo do trabalho libertado de suas antigas servidões. Com certeza, esta Belém da Amazônia quatrocentona há de mostrar ao mundo sua expressão geográfica e fazer história. Nesta hora será justo lembrar o Vereador Gonçalo Duarte com sua humildade a dar lição de vida aos antecedores e sucessores da velha Câmara de Belém useira e vezeira na caça aos índios para cativeiro de pesqueiros, engenhos e fazendas; tanto quanto a reclamar à Corte mais e mais importações de negros africanos a fim de remediar a insustentável civilização dos trópicos sem trabalho escravo. Esta deve ser a grande festa de libertação dos povos nos 400 anos de invenção da Amazônia. Uma questão de direito humano sustentável. Afinal de contas pra que vale tanto minério, energia, água, sol e alimentos exportados se nossa gente fica sempre a ver navios de barriga vazia na beira da baía sem entender nadinha do carimbó e ladainha da vovó?