domingo, 26 de maio de 2013

HOMENAGEM DA ACADEMIA DO PEIXE FRITO AOS 190 ANOS DA ADESÃO DO PARÁ À INDEPENDÊNCIA

vista aérea da cidade de Muaná, Marajó, Pará.






M de Muaná, Maio, Mulher Marajoara


homenagem da Academia do Peixe Frito
aos 190 anos da Adesão do Pará à Independência.




Alô Povo Brasileiro no Rio de Janeiro e redondezas
do Sul maravilha
de Brasília aos Pampas.
Daqui da heróica cidade de Muaná,
na ilha do Marajó, a gente manda lembranças
da genuína data Magna na Amazônia brasileira
Adesão do Pará à Independência.

O Centro-Oeste deve saber:
suas águas correm a Amazônia profunda
Lá de São Vicente o bandeirante Raposo Tavares
saiu a pé e canoa pelo Tietê
atravessou o Pantanal Matogrossense
Através do Guaporé e Madeira
foi ao rio Amazonas acima e abaixo
guiado por guerreiros da Nação Tupinambá
que depois de sofrer em mãos do malvado
o deixaram em Gurupá falando só
sem eira nem beira nem ramo de figueira
sem ouro ou prata.

Será que a história só serve de enfeite aos doutos?
Tontos elogios a matabugres façanhudos
e a Bandeiras despregadas!
O Nordeste mais que todos outros Brasis
há de saber contar a saga dos Tupinambás
na conquista da Terra dos Tapuias
casamento da necessidade com o acaso
encontro da fome com a vontade de comer
a história do Futuro.
Antes de tudo se há de fazer louvação
da Mulher Marajoara
e outras amazonas amazônicas
sem elas não podia haver a paz dos Nheengaíbas
nem adesão de Muaná 164 anos depois de Mapuá.
Por direito só há 190 anos o Norte é brasileiro
masporém, de fato
cá no mato sem cachorro sem jamais pedir penico
ou socorro
a gente marajoara é do Brasil
por uma razão sutil
fazendo despertar o gigante adormecido
na primeira manhã depois da primeira noite do mundo.

Muito antes de germinar as primeiras sementes
do bosque de Leiria
mandado plantar por el-rei Lavrador de Portugal,
Dom Dinis;
a Cultura Marajoara já estava madura.
Arte primeva do Brasil para todo mundo ver o peso
que devia ter o tempo amazônida na memória nacional.
Os bravos Aruãs começavam a tomar conta
das ilhas Caviana e Mexiana até a Contracosta
Dom Dinis quis deixar herança aos nautas
ao plantar o bosque de Leiria e foram tiradas madeiras
das caravelas de Vasco da Gama
e da frota de Cabral quando ninguém sabia
que às portas do rio-mar das Amazonas
o “uti possidetis” do Brasil gigante estava pronto
há mais de mil e tantos anos.
Fonte matriarcal da história amazônica do Brasil original
escrita no barro dos começos do mundo,
a cerâmica marajoara.

Sem adesão do Marajó
primeiramente ao mito tupi da Terra sem males
depois às pazes oferecidas pelos Jesuítas
o Brasil tordesilhano ficaria pra sempre
caranguejando pelas praias do Nordeste.

Enquanto o Grão-Pará seria castelhano
ou talvez francês
Todas Guianas inclusive as bocas do grande Amazonas
um enorme Suriname sob domínio holandês
ou inglês pra freguês nenhum botar defeito
do que é torto ou direito.

Prova de que Deus é brasileiro:
fizemos Cristo nascer na Bahia
ou em Belém do Pará”...

Aí então entra a inverossímil história de Mapuá
a fim de dar termo a quarenta e quatro anos de guerras
desde a tomada do Maranhão:
que sem a controversa paz dos nheengaíbas
Muaná não poderia proclamar
a magna Adesão
que deu eco ao Grito do Ipiranga
às margens plácidas do Amazonas.

sábado, 25 de maio de 2013

AMAZONIDADE DAS NOSSAS GUIANAS (4)


Pico da Neblina, serra Imeri, norte do Estado do Amazonas, fronteira do Brasil com a Venezuela, ponto mais alto do Brasil (3.014 metros de altitude). Deu nome ao Parque Nacional do Pico da Neblina.

Um monumento natural à bravura dos demarcadores de limites internacionais da América do Sul. Divisor de águas da história das demarcações de nossa fronteiras desde o tratado luso-espanhol de 1750. Ou , mais cedo, a partir da viagem secreta do cosmógrafo português Duarte Pacheco Pereira ao Rio Pará, em 1498, a fim de efetuar observações astronômicas acerca da linha de limites do tratado de Tordesilhas (1494) substituído que foi pelo tratado de Madrí (1750).


tributo a Robert Marigard


estranho norte onde o Brasil começa delimitado com a cara e a coragem de "suraras" e seus incríveis guias-mateiros. A levar demarcadores das fronteiras dos países amazônico a saber de fato onde começa e termina o território de cada nação. Para finalmente aproximar, integrar e consolidar desde sempre a Pátria grande de todos povos sul-americanos.
 
No jargão de acampamento de demarcação de limites de fronteira, a palavra "surara" significa trabalhador braçal da dura lida de transportar sobre as costas o jamaxi (apetrecho de carga dos índios) para levar até lugares extremos da fronteira, onde nem burro ou jumento pode ir, aparelhos de medição e suprimentos de sobrevivência. Herança da língua-geral amazônica ou Nheengatu para palavra 'soldado'. A diplomacia da República brasileira, com mais de dez mil quilômetros de fronteira, superou galhardamente antigas questões de limites herdadas do conflito ibérico e da disputa colonial em torno do célebre "testamento de Adão" transportando guerras do velho mundo ao novo continente criando malquerenças do império do Brazil com seus vizinhos.

Por isto a História do Brasil é generosa com o Barão do Rio Branco tendo atado ao seu nome nobiliárquico o conhecido rio que banha o Estado de Roraima e a capital do Estado do Acre. Todavia, ainda falta fazer elogio do diplomata e abolicionista Joaquim Nabuco, que "perdeu" contra a rainha dos mares Inglaterra a chamada Questão do Pirara, mas defendeu com nobreza a memória do herói indígena brasileiro Ajuricaba dos Manaus da acusação de traficante de escravos para a colônia inglesa do Essequibo... 

A imagem do índio amazônico com seus usos e costumes é inseparável da demarcação dos limites dos países amazônicos. Portanto, seria justo que o cume da serra Imeri e o parque nacional existente no divisor de águas Amazonas-Orinoco conhecidos como Pico da Neblina fossem chamados Ajuricaba em homenagem aos índios de fronteira e do "surara" desconhecido seu descendente; indispensável guia das grandes expedições científicas e trabalhador das demarcações de limites da fronteira setentrional brasileira.

Ajuricaba é por excelência o herói amazônico anti-escravagista que mais se destacou na luta contra o colonizador e fez o bom combate dando a própria vida contra as "tropas de resgate" (caçadores de escravos) que infestavam o Rio Negro alimentadas por Lisboa no reino das "Almazonas" (como dizia o Padre Antônio Vieira). Os antigos Manaus rebeldes ao colonialismo foram guardiãos da fronteira Norte, como também muitos outros em diversos pontos do imenso território das Guianas. Com exemplo de seus parentes "Nheengaíbas" (Marajoaras) que, nas primeiras décadas do século 18, tinham por referência no Pará a figura de Guamá, cacique dos Aruã e Mexiana dos Marajós; acusado de bandoleiro por ainda sustentar a velha guerra, provavelmente começada pelo Bom selvagem tupinambá antes mesmo de Pinzón, em janeiro de 1500, sequestrar os primeiros 36 negros da terra (escravos indígenas) da ilha Marinatambalo [Marajó].

Pela guerra e a paz das regiões amazônicas índios, mamelucos e mocambeiros tornaram-se soldados de fronteira. E a palavra portuguesa 'soldado' acabou por se transformar na boca de índios em contato com as turmas de demarcação de fronteiras, através do Nheengatu, no substantivo surara aplicado ao indispensável carregador do serviço demarcatório. Sem dúvida nenhuma, pode-se dizer que o surara é descendente daquelas tropas mamelucas do Nordeste brasileiro recrutadas entre filhos de índias tupinambá com aventureiros portugueses. Na Amazônia conquistada, o mestiço brasileiro foi proletário tapuio (índio manso) ou caboco donde sairam os demarcadores suraras para os mais árduos trabalhos de demarcação das raias amazônicas. Sem suraras e mateiros a geografia das regiões extremas da Amazônia ainda estaria no mato sem cachorro, vista de longe a bordo de avião. Então, na floresta amazônica, seria justo considerar o Pico da Neblina como monumento natural ao surara desconhecido, como justificadamente se fizeram monumentos nas cidades à memória do soldado desconhecido.

