sábado, 25 de maio de 2013

AMAZONIDADE DAS NOSSAS GUIANAS (4)


Pico da Neblina, serra Imeri, norte do Estado do Amazonas, fronteira do Brasil com a Venezuela, ponto mais alto do Brasil (3.014 metros de altitude). Deu nome ao Parque Nacional do Pico da Neblina.

Um monumento natural à bravura dos demarcadores de limites internacionais da América do Sul. Divisor de águas da história das demarcações de nossa fronteiras desde o tratado luso-espanhol de 1750. Ou , mais cedo, a partir da viagem secreta do cosmógrafo português Duarte Pacheco Pereira ao Rio Pará, em 1498, a fim de efetuar observações astronômicas acerca da linha de limites do tratado de Tordesilhas (1494) substituído que foi pelo tratado de Madrí (1750).


tributo a Robert Marigard


estranho norte onde o Brasil começa delimitado com a cara e a coragem de "suraras" e seus incríveis guias-mateiros. A levar demarcadores das fronteiras dos países amazônico a saber de fato onde começa e termina o território de cada nação. Para finalmente aproximar, integrar e consolidar desde sempre a Pátria grande de todos povos sul-americanos.
 
No jargão de acampamento de demarcação de limites de fronteira, a palavra "surara" significa trabalhador braçal da dura lida de transportar sobre as costas o jamaxi (apetrecho de carga dos índios) para levar até lugares extremos da fronteira, onde nem burro ou jumento pode ir, aparelhos de medição e suprimentos de sobrevivência. Herança da língua-geral amazônica ou Nheengatu para palavra 'soldado'. A diplomacia da República brasileira, com mais de dez mil quilômetros de fronteira, superou galhardamente antigas questões de limites herdadas do conflito ibérico e da disputa colonial em torno do célebre "testamento de Adão" transportando guerras do velho mundo ao novo continente criando malquerenças do império do Brazil com seus vizinhos.

Por isto a História do Brasil é generosa com o Barão do Rio Branco tendo atado ao seu nome nobiliárquico o conhecido rio que banha o Estado de Roraima e a capital do Estado do Acre. Todavia, ainda falta fazer elogio do diplomata e abolicionista Joaquim Nabuco, que "perdeu" contra a rainha dos mares Inglaterra a chamada Questão do Pirara, mas defendeu com nobreza a memória do herói indígena brasileiro Ajuricaba dos Manaus da acusação de traficante de escravos para a colônia inglesa do Essequibo... 

A imagem do índio amazônico com seus usos e costumes é inseparável da demarcação dos limites dos países amazônicos. Portanto, seria justo que o cume da serra Imeri e o parque nacional existente no divisor de águas Amazonas-Orinoco conhecidos como Pico da Neblina fossem chamados Ajuricaba em homenagem aos índios de fronteira e do "surara" desconhecido seu descendente; indispensável guia das grandes expedições científicas e trabalhador das demarcações de limites da fronteira setentrional brasileira.

Ajuricaba é por excelência o herói amazônico anti-escravagista que mais se destacou na luta contra o colonizador e fez o bom combate dando a própria vida contra as "tropas de resgate" (caçadores de escravos) que infestavam o Rio Negro alimentadas por Lisboa no reino das "Almazonas" (como dizia o Padre Antônio Vieira). Os antigos Manaus rebeldes ao colonialismo foram guardiãos da fronteira Norte, como também muitos outros em diversos pontos do imenso território das Guianas. Com exemplo de seus parentes "Nheengaíbas" (Marajoaras) que, nas primeiras décadas do século 18, tinham por referência no Pará a figura de Guamá, cacique dos Aruã e Mexiana dos Marajós; acusado de bandoleiro por ainda sustentar a velha guerra, provavelmente começada pelo Bom selvagem tupinambá antes mesmo de Pinzón, em janeiro de 1500, sequestrar os primeiros 36 negros da terra (escravos indígenas) da ilha Marinatambalo [Marajó].

