sábado, 22 de janeiro de 2011

Ferreira de Castro apresenta Dalcídio Jurandir

Preâmbulo da edição portuguesa do livro Belém do Grão Pará
Por Ferreira de Castro.

Muitas vezes, dezenas de vezes, tenho declinado escrever prefácios. E, se algum dia legendei pórticos de livros alheios, aceitando o papel de entruso em casa de outrem, é porque a isso me solicitaram razões bastantes diferentes das normais.
Julgo que os prefácios podem carrear alguma utilidade quando se trata de instruir os eventuais leitores dum livro estrangeiro sobre o seu autor, até aí por eles ignorado.  Ou quando são dos próprios autores, se têm algo a esclarecer que não puderam inserir, por incompatibilidade estética com o assunto e até com o estilo, nas suas novas construções literárias. Ou ainda se constituem aprofundados estudos, à semelhança desses que antecedem, em edições críticas, os textos já clássicos.

Todos os demais prefácios me parecem inúteis e, frequentemente, mesmo nocivos aos prefaciados. Privam o autor do livro de surgir na arena de cabeça erguida, se não penachoso, pelo menos sem muleta a auxiliar-lhe falsamente os passos – e não exercem influência benéfica alguma.  Não exercem porque o leitor sempre pensará, antecipada e legitimamente, que neles, em vez de julgamento imparcial, se encontrará apenas um turíbulo lançando fumo no ar.  Nocivos, mesmo nesse caso, porque há elogios que na aparência dizem sim e na essência dizem não, tão encolhidos, tão cautelosos e tão elaborados foram por um prefaciador que deseja apenas desobrigar-se do compromisso tomado contra sua vontade. E que receia comprometer-se em afirmações que possam levar ao outros a considerá-lo pouco inteligente e nada culto.A compreensível vaidade humana da maioria dos padrinhos literários só se pode comparar a ingenuidade da maioria dos afilhados.
Se a obra prefaciada obtém êxito, a nocividade será maior ainda.  Todos os intoxicados pela inveja sussurrarão que o triunfo se deve ao nome do prefaciador e não ao trabalho do prefaciado, que assim vê ensombrados os méritos próprios e ofendidas as longas horas de dúvida e esperança, de inquietude, de tortura e renúncia a outra solicitações da vida, que sua obra tantas vezes lhe custou.
E então o patrocinado arrepende-se de haver solicitado o patrocínio e lá no fundo da sua alma, confusamente, involuntariamente, acaba por detestar o patrocinador.    
Ora da mesma maneira que não é o título que impõe um livro, a menos que sugira um trabalho pornográfico, também não há prefácio algum que faça, só por si, o êxito  duma obra literária, se ela não tiver valor.
Escritores e poetas de todo mundo uni-vos contra os prefácios que tão esperançadamente solicitais!
Mas, pensando eu assim, porque acedi ao desejo de  Lyon de Castro, meu velho amigo, estou aqui a escrever um prefácio?
                                                   
Apesar de celebrado, desde há anos, pelos maiores críticos literários do Brasil, como um dos mais importantes romancistas actuais do seu país, tão rico de ficcionistas, Dalcídio Jurandir era, até agora, desconhecido em Portugal.  E perfeitamente se compreende que a sua obra, ao aparecer pela primeira vez entre nós, carecesse de alguém, situado no átrio, a explicar quem é o seu glorioso autor.
É fácil a tarefa, sobretudo para mim, que conheço as características físicas e humanas da terra amada onde ela se gerou.
Dalcídio Jurandir nasceu no Marajó. Nasceu numa grande ilha, de tal modo situada no delta do Amazonas que lembra, se a virmos no mapa ou de avião, uma gigantesca presa verde na boca aberta de incomensurável serpente cor de barro.
Se algum dia a literatura teve ali uma episódica florescência, jamais a brisa da glória expandiu o seu perfume, longe e demoradamente, no tempo e no espaço.
A ilha possuía, contudo, um privilégio. De todas aquelas vastas paragens, vizinhas do Atlântico, só ela encerrava nas entranhas um valioso espólio arqueológico, as famosas “marajoaras”, cerâmicas velhas de séculos, hoje a prestigiarem vários museus do mundo.
Cerâmicas muito quietinhas e silenciosas no subsolo e milhares de manadas de bovinos pastando na superfície era a síntese que se fazia do Marajó. Do espírito dos artistas  remotos só haviam ficado, além do mistério, aqueles magníficos vasos, alguns simbolicamente partidos.  Mas a ilha moderna, de vaqueiros, de fazendeiros e de bois, parecia não ter alma.  Certamente que alguns poetas, no país onde fulguraram sempre muitos, lha terão pressentido ou emprestado a sua.  Não guarneceriam, porém, a história literária.
Esse condão reservara-o a ilha para Dalcídio Jurandir. Ele foi o redescobridor e o intérprete do Marajó. Ele foi, não só para o Marajó, mas para o Estado do Pará, o que Jorge Amado, Lins do Rego, Raquel de Queiroz e outros grandes romancistas tinham sido nos anos 30, para os Estados do Nordeste brasileiro.
Dalcídio Jurandir que esqueceu a singular natureza da sua terra,mas ocupa-se principalmente dos habitantes.   Após haver analisado figuras do interior do Pará, ei-lo a examinar, neste romance, algumas da capital.  E as possibilidades do seu talento são tão grandes e tão diversas que dir-se-á ter ele sido sempre um romancista urbano.
Residí cinco anos em Belém do Pará, nessa idade em que a  memória concorre com o bronze, guardando para o futuro quanto nela se grava.  Dalcídio Jurandir não descreve em vastas panorâmicas a bela cidade, a que frondosas mangueiras dão tanto caráter.  Mas a sua arte é tão eficaz que por simples alusões a pormenores ou breve imagens,de que são exemplo as do mercado de Ver-o-Peso, ele a constrói como quem aglutina um puzzle e acaba por no-la apresentar tão exacta e colorida que eu, ao lê-lo, tive a sensação de haver regressado ali ao cabo de muitos anos.
Essa virtude constitui, por sua vez, também um pormenor apenas do bloco de méritos literários que rutilam neste romance  duma família paraense.  Grande psicólogo e observador, Dalcídio Jurandir é, consequentemente, um grande criador de personagens.  A família Alcântara, eixo da história, com suas ambições, suas frustrações, vaidades e mediocridades, está viva e muito viva continua, mesmo se alguma flecha irônica do autor a  traspassa ou um outro traço caricatural a castiga. Em volta destes planetas centrais movem-se alguns pequenos satélites, sobretudo a “caboclita Libânia”  e o “menino Alfredo”,  ambos no alvorecer da experiência humana, ambos agraciados por uma discreta e poética ternura, tendo ao último o autor concedido e adaptado, bem provavelmente, trechos da sua própria vida.
Obra que revela a Portugal um grande escritor, obra de vasta e variada riqueza, explícita e implícita, Belém do Grão-Pará pertence, por isto mesmo, ao número dos romances que devem ser lidos muito atentamente, para não se perder nenhuma das suas altas qualidades.  Maio/1974.
OBS: Este prefácio foi um dos últimos, se não o último, dos textos literários que Ferreira de Castro escreveu.  Veio a falecer no dia 29 de junho deste mesmo ano.
Simbolicamente, estas páginas finais da carreira de Ferreira de Castro como escritor são ainda um testemunho do seu entranhado amor de toda a vida pelo Brasil e por brasileiros

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