domingo, 30 de janeiro de 2011

cair na real depois da queda do "Real Class" de Belém do grão Pará

Índio não quer apito e caboco não quer ônibus velho, sujo e fedorento. Transporte coletivo urbano decente pra gente, já! Novo capítulo da tragédia urbana de Belém do grão:
  • queda do espigão "Real Class" levanta de novo a tragédia do edifício "Raimundo Farias", sepultada há 30 anos no arquivo morto do Judiciário e esquecida por detrás da cortina de propaganda imobiliária ávida de lucros e espaço "nobre", numa ilha de novos ricos promovida pela devastação da Floresta Amazônica e outras tragédias socioambientais, tais como a violência, crise da Saúde Pública cercada de pobreza por todos os lados;
  • na tragédia urbana de Belém do Pará, além da QUEDA da "Belle époque" da Borracha com seus casarões arruinados e demolidos para dar lugar a espigões-baterias de acelerador do efeito estufa global, esconde ruína sem dó do PATRIMÔNIO HISTÓRICO E CULTURAL (malgrado revitalização pontual de certos lugares simbólicos...) que merecia ser democratizado pela indústria e comércio da Cultura & Turismo, através duma EDUCAÇÃO PATRIMONIAL PARA TODOS, muito mais arrojada do que o mais arrojado dos planos de educação municipal, estadual, federal e até mundial talvez. Que não nos acusem de complexo de INFERIORIDADE, depois de tontos (sic) complexos urbanitas por aí;
  • para isto, a antiga "Cidade do Pará", velha praça de guerra e boca de sertão crescida à sombra do Presépio a ser alimentada, dia a dia, em berço caboco na feira do Ver-O-Peso, devia despertar do canto de sereia da MODERNIZAÇÃO CONSERVADORA;
  • sarar seu congênito Apartheid socioambiental relembrando o fracasso do natimorto PlANO GRONFELTS morto e enterrado pelo despotismo português iluminado sob carradas de aterro até desaparecer a teia de canais, furos e igapós na várzea formada pela bacia do Igarapé do Piry...
  • noves fora o teso da Cidade Velha toda Belém até o Marco da Légua é uma baixada assassinada, onde outrora foi viva paisagem natural igapórea, memória do lugar de "Comedia do Peixe-Boi" (não comédia, como pensam revisores de texto na tragi-comédia da mídia regional), por exemplo, mais tarde a praça Amazonas em cuja beira deu-se a tragédia carcerária da Cadeia São José e boa hora transformada no polo de artesanato São José Liberto numa clara saída aos "inferno verde" em busca da mítica Terra sem Mal para todos...
  • a memória emblemática do PLANO GRONFELTS (1771), recusado pelo Conde dos Arcos depois que o engenheiro alemão (cheio de 'água que passarinho não bebe' e possuído do espírito da aguardente contradisse o zeloso vigário da igreja de Santana da Campina, duvidando da infabilidade canônica do Papa...), deveria restaurar o debate URBI ET ORBI [da Cidade para o Mundo; no caso, da cidade morena amazônica para o mundo em MUDANÇA CLIMÁTICA] sobre o urbanismo ribeirinho da "VENEZA AMAZÔNICA", que a população da península de Belém merece, não só para novos ricos com poder econômico de compra de apartamentos a R$ 500 mil, mas para todos habitantes, da Vila da Barca até a antiga estrada de Nazaré, p. ex.;
  • pena que o marketing das construtoras não tem futuro ao navegar em águas passadas e a pressa de venda de mais e mais apartamentos e automóveis zero km não tenha tempo para ouvir o que a gente tem a dizer, sobretudo, sobre POLÍTICA URBANA INTEGRADA E SUSTENTÁVEL... Caso contrário, Habitação - Transportes - Comunicação seriam matérias de primeira necessidade a par de SAÚDE, SEGURANÇA e EDUCAÇÃO... Mas a esquizofrenia das cidades nos torna a todos reféns de cartéis dos transportes e da construção civil, sejam eles no setor de represas, rodovias ou pontes do nada para lugar nenhum...
  • para reacender o debate, carece reler a teoria geopolítica de Henri Coudreau entregue às traças dos Anais do Arquivo Público do Estado, "L'Avenir de la capitale du Pará"; aprofundada por Eidorfe Moreira em "Belém e sua expressão geográfica"...
  • Do mesmo Eidorfe Moreira, antes de passar a palavra aos geólogos sobre a natureza do subsolo da capital paraense, convém resgatar a ideia de uma capital ECOLÓGICA com extraordinária afinidade ECONÔMICA com o dito plano GRONFELTS, aterrado na lama colonial do séc. XVIII;
  • Eidorfe, ver em Obras Completas "O igapó e seu aproveitamento",  pinta uma METRÓPOLE DA AMAZÔNIA do futuro... Coisa pra deixar militante verde em transe!!!
  • mas, para o Povo Trabalhador belenense, enquanto o Feijão é o Sonho fica IMPOSSÍVEL socializar Educação Patrimonial e Política de Emprego / Distribuição de Renda;
  • a cidade que cresceu de costas para o rio e escala as altura rumo ao reino das nuvens precisa "cair na real" depois do desabamento do "Real Class": o edifício, pela voz de uma das vítimas mostradas na TV (o jornalista Donizete César, que teve a residência destruída pela queda de destroços do edifício em construção), o desabamento do "Real Class" foi, na verdade, a "crônica de uma tragédia anunciada"...
  • Oxalá, não seja também preâmbulo de mais tragédias urbanas com coadjuvante do trânsito caótico... ALGO ESTÁ MUITO ERRADO NO URBANISMO AMAZÔNICO, seja em Manaus, Macapá ou Belém do Pará;
  • devemos ouvir a voz dos Sindicatos de Trabalhadores da Construção Civil, de Motoristas de Transporte Coletivo, Comerciários, Professores, da juventude estudantil...
PELO MENOS JÁ TEMOS UM SUSPEITO: como diz a canção, "a culpa é da mentalidade".