Pela guerra e a paz das regiões amazônicas índios, mamelucos e mocambeiros tornaram-se soldados de fronteira. E a palavra portuguesa 'soldado' acabou por se transformar na boca de índios em contato com as turmas de demarcação de fronteiras, através do Nheengatu, no substantivo surara aplicado ao indispensável carregador do serviço demarcatório. Sem dúvida nenhuma, pode-se dizer que o surara é descendente daquelas tropas mamelucas do Nordeste brasileiro recrutadas entre filhos de índias tupinambá com aventureiros portugueses. Na Amazônia conquistada, o mestiço brasileiro foi proletário tapuio (índio manso) ou caboco donde sairam os demarcadores suraras para os mais árduos trabalhos de demarcação das raias amazônicas. Sem suraras e mateiros a geografia das regiões extremas da Amazônia ainda estaria no mato sem cachorro, vista de longe a bordo de avião. Então, na floresta amazônica, seria justo considerar o Pico da Neblina como monumento natural ao surara desconhecido, como justificadamente se fizeram monumentos nas cidades à memória do soldado desconhecido.

Quando se trata de mapear as Guianas na consciência das nações unidas da América do Sul e do Caribe é justo rememorar a luta anti-escravagista de Ajuricada e a diplomacia libertária de Joaquim Nabuco dando vivas a todos suraras das fronteiras amazônicas. Como o soldado comum desconhece as razões da guerra entre as nações, mas sem ele não há vitória possível; assim também um surara não sabe nada do que reza a linha invisível a ser materializada no terreno e da letra dos tratados de limites que a delimitaram no mapa das negociações diplomáticas. Entretanto, sem surara no serviço das demarcações de limites não poderia o técnico com seu teodolito, avô do moderno GPS; chegar no ponto exato onde erigir o marco de limites. Marco este de apoio material cartográfico à linha binacional reconhecida em conferência das comissões mistas. Aqui estamos nós a dizer que cada marco de fronteira deve ser uma lembrança do surara desconhecido da integração sul-americana como o Pico da Neblina deveria ser o monumento natural de toda história das demarcações de fronteira na Amazônia.

Na Guiana paraense o município de Óbidos (antiga aldeia de Pauxis) é capital brasileira dos suraras, com lembrança do forte Gurjão, na Serra da Escama. Por acaso, também a porta memorial pela qual o mocambo Maravilha subiu os rios da história do Curuá, Cuminá e Trombetas em busca de liberdade dos escravos no coração da grande "ilha" das Guianas, onde se acha o divisor de águas das fronteiras sobre as serras além das cachoeiras. 

Conforme mestre Vicente Salles, em "O Negro no Pará", quando o presidente cabano da revolução de 1835, Eduardo Nogueira Angelim cometeu o grande crime e erro fatal ao mandar fuzilar escravos acusados de matar seus senhores em meio à convulsão dos primeiros dias de combate; logo ao primeiro tiro estava morta a maior revolução popular da Amazônia. O valente cearense da revolução paraense suicidou-se, politicamente, naquela hora em que ele renegou todo heroísmo. Então, os negros cabanos traídos à semelhança dos negros gaúchos de Porongos na Farroupilha contemporânea à Cabanagem; abandonaram as trincheiras de Belém sitiada pelas forças imperiais baseadas na ilha de Tatuoca e bloqueada através das ilhas do Guajará.

A tentativa mal pensada do governo revolucionário cabano em se conciliar com o regime escravocrata do Rio de Janeiro custou o genocídio amazônico. Quando tropas ensandecidas do Barão de Caçapava tiradas das prisões de Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará foram obrigadas a matar sem misericórdia a paraenses para receber o infame soldo. Pois, sem rosários de orelhas secas cortadas aos cabanos; melhor seria o soldado frouxo fugir pelos matos como os rebeldes em fuga desordenada cometendo violências rio acima para sobreviver pelas matas... Este crime de guerra cometido pelo general Andrea Soares na Amazônia durante à repressão à Cabanagem, longe de se comparar à negociação do Duque de Caxias com chefes Farroupilhas, ficou sendo uma covardia histórica e espinho cravado na carne da história do povo paraense. Cuja origem remonta ao fingimento português nas tratativas com o mercenário inglês para o simulacro de adesão à independência do Brasil, de 15 de agosto de 1823 em Belém, contra o temerário heroísmo paraense de 28 de Maio em Muaná; levando diretamente à tragédia do Brigue Palhaço e desengano do povo quando às verdadeiras intenções do Império brasileiro em relação ao povo do Pará.