Quando se trata de mapear as Guianas na consciência das nações unidas da América do Sul e do Caribe é justo rememorar a luta anti-escravagista de Ajuricada e a diplomacia libertária de Joaquim Nabuco dando vivas a todos suraras das fronteiras amazônicas. Como o soldado comum desconhece as razões da guerra entre as nações, mas sem ele não há vitória possível; assim também um surara não sabe nada do que reza a linha invisível a ser materializada no terreno e da letra dos tratados de limites que a delimitaram no mapa das negociações diplomáticas. Entretanto, sem surara no serviço das demarcações de limites não poderia o técnico com seu teodolito, avô do moderno GPS; chegar no ponto exato onde erigir o marco de limites. Marco este de apoio material cartográfico à linha binacional reconhecida em conferência das comissões mistas. Aqui estamos nós a dizer que cada marco de fronteira deve ser uma lembrança do surara desconhecido da integração sul-americana como o Pico da Neblina deveria ser o monumento natural de toda história das demarcações de fronteira na Amazônia.

Na Guiana paraense o município de Óbidos (antiga aldeia de Pauxis) é capital brasileira dos suraras, com lembrança do forte Gurjão, na Serra da Escama. Por acaso, também a porta memorial pela qual o mocambo Maravilha subiu os rios da história do Curuá, Cuminá e Trombetas em busca de liberdade dos escravos no coração da grande "ilha" das Guianas, onde se acha o divisor de águas das fronteiras sobre as serras além das cachoeiras. 

Conforme mestre Vicente Salles, em "O Negro no Pará", quando o presidente cabano da revolução de 1835, Eduardo Nogueira Angelim cometeu o grande crime e erro fatal ao mandar fuzilar escravos acusados de matar seus senhores em meio à convulsão dos primeiros dias de combate; logo ao primeiro tiro estava morta a maior revolução popular da Amazônia. O valente cearense da revolução paraense suicidou-se, politicamente, naquela hora em que ele renegou todo heroísmo. Então, os negros cabanos traídos à semelhança dos negros gaúchos de Porongos na Farroupilha contemporânea à Cabanagem; abandonaram as trincheiras de Belém sitiada pelas forças imperiais baseadas na ilha de Tatuoca e bloqueada através das ilhas do Guajará.

A tentativa mal pensada do governo revolucionário cabano em se conciliar com o regime escravocrata do Rio de Janeiro custou o genocídio amazônico. Quando tropas ensandecidas do Barão de Caçapava tiradas das prisões de Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará foram obrigadas a matar sem misericórdia a paraenses para receber o infame soldo. Pois, sem rosários de orelhas secas cortadas aos cabanos; melhor seria o soldado frouxo fugir pelos matos como os rebeldes em fuga desordenada cometendo violências rio acima para sobreviver pelas matas... Este crime de guerra cometido pelo general Andrea Soares na Amazônia durante à repressão à Cabanagem, longe de se comparar à negociação do Duque de Caxias com chefes Farroupilhas, ficou sendo uma covardia histórica e espinho cravado na carne da história do povo paraense. Cuja origem remonta ao fingimento português nas tratativas com o mercenário inglês para o simulacro de adesão à independência do Brasil, de 15 de agosto de 1823 em Belém, contra o temerário heroísmo paraense de 28 de Maio em Muaná; levando diretamente à tragédia do Brigue Palhaço e desengano do povo quando às verdadeiras intenções do Império brasileiro em relação ao povo do Pará.



cartas de Caiena e papelinhos incendiários semeiam a República cabana

Ora, a Revolução Haitiana (1791-1804) cria dileta da marronagem do Caribe juntando negros e índios escravos nos quilombos; contaminou - no dizer dos historiadores, principalmente Pasquale Di Paolo - a tropa paraense mandada ocupar Caiena, de 1809 a 1817. Com a invasão da Guiana francesa, frei Francisco Luiz Zagallo aproveitou para atravessar a fronteira do Pará com a propaganda republicana na bagagem e logo o frade irritou com sua pregação os senhores da província e foi recambiado de volta para não subverter a ordem escravista vigente. Belém se mantivera de pé durante dois séculos graças a arcos e remos dos Tupinambá, e ao trabalho escravo: o Pará estava convertido na Babilônia amazônica sustentada principalmente pelo "ouro vermelho" do Rio Negro... 

Mas, a invasão preventiva de Caiena, temendo invasão de Belém por tropa napoleônica, foi tiro que saiu pela culatra e a ideia de abolição do longo cativeiro estava plantada e os "papelinhos incendiários" e notícias ou cartas de Caiena mandadas por soldados paraenses a suas famílias, notadamente no Amapá e Marajó por portadores confiáveis através da pesca no Cabo do Norte que sempre existiu deste o tempo dos índios; preparavam os espíritos para os eventos que viriam no futuro imediato. 

A pregação liberal do primeiro jornalista da Amazônia, Felipe Patroni; e a ação nacionalista do Cônego Batista Campos, partidário de Frei Caneca no movimento federalista da Confederação do Equador; iriam servir de fermento da Cabanagem em gestação acusada de separatista pela historiografia imperial consagrada pelo Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB), em realidade a revolução paraense foi anti-escravagista e republicana. Logo, fica claro nos dias de hoje, a razão pela qual Caxias no Rio Grande do Sul foi pacificador, enquanto Caçapava no Pará foi exterminador. O dantesco cenário do triunfo do Império na Amazônia na "pax" do Pará cabano: 40 mil mortos numa população de apenas 100 mil almas!

Deste troço de gente desarvorada, dizimada e refugiada pelos sertões de Óbidos - terra dos Pauxis - adentro foi parido o mocambo Maravilha, na lição de Vicente Salles, fênix quilombola protegida pelos orixás e a densa Floresta Amazônica voando à frente de ferozes capitães do mato e suas matilhas assassinas vindas de Santarém. Um dia o mocambo estava aqui e amanhã acolá adiante... Alertados por "judeus" (libaneses) em regatões que compravam e vendiam mercadorias de contrabando em escambo de drogas do sertão, como bem nos ensinou mestre Samuca (Samuel Benchimol). Índios comparsas alertavam os pretos a queimar depressa o tapiri e subir mais e mais para fazer outro mais distante e escondido... Esta maravilha de luta guerrilheira nas selvas das Guianas quer sugerir, talvez, um antigo segredo africano de alguma gente capturada na África meridional às margens do grande lago Malawi. O qual a cabo do colonialismo europeu hoje é país independente vizinho de Moçambique e aqui uma lembrança perdida da história da Cabanagem... 

No coração das Guianas a palavra portuguesa "soldado" virou "surara". Poderá talvez, pelo mesmo princípio do papiamento, o africano Malawi ter dado nome de Maravi ao mocambo volante que finalmente ao ouvido dos regatões virou Maravilha. Será? Quando a história perde o norte e se extravia a prosapoesia dos mocambos corre a descobrir outros caminhos de libertação e a inventar novos rumos...

O certo é que esta extraordinária escola da marronagem fez da fronteira do Pará com o Suriname um enorme quilombo com notável contribuição ao Papiamento até nas Antilhas holandesas (Curaçao, Aruba e Bonaire). Daí também índios, mocambeiros e cabocos mateiros fariam os melhores "suraras" das demarcações de limites. Sem eles, por exemplo, os exploradores da floresta e aviadores poderiam ver de longe o Pico da Neblina sem jamais por os pés na serra Imeri e, muito menos, as mãos sobre ela nas alturas do Planalto das Guianas para saber quantos metros tem aquele altaneiro cume acima do mar.


notícia póstuma do Palácio dos Demarcadores

Se a conquista da América começou pelos espanhóis no Caribe escravizando índios das ilhas; os portugueses não fizeram menos dano às populações indígenas da Amazônia, notadamente do Rio Negro onde teve início a primeira tentativa de demarcação de limites entre as colônias portuguesa e espanhola em região amazônica. 

Para este extraordinário feito que reclama filme de epopeia, o Governador General e Demarcador Francisco Xavier de Mendonça Furtado; subiu o rio Amazonas e foi instalar o Palácio dos Demarcadores em Barcelos, primeira capital da província do Amazonas; onde ele logo tratou de apagar o nome da aldeia Mariuá. Prenúncio do que viria em seguida até expulsão dos Jesuítas. Mais tarde, a capital amazonense passaria da decadente Barcelos com seu palácio arruinado para a florescente Manaus na barra do Rio Negro, terra de Ajuricaba, a maior cidade do planalto das Guianas ou escudo Guianês numa região do relevo geográfico do norte da América do Sul localizada ao norte da planície Amazônica. 

