quarta-feira, 12 de julho de 2017

O futuro Estado do Marajó.

Resultado de imagem para imagens marajoaras



Detalhe pictórico de cerâmica marajoara: sugestão para composição artística de bandeira oficial do Marajó. Quem se habilitará? 

A obra "Motivos Ornamentais da Cerâmica Marajoara", de Giovanni Gallo, criador do Museu do Marajó (1972), primeiro ecomuseu amazônico; oferece coleção de desenhos e fotos de fragmentos cerâmios -- ditos "cacos de índio" -- que serviram de base ao trabalho. As cores originais da arte marajoara, em vermelho e preto (ver "Cultura Marajoara", da arqueóloga brasileira Denise Schaan) se acham em peças e coleções de diversos grandes museus nacionais e estrangeiros, marca registrada da mais antiga civilização da Amazônia iniciada cerca do ano 400 da era cristã. 



Quem sabe faz a hora. A autonomia democrática do futuro Estado do Marajó, na comunidade amazônica de estados brasileiros, República Federativa do Brasil; com objetivo de erradicar o analfabetismo e a pobreza extrema da Criaturada grande de Dalcídio deve contemplar firme e estrategicamente os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS), na perspectiva da Agenda Brasil 2030, no que diz respeito a nossa singular Amazônia Marajoara a fim desta região equatorial se tornar uma vitrine pós-colonial da América tropical. Trópico úmido, bem entendido.

Nós devemos, ao contrário do plebiscito passado sobre a divisão do Pará, doravante nos juntar aos autonomistas em favor da criação dos estados de Carajás e Tapajós. Fazer como eles, dia a dia, rumo à emancipação territorial: não importa quando isto irá se realizar. O importante é tomar consciência do tempo e do espaço onde nossos antepassados  criaram a primeira cultura complexa da Amazônia e o destino comum que une nossos filhos em netos em busca de dias melhores. As regiões amazônicas, naturalmente, se desenvolveram nos últimos 400 anos desde o antigo estado-colônia do Maranhão e Grão-Pará (Amazônia portuguesa) até a adesão à Independência do Brasil (1823). Das províncias do Maranhão e Grão-Pará surgiu a Amazônia Legal dos dias de hoje numa evolução que corresponde aos estado do Acre, Amapá, Amazonas, Maranhão, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins. Certamente, no futuro, o desenvolvimento regional levará a novos estados. 

Os atuais 16 municípios da mesorregião Marajó, com a criação do novo estado, a exemplo do Tocantins, serão divididos. Hoje é evidente que seria dividir a pobreza, porém como a discussão no âmbito federal, em Brasília, que é o foro adequado serão vislumbrados outros esquemas donde a cooperação internacional a partir da Organização das Nações Unidas (ONU), no escopo da AGENDA 2030. A Reserva da Biosfera Marajó-Amazônia daria outro sentido à Área de Proteção Ambiental do Arquipélago do Marajó (APA-Marajó) e a implantação de um ou dois sítios da Convenção de Ramsar para preservação de zonas úmidas planetárias (Mondongos e Contracosta), colocaria o já estado do Marajó em destaque, face sua posição estratégica, como prestador de serviços ambientais previstos na Convenção de Paris sobre Mudança Climática, de 2016. O protagonismo do Marajó seria evidenciado nacional e internacionalmente, caso seja alcançado outro status político-administrativo.

A gente sabe que os representantes políticos das regiões do Sul e Sudeste, não permitem criar novos estados ou territórios federais. Pois, cada uma, com 3 senadores e número variável de novos deputados, as regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste caso venham a contar com novas unidades federativas passariam a dispor de maioria de membros no Poder Legislativo.

Este é o principal argumento contra a redivisão territorial do Brasil. Assunto de competência exclusiva do Senado Federal. Geopolíticos favoráveis à descentralização territorial, contudo, demonstram que países de grande extensão geográfica e população numerosa e diversificada, como os Estados Unidos, a China e a Índia, por exemplo, apresentam grande número de estados e/ou províncias autônomas. Assim, o desmembramento de estados do Sul e Sudeste reequilibraria a divisão territorial do país, podendo dobrar o número atual de unidades federativas, com uma melhor distribuição da renda nacional e do desenvolvimento regional. 

A mesorregião Marajó situada no delta-estuário da maior bacia fluvial do planeta é o maior arquipélago fluviomarinho do mundo acrescentado de porção continental, entre os rios Xingu e Tocantins, na microrregião de Portel; perfaz mais de 104 mil quilômetros quadrados. Área geográfica maior que alguns estados brasileiros, como Rio de Janeiro, Paraíba, Alagoas, Rio Grande do Norte ou Sergipe. Maior que alguns países independentes, notadamente ilhas-estado.   

Do ponto de vista demográfico, o Marajó possui população equivalente a dos estados do Amapá e Roraima. Ou pouco acima do numero de habitantes de Cabo Verde, país-membro da Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP), que congrega Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau,  Moçambique, São Tomé e Príncipe e Timor Leste. A criação do futuro Estado do Marajó mais depressa levará a cabo a criação da Universidade Federal do Marajó e, por certo, dará oportunidade de ser estabelecer a Universidade do Estado do Marajó observando mais ampla autonomia universitária via a vis das especificidades de mais de duas mil ilhas, entre fluviais e marítimas, assim que mais de 500 comunidades locais dispersas pela parte florestal e continental inclusive.

Durante o regime colonial português, no Estado do Maranhão e Grão-Pará (1621-1751), depois do Grão-Pará e Maranhão (1751-1823), o Povo Marajoara estimado em "50 mil almas" (cf. Serafim Leite, "História da Companhia de Jesus no Brasil", tomo IV: Rio de Janeiro, 1946), sofreu guerra tenaz de parte dos colonos e seus aliados tupinambás. Votado à "guerra justa" (extinção e cativeiro) a brava gente marajoara resistiu à três tentativas de conquista armada e, finalmente, aceitou a pacificação sob a Missão dos Jesuítas (obra citada, carta do padre Antonio Vieira ao rei de Portugal, datada de 29/11/1659 e publicada em 11/02/1660).

Com a expulsão dos padres da Companhia de Jesus (1661), desenganaram-se os "nheengaíbas" (marajoaras) da falsa paz com os portugueses e voltaram a praticar a pirataria contra canoas de "drogas do sertão" e "tropas de resgate" que transitavam através dos Estreitos de Breves entre o Rio Pará e o Amazonas. Em 1665, o rei de Portugal doou a outrora Ilha dos Nheengaíbas a seu secretário de estado Antônio de Sousa de Macedo, como capitania hereditária da Ilha Grande de Joanes (1665-1757). 

