segunda-feira, 13 de maio de 2013

AMAZONIDADE DAS NOSSAS GUIANAS



AMAZONIDADE DAS NOSSAS GUIANAS

tributo a Robert Marigard

Robert Marigard, falecido em Caiena no último dia 8, veio ao mundo numa família extensa tipicamente crioula na comuna de Sinnamary, da Guiana francesa. Como Ciro Flamarion Cardoso, da Universidade Federal Fluminense, explica; a Guiana francesa é um espelho colonial onde todas Américas Latinas deveriam se mirar: "última colônia na Amazônia", paradoxalmente, a mais desenvolvida das regiões amazônicas.  

Edgar Morin devia estudar a Amazônia francesa. Ele já fez conferência em Belém e deve saber que complexidade habita o tempo da área cultural guianense - vasta faixa territorial fluvial e marítima reunindo a Amazônia e o Caribe através da travessia histórica e geográfica da ilha de Trinidad e Tobago ao Delta do Orinoco envolvendo as Guianas brasileira, venezuelana, Guiana (ex-inglesa), Suriname (ex-colônia holandesa) e francesa. A parte brasileira das Guianas inclui os estados amazônicos do Amapá, Amazonas, Pará (notadamente o arquipélago do Marajó) e Roraima; sendo de todas a que tem maior tamanho.

Por acaso, conheci Robert Marigard quando ele era diretor cultural da municipalidade de Caiena, estava encarregado de negociar um protocolo de geminação de Caiena com Salvador (Bahia). Eu exercia função de vice-cônsul e o cônsul me havia delegado entre outras tarefas os assuntos culturais. Minha alma de antropólogo e historiador amador havia no posto uma extraordinária oportunidade de se desemburrar: as três Guianas (República Cooperativista da Guiana, Suriname e Região Guiana) ainda eram, e continuam sendo em grande parte; uma franja litorânea caribenha dependente da Europa num denso enclave de Floresta Amazônica. Cada uma destas três Guianas se afigura uma ilha cercada pelo oceano Atlântico e a Floresta Amazônica dentro da grande "ilha" das Guianas, que se volta prioritariamente à bacia do Caribe.

Quem amazonizou as três Guianas caribenhas foram os imigrantes e garimpeiros clandestinos, através do Amapá, atraídos pela propaganda do El-Dorado durante a construção da base espacial de Kuru e o porto livre de Paramaribo revestido da legenda dos piratas do Caribe...

Não por acaso, a Guiana ex-inglesa faz parte da Organização do Tratado de Cooperação Amazônica (OTCA), que tem sede em Brasília; enquanto Georgetown é a sede da Comunidade do Caribe (CARICOM) com 14 paises e 6 territórios ultramarinos, somando 14 milhões de pessoas. A OTCA com 8 países e cerca de 25 milhões de habitantes, exclusivamente das respectivas regiões amazônicas somadas. Com exceção da Guiana francesa, que tem papel limitado apenas de observador do Tratado.

O diálogo entre o caboco marajoara e o crioulo guianense iniciado naquela manhã em Caiena, ano de 1986, iria contribuir na modelação do primeiro "Festival das Guianas" de Caiena e levar a uma amizade que duraria para sempre. Quando retornei definitivamente a Belém do Pará, em 1990, aquele trabalho modesto de construir a ponte cultural invísivel sobre o Oiapoque, que hoje se materializou na ponte de concreto que ainda não disse a que veio, perdurou. Nos últimos anos desde 14 de julho de 1998, quando me aposentei do serviço exterior, invariavelmente Robert Marigard com sua familia passava o Natal e Ano Novo em Belém e vinha a minha casa visitar-me. Suas conversas sempre cheias de humor e críticas inteligentes eram momentos pontilhados de erudição sem perder o saber popular, que somente uma boa "conversa de compadres" entre um crioulo e um caboco podem entreter.

Lembro que lhe indaguei por que Caiena queria estabelecer intercâmbio com a Bahia, quando o Maranhão - que fora francês - estaria mais próximo da Guiana. A resposta foi uma aula, sobretudo, sobre as raízes africanas do povoamento brasileiro. Aprendi que as Guianas são um tipo de "arca de Noé": as histórias diferentes e intercomplementares de diversas diásporas, que se somam não sem confronto e contradição às etnias ameríndias rivalizadas muito antes de Cristóvão Colombo... Lá, os mocambos ou quilombos não apenas são "neg marron", mas tem identidades diferentes Saramaka, Djuka, Paramaka... Os crioulos estão longe de ser uma "Créolité" homogênea...  Nestas linhas ligeiras estamos dando uma pálida ideia do que a Guiana francesa representa no conjunto das Amazônias face ao resto do mundo latino-americano. Dentre as várias iniciativas de Robert temos uma Semana de Cultura Guianense em Belém e o Festival Internacional de Jazz de Caiena.