Conforme já foi escrito neste despretensioso blogue, as Guianas se acham umbilicalmente ligadas ao Caribe ou Antilhas, desde tempos pré-colombianos, através do interflúvio formado pelo Rio Negro, canal de Cassiquiare e rio Orinoco mais a travessia marítima entre Delta Amacuro e a ilha de Trinidad (República de Trinidad eTobago). Hoje ferrovias, rodovias e aviões ligam diversas regiões do mundo à rosa-dos-ventos, mas as regiões amazônicas e caribenhas são essencialmente habitadas por povos das águas. Portanto, a água, mais que qualquer outro elemento da natureza será sempre o meio preferencial de comunicação desta gente do norte sul-americano.

Pátria mítica de Macunaíma e do El-Dorado, o escudo guianês se prolonga do Brasil a Venezuela e às mais Guianas. A região de cordilheira forma o divisor de águas das bacias do Amazonas e do Orinoco, que faz fronteira entre cinco países amazônicos entre nove (Brasil, Venezuela, Guiana, Suriname e Guiana francesa). Pequena parte do planalto chega até ao território da Colômbia. De oeste a leste, a cordilheira guianense é formada pelas serras Imeri ou Tapirapecó, Parima, Pacaraima, Acaraí e Tumucumaque onde se encontram os pontos mais altos do Brasil, como o pico na Neblina no extremo norte do Estado do Amazonas. Trata-se de formação geológica da era pré-cambriana, das mais antigas da Terra. O escudo das Guianas tem configuração insular circunscrito pela costa marítima, o rio Amazonas, Rio Negro, canal de Cassiquiare e rio Orinoco. 

Além da capital do Estado do Amazonas, a Guiana brasileira conta com as capitais do Estado de Roraima, Boa Vista; e a do Estado do Amapá, Macapá. Já a Guiana venezuela tem três capitais estaduais: Puerto Ayacucho (Estado Amazonas), Ciudad Bolívar (Estado de Bolivar) e Tucupita (Estado de Delta Amacuro). A República Cooperativista da Guiana tem Georgetown como capital; o Suriname, a cidade de Paramaribo; e a Região da Guiana francesa, Caiena. Somam, portanto, sete capitais estaduais as Guianas. O Estado do Pará, fazendo parte das Guianas, através do Marajó (dezesseis cidades e municípios) e do Baixo Amazonas (com importantes cidades na região guianense, como Almeirim, Monte Alegre, Alenquer, Óbidos e Oriximiná e outras menores).

Tal povoamento tem histórico com as mais antigas aldeias indígenas das Guianas, a colonização europeia; a importação de escravos vindos da África e a imigração. Enquanto colonos europeus se fixavam principalmente nas cidades costeiras, a população indígena, em maior parte, permanecia no interior onde pouco a pouco a colonização os empurrava e os brancos introduziam negros escravos para exploração de terras de fazenda, engenho de açúcar e aguardente; ou extração de cacau, borracha, castanha, pau-rosa, piassava, madeira, etc.

A partir do litoral negros escravos não esperaram que se lhes dessem a liberdade perdida na distante África donde foram vendidos, como José do Egito, pelos próprios irmãos. Como dizia o padre Cícero Romão Batista nos embates sertanejos da Caatinga, "Deus é grande, mas o mato é maior"... E o caminho do mato foi salvação para índios e negros, durante a grande marronagem que teve início nas Antilhas, promoveu a revolução e independência do Haiti e tornou o coração das Guianas um imenso mocambo (quilombo).

Sabemos como as brigas eternas da França com a Inglaterra acabaram, durante o império de Napoleão, obrigando a família real de Portugal a se refugiar no Brasil (1808). A vingança do príncipe regente (a rainha mãe Dona Maria I estava louca) ao chegar ao Rio de Janeiro foi mandar invadir e ocupar a Guiana francesa. Com que meios? A corte portuguesa estava mal e porcamente instalada numa capital que tinha acabado de ser transferida de Salvador (Bahia). Caiena era mais longe e isolada de Belém do Pará do que é hoje... Na verdade, o exilado reino de Portugal na América, mais que antes na Europa; estava convertido num vasto e desconhecido protetorado inglês. 

O comando da tropa de ocupação de Caiena (1809-1819) era, figuradamente, português. Todavia, para os fins práticos da operação militar oficiais ingleses é que davam as ordens. E isto havia um propósito não revelado pela parte dos ingleses: o governador da Guiana francesa, Victor Hugues; no passado ainda recente, foi governador da Guadalupe quando, à frente de um exército de libertos e indígenas, tomou dos ingleses a ilha e mandou passar pela guilhotina um sem número de colonos inimigos da revolução... Caso os ingleses o aprisionassem, certamente, o governador francês não escaparia à forca. Mas, a tropa anglo-portuguesa foi recrutada no Pará entre o que estava mais à mão e não poderia deixar desguarnecida a praça de Belém. Portanto, não há exagero em dizer que os paraenses da ocupação de Caiena eram negros forros, índios catequizados e nordestinos de costume.

o Século das Luzes extraviado na primeira noite do mundo

Como se sabe, Victor Hugues virou personagem do romance "O Século das Luzes" do cubano Alejo Carpentier. Segundo historiadores franceses foi vergonhosa a rendição do governador de Caiena, após curta refrega, com a tropa de invasão. Entretanto, a revolução francesa de 1789 não tivera grande impacto na Guiana e além disto Napoleão Bonaparte havia determinado a volta do regime escravagista à agora Amazônia francesa... A sombra da revolução hatiana, certamente, pesava sobre o imaginário da população escrava guianense. Poderia o governador da colônia contar com a lealdade da população humilhada em semelhante situação? Uma tropa de ocupação com soldados paraenses não levaria fatalmente os dois lados a se identificar um com o outro? Contam à margem da história oficial que a partida da tropa paraense, em 1817, teria deixado saudades na sociedade crioula. Um elemento entre outros mais antigos que habita o lendário do casamento entre o príncipe Caienne e a princesa Belem, filhos do rei Ceperu e do rei Brasil, no folclore guianense... 

De maneira objetiva a rendição francesa em Caiena, em 1809, teria tido por motivo acontecimentos passados na ilha da Guadalupe. Onde Victor Hugues foi governador e fez funcionar a guilhotina republicana contra colonos ingleses e monarquistas franceses. Assim, temendo ser morto ali mesmo pelo comando inglês o governador colonial teria se apressado em entregar-se diretamente em mãos do comandante português, tenente-coronel Manoel Marques, que lhe poupou a vida e permitiu retirar-se para a França. Levado a julgamento em Paris por crime de traição Victor Hugues foi inocentado da acusação na corte marcial e ao fim da ocupação (1817) voltou ao cargo de governador da Guiana francesa. Para finalmente, como simples cidadão, falecer naquela distante colônia ultramarina.

Nestas regiões de grandes rios e navegação costeira tradicional as fronteiras nem sempre servem para separar. Entre soldados paraenses da ocupação de Caiena - antepassados de suraras de Óbidos - muitos frequentavam a Guiana francesa muitos antes e praticavam antigas transações além do Cabo do Norte, em especial pescadores da Vigia, Curuçá e São Caetano na região do Salgado descendentes de tupinambás andejos. Do mesmo modo, na faixa de fronteiras do Rio Negro e do Branco a mistura fina das tribos deixou a sua parte, pelas margens da História, na construção da amazonidade profunda.

segunda-feira, 20 de maio de 2013

AMAZONIDADE DAS NOSSAS GUIANAS (3)


porto de Paramaribo, capital do Suriname.



tributo a Robert Marigard

rota das "tapouilles" (1) além do Cabo Norte: 
reino do contrabando, cabotagem da morte.

Cronológica ou alternativamente espanhóis, portugueses, holandeses, franceses e ingleses foram destruidores e exterminadores das Índias ocidentais e orientais. História universal da infâmia, da qual estes tímidos bits querem imitar a fim de transmitir uma pálida ideia da metáfora no cinema em "Os deuses devem estar loucos", por escarmento do tempo: lembrar, de raspão, que Sua Santidade, naquele tempo no papel solitário da assembleia geral da ONU hoje - quando Alexandre VI celebrou o "testamento de Adão" (homologação vaticana do tratado de Tordesilhas de 1494) -, deveria o Papa estar embriagado se não do sangue de Cristo pelo menos do poder apostólico romano ligar e desligar nos céus o que a Cúria ligasse na terra. Do mesmo modo como o que o Filho do Homem liga ou desliga no céu, na terra será ligado ou desligado por intermédio do Espírito Santo à força de direito canônico sancionado pelos sucessores de Pedro. Pura alquimia eclesiástica que faria inveja ao Egito no tempo dos faraós, diga-se de passagem. Por acaso, depois de cinco séculos de martírios americanos, daquelas terras ensanguentadas floresceria a teologia da libertação, inspiradora indireta da famosa encíclica "Popularum Progressio" saudada por Wall Street como marxismo requentado.