cartas de Caiena e papelinhos incendiários semeiam a República cabana

Ora, a Revolução Haitiana (1791-1804) cria dileta da marronagem do Caribe juntando negros e índios escravos nos quilombos; contaminou - no dizer dos historiadores, principalmente Pasquale Di Paolo - a tropa paraense mandada ocupar Caiena, de 1809 a 1817. Com a invasão da Guiana francesa, frei Francisco Luiz Zagallo aproveitou para atravessar a fronteira do Pará com a propaganda republicana na bagagem e logo o frade irritou com sua pregação os senhores da província e foi recambiado de volta para não subverter a ordem escravista vigente. Belém se mantivera de pé durante dois séculos graças a arcos e remos dos Tupinambá, e ao trabalho escravo: o Pará estava convertido na Babilônia amazônica sustentada principalmente pelo "ouro vermelho" do Rio Negro... 

Mas, a invasão preventiva de Caiena, temendo invasão de Belém por tropa napoleônica, foi tiro que saiu pela culatra e a ideia de abolição do longo cativeiro estava plantada e os "papelinhos incendiários" e notícias ou cartas de Caiena mandadas por soldados paraenses a suas famílias, notadamente no Amapá e Marajó por portadores confiáveis através da pesca no Cabo do Norte que sempre existiu deste o tempo dos índios; preparavam os espíritos para os eventos que viriam no futuro imediato. 

A pregação liberal do primeiro jornalista da Amazônia, Felipe Patroni; e a ação nacionalista do Cônego Batista Campos, partidário de Frei Caneca no movimento federalista da Confederação do Equador; iriam servir de fermento da Cabanagem em gestação acusada de separatista pela historiografia imperial consagrada pelo Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB), em realidade a revolução paraense foi anti-escravagista e republicana. Logo, fica claro nos dias de hoje, a razão pela qual Caxias no Rio Grande do Sul foi pacificador, enquanto Caçapava no Pará foi exterminador. O dantesco cenário do triunfo do Império na Amazônia na "pax" do Pará cabano: 40 mil mortos numa população de apenas 100 mil almas!

Deste troço de gente desarvorada, dizimada e refugiada pelos sertões de Óbidos - terra dos Pauxis - adentro foi parido o mocambo Maravilha, na lição de Vicente Salles, fênix quilombola protegida pelos orixás e a densa Floresta Amazônica voando à frente de ferozes capitães do mato e suas matilhas assassinas vindas de Santarém. Um dia o mocambo estava aqui e amanhã acolá adiante... Alertados por "judeus" (libaneses) em regatões que compravam e vendiam mercadorias de contrabando em escambo de drogas do sertão, como bem nos ensinou mestre Samuca (Samuel Benchimol). Índios comparsas alertavam os pretos a queimar depressa o tapiri e subir mais e mais para fazer outro mais distante e escondido... Esta maravilha de luta guerrilheira nas selvas das Guianas quer sugerir, talvez, um antigo segredo africano de alguma gente capturada na África meridional às margens do grande lago Malawi. O qual a cabo do colonialismo europeu hoje é país independente vizinho de Moçambique e aqui uma lembrança perdida da história da Cabanagem... 

No coração das Guianas a palavra portuguesa "soldado" virou "surara". Poderá talvez, pelo mesmo princípio do papiamento, o africano Malawi ter dado nome de Maravi ao mocambo volante que finalmente ao ouvido dos regatões virou Maravilha. Será? Quando a história perde o norte e se extravia a prosapoesia dos mocambos corre a descobrir outros caminhos de libertação e a inventar novos rumos...

O certo é que esta extraordinária escola da marronagem fez da fronteira do Pará com o Suriname um enorme quilombo com notável contribuição ao Papiamento até nas Antilhas holandesas (Curaçao, Aruba e Bonaire). Daí também índios, mocambeiros e cabocos mateiros fariam os melhores "suraras" das demarcações de limites. Sem eles, por exemplo, os exploradores da floresta e aviadores poderiam ver de longe o Pico da Neblina sem jamais por os pés na serra Imeri e, muito menos, as mãos sobre ela nas alturas do Planalto das Guianas para saber quantos metros tem aquele altaneiro cume acima do mar.


notícia póstuma do Palácio dos Demarcadores

Se a conquista da América começou pelos espanhóis no Caribe escravizando índios das ilhas; os portugueses não fizeram menos dano às populações indígenas da Amazônia, notadamente do Rio Negro onde teve início a primeira tentativa de demarcação de limites entre as colônias portuguesa e espanhola em região amazônica. 