O cacique Guamã, dos Aruãs e Mexianas, cerca de 1723, assaltava aldeias de "índios mansos" (escravos) nas ilhargas de Belém indo até ao Murubira através do rio Guamá e igarapé do Aurá.   Perseguido pela tropa de guarda-costa comandada por João Paes do Amaral até o Oiapoque, Guamã continuou seus costumeiros assaltos trocando escravos capturados aos portugueses por armas e munições fornecidas por traficantes franceses de Caiena. O capitão Paes do Amaral foi mandado ao Rio Negro (Amazonas) com suas tropas recrutadas entre "índios cristãos" (tupinambás) levar reforço contra a revolta dos índios manaus comandados por Ajuricaba. 

O sargento-mor Francisco de Mello Palheta assumiu comando da tropa de guarda-costa continuando a busca, vivo ou morto, de Guamã, desertores e escravos fugidos que percorriam as costas entre Marajó e o Cabo do Norte (Amapá). Não se falou mais de Guamã e seus bandoleiros, mas do café furtado em Caiena que deu começo ao café beirão no Pará e foi formar os primeiros cafezais no Rio de Janeiro e São Paulo.

Em 1783, Alexandres Rodrigues Barbosa (cf. "Notícia Histórica da Ilha Grande de Joanes ou Marajó"), viaja ao Marajó e vê aí o potencial de uma província autônoma. Hora de rever o passado e planejar o futuro a fim de remediar o triste presente de mísero IDH da gente marajoara.

terça-feira, 4 de julho de 2017

LIBERTAS E SERÁS TAMBÉM

Resultado de imagem para imagens pesca no lago arari marajó
SEGURANÇA ALIMENTAR NO MARAJÓ - OS GADOS DO RIO EM PRIMEIRO LUGAR.




GENTE MARAJOARA

Libertas e serás também.

Causou estranheza à CPT-Prelazia do Marajó e comunidade marajoara o Projeto de Lei 107 de 31/05/2017, apresentado pelo deputado Hildegardo Nunes à Comissão de Cultura da Assembleia Legislativa do Pará (ALEPA) no dia 05/06/2017. O PL dispõe sobre o reconhecimento da pecuária como atividade tradicional no Marajó, considerando-a prioridade na ordem dos investimentos agropecuários para a região. Atividades outras como o turismo, extrativismo e pesca, por exemplo, são definidas no documento como "complementares" e recebem permissão para continuar sendo praticadas. Segundo a CPT - Prelazia do Marajó, o PL conclui instituindo certificação aos produtos e subprodutos oriundos do Marajó.

Enfim, uma iniciativa infeliz por representar a continuidade do mando de cima para baixo: "manda quem pode e obedece quem tem juízo", era assim que funcionava. O vício do cachimbo deixa a boca torta... Nos anos de chumbo, o cronista Carlinhos Oliveira inventou estória dizendo ele ter errado trabalho escolar acerca da tradução do dístico latino da bandeira republicana de Minas Gerais, o célebre Libertas Quae Sera Tamen (liberdade ainda que tardia), que espertamente traduziu LIBERTAS E SERÁS TAMBÉM... 

Errou o latim, mas acertou o espírito da coisa. Era pretexto para escrever à atriz Lucélia Santos, da telenovela Escrava Isaura, dizendo-lhe para não paternalizar índios e negros supondo que somos por acaso superiores a estes: nós somos a ralé judia, a massagada árabe indesejáveis na Europa, dizia. Do mesmo modo, a elite paraense deveria baixar a bola e parar de olhar para o próprio umbigo passando a praticar a democracia participativa com que teria mais força e representatividade diante da concorrência nacional e pressão externa.

Há oito anos escrevi artigo sobre isto e agora gostaria de recordar de novo aos brancos de nossa elite papa chibé. Abaixo do equador somos todos farinha do mesmo saco: melhor nos respeitar uns aos outros e nos unir a fim de deixar uma nação mais justa a nossos filhos e netos. A elite latifundiária da ilha do Marajó, depois de 337 anos do primeiro curral de gado no Arari, 260 do Diretório dos Índios e expulsão dos Jesuítas completada pela expropriação das fazendas dos padres para doar aos Contemplados do Marquês de Pombal; ainda no século XXI deposita fé nas velhas sesmarias de pecuária extensiva, mãe de todas exclusões sociais da criaturada marajoara.

Em vez de olhar para o futuro com a Agenda 2030 dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS), em compromisso do Brasil com a Organização das Nações Unidas (ONU); os fazendeiros querem uma lei estadual reafirmando a histórica primazia da agropecuária como prioritária para o desenvolvimento econômico da região do Marajó: ora, a agropecuária tradicional de base familiar sim deveria ser uma atividade dentre outras num leque de oportunidades de geração de emprego e renda local a par do ecoturismo, da pesca artesanal organizada, do extrativismo florestal além de outros ramos socioeconômicos sustentáveis.

Na Quaresma de 1999, os bispos da Diocese de Ponta de Pedras e da Prelazia do Marajó (Soure) divulgaram documento eclesial alertando as autoridades brasileiras sobre a extrema pobreza do Povo Marajoara. O governo estadual limitou-se em convidar o Grupo em Defesa do Marajó (GDM), que existiu entre 1994 e 2014 fundindo-se depois ao Movimento Marajó Forte (MMF), para troca de sugestões como, por exemplo, a implantação efetiva da Área de Proteção Ambiental do Arquipélago do Marajó (APA-MARAJÓ). Que, mais tarde, em 2003, viria ser base da demanda para reconhecimento do Marajó como sétimo bioma brasileiro protegido na lista mundial reserva da biosfera brasileira (Mata Atlântica, Cerrado, Caatinga, Serra do Cipo, Pantanal e Amazônia Central).

O referido documento eclesial foi base de solicitação dos bispos católicos ao Presidente da República para criar o Grupo Executivo Interministerial de Acompanhamento de Ações no Arquipélago do Marajó (GEI-Marajó), em 2006. Da demanda da comunidade marajoara resultou o Plano de Desenvolvimento Territorial Sustentável do Arquipélago do Marajó (PLANO MARAJÓ), lançado conjuntamente pela Presidência da República e o Governo do Estado do Pará, na cidade de Breves, em 2007. No ano seguinte, 2008, o programa federal Territórios da Cidadania reunindo consórcios entre cerca de 2000 municípios de baixo IDH, integrou-se ao PLANO MARAJÓ formando o Conselho de Desenvolvimento Territorial do Marajó (CODETER) reunindo representantes da sociedade civil, Associação dos Municípios do Arquipélago do Marajó, Governo estadual e União: nunca na história desta região houve um arranjo federativo assim.