Foi coisa assim que o inca Atahualpa protestou face ao bispo Valverde ao ser informado do infame proclama do imperador Carlos V, dizendo que o trono de Castela havia sido contemplado pela Santa Sé com a doação do Peru. Caro custou a rebeldia pagã do inca das Quatro partes do Mundo: foi ele atado a quatro fogosos cavalos puxados em direções contrárias, Atahualpa teve o corpo desfigurado e dilacerado. Mas, depois da morte, teve direito a missa solene celebrada pelo bispo com presença do conquistador Francisco Pizarro, conforme rito latino da santa religião. Aos olhos dos nativos peruanos Cristo e Athaulpa se confundiram na cruz do Calvário como a arte popular peruana mostra. Não é certo que a voz do povo é voz de Deus?
 
Todavia, o povoamento americano segundo arqueólogos informam, teve início há vinte mil ou, pelo menos, dez mil anos passados a partir da Ásia. O novo mundo ostenta velhas civilizações tais como Mayas, Astecas, Incas e outras culturas pré-colombianas mais. Árabes e judeus contribuíram de diferentes maneiras para a história da conquista e colonização, onde africanos foram escravizados ou trazidos como livres após cativeiro. Assim que chineses e hindus, mais recentemente imigrantes de toda Europa, Japão e China vieram se juntar aos primeiros povoadores.

Antigos navegadores do Mar-Oceano sabiam da existência da Corrente Equatorial Marítima, que atravessa o Atlântico de leste a oeste. Graças a ela um antigo relato vindo do Cairo através de Paris após a expedição de Napoleão Bonaparte, conta como cem anos antes de Colombo, o imperador do Mali chegou a remo até a foz do Amazonas e costeou as Guianas até o delta do Orinoco com uma flotilha de caiaques, sem jamais voltar a África. 

Por acaso, quando da descoberta da América, em 1492, Colombo teria visto estranhos "índios pretos" no Haiti usando flechas e lanças com ponta de cobre. Como o descobridor também disse que viu o jardim do Éden adentro do Orinoco, fica difícil acreditar. Relatos da época fazem monumento à imaginação das Américas por olhos da velha Europa recém saída da idade média. Todavia, é certo que com a chegada dos primeiros escravos africanos (importados por ingleses para a ilha de Barbados, entre 1673 e 1723) e a marronagem (fuga de escravos para mocambos ou quilombos) índios e negros misturaram seus genes e criaram a "raça" afro-americana dos "índios-pretos" (no Brasil, cafusos). Significa dizer, que durante 181, de 1492 até 1673 pelo menos; a escravidão americana foi sustentada exclusivamente por "negros da terra" (indígenas).

Os Reis Católicos e Sua Majestade Fidelíssima, mal saídos de 500 anos de guerra de Reconquista para expulsar os Mouros da Ibéria, a fim de evitar uma guerra fraticida entre os súditos por causa dos descobrimentos marítimos, de consequências imprevisíveis àquela hora; acordaram com dificuldade em Tordesilhas (Espanha) uma linha imaginária, dividindo a Terra mediante convenção de um meridiano calculado a 370 léguas a oeste de Cabo Verde. No começo de suas desavenças marítimas, Portugal e Espanha haviam disputado o arquipélago da Madeira, conhecido de cartógrafos italianos e depois povoado com portugueses, assim que as ilhas Canárias por espanhóis, e saíram pela tangente diplomática que deu base às rudes negociações de Tordesilhas, sempre em vantagem do conhecimento cartográfico dos lusitanos em barreira às imoderadas ambições territoriais de Espanha da velha herança conquistadora adquirida dos povos germânicos.

Mas a Reconquista, guerra de cinco séculos entre a Cristandade e o Islã na Península Ibérica ainda não estava terminada e dela, entre outros resultados, deu-se a invenção de Portugal. Porém, o estado e a nacionalidade portuguesa se consolidaram durante o reinado de Dom Dinis (1279), sexto rei, que traça o futuro do país entrelaçado pelo comércio exterior a Inglaterra, Itália e Bélgica (através desta a Holanda) criando vínculos permanentes da lusofonia. 

Vê-se que o comércio marítimo no Mediterrâneo e no Atlântico seriam, desde então, o traço permanente daquela esquina geográfica transformada em nação que viria descobrir o Brasil como futuro país da língua neolatina ("última flor do Lácio inculta e bela", no dizer de Olavo Bilac). Da emancipação do pequeno Condado Portucalense diante da imperiosa Espanha o novo reino ibérico forjava a si mesmo como nação aberta de navegadores e descobridores do mundo vindos de povos ibéricos e de diferentes nações. Pátria predestinada por suas próprias forças e fraquezas, em sucessivas contradições; a promover a mestiçagem do catolicismo sob o sol dos trópicos, no amplo sentido da universalidade e diversidade de culturas da Terra. Que é a coisa mais moderna do mundo onde o Brasil desponta como porta-estandarte, cujo manifesto, primeiramente nas trovas de um sapateiro cristão-novo chamado Bandarra; e depois na utopia evangelizadora do Padre Antonio Vieira; seria sublimada na arte poética de Fernando Pessoa e filosofia sebastiana de Agostinho da Silva. 

É claro que Portugal se fez mundo! Mas, claro é também que o Brasil brasileiro é mais que um abençoado herdeiro do avô português e da avó africana. Na verdade, o maior país de língua portuguesa também é o maior país amazônico do mundo, ostentando uma antiga civilização de mil e quinhentos anos de idade - a Cultura Marajoara. Cujo apogeu foi contemporâneo ao reinado de Dom Dinis, em Portugal, e sua cerâmica artística e aldeias suspensas sobre campos inundáveis já estavam desenvolvidas, quando ainda nem existiam sementes para os viveiros de pinho da floresta de Leiria, mandada plantar pelo rei Lavrador, com destino à construção naval, que mudaria o destino de Portugal.


dos guetos da Dispersão ao país do Futuro

A fim de habitar o tempo do circum Caribe como se deve, carece navegar pelas margens da história a bordo de barcos de contrabando seguindo ao acaso, no mar das calmarias, a espiral evolutiva dos acontecimentos do passado distante e praticando a arriscada arte de adivinhação de futuros horizontes.  A rota do açúcar a partir da China e da Índia chegaria à ilha da Madeira, ao Caribe e Guianas para deitar raízes mais profundas em Pernambuco, sem deixar de experimentar o Pará com algumas feitorias holandesas a partir do final do século 16 até o século 18 e definhar com a abolição da escravatura. 

O mesmo enredo cabeludo do café que um dia saiu da Etiópia, Deus sabe como, e entrou ao Suriname trazido por alguma urca cargueira holandesa donde foi roubado para plantação em Caiena e desta última saiu furtado para dar roças e exportação do Pará para a metrópole.  Antes de ir gerar os famosos cafezais de São Paulo. Mas, o café agora de São Paulo faria caminho inverso do contrabando tendo como destino, principalmente, o porto de Paramaribo onde esta história começo e saiu na volta para consumo das famílias mais ricas das Antilhas e do povo, inclusive na revolucionária Cuba segundo dizem notáveis comerciantes libaneses da praça de Caiena; que outrora numa cadeia de comércio, mais ou menos legal; controlavam o fluxo de mercadorias de sul a norte e de norte ao sul do continente. Como se sabe, durante o período colonial o comércio triangular - Europa (manufaturados), África (escravos), América do Sul e Caribe (açúcar e rum) - deu margem a muitas safadezas, além da pirataria. O nome "brasileiro" era sinônimo de contrabandista.

Resulta agora o curso de tal pajelança algo bastante confuso, como sempre foi e serão as mais curiosas navegações desta vida ribeirinha da ocidental civilização. A ubá indígena que por necessidade e acaso criou asas ao vento geral se transforma em canoa. Logo, por imitação barata da imponente igara (caravela) estrangeira, já é igarité no Pará ou bastarda, no Maranhão. A vela dependente de ventos e marés ganha reforço tão logo a revolução industrial ofereceu, primeiro o navio-vapor e depois o motor marítimo; que mudaram o tempo das viagens e encurtaram a distância entre as ilhas e a terra firme: eis a invenção do barco-motor amazônico (chamado "tapouille" ou tapuia, nas Guianas).