Para este extraordinário feito que reclama filme de epopeia, o Governador General e Demarcador Francisco Xavier de Mendonça Furtado; subiu o rio Amazonas e foi instalar o Palácio dos Demarcadores em Barcelos, primeira capital da província do Amazonas; onde ele logo tratou de apagar o nome da aldeia Mariuá. Prenúncio do que viria em seguida até expulsão dos Jesuítas. Mais tarde, a capital amazonense passaria da decadente Barcelos com seu palácio arruinado para a florescente Manaus na barra do Rio Negro, terra de Ajuricaba, a maior cidade do planalto das Guianas ou escudo Guianês numa região do relevo geográfico do norte da América do Sul localizada ao norte da planície Amazônica. 

Conforme já foi escrito neste despretensioso blogue, as Guianas se acham umbilicalmente ligadas ao Caribe ou Antilhas, desde tempos pré-colombianos, através do interflúvio formado pelo Rio Negro, canal de Cassiquiare e rio Orinoco mais a travessia marítima entre Delta Amacuro e a ilha de Trinidad (República de Trinidad eTobago). Hoje ferrovias, rodovias e aviões ligam diversas regiões do mundo à rosa-dos-ventos, mas as regiões amazônicas e caribenhas são essencialmente habitadas por povos das águas. Portanto, a água, mais que qualquer outro elemento da natureza será sempre o meio preferencial de comunicação desta gente do norte sul-americano.

Pátria mítica de Macunaíma e do El-Dorado, o escudo guianês se prolonga do Brasil a Venezuela e às mais Guianas. A região de cordilheira forma o divisor de águas das bacias do Amazonas e do Orinoco, que faz fronteira entre cinco países amazônicos entre nove (Brasil, Venezuela, Guiana, Suriname e Guiana francesa). Pequena parte do planalto chega até ao território da Colômbia. De oeste a leste, a cordilheira guianense é formada pelas serras Imeri ou Tapirapecó, Parima, Pacaraima, Acaraí e Tumucumaque onde se encontram os pontos mais altos do Brasil, como o pico na Neblina no extremo norte do Estado do Amazonas. Trata-se de formação geológica da era pré-cambriana, das mais antigas da Terra. O escudo das Guianas tem configuração insular circunscrito pela costa marítima, o rio Amazonas, Rio Negro, canal de Cassiquiare e rio Orinoco. 

Além da capital do Estado do Amazonas, a Guiana brasileira conta com as capitais do Estado de Roraima, Boa Vista; e a do Estado do Amapá, Macapá. Já a Guiana venezuela tem três capitais estaduais: Puerto Ayacucho (Estado Amazonas), Ciudad Bolívar (Estado de Bolivar) e Tucupita (Estado de Delta Amacuro). A República Cooperativista da Guiana tem Georgetown como capital; o Suriname, a cidade de Paramaribo; e a Região da Guiana francesa, Caiena. Somam, portanto, sete capitais estaduais as Guianas. O Estado do Pará, fazendo parte das Guianas, através do Marajó (dezesseis cidades e municípios) e do Baixo Amazonas (com importantes cidades na região guianense, como Almeirim, Monte Alegre, Alenquer, Óbidos e Oriximiná e outras menores).

Tal povoamento tem histórico com as mais antigas aldeias indígenas das Guianas, a colonização europeia; a importação de escravos vindos da África e a imigração. Enquanto colonos europeus se fixavam principalmente nas cidades costeiras, a população indígena, em maior parte, permanecia no interior onde pouco a pouco a colonização os empurrava e os brancos introduziam negros escravos para exploração de terras de fazenda, engenho de açúcar e aguardente; ou extração de cacau, borracha, castanha, pau-rosa, piassava, madeira, etc.

