domingo, 27 de dezembro de 2015

Belém da Amazônia 500 Anos (2116): carta do Futuro.

Utrecht
canal da cidade de Utrecht (Holanda), a nos lembrar de que Belém do Grão-Pará poderia no passado, caso o plano Gronfelts tivesse sido realizado, em vez do aterramento do igarapé do Piry; ter sido uma Veneza equatorial. Inspiração para a cidade ribeirinha do futuro se os jovens de hoje quiserem mudar a história preparando-se desde agora a assumir os cargos técnicos de nível universitário e políticos que, necessariamente, hão de conquistar na pólis amazônida do Milênio.





A desconhecida história de uma "Veneza Brasileira", que foi, sem nunca ter sido, na Belém esquecida há mais de 200 anos.

Em 1771, o engenheiro alemão Gaspar Gerardo Gronfelts cogitou aproveitar a existência do igarapé no plano de transformação da cidade. Ao invés de aterrar o extenso alagadiço, como era desejo do governo, Gronfelts imaginou aproveitá-lo, em conjunto com os igarapés do Reduto e das Almas ( Atual Doca de Souza Franco ), para a construção de três enormes entradas de água, que seriam aproveitadas em diferentes canais que dariam a Belém beleza ainda maior que a da cidade de Veneza, na Itália.

Contrariando o plano urbanístico de Gronfelts, o Conde dos Arcos, Governador da Província, então, não quis transformar Belém numa segunda Veneza. Achou melhor eliminar e aterrar o enorme igarapé, encarregando, para isso, o engenheiro João Rafael Nogueira. Assim, aos poucos o grande igarapé foi desaparecendo.

Sobre o aterro novas estradas surgiram, a antiga Bailique ( Ferreira Cantão), à Estrada das Mongubeiras (hoje Avenida Almirante Tamandaré), além é claro, de todos os problemas de drenagem, alagamentos e consequências urbanas da interferência sem respeitar a vocação da região.

Fonte: Memórias do Pará / Mapa: Belém - Gronfelts – 1773 / Haroldo Baleixe

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 " Anteriormente à sua urbanização, a área correspondente era conhecida como Piri, região alagadiça que separava as freguesias da Sé (núcleo original da cidade, 1616) da Campina (estabelecida em 1727 a oeste do sítio fundador). Aterrar era a saída natural para o seu aproveitamento. Em 1771, o major engenheiro alemão Gaspar João Geraldo Gronfelts propôs ao governador Fernando da Costa Ataíde Teive o plano de em vez de empregar trabalhos hidráulicos para obter a exsicação desta lezira era melhor ir com a indicação da natureza, e aperfeiçoar a sua obra, fazendo um lagamar, que as águas da inundação do rio e as ascendentes no fluxo do mar naturalmente ocupassem, segundo a peculiar descrição de Baena em 1839 [p. 258]. O lagamar seria um ambiente organizado para navegação. Se executado, o autor do projeto vislumbrava que a cidade de Belém do Pará ficará sendo mais bela que a adriática Veneza tão celebrada [Baena, 1839, p. 259]."

"Em 1803, no governo do Conde dos Arcos Dom Marcos de Noronha e Brito, o igarapé do Piri foi aterrado para atender aos avanços urbanísticos da Belém que crescia. Todavia, sua antiga foz foi transformada numa doca, tal como existe até hoje, mantendo-se ali as atividades do Ver-o-Peso. Mais tarde, já no final do século XIX, a margem da Baía do Guajará foi aterrada, transformando a paisagem do Ver-o-Peso: saíram os velhos trapiches de madeira, acabou-se a praia e o espaço foi ocupado pelas docas de pedra de lioz."


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 À juventude paraense nos 400 anos da Capital para construção solidária dos 500 janeiros de Belém: uma provocação de fim de ano para um projeto municipal "Este Rio É Minha Rua".



Os recursos humanos de uma nação ou cidade é sua maior riqueza. Diz-me o estado real da educação da população e eu te direi o futuro que aguarda o país ou município. O valor humano da gente é que empresta mais valia aos recursos naturais e à indústria local. Ninguém come nem vende potencial por maior que ele seja: carece transformá-lo em produtos e não se consomem produtos sem renda própria. Não se deve explorar a natureza como se não houvesse amanhã: isto é pirataria, o desenvolvimento para que seja sustentável de verdade precisa de sabedoria da gente do lugar antes que tudo. O Japão é exemplo de país de escassos recursos naturais, sujeito a cataclismos e o único no mundo que até hoje sofreu uma devastadora hecatombe nuclear, mas apesar de tudo ostenta uma civilização de alta tecnologia e desenvolvimento econômico invejável. 

A maior desgraça de um povo é o analfabetismo político acompanhado de conformismo com as coisas que não deram certo na sua história: se as passadas gerações nos deixaram um patrimônio que vale a pena conservar, então devemos redobrar esforços para não o perder. Mas, ao contrário, se ao longo do tempo algo precisa de reparo ou correção que seja dito, estudado e comentado a fim de consertar o erro ao quanto antes.

Muitos de meus contemporâneos ouvimos falar que nossa capital havia todas condições naturais para ser uma "Veneza" amazônica. Eu, entretanto, quando vejo a doca do Ver O Peso tendo ao fundo a rua Marquês de Pombal me lembro antes de Amsterdã com seus canais e lastimo muito que o plano urbano de Gronfelts tenha sido preterido pelo aterro do igarapé do Piry e todos, ou quase todos, se conformem com isto. Nada se fala, nada se propõe sempre ocupados por infinitas discussões sobre banalidades clubísticas, moda de imitação estrangeira, fofocas, futebol e novelas. A política, sem exceção de direita à esquerda, salvo um ou dois personagens dignos de nota; se afigura um desastre.

Salvo honrosas exceções, com exemplo geral do grande mestre da amazonidade Eidorfe Moreira, paraibano de berço e paraense por adoção; notadamente em seu estudo pioneiro "O Igapó e seu aproveitamento"; nunca tivemos uma geração belemense (sic) capaz de se rebelar contra a colonialidade de nossa história. Idolatramos a "belle époque" e suspiramos a falta do eterno Intendente Antônio Lemos, um honrado conservador maranhense que fez carreira política no Pará em meio a elites 'educadas' em Paris e Londres mas incapazes de gerir uma terra "imatura" de índios, brancos quase pretos de tão pobres, escravos e mestiços.

Quando nós criticamos o colonialismo logo parece que se está a renegar nossa origem portuguesa. Nada mais equivocado! O que além de impossível seria uma baita estupidez... Mas, de que Portugal estamos nós a falar? Seria bom conhecer melhor o barroco sebastianista do próprio Padre Antônio Vieira que aqui passou quase dez anos de sua vida e deixou traços profundos em nossa história. Um filósofo lusitanista da altura de Agostinho da Silva, o romantismo nacionalista de Almeida Garret, a literatura mal amada de Saramago - único prêmio Nobel da língua portuguesa - e para não ficar só aí a ciência social e política de um Boaventura de Sousa Santos nos dias de hoje e de amanhã. 

Que sabemos nós da revolução dos cravos? E por que com o vizinho Maranhão o Pará não se destaca na Comunidade de Países de Lingua Portuguesa (CPLP), somos junto aos falantes de português em todo mundo com 270 milhões de pessoas. Se não fosse por mais nada, pelo menos o mercado cultural donde Belém da Amazônia faria uma boa praça. Nós, volta e meia, ficamos chateados se alguém faz críticas ao colonialismo português, mas estamos nos lixando aos portugueses que lutaram e lutam ainda contra a colonialidade em toda extensão do mundo que o português inventou. Nosso inesquecível Tiradentes era português, sabiam? No entanto, não são poucos os irmãos portugueses que se quererem livrar das amarras do passado colonial, que levou Portugal a mergulhar numa lamentável guerra colonial em África e a pelejar muitas vezes para acorrentar o gigante da América do Sul.

Pois muito bem, comecemos por nos libertar do passado imperial convidando portugueses com esta visão descolonizadora das relações Brasil-Portugal. Vamos falar, dentre outras coisas, da utopia evangelizadora do padre Vieira no tempo da encíclica "Louvado seja" do Papa Francisco, sobretudo no que tange a nossa Amazônia. Mas não podemos esquecer da mensagem ecumênica da "História do Futuro" nas comemorações dos 400 anos de Belém com a sua grande mensagem de paz e fraternidade a cristão, judeus e mulçulmanos. Nem olvidar a carta a caminho de Cametá, "As Esperanças de Portugal" calcada nas "Esperanças de Israel" de Menassé ben Israel, rabino da comunidade judaica portuguesa de Amsterdã... Menassé achava que os ameríndios eram descendentes das tribos perdidas do cativeiro da Babilônia e Vieira, no Maranhão e Grão-Pará, se tornou o payaçu dos índios. Promoveu as pazes com os índios Nheengaíbas (marajoaras) insubmissos ao rei de Portugal em Mapuá (Breves), a 27 de Agosto de 1659. a cabo de 44 anos de guerra de conquista do rio Babel ou das Amazonas pela aliança de remos e arcos tupinambás e as armas e os barões assinalados. 