Por aí, entre portos do Pará e das Guianas, dentre avultados contrabandos e tráficos mais pesados embarcaram e desembarcaram cargas de lendas, mitos e ritmos que, afinal de contas, fazem história. Contudo, esta última carece que o comércio lhe transporte e a economia a carregue sobre os ombros. Não foi, por acaso, sobre lombo de camelos, que são navios do deserto, que a notícia das especiarias da Índia chegou a Europa? Pois, na América, as naus trouxeram além da Bíblia e notícias picantes das cortes novas pragas mortais como a gripe, o sarampo e a varíola; e pior que tudo a dependência econômica pelo fomento de novas necessidades de consumo. 

Para evitar concorrências desleais e guerras de comércio que, não raro; levam a contenda a vias de fato; inventaram a Organização Mundial do Comércio (OMC). Afinal, o que é contrabando? Um prática comercial externa que sonega impostos ou faz contravenção de medida protecionista. Para alguns o livre comércio é uma panaceia que sana tudo isto, mas na verdade semelhante liberdade é meio caminho para monopólios odiosos...

Por isto, sob a louvável intenção de levar a Fé cristã a corações e mentes sarracenos quando, por mal dos pecados de Portugal, a religiosa Espanha exultou com a morte do rei português Dom Sebastião e, sob o trono de São Pedro, se fez senhora de todos mares sendo dona absoluta do império onde o sol nunca se punha. Mercadores judeus estabelecidos na Itália e na Holanda, mais que antes, cuidaram de aliaram-se aos Hereges (protestantes cristãos) e animaram a ralé judia par da massagada árabe cristianizada a invadir e ocupar colônias de Espanha e Portugal.


ecos da colonização das Antilhas e Guianas. 
"Bom é Jesus Cristo, Melhor é o Comércio!"

[Eleazar Cordoba-Bello, in "Compañias holandesas de navigación, agentes de la colonizacion neerlandesa", Sevilla, Escuela de Estudios Hispano-Americanos, 1964, p. 122; apud Anderson Leon Almeida de Araújo, em "Os flamengos, os holandeses, a América - contribuições neerlandesas no novo mundo", copilado da internet].

A área geográfica das Antilhas-Guianas, apresenta a curiosidade de ter sido palco inaugural das destruição das Índias ocidentais. Para o século 21 estas regiões são importante laboratório de análise econômica. A colonização holandesa no Suriname e nas Antilhas holandesas apresenta diversas curiosidades dignas de nota. Uma língua crioula diferente de tudo mais no mundo ultramarino, o Papiamento; quebra-cabeças linguístico. Para uns, dialeto oriundo de um "português corrompido" através de escravos africanos vindos de antigas feitorias portuguesas. 

Aqui o leitor deve ser lembrado de que, desde muito cedo na Holanda existiram núcleos de judeus portugueses exilados voluntariamente ou expulsos de Portugal por motivo religioso. Na Bélgica os flamengos igualmente conviviam com judeus portugueses já cristianizados e negociavam com holandeses que conservavam a religião de seus antepassados e a língua e cultura portuguesa. Estes elementos, sefarditas em maior parte, foram colonizadores nas colônias holandesas: são estas as feitorias "portuguesas", principalmente, de que se está falando. Outros estudiosos do Papiamento dizem que se trata de uma mistura de espanhol, holandês e algumas línguas africanas. Para uns e outros, o Papiamento é um exemplo do segrecionismo da colonização holandesa que, na África do Sul, culminou no regime do Apartheid. De fato, os colonos holandeses não haviam interesse em compartilhar a sua língua com os colonizados: foi uma colonização especial, fechada, em torno da família. Certamente, o colono holandês aprendendo o crioulo podia se comunicar para efeito das trocas comerciais, porém os índios, negros ou estrangeiros não poderiam compreender facilmente o que se passava entre os donos da feitoria. De todo modo, a colonização holandesa poderia ter maior sucesso na Amazônia dado que também os índios não queriam se deixar assimilar, tampouco os africanos a ferrados aos costumes de suas respectiva nações. 

Se não fosse o caso dos colonos portugueses vir solteiros face à fraca demografia de Portugal, em geral degredados por perseguição religiosa ou cumprindo pena por crime comum; as possibilidades da Holanda dominar toda a Amazônia teria sido superior a qualquer outra potência europeia. O português sem escrúpulos para deitar com mulher indígena ou africana e ter filhos com quantas mais pudesse, era relativamente orgulhoso da sua prole mestiça a querendo "branquizar" a todo custo, mas o colono português apesar de maltratar escravos e dizimar índios sempre acabava se "abrasileirando" da cabeça aos pés.

O holandês típico revelando certo complexo de inferioridade com relação aos vizinhos alemães, como o português em comparação à arrogância aristocrática da elite espanhola; parece ter assimilado dos judeus e calvinistas que recebeu durante as guerras entre a Reforma e a Contra-Reforma um traço para o isolamento: assim como a língua, não fizeram proselitismo de sua religião, permitindo o comércio como fim utilitário em si mesmo. Uma pequena amostra do Papiamento, colhido da internet.


“Kantika de pleizir:
Ta Kasá, bo kier kasa
Mata kamarón lo bo kome
tur hende ta bin bisá-mi
kusimi kasa, ma ta
kumarón lo mi kome

(tradução livre baseada em versão em espanhol)

Cantiga de prazer:
Casar, queres casar
Mas comerás camarões
Todos vem me dizer
Que se me caso
Camarões comerei”

Costa Brava das Guianas: república de Cunani, cemitério de barcos e de imigrantes clandestinos


Atraídos pela lenda do El-Dorado, aventureiros espanhóis seguindo a rota de Colombo, acabaram por descobrir a ‘costa brava’ em 1593. Francisco de Orellana escapando da malograda expedição de Gonzalo Pizarro ao país da canela, chegou a Espanha, onde era aguardado sob acusação de deserção e roubo com a sombra da forca sobre si; dizendo ter descoberto em 1542 o fabuloso rio das mulheres guerreiras, chamadas amazonas na Capadócia. Em vez de prisão ele obteve, com ajuda de um tio, título de Adelantado del Rio, donatário de Nueva Andalucía (Amapá, depois capitania do Cabo do Norte doada por Felipe II ao português Bento Maciel Parente), caravela armada e a mão da bela prima Margarita com quem casou e, precipitadamente, fez velas para Cabo Verde onde fez os últimos arranjos para, em 1544, se perder e morrer nas águas do Pará sem deixar notícias. A bela Margarita, que esperava a bordo da caravela com damas de companhia, retornou pelas Antilhas chorando a viuvez.

Quase cinquenta anos depois do desaparecimento do descobridor do rio Amazonas, outro espanhol, Domingo de Vera; tomava posse das Guianas em nome da coroa espanhola. Porém a partir dali até 1683, a chamada costa brava permaneceu selvagem como sempre esteve desde o começo do mundo. A dita costa brava se estendia do interfluxo Rio Negro-Orinoco a oeste até o delta-estuário do Amazonas, ao norte tendo a leste o oceano Atlântico. Baixa, monôtona, coberta de aluvião que o Amazonas despeja ao mar formando bancos de vaza que se deslocam lentamente próximo aos infinitos manguezais, os colonizadores a consideraram insalubre,
impossibilitando a colonização no litoral. Este fato fez com que índios, escravos refugiados e desertores encontrassem abrigo seguro ao longo da Costa Brava guianense, que sempre foi um paraíso para as mais antigas populações costeiras, como a Paricuria, por exemplo. 

Ali também, em 1885, o aventureiro francês Jules Gross viria agitar a questão de limites entre o Brasil e a França, propondo criação da República do Cunani, com uma pequena população quilombola liderada pelo crioulo paraense Trajano Benitz a ser um protetorado francês. A grande inconsistência da proposta fez o plano cair por terra diante do desinteresse do governo francês. Contudo, nos começos de 1893 Cunani que está em paz e quase esquecido da tal república com sua população de cabocos brasileiros vivendo da pesca nos lagos e extração de grude de peixe. Quando de repente, a notícia de descoberta de ouro pelos garimpeiros de Curuçá, Germano e Firmino Ribeiro, em Lourenço, agitou a população. Em poucos meses, de 600 habitantes Cunani chegou a 5 mil almas. 