Claro que o colonizador francês com seu estereótipo forjado no "Code Noir" (regulamento da escravidão) luta por reduzir a diversidade do microcosmo guianense a um descaracterizado denominador comum. E a crioulidade ainda que tenha ela um pacto federalizante, faz absoluta questão de guardar as suas diferenças e persiste em clivagens que dificultam a construção do sonhado país emancipado pela antiga elite crioula desde os tempos de Félix Eboue. Será isto bom ou ruim para as pretensões da elite guianense de hoje? Dialeticamente, líderes de direita e esquerda da Guiana francesa tomaram parte do governo francês, com Léon Bertrand, durante a presidência de Jacques Chirac; e ultimamente com Christiane Taubira na presidência do socialista François Holande. 

Esgrimindo oras as armas do independentismo e oras da autonomia relativa territorial, as regiões francesas das Antilhas e Guianas apresentam um "status quo" único na América Latina: que sendo elas politica e economicamente dependentes da Europa, se destacam todavia em relação a seus vizinhos da região "independentes" por elevado desenvolvimento socioambiental com o maior IDH latino-americano.

Dizer que este fato decorre somente pela astuta bondade da metrópole e o assistencialismo da União Europeia, por causa do Centro Espacial Europeu em Kuru; seria injusto. Em primeiro lugar, a figura tutelar do martiniquense Aimé Cesaire e do guianense que serviu na ONU,  Léon-Gontran Damas, dois dos chamados "País da Negritude" perdura sobre a intelectualidade crioula e orienta a ação política regional. Em evento em homenagem a Damas, ocorrido em Caiena, conheci o então senador brasileiro Abdias do Nascimento que acompanhou a viúva do poeta guianense, a carioca Marieta Campos Damas. Prova de que, malgrado a hiperperiferização das regiões periféricas de fronteira, sempre há brechas por onde a solidariedades dos povos se insinua tecendo a espiral evolutiva da História.

No norte do Brasil, pelo noticiário, as Guianas eram sinônimo de contrabando. Nada mais. Isto está mudando devagar; fui mandado servir no Consulado do Brasil em Caiena quando célebre programa do Globo Repórter na televisão, nos começos de 1985, revelou ao público brasileiro as condições humilhantes em que viviam imigrantes brasileiros numa favela em plena Caiena, que levava o nome de "Matinha" (tirado de semelhante situação de precariedade da Matinha, na periferia de Belém-PA). Antes deste arranhão o Itamaraty era elogiado até pela oposição. O Tratado de Cooperação Amazônica (TCA) era uma novidade e meu modesto conhecimento de fronteiras na Amazônia mais o fato de ser nativo da ilha do Marajó foi, naquele momento, fator predominante para ir auxiliar o novo cônsul removido apressadamente de Angola para a Guiana. 

Em entrevista com o chefe da divisão da América Meridional a fim de colher informações iniciais e orientação para o posto, disse-me ele francamente: "aquilo lá é um buraco negro"... Queria dizer que Brasilia ignorava o que estava passando na Guiana francesa. Portanto, extinto o antigo vice-consulado para dar lugar a jato a um novo consulado; este é que iria, a semelhança de uma sonda no espaço sideral, começar a transmitir imagens para a capital federal brasileira. No entanto, em 1974, uma operação de repatriamento em massa de brasileiros de Caiena, em navios da Marinha nacional, sob pressão do governo francês; tirou o brilho da diplomacia do Barão do Rio Branco. O que aconteceu? Que a fraca demografia francesa nas Antilhas e Guianas bateu lona na hora de recrutar trabalhadores da construção civil para obras da base espacial de Kuru.

Abriram-se as portas e aliciadores tipo gateiros atravessaram a fronteira para levar com facilidade levas de "sans papier" (indocumentados, que se tornaram indesejáveis e "clandestinos" logo após o fim das grandes obras). O historiador Flavio dos Santos Gomes, da Universidade Federal do Rio de Janeiro; que teve ajuda pessoal de Robert Marigard durante suas pesquisas na Guiana; comprova como as relações transfronteiriças sempre foram complicadas e tensas por causa de mão de obra escrava e, depois da Abolição; semi-escrava. O caso do contrabando é outro capítulo das contravenções que vem do passado distante da "Questão do Amapá", pouca gente em São Paulo lembrará que as primeiras sementes e mudas de café foram furtadas de Caiena, que por sua vez as furtou do Suriname... No Rio de Janeiro o Jardim Botânico conta ou deveria contar como plantas do "jardin du roi" aclimatadas em Caiena foram levadas ao Pará, durante a ocupação da Guiana francesa (1809-1817) antes de ser plantadas definitivamente na Quinta da Boa Vista.

DESCOBRINDO O OUTRO LADO DA FRONTEIRA   

As condições peculiares das regiões francesas na América - Guadalupe, Guiana, Martinica e Saint Martin - despertam escasso interesse no Brasil e, reciprocamente, na França metropolitana o norte do Brasil parece ser um vasto deserto verde vagamente conhecido como "Amazônia" cuja capital fica em Manaus... Que serviria agora descobrir o que a geografia esconde sob o negro manto colonial?