O antissemitismo, Vieira percebeu desde o primeiro instante, era a causa da ruína de Portugal e desgraça da Espanha: mas a Holanda acolhedora dos judeus perseguidos no resto da Europa e antagonista do colonialismo ibérico pelo motivo antes dito, era sem dúvida uma interlocutora indispensável para o reconhecimento da independência de Portugal (1640) ao mesmo tempo que, ao invadir o Brasil; deu azo à consciência de pátria ao povo brasileiro donde a semente da independência foi plantada nas lutas de Pernambuco, unindo lusos, negros e índios. Mas, devagar com o andor que o santo é de barro: a Holanda liberal e progressista que andou plantando feitorias no rio Amazonas e saiu sob flechadas de índios tupinambás e tiros de arcabuz português foi a mesma promotora do abominável regime de apartheid na África do Sul.

Não podemos nos esquecer da nação Tupinambá nos 400 anos de Feliz Lusitânia (Belém do Grão-Pará): sem índios da utopia selvagem a Terra sem males, não estaríamos aqui para contar história. O Pará teria sido holandês ou francês, mas agora além de brasileiro somos cidadãos do mundo. O Igarapé do Piry, certamente, se referia ao cacique cuja aldeia hospedou Daniel de La Touche e sua expedição a Cametá, chamada "Mairi" (de mair, louro, francês). Foi no outeiro junto à boca deste igarapé que os tupinambás contatados pelo piloto Charles des Vaux para receber o capitão-mor português Francisco Caldeira Castelo Branco, que índios e brancos juntos levantaram o forte do Presépio, a 12 de janeiro de 1616. Três anos mais tarde, em 7 de janeiro de 1619: entraram em guerra uns com os outros, precisamente pelos abusos cometidos pelos lusos...

Além do outeiro à margem esquerda da foz do Igarapé desaguando na baía do Guajará, onde se levantou o forte; o comprido curso d'água se comunicava com o Igarapé Juçara (no cruzamento hoje da avenida 16 de Novembro com o Canal Tamandaré). Ambos tinham cabeceiras no Lago do Piry (além da travessa Padre Eutíquio em direção ao Largo da Trindade). Este trecho à ilharga da cidade nascente era parte do chamado Caminho do Maranhão levando ao Utinga e rio Guamá, até o varadouro do rio Caeté (Bragança) que o capitão Pedro Teixeira com escolta e guias indígenas tomou para levar a notícia de fundação de Belém a São Luís do Maranhão.

Esta mensagem aos jovens paraenses nos 400 anos da capital do Pará os convida a amar e defender esta singular cidade amazônica, estudando e compreendendo tudo quanto ela significa para a Amazônia, o Brasil e o mundo. Não tenho dúvida do poder da juventude. Destes meninos e meninas há de vir novos urbanistas, arquitetos, economistas e outras profissões; futuros vereadores, prefeitos, diplomatas donde uma reabertura dos caminhos d'água de Belém em cooperação internacional, notadamente com Portugal e Holanda nos dará ainda chance de realização do plano Gronfelts nos 500 anos.


sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

EU VOU PRA QUATIPURU.


Distrito de Bento Rodrigues, em Mariana (MG), depois do rompimento das barragens - Daniel Marenco / Agência O Globo



na era do Apocalypso uma desgraça 
nunca vem desacompanhada de outra.


O pobre morador de rua estava caidão num canto de calçada, perto da sarjeta numa feira ratuína de periferia. O sol já alto e gente  à beça passando, cachorro vadio quase mijando em cima da ressaca braba da criatura. Na noite passada, o malandro tomou todas e também puxou fumo. Estava um bagaço humano quando entre os passante adentra à feira em altos brados um pastor evangélico noviço, abraçado à Bíblia para anunciar o fim dos tempos. Jesus Cristo estava de volta à terra e o mundo sim, desta vez sem falta, ia se acabar.

 Ao ouvir a notícia, o cara fez um esforço danado para acordar e se levantar do chão. Passou a mão suja sobre os olhos remelentos talvez a se certificar se não era efeito do delirium tremens e olhando de perto ao homem de Deus protestou no mesmo tom: "Ah é? O mundo vai se acabar, será? Eu choro!... Amanhã vou pra Quatipuru". E mais não disse nem lhe foi perguntado a respeito donde ficará esse tal Quatipuru encantado. Na rica Amazônia imaginária há diversos lugarejos deste mesmo nome, todos eles onde os refugiados da revolução industrial adorariam descansar e passar seus últimos dias. 

Me lembrei desta estória gaiata quando, às vésperas da conferência do clima em Paris; estouraram as barragens da mineradora Samarco, em Mariana (Minas Gerais), fruto do ambicioso casamento tecnocrático da gigante anglo-australiana BHP Billiton com a multinacional brasileira companhia Vale. Era, paresque, o Apocalypso em meio às ingentes negociações da COP-21. E nós com isto? Quem fosse pra Quatipuru talvez ficasse fora do rio de lama envenenada a ser despejada pelo rio que era Doce ao mar-Oceano. Mas, assim mesmo, o lugarejo da salvação há de escapar das marés altas que o aquecimento global promete? Ora, pensei, se Quatipuru for ao fundo nem Miami escapa. A palavra "fundo" me faz lembrar do Banco Mundial e do FMI e já se sabe que todos estamos fritos indo para o buraco do apocalypso, com ou sem mudanças do climas. Quem rirá por último? O magnata cercado de muralhas anti-imigrantes por todos os lados? O matuto no mato sem cachorro? O morador de rua que não tem mais nada a perder? Então, sim, era caso de começar logo às margens do Sena, contemplando as ruínas das primevas civilizações do mundo no Quai de Branly, um vigoroso "salvem Quatipuru". Caso contrário, não vai ter peixe frito e açaí pra ninguém. O lugarejo mítico é como o sítio Ideal, de meu pai, que existia de fato mas nunca jamais foi ocupado nem vendido ou comprado na bolsa. Era uma espécie de ilha de Barataria prometida por Dom Quixote a Sancho Pança.


Sobre a conferência de Paris, dizem que o evento global em comparação com o que poderia ter ocorrido, foi um milagre de acordo. Todavia, comparado ao que deveria ser, estaria mais para desastre. Logo, urge providenciar para o caso de emergência climática pós-COP21, não apenas um Quatipuru da sorte, mas milhares de lugarejos de refúgio tipo Quatipuru. Precisa desenhar?
Muitos festejam Paris ressabiados ainda do fiasco de Copenhague, cheios de esperança de que as coisas aconteçam de fato conforme o combinado. Todavia convém ficar com as barbas de molho e deixar Quatipuru de sobreaviso. Ainda não está realmente afastada uma crise climática perigosa a todos e letal para muitos. Os governos falam em não sacrificar as gerações futuras, mas a herança dos combustíveis fósseis ninguém sabe como de fato se livrar dela. Um aquecimento de 2ºC a longo prazo irá deixar grandes áreas do planeta praticamente inabitáveis. Os cientistas, já não mais apenas profetas do caos; prevêm secas extremas em alguns lugares, graves inundações em outros, tormentas intensas e drásticas reduções de alimentos. Ilhas como as do arquipélago do Marajó e regiões da costa marítima correm o perigo de desaparecer debaixo da água. Acidificação da água do mar, morte de corais e derretimento do gelo do Ártico fariam o colapso das cadeias tróficas marinhas. Na terra, as matas tropicais retrocederiam, os rios secariam e aumentaria a desertificação. Nossa época ficaria sendo o tempo da extinção das espécies. 

Desde 1995, na primeira conferência do clima das Nações Unidas, em Berlim, se passaram 20 anos de jogo de empurra provocado por lobby das corporações de combustíveis fósseis. As conversações de Paris foram as melhores até agora, mas os delegados combinaram somente a diminuição da demanda destes combustíveis, sendo que cada um dos países produtores procura maximizar seu fornecimento. Inclusive, o Reino Unido se impôs “maximizar a reativação econômica” do setor de petróleo e gás do Reino Unido. Para os Estado Unidos, o acordo é muito bom e o made in Brazil precisa da energia do pré-sal com o sonho dourado da Educação. Educação para quem, perguntaria Paulo Freire se ele estivesse vivo. Mas se nada disso der certo, nem mesmo Quatipuru salvará a nossos filhos e netos do apocalypso.

sábado, 20 de junho de 2015

Da utopia ecumênica do payaçu dos índios Antônio Vieira à encíclica verde do Papa Francisco





Estúdio caboco do blogueiro marajoara por acaso tendo em foco a obra tropicalista "São Francisco Marajoara" esculpida em madeira em 1998 por Ismael (Ismaelino Ferreira), artista de Ponta de Pedras - Marajó-PA, já  falecido. Coleção particular de José Varella Pereira (Belém-PA), detalhes ecléticos da diversidade cultural da oficina com estatuetas de Buda e Dom Quixote de la Mancha juntas à imagem do santo de Assis ornado pela biodiversidade da flora e fauna amazônica (foto de João Victor Noronha).







Bem-vindos todos e todas à Idade do Espírito Santo!