O acontecimento provocou inúmeros incidentes locais, como o conflito de 15 de maio de 1895, que terminou em vitória dos brasileiros e forçou a solução da questão do Contestado franco-brasileiro que se arrastava da época colonial, através do laudo arbitral de Berna, de 1º de dezembro de 1900. Assim, a região entre o Oiapoque e o rio Araguari foi incorporada ao território do Estado do Pará com nome de Araguari. 

Todavia, o descuido e abandono da região pelo governo brasileiro permitiu que outro aventureiro, desta vez o francês naturalizado brasileiro Adolph Brezet, ressuscitasse a república de Cunani, em 1902, instalado em Paris ele passou a nomear funcionários, agitar os espíritos e vender títulos a incautos. Uma representação do governo brasileiro fez com que governo francês acabasse com a vigarice de Brezet e também a segunda república de Cunani foi rapidamente dissolvida. Com a II Guerra Mundial, tendo em vista a defesa da fronteira, o Amapá foi desmembrado do Pará para constituir o Território Federal do Amapá, em 1943, sendo transformado em Estado do Amapá pela constituição federal de 1988.

Durante a ocupação da França pelos nazistas sob o governo de Vichy, as Antilhas e Guiana francesa ficaram isoladas da Europa. Foi um tempo duro para os guianenses, com crise de abastecimento e muitos jovens recrutados para lutar ao lado da France Libre sob comando general Charles De Gaulle, tinham que esperar raros navios vindos da África do Norte com alguma mercadoria ou as "tapouilles" do Amapá e Pará. O cônsul honorário do Brasil em Caiena, dentista Dr. Pacheco casado com francesa; passou a ter um papel de grande importância para receber e distribuir mercadorias da praça de Belém do Pará. Nessa ocasião, os Estados Unidos começaram a construir rede de bases aéreas ao longo da costa a fim de operar a travessia do Atlântico entre Natal, no Rio Grande do Norte, e Dakar, no Senegal. Submarinos alemães passaram a atacar e afundar navios junto a costa brasileira e das Guianas, suspeitos de carregar cimento, ferro e mercadorias para construção de bases aéreas aliadas. Foi assim, que o navio "Antonico" da praça de Belém; corregando cimento para a base do Suriname e abastecimento de Paramaribo foi atacado na foz do rio Maroni, na fronteira com a Guiana francesa. Tendo o submarino emergido a fim de observar as avarias da embarcação torpedeada, a tripulação e alguns passageiros foram metralhados por atiradores da ponte do submarino. Uns poucos sobreviventes resgatados com vida foram levados, segundo consta, para hospital francês em Saint Laurent du Maroni.

Durante a colonização da Costa Brava, algumas povoações foram fundadas como Berbice, em 1627, e Essequibo, em 1632, todas nas margens de rios longe do litoral. Em 1615, os primeiros holandeses desembarcam perto da foz do rio Suriname e fizeram uma pequena feitoria, que logo abandonam e o mesmo aconteceu com os ingleses em 1630 e 1650. Idem com os franceses em 1640, e com os Judeus portugueses, que chegam em 1666 trazendo o cultivo do tabaco e do açúcar. As tentativas holandesas e depois inglesas, desde 1599, no Xingu com os fortins de Orange e Nassau, em Gurupatuba (Monte Alegre, no Baixo Amazonas), Mariocai (Gurupá, Marajó), Cumaú (Amapá) falharam diante do arrojo de arqueiros Tupinambás aliados aos portugueses do Pará: levando a cabo, entre 1623 a 1647, a guerra de expulsão aos estrangeiros, começada com a tomada de São Luís do Maranhão, em 1615, que só chegaria ao fim com a paz dos Nheengaíbas (1659), no rio Mapuá (Breves, Marajó) sob iniciativa do Padre Antônio Vieira, em missão da tutela dos índios do Maranhão e Grão-Pará nos termos da lei portuguesa de abolição dos cativeiros indígenas na Amazônia, de 1655.
Após a segunda guerra anglo-holandesa, iniciada em 1665, e da Paz de Breda em 1667, foi acordado que toda Costa Brava passaria a ser posse das Províncias Unidas, mais particularmente da
província holandesa da Zelândia, enquanto a Nova Amsterdã (depois Nova Iorque) na foz do rio Hudson se tornaria colônia britânica. Então, naquele ano o capitão holandês Abraham
Crijnssen conduziu sua frota pelo rio Suriname. A segunda Companhia das Índias Ocidentais comprou a Costa Brava dos zelandeses em 1682, e cedeu a terça parte do direito de colonização à cidade de Amsterdã e uma terça parte à família Van Aerssen. Em 1683, embarcaóu rumo a Guiana o futuro governador Aerssen Van Sommeldjik. Até sua morte, em 1698, a Costa Brava foi deveras colonizada. 

Quando ele chegou se deparou com uma colônia com apenas 27 casas sendo mais da metade bares e o forte Zelândia ocupado por marinheiros e soldados sem as trepidações da guerra. O governador da Guiana holandesa, então, começou sua revolução: organizou expedições fazendo com que a Companhia se instalasse de fato nas quatro principais regiões da colônia: Suriname, Essequibo, Demerara e Berbice; venceu as guerras contra os índios, expandiu a colonização, fundou povoados e fomentou a imigração. Mas, na década de 1680 teve início uma relação peculiar de guerra e paz entre holandeses e índios Galibis, os colonos realizavam ataques contra embarcações com bandeiras espanhola
ou portuguesa para capturar os indígenas. E estes vendiam aos holandeses escravos capturados em guerras entre nações indígenas (tal qual os Tupinambás em parceria com portugueses contra Nheengaíbas e mais Tapuias da bacia amazônica),
principalmente contra os Poytos. Evidentemente, se reproduzia nas Guianas a velha guerra das Antilhas entre Kalinas e Arawaks. Isto gerou um clima de rivalidade entre colonos e indígenas. Por muito tempo holandeses e galibis foram aliados na escravização de
indígenas Arawaks. Os galibis passaram a morar nas periferias das plantações holandesas, capturando escravos que tentassem fugir do cativeiro. 

A sede de lucro e ganância dos holandeses fez com que o estoque de escravos fosse contrabandeado ao Brasil. Desta maneira, com a escassêz de mão de obra começou então a escravidão dos antigos aliados Galibis. Esta atitude gerou grande descontentamento e teve por consequência diversos ataques contra os holandeses. Um processo semelhante ao que aconteceu na relação entre portugueses e tupinambás. Por fim, uma guerra civil que termina com
a morte do governador Sommeldjik em 1698 e o decréscimo da
população indígena levando ao aumento da população escrava  vinda de Angola, Congo e Senegal quando, então, se implanta o cultivo de algodão no Suriname.

Em 1712, Paramaribo foi tomada pelos franceses comandados pelo capitão Jacques Cassard. Pelo lado português, no Rio Negro e no Rio Branco até o Essequibo o cacique Ajuricaba dos Manaus estava em guerra contra as "tropas de resgate" (caçadores de escravos guiados pelos tupinambás) e a tropa de guarda costa perseguia Guamã, cacique dos Aruãs e Mexianas da ilha do Marajó, até a fronteira do Oiapoque. No Suriname, o estado geral de conflito foi oportunidade para fuga em massa e revolta escrava, juntando indígenas e africanos contra os colonos holandeses. Estes também se revoltam contra altos impostos cobrados, fatores que contribuíram para abandono da colônia. 

No mesmo ano foi pago resgate, em mercadorias e escravos, avaliado em 747.350 florins. Mas, cada vez mais insatisfeitos, os "bush negroes" (escravos fugidos) a partir de 1730 começaram, a partir de 1730, a intensificar as insurreições contra os
colonos. Estes em inferioridade numérica acumularam derrotas humilhantes. Em 1749 assinaram a paz com os Saramakas, quilombolas assentados às margens do rio Saramaca. Em 1760, tiveram que se fugiar no forte Zelândia e assinaram a paz prometendo pagar tributos aos Aukaners, estes em troca deveriam prometer lealdade e devolução de novos fugitivos, formando patrulhas e prestando serviços contra novas insurreições.
Contra mal das patrulhas de ex-escravos em papel de capitães do mato, um exército mercenário foi contratado: a Brigada Escocesa. Mas, com as guerras napoleônicas, no fim do século XVIII, a derrota da primeira coligação fez com que as Províncias Unidas formassem a República da Batávia e, consequentemente,
uma posse francesa.