Aerea!

Vista aérea da cidade de Belém! cada vez mais verticalizada.

01/03/2006 Publicada por Afonso

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

negócio da China made in Amazon BR

Dizia meu velho pai: "a necessidade é a mãe da invenção"... Se eu fosse consultor da companhia Vale ou técnico do Ministério de Minas e Energia, depois de piteco como este certamente eu seria mandado para o olho da rua. Porém como sou apenas um caboco velho que mora longe do centro de Belém estou "por aqui" com o transporte coletivo urbano e o trânsito na capital da província mineroextrativista e reserva hidrelétrica da Amazônia brasileira.

Tampouco eu iria arranjar sarna pra me coçar se eu fosse um paraense de "coração" rico com o negócio de exploração de madeira a custo de desmatamento da floresta com trabalho barato (pra não dizer escravo ou semi...) e exportação de alumínio de baixo valor agregado.

O diabo é que a gente morre de inveja da China. O antigo império dos mandarins nos cerca por todos os cantos, até cuecas que a gente usa é made in China. E quem foi que inventou a pechincha 1,99 das infinitas bancas de camelô nas ruas? Os chineses é claro. Dizem que a "cidade das mangueiras" é a segunda cidade do mundo onde mais chove, a primeira fica na Índia... Donde vieram as nossas verdejantes mangueiras? Da Índia distante e o guarda-chuva que nos salva do dilúvio quotidiano? Quem disse China ganhou um radinho de pilha pra escutar no rádio transmissão do jogo Remo x Paysandu...

Ora, onde se quer chegar? Ao centro pensante do BRIC ou pelo menos às portas do fundo do BNDES pra dizer que índio não quer apito e caboco não que ônibus velho e fumacento. Que a poderosa China que já vai despontando também como potência "verde", além de nos comprar montanhas de ferro, levar energia elétrica produzida pelos "nossos" rios cantados em prosa e verso agregada em lingotes de alumínio e rios de petróleo cru; mandando em troca lampidinhas de natal, quinquilharias eletrônicas, etc. e tal; podia doravante dar uma big compensação ambiental de presente aos 400 anos de invenção da Amazônia (2015/16).

Que presente seria este capaz de justificar o título de "metrópole da Amazônia" para Belém do Pará? Uma associação de capital para PPP (parceria público-privada) exemplar, juntamente com a Vale e Eletronorte, a fim de dotar a região metropolitana de Belém de moderno metrô de superfície integrado à frota de eletrobus na capital, em especial Cidade Velha no centro histórico.

Como fazer? Isto não é mais com o caboco. Para os menos avisados cumpre informar que a dificuldade não está na oferta de equipamentos nem na capacidade de energia instalada com a Hidrelétrica de Tucuruí (noves fora Belo Monte).



Eletrobus (SP) 7 5065, por Adamo Bazani



Scirus
O metrô de Belo Horizonte é um metrô de superfície.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

MARAJÓ SERÁ A "COSTA RICA" DA AMAZÔNIA?

A Constituição do Pará (Artigo 13, VI, § 2º), ao considerar o arquipélago do Marajó como área de proteção ambiental, diz expressamente que a vocação econômica das ilhas deve ser observada como meio de melhoria da qualidade de vida da gente marajoara. No entanto, mais de 20 anos se passaram para o governo estadual encarar a tal APA-Marajó como parte integrante do macro zoneamento ecológico-econômico do estado. Desta maneira, o desconfortável dispositivo constitucional aos interesses do atraso socioambiental da brava gente das ilhas no estuário da maior bacia fluvial do planeta, passou a ser base para lançamento da candidatura do maior arquipélago fluviomarinho do mundo à lista mundial de reservas da biosfera do programa multilateral MaB/UNESCO.

Seria equívoco achar que a população tradicional marajoara se move em direção à Reserva da Biosfera Amazônia Marajó por motivação ecológica. Esta gente sofrida luta ainda por resistir ao colonialismo e à invasão cultural, mas principalmente por sobreviver e vencer a Pobreza. Portanto, é a economia que devasta o meio ambiente e humilha a gente, mas será ela também que poderá salvar a Cultura Marajoara da "solução final" e libertar a gente ribeirinha dos grilhões do ínfimo IDH dos municípios ilhados em mais de 500 comunidades locais entre chuvas e esquecimento.

Qual seria, então, a mais valia da vocação econômica do Marajó? Certo, o turismo pode-se dizer à primeira vista. Todavia, que turismo interessa mais a esta pobre gente isolada em tantas ilhas ou dispersa na vastidão dos campos naturais da ilha grande (maior do que a Holanda, por exemplo)? Sem dúvida, o Ecoturismo de base comunitária! E aí, exatamente, como diz o caboco: "a porca torce o rabo"... Por que é lógico que nenhuma empresa do trade vai investir onde é papel do estado fomentar o desenvolvimento socioambiental elementar.