Ou a era da Inteligência Coletiva
(codinome global: Net) apud Pierre Levy.

Religando conhecimentos conforme a complexa filosofia antropoética de Edgar Morin. De volta à Idade Média sob capa pós-moderna ou marchando ao encontro do Futuro planetário.

Podem chamar de era pós-colonial, pós-imperial ou pós-qualquer coisa aos novos tempos que se anunciam em meio ao parto do "desenvolvimento sustentável" concertado na série de Conferências Mundiais do Clima pelas Nações Unidas e, mais recentemente, sob acordes evangélicos numa paisagem de gelo e fogo onde se destaca a encíclica ecológica "Louvado seja", do Papa Francisco como um grito de perigo.

Salvo engano, pela primeira vez em um documento papal a defesa da Amazônia e do Congo como biomas chaves da mãe Terra (supostos "pulmões do mundo'), livres do cavalo de Troia da internacionalização, está tão claramente expresso sem sofisma. 

Com certeza, não há grandes novidades no discurso de Sua Santidade inspirado num santo canonizado pela igreja romana em 1228. Exceto quando o Bispo de Roma no século XXI diz amém também à ciência da Terra e do Homem.

Aí é que, talvez, está a graça do santo Espírito na visão evolucionária do padre cientista Pierre Teilhard de Chardin.

Perspectiva que enche de entusiasmo a um ateu graças a Deus. E já se sabe que o entusiasmo é próprio de quem seja possuído de dom divino qualquer conforme o pensamento dos antigos gregos. Aquilo que desperta ânimo e alegria aos outros que se acham à toa na vida: Juno, Javé, Alá, Oxalá, Tupã... Os vários nomes do uno conforme a diversidade das línguas e crenças do Homo sapiens.

Tenho pra mim que toda igreja tem religião, mas nem toda religião tem igreja: o panteísmo marrano e xamanismo, por exemplo... Os bancos e as igrejas fizeram muitas guerras e muitos males à humanidade. Urge socializar os bancos e converter as igrejas ao Príncipe da Paz. Quando a paz vence a guerra a Terra toda fala a língua internacional da fraternidade onde todas crianças do mundo são reis e rainhas, não há mais fronteiras, separação de classes nem Fome, trabalho escravo, medo de doenças, da velhice e da morte: tal qual o sonho dos profetas da Terra sem males... 

Então, a Utopia já não é miragem e o entendimento do espirito se alarga infinitamente, o todo atraente avatar Krishna não fica estranho a Buda; nem este estado cósmico de consciência plena resta alheio ao Cristo cósmico emanado do Pai/Mãe natureza, encarnado no Filho do Homem.

Com a palavra a Linguística: "O mapa não é o território". Nem a nuvem é Juno... Tudo vale a pena se a alma não é pequena. 

Com testemunho do primeiro jesuíta no Brasil, Manoel da Nóbrega, chegavam aos campos de Piratini de tempos em tempos caraíbas ou pajés-açus, profetas da Terra sem mal "fingindo trazer santidade" (cf. Ronaldo Vaifas, "A heresia dos índios") aqueles homens misteriosos vinham de longe e despertavam frenesi às populações indígenas... 

Os frades franceses do Maranhão, ignorantes da mitologia tupi-guarani e ainda mais da psicanálise de Freud que ainda não havia nascido, diabolizaram Jurupari; o espírito telúrico dos Tupinambás. 

Esta excomunhão colonizadora branca se somou à condenação sumária dos deuses africanos chegados ao novo mundo com os "negros da Guiné", e ainda hoje no apartheid americano continua a obrar o Mal e produzir ódio entre lesados da Terra além da melanina.

Quando a frota do fidalgo Pedro Álvares Cabral, cavaleiro da Ordem de Cristo, chegou a Porto Seguro já lá estavam há muitos anos os índios andejos da mítica Terra sem males. Assim duas poderosas mitologias do velho e do novo continente se toparam uma a outra pela frente até hoje. 


O deus de Espinoza, de quem Edgar Morin fala, acaba não sendo estranho nestas mal traçadas linhas minhas. De médico e louco cada um tem um pouco: idem para poeta e profeta segundo a filosofia sebastiana de Agostinho da Silva.

O papa Bergoglio, acredito eu, pelo que vem de publicar está na trilha aberta do ecumenismo com Joaquim de Fiori a seduzir a diáspora judia. Esta heresia nutriu o sebastianismo lusitano e teve um ardente seguidor na solidão dos rios e selvas da Amazônia na pessoa do padre Antônio Vieira, no século XVII.

Com a carta secreta "As esperanças de Portugal" escrita em viagem a Cametá, onde se adivinham "As esperanças de Israel" do rabino português de Amsterdã Menassé ben Israel (nascido Manoel Soeiro, na ilha da Madeira), amigo de Vieira, que acreditava ser os índios americanos descendentes das Tribos Perdidas do cativeiro da Babilônia; e a messiânica "História do futuro", onde afloram índios "nheengaíbas" do rio Mapuá (Breves, Marajó) em luta por sua liberdade contra os colonizadores e que em meio de tratativas com a Companhia de Jesus, no papel que hoje corresponde à FUNAI, representando a Santa Sé e a Coroa portuguesa (cf. carta de Vieira a El-Rei Dom Afonso VI, em 11/02/1660); edificaram na floresta virgem a igreja do Santo Cristo consagrada pelo padre grande, a qual compareceram nus e destemidos em odor de santidade a fim de celebrar a paz entre indígenas e portugueses a cabo de 44 anos de guerra da conquista do rio Babel, mais conhecido por Amazonas.

A "História do Futuro" como auto-defesa do autor frente à inquisição do Santo Ofício não evitou a condenação de Vieira pelo cometimento de "heresia judaizante"... Sabemos da materialidade econômica da questão dos cristão-novos na Península Ibérica e sua dispersão pela Europa e mais continentes. E a inacabada "Chave dos Profetas" guarda o mistério da vida humana envolta em brumas dos conflitos entre potências imperiais desde a Antiguidade até fins do século XVII. Nasceu modestamente em Lisboa, neto de uma mulata serviçal da casa do conde de Unhão; criou-se, educou-se e morreu na Bahia este português monumental do mundo em transição do medievo para a modernidade.

Além de toda poesia de Fernando Pessoa para além da pessoa do poeta dispartida em outras pessoas, são estes avisos todos anúncios do Quinto Império ou seja, a Idade do Espírito Santo no reino de Jesus Cristo consumado na Terra. Por outras palavras, o ecumenismo entre os filhos de Abraão... O que significa só um primeiro e significativo passo para Oriente e Ocidente se reconhecerem como partes da mesma família a partir, sem mais dúvidas, da África Negra. 

O sonho de Daniel no cativeiro da Babilônia não é só uma profecia, mas, ao correr do tempo, se comprova pela larga experiência da humanidade filha da animalidade, que todo império tem pés de barro e que não se pode sustentar por toda eternidade.

quinta-feira, 7 de maio de 2015

I love Mark Zuckerberg: te cuida Missunga!

Priscilla Chan e Mark Zuckerberg: o casal Facebook



Você pode odiar o capitalismo como eu, Fidel Castro e mais uma galera da velha guarda de lesados da Terra inclusive o Papa Francisco que por dever de ofício acredita na conversão de Wall Street numa futura sociedade de montepio. Porém, de toda maneira, não dá para a gente esnobar o Google, Twitter, Facebook e companhia. Aí depende o que se pode fazer como usuário de produtos dessas gigantescas corporações virtuais de capital aberto. Eu que acredito boamente em Curupira, Saci, Cobragrande, Matinta Perera e outros bichos encantados não creio em Zeus nem Bhrama, porém amo o homem da aldeia de Nazaré chamado Jesus, filho de Maria e do carpinteiro da Galileia segundo o Evangelho de Jesus Cristo. 

Eu amo mergulhar no rio de Heráclito, amo a dialética de Karl Marx da evolução do comunismo primitivo ao socialismo científico, amo Freud com a psicanálise do xamanismo ou pajelança incorporada à energia do Totem na passagem da animalidade à humanidade... Amo sobretudo o comunismo gentil mas não idiota do índio sutil marajoara em Dalcídio Jurandir et pour cause sua Criaturada pela qual me apaixonei: por esta via contraditória de amor e ódio, apinhada de terroadas no caminho dificultoso do lavrado; estou namorando agora a supimpa ideia de responsabilidade socioambiental do Senhor e Senhora Facebook ao fechar parceria com o governo "bolivariano" do Brasil brasileiro. Para levar internet da boa às periferias e cafundós da Pátria Educadora, segundo se pode depreender do filme de divulgação “A Rede Social” contando a vida de Mark Zuckerberg.

Por esta dalcidiana causa estou aqui no blogue da Academia do Peixe Frito, mais uma vez a plagiar Chico Buarque na singela canção Gente Humilde dizendo que eu não creio, mas mesmo assim peço a Deus para abençoar a mocidade independente de Mark e Priscilla querendo que a felicidade do casal aumente e envolva também todos jovens do mundo. Isto é uma cantada para a família Zuckerberg pensar em fazer alguma coisa pela Criaturada de Dalcídio? Não vou negar. 