Durante grande parte do processo histórico holandês sua economia estava baseada no mar, inicialmente a pesca e depois o comércio que ia do Mar Báltico ao Cabo Verde, entrando pelo mediterrâneo até as costas da Turquia e Palestina. Muitas viagens eram organizadas por mercadores neerlandeses das cidades de Amberres e de Amsterdã. Noutros casos, seus barcos eram contratados por mercadores de várias nacionalidades e desta maneira, alugando embarcações para transporte de cargas a serviço de portugueses
e espanhóis; navegadores holandeses chegavam a terras além dos mares europeus.
Conhecendo rotas distantes, sistemas de vento e navegação e territórios, os holandeses preparados com a construção naval mais adiantada para necessidades mercantis e apoiados em companhias comerciais do próprio país lançam-se ao mar em busca de um objetivo único: o comércio marítimo. O mar de arenques, por exemplo, enquanto a agricultura era atrasada e o inverno secava a terra foi a grande escola de formação econômica da Holanda. O arenque se tornou um símbolo holandês e sua produção e conservação dependiam de sal extraído das salinas de
Setúbal (Portugal) criando complementaridade entranhada entre os dois povos marinheiros e pescadores. Tal pesca exigia grande conhecimento visto que o Mar do Norte impunha difícil
navegação durante o inverno e desta forma a navegação neerlandesa se tornou especializada e respeitada.

com quantos paus se faz uma canoa?

Guillerme de Uselinx era um militante calvinista com ideias muito avançadas para sua época. Ele propunha tomada de possessões espanholas e portuguesas dando o exemplo da tomada da Guiana com objetivo de povoá-la com famílias emigrantes alemãs e dos
Países Bálticos. Todavia, sua sugestão não foi aprovada pelo Estado Holandês que na época desejava manter a trégua dos doze anos. Para Uselinx “a nova colônia estava destinada a ser um bem para os perseguidos, um refúgio para a honra das mulheres e filhas dos expulsos de seus países pela guerra e pelo fantasma religioso, e uma benção para o homem do povo e para todo o mundo protestante”. Pode-se apostar que o pensamento de Uselinx era quase geral em meios de judeus pobres e cristãos-novos perseguidos pelo Santo Ofício. As ideias milenaristas de Joaquim de Fiore haviam contaminado os guetos e se filtravam para criar a teoria de que os índios do Novo Mundo descendiam dos judeus do cativeiro da Babilônia...

Muitos desses sonhadores quebravam cabeça para inventar algo diferente do que fora a longa experiência de exclusão e perseguição. Sobre o trabalho a ser empregado nessas colônias a serem confiscadas aos espanhóis e portugueses, Uselinx pensava num sistema em que os índios seriam trabalhadores assalariados. Na sua análise sobre a colonização na América percebeu que “nas Índias se executam a maior parte do trabalho por meio de escravos que custam muito, trabalham com resistência e morrem logo que sofrem maus tratos de seus amos, estava seguro de que seria muito proveitoso o uso de um povo livre. Além do mais, o escravo não deixa outro proveito que seu trabalho, porque sendo desnudo, nada adquire e nem necessita das industrias.”

Guillerme de Uselinx tinha por objetivo uma colonização holandesa nas Américas donde, de certo modo, a Companhia das Índias saiu a 3 de Julho de 1621 (ano da criação do Estado-Colônia português do Maranhão e Grão-Pará), porém no geral seus ideais não foram colocá-los em prática. Ao contrário, desde o século 16, feitorias neerlandesas e comércio de escravos na África e Américas primam por um pragmatismo absoluto. No início do
século XVII, a Holanda toma posse dum pedaço da Guiné onde construíram o forte Nassau e a partir daí holandeses passaram a ocupar diversos locais no litoral da África. Durante a ocupação do Brasil, na década de 1630, conquistaram importantes territórios como São Jorge de Mina, ilha de São Tomé e Angola aproveitando a experiência da antiga parceria com os portugueses.
É importante perceber que a partir daí, a Holanda passa a ser um
importante distribuidor de escravos africanos no Novo Mundo praticando o comércio de escravos. Principal motos da colonização da América. Existiam três rotas principais do tráfico holandês: uma  que seguia para Curaçau e dali se repartiam escravos para a Guiana, Venezuela, Colômbia, Costa Rica e Caribe, o trato negreiro nesta área aumenta depois da retirada dos holandeses do Brasil. Uma outra rota ia para o Brasil e permaneceu ativa até 1654, ano da expulsão dos holandeses de Pernambuco. A terceira era
vista na Nova Amsterdã (Nova Iorque) que servia de entreposto comercial a colonos ingleses da Virgínia.
Esses escravos foram usados nas colônias holandesas, principalmente no Brasil açucareiro, quando em meados de 1630, colonos naturais da Holanda conservavam aversão
escravidão influenciados pelos ideais liberais do comércio, assim como o pensamento de Guillerme de Uselinx e seus ideais calvinistas. Porém, com o passar do tempo, a escravidão em território holandês era vista como característica comum àquela sociedade, os exemplos estão na quantidade de escravos no Suriname e em Curaçau.

o Quinto império ou o desenvolvimento sustentável

António Gonçalves Annes Bandarra (1500 - 1556), conhecido por Bandarra, foi um profeta popular, natural de Trancoso, Portugal. É uma figura histórica, sapateiro de profissão e dedicou-se a fazer trovas messiânicas de matriz no milenarismo Joaquimita. Tinha ele conhecimento do Antigo Testamento do qual fazia livre interpretações. Por causa disso, foi réu da Inquisição sob acusação de judaísmo e suas trovas foram parar no catálogo de Livros Proíbidos, já que suscitaram interesse entre cristãos-novos. 

Bandarra foi inquirido no este tribunal do Santo Ofício, achado sem intenção de ofender a Cristantade, mas ainda assim obrigado a ir em procissão do auto-da-fé, de 1541. E nunca mais se meter a interpretar a Bíblia ou a escrever sobre assuntos de teologia.
Sua obra chamou-se "Paráfrase e Concordância de Algumas Profecias de Bandarra" editado por D. João de Castro. A obra foi mostrada como profecia do regresso do Rei D. Sebastião, após seu desaparecimento na batalha de Alcácer-Quibir, em agosto de 1578. As Trovas do Bandarra influenciaram o pensamento sebastianista e messiânico do Padre António Vieira e a poesia de Fernando Pessoa. São três pontos da obra profética de Bandarra: o Quinto Império, a ida e regresso de el-rei D. Sebastião e os destinos de Portugal. Após ser pelo Santo Ofício, em 1541, ele recebeu pena de silêncio e retornou retornou a vila de Trancoso onde faleceu em 1556. Depois de morto, incendiou o povo português com o sebastianismo encarnado na pessoa do conde de Braga, coroado rei Dom João IV, o Restaurador da independência de Portugal, em 1º de dezembro de 1640.

Com a morte de Dom João IV, em 1656, o Padre Antônio Vieira, no Pará, retoma o movimento profético de Bandarra anunciando o Quinto império, em carta secreta chamada As esperanças de Portugal, na qual se cruzam a ideologia sebastinista e a teoria do rabino português de Amesterdã, Menassé ben Israel, no livro As esperanças de Israel, dizendo este que os índios americanos são descendentes das tribo perdidas do Cativeiro da Babilônia. Na verdade, a prodigiosa imaginação barroca do "paiaçu dos índios" encobria reais preocupações econômicas que não estão longe das ideias humanitárias do calvinista Guillerme de Uselinx; a fim de remediar as combalidas finanças de Portugal e garantir a independência da monarquia lusa.

Na Amazônia portuguesa, romper a linha de Tordesilhas e conquistar o Rio Babel das "almazonas" era necessidade vital de afastar da grande artéria entre o Peru e o Atlântico o concorrente Herege (numa palavra, holandês). Além do mais, a vinda do missionária fora uma espécie de penitência por causa do "papel forte" (conselho ao rei para entregar Pernambuco a Holanda em troca do reconhecimento da independência de Portugal). 

Mas, Tordesilhas pesava nas relações entre Lisboa e Madri. Era uma espécie de espada de Dâmocles sobre o trono português. Uma linha imaginária passando sobre Laguna, em Santa Catarina, ao sul e Belém do Pará ao norte, tangente à ilha do Marajó: daqui a oeste deixaria toda Amazônia no domínio espanhol. Por isto, em 1498, o rei de Portugal, Dom Manuel I, mandou o cosmógrafo Duarte Pacheco Pereira que fora conselheiro dos negociadores portugueses em Tordesilhas (1494) vir realizar observações "in loco" a fim de descobrir o Brasil - que estava achado e guardado em segredo -, para efeito da navegação do caminho oriental das Índias.