Desde os anos de 1930, com a malograda campanha da diretora do Museu Nacional, Heloisa Alberto Torres; para preservação dos sítios arquelógicos da ilha do Marajó e a literatura antropológica de Dalcídio Jurandir; que o Homem e a Natureza nestas ilhas estão mostrando à consciência brasileira qual é a verdadeira saída desta gente na conquista do Futuro. A obra de Giovanni Gallo, com a invenção do Museu do Marajó, é como um dedo acusador em face à leniência da cultura nacional e a pesquisa arqueológica de Denise Schaan não deixa mais dúvida nenhuma sobre o que se deve fazer em Marajó.

Não são poucos os cabocos a chatear a preguiça mental dos ilustres acadêmicos e representantes do Povo a respeito desta tragédia amazônica que se chama Cultura Marajoara. Por isto, já quase uma década se está sonhando com o Turismo como alavanca do desenvolvimento local sustentável nas ilhas do Marajó: o que requer uma Secretaria de Estado capaz de pilotar o processo de desenvolvimento sustentável de uma maneira inovadora e audaciosa no comando do órgão público gerencial especializado, que é a companhia mista PARATUR.

Uma Secretaria de Estado de Turismo com visão estratégica, naturalmente, capaz de auxiliar o núcleo central do Governo a vislumbrar oportunidades e a lutar no âmbito federal para o fabuloso potencial natural e cultural do Para virar produtos de mercado. Que referências a gente pode buscar para dar sustentabilidade econômica à causa marajoara? No Brasil temos, por exemplo, a Reserva da Biofera do Pantanal como inflexão de uma pecuária problemática e decadente para as primícias do ecoturismo com destaque para Bonito, no Mato Grosso do Sul. E, na América Central, Costa Rica onde o ecoturismo resplandece na pauta de ingressos de divisas. Se na verdade Marajó não tem todos atrativos turísticos daquele país latino-americano, interessante sob vários aspectos comparativo, pelo menos sua inspiração poderia suscitar aos responsáveis políticos pelo nosso desenvolvimento socioambiental justa ambição de uma meta de faturamento global equivalente a um terço dos mais de 300 milhões de dólares, que a prestação de serviços ligados ao turismo gera na Costa Rica.

Que nos falta? Falta vontade política que a criação da Secretaria de Estado de Turismo poderia alavancar desde sua discussão na sociedade paraense e posterior debate pelos nobres representantes do povo, por sinal instalados no Palácio Cabanagem. Vejamos:

Ecoturismo

Nenhum outro país do mundo criou tanto em matéria de ecoturismo como a Costa Rica. Para uma breve explicação do que significa explorar a ecologia desse país se pode começar por números exatos: 20 parques nacionais, 26 áreas protegidas, 9 reservas de bosque, 8 reservas biológicas, 7 santuários selvagens e um total de 13.000 km² de montanhas, rios, pântanos, planícies e praias.
Costa Rica
Costa Rica é um excelente lugar para apreciar a mudança de ecossistemas, a fauna e a vida selvagem.

Reservas ecológicas

As reservas ecológicas da Costa Rica representam uma parte da vida selvagem, das formações vegetais e suas colorações exóticas. Sendo assim, essa nação representa para os amantes da natureza o Jardim do Éden e a Caixa de Pandora para biólogos, taxonomistas e ecologistas.

Parques nacionais

Costa Rica conta com uma grande diversidade de parques naturais, como o "Tortuguero" na costa do caribe, onde se podem ver animais selvagens enquanto se faz um tour de barco. Outro interessante é o "Cahuita" com caminhos naturais e arrecifes de corais.

Golfe

Alguns hotéis contam com campos de golfe privados e desde 1998 estão surgindo, nos principais destinos turísticos, novos campos para essa prática.

O QUÊ VER?

Teatro Nacional

Localizado em San Jose é uma charmosa construção datada de 1890. Aí se pode apreciar espetáculos de ópera e ballet entre outras atrações.

Monteverde

É uma reserva biológica com grande variedade de flora em fauna, considerada um paraíso tanto para investigadores como para os amantes da natureza.
Caminhar pelas trilhas da divisão continental nesse mágico ambiente de bosque faz dessa reserva um lugar perfeito para que toda a família desfrute do contato com a natureza.

Fazenda de Mariposas de Guacima

Encontra-se no vale central da Costa Rica e são organizados recorridos diários para os visitantes.

Vulcão Poas

Pode-se chegar de carro e desde suas plataformas panorâmicas se aprecia fumaças ativas, além de uma bela vista do país.

Museu de Ouro Precolombiano

Conta com uma rica coleção de ornamentos.

Café Britt

Uma fazenda onde se produz café. Pode-se fazer tours pelas imediações, degustar grãos especiais, e ver danças folclóricas.

Lago Arenal

Rodeado por granjas de café e um bosque. Excelente para o windsurfing.

Os jardins de Lankester

Está cerca de Cartago e possui mais de 800 espécies de orquídeas.

Parque Nacional Corcovado

Um bosque tropical. Casa dos jaguares, dos papagaios entre outras espécies da vida selvagem.
Fonte: www.ciberamerica.org

domingo, 23 de janeiro de 2011

QUEM REPRESENTA O POVO MARAJOARA NO PACTO FEDERATIVO?

Uma população de quase 500 mil habitantes, mais outro tanto disperso pela região metropolitana de Belém, zona Macapá-Santana (no Amapá) e além Oiapoque na região francesa da Guiana e no Suriname: eis em resumo a situação demográfica da brava gente marajoara na comunidade do Estado do Pará e República Federativa do Brasil.