Tomara meu Deus, tomara... Um dia de festas na Reserva Extrativista Mapuá, município de Breves, lugar de memória das pazes dos sete caciques do Marajó com o bom selvagem Tupinambá e conquistadores portugueses do Pará celebradas pelo padre grande dos índios Antônio Vieira. Presente como convidado especial da Presidenta Dilma Rousseff e do Governador Simão Jatene, o Ilustríssimo Senhor Mark Zuckerberg tendo como principal testemunha do ato solene o Professor da Universidade de Havard e Ministro-Chefe da Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República, Doutor Roberto Mangabeira Unger, que vem de visitar a terra dos Tucujus (Amapá) presentes à celebração da primeira missa da improvisada igreja do Santo Cristo na floresta dos Mapuás em 1659.

Pra quê? Rememorando a Pax de 27 de agosto de 1659, lançar projeto de cooperação federativa e internacional para o desenvolvimento integrado do Golfão Marajoara com ênfase nas populações ribeirinhas dos estados do Amapá e Pará (Projeto Aruã-Tucuju). Desta maneira, a empresa Facebook poderia dar contribuição ao desenvolvimento socioambiental sustentável do maior arquipélago fluviomarinho do mundo e regiões costeiras vizinhas do delta-estuário do maior rio da Terra.

Oportunidade ímpar para a Pátria Educadora reunir vereadores, prefeitos e lideranças comunitárias e anunciar, oficialmente, a candidatura do Marajó à rede amazônica e brasileira de reservas da biosfera no programa Homem e Biosfera (MaB), da UNESCO. Ato contínuo, instalar a coordenadoria do Mosaico de Áreas Protegidas do Marajó. Como diria dom Helder, o sonho de um homem é sonho só: o sonho de muitos não é sonho, mas movimento. No caso, Movimento Marajó Forte.

Todavia, embora Mark seja de família judaica americana de classe média, duvido eu que a empresa do casal Zuckerberg queira fazer voluntariamente doações à campanha eleitoral dos Estados Unidos a candidatos como o senador judeu antissionista Bernie Sanders ou à senadora Elizabeth Warren, a qual declarou guerra ao poder imoderado dos lobbies do Dinheiro no Congresso norte-americano. Porém, o inusitado caso de amor platônico de um velho comunista marajoara por moço bilionário capitalista não visa angariar donativos para criancinhas ou velhinhos ribeirinhos, de maneira nenhuma. Mas, se deve ao seguinte fato nunca dantes neste país das palmeiras e muito menos na província dos aruãs e tucujus:

Durante a Cúpula das Américas, ocorrida recentemente no Panamá, o famoso dono do Facebook se encontrou com a Presidenta Dilma Rousseff para propor a ela uma inusitada parceria com a finalidade de levar internet rápida, barata e de boa qualidade aplicada a ações educativas e de responsabilidade socioambiental em favelas e mais bolsões de pobreza de áreas isoladas do Brasil. 

Dá pra fingir que eu não pensei logo no meu "carma" guia (codinome Marajó)? Quando um sujeito que veio ralando lá de baixo dobra o "cabo da Boa Esperança" (os fatais setent'anos de idade), não dá mais para ter múltiplas escolhas nos últimos quarteis de vida nem com a Lei da Bengala votada exclusivamente para infernizar a carreira de pretendentes a cargo vitalício de ministro do Supremo Tribunal. Então, o caboco velho que vós fala teve que ser seletivo e escolher as três últimas coisas de sua vida pra enrolar bandeira e encerrar história: primeiramente Marajó, depois Marajó e, por fim, Marajó ainda... 

O Marajó da minha avó Antônia da Silva, indígena nascida na aldeia da Mangabeira em Ponta de Pedras Marajó Pará, é claro. Pois há diversos Marajós da vida na riqueza e na pobreza. O meu Marajó é rico por natureza, social e culturalmente falando: se melhorar estraga... O problema é como levar a vida com engenho e arte sem deixar esbandalhar mais do que já está o antigo paraíso perdido (velho sonho da Yby marãey, utopia da Terra sem mal onde não existe fome, trabalho escravo, doença, velhice e morte). Já imaginou o IDH deste tempo de sonho? Você poderá argumentar que aquela antiga gente não sabia ler nem escrever, em compensação hoje metade da nossa população também não. E os nativos tinham memória coletiva prodigiosa, conheci um índio Maquiritare em Roraima que, certa noite na beira do rio Uraricoera, me brindou especialmente com a narrativa da história social de seu povo... escrita nas estrelas do céu.

Os caraíbas apesar de andar dia e noite conectados com o espírito Jurupari que fala e ri pela boca dos pajés; não sabiam nadinha de teoria da relatividade do espaço curvo... Então, depois de um tempo enorme de guerras pela guerra e correrias inúteis em busca da utopia selvagem no espaço plano do velho Euclides - os índios já batizados e crismados pelos padres analfabetos das religiões nativas e muito mal exemplados nas patifarias dos diretores dos índios - desandaram os bravos guerreiros a ficar à margem da história na beira do rio de Heráclito... Isto foi uma verdadeira desgraça que deu motivo à leseira amazônica e hoje os descendentes do Bon Sauvage nem imaginam que um dia no passado distante foram os seus maiores inspiração da Revolução Francesa. Palavra dos filósofos Montaigne e Rousseau.

Todavia, o índio com amnésia que se chama "caboclo" extraído do mato pelo Diretório dos Índios se ele levar um choque de educação libertadora ao modo Paulo Freire, poderá com certeza fazer acordo com Einstein e retomar à demanda do santo graal dos índios da América do Sul pela espiral evolutiva da Ciência e Tecnologia através da cultura para a Justiça e Paz: neste novo caminho ou mudança de paradigma civilizacional pela ecocultura: a fome será afastada do mundo para sempre; definitivamente o ócio criativo vencerá o império do trabalho; as doenças da pobreza serão totalmente erradicadas; a velhice não mais será um fardo inevitável para a humanidade e a morte não mais há de fazer terror a quem quer que seja desde o triunfo da Memória coletiva. 

O que a gente não quer, de jeito nenhum, é a miséria desse ínfimo IDH dos Marajós e também não aceita mais ficar parado na beira do rio a ver navios sabendo da continuidade do trabalho escravo e da exploração sexual da infância marajoara por tripulantes dementes de balsas de carga pesada entre a Zona Franca de Manaus ou Macapá para pegar estrada até São Paulo nesse passeio cartorial de produtos eletrônicos made in SUFRAMA. Que se implante a moralidade ou que nos locupletemos todos, já dizia Sérgio Porto. 

De maneira que, quando li na mídia o famigerado O Globo dar pissica às tratativas do Facebook com o governo do Brasil pensei logo, oba! Só pode ser coisa boa que vai ajudar a Pátria Educadora a desbravar os cafundós.

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  1. Dilma se encontra com criador do Facebook no Panamá - G1

    g1.globo.com/.../dilma-se-encontra-com-criador-do-facebook-no-panam...

    10 de abr de 2015 - Presidente e Mark Zuckerberg se reuniram em hotel na Cidade do Panamá. ... Após o encontro, Dilma afirmou ter encaminhado "importante parceria" com ... CONTRA o Brasil, porque a favor do país ela nunca fez e nem fará.
Já se sabe que o que é ruim para mídia alugada aos vendilhões da pátria é bom para o povo brasileiro. Mas, um caboco casca grossa meu parente diria sem pejo: quem liga a peido é penico... Aí está, sem delongas nem mais conversa fiada: Facebook já deu primeiros passos e criou laboratório digital na favela de Heliópolis em São Paulo.


Todavia, eu quero mais. Quero ver Quero-Quero a palha voar e o "balão de ensaio" de mister Facebook empinar no ar rumo ao espingarito das ideias nos altos céus sobre o golfão Marajoara, feito satélite meteorológico geoestacionado no chão de Dalcídio, com âncoras cravadas nos mondongos de campos alagados entre o rio e o mar lá pelas bandas da Contracosta ou em riba da floresta nacional de Caxiuanã às ilhargas de Bagre e da Resex Arióca-Pruanã (Oeiras do Pará), que nem balão de São João impulsionado por alta tecnologia a cabo de fibra óptica e energia solar. Conectar 2.500 ilhas com 500 e tantas aldeias-escola revitalizadas em universidade ribeirinha multicampi - a futura Universidade Federal do Marajó (UnM) integrando o MUSEU DO MARAJÓ tal e qual como integrados estão o Museu Nacional com sua bela coleção de cerâmica marajoara pré-colombiana e a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) - na mais interessante Reserva da Biosfera do planeta água entre a enorme Amazônia verde e a imensa Amazônia azul.

Sei que na distância do Brasil profundo as elites lá no eixo Sul-Sudeste brasileiro minada, muitas vezes, de patrioteiros bandeirantes tem surto de urticária toda vez que ouvem a palavra "Amazônia" e pensam logo na cobiça estrangeira e planos secretos de 'internacionalização'... Como não tê-los afinal de contas? O problema para os invasores é que a Amazônia é grande e além de Deus ser brasileiro o Brasil é maior que o abismo... Que nação industrial não desejaria dominar um bioma destes que é um mundo de biodiversidade e diversidade cultural, ainda, apesar de 300 e tantos anos de saques no "celeiro do mundo"? 

