sábado, 31 de março de 2012

A Educação pelo Barro












A Educação pelo Barro

Entre chuvas e esquecimento, há 1500 anos, em páginas concretas de cerâmica; o Marajó velho de guerra mandou escrito seu grito às margens plácidas do Ipiranga. Tributo amazônico da invenção coletiva de um país do futuro chamado Brasil, sito abaixo da constelação do Cruzeiro do Sul, então conhecido ou imaginado pelas muitas gentes do equador da América do Sol pelo sagrado nome de Arapari: isto, paresque, se passava durante diversas migrações ancestrais do circum Caribe. Hoje nós sabemos que aquilo foi a primeira manhã ao fim da primeira noite do mundo. Mito fecundador da amazonidade que existia encerrado dentro de um caroço de tucumã no fundo do Rio babel das amazonas amazônicas, ditas então icamiabas...

Aí, menina! Vai por mim: o que dá pra rir dá pra chorar... Então, começaram a chegar feios caraíbas, comedores de gente; pelas bandas do setentrião do mar Salgado e também pelo lado do meio-dia do Pará grande d’água doce... Até hoje em dia essas corporações transnacionais famintas de matéria-prima e trabalho barato. Naquele tempo, o socorro da gente eram as matriarcas. As velhas tinham lá os seus arcanos de vida e morte com que aprenderam da cobra jararaca a fazer remédio e veneno conforme a necessidade e acaso, segredos da nossa mãe Lua transmitidos às mulheres com os mistérios das águas e a força das marés. Com isto os guerreiros eram guiados pela sabedoria certa do tempo das safras e da piracema. Na guerra ou na paz as mulheres e suas crias estavam em primeiro lugar: para o valente fazia sentido a poesia de Pessoa: navegar é preciso, viver não é preciso... Criou-se assim a dialética da dança do peixe: a pirapuraceia. Com isto, veio a furo a resistência marajoara. Luta vital que haveria de perdurar até o fim dos tempos da guerra antropofágica global.

Deste modo, sempre em busca do de comer nosso de cada dia chegou-se ao manejo dos gados do rio e fabrico do bom vinho de açaí com pirão de farinha d’água. Evoluiu-se da arquitetura aruaque de palafitas do mangal à engenharia nuaruaque dos tesos com o divino barro dos começos do mundo (lembrando a saudação do turco encantado Jorge Amado da Bahia ao índio sutil do Pará Dalcídio Jurandir...). E, portanto, não careceu pagar patente de invenção à civilização do delta do Nilo para inventar a civilização do estuário amazônico: tudo, afinal de contas, a mesma Terra sem males procurada por males infinitos seja neste novo mundo ou no velho continente da gente. A universidade da maré requer consciência através do olhar marajoara para ver o peso da educação ribeirinha.

O mundo precisa saber que o maior país amazônico do mundo é o Brasil: porém, sem a Amazônia lusitana não existiria o país gigante da América do Sul. Foram precisos 44 anos de guerra a partir da conquista do Maranhão (1615) para inventar a Amazônia e 127 anos de ocupação depois da tomada de Gurupá, mais ou menos pacífica, para Alexandre de Gusmão sair vitorioso das negociações do Tratado de Madri de 1750. Mas, é certo que a escola historiográfica imperial passa ao largo das pazes com os índios do Marajó, em 1659. Certamente, devido à vetusta doutrina do jurisconsulto Ginés de Sepúlveda da “guerra justa” pela qual era dever cristão submeter os povos mulçumanos e escravizar os índios... Que, portanto, estando destinados ao limbo não tinham direito nenhum.

Sobre o pensamento deste nobre eunuco da cristandade foi fundado o edifício da jurisprudência colonial ibérica. Não espanta que seus herdeiros espirituais até hoje ainda relutem em aceitar os direitos humanos universais e a convenção da diversidade cultural. Curiosamente, contra ele outro dominicano, frei Bartolomeu de Las Casas; proponha um processo colonial com inclusão dos índios que deveriam ser protegidos e gradualmente integrados ao cristianismo: o mesmo que Antonio Vieira propunha aos reis de Portugal com referência às suas colônias...

A biografia deste pilar da Civilização ocidental-cristã é reveladora de um grave transtorno bipolar agravado por acidente de equitação que o levou à castração. Desde então, ele foi alcunhado de “Ginés, o amputado” e alimentou um complexo de compensação que a psicologia de Adler explica. Um dos traços mais curiosos da personalidade de Ginés foi sua dieta alimentar, fazendo leitura de Aristóteles ele associava virilidade física ao vigor intelectual. Para ele força peniana era justa medida do intelecto. Propunha a seus seguidores uma alimentação para virilidade onde havia cabeças de peixe (referencia à glande), leite, testículos de animais e o hábito de beber a própria urina. Isto virou moda entre clérigos e intelectuais de Bolonha, Sicília e Florença no século XVI. E como Sepúlveda outros mentores alucinados forjaram a História e o Direito civilizatórios dos “povos inferiores”...

Sendo assim, não é só o Brasil e o mundo que tem que salvar a Amazônia por causa da floresta e a pureza de seus rios. É Marajó que precisa ser restaurado e revitalizado em suas raízes humanas primogênitas para os brasileiros do Oiapoque ao Chuí voltarem ao futuro do Brasil brasileiro. Uma utopia brasílica capaz de apontar a saída que o novo mundo pós-colonial carece. A fim de dar passo avante com toda humanidade libertada de seus próprios fantasmas.

Já não se há de procurar mais o velho caminho da Índia nem buscar com avidez negócios da China. Mas, as Índias orientais e ocidentais a se encontrarem numa Terra única: e o caminho do meio, transformado pela antropofagia filosófica, da arcaica zona tórrida das Antípodas no espaço plano; há de ser a ponte internacional da segurança alimentar pelo laboratório dos Trópicos no espaço curvo. Que, por acaso, trouxe Colombo com seus demônios a inventar e destruir as Índias ‘acidentais’...

O primeiro passo na recuperação da velha universidade antropofágica para inaugurar a nova universidade do Marajó pós-moderno será a libertação da Antropologia dos dogmas naturalistas do “Homo sapiens”: onde o olhar velhaco da Europa investe-se de uma missão autocomplacente de civilizar o mundo e se apropriar dele contra os Outros... Então, este novo caminho de Damasco dos nossos catequizadores deverá lhes fazer cair as escamas dos olhos. E lhes curar a cegueira de que falou o Padre Antônio Vieira, no Maranhão em 1654, no “Sermão aos Peixes”. Que não são os civilizados a salvar os bárbaros. Mas, bem ao contrário os bárbaros que no fim da história da infâmia hão de salvar os civilizados de si mesmos.

Aí serão as mulheres – sobretudo mulheres indígenas e quilombolas – as nossas mestras e educadoras nessa Universidade do futuro da humanidade. Pena que o filósofo luso-brasileiro Agostinho Silva, talvez, não curtiu tanto as pazes dos Nheengaíbas: antepassados dos cabocos ribeirinhos nas ilhas da Amazônia Marajoara, no rio dos Mapuá (Breves, Marajó) urdidas com realismo mágico pelo seu idolatrado “imperador da língua portuguesa”, Vieira (segundo o poeta Fernando Pessoa). Pois, destarte, o sebastianismo revivido ainda no “rio Babel” (rio das “almazonas”) proclamaria o “menino”, que vive eternamente na espécie “Homo sapiens”, imperador do quinto império. Ou quiçá o Desenvolvimento Sustentável. Esta utopia ambiental perseguida pela ONU através de diplomacia e pompa. Como, por exemplo, na RIO+ onde mais uma vez as populações tradicionais (“Criaturada grande de Dalcídio”, no Marajó, Baixo Amazonas e Ilhas) darão eco daquele antiqüíssimo grito indígena perdido entre chuvas e esquecimento na boca do maior rio da Terra.