O dia que o governo estadual, através do IDESP, e o governo federal através do IPEA; quiserem aclarar a situação para um diagnóstico socioambiental competente afin com a determinação do parágrafo 2º, alínea VI, do artigo 13 da Constituição do Estado do Pará de 1989, derivada da Constituição federal de 1988; iremos saber melhor as causas e consequências do ínfimo IDH que faz a pobreza e o analfabetismo de mais de 500 comunidades locais, onde o "Homem Marajoara" sofre e espera por dias melhores, num território-ilha do tamanho de Portugal; subdividido em 16 municípios nas três microrregiões de Arari, Breves e Portel.

Tal diagnóstico poderia nos oferecer uma perspectiva de futuro coerente com o passado recente a partir do Plano Amazônia Sustentável (PAS), através do piloto "Plano de Desenvolvimento Territorial Sustentável do Arquipélago do Marajó (PLANO MARAJÓ)" e programa Territórios da Cidadania - Marajó

Há que se interromper o drama de Sísifo - o eterno recomeço das coisas - na história do desenvolvimento da Amazônia: esta vasta e difusa região que, na verdade, a gente conhece tão pouco. A Amazônia real somos nós, habitantes das regiões amazônicas desde muito mais tempo que a conquista e colonização do "rio das amazonas". Portando, em vez de reinventar a roda devemos levar avante o engenho do remo e da canoa!

Quer dizer:não é por que o PLANO MARAJÓ ficou longe do ideal que a gente vá deixá-lo afundar e inventar outra coisa para "calar a boca" do povo... Já se sabe que o ótimo é inimigo do bom e que Roma não foi feita em um dia apenas. Há que prosseguir e aposentar, isto sim, a fulanização da geografia e história dos municípios. Quem faz História é gente de carne e osso pelo arco das gerações! Governos passam e o povo fica, muitas vezes pior do que antes. Desatino que cumpre evitar mediante a fé e união de todos em busca da Justiça e da Paz.


Desde a histórica cidade da Adesão do Pará à Independência do Brasil, a heróica Muaná; no dia 8 de outubro de 2003 a sociedade civil marajoara reprentada pela AMAM, Diocese de Ponta de Pedras, Museu do Marajó, Cooperativa de Mulheres Extrativistas do Marajó (CEMEM),Fórum DELIS, ong CAMPA e GEDEBAM dentre outras entidades civis pediu às autoridades competentes. através da I Conferência Nacional de Meio Ambiente, a instituição da Reserva da Biosfera Amazônia Marajó com base no citado dispositivo constitucional que criou a Área de Proteção Ambiental do Arquipélago do Marajó (APA-Marajó). 

Ora, há vinte anos no papel só recentemente, no bojo do PLANO MARAJÓ, a APA tomou forma e o projeto de RB foi formalizado, entrou em marcha rumo a Brasília e Paris (sede da UNESCO). Quer dizer, então, que a Reserva da Biosfera será a "salvação da lavoura" do povo marajoara?


Será talvez a salvação dos fundamentos democráticos participativos do PLANO MARAJÓ e a entronização do densenvolvimento socioambiental regional de referências para as mais regiões amazônicas. Marco histórico determinante do fim do drama de Sísifo no desenvolvimento amazônico.


Trata-se de evidenciar no Brasil e no mundo um singular bioma fluviomarítimo dotado de uma gente e de uma cultura peculiar em estado terminal diante de seculares agressões colonizadoras ainda em curso. O povo não pode se enganar: as elites nos municípios, no estado e no plano nacional pouco estão ligando ao que sentem, pensam e querem as 500 e tantas comunidades marajoaras ilhadas entre chuvas e esquecimento. Todavia a "solução final" de extermínio e cativeiro requerido pela Câmara de Belém contra os "índios" das ilhas, há quase 400 anos, pode estar perto - paradoxalmente - daquilo que os jornais apregoaram como o maior sucesso (acreditem) do Desenvolvimento!...


O projeto de reserva da biosfera citado é a ponta do iceberg do tipo de desenvolvimento socioambiental sustentável que mais interessa à concretização do famigerado §2º,VI,art. 13 da Constituição do Estado do Pará: cuja iniciativa, por acaso, nada tem a ver de fato com o meio ambiente... Por este aparente descuido do constituinte uns poucos cabocos ladinos viram a brecha para chamar a atenção nacional e internacional sobre um drama colonial deixado à margem da história da invenção da Amazônia.


Candidato ao programa da UNESCO "O Homem e a Biosfera - MaB", o arquipélago do Marajó ostenta desde já o "Homem Marajoara" de 1500 anos de idade, engenheiro de aldeias suspensas sobre tesos arqueólogicos e arquiteto imortal a antiga Cultura Marajoara: primeira cultura complexa da Amazônia.


Esta é nossa maior bandeira!Em cuja sombra formou-se a resistência marajoara que vai beirando já aos quatro séculos... Pois bem, como levantar e intensificar esta luta ancestral pela inclusão do povo marajoara à República Federativa do Brasil em lugar ao sol na jurisdição do Estado do Pará?


Não existe outro caminho que a melhoria do IDH dos municípios, de maneira democrática e solidária; pelo progresso da DEMOCRACIA PARTICIPATIVA. Ou seja, a participação popular na gestão local. A organização sócio-econômica e ambiental das 500 comunidades do território-ilha do Marajó é o aval político para os representantes do povo. Até hoje impera a exploração do trabalho semi-escravo, a exclusão social debaixo da mais sórdida demagogia de terceiro mundo.