Em um mundo em crise social, econômica e ambiental a Amazônia parecer ser a última fronteira da Terra ou paraíso perdido. Mas, em realidade, esta região do planeta está numa encruzilhada. O caminho se bifurca entre o desenvolvimento sem fim, prometendo mais do mesmo e uma trilha ainda desconhecida com nome ambíguo de desenvolvimento sustentável.

A França é a última dentre ex-potências coloniais europeias a conservar território ultramarino na América do Sul. A ambiguidade da Região Guiana ou Amazônia francesa é notável. Resulta que a União Europeia e a zona do euro se apresentam na Amazônia causando desequilíbrios não só com relação ao norte do Brasil, mas também com as mais Guianas. Brasília e Paris buscam estabelecer ultimamente uma relação regional de fronteira mais audaciosa, estimulando também a cooperação descentralizada entre governos estaduais e municipalidades da região. A OTCA é uma instância multilateral que ensaia contemplar as Guianas dentro de perspectiva pragmática, a qual evidentemente dialoga com a CARICOM e a União Europeia.

Tal mudança de perspectiva teve a ver com iniciativa de representantes políticos guianenses, com apoio da maçonaria através do Grande Oriente da França, mediante a promoção de seminário sobre imigração clandestina e trabalho ilegal na Guiana francesa durante o governo de Michel Rocard. Daí resultou o relatório Bernard Des Gouttes, diplomata do Quai d'Orsay; seguido de conferência em Caiena com a presença do próprio primeiro-ministro e embaixadores da França em países latino-americanos sobre a abertura dos departamento ultramarinos franceses das Antilhas e Guiana em relação à América Latina, especialmente o norte do Brasil.

A engenharia diplomática de Brasília e Paris sobre as Guianas esbarra em dificuldades regionais e locais, além de notáveis complicações geopolíticas inerentes à integração da América do Sul e Caribe; bem como os conhecidos interesses da América do Norte e Europa no âmbito da OTAN. Assim é a globalização, que uma simples escola bilingue no Oiapoque, de repente, acaba implicando noutra coisa que uma aldeia Galibi nem desconfia. Mas, os cabocos brasileiros, crioulos guianenses, ameríndios e quilombolas o que têm a ver com isto?

Os presidentes Fernando Henrique Cardoso e Jacques Chirac fizeram aparição no Oiapoque discursaram e voltaram a Brasília e Paris para cuidar de coisas mais importantes. Lula e Sarkozi também foram lá, onde a França e o Brasil fazem fronteira; prometeram uma cooperação como nunca dantes. E, a passos de cágado, a ponte foi construída esperando agora pela inauguração oficial; enquanto Dilma e Holande resolvem a respeito de pontos mais complexos da pauta franco-brasileira e global.  

Nas comemoração dos 500 anos do descobrimento da América, o Papa em Santo Domingo – antigo QG da Conquista ocidental –, pediu o perdão de Índios e Negros aos crimes do Cristianismo ligados aos descobrimentos marítimos. Todavia, o gesto retórico de Sua Santidade ficou suspenso no ar e logo caiu no esquecimento midiático. O Caribe continuou com sua história de genocídios, revoluções e tragédias naturais ou políticas em contraste com o panorama explorado pelo turismo e paraísos fiscais.

Reiventando a Amazônia

Há 400 anos, no Maranhão e Grão-Pará, a improvável aliança entre arcos indígenas e armas lusitanas realizou o impossivel, misturando messianismo tupi com sebastianismo. Isto somente começou a ficar claro ultimamente com novos estudo da história do indianismo brasileiro, na década de 1980; fato que explica o “milagre” da invenção da Amazônia brasileira. A França e Portugal se confrontaram no Rio de Janeiro e no Maranhão, no Amapá aconteceu a última batalha, não mais pelas armas mas através da diplomacia. Precisaria chegar o século 21, para construir a ponte do Oiapoque e fazer a fronteira que separa começar, realmente, a aproximar as populações ribeirinhas. Descobrir o que estava no escuro no fundo de arquivos coloniais e na memória tradicional das ditas populações.

Tenho com apreço o romance "Atipa", de Alfred Parepou; que o amigo Robert me presenteou numa de suas costumeiras visitas de Natal. Trata-se da primeira obra literária impressa em língua crioula da Guiana francesa, com tema dos garimpos do rio Oiapoque em fins do século 19. Curiosamente, o título do romance corresponde ao popular peixe tamuatá do Ver O Peso, abundante na ilha do Marajó e muito consumido nas Guianas. Sendo apelido do personagem principal da obra, um garimpeiro crioulo. "Parepou" é pseudônimo do autor anônimo e, no Pará, a conhecida fruta pupunha estimadíssima na Guiana e vendida pelas ruas de Belém como iguaria popular. 