No conjunto, causou impacto positivo junto às comunidades municipais o Projeto de Regularização Fundiária NOSSA VÁRZEA, que chegou a atender aproximadamente 40 mil famílias. Ou seja, algo como um terço da população. É claro que estas novidades, apesar de levantar expectativas e contradições, ainda são largamente insuficientes e hoje se apresentam a ponto de redundar em tremendo retrocesso, como por exemplo, a extinção da Bolsa Verde pelo governo federal. Quando, pelo contrário, o pagamento por prestação de serviços ambientais deveria ser massificado a par do contravertido FUNDO AMAZÔNIA via Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), tristemente famoso por investir e financiar empresas corruptoras e devastadoras com a JBS, que vem de sofrer pública reprimenda do governa da Noruega ao governo do Brasil.

É fora de dúvida de que se a elite política do Marajó ouvisse a Criaturada e quisesse fazer da ilha do Marajó uma vitrine as coisas jamais chegariam ao ponto em que chegou com o alegado roubo de gado, pirataria, narcotráfico, crimes hediondos, tráfico de pessoas, abuso sexual de menores, violência contra mulheres e outras coisas mais que fazem o povo fugir para as cidades onde só encontram mais desgraças e desesperança. Dai que os marajoaras que amam a sua ilha natal não podem deixar de protestar diante da arrogância do latifúndio e do agronegócio.

O Brasil não conhece os Marajós, enquanto o próprio Pará desvaloriza esta região insular ímpar que deveria ser tratada como joia da coroa amazônica. Atravessada na boca do Amazonas a ilha dos Nheengaíbas ou Aruans, maior que o reino de Portugal, após tenaz resistência a todos tentativas de conquista armada desde a tomada de Gurupá aos holandeses (1623), finalmente foi pacificada no acordo de Mapuá, de 27 de agosto de 1659, entre o Padre Antonio Vieira, delegado de El-Rei Dom João IV e superior das Missões do Grão-Pará, e sete caciques nheengaíbas dos Aruãs, Anajás, Guaianases, Cambocas, Pixi-Pixi e Mamaianases liderados pelo índio Principal Piié dos Mapuás; conforme a lei de liberdade dos cativeiros indígenas, de 9 de abril de 1655.

Naquele tempo, conforme o cânone romano, apesar dos enormes esforços do dominicano Bartolomeu de Las Casas; “índio” e preto africano não tinham alma. Isto é, direitos humanos. Ou seja, os Nheengaíbas não tiveram reconhecidos seus direitos territoriais e identitários milenares. Porém hoje os seus descendentes fazendo parte das populações tradicionais, lutam por esses mesmos direitos. Eis a questão!

Então, a carta do Padre Antonio Vieira ao rei de Portugal por intermédio da regente Dona Luísa de Gusmão, datada em Belém do Grão-Pará em 29 de novembro de 1659 (publicada em Lisboa em 11 de fevereiro de 1660), vem a ser para os dias de hoje um ensaio precursor sobre os direitos humanos dos povos indígenas e prenúncio da Teologia da Libertação. Documento histórico a ser revisto à luz dos Direitos Humanos Universais e da Encíclica “Louvado Seja”, do Papa Francismo, mencionando expressamente a Amazônia.

Todavia, como chegar a uma leitura da história da gente marajoara, como esta que se resenha aqui, se nem mesmo a interpretação da Constituição da República Federativa e da Constituição do Estado do Pará pelas autoridades constituídas e intelectuais da região contempla os direitos das populações remanescentes dos antigos povos indígenas? Mas Dalcídio Jurandir e o padre Giovanni Gallo não escreveram em vão a defesa da Criaturada marajoara.

Ao mesmo tempo que o “Paiaçu dos índios”, depois de ser expulso violentamente com seus confrades pelo colonos do Pará, revoltados pela proibição de escravizar índios; em Portugal era ele processado, preso e condenado pela Inquisição do Santo Ofício, por heresia judaizante do Quinto Império do mundo – utopia evangelizadora do reino de Jesus Cristo consumado na terra, um milênio de paz ecumênica para todos cristãos, judeus e muçulmanos – , a Ilha dos Nheengaíbas foi dada graciosamente por El-Rei Dom Afonso VI ao secretário de estado Antônio de Sousa de Macedo como Capitania hereditária da Ilha Grande de Joanes, em 1665.

Naturalmente a tal Capitania hereditária se fez à revelia dos ditos Nheengaíbas lesados em suas terras hereditárias, já desenganados da falsa paz de Mapuá, que retomaram suas antigas armas e costumes bélicos selvagens refugiando-se pelo interior da ilha: embrião da Jebre e do interminável “roubo de gado”... Donde os índios bravios saiam em incursões guerreiras sobre a terra firme assaltando aldeias de índios “mansos” (escravos dos colonos) para fazer escambo por armas e munições junto a traficantes vindos de Caiena a fim de sustentar a velha guerra contra os antigos inimigos Tupinambás aliados aos portugueses, desde a tomada de São Luís do Maranhão (1615). Com a quebra das pazes de Mapuá, continuou a guerra até cerca de 1723, levando a tropa de guarda-costa comandada pelo sargento-mor Francisco de Mello Palheta em busca, vivo ou morto, do cacique dos aruã e mexiana Guamã. Dessa guerra colonial veio o café furtado da Guiana francesa.

O café brasileiro teve, então, em sua origem uma guerra injusta no extremo-norte do Brasil, para evitar antes a “guerra justa” de extermínio e cativeiro dos Marajoaras (cf. “História da Companhia de Jesus no Brasil”, Serafim Leite: Rio de Janeiro, 1946, tomo IV). Por isto o contrabando das Guianas se fez notável além Oiapoque, onde enfim a ponte binacional Brasil-França espera melhores dias, agora talvez sob égide do Acordo de Paris de 2016. Mas as elites de Brasília e Paris querem saber a história de uma criaturada lesada pela Civilização ocidental?

A Capitania de Joanes com seu donatário lisboeta distante e o capitão-mor André Gavinho morando na cidade grande servido de escravos e criados, entretanto, permaneceu 15 anos sem efeito prático diante da resistência feroz e perigo de ataques de índios bravios, desertores e escravos fugidos (aldeias isoladas e quilombos) que existiam pelos centros da Ilha: eram eles ainda os marãyu / marajó (gente malvada, homem mau), os donos de fato da ilha dos “falantes da língua ruim” (nheengaíba).