O cosmógrafo português fez um manuscrito reivindicando recompensa por serviços prestados à Coroa, com título de Esmeraldo Situ Orbis, no qual relata lugares por ele visitados durante a missão de observação astronômica e mapeamento para fins de segurança dos achados lusitanos ultramarinos. Sobre a parte que viria a ser o "descobrimento" (no sentido de revelar o que antes fora achado) do Brasil ele escreveu, no segundo capítulo da primeira parte da obra, trecho indicativo da região que hoje corresponderia ao norte brasileiro, nos confins entre o quinhão de Portugal e o de Castela, segundo o tratado:
"Como no terceiro ano de vosso reinado do ano de Nosso Senhor de mil quatrocentos e noventa e oito, donde nos vossa Alteza mandou descobrir a parte ocidental, passando além a grandeza do mar Oceano, onde é achada e navegada uma tam grande terra firme, com muitas e grandes ilhas adjacentes a ela e é grandemente povoada. Tanto se dilata sua grandeza e corre com muita longura, que de uma arte nem da outra não foi visto nem sabido o fim e cabo dela. É achado nela muito e fino brasil com outras muitas cousas de que os navios nestes Reinos vem grandemente povoados."
 Aí também o piloto e sócio de Colombo, Vicente Yañez Pinzón, chegou em janeiro de 1500 quando Pedro Álvares Cabral ainda não havia feito o descobrimento e marcado a terra com o padrão de Portugal em sua viagem a Índia. Cumpre observar que o interesse do Brasil era só a faixa costeira como escala da chamada "carreira da Índia" e o potencial de pau-de-tinta vermelha, semelhante ao cobiçado mineral brazyl antes extraído pelos irlandeses e comercializado na Europa por mercadores fenícios. 

Os confins amazônicos, então, nasceram sob signo de uma ultraperiferização: periferia da periferia tordesilhana, que era o nordeste brasileiro costeiro. Antes, para vir finalmente ao periclitante comércio das Guianas até nossos dias, convém reter na memória as causas econômicas e políticas que levaram a República Marítima de Veneza a investir na chamada escola de Sagres em busca da rota marítima para as Índias e, posteriormente, o nascimento do fenômeno cristão-novo decorrente da Reconquista e do descobrimento da América. 

A queda de Constantinopla para os turcos, em 1453, fez com que mercadores de Veneza se voltassem para Portugal devido sua situação geográfica e seus marinheiros afeitos à pesca de alto mar até terras distantes do bacalhau. Os capitais que floresceram em Veneza se deslocaram a outras praças assim que o comércio do Atlântico, com os descobrimentos marítimos, entrou em cena e o comércio do Mediterrâneo em decadência.
O acordo luso-castelhano, homologado pela igreja romana, desagradou a todos mais reinos da Europa, principalmente a França, cujo rei Francisco I, protestou contra o que ele chamou de "testamento de Adão". E, inclusive, a própria corte portuguesa sentiu-se esbulhada diante do poderio de Castela beneficiada do golpe de Colombo, que aparentemente sabedor da espionagem recíproca entre Lisboa e Madri e das explorações náuticas baseadas antes na ilha da Madeira do que da famosa Sagres; pretendeu passar à frente de todos navegando para ocidente: ora, os cartógrafos de Dom Manuel estavam avisados do sucesso da viagem de Vasco da Gama... Todavia, mesmo assim, a "linha" de Tordesilhas perdurou de 1494 até 1759, sem jamais ter sido determinada no terreno nem sendo respeitada pelo inferiorizado Portugal, sobretudo após a morte de Dom Sebastião em sua aventura suicida no Marrocos, que levou ao domínio da Espanha durante a União Ibérica (1580-1640).

Apesar de tudo, à sombra de Tordesilhas Portugal conheceu o apogeu comercial do chamado período Manuelino contando inclusive com o concurso italiano próximo da elite de Lisboa e a França contestatória da hegemonia ibérica passaria a favorecer corsários e flibusteiros sempre dispostos a saquear e pilhar, como os piratas do Caribe amparados pela Inglaterra.

Nada disto, todavia, é comparável ao monstruoso genocídio ameríndio e cativeiro africano nas Américas que viria a seguir ao Descobrimento. A história da infâmia foi escrita com sangue, suor e lágrimas dos bárbaros vencidos pela santa aliança entre o Trono e o Altar. Quando as caravelas de Colombo fundearam no Caribe já de muito tempo a canuá com vela de jupati (fibra de palmeira Rhapis excelsa) singrava o mar das Caraíbas e vagarosas ubás circulavam pelos rios do Novo Mundo que era velho e povoado há uns dez mil anos. Do choque cultural da colonização a caravela (igara), ela mesma uma poderosa inovação da velha vela mediterrânea quadrada para a vela latina triangular;

A Corrente Equatorial Marítima é resultado físico do movimento de rotação da Terra, fazendo com que as bacias marítimas dos dois hemisférios do oceano Atlântico girem em sentido horário no Norte e em sentido anti-horário no Sul. Na zona intermediária, sob o equador, as chamadas "calmarias" dos nautas lusitanos ou "zona tórrida" das Antípodas; conforme as variações do eixo terrestre nas quatro estações do ano; oscila vasta massa de águas superficiais vindas do norte através das Canárias e do sul, em sentido contrário, pela contracosta da África ocidental até cerca do Cabo Verde donde se forma a dita corrente equatorial. 

Diante da costa norte brasileira, pela altura da região do Salgado Paraense; a corrente equatorial se divide na Corrente Brasileira até o extremo-sul retornando para o nascente. Este fenômeno geográfico teve enorme efeito histórico para descobrimento do Caminho Marítimo das Índias permitindo dobrar o Cabo das Tormentas, depois da Boa Esperança (África do Sul) para penetrar o oceano Índico.

Para o norte a repartição do movimento das águas - rio salgado correndo dentro do Mar - cria a Corrente das Guianas, irmã siamesa da Corrente Brasileira. Fontes generosas de cardumes, mangues, dunas, mariscos e aves aquáticas: mas, principalmente, de alimentos de populações tradicionais que vêm de um passado remoto de pelos menos cinco mil anos de nomadismo em busca da pesca e coleta de mariscos.

A magnífica Corrente das Guianas se caracteriza ademais por incorporar o gigantesco mar de água doce da bacia amazônica que sai mar afora pelo golfão marajoara empurrando o oceano a milhas distante da costa na Amazônia Azul. A riqueza pesqueira destas águas barrentas constitui na vida destes povos das águas um atrativo extraordinário. Para o Salgado Paraense, aquém da ponta da Tijioca ou Tijoca (ilha dos Guará, Curuçá) o Cabo do Norte tem fascínio particular nas comunidades de pescadores. Como se sabe, a Tijioca é o extremo sul da foz do Rio Pará oposto à ponta do Maguari, na margem ocidental da foz, na ilha do Marajó. 

O Rio Pará, entretanto, é o braço sul do rio Amazonas. Ou, para alguns geógrafos, estuário do rio Tocantins. De todo modo, a bacia amazônica tem um extraordinário valor para a biosfera e seu bioma, no que já se convenciona chamar a Amazônia Marajoara; corresponde a um complexo delta-estuário que deu nascimento à primeira cultura complexa (cacicado) da Amazônia. Aqui, a Floresta Amazônica e o Mar Territorial se confundem, sobretudo, na faixa de transição de várzeas, campos alagados e mangais por forças da maré. O Cabo do Norte (Amapá), Marajó e Baixo Amazonas formam a Guiana Paraense para a qual a Corrente das Guianas tem função essencial desde sempre. A largura total da boca do Amazonas vai da dita ponta de Tijioca até o Cabo do Norte, rumo à costa brava.

O descobrimento da América, como se sabe, estremeceu toda Europa: a velha cristandade na Península Ibérica vinha de expulsar os árabes e os judeus com o fim da Reconquista a cabo de quinhentos anos de guerra. Inimizado com os mulçumanos e endividado com o judaísmo; o cristianismo viu no comércio das Índias a tábua de salvação. Eis o contexto histórico do "testamento de Adão" (tratado de Tordesilhas, assinado em 1494 e revogado em 1750) sob bênção do papa espanhol Alexandre VI.

Por aí navegaram lendas gregas e fenícias, assim que a história do imperador negro Abu Bakari II e sua flotilha de caiaques no ciclo da teoria do segredo dos descobrimentos marítimos. Nossas Guianas tem história o que lhes falta é memória.

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(1) nome que, na Guiana francesa, é dada a embarcações regionais em madeira procedentes do Amapá e Pará, geralmente empregadas no transporte de contrabando ou de imigrantes clandestinos. Será talvez um nome crioulo derivado do tupi "tapuia" através do português.