Enfim uma obra enigmática, cujo valor atual está no campo da linguística a despertar interesse em diversas universidades. Não tenho informação, entretanto, de que no Amapá ou Pará haja algum pesquisador universitário interessado na mesma. E a literatura comparativa entre regiões amazônicas resta a ser feita... Nosso poeta da negritude, Bruno de Menezes, e Dalcídio Jurandir são desconhecidos nas Antilhas e Guiana: mas, Jack Lang no Natal de 2005 se abalou de Paris via Guiana francesa para vir ao Marajó saber quem de fato era esse tal Dalcídio Jurandir de quem lhe haviam falado. Debaixo de chuva dos campos de Cachoeira para chegar a uma fazenda-hotel à beira do rio Camará, divisa intermunicipal de Cachoeira do Arari e Salvaterra; o ministro de Mitterrand telefonou - quase por milagre - a Gilberto Gil falando ele ao ministro brasileiro para tradução em francês da obra do romancista do Marajó. 

Se São Pedro safadinho nos embargou o passo em Salvaterra, impedindo a caravana de visitar o Museu do Marajó e a casa de Dalcídio em Cachoeira e, afinal de contas, o compositor baiano esqueceu o assunto para nunca mais, é parte da longa história destas fronteiras franco-brasileiras. Valeu a tentativa. E Robert foi mais longe e determinado que o famoso ministro Lang, ao chegar com professores e alunos de escola da sua Sinnamary natal, numa operação de "classe de descoberta" em Ponta de Pedras, por sua vez terra natal do dito "índio sutil" Dalcídio, assim chamado pelo baiano Jorge Amado... 

Na Amazônia brasileira tivemos 44 anos de guerra colonial lusa começada sob pavilhão da União Ibérica (1580-1640) terminada na restauração da monarquia de Portugal contra concorrentes Hereges. A cruzada entre Reforma versus Contra-Reforma abaixo do equador, desde a tomada da França Equinocial (Maranhão) do colonial huguenote Daniel de La Touche, em 1615, até destruição de feitorias holandesas e britânicas no Amapá, Marajó, Xingu e Baixo-Amazonas, de 1623 a 1647, para finalmente concluir a pacificação dos bravos Nheengaíbas (marajoaras), em 1659. 

Sem estas preliminares, incluindo a entrada de Pedro Teixeira, levado são e salvo pelos mamelucos Bento de Oliveira e Bento da Costa com 1200 índios Tupinambás de arco e remo, do Pará ao Equador, de 1637-1639; hoje não estávamos nós a contar história. Além disto, foi preciso o longo passado nativo de 5000 anos. Cujo apogeu foi a Cultura Marajoara (400 – 1300) tendo o Circum-Caribe como contexto de uma ecocivilização que se acha viva na cultura popular da Amazônia e Antilhas.


A velha 'canuá' tecendo rede de aldeias ribeirinhas


A canoagem e a venerável vela de jupati foram meio ancestrais de comunicação e trocas de produtos entre milhares de aldeias do Rio Negro ao Pará; do Orinoco ao mar das Caraíbas. Doravante, canoagem e vela poderão ser um poderoso instrumento esportivo e indústria ligados à educação ambiental, à cultura e desenvolvimento territorial sustentável das populações tradicionais das regiões e províncias em harmonia com as respectivas sociedades nacionais. 

O programa da UNESCO “O Homem e a Biosfera” (MaB na sigla em inglês) poderia, em abordagem assim, tirar proveito para obter o impacto necessário ainda não alcançado junto a países-membros e perante a opinião pública mundial, notadamente na conservação socioambiental do litoral marítimo, com seus berçarios de vida aquática e de ninhais de aves migratórias em zonas úmidas.

Era uma vez a grande área ecocultural guianense, de Trinidad e Tobago ao arquipélago do Marajó... Ciro Flamarion Cardoso, autor de “Economia e sociedade em áreas coloniais periféricas, Guiana Francesa e Pará, 1750-1817”, Rio de Janeiro: Graal, 1984; ensina que fronteiras definidas por rios e outros cursos de água, longe de separar aproximam e integram comunidades confinantes. 

Não significa que populações vizinhas vivam em boa paz, se olharmos a foz do Amazonas iremos nos deparar com um estado de guerra permanente, antes e depois da presença dos europeus na região. Ainda hoje existem conflitos entre comunidades de vizinhança e certamente irão sempre existir. Todavia, a integração e cooperação regional possibilita a solução de conflitos de maneira mais justa e satifatória para todas partes envolvidas.
Esta experiência de convivência entre etnias diversas, pela guerra e a paz, correu ao longo do tempo em toda Amazônia, conforme Gastão Cruls observou. Com base em antigas migrações indígenas pré-colombianas e, posteriormente, negros africanos formando quilombos em resistência à escravidão, Flamarion Cardoso pôde detectar relações históricas e geográficas numa vasta área sul-americana indo do Marajó (Pará) e Baixo-Amazonas até a ilha de Trinidad, no Caribe. 

Configurou-se assim a grande “ilha” das Guianas, condomínio amazônico compartilhado pelo Brasil, Venezuela, Guiana, Suriname e região francesa da Guiana. O geógrafo Elisee Reclus teria sido o primeiro ou um dos primeiros a constatar o caráter insular das Guianas, pelo efeito tardivamente estudado, da interligação fluvial do Rio Negro ao Orinoco através do Canal do Cassiquiare (“rio do cacique”, em língua de tronco Aruak). O brasileiro Raja Gabaglia também demonstrou a peculiar conformação geográfica das Guianas ao escrever sobre a “grande oval insular” circundada pelas águas do Amazonas, Rio Negro, Canal de Cassiquiari, Orinoco e oceano Atlântico.


Naturalmente, há milhares de anos, o espaço guianense junto ao Circum-Caribe foi uma babel de línguas e culturas ameríndias que deu início à civilização das terras baixas do Novo Mundo até nosso dias. Na ilha do Marajó ocorreu a primeira cultura complexa, tipo cacicado, na Amazônia cerca do ano 400 da era cristã. A destruição das Índias ocidentais pela conquista e colonização europeia deu fim a esta diversidade humana e cultural reduzindo-a drasticamente. Começou-se, então, a falar de "espaço vazio", quando se trata de espaço esvaziado...
 
Até aí o caminho das águas como elemento de integração e cooperação. A poluição de rios, lagos, mares e oceanos era impensável. Mormente a excassez de água potável. Porém a mudança de paradigma produtivo, com a hegemonia rodoviária e aeroportuária desviou o olhar do mundo do fato natural mais evidente: que somos, tal como o planeta Terra, sessenta por cento de água.


Caminhos da integração: passado e futuro


A partilha das Américas pelas potências europeias, após o Descobrimento, introduziu fronteiras coloniais à revelia das populações nativas. Todavia não necessariamente totalmente prejudiciais a elas, visto que em certos casos os limites adotados pelas cortes imperiais eram decorrência de alianças e adesões de povos ameríndios na sucessão dos acontecimentos da época. 

Os grupos indígenas, nas circunstâncias, jogavam o jogo: aliavam-se oras a um grupo de colonos ou outro, conforme interesses e rivalidades locais explorados pelos colonizadores. Foi assim o caso exemplar da nação Tupinambá, inicialmente amiga dos franceses no Maranhão e, finalmente, aliada aos portugueses na conquista do Grão-Pará para eles a Tapuya tetama (terra dos Tapuias).


Tapuia (do tupi antigo tamu, avô) era nome genérico das mais antigas etnias não-tupis; passando depois a “inimigo”, como em Tamoio. É preciso compreender as motivações messiânicas dos Tupinambás – em busca da mítica “Yvy marãey” (terra sem mal) –, com Florestan Fernandes e outros, para se dar conta das enormes migrações desta nação extraordinária, que, inclusive, em contato com os franceses na baía da Guanabara tiveram emissários em viagem à França, recebidos na corte de Henrique IV, quando teria nascimento a legenda do bon sauvage difundida por Montaigne e Rousseau na incitação da revolução de 1789.


Na faixa amazônica tordesilhana, a posse portuguesa (1494-1823) e depois brasileira pela Adesão do Pará à Independência do Brasil (1823) foi estabelecida graças a arcos e remos tupinambás: Belém do Grão-Pará nasceu como boca de sertão, contando dias para atravessar o largo rio e levar a guerra de expulsão aos holandeses e ingleses que andavam pela outra margem. 

Só assim poderia o pequeno e distante reino de Portugal botar as mãos aos imensos tesouros que imaginava ir encontrar rio acima. Todavia, havia uma “pedra” no caminho... Esta pedra viva era a infinidade de índios tapuias, mais conhecidos pelo nome genério de Nheengaíbas (“falantes da língua ruim”, diversos idiomas nuaruaques). Inimigos hereditários dos aliados Tupinambás, que não permitiam a estes ocupar as ilhas e dominar a passagem para dentro do Amazonas, a fim de prosseguir a busca da "Terra sem mal" (na verdade, provedora de infinitos males, notadamente aos próprios indígenas conquistadores).


Longe de agir com prudência para conseguir a confiança dos índios da magem direita e afastar do inimigo Herege (holandês e inglês da reforma) os índios da margem esquerda do Pará, os portugueses desde o Maranhão começaram a vexar e escravizar os orgulhosos Tupinambás: o resultado foi a revolta com morte de casais açorianos, enganados pelo mercador Simão Estácio da Silveira que os trouxera com promessa de vir encontrar o paraíso na terra. Vendo-se estes colonos mais necessitados que antes e sem conseguir vencer o clima e a aspereza da floresta, tais pobres de Portugal começaram a roubar roças e a escravizar índios.
 
No dia 7 de janeiro de 1619, o cacique Guaiamiaba (Cabelo de Velha) atacou o forte do Presépio sendo morto em combate. No Maranhão, o cacique e pajé Pacamão, da aldeia do Cumã, levou terror aos portugueses vingando-se de ofensas cometidas pelos filhos do capitão-mor Jerônimo de Albuquerque. Então, uma feroz represália comandanda por Pedro Teixeira e Bento Maciel Parente produziu talvez o maior banho de sangue que houve entre o Gurupi e o Guamá. Por acaso, "Guamá" é um nome Aruak glorioso que se escreve desde o Caribe até o Pará...


Fazia mais de cem anos que Pinzón abordara o Ceará e arrastara 36 negros da terra (escravos índígenas) da ilha Marinambalo [Marajó]. O relato desta viagem ficou guardada a sete chaves. Mesmo quando Orellana passou pelas ilhas, em fuga para o Oceano debaixo de uma nuvem de flechas, quarenta e dois anos depois; os espanhóis não estavam seguros da tal “linha” de Tordesilhas. Mas a geografia dos índios da margem esquerda do Amazonas era outra.

E eles tinham 5000 anos de ocupação destas terras... O Amazonas não existia com tal nome; sequer se chamava Marañón, como os espanhóis diziam. Ou mesmo Paraná-Uaçu, conforme os tupinambás, igualmente invasores. Para a massagada aruaca, o rio era simplesmente o Rio (Uene ou wune; donde os derivados Guainia e Guiene, Guyane, Guayana, Guiana).


Do Arapari tapuia à UNASUL passando pela Adesão do Pará à Independência do Brasil.


As Guianas e Caribe foram posse imperial da Espanha, nos termos do “testamento de Adão” (tratado de Tordesilhas (1494-1750), homologado pelo papa Bórgia (Alexandre VI), contestado pelo rei da França, Francisco I. Os caciques indígenas não sabiam ler direito canônico nem tratados de limites, todavia sabiam e sabem ainda ler as estrelas onde moram os heróis ancestrais com suas predições do futuro. 

Quando das migrações das ilhas do mar à Terra Firme, tal qual o legendário Anakayuri que fixou seu cacicado no Oiapoque, em recuadas era; a estrela guia de tal travessia foi o Cruzeiro do Sul (“arapari”, cercadura do sol; os limites do país continental a ser conquistado). Por coincidência, num marco divisório na fronteira do Oiapoque está escrito: Aqui Começa o Brasil...

Talvez pajés Aruak e Galibi já soubessem de coisa assim antes que espanhóis e portugueses plantassem o padrão ou pedrão de fronteira da doação de Filipe II ao donatário do Cabo do Norte, Bento Maciel Parente; às margens do "rio de Pinzón" (Oiapoque ou Oyapoc). Na distância de Lisboa e Madri, ou até de Belém do Pará, cidade morena que cresceu de costas para o rio, quem poderia guardar o pedrão de limites imperiais com as Quinas e as armas de Castela, assinaladas lado a lado no granito até que o tempo se consumasse na Independência Americana? 

Até que a revolução haitiana deitasse fora a escravidão das Américas... Até que a República viésse à luz do dia... E ainda lá estão os Palikur, Karipunas, Galibis com seus compadres crioulos, quilombolas e cabocos a contar estórias prenhes de realismo-mágico, onde relatos verdadeiros e lendários tecem a urdidura da História.  Pois, na verdade, é preciso habitar o tempo...
 
Para que a tese do diplomata luso-brasileiro Alexandre de Gusmão vingasse nas cabulosas negociações de 1750, foi necessário conhecimento geográfico apurado pela parte portuguesa, capaz de iludir os negociadores espanhóis com o famoso “Mapa das Cortes'. Diz a historiografia luso-brasileira que a base cartográfica lançando por terra séculos de arrogância hispânica sobre o pequeno reino portucalense, deve-se à ocupação do Brasil por bandeirantes façanhudos, a devassa dos sertões por sertanistas audazes e a catequesa levada a efeito por missionários temerários até o limite da loucura rios acima e terra adentro. É verdade. Mas tudo isto é só metade da história.


Conhecimento geográfico indígena no mapa do Brasil


O famigerado bandeirante Raposo Tavares com seus comparsas jamais transporia o Tietê para chegar até as barrancas do Madeira e Solimões, numa marcha verdadeiramente descomunal; se não tivesse guias e mateiros índios, malgrado todas vicissitudes e violências, que de fato conhecessem o terreno e convergissem em interesse de chegar aonde chegaram. Sem retirar as populações tradiconais amazônicas da margem da História (como Euclides da Cunha as viu durante sua missão demarcatória à fronteira com o Peru) e inclusão social, a Amazônia não poderá estar segura na comunidade de países amazônicos.

Fora desta constatação chega ser ridículo acreditar que meia dúzia de matabugres armados de arcabuz arcaico e reduzida munição bastassem para obrigar numerosos índios a lhes mostrar os segredos dos confins. O mesmo vale para a famosa expedição do espanhol Gonzalo Pizarro ao País da Canela (Amazônia equatoriana), quando os aventureiros acabaram morrendo de fome e alguns deles se salvaram comendo a sola dos próprios sapatos: daí a deserção de Orellana e a descoberta, por acaso, do “rio das amazonas”...


Mas, sobretudo, muito mais que a façanha do capitão Pedro Teixeira em viagem de Belém do Pará a Quito (Equador), durante dois anos entre ida e retorno, de 1637 a 1639; o uti possidetis real mediante a catequese dos missionários e a adesão dos povos indígenas. Começa nos anos de 1980, com a luta pela redemocratização do Brasil, o processo de reconhecimento nacional da contribuição histórica dos povos índigenas na formação territorial do Brasil brasileiro.


Portugueses em contato com índios e mamelucos, através do Peabiru, estrada incaica que vinha dos Andes até o litoral do Brasil em Piratininga (São Paulo) tinham notícias de uma grande migração da poderosa nação dos Tupinambás, em 1538, indo de Pernambuco até a atual Amazônia peruana (cf. Viagem do mameluco Diogo Nunes, em “O Novo Éden”, Nelson Papavero et. al. ed. Museu Goeldi: Belém, 2000). Prova de que muitos povos indígenas percorreram o grande rio e conheciam seus meandros, desde o nomadismo paleo-índio, notamente o Rio Negro e Canal do Cassiquiari (“rio do cacique”, em língua de tronco Aruak) interligando a bacia do Amazonas com a do Orenoco.


O Rio Negro é berço da dispersão indígena dita Circum-Caribe na antropologia americana. Daí os primeiros Aruak ocuparam o Canal do Cassiquiari e rio Orinoco passando, lentamente, às ilhas do mar Caribe através das Bocas do Drago e da ilha de Trinidad donde toparam populações mais antigas, provindas do México e costa da Flórida com as quais teriam se incorporado. Em seguida, povos menos desenvolvidos porém mais belicosos, vindos da Floresta Amazônica com uma cultura guerreira fundada na antropofagia semelhante aos Tupis, subiram o Rio Negro dando inicio a longo conflito étnico pelo território. Estes vieram a ser conhecidos como Karib estabelecendo dicotomia com os Aruak passando os dois grandes grupos étnicos a lutar entre si até as últimas ilhas do mar.


Da guerra antropofágica caribenha, nasceu a palavra amaldiçoada “canibal' e o canibalismo aos olhos dos brancos. Falso como a crença de Colombo em ter chegado a Cipango (Japão) e a Índia... Lá ficamos nós sendo as Índias 'acidentais' e os “selvagens” canibalescos rotulados de índios. 

A ver que uma mentira civilizada vale mais que uma verdade bárbara. Mas, a verdadeira verdade diz que o ritual antrofágico é eucaristia bárbara, culto sagrado aos heróis (“Manifesto Antropofágico”, Oswald de Andrade, 1928). A antropofagia americana foi a redenção do Outro, pela mestiçagem de corpos e espíritos... 

Sartre diria que o Diabo são os outros: entretanto, pajés-açus ou caraíbas do Jurupari diabolizado pelos padres e agora pelos pastores evangélicos, sabiam que as virtudes do heroísmo não apenas poderiam ser imitadas como na religião de Cristo morto na Cruz para perdão dos pecados do mundo: mas também por arte mágica, como uma viva fé, mediante ingestão da carne e do sangue do inimigo valente e invejado. Menos dramatico, todavia mais sensível; a religião de ingestão de cinzas mortuárias dos parentes misturadas ao mingau de banana, praticada pelos Ianomami.


Foi assim através de tal complexo civilizatório do mar das Caraíbas que os inimigos hereditários Aruak e Kalina passaram a ser uma única família Nuaruaque dentro da mesma aldeia, com os filhos da invejável mulher Aruak pela ciência secreta que ela tinha em lidar com variada gama de venenos e remédios passando de mães para filhas, e os filhos da trabalhadeira mulher Kalina vivendo todos sob o mesmo teto como irmãos, compartilhando as duas línguas, usos e costumes de ambas culturas outrora inimigas hereditárias. Isto, por acaso, não é um exemplo para o mundo sacudido por guerras sem fim?
 
Estavam assim os povos originais das terras baixas da América do Sul, em um complexo processo de guerra e paz em tudo semelhante ao confronto inter-étnico dos Andes que levou à guerra entre Aimaras, Incas e Quitus. Ou, na região do Chaco e Paraguai Tupis, Guaranis e Tapuias; quando sucedeu – nas ilhas Guaanani (Bahamas), em 1492 – a fatídica chegada de Cristóvão Colombo. Já os Aruak e os Kalina caribenhos em guerra continuada estavam migrando de volta às Guianas quando os conquistadores com suas matanças inauditas pressionaram tais migrações. 

Numa de suas viagens à Terra Firme, sempre com a crença de haver descoberto o caminho ocidental das Índias; Colombo chegou ao delta do Orinoco donde pretendeu ter avistado os rios mitológicos do Éden... Os castelhanos instalados na ilha Hispaniola (Haiti e República Dominicana) filtravam informações colhidas do novo continente. Assim, Orellana e Carvajal levaram a notícia fantástica do reino das Amazonas e do ouro de Manoa, que passou a povoar os espíritos mais aventureiros.


Alfred Wallace, parceiro de Darwin na teoria da evolução das espécies; em sua viagem à desconhecida Amazônia (na segunda metade do século 19), foi um dos primeiros a perceber que os índios, aterrorizados pela perversidade (ástya em Kalina) dos europeus, desenvolveram extraordinária capacidade de dissimulação. Ao ser questionados respondiam de acordo com que os estrangeiros queriam acreditar, sempre no fito de os afastar das aldeias induzindo-os a ir mais longe em busca de ouro em fictícias paragens... Assim, diz o arguto Wallace, nasceu a lenda das amazonas. E a mentira colombina das Índias ocidentais somou-se à lenda da Capadócia na invenção da Amazônia.


Na verdade, o Inca vivia cercado das “Virgens do Sol” comparadas a monjas ou sacerdotisas pelos espanhóis. Na Selva peruana os índios as chamavam simplesmente “mulheres sem marido” (cunhã-teko-yma ou icamiabas, em tupi). Eram elas servas celibatárias do cerimonial, mulheres temidas pelo povo pelos poderes mágicos que acreditavam elas possuirem para proteção do imperador, filho de Inti (o sol). 

Os Quíchuas adoradores do Sol eram súditos dos Incas (uma elite real) e oprimiam diferentes povos que proviam a economia de subsistência do Império das Quatro Partes do Mundo. O sistema agrícola de mitimac (colonização) obrigava remoção de povos hostis ou inimigos para regiões cercadas de populações fiéis ao Inca. 

Portanto, o perigo de magia contra o imperador era constante; competindo às monjas inspecionar e provar tudo quanto o Ínca comia ou bebia. Somente elas em seu ofício ritual, além da família real, podiam olhar frontalmente ou dirigir a palavra ao “filho do Sol”. Comiam e bebiam sobras de comida ou bebida que ele deixasse, para não cair em mãos de feiticeiros inimigos. Assim recolhiam elas e cremavam cabelo, unha, roupas usadas, tudo enfim que pudesse causar mal ao quase-deus dos Andes.

Contra este regime comunista teocrático se chocou a tirania apostólica romana, cujos crimes o padre Las Casas denunciou desde a primeira hora da Conquista. O resultado foi uma superposição de mitos e lendas donde nasceu a invenção da Amazônia.


Mais tarde, o aventureiro inglês Walter Raleigh, favorito da rainha da Inglaterra; na sua expedição de 1596 pelo Orinoco em busca do El Dorado, colheu informações entre os nativos sobre a interligação de um grande lago salgado. Seria o Parime, em cujas margens se situava a cidade lendária de Manoa. Relato desta viagem acabou por difundir publicações geográficas da época, que também sugeriam a ligação da bacia do Prata com o Amazonas. O tal lago constava de mapas utilizados pela expedição de Alexander von Humboldt, no começo do século 19. Após Humboldt, autor do “celeiro do mundo”, o lago Manoa continuou nas cartas das Américas.

A primeira tentativa de descrição completa do canal natural entre o Orinoco e o Amazonas, não o imaginário lago Parime, deve-se a um relato de 1639, pelo jesuíta Cristóbal de Acuña; sem muita atenção, embora não fossem poucas àquela altura as notícias sobre o Canal de Cassiquiari.

A primeira descrição testemunhal sobre a existência do mesmo aconteceu somente em 1744, às vésperas do tratado de limites de Madrí (1750) entre os reinos de Espanha e Portugal; quando o jesuíta Manuel Román ao subir o Orinoco topou com caçadores de escravos portugueses vindos do Rio Negro. O padre Román acompanhou-os ao longo do Cassiquiare até ao Rio Negro, regressando pela mesma via ao Orinoco donde havia partido. 

A notícia chegou alguns meses mais tarde ao conhecimento de La Condamine, que apresentou a novidade à Academia Francesa. Contudo, ainda assim, pouco crédito foi dado ao descobrimento, manifestando-se a maioria dos acadêmicos pela impossibilidade da existência de tão estranho canal.

A existência do canal Cassiquiare apenas foi considerada como verdadeira quando o mesmo foi visitado, em 1756, pela Comissão de Demarcação espanhola conforme o tratado de Madri de 13 de janeiro de 1750. Prova final da grande oval insular das Guianas... Para os tempos da Cooperação Amazônica e da União das nações sul-americanas, que viveram de costas umas para as outras durante cinco século; as artérias e veias do continente merecem consideração especial, para além do imediatismo econômico sob o peso insustentável do mercado global. O mesmo poderia ser pensado a respeito da ligação fluvial percorrida pelo bandeirante Raposo Tavares, entre as bacias do Prata e do Amazonas através do Pantanal.

Todavia, se a América do Sul houvesse confiado todos seus segredos aos colonizadores, quão enormíssimo seria o tamanho do desastre que hoje ainda não findou, mas, pelo contrário, avulta mais.


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