Vem daí até nossos dias a fama medonha da Jebre temida, área inóspita às ilhargas dos mondongos (poderia ser a par da Reserva da Biosfera um sítio da Convenção de Ramsar sobre preservação de áreas úmidas) e da Contracosta onde se refugiam ladrões de gado e supostos piratas com suas malfeitorias. Somente em 1680, 15 anos depois do esbulho real das terras indígenas na ilha do Marajó; levantou-se com o português Francisco Rodrigues Pereira, o primeiro curral de gado dentro do rio Mauá, tributário da margem esquerda do Arari. Assim, a ilha do Marajó começou a ser ocupada pela pata de bois e cavalos de Cabo Verde sem nunca as fazendas resultar em bem àquelas populações tradicionais marajoaras até o presente.

Entretanto, pelo memorial de doação da capitania ao secretário de estado do reino, Antônio de Sousa de Macedo, ficamos sabendo da existência anterior do Pesqueiro Real (hoje no território da Reserva Extrativista Marinha de Soure), com índios Iona (Joanes) como pescadores escravos da Coroa. Deste pesqueiro e da miséria dos pescadores de tainha, valendo como dinheiro corrente no Pará para pagamento do soldo da tropa, vencimento dos funcionários e a côngrua dos vigários de freguesia, falou o naturalista Alexandre Rodrigues Ferreira, na “Notícia Histórica da Ilha Grande de Joanes ou Marajó” (1783), separata da “Viagem Philosophica” (1783-1792). O sábio de Coimbra viu na ilha grande o potencial de uma província separada do Pará e disse do achado do primeiro sítio arqueológico, teso do Pacoval do rio Arari, pelo capitão Florentino da Silveira Frande, inspetor da ilha, no dia 20 de Novembro de 1756 – por feliz coincidência, atualmente DIA NACIONAL DA CONSCIÊNCIA NEGRA e que também poderia ser Dia Nacional da Cultura Marajoara – , deu voz ao índio Severino dos Santos, sargento-mor de milícia da vila de Monforte (aldeia velha de Joanes) cuja memória resgata os começos da guerra entre os Aruãs (cerca de 1300) e as etnias marajoaras mais velhas, deslocadas pouco a pouco para a Costa Fronteira do Pará (Soure, Salvaterra, Cachoeira do Arari e Ponta de Pedras).

Após a guerra-civil da adesão do Pará à Independência do Brasil (1835-1840), dita a Cabanagem; foram chamados imigrantes da Espanha, Portugal e Galícia para relançar a pecuária decadente na ilha do Marajó, viajantes e naturalistas percorrem as Ilhas, o inglês Alfred Russel Wallace co-autor da teoria de evolução das espécies esteve na ilha de Mexiana e na Contracosta. Domingos Soares Ferreira Penna, fundador do Museu Paraense (Museu Paraense Emílio Goldi) estudou os últimos Aruãs em Chaves e coletou cerâmica marajoara com o diretor do Museu Nacional, Ladislau Neto, remetendo peças do teso do Pacoval para Exposição de Chicago (EUA), em 1893. A arqueóloga brasileira Denise Schaan realizou um trabalho exausitivo e escreveu a obra de divulgação "Cultura Marajoara", onde se fica sabendo quantos museus estrangeiros e nacionais ostentam coleções de cerâmica marajoara: tudo pra inglês ver...

Para a gente marajoara sobrou o analfabetismo, a herança maldita dos tesos arqueológicos arrombados e os 'cacos de índio' que surdiram o Museu do Marajó, na luta marajoara de resistência à escravidão e ao colonialismo, dando numa renascença cultural inesperada.



Contribuição à crítica socioambiental da Amazônia Marajoara.

A Ciência não tem pátria, mas os cientistas tem.

A propósito do Parágrafo 2º, VI, do Artigo 13 da Constituição do Estado do Pará, que determina criação da Área de Proteção Ambiental do Arquipélago do Marajó - APA-MARAJÓ (1989) condicionando o desenvolvimento econômico da mesorregião do Marajó ao IDH da gente marajoara. Alegação de inconstitucionalidade do projeto de lei apresentado na Assembléia Legislativa do Estado do Pará que declara a agropecuária como atividade prioritária da economia no Marajó para fins de investimentos e incentivos estaduais e dá outras providências. O dito projeto de lei, além do equívoco de planejamento estratégico demonstra claro menosprezo da elite oligárquica estadual pelo movimento social que pretende investir no turismo de base na comunidade e no agroextrativismo comunitário da cadeia produtiva do açaí e da pesca, por exemplo, como vocação econômica da mesorregião do Marajó. Evidentemente, a agropecuária familiar é uma atividade tradicional marajoara, a par das mais que não pode ser elevada a uma categoria prioritária de agronegócio de escala.

O que a gente marajoara mais precisa, neste momento da Agenda 2030 da ONU determinada a erradicar a pobreza extrema em todo mundo e a enfrentar a mudança climática a qual poderá submergir partes mais baixas do arquipélago; é de um sistema universitário multicampi integrado, capaz de operar centro de excelência em pesquisa do trópico úmido em cooperação nacional e internacional a promover a suplantação da colonialidade regional. Prova desta colonialidade que amarra a gente marajoara ao mísero IDH se vê no triste histórico da APA-MARAJÓ , por exemplo, que precisou mais de 20 anos para, timidamente, começar a ser implantada seja por desconhecimento ou seja por falta de interesse politico de governadores, deputados, prefeitos ou vereadores.

Antes disto, a sociedade civil reunida na cidade de Muaná, em 08/10/2003, em preparação à primeira Conferência Nacional de Meio Ambiente; solicitou providências para candidatar a controvertida unidade estadual de conservação como Reserva da Biosfera na lista brasileira do Programa Homem e Biosfera (MaB), da Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura (UNESCO). Embora até hoje o governo estadual não haja terminado providências para candidatura formal do projeto Reserva da Biosfera Marajó-Amazônia, eu acedito que foram pressões neste sentido que levaram finalmente à implantação daquela APA. Numa região onde já se somam unidades federais de conservação, a Floresta Nacional de Caxiuanã, Reserva Extrativista Arioca /////, Reserva Extrativista Gurupá-/////, Reserva de Desenvolvimento Sustentável Baquiá-Itatupã, Reserva Extrativista Mapuá, Reserva Extrativista Terra Grande – Pracuúba, Reserva Extrativista Marinha de Soure e a Area de Proteção Ambiental municipal de Bacurizal (Salvaterra).