A partir do litoral negros escravos não esperaram que se lhes dessem a liberdade perdida na distante África donde foram vendidos, como José do Egito, pelos próprios irmãos. Como dizia o padre Cícero Romão Batista nos embates sertanejos da Caatinga, "Deus é grande, mas o mato é maior"... E o caminho do mato foi salvação para índios e negros, durante a grande marronagem que teve início nas Antilhas, promoveu a revolução e independência do Haiti e tornou o coração das Guianas um imenso mocambo (quilombo).

Sabemos como as brigas eternas da França com a Inglaterra acabaram, durante o império de Napoleão, obrigando a família real de Portugal a se refugiar no Brasil (1808). A vingança do príncipe regente (a rainha mãe Dona Maria I estava louca) ao chegar ao Rio de Janeiro foi mandar invadir e ocupar a Guiana francesa. Com que meios? A corte portuguesa estava mal e porcamente instalada numa capital que tinha acabado de ser transferida de Salvador (Bahia). Caiena era mais longe e isolada de Belém do Pará do que é hoje... Na verdade, o exilado reino de Portugal na América, mais que antes na Europa; estava convertido num vasto e desconhecido protetorado inglês. 

O comando da tropa de ocupação de Caiena (1809-1819) era, figuradamente, português. Todavia, para os fins práticos da operação militar oficiais ingleses é que davam as ordens. E isto havia um propósito não revelado pela parte dos ingleses: o governador da Guiana francesa, Victor Hugues; no passado ainda recente, foi governador da Guadalupe quando, à frente de um exército de libertos e indígenas, tomou dos ingleses a ilha e mandou passar pela guilhotina um sem número de colonos inimigos da revolução... Caso os ingleses o aprisionassem, certamente, o governador francês não escaparia à forca. Mas, a tropa anglo-portuguesa foi recrutada no Pará entre o que estava mais à mão e não poderia deixar desguarnecida a praça de Belém. Portanto, não há exagero em dizer que os paraenses da ocupação de Caiena eram negros forros, índios catequizados e nordestinos de costume.

o Século das Luzes extraviado na primeira noite do mundo

Como se sabe, Victor Hugues virou personagem do romance "O Século das Luzes" do cubano Alejo Carpentier. Segundo historiadores franceses foi vergonhosa a rendição do governador de Caiena, após curta refrega, com a tropa de invasão. Entretanto, a revolução francesa de 1789 não tivera grande impacto na Guiana e além disto Napoleão Bonaparte havia determinado a volta do regime escravagista à agora Amazônia francesa... A sombra da revolução hatiana, certamente, pesava sobre o imaginário da população escrava guianense. Poderia o governador da colônia contar com a lealdade da população humilhada em semelhante situação? Uma tropa de ocupação com soldados paraenses não levaria fatalmente os dois lados a se identificar um com o outro? Contam à margem da história oficial que a partida da tropa paraense, em 1817, teria deixado saudades na sociedade crioula. Um elemento entre outros mais antigos que habita o lendário do casamento entre o príncipe Caienne e a princesa Belem, filhos do rei Ceperu e do rei Brasil, no folclore guianense... 

De maneira objetiva a rendição francesa em Caiena, em 1809, teria tido por motivo acontecimentos passados na ilha da Guadalupe. Onde Victor Hugues foi governador e fez funcionar a guilhotina republicana contra colonos ingleses e monarquistas franceses. Assim, temendo ser morto ali mesmo pelo comando inglês o governador colonial teria se apressado em entregar-se diretamente em mãos do comandante português, tenente-coronel Manoel Marques, que lhe poupou a vida e permitiu retirar-se para a França. Levado a julgamento em Paris por crime de traição Victor Hugues foi inocentado da acusação na corte marcial e ao fim da ocupação (1817) voltou ao cargo de governador da Guiana francesa. Para finalmente, como simples cidadão, falecer naquela distante colônia ultramarina.

Nestas regiões de grandes rios e navegação costeira tradicional as fronteiras nem sempre servem para separar. Entre soldados paraenses da ocupação de Caiena - antepassados de suraras de Óbidos - muitos frequentavam a Guiana francesa muitos antes e praticavam antigas transações além do Cabo do Norte, em especial pescadores da Vigia, Curuçá e São Caetano na região do Salgado descendentes de tupinambás andejos. Do mesmo modo, na faixa de fronteiras do Rio Negro e do Branco a mistura fina das tribos deixou a sua parte, pelas margens da História, na construção da amazonidade profunda.

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