De fato, a região já foi "internacionalizada" desde o "testamento de Adão" de 1494, em Tordesilhas, quando nem Portugal havia revelado, isto é, "descoberto" o Brasil... De acordo com o arranjo tordesilhano desde a costa-fronteira do Pará para oeste toda a Floresta Amazônica com a ilha do Marajó em diante seria castelhana. Mas não combinaram com o povão indígena do rio Babel. E a gente marajoara queria porque queria, desde sempre, botar os pés na Terra Firme, país do Arapari (constelação do Cruzeiro do Sul) donde a marcha da Nação Tupinambá a tinha obrigado a recuar para as ilhas... 

Portanto, não foi tão difícil negociar a paz com os portugueses do Pará quando estes depois de três tentativas de ocupação das ilhas dos Marajós pelas armas foram rechaçados sem nada obter e tiveram que sentar para conversar em paz. Quem sabe desta velha história "inverossímil", declarada sem interesse acadêmico por medalhões de nossos cursos de História? E a Adesão de Muaná à Independência do Brasil foi esquecida sob a festividade do feriado do cambalacho neocolonial anglo-lusitano de 15 de agosto que pariu a guerra-civil amazônica apelidada de Cabanagem, pelo acadêmico Basílio de Magalhães na corte carioca, com seus 40 mil mortos numa rarefeita população de apenas 100 mil almas... 

Só se ama o que se conhece... Para conhecer a Amazônia Brasileira é preciso começar pelo começo que foi o Grão-Pará a partir de Belém e Marajó, como fez o sábio de Coimbra Alexandre Rodrigues Ferreira, na Viagem Philosophica, no século XVIII; e o co-fundador da teoria da Evolução Alfred Russel Wallace, autor de Viagens pelo Amazonas e Rio Negro. Se Marajó é a porta dos Estreitos de Breves para entrada ao Amazonas, o Rio Marajó-Açu é a chave que abre esta porta com seu chanceler (guarda dos selos) índio sutil Dalcídio Jurandir dando passaporte para viagem iniciática ao Arari secreto sob a sombra dos "índios bravios, desertores e escravos fugidos vivendo pelos centros da ilha" (os jebristas de hoje, ladrões de gado e piratas) que o museu do Gallo revela a olhos bovinamente desinteressados. 

Oh, Criaturada grande quem te conhece? Quanto a Pátria Educadora chegará ao sítio do último caboco ribeirinho num universo perto de 300 mil e 'tontos' analfabetos esperando Godot desde as pazes de Mapuá (Breves), há mais de 350 anos?

E, quando acaba, até para arrumar médico para tratar desses mais de 20 milhões de brasileiros das "nossas" regiões amazônicas foi preciso pedir ajuda de Cuba e outros países, porque há mais médicos brasileiros que odeiam o SUS por metro quadrado próximo a Copacabana que por quilômetros e quilômetros de Floresta Amazônica e costa marítima onde, imagina-se, reina o tal "espaço vazio" dos geopolíticos coloniais. 

Da parte que me toca deste latifúndio, digo e repito que o que falta, de verdade, é nacionalizar a Amazônia brasileira. Então, a brava gente marajoara se ainda é brasileira é porque sempre quis e não vai deixar de querer. Vejam esses tantos marajoaras que vieram de longe - exemplo geral do Gallo - se naturalizar na ilha dos marajós... O perigo da família Facebook vir até estas paragens do extremo norte das periferias da Periferia é a dita família se aculturar, engolida pela cobra grande Boiuna, e sair com uma versão amazônica de Facecaboco (nota importante: vermelho e preto são as cores tradicionais da antiga Cultura Marajoara).

Em 2004, Mark Zuckerberg fundou o Facebook juntamente com Dustin Moskovitz, Eduardo Saverin e Chris Hughes, quando todos eram estudantes da Universidade Harvard, nos Estados Unidos. No ano de 2010, Zuckerberg foi escolhido pela revista Time (espelho da rede Globo brasileira) como Personalidade do Ano. Facebook é a rede social mais conhecida e acessada do mundo. O seu criador adquiriu muito dinheiro com seu programa, inclusive rendeu até filme. Dinheiro não é problema: problema é o que se faz com ou sem dinheiro por causa do dito cujo.
O filme “A Rede Social” conta a vida de Mark Zuckerberg. Quem quiser saber mais não deixe de ver filme. E não esqueçam de procurar saber também a história de vida da senhora Zuckerberg, professora e médica pediatra de profissão, descendente de refugiados chineses que deram muito duro para sobreviver. Um bom exemplo para a juventude? Como diria minha avó: ele é assim, mas não é má pessoa.
QUEM TEM MEDO DE MISSUNGA?

Missunga, senhorzinho em língua banto angolana é herdeiro de terras da fictícia fazenda Paricatuba no romance de Dalcídio Jurandir "Marajó". Personagem central no drama malthusiano em todo Brasil agrário - donde promana a violência e o êxodo rural levando à superpopulação urbana, violência secundária e posterior emigração - se acha retratado artisticamente na canção Morro Velho, de Milton Nascimento. Na paisagem insular marajoara o papel de Missunga reproduz a ilusória igualdade racial onde o filho do branco e do preto que brincam e correm juntos pelos caminhos do latifúndio até chegar a hora da apartação de direitos e poderes: o "branco", não importa a cor da pele contanto que seja herdeiro do regime de propriedade de terras, vai estudar quase sempre na cidade e o "preto", independente do teor de melanina, vai pro eito tocar a propriedade ainda quase feudal. No romance a transformação social de Missunga  no papel do fazendeiro Manoel Coutinho ocorre com a morte do morgado pai, coronel Coutinho; para continuação do morgadio na pessoa do herdeiro da fazenda. Em torno da colonialidade deste velho drama ultramarino de ilhas portuguesas do Atlântico gira o vasto e complexo mundo afroamazônico da Criaturada dalcidiana.

"Quando volta já é outro, trouxe até sinhá mocinha prá apresentar
Linda como a luz da lua que em lugar nenhum rebrilha como lá
Já tem nome de doutor, e agora na fazenda é quem vai mandar
E seu velho camarada, já não brinca, mas trabalha."
( Milton Nascimento / Morro Velho).

Devemos nos lembrar do caso relatado pelo naturalista inglês Henry Bates no Pará, na segunda metade do século XIX, onde entre duas viagens ele constatou como a rara mudança econômica na vida de um preto que teve sorte de ficar rico o tornou socialmente "branco" e a crítica social na música de Caetano Veloso com que o apartheid brasileiro se disfarça:

"De ladrões mulatos e outros quase brancos
Tratados como pretos
Só pra mostrar aos outros quase pretos
(E são quase todos pretos)
E aos quase brancos pobres como pretos
Como é que pretos, pobres e mulatos
E quase brancos quase pretos de tão pobres são tratados
E não importa se os olhos do mundo inteiro
Possam estar por um momento voltados para o largo

Onde os escravos eram castigados".
(Caetano Veloso / Haiti).
 

Hoje na Amazônia Marajoara o personagem Missunga / Manoel Coutinho representa as duas faces da vida real na terceira ou quarta geração do morgadio português importado pela colônia com as primeiras cabeças de gado e cavalaria de Cabo Verde no Grão-Pará, indeciso em abdicar o trono da casa-grande no reizado de fazenda e embarcar com o derradeiro embarque de gado no êxodo rural. Seguir o caminho aberto por filhos e netos de antigos escravos de suas famílias tradicionais, "libertos" pela Lei Áurea para tentar a sorte na periferia e invasões da cidade grande. Ou fincar os pés na lama pisando estrume dos currais, se tornar também ele fazendeiro herdeiro dos Contemplados, escravo de velhos usos e costumes do antigo modo de produção feudal do morgadio português transladado às colônias. 

Muitos destes senhores herdeiros das sesmarias dos barões de Joanes foram embora sem olhar pra trás. Porém, longe dos despossuídos do Diretório dos índios recuperar o espaço perdido; ultimamente são arrozeiros expulsos da terra indígena Raposa-Serra do Sol, em Roraima, favorecidos pelo agronegócio na nova ordem econômica, que vieram ocupar o vácuo deixado pelos reis do gado e desembarcaram de mala e cuia na ilha do Marajó começando nova invasão aparentemente para ficar.

Não foi por acaso que Vicente Salles identificou no romance de Dalcídio Jurandir o romanço ibérico de Dona Silvana e os pesquisadores de primeira hora sabiam da influência da antropologia cabocla de Manuel Nunes Pereira nas entrelinhas de "Marajó", aliás "Marinatambalo" no título original de 1939.

"Missunga, quando este, depois de assumir a administração dos negócios, após a morte do pai, ensaia sua nova condição, como que anunciando uma nova gênese: Depois de examinar as contas da marchantaria conversou longamente com o advogado, o gerente, os caixeiros e com Manuel Raimundo. Respirou alegremente cansado, e afirmou que aquele era, em verdade, o seu primeiro dia de trabalho em toda vida. – É o meu primeiro dia de criação (JURANDIR.1992. 308), grifei. “No segundo dia de criação, decide visitar o seu domínio com o administrador”. Na ida, rio acima, se dá conta do real tamanho das posses que herdara. É aí que vai-se dar um agon entre Missunga e Manuel Raimundo, quando o filho do Coronel fala que sua vontade seria estudar veterinária, fazer um plano de drenagem, uma charqueada. Na categórica resposta de Manuel Raimundo percebe-se o conflito natureza (Manuel Raimundo) x cultura (Missunga) numa espécie de seqüência daquela cena de brutalidade pré-cultura, pré- civilização a que me referi. Veja-se a incisiva colocação do administrador: – Ponha estes projetos de lado e consiga o seu diploma, menino. Em Marajó quem manda é a providência. Isso só melhora quando Deus mandar. No princípio do mundo não foi o dilúvio? Você perdia dinheiro e não fazia nada. Não acredito em doutores de gado (JURANDIR. 1992. 311)". --  Marajó: “A isto é que se chama um mundo!” Audemaro Taranto Goulart (∗ Professor da PUC Minas 1 O texto relativo à participação no Seminário, “Marajó sob o signo da antropologia e da estética”, publicado em Escrita literária e outras estéticas, organizado por Amarílis Tupiassú, Belém: Unama, 2006, volume 1 da Coleção Linguagens: estudos interdisciplinares e multiculturais).

MEMÓRIA E IDENTIDADE EM MARAJÓ, DE DALCÍDIO JURANDIR - Elizabeth de Lemos Vidal*

"A presença de Rosália nas reminiscências de Missunga dá conta do espaço ocupado pelas mulheres no interior da estrutura social criada no romance, estabelecendo uma ligação entre a memória individual e a memória social do sujeito que rememora. O mundo da Ilha do Marajó, é apreendido por Misssunga através das lembranças que combinam signos em movimento, em que os atos de “bater, cantar, conversar, ensinar, ralhar, mexer, tirar”, evocados pela lembrança, adquirem vida, luz, cor, consistência, cheiro, sons e calor. Nesse instante, entram em ação as “antenas” de que fala Antônio Sérgio Bueno ao considerar que “através dos sentidos o corpo acolhe extensão, consistência, profundidade, temperatura, luz e cor das coisas e das paisagens do mundo” (Jurandir, 1947: 23), grifei. A seqüência de imagens visuais, táteis, olfativas e auditivas – que se manifesta através da memória dos sentidos, dentro do romance Marajó – estabelece uma conexão entre passado e presente, realizando um percurso pelos espaços da memória que associa a infância à idéia de mobilidade, de ação e de movimento. Enquanto isso, o presente está ligado ao sentimento de fadiga e monotonia que envolve o adulto de volta para casa cujas “imagens do tédio e da infância misturando-se, (...) diante do desejo (...) que todos os desalentos se afundassem, todos os vagos ímpetos morressem para sempre (...) dentro de sua inércia. (...) por que viera da cidade para aquele torpor?” (Jurandir, 1947: 11) Esse estado de consternação e desalento do sujeito diante da vida aproxima a rememoração, presente no romance Marajó, à obra de Pedro Nava, Baú de ossos, em que o sujeito da memória anuncia o sentimento de tristeza que envolve o tempo presente:"

Cenários de filmes como o clássico "... e o Vento levou" desafiam nossa imaginação. Missunga no século 21 precisaria talvez tomar aulas em Havard, como Ciro Gomes fez, para não ter que renunciar ao Ceará. Sorte que um professor brasileiro de Havard está em Brasilia tentando ajudar a Presidenta Dilma a não cair do cavalo e levar mais adiante a história de 2003, um ano antes da criação da empresa de Mark Zucknerberg. Mangabeira Unger saberá, com certeza, lidar com as ambições do casal Facebook. O problema, entretanto, será convencer os fordistas de São Paulo de que a Terra gira em torno do Sol e não ao contrário como se acreditava há 500 anos.






terça-feira, 7 de abril de 2015

ANO INTERNACIONAL DA LUZ (2015): NA BOCA DO MAIOR RIO DO MUNDO A CRIATURADA GRANDE DE DALCÍDIO PERMANECE NAS TREVAS DO ANALFABETISMO.

MESTRES DA PRIMEIRA UNIVERSIDADE PÉS DESCALÇOS DO BARRO DO PRINCÍPIO DO MUNDO MANDAM RECADO A TODOS E A NINGUÉM.

Se você for convidado a visitar amostra de cerâmica marajoara no Museu Nacional, no Rio de Janeiro; ou no Museu do Quai de Branly, em Paris; terá oportunidade de ver onde foram parar peças e coleções tiradas dos tesos da ilha do Marajó, mas por melhor que seja a técnica museológica aplicada jamais poderá ser comparável ao sítio onde aquela arte foi criada. Nem mesmo em Belém poderia ser a mesma coisa. "Cacos de índio" no Museu do Marajó, em Cachoeira do Arari, são atestado de como o Estado do Pará e todo Brasil -- inclusive municípios da mesorregião --, tratam o patrimônio ancestral da gente marajoara. Gente esta expressamente mencionada como objeto final da área de proteção ambiental do arquipélago do Marajó (Constituição do Estado do Pará, artigo 13, VI, parágrafo 2º). 

O texto constitucional paraense, de 1989, colocou a proteção do meio ambiente das ilhas em função da melhoria de condições de vida da "Criaturada grande de Dalcídio". IDH da gente marajoara em outras palavras... Desta maneira, o deputado constituinte sem o mencionar explicitamente atendeu às recomendações da Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura (UNESCO), no que diz respeito ao programa Homem e Biosfera (MaB – Man and the Biosphere), criado como resultado da "Conferência sobre a Biosfera" realizada em Paris em setembro de 1968. O MaB foi organizado em 1971 pela UNESCO, sendo um programa de cooperação científica internacional sobre as interações entre o homem e o meio natural onde ele vive. 

Sessenta anos depois, a par da COP-21 em Paris no final deste ano, o MaB poderá vir a ser chamado junto à rede mundial de reservas das biosfera integrada ao Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC) a desempenhar um papel nunca dantes na história planetária. Mais ainda quando a ONU declarou 2015 o "Ano Internacional da Luz" e na Amazônia a geração de energia mediante barragens de grandes rios anda em discussões polêmicas produzindo mais calor do que luz.

Porém a APA-MARAJÓ que seria para nós, mãe de nossa reserva da biosfera agora não saiu do papel e até hoje não ata nem desata. Por isto a mesma gente marajoara representada por diversas entidades da sociedade civil pediu às autoridades brasileiras, desde a I Conferência Nacional de Meio Ambiente (2003), que a dita cuja fosse preparada a se candidatar ao reconhecimento oficial como a sétima reserva da biosfera brasileira a par da Mata Atlântica / Cinturão Verde da Cidade de São Paulo, Cerrado, Pantanal, Caatinga, Amazônia Central, Serra do Espinhaço e para encerrar a cobertura de biomas brasileiros a novas reservas da biosfera do Marajó-Amazônia e dos Pampas Gaúchos completando assim a parte brasileira do programa "O Homem e a Biosfera" (MaB) da UNESCO.

Sonhamos ver protegido nacional e internacionalmente o bioma do golfão marajoara, notadamente seus ecossistemas de campos naturais, litoral praiano, manguezais, mondongos, várzeas, florestas e zonas úmidas em mais de 2.500 ilhas fluviais e marinhas em cujas ilhargas flui continuamente cerca de 20% da água doce superficial da Terra. Mas a poderosa força da ignorância e da inércia conspira contra a quebra do secular isolamento da mesorregião insular onde vivem mais de 400 mil brasileiros esperando do turismo recursos para melhoria do vergonhoso IDH. 

Na "Viagem a Portugal" Saramago percorreu o caminho de Almeida Garret e eu seu leitor, por saliência incorrigível sempre a mandar cartas a Deus e o mundo, o convidei por escrito a emendar viagem no roteiro do sábio de Coimbra Alexandre Rodrigues Ferreira, Amazônia adentro, na "Viagem Philosophica" desde a vila de Monforte (Soure-Salvaterra) transplantada à costa-fronteira do Pará, antiga aldeia de índios Joanes, na ilha do Marajó. O famoso Prêmio Nobel português não me respondeu nada, nem eu esperei que ele se desse ao trabalho de dizer alguma coisa a um marajoara desconhecido, sem eira nem beira. Bastou-me saber que não estou só nesta enorme loucura que também era dele, de ser contra tirarem peças arqueológicas donde o tempo as deixou ficar por séculos. Ao contrário, melhor seria levar ecomuseus às ilhargas de sítios arqueológicos, lugares de memória e monumentos naturais.

Claro, entretanto, que na ilha do Marajó uma centena de aterros milenares feitos do barro do princípio do mundo pela mão hábil do "Homo sapiens var. Tapuia" (na graciosa taxionomia do sábio de Coimbra) levantados do chão de Dalcídio no corpo sensível da Biosfera, espalhados por campos alagados e "ilhas" de mato a esconder tesos de vistas curiosas em meio à biodiversidade da flora e da fauna, mais ou menos encharcados, não têm o mesmo charme turístico das ruínas de Machu Picchu. No entanto, sabe lá para o progresso da Ciência o que ainda podem esconder esses monumentos pré-colombianos em meio à devastação e arrombamentos estúpidos dos tesos pisoteados por búfalos e outros bichos!... 

Os tesos da ilha do Marajó foram aldeias suspensas: cada uma com sua maloca cheia de vida e gente criativa e diligente, floridos cultivares de bananeiras, mandioca, cueira, ervas mágicas e ainda à ilharga do habitat dos vivente a última morada dos mortos em suas artísticas urnas funerárias e pertences com gravuras simbólicas à guisa de escrita ideográfica. Onde, no seio do tempo do sonho, matriarcas e caciques alimentaram por tanto tempo a história oral daquela gente desconhecida e agora atiçam nossa imaginação de viajantes do mundo como fogo sagrado vindo do alto céu junto ao espingarito das estrelas... Os tesos da ilha do Marajó são, naturalmente, os primeiros ecomuseus deste mundo: mostram-nos ainda a engenharia e arquitetura dos antigos marajoaras além da arte ceramista a mais famosa das Américas para quem houver olhos de ver o futuro além do passado perdido. Pena que, por tanto tempo, o Brasil inteiro tenha estado cego a este tesouro tal qual disse o padre grande Antônio Vieira, em São Luís do Maranhão, no "Sermão aos Peixes" (1654). Embora ele também, a seu tempo, não tenha visto nada destas coisas quando falou dos invencíveis Nheengaíbas na "História do Futuro".

Mas, então, depois que a esperança venceu o medo e o futuro já chegou para esta gente do fim do mundo, o projeto de criação de uma universidade multicampi no maior arquipélago fluviomarinho do planeta deveria ser visto como uma oportunidade ímpar de inovação em ciência e tecnologia do barro além de biotecnologia sem preconceito em simbiose com os pajés investidos de sua antiga dignidade tradicional. Onde se achará inspiração para ecocivilização do Trópico úmido desejada na experiência do passado libertada de dogmas da censura da colonialidade. Desta forma, um ecoturismo educativo de base na comunidade poderia aproveitar, por exemplo, a ruína de Joanes como portal de turismo arqueológico no Marajó integrado ao turismo rural com a cara marajoara a ser dotada de infraestrutura a dar lugar à arquitetura compatível em cooperação internacional, no âmbito do MaB, previsto eventual repatriamento de cerâmica marajoara como reforço de atrativo.

Por outras palavras: a cerâmica marajoara salva da destruição e do contrabando por grandes museus no Brasil e no mundo ao retornar à ilha natal, finalmente, trará também através dos mesmos museus parceiros viajantes do mundo amigos do MaB. Por que não?



ENTRE CHUVAS E ESQUECIMENTO: 
À MARGEM DO MAIOR PAÍS AMAZÔNICO A ARTE PRIMEIRA DO BRASIL SERVINDO DE CAPA DA TRAGÉDIA MARAJOARA.

Naturalmente, sem culpa de ninguém, depois de 500 anos o mundo esqueceu a invenção do Brasil lá pela Europa medieval nas imaginações de achados e descobrimentos da ilha do Brazyl dentre as ilhas Afortunadas, o país de São Brandão e outras lendas caducas do Mar-Oceano. Entretanto, doravante, mais que deficiência o esquecimento é uma doença  chamada Mal de Alzheimer quando afeta um indivíduo e uma crime de lesa pátria quando atinge um país inteiro. A popular leseira amazônica, por exemplo. 

Se a geografia serve para fazer a guerra, a história poderia ao contrário favorecer a paz se fosse tomada a sério a sisuda lição de Espinoza: não rir, nem chorar mas compreender... A história da Ciência pelo menos. Quanta tolice e tatear no escuro até achar a luz no fim do túnel? Por exemplo, a teoria do segredo das antigas navegações guardada a sete chaves, finalmente revelada no caminho marítimo das Índias na viagem de Vasco da Gama e toda a revolução tecnológica nos trilhos dessa aventura da tal "ilha" do brazyl procurada. Cuja metade do caminho estava onde as "calmarias" - ou seja, a Corrente equatorial - divide a zona tórrida das Antípodas (hemisférios Norte e Sul). Lugar infernal e intransponível, segundo a arcaica teoria de Santo Agostinho...

Então que, na verdade, Cristóvão Colombo, aliás Salvador Fernandes Zarco, cristão-novo da vila de Cuba (Alentejo, Portugal), donde a ilha de Cuba foi dada em homenagem à terra natal do descobridor; era espião do rei de Portugal dom João III na corte dos Reis Católicos? Todavia, o piloto da caravela "Niña", Vicente Yañez Pinzón, era um cristão-velho de absoluta confiança dos espanhóis. Assim a rivalidade entre os dois reinos ibéricos estava a bordo das três caravelas do descobrimento da América em 1492. O leitor do século 21, para que se faça luz sobre os referidos acontecimentos afastando as brumas do passado distante, deve ser advertido sobre as armadilhas de linguagem das épocas: achar é topar qualquer coisa no caminho e pelo descobrimento revela-se coisa achada ou guardada em segredo...

Hoje nós podemos dizer que o Brasil foi achado em 1498 no Pará por Duarte Pacheco Pereira; e em 1500 descoberto na Bahia por Pedro Álvares Cabral. O achado do cosmógrafo do rei deu-se em viagem secreta e seu interesse científico consistiu em fazer observações astronômicas capazes de garantir os direitos de Portugal conforme aquela linha meridiana imaginária a 370 léguas a oeste de Cabo Verde de que trata o Tratado de Tordesilhas (1494).  Duarte Pacheco foi consultor técnico nas cabulosas negociações entre Portugal em Espanha em Tordesilhas. De modo que no Grão Pará veio ele in sito determinar a costa-fronteira do Pará: prováveis limites entre as duas possessões ibéricas a fim de Pedro Álvares Cabral descobrir o país do brazyl (matéria mineral corante substituída depois pelo pau-Brasil). A Ilha do Marajó e tudo mais a oeste da dita costa-fronteira até o Pacífico cabia totalmente a Castela, inclusive a doação de Nova Andaluzia junto ao Cabo Norte (Amapá) até o rio Japoc ou Oyapock(Oiapoque), futuramente, ao descobridor do rio das Amazonas, Francisco de Orellana (1542), tragicamente desaparecido nas águas do Grão Pará, em 1544, quando o donatário e governador Adelantado del Río buscava ocupar a terra dos Tapuias.

Já, em sentido metafórico, quando Oswald de Andrade escreve, no "Manifesto Antropofágico" (1928), "fizemos Cristo nascer na Bahia ou em Belém do Pará"; a frase equivale a uma descoberta grande. A qual, de fato, proclama a independência cultural brasileira capaz de obrar milagres tanto quanto os civilizadores do extremo Ocidente: mas, o achado desta mesma cultura não tem data nem autor conhecido, posto que do alto de nossa ignorância 1800 anos nos contemplam desde a primeira cultura complexa da Amazônia e da primeira arte cerâmica do Brasil. Coisa admirada em grandes museus nacionais e estrangeiros.

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 "Primeira Missa no Brasil", Victor Meireles (1860).

O nascimento de Cristo na Bahia faz sentido na primeira missa, na praia da Coroa Vermelha, em Santa Cruz Cabrália, conforme a carta do Descobrimento pelo escrivão da frota Pero Vaz de Caminha, em 26 de abril de 1500. No Pará, a Natividade cristã muda de figura pois o Presépio foi na verdade um forte levantado por soldados matabugres e guerreiros antropófagos, cuja Eucaristia do herói invejado era carne e sangue verdadeiro, em vez do pão e vinho consagrados no altar:


 Victor Leonardi, na obra "Entre Árvores e Esquecimento: História Social no Sertão do Brasil" baseado em Caminha pinta um quadro idílico do encontro entre índios Pataxó e marinheiros portugueses de passagem para a Índia cujo encantamento se acabou, trinta anos depois do Descobrimento, com a chegada da primeira expedição colonizadora obrigando os índios da mítica Yvy marãey (Terra sem mal) - utopia selvagem onde não há fome, trabalho escravo, doença, velhice e morte - ao trabalho escravo para extrair pau-Brasil e encher navios para tinturarias da Europa.

O relato da Viagem de Pinzón, o coloca três meses à frente de Cabral, chegando ele ao cabo de Santo Agostinho (Pernambuco) a 26 de janeiro de 1500,donde navegou para o norte desembarcando em Camocim (Ceará), singrou a foz do rio Amazonas, ao qual chamou de Santa Maria de La Mar Dulce; assaltou uma aldeia na ponta da ilha Marinatambalo (Marajó) donde levou os trinta e seis primeiros "negros da terra" (índios escravos) da América do Sul. Todavia, o sócio e piloto de Colombo não "descobriu" tais paragens, por não ter certeza ou antes por achar que a terra caia na posse de Portugal conforme o Tratado de Tordesilhas (1494).


ENTRE CHUVAS E ESQUECIMENTO: 1800 ANOS DA PRIMEIRA UNIVERSIDADE INDÍGENA DA AMAZÔNIA

Deu-se por acaso o achado, pelos colonizadores, do primeiro sítio arqueológico de Cultura Marajoara, no dia 20 de Novembro de 1756 (cf. Alexandre Rodrigues Ferreira, "Notícia Histórica da Ilha Grande de Joanes ou Marajó", Lisboa, 1783): coincidência extraordinária com o DIA NACIONAL DE CONSCIÊNCIA NEGRA. A UNESCO e a República Federativa do Brasil ao tomar nota destas mal traçadas linhas a fim de estudar a possibilidade de proteger a Cultura Marajoara no âmbito do programa "O Homem e a Biosfera" (MaB) estaria, com certeza, resgatando uma dívida histórica enorme e a indicar o caminho do desenvolvimento sustentável da Amazônia no respeito das populações tradicionais, seus saberes e costumes milenares a par das justas ambições do progresso da C&T mediante inovações harmoniosas entre a natureza e o desenvolvimento econômico.


O Programa MaB / UNESCO
O Programa Homem e Biosfera (MaB – Man and the Biosphere) foi criado como resultado da "Conferência sobre a Biosfera" realizada pela UNESCO em Paris em setembro de 1968. O MaB foi lançado em 1971 e é um programa de cooperação científica internacional sobre as interações entre o homem e seu meio. Busca o entendimento dos mecanismos dessa convivência em todas as situações bioclimáticas e geográficas da biosfera, procurando compreender as repercussões das ações humanas sobre os ecossistemas mais representativos do planeta.
objetivo central do Programa MaB é promover o conhecimento, a prática e os valores humanos para implementar as boas relações entre as populações e o meio ambiente em todo o planeta.
O Programa MaB desenvolve, ao mesmo tempo, duas linhas de ação:
O aprofundamento direcionado das pesquisas científicas, para o melhor conhecimento das causas da tendência de um aumento progressivo da degradação ambiental do planeta;
A concepção de um inovador instrumental de planejamento, as Reservas da Biosfera, para combater os efeitos dos citados processos de degradação, promovendo a conservação da natureza e o desenvolvimento sustentável.
As Reservas da Biosfera
Zoneamento de uma Reserva da Biosfera
Reservas da Biosfera são áreas de ecossistemas terrestres e/ou marinhos reconhecidas pelo programa MAB/UNESCO como importantes em nível mundial para a conservação da biodiversidade e o desenvolvimento sustentável e que devem servir como áreas prioritárias para experimentação e demonstração dessas práticas.
As Reservas da Biosfera são o principal instrumento do Programa MaB e compõe uma rede mundial de áreas voltadas a Pesquisa Cooperativa, a Conservação do Patrimônio Natural e Cultural e a Promoção do Desenvolvimento Sustentável.
Para tanto devem ter dimensões suficientes, zoneamento apropriado, políticas e planos de ação definidos e um sistema de gestão que seja participativo envolvendo os vários segmentos do governo e da sociedade.
As Reservas da Biosfera devem cumprir de forma integrada três funções:
Contribuir para conservação da biodiversidade, incluindo os ecossistemas, espécies e variedades, bem como as paisagens onde se inserem.
Fomentar o desenvolvimento econômico que seja sustentável do ponto de vista sócio-cultural e ecológico.
Criar condições logísticas para a efetivação de projetos demonstrativos, para a produção e difusão do conhecimento e para a educação ambiental, bem como para as pesquisas científicas e o monitoramento nos campos da conservação e do desenvolvimento sustentável.





Seminário da Semana Nacional de C&T discute tema da próxima edição.   

 

Acontece em Brasília, a reunião dos coordenadores estaduais da 12ª Semana Nacional de Ciência e Tecnologia. Cerca de 70 representantes de vários estados terão a oportunidade de trocar experiências, ampliar os conhecimentos e receber orientações para o melhor aproveitamento do tema "luz".    


Reprodução
Coordenadores estaduais participam de debate, em Brasília, sobre a temática da 12ª edição da SNCT "Luz, Ciência e Vida"
 

 Coordenadores estaduais participam de debate, em Brasília, sobre a temática da 12ª edição da SNCT "Luz, Ciência e Vida"    
O secretário de Ciência e Tecnologia para a Inclusão Social, Oswaldo Duarte Filho, destacou o papel do encontro preparatório para a edição da SNCT neste ano, evento considerado "um dos mais importantes de divulgação científica do Brasil". O encontro termina nesta quarta-feira (24).SNCT 2015

A SNCT é coordenada pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) e acontece em todo o País, de 19 a 25 de outubro. A edição deste ano abordará o tema "Luz, Ciência e Vida", em consonância com a decisão da Assembleia Geral das Nações Unidas que escolheu 2015 como o Ano Internacional da Luz.
A expectativa dos organizadores é celebrar a luz como matéria da ciência e do desenvolvimento tecnológico. Na intenção de apresentar aos coordenadores as várias possibilidades de aplicação do tema, a Secretaria de Ciência e Tecnologia para Inclusão Social (Secis/MCTI) trouxe para o seminário uma programação com oficinas, debates e palestras de pesquisadores com experiência em divulgação científica, que puderam apresentar experimentos relacionados ao assunto.

"O encontro busca mostrar como a luz está presente em todos os aspectos da vida, no cotidiano, na ciência, na história e no futuro da humanidade", explicou o diretor de Popularização e Difusão de Ciência e Tecnologia da Secis, Douglas Falcão, ao ressaltar o aspecto aberto e multidisciplinar da temática.

"O objetivo é que, com os exemplos apresentados, os representantes das coordenações estaduais utilizem as ideias e disseminem o conhecimento em suas regiões ao longo dos próximos meses, fomentando uma Semana Nacional de qualidade para o público", afirmou.

Expectativas

De acordo com o secretário Oswaldo Duarte Filho, a evolução nos últimos anos, especialmente, na edição de 2014, mostra a relevância da SNCT para o País.

No último ano, o evento alcançou a marca de aproximadamente 108 mil atividades realizadas, superando o recorde anterior de 34 mil ações em todo o País. "Isso é uma demonstração do vigor da Semana Nacional, que cada vez mais vem envolvendo a comunidade na divulgação da ciência", afirmou o secretário.

A Secis trabalha com a meta de que pelo menos mil municípios participem da SNCT 2015. No ano passado, 902 cidades realizaram atividades. Oswaldo Duarte Filho também saldou mobilizadores estaduais pelo trabalho desenvolvido.
"Vocês organizam e ajudam o sucesso da SNCT. Queremos aumentar o envolvimento da sociedade, do poder público e das instituições para que possamos alavancar a Semana Nacional, cada vez mais, e mostrar para a sociedade o que a ciência pode fazer por ela."

Luz e conexões

Em mesa redonda, nesta terça-feira (23), o físico e engenheiro de materiais Vanderlei Salvador Bagnato, professor da Universidade de São Paulo (USP) e delegado brasileiro pela Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura (Unesco), fez um resgate histórico das teorias e descobertas da humanidade sobre a temática do evento.

Para o pesquisador, a edição 2015 será uma excelente oportunidade para pensar em um assunto de interesse mundial.

"Será uma maneira de lembrar e alertar os nossos jovens para um tópico tão interessante e, ao mesmo tempo, em sintonia com o mundo", salientou Bagnato. Ele também destacou as diversas aplicações com o uso da luz, inclusive para a cura do câncer, e a necessidade de mostrar as tecnologias modernas existentes ao público estudantil.

"Tudo aquilo que ele pensa que é ficção científica hoje já uma realidade. Com a luz é possível detectar doenças, pragas na lavoura, poluição e fazer o controle ambiental e isso é fantástico", ressaltou.

O diretor do Espaço Ciência, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), o químico Antônio Carlos Pavão, utilizou experimentos para mostrar a relação entre as cores e a luz .

"A ideia é mostrar que, com materiais simples, podemos extrair conceitos bastante profundos sobre qualquer assunto e, em particular, sobre essa questão da luz", explicou Pavão, que também é coordenador estadual da SNCT no estado. "A luz está presente em tudo. Este é um tema muito apropriado para trabalharmos com divulgação e educação científica."

Fonte: Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação



O romancista Dalcídio Jurandir (Ponta de Pedras, 10/01/1909 - Rio de Janeiro, 16/06/1979), escreveu o romance "Marajó" em Salvaterra, na ilha do Marajó, em 1939, mesmo ano em que escreveu o seminal "Chove nos campos de Cachoeira". Fonte para etnografia amazônica, além de inegável valor artístico da obra romanesca de Dalcídio, "Marajó" foi saudado pela crítica como primeiro romance sociológico brasileiro, onde o homem e a natureza entabulam um diálogo violento às vezes e antropoético quase sempre. Abaixo imagem do litoral de Salvaterra, onde na antiga vila de pescadores, o primeiro Prêmio Machado de Assis (1972) começou sua obra composta por onze romances.