Temos aí esboçado um potencial Mosaico de unidades de conservação ambiental, que com pelo menos um Sítio Ramsar e a Reserva da Biosfera supracitada colocaria a foz do Amazonas no mapa ambiental brasileiro e no sistema multilateral de conservação do meio ambiente. Mas, a oligarquia paraense insiste em acreditar que a conservação ambiental “engessa o progresso”. Embora a Reserva da Biosfera do Pantanal em conjunto de seis reservas da biosfera brasileiras digam o contrário. Aparentemente é esta crença arcaica da elite paraense que explica a dificuldade do governo paraense, durante todo este tempo, em promover o desenvolvimento sustentável do Marajó mediante um correto zoneamento ecológico-econômico de um território federativo do tamanho de Portugal, que tem lá suas.... reservas da biosfera, a última delas...... criada neste ano de 2017. Nem precisa dizer como o turismo e reservas ambientais em Portugal se dão bem. E eu que, por amor à criaturada grande de Dalcidio, sonhava em ver Marajó como a Costa Rica paraense; perdi oito anos de minha vida marcando passo no turismo oficial paraense.

O projeto de lei em questão, privilegiando a agropecuária revela, mais uma vez, a histórica hegemonia política e econômica do latifúndio no Estado do Pará, fundada no colonialismo a partir do patrimonialismo português expandido da ilha da Madeira para as colônias em África, Brasil e Ásia: causa de infinitos conflitos, violência e mortes no campo. Antes de mais nada é preciso reconhecer a existência de grandes nomes da elite paraense com vínculos econômicos, políticos e sociais na ilha do Marajó. O governo estadual já conta na galeria de governadores os nomes de ilustres marajoaras natos ou adotivos, a começar de José Coelho Gama e Abreu (Barão de Marajó), autor do clássico “As Regiões Amazônicas”; Aurélio Correa do Carmo, Alacid da Silva Nunes e Carlos Santos.

Tendo quatro governadores em sua história e notáveis homens públicos como Justo Chermont, Vicente Chermont de Miranda, Bertino Lobato, um intelectual de renomê nacional e internacional como Dalcidio Jurandir, notáveis personalidades que colocam Marajó no centro de seus trabalhos, como o missionário Antônio Vieira, o naturalista Alexandre Rodrigues Ferreira, Domingos Soares Ferreira, Betty Meggers, Ana Roosevelt, Denise Shaan e muitos outros mais; é espantoso o contraste entre a civilização marajoara e a pobreza de sua sofrida população.

Proteção ambiental para quê e para quem?

O golfão Marajoara, na expressão de Aziz Ab'Saber, apresenta a singularidade de uma região equatorial fluviomarinha em torno de duas mil ilhas grandes e pequenas no delta-estuário do Amazonas e Pará, na maior bacia fluvial do mundo. Por aí flui continuamente 20% da água doce superficial de nosso planeta dando uma biodiversidade extraordinária e uma distinta cultura ribeirinha cujas origens vem do paleo-índio amazônico de mais de cinco mil anos de idade. O gigantesco Amazonas depois de percorrer sete mil quilômetros coletando águas, desde suas nascentes no Peru, banha as regiões amazônicas da Bolívia, Peru, Equador, Colômbia antes de entrar no Brasil e receber tributários da Venezuela, Guiana, Suriname e Guiana francesa através do Rio Negro, Rio Branco, Trombetas e Jari, respectivamente; despeja seu caudal no golfão Marajoara. Onde, com o Tocantins vindo das alturas das Águas Emendada, no Planalto Central, deságua no estuário do Rio Pará envolvendo a grande ilha do Marajó (cerca de 50 mil quilômetros quadrados com 12 municípios); para lançar as água da Amazônia ao encontro da Corrente Equatorial Marítima com sua formidável história secreta das antigas navegações do Mar-Oceano que segue para o extremo-norte através da Corrente das Guianas formando a área cultural guianense desde as ilhas do Marajó até a ilh de Trinidad (cf. “Guyane française”, Ciro Flamarion Cardoso).

Trata-se, portanto, da Amazônia Marajoara com todos seus tesouros naturais e culturais materiais e imateriais, incluindo parte continental formada pela microrregião de Portel, na mesopotâmia Xingu-Tocantins, somando área de 104 mil quilômetros quadrados, onde vivem entre grande desigualdade social e disparidade tecnológica 600 mil ribeirinhos. Poucos deles dispõem de instrução, conforto, renda e meios de vida satisfatórios vivendo geralmente nas 16 cidades sedes dos municípios da mesorregião ou em Belém e Macapá. A grande maioria dos marajoaras é pobre, analfabeta e dispersa em mais de 500 comunidades interioranas isoladas, com raras exceções dos distritos urbanos mais próximos da sede do município. O município de Melgaço, por exemplo – Aricará (1659), a mais antiga aldeia missionária do Marajó depois da vila militar de Gurupá (1623) –, ostenta o pior IDH dos municípios brasileiros.

A geografia desta região amazônica, entre o oceano Atlântico e a Floresta Amazônica, é muito complexa. Nela teve origem a mais antiga civilização das terras baixas das Américas – a chamada Cultura Marajoara datada no ano 400 da era cristã. A história da Arqueologia Amazônica começa com viajantes estrangeiros atraídos pelo exotismo e curiosidades da ilha do Marajó com suas coisas, gentes e bichos... Uma ilha-museu a céu aberto, para não dizer ecomuseu avant la lettre...

É claro que, dentre a intelligentsia brasileira, raros intelectuais interessam-se e pensam a Amazônia profunda, na qual uma região como Marajó se destaca pelo fato de constituir a entrada do “rio Babel” (cf. Padre Antonio Vieira, citado por José Ribamar Bessa Freire na obra incontornável “Rio Babel – a história das línguas na Amazônia”). Um povo ágrafo como os marajoaras deixa sua história para as gerações seguintes pela memória de seus “griôs”, mitos, lendas, construções, arte popular... Esta tradição, evidentemente, não é estática. Um patrimônio ancestral que evolui e que se perde também nos embates da vida e da morte... O pensamento acadêmico sobre o Marajó padece, em geral, por uma visão colonizada. Quem melhor poderia falar dos marajoaras seriam os próprios marajoaras.

