quinta-feira, 25 de outubro de 2012

iniciativa popular CRIATURADA GRANDE

Paulo Freire, criador do célebre método de alfabetização que leva seu nome.

Um quarto (25%) dos habitantes do arquipélago do Marajó são analfabetos. Pode-se especular o dobro deste percentual constituído pelos chamados analfabetos funcionais, aqueles que apenas assinam o nome mas não conseguem compreender um texto por mais simples que seja. Desta maneira, poder-se-ia afirmar que apenas uma quarta parte da população marajoara sabe ler e escrever de fato. Descontando ainda o grave caso de "analfabetos políticos", alguns deles diplomados, endinheirados e até donos do poder... Por outras palavras, a realidade do Marajó é que nas ilhas são encontrados algo como 300 mil brasileiros vivendo em 500 e tantas "aldeias" (comunidades locais) do delta-estuário do maior rio do mundo, sofrendo de um atrós apartheid social, causado por falta de educação básica, no cobiçado "paraíso ecológico" da Amazônia Marajoara.

Trata-se duma notável população ribeirinha que extravaza de campos e várzeas para terra-firme (continente) através do êxodo rural, fazendo trampolim de Belém e Macapá, para migrar mais longe em busca de melhores dias, inclusive além fronteira chegando até a Europa com o drama da imigração e outras modernas marginalidades. Indubitavelmente, esta crônica situação, já denunciada nos anos de 1930 na literatura de Dalcídio Jurandir, atenta contra os direitos humanos. Quando, por exemplo, esta gente sem alfabetização se lança longe das suas ilhas ancestrais pelos caminhos do mundo, notadamente jovens mulheres quase sempre vítimas preferenciais de tráfico de pessoas para a prostituição.

A cronista Eneida de Moraes, na antiga Academia do Peixe Frito formada pelo poeta Bruno de Menezes com seus confrades modernistas em torno da revista Belém Nova na onda de contra-cultura que seguiu a 'Semana de Arte Moderna' (São Paulo, 1922); chamava a estes ribeirinhos descendentes de antigas etnias marajoaras, pretos e cabocos despossuídos sem eira nem beira de a "Criaturada grande de Dalcídio".  

Por coincidência, em 2013, fruto da democratização popular pós-Cabanagem vai iniciar-se novo ciclo político nos municípios remanescentes do famigerado Diretório dos Índios (1757-1798): este regime colonial bastardo do Iluminismo português que é predecessor do municipalismo oligárquico amazônico, o qual veio a substituir no processo histórico ultramarino as aldeias catequéticas com pólo missionário formador de mão-de-obra escrava com artes e ofícios em Murtigura (Vila do Conde, em Barcarena-PA), ao mesmo tempo que o criador do Museu do Marajó, Giovanni Gallo; completará dez anos de falecimento. Para a elite papa-chibé o "museu do Gallo" é apenas uma curiosidade "exótica" da cidadezinha de Cachoeira do Arari guardado com ciúme pela comunidade local... Todavia, para todos marajoaras que tem consciência histórica e do valor social da milenar Cultura Marajoara esta obra seminal é mais que o ecomuseu que de fato ela é desde sua invenção, em 1972, na modesta Santa Cruz do Arari: com testumunho escrito deixado pelo "marajoara que veio de longe"... Trata-se de um resgate coletivo, por obra do acaso, a provocação de um caboco chamado Vadiquinho ao vigário da paróquia com o inocente desafio de um pacote de "cacos de índio", provavelmente recolhidos por ladrões de gado dentre sítios arqueológicos arrombados e saqueados por contrabandistas (cf. Giovanni Gallo, Motivos Ornamentais da Cerâmica Marajoara, apresentação da então diretora do Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG), doutora Ima Vieira; e prefácio da arqueóloga Denise Schaan, autora de "Cultura Marajoara", obra indispensável para quem quiser falar do "pobre" Marajó).

Fato importante: em 2015 se encerra o prazo convêniado pelo Brasil e outros países com a ONU para realização das Metas do Milênio: também a Amazônia brasileira deverá recordar quatrocentos anos da tomada de São Luís do Maranhão para fundação do forte do Presépio e fundação de Belém do Grão-Pará (1616) dentro de um processo de construção territorial a partir de Nova Lusitânia (Olinda, Pernambuco) implicando a guerra de expulsão de concorrentes coloniais e submissão das populações índígenas do Nordeste e Norte do país. Desde 1615 foram quarenta e quatro anos de duro combate, contando invariavelmente com arcos, remos e canoas da brava Nação Tupinambá até os confins da Amazônia. A paz do Marajó (Mapuá-Breves, em 27 de agosto de 1659) permitiu, de fato, a conquista do território tapuia que deu base ao uti possidetis real de 1750, a partir da expedição de Pedro Teixeira, de 1637 a 1639, ida e volta de Belém até a cidade de Quito (Equador).

QUE MELHOR SENTINELA DO BRASIL NO NORTE QUE O CIDADÃO NATIVO BEM INSTRUÍDO E SAUDÁVEL?

Problemas excepcionais exigem soluções excepcionais. O analfabetismo no Brasil tem causas bem antigas e reluta em ceder passagem. Entretanto, Paulo Freire apresentou a receita de cura deste mal e teve que se refugiar no exterior para fugir às persiguições políticas e provar que é possivel erradicar esta doença social. Lembremo-nos que Cuba resolveu o problema contando com ajuda do brasileiro Paulo Freire e depois aperfeiçoando-o com incorporação de novas técnicas, educadores cubanos ajudaram a Venezuela e Bolívia a zerar o analfabetismo nestes países.

O senador Cristovam Buarque não cansa de lembrar o retardo de nosso país neste quesito, enquanto somos potência esportiva (melhor dizendo em futebol), música popular e grande exportador de commodities podendo ostentar o sexto lugar na lista mundial das maiores economias do mundo. De modo que não se pode negar a peculiar má vontade política brasileira para eliminar a pobreza extrema associada ao seu pior indicador, o analfabetismo: pai e mãe de todas as pobrezas.




O Método Paulo Freire: alfabetização pela conscientização

O Método Paulo Freire consiste numa proposta para alfabetização de adultos desenvolvida pelo educador que lhe empresta o nome. O método nasceu em 1962 quando Freire era diretor do Departamento de Extensões Culturais da Universidade de Recife onde formou um grupo para testar o método na cidade de Angicos (RN) onde alfabetizou 300 cortadores de cana em apenas 45 dias, isso porque o processo se deu em apenas 40 (quarenta) horas de aula e sem cartilha. Freire criticava o sistema tradicional, o qual utilizava a famosa cartilha como ferramenta didática central para o ensino da leitura e da escrita. 

As tais cartilhas ensinavam por repetição de palavras soltas ou frases criadas de forma forçada, que comumente se denomina como linguagem de cartilha, por exemplo, Eva viu a uva, o boi baba, a ave voa, dentre outros mantras.

Etapas do método

  1. Etapa de Investigação: busca conjunta entre professor e aluno das palavras e temas mais significativos da vida do aluno, dentro de seu universo vocabular e da comunidade onde ele vive.
  2. Etapa de Tematização: momento da tomada de consciência do mundo, através da análise dos significados sociais dos temas e palavras.
  3. Etapa de Problematização: etapa em que o professor desafia e inspira o aluno a superar a visão mágica e acrítica do mundo, para uma postura conscientizada.

O método

  • As palavras geradoras: o processo proposto por Paulo Freire inicia-se pelo levantamento do universo vocabular dos alunos. Através de conversas informais, o educador observa os vocábulos mais usados pelos alunos e a comunidade, e assim seleciona as palavras que servirão de base para as lições. A quantidade de palavras geradoras pode variar entre 18 a 23 palavras, aproximadamente. Depois de composto o universo das palavras geradoras, elas são apresentadas em cartazes com imagens. Então, nos círculos de cultura inicia-se uma discussão para significá-las na realidade daquela turma.
  • A silabação: uma vez identificadas, cada palavra geradora passa a ser estudada através da divisão silábica, semelhantemente ao método tradicional. Cada sílaba se desdobra em sua respectiva família silábica, com a mudança da vogal. (i.e., BA-BE-BI-BO-BU)
  • As palavras novas: o passo seguinte é a formação de palavras novas. Usando as famílias silábicas agora conhecidas, o grupo forma palavras novas.
  • A conscientização: um ponto fundamental do método é a discussão sobre os diversos temas surgidos a partir das palavras geradoras. Para Paulo Freire, alfabetizar não pode se restringir aos processos de codificação e decodificação. Dessa forma, o objetivo da alfabetização de adultos é promover a conscientização acerca dos problemas cotidianos, a compreensão do mundo e o conhecimento da realidade social.

As fases de aplicação do método

Freire propõe a aplicação de seu método nas cinco fases seguintes:
  • 1ª fase: Levantamento do universo vocabular do grupo. Nessa fase ocorrem as interações de aproximação e conhecimento mútuo, bem como a anotação das palavras da linguagem dos membros do grupo, respeitando seu linguajar típico.
  • 2ª fase: Escolha das palavras selecionadas, seguindo os critérios de riqueza fonética, dificuldades fonéticas - numa seqüência gradativa das mais simples para as mais complexas, do comprometimento pragmático da palavra na realidade social, cultural, política do grupo e/ou sua comunidade.
  • 3ª fase: Criação de situações existenciais características do grupo. Trata-se de situações inseridas na realidade local, que devem ser discutidas com o intuito de abrir perspectivas para a análise crítica consciente de problemas locais, regionais e nacionais.
  • 4ª fase: Criação das fichas-roteiro que funcionam como roteiro para os debates, as quais deverão servir como subsídios, sem no entanto seguir uma prescrição rígida.
  • 5ª fase: Criação de fichas de palavras para a decomposição das famílias fonéticas correspondentes às palavras geradoras.

História

Freire aplicou publicamente seu método, pela primeira vez no Centro de Cultura Dona Olegarinha, um Círculo de Cultura do Movimento de Cultura Popular (Recife). Foi aplicado inicialmente a cinco alunos, dos quais três aprenderam a ler e escrever em 30 horas, outros dois desistiram antes de concluir. Baseado na experiência de Angicos, onde em 45 dias alfabetizaram-se 300 trabalhadores, o Presidente da República João Goulart chamou Paulo Freire para organizar uma Campanha Nacional de Alfabetização. Essa campanha tinha como objetivo alfabetizar 2 milhões de pessoas, em 20.000 círculos de cultura, e já contava com a participação da comunidade - só no estado da Guanabara (Rio de Janeiro) se inscreveram 6.000 pessoas. Mas com o Golpe de 64 toda essa mobilização social foi reprimida, Paulo Freire foi considerado subversivo, foi preso e depois exilado. Assim, esse projeto foi abortado. Em seu lugar surgiu o MOBRAL desde então o Brasil ainda não resolveu efetivamente este grave problema.

INICIATIVA DA ACADEMIA DO PEIXE FRITO

Considerando que a Criaturada grande de Dalcídio (populações tradicionais ribeirinhas) excede a 100 mil analfabetos sitiados nas ilhas e beiras de rio, bem como grande parte desta gente ribeirinha se acha mergulhada em pobreza e violência com suas famílias vulneráveis na periferia de Belém e Macapá; uma ação concentrada a partir das duas capitais para as cidades do Marajó e interior insular deve ser planejada reunindo a União, estados e municípios, mas também a sociedade civil. 

Fica aqui a lembrança da Academia do Peixe Frito (para não dizer provocação) à consciência da Nação.

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