Para mudar, efetivamente, este triste estado de coisas a organização da sociedade civil levará necessáriamente à refundação das Câmaras Municipais de Vereadores: pois é o papel de Vereador que está mais próximo da comunidade local... No entanto, não carece ir muito longe para diagnosticar na AVIM, por exemplo, antiga síndrome do famigerado "Diretório dos Índios". Origem do mal enjambrado municipalismo amazônico.


Com 145 vereadores a AVIM é o patinho feio do setor institucional do território-ilha. Em 2012 os eleitores terão mais uma oportunidade de eleger a verdadeiros representantes do Povo. Capazes não só de legislar no Município, mas sobretudo Fiscalizar a Prefeitura. Como está a carroça vai à frente dos bois: o Executivo é quem diz ao Legislativo o que deveria fazer... O arranjo sai muito caro para o povo (descontadas as propinas que o falatório de costume acusa sem provar coisa nenhuma)os vencimentos de 145 vereadores, mais a folha de funcionários legislativos, material de expediente e manutenção resulta numa grande "facada" no Orçamento do município.


O remédio está na organização e participação da sociedade civil no poder público local. Difícil, mas não impossivel. O pior é deixar como o Diabo gosta.


fonte: site http://www.pontadepedras.com/noticias/default.asp?id=245#245
  Vereadores discutem problemáticas do Marajó  
terça-feira, 13 de abril de 2010

Aconteceu no dia de hoje em Belém, uma reunião com dezenas de vereadores do Marajó, reunidos na sede da AMAM, onde discutiram as problemáticas do arquipélago marajoara. A solução encontrada foi à realização de uma conferência dos vereadores para tratar de vários assuntos fundamentais como: Educação, Saúde, Segurança, Geração de Emprego e Renda, Infra-Estrutura e outros. O evento pretende reunir os 145 vereadores do Marajó, bem como os 16 prefeitos, vice-prefeitos e representantes do Governo do Estado, do Governo Federal e entidade civis organizadas para buscar formas de desenvolver o Marajó por inteiro. O evento também pretende fortalecer a AVIM (Associação dos Vereadores do Arquipélago do Marajó), uma entidade representativa que está enfraquecida. O município escolhido para realizar a conferência foi Breves. Serão convidados todos os 41 Deputados Estaduais, 16 Federais e os 3 Senadores da República, Vice-Governador e Governadora.
 

sábado, 22 de janeiro de 2011

Ferreira de Castro apresenta Dalcídio Jurandir

Preâmbulo da edição portuguesa do livro Belém do Grão Pará
Por Ferreira de Castro.

Muitas vezes, dezenas de vezes, tenho declinado escrever prefácios. E, se algum dia legendei pórticos de livros alheios, aceitando o papel de entruso em casa de outrem, é porque a isso me solicitaram razões bastantes diferentes das normais.
Julgo que os prefácios podem carrear alguma utilidade quando se trata de instruir os eventuais leitores dum livro estrangeiro sobre o seu autor, até aí por eles ignorado.  Ou quando são dos próprios autores, se têm algo a esclarecer que não puderam inserir, por incompatibilidade estética com o assunto e até com o estilo, nas suas novas construções literárias. Ou ainda se constituem aprofundados estudos, à semelhança desses que antecedem, em edições críticas, os textos já clássicos.

Todos os demais prefácios me parecem inúteis e, frequentemente, mesmo nocivos aos prefaciados. Privam o autor do livro de surgir na arena de cabeça erguida, se não penachoso, pelo menos sem muleta a auxiliar-lhe falsamente os passos – e não exercem influência benéfica alguma.  Não exercem porque o leitor sempre pensará, antecipada e legitimamente, que neles, em vez de julgamento imparcial, se encontrará apenas um turíbulo lançando fumo no ar.  Nocivos, mesmo nesse caso, porque há elogios que na aparência dizem sim e na essência dizem não, tão encolhidos, tão cautelosos e tão elaborados foram por um prefaciador que deseja apenas desobrigar-se do compromisso tomado contra sua vontade. E que receia comprometer-se em afirmações que possam levar ao outros a considerá-lo pouco inteligente e nada culto.A compreensível vaidade humana da maioria dos padrinhos literários só se pode comparar a ingenuidade da maioria dos afilhados.
Se a obra prefaciada obtém êxito, a nocividade será maior ainda.  Todos os intoxicados pela inveja sussurrarão que o triunfo se deve ao nome do prefaciador e não ao trabalho do prefaciado, que assim vê ensombrados os méritos próprios e ofendidas as longas horas de dúvida e esperança, de inquietude, de tortura e renúncia a outra solicitações da vida, que sua obra tantas vezes lhe custou.
E então o patrocinado arrepende-se de haver solicitado o patrocínio e lá no fundo da sua alma, confusamente, involuntariamente, acaba por detestar o patrocinador.    
Ora da mesma maneira que não é o título que impõe um livro, a menos que sugira um trabalho pornográfico, também não há prefácio algum que faça, só por si, o êxito  duma obra literária, se ela não tiver valor.
Escritores e poetas de todo mundo uni-vos contra os prefácios que tão esperançadamente solicitais!
Mas, pensando eu assim, porque acedi ao desejo de  Lyon de Castro, meu velho amigo, estou aqui a escrever um prefácio?
                                                   
Apesar de celebrado, desde há anos, pelos maiores críticos literários do Brasil, como um dos mais importantes romancistas actuais do seu país, tão rico de ficcionistas, Dalcídio Jurandir era, até agora, desconhecido em Portugal.  E perfeitamente se compreende que a sua obra, ao aparecer pela primeira vez entre nós, carecesse de alguém, situado no átrio, a explicar quem é o seu glorioso autor.
É fácil a tarefa, sobretudo para mim, que conheço as características físicas e humanas da terra amada onde ela se gerou.
Dalcídio Jurandir nasceu no Marajó. Nasceu numa grande ilha, de tal modo situada no delta do Amazonas que lembra, se a virmos no mapa ou de avião, uma gigantesca presa verde na boca aberta de incomensurável serpente cor de barro.
Se algum dia a literatura teve ali uma episódica florescência, jamais a brisa da glória expandiu o seu perfume, longe e demoradamente, no tempo e no espaço.
A ilha possuía, contudo, um privilégio. De todas aquelas vastas paragens, vizinhas do Atlântico, só ela encerrava nas entranhas um valioso espólio arqueológico, as famosas “marajoaras”, cerâmicas velhas de séculos, hoje a prestigiarem vários museus do mundo.
Cerâmicas muito quietinhas e silenciosas no subsolo e milhares de manadas de bovinos pastando na superfície era a síntese que se fazia do Marajó. Do espírito dos artistas  remotos só haviam ficado, além do mistério, aqueles magníficos vasos, alguns simbolicamente partidos.  Mas a ilha moderna, de vaqueiros, de fazendeiros e de bois, parecia não ter alma.  Certamente que alguns poetas, no país onde fulguraram sempre muitos, lha terão pressentido ou emprestado a sua.  Não guarneceriam, porém, a história literária.
Esse condão reservara-o a ilha para Dalcídio Jurandir. Ele foi o redescobridor e o intérprete do Marajó. Ele foi, não só para o Marajó, mas para o Estado do Pará, o que Jorge Amado, Lins do Rego, Raquel de Queiroz e outros grandes romancistas tinham sido nos anos 30, para os Estados do Nordeste brasileiro.
Dalcídio Jurandir que esqueceu a singular natureza da sua terra,mas ocupa-se principalmente dos habitantes.   Após haver analisado figuras do interior do Pará, ei-lo a examinar, neste romance, algumas da capital.  E as possibilidades do seu talento são tão grandes e tão diversas que dir-se-á ter ele sido sempre um romancista urbano.
Residí cinco anos em Belém do Pará, nessa idade em que a  memória concorre com o bronze, guardando para o futuro quanto nela se grava.  Dalcídio Jurandir não descreve em vastas panorâmicas a bela cidade, a que frondosas mangueiras dão tanto caráter.  Mas a sua arte é tão eficaz que por simples alusões a pormenores ou breve imagens,de que são exemplo as do mercado de Ver-o-Peso, ele a constrói como quem aglutina um puzzle e acaba por no-la apresentar tão exacta e colorida que eu, ao lê-lo, tive a sensação de haver regressado ali ao cabo de muitos anos.
Essa virtude constitui, por sua vez, também um pormenor apenas do bloco de méritos literários que rutilam neste romance  duma família paraense.  Grande psicólogo e observador, Dalcídio Jurandir é, consequentemente, um grande criador de personagens.  A família Alcântara, eixo da história, com suas ambições, suas frustrações, vaidades e mediocridades, está viva e muito viva continua, mesmo se alguma flecha irônica do autor a  traspassa ou um outro traço caricatural a castiga. Em volta destes planetas centrais movem-se alguns pequenos satélites, sobretudo a “caboclita Libânia”  e o “menino Alfredo”,  ambos no alvorecer da experiência humana, ambos agraciados por uma discreta e poética ternura, tendo ao último o autor concedido e adaptado, bem provavelmente, trechos da sua própria vida.
Obra que revela a Portugal um grande escritor, obra de vasta e variada riqueza, explícita e implícita, Belém do Grão-Pará pertence, por isto mesmo, ao número dos romances que devem ser lidos muito atentamente, para não se perder nenhuma das suas altas qualidades.  Maio/1974.
OBS: Este prefácio foi um dos últimos, se não o último, dos textos literários que Ferreira de Castro escreveu.  Veio a falecer no dia 29 de junho deste mesmo ano.
Simbolicamente, estas páginas finais da carreira de Ferreira de Castro como escritor são ainda um testemunho do seu entranhado amor de toda a vida pelo Brasil e por brasileiros

O MODO LÚMPEN DE ESTAR NO MUNDO: DALCÍDIO E JOSEPH CONRAD

Como diria Gabriel Garcia Marques, Macondo está no mundo. No caso digo eu a Criaturada grande de Dalcídio povoa o vasto mundo... Vejam vocês como a internet vem a calhar na refazenda do lumpemproletariado global.

A academia do peixe frito é patrimônio da humanidade (malgré lui...). Aos dalcidianos a ver se tenho razão ou não em achar no artigo a seguir traços marcantes da literatura de Dalcídio Jurandir (Ponta de Pedras, Marajó-PA 1909 - Rio de Janeiro-RJ 1979). 
***
Bem antes de Michel Foucault, Joseph Conrad já denunciava, através de sua literatura, o discurso da “luta de raças” funcionar como princípio de eliminação, de segregação e, finalmente de normalização da sociedade.
Cristóvão Feil (*) na Carta Maior
Zygmunt Bauman exalta a capacidade da narrativa dos romancistas de iluminarem os meandros da experiência humana de estar no mundo. O grande sociólogo contemporâneo, nascido na Polônia, faz essa constatação para espicaçar a academia e o que ele considera a alienação de alguns profissionais de ciências sociais. Para Bauman, a literatura consegue alcançar os interstícios, as frinchas da realidade, onde a pesquisa sociológica jamais chegou. Para ele, os literatos são capazes de “reproduzir a não-determinação, a não-finalidade, a ambivalência obstinada e insidiosa da experiência humana e a ambigüidade de seu significado”. E para ilustrar cita Borges, Tolstói, Balzac, Dickens, Dostoiévski, Kafka, Thomas Morus. Mas poderia ter citado um conterrâneo seu, que, a exemplo dele, fez a sua vida profissional na Inglaterra e, portanto, em língua inglesa, que foi Joseph Conrad.
Joseph Conrad
Conrad é o autor de “O coração das trevas”, alegoria (uma seqüência de metáforas) sobre as conquistas coloniais do capitalismo concorrencial do século 19. Barra pesada. Se Marx, n’O Capital, já havia ido fundo nas denúncias ilustrativas das desumanidades do moderno sistema produtor de mercadorias nas suas fases de acumulação primitiva e concorrencial, Conrad agudiza sua literatura até o ponto do horror. O personagem narrador é Marlow, protagonista de uma aventura que penetra “nos sombrios domínios do inferno particular” de uma empresa privada, exploradora de marfim na África. Homens-bagaço sugados à exaustão. Canibais recrutados como mão-de-obra informal e que, impedidos da dieta alimentar correspondente a sua condição antropológica, dedicam-se a engolir carne podre de hipopótamo, e cujo salário se resume a três pedaços de arame por semana, preciosa moeda de troca naqueles “confins de ermas solidões”. Conrad cria nesse romance um personagem mítico chamado Kurtz (depois decalcado no filme de Coppola, Apocalypse Now [1979], completamente fora desse contexto), um sujeito internado no coração das trevas, uma ponta de lança do capitalismo, agente avançado da modernidade burguesa no seio da barbárie, cuja fortaleza-sede é decorada com cabeças humanas genuínas, para mostrar com quem estão falando. “Toda a Europa contribuíra para a confecção de Kurt” – escreve Conrad. Ele é a síntese mais acabada do etos da modernidade. A Sociedade Internacional para a Supressão dos Costumes Bárbaros (e só falta Conrad completar, debochadamente, “…e pró adoção de modernos barbarismos”) confiou a Kurtz o preparo de um relatório sobre a África. O relatório contém pérolas do tipo: “nós os brancos, considerando o progresso que já tínhamos alcançado, devemos forçosamente ser encarados por eles (os selvagens) como seres sobrenaturais”; “chegamos a eles investidos dos poderes de uma divindade”; para concluir com a aterradora sentença de morte – “Exterminemos todos os bárbaros!”. As semelhanças fundamentalistas com a presente conjuntura mundial não são mera coincidência.
Bem antes de Michel Foucault, Conrad já denunciava, através de sua literatura, o discurso da “luta de raças” funcionar como princípio de eliminação, de segregação e, finalmente de normalização da sociedade (Foucault)…
Veja, também, que Conrad aponta o uso astucioso do imaginário mágico-mítico das populações autóctones. Kurtz, o homem-síntese da Europa civilizada, da Europa duas vezes desencantada-desmagificada-racionalizada-intelectualizada (Max Weber), tanto pela ética religiosa judaico-cristã, quanto pelo espírito do racionalismo científico, não hesita em lançar mão de expedientes considerados primitivos, como a idolatria e o sobrenatural, com objetivos de submissão, conquista e normalização.
Alguns comentadores (nem chegam a ser críticos) afirmam levianamente que Kurtz enlouquece na selva, que perde o juízo, tendo em vista a selvageria e a barbárie com as quais convive por anos a fio. Nada mais etnocêntrico. Como se a hipotética “loucura” viesse de fora, como se fosse inoculada pela relação promíscua com os selvagens. Considerar assim seria uma simplificação grosseira, além, de irrelevante. Como indivíduo, ele, de fato, fica sensivelmente abalado com o que provocou naquele lugar: “O horror! O horror!” Mas como agente social da modernidade burguesa, Kurtz tem as taxas de lucidez e as taxas de demência em doses flutuantes de equilíbrio e controle racionais para, tanto impor sua vontade de predador da Natureza (humana, animal e vegetal), quanto para – com método e determinação – traficar espíritos, força de trabalho semi-escrava e mercadorias com objetividade de propósitos sincronizados a uma rede de negócios comerciais na distante Europa. Onde está a loucura disso? Muito ao contrário, sente-se o tom permanente da acuidade, da expertise, da logística complexa e da organicidade sistêmica em todas essas ações gerenciais de predação da Natureza, nas suas várias formas de vida. É a “arte da guerra” a serviço da rapinagem comercial. E a rapinagem não é somente de elefantes e seus cobiçados marfins, ela corrompe por igual o ambiente inteiro, dissolvendo, sobretudo, o homem e a sua cultura. A cogitada “loucura” de Kurtz é como o procedimento do feiticeiro – lembrado por Marx, no Manifesto – que, incapaz de controlar os poderes ocultos desencadeados por seu feitiço, vê-se vítima de seus efeitos. Os danos causados, no limite, levam perigo ao próprio empreendimento colonial europeu, seus patrões. A “loucura” é – a rigor – um lento processo de lumpenização do personagem. Kurtz não enlouquece, transforma-se num lúmpen. Em alguém que se descola de sua classe e, incapaz de voltar ao seio de uma vida burguesa, torna-se um marginal imprudente que coloca em risco a mecânica do sistema. Simbolicamente, ele seria o lúmpen fundamental, o lúmpen essencial.
Como um Fausto lúmpen pós-moderno, se envenena com as emanações maléficas de seus próprios feitos. Se o Fausto de Göethe era moderno, o Fausto lúmpen representa a pós-modernidade. Vive os limites fisiológicos do dia-a-dia. Como um cão que desconhece o seu futuro, o lúmpen pós-moderno só tem o presente. Vive tão-somente a unidimensional existência fisiológica, como qualquer animal.
O trem do capitalismo já passou pela estação da modernidade e transita agora pela estação da pós-modernidade. Cada vez menos setores, classes e indivíduos cabem nesse sinistro trem da história. Abandonados pelo caminho, vão sobrando todos os rejeitos do moderno sistema produtor de mercadorias. O lúmpen é a escumalha que fica no rastro desse itinerário perverso. O grande personagem pós-moderno é o lúmpen, “o lixo de todas as classes”, “massa desintegrada” (Marx), desgovernada que é vomitada pelo sistema, todos os dias. Cresce como cogumelo na vida social contemporânea. Estamos em plena invasão lúmpen, fenômeno dinâmico que produz um etos, uma cultura e perfis sociológicos que lhes correspondem. Há punhados de exemplos. O mais recente no Brasil é o da proliferação dos bingos, jogo-lúmpen que servia de fachada para toda a sorte de atividade marginal e anti-social. Felizmente o governo federal teve a coragem de fazer cessar essas usinas de lumpesinato. Em que pese, o causador dessa proibição ter sido outro personagem lúmpen que assola a República, o do barbabé-quadrilheiro que trafica influências e recursos públicos para fins pessoais e privados. A crescente criminalização da vida social é uma derivação da dinâmica lúmpen. O crime passa a constituir-se em força produtiva e meio de vida para milhões de pessoas. Manifesta-se, no plano econômico, de múltiplas e criativas formas: “acordos e cartéis, abusos de posição de liderança, dumping e vendas casadas, delitos de iniciados e especulação, absorção e desmembramento de concorrentes, balanços falsos, manipulações contábeis e de preços de transferências, fraude e evasão fiscal por filiais off shore e sociedades virtuais, desvio de créditos públicos e mercados fraudados, corrupção e comissões ocultas, enriquecimento ilícito e abuso de bens sociais, vigilância e espionagem, chantagem e delação, violação do direito do trabalho e da liberdade sindical, da higiene e da segurança, das cotizações sociais e ambientais” (Brie). A vanguarda é o lúmpen.
A lavagem de fundos ilícitos pelos principais bancos dos Estados Unidos constitui uma fonte importante de fluxos externos para aquele país. Uma subcomissão do Senado americano calculou essa cifra em torno de 500 bilhões de dólares/ano. São recursos de múltipla origem: desde o narcotráfico, máfia russa e japonesa até o caixa dois de companhias multinacionais, depósitos de paraísos fiscais “legalmente” tolerados. Tráfico de tudo: novos narcóticos sintéticos, cocaína, armamento pesado, órgãos humanos, alta prostituição, falsificação de grifes (muitas vezes pelos próprios proprietários, com o intuito de aproveitar o crescente mercado-lúmpen informal em todas as grandes cidades do mundo), pirataria na informática e na indústria fonográfica, o tráfico de animais (só este tráfico, movimenta anualmente cerca de 20 bilhões de dólares), etc.
Toda a inteligência e logística estatal norte-americana do serviço secreto que era empregado na Guerra Fria onde opera, hoje? Ganha um doce quem disser que é na nova guerra econômica pela americanização de fundos legais e ilegais (fundos-lúmpen), tanto faz. A moeda é uma mercadoria vil que procura proteção máxima; e os EUA podem dispor de meios para garantir-lhe segurança e rentabilidade.
O comércio mundial anual situa-se, hoje, “ao redor de 5 trilhões de dólares, calcula-se que 20% por via do crime, ou 1 trilhão de dólares” (Brie). Essa riqueza-lúmpen é administrada lisa e serenamente pelos grandes bancos do planeta, por grandes escritórios de advocacia, mega-corretores, intermediários diversos, gerentes e diretores de trustes e fiduciárias, constituindo um bolão-lúmpen que é lavado todos os dias, em quantidades parcelares, pela chamada economia legal. Essa mega lavanderia-lúmpen cobra pedágio em vidas humanas. A Rocinha é apenas um exemplo nacional que ilustra essa internacional-lúmpen da violência naturalizada.
O crescimento mundial da dinâmica lúmpen é um indicativo evidente da enfermidade estrutural do sistema produtor de mercadorias. Os filhos de Kurtz proliferaram e querem ser vanguardas da anomia social. O modo lúmpen de estar no mundo é o último capítulo da saga Iluminista. A montanha liberal pariu ratos que roem a humanidade do homem. À esquerda acomodada, restam apenas podres poderes.
Na foto: Joseph Conrad
(*) Cristóvão Feil é sociólogo e ensaísta