Porém há um problema aí. Quem são os marajoaras? Supostamente somos mais de um milhão espalhados no mundo, inclusive aqueles 600 mil ribeirinhos vivendo entre chuvas e esquecimento em mais de 500 comunidades-aldeias em duas mil e tantas ilhas. Nossos filhos quando podem vão à escola supostamente para aprender e alguns chegam até a universidade e conseguem passar no mestrado e doutorado. Então que acontece? São extraordinariamente os felizes vencedores da ignorância que não acabam – graças à academia oficial – por repudiar as velhas superstições, crendices e costumes arcaicos de seus antepassados. Pudera! 300 anos de catequese e colonização transformaram o índio marajoara em “caboclo” e caboclo o que mais quer na vida é se converter em “branco”. É não há coisa pior neste vasto mundo que um “branco” que foi “caboclo”...

quarta-feira, 19 de abril de 2017

Sentado na beira do Caminho da Anta a ver estrelas e escutar o pulsar da Terra.

Resultado de imagem para imagem vitória régia
Victoria amazonica (Vitória-régia), ninfeácea do bioma amazônico como outras plantas aquáticas da mesma família da espécie do Lotus na Índia, Grécia, Egito, China e Japão inspirou o espírito humano a conceber lendas e crenças do que se pode dizer ecocultura.



"Há tantas auroras que não brilharam ainda" Rig-Veda.

Dizemos nós, na astronomia de nossos antepassados índios, que a Via Láctea é o Caminho da Anta e os pretos velhos africanos ensinam que o Caminho de Santiago dos homens brancos é, sim, Caminho das Estrelas... O grande Espírito fala de diversos modos aos homens. Na beira do rio de Heráclito a gente vê o tempo passar e percebe que nossa casa comum é o planeta Terra e a história da Terra é a nossa história. 

Por isto, em qualquer pedacinho de terra toda consciência se forma a partir da profunda inconsciência do ser que busca saber quem ele mesmo é, donde veio e a onde vai: a busca começa e acaba no seio da mãe Natureza. A arqueologia das ideias e a psicanálise da história são partes conjuntas da autodescoberta de cada um de nós e do mundo em que vivemos.

A humanidade filha da animalidade (segundo Edgar Morin) é a grande mãe de cada um e de todos no seio da Biosfera, esta escreveu a história natural como primeiro capítulo da evolução da vida orgânica que vai parir a Noosfera prenhe de desafios e mistérios. Donde emanam a diversidade das culturas e as diferentes ciências. Biomas e regiões culturais, em toda complexidade, formam o tecido vivo e a inteligência coletiva da Terra.

O homem nativo das diferentes regiões da Terra é, sem dúvida, o primeiro intérprete desta parte fundamental da Humanidade da terra. Utopia eterna. Todos povos da Terra merecem respeito e consideração em sua terra ancestral por todos mais habitantes do mundo. Se matarmos os últimos nativos da Terra original a humanidade não terá mais passado nem futuro. 

Por isto, a última fronteira da Terra - Amazônia - da primitiva diáspora iniciada na África ancestral deve ser considerada florão da América do Sol, coração pulsante da Terra na soberania democrática dos povos amazônicos da Bolívia, Brasil, Colômbia, Equador, Peru, Guiana, Guiana francesa, Suriname e Venezuela. Os indivíduos amazônidas, natos ou adotivos, devem se bater em defesa desta singular região da Terra e não mergulhar em estúpida indiferença e até juntar-se a seus devastadores e exploradores inconsequentes.

Não existe 'uma' alma ou avatar único do nosso planeta. Cada um de nós, dotados de razão e consciência conforme a Declaração Universal dos Direitos Humanos, adotada pela assembléia-geral das Nações Unidas; concretamente somos o Planeta interligado de muitas e diversas mentes conectadas pela rede neuronal, no presente, algo como 7 bilhões de cérebros basicamente semelhantes, mas não iguais...  A diversidade é a coisa mais impressionante da vida!

Na diversidade de vidas e culturas dos biomas do planeta, urge compreender e preservar crenças e tradições do mundo inteiro. O diálogo para a paz e o desenvolvimento humano passa pelo respeito às crenças e religiões dos outros. Significa dizer que ainda é preciso descolonizar o mundo em todas suas partes. Na Amazônia brasileira, o primeiro passo para a descolonização cultural total e final é reconhecer a Pajelança e as religiões afro-amazônicas como patrimônio imaterial brasileiro. Nós, os agnósticos e ateus devemos ser os primeiros a defender a liberdade de pensamento e expressão a todos e a todas.

Para isto, os estudos amazônicos precisam ensinar sobre os Encantados da Amazônia; espíritos da natureza; se não com intenção de proselitismo religioso, mas como disciplina de esclarecimento das Ciências Sociais em combate ao preconceito e ao ódio étnico. Divulgar mais a cultura popular, como na pesca tradicional do Salgado onde se acredita que os encantados se manifestam em figura de bicho. Entretanto, dizem os pescadores, é gente do fundo, um ser encantado que habita os rios e igarapés.

Posso não acreditar numa única lenda ou relato milagroso, mas defenderei o direito de quem acredita e o patrimônio maravilhoso dos mitos e sonhos da humanidade sem os quais não existiria arte e poesia nenhuma capaz de converter os horrores da vida e da morte no belo, justo e útil no mundo.

Eu me assumo caboco, "saído do mato", do tupi caa (vegetal, planta, floresta) e bok (extraído, tirado, saído) o mesmo que caboclo; uma variedade periférica da velha e vaidosa espécie humana auto-classificada "Sábia", que por curiosa estranheza e similitude o sábio naturalista de Coimbra Alexandre Rodrigues Ferreira, à vista de uma grotesca cabeça de índio degolado em guerra entre nações indígenas inimigas; classificou ligeiramente como "Homo sapiens var. Tapuya" (Viagem Philosophica, 1783-1792). 

Aprendiz de pajé, reprovado por falta de fé, eu descasco meu carma em busca de mim mesmo pela decifração do mito amazônico da primeira noite do mundo. Quer dizer, como toda criaturas formada do encontro biológico entre dois gametas, masculino e feminino; nascemos na escuridão do tempo para vir a luz criar consciência em relação dialética com os outros. Da profunda ignorância passando pelo mito para a realidade da vida, procuro saber quem inventou o mundo e o mais antigo morador destas nossas paragens. 

Então, ainda eu era criança é já tive notícia por leitura soletrada da revista Chácaras e Quintais de meu avô de um tal "Homem da Lagoa Santa", como foi batizado aquele fóssil humano que ajudou a reescrever importante período da história natural brasileira. Coisa fantástica, os achados sugeriam à criança homens primitivos vivendo no mesmo cenário de preguiças e tatus gigantes que se acreditavam extintos quando surgiram as populações humanas. 

A teoria do dinamarquês Peter Lund só seria confirmada mais de um século depois, em 2002, com base em análises de datação das ossadas. Para ele, que findou seus dias e enterrou seus ossos em Lagoa Santa em 1880, nunca restaram dúvidas, considerado hoje pai da paleontologia brasileira. Todavia, a mais extraordinária notícia da Lagoa Santa ainda estava por vir, graças à Genética; provando que nossa avozinha África, além de compartilhar a Pangeia com a América, na era Paleozoica há 200 ou 540 milhões de anos, foi lugar de partida da família brasileira de Lagoa Santa, que passou antes no sul da China e Sudeste Asiático tomando rumo de Papua-Nova Guiné e Austrália. Todo este vasto mundo sob o Cruzeiro do Sul. A mesma constelação, chamada Arapari, pelos índios aruaques que migraram do Caribe para a terra firme.

Mesmo depois da passagem de Peter Lund por Lagoa Santa no século 19, a região guardava grandes surpresas. De lá para cá, foram extraídos restos de aproximadamente 250 esqueletos humanos. Na década de 1970 foi encontrado um crânio feminino de cerca de 11.500 anos.A descoberta mostrou que a região já era habitada muito antes que se imaginava, e pôs em xeque as teorias até então mais aceitas sobre o povoamento do homem nas Américas. 

Em 1998, técnicas de reconstituição permitiram ver o rosto da jovem mulher de Lagoa Santa. Tinha ela, aproximadamente, 20 anos de idade, olhos arredondados, nariz largo. Foi batizada de Luzia como referência à famosa Lucy, fóssil de mais de 3 milhões de anos encontrado na Tanzânia em 1974, então Luzia é considerada a primeira brasileira. A reconstituição da sua face lembra os aborígenes da Austrália e negros da África. 

A descoberta deu força à hipótese, até então polêmica, de que o Novo Mundo tenha sido ocupado por diversas correntes migratórias, vindas inclusive por terra na última Idade do Gelo, durante a baixa do nível dos mares. Os parentes próximos de Luzia teriam habitado o sul da China e sudeste da Ásia e migrado para a América e para a Oceania há cerca de 11 mil anos. E a busca das origens do homem americano não pararam por aí. No México, foram descobertas pegadas de gente que podem ter 40 mil anos. Outros vestígios no sítio arqueológico da Serra da Capivara, no Piauí, podem remontar a 60 mil anos.

E a gente marajoara despossuída das terras ancestrais de seus antepassados e de identidade, não sabe para que serve um museu como aquele incrível invento do padre Giovanni Gallo e, por ser em grande maioria pobre e analfabeta de pai e mãe; nem imagina que a arqueóloga gaúcha Denise Schaan, autora da obra de divulgação Cultura Marajoara além de vários trabalhos de pesquisa científica; veio lá do extremo-sul brasileiro ouvir o que os tesos arqueológicos da ilha do Marajó tinha a dizer ao Brasil e ao mundo... Ela continuou um trabalho cujos inícios ficaram nos fins do século XIX, porém a destruição além do desapreço das intempéries e do pisoteio dos rebanhos, data dos começos das fazendas de gado após 1680.

Ao modo dos pajés da Amazônia tento, desde que me entendo por gente - menino jito do Fim do Mundo, na vila Itaguari, ilha do Marajó, há 79 anos, seis meses e 19 dias até este "Dia do Índio" do ano de 2007, dar conta do recado da Criaturada grande de Dalcídio. Esta gente teria chegado há uns cinco mil anos, mais ou menso, nas terras baixas da América do Sul: grupos nômades descendentes dos primeiros habitantes do continente há cerca de dez mil anos atrás, vindos da Ásia através de longo percurso por milhares de anos desde o sul da África mãe da humanidade filha da animalidade (apud Edgar Morin; nossos antepassados começaram a chegar a este continente, o qual seus descendentes chamados mayas batizaram de Amerik, o "pais do vento"; referindo-se à região de montanhas de entorno do lago Nicarágua. 

O homem "vermelho" americano, originalmente "amarelo" no Extremo Oriente, era "preto" desde seu nascimento entre fezes e urina da bicharada pré-hominídeas; há coisa pra lá de um milhão de anos! A antropologia americana admite diante de evidências de Lagoa Santa, Minas Gerais; 

Resultado de imagem para thiago de mello
Thiago de Mello Poeta da Floresta

"Agora sei quem sou. Sou pouco, mas sei muito, porque sei o poder imenso que morava comigo, mas adormecido como um peixe grande no fundo escuro e silencioso do rio e que hoje é como uma árvore plantada bem alta no meio da minha vida." Thiago de Mello


Resultado de imagem para fotos dalcídio jurandir
Dalcidio Jurandir Romancista da Amazônia

NATAL
Deixei as ovelhas,
deixei a flauta,
e só vim com o meu cajado
e com a minha bíblica inocência
(quanto era bela a minha adolescência).
E corria e corria pelos prados…
Uma estrela muito branca
me orientava,
uma estrela tão grande!
Depus meu cajado
e ajoelhei-me junto do berço,
pensando que esse menino,
pastor de estrelas, noutro tempo,
viesse pastorear comigo
pelos campos,
ser feliz como eu era,
entre as ovelhas!
Dalcidio Jurandir



TODOS NÓS NA ENCANTARIA DA MÃE TERRA:
Somos fortes, felizes, realizados e ricos.

mas...

"A ignorância é a noite da mente" (Confúcio, 551 - 478 a.C).

"Minha primeira escola é a família; meu primeiro mestre é a criança que fui
 Adalberto Barreto (“BARRETO, 2008, 101)

Peixe no prato e farinha na cuia, Aleluia! 

sábado, 4 de março de 2017

uma pequena semente a germinar na terra de Dalcídio e se transformar numa grande árvore.

A imagem pode conter: céu, nuvem, atividades ao ar livre, natureza e água
Vila Mangabeira à margem esquerda da baía do Marajó, costa-fronteira do Pará - berço do município de Ponta de Pedras: antiga aldeia das Mangabeiras fundada pelos padres jesuítas e índios catequizados na aldeia Munguba (Barcarena) na primeira sesmaria e fazenda da Companhia de Jesus (São Francisco, em 1686, atual Malato) no rio Marajó-Açu. Distante meia légua acima da aldeia dos índios 'Guaianases' [Guaianá], etnia "nheengaíba" (Nuaruaque); hoje a agrovila Antônio Vieira. 

No ano de 1758, por determinação do Marquês de Pombal em luta contra a Companhia de Jesus, que seria expulsa do Grão-Pará no ano seguinte, todas aldeias teriam seus nomes mudados para toponímia lusitana> A língua geral Nheengatu seria proibida para dar lugar ao ensino do português como língua oficial no Diretório dos Índios (1757-1798). Deste modo entre outras, a aldeia das Mangabeiras chamou-se Lugar de Ponta de Pedras  sob orago de Nossa Senhora da Conceição; e a dos Guaianases virou Lugar de Vilar. tendo São Francisco Xavier como padroeiro.




Nas trilhas do payaçu

"Paris bem vale uma missa", célebre frase do evangélico Henrique de Navarra ao se converter católico, fazendo as pazes entre protestantes e católicos para, finalmente, ser coroado e aceito rei de todos franceses como Henrique IV. O dito nos serve de expectativa a gregos e troianos para assistir missa do Papa Francisco a ser celebrada em visita pastoral ao Marajó se Deus quiser. 

Mais especialmente à gente de Ponta de Pedras no sentido de comungar do ideal de congregação deixado por madre Olvídia Dias como divisa paroquial no frontispício da antiga igreja matriz de Nossa Senhora da Conceição de Ponta de Pedras:"Bem-vindos e vejam que as pedras que somos não estão de ponta mas ligadas entre si". Oxalá assim seja!

Reza a tradição que as tais "pedras" que nós somos de fato estavam de ponta umas com as outras, quando por voltas do ano de 1737, moradores do vilarejo Itaguari sito à margem esquerda do Marajó-Açu e ribeirinhos rio acima com engenhos de aguardente e seus canaviais e escravos, juntaram-se para erguer a nova igreja em pedra e cal. A fim de obter autorização do bispo diocesano de Belém, dom Guilherme de São José; mudando a sede da freguesia da aldeia da Mangabeira, com sua velha capela em taipa de pilão coberta de palhas e deficiência de porto para canoas, para o Itaguari levando a santa imagem da padroeira para o altar-mor da nova igreja, cujo primeiro vigário de acordo com antigos moradores teria sido o padre Navegantes.

Contavam os mais antigos da aldeia velha da beira da baia que, de fato, a dificuldade de porto sempre foi grande obstáculo ao desenvolvimento da Mangabeira. Porém, com a mudança da sede da freguesia para o Itaguari ficaram os pescadores desolados longe de sua santa padroeira. 

Foi assim que nasceu a lenda dos passeios noturnos de Nossa Senhora entre a igreja matriz da beira do rio e a capela junto a praia da Mangabeira. Diziam, antigamente, que certas noites de luar viam passar um vulto branco pela estrada do Campinho rumo ao Santo Lenço que foi o primitivo caminho para a praia muito antes da rodovia que hoje existe. 

Pelas manhãs, diz-que, quando o sacristão ia abrir a igreja da vila de Ponta de Pedras ele observava a barra do manto de Nossa Senhora úmida de sereno da relva e areia da praia nos santos pés da imagem. Um singelo prodígio. A poesia então habitava aquele antigo chão que o romancista Dalcídio Jurandir (Ponta de Pedras, 10/01/1909 - Rio de Janeiro, 16/06/1979) retratou. O pai do escritor, capitão Alfredo Nascimento Pereira, devoto de Santa Rita de Cássia e dono de uma pequena impressora manual; teria escrito relato sobre essa lenda que se perdeu entre outros casos da antiga vila.

Quem primeiro me falou sobre isto foi o prefeito Wolfando Fontes da Silva (Fango), dizendo ele pelo ano de 1962, aproximadamente, que teria quando gestor encomendado a impressão da lenda pelo capitão Alfredo, mas que a edição fora de poucos exemplares que se perderam com o tempo. Resta-nos agora a memória de alguns que morreram mas deixaram livros, como o filho do capitão e o Bernardes (Bernardino Ferreira dos Santos Filho, autor do livro de memórias "Nas margens do Marajó-Açu").

Bom trabalho de preservação do patrimônio histórico e cultural de Ponta de Pedras esta fazendo a Rádio Itaguary, através do programa semanal Café Cultural com o trio bacana Rony Noronha, Sércio Pereira e Ednelson Castro. Um exemplo de boa vontade e trabalho educativo com a comunidade afin com a invenção dos ecomuseus no mundo inteiro. Embora a Radio Itaguary não ouse dizer o nome o que ela faz já é meio caminho andado para algo a ser assumido pela comunidade como futuro Ecomuseu Itaguari, quem sabe. 

Eu tenho convicção de ter plantado boa semente na terra de Dalcídio e que, no devido tempo, essa semente vai germinar e dar uma grande árvore com sombra e bons frutos para todos. Sonho que muitos outros Bernardes contarão suas/nossas memórias, que se propagarão como sementes de samaúma que as mãos do vento semeiam pelas margens da Mangabeira, do Marajó-Açu, rio da Campininha, Paruru-açu, Anabiju, Caramujal, Araraiana, Urinduba, Pacoval, Paricatuba, Curral Panema, Arari e tantas mais comunidades ribeirinhas e nos campos mais distantes da cidade até.

Para encerrar, direi mais que no Centenário do Município (30/04/1978) não tínhamos documento que provasse a data de emancipação política de Ponta de Pedras. O prefeito Antonico Malato havia falecido no cargo e o vice-prefeito Mário Noronha assumiu em condições dramáticas. Um grupo de voluntários se formou em torno do novo prefeito para auxiliar naquela transição, dentre ao qual eu me encontrava no serviço ativo do Itamaraty na Comissão Brasileira de Limites, em Belém. Foi quando o documentarista Jessé Dantas de Feitosa entrou em contato com Ernesto Teixeira para informar que a Fundação Cultural Abaetetubense dispunha de cópia autêntica da Ata de Instalação da nova Vila de Ponta de Pedras. 

Foi então que soubemos que o Centenário havia transcorrido em brancas nuvens, por falta de informação fidedigna. Reunidos com o novo prefeito ponderamos que talvez o Centenário ainda pudesse ser comemorado postumamente levando em conta as circunstâncias. Fomos nos aconselhar com mestre Camilo Viana, da UFPA e SOPREN. Que ele achava? Mário Noronha baixou portaria constituindo a comissão do Centenário e Jessé Dantas de Feitosa ficou encarregado de solicitar da Empresa Brasileira de Correios (EBC) confecção de Selo Comemorativo e impressão de fac-símile da dita Ata. Tudo feito. O documento, segundo Dantas de Feitosa, lhe teria sido confiado pelo prefeito Pedro Boulhosa Sobrinho na esperança de que um dia tivesse, como teve, bom uso sem se extraviar e se perder.

Assim, no dia 30 de Abril de 1980 comemorou-se oficialmente o Centenário transcorrido dois anos antes. Entre as cerimônias o dr. Camilo trouxe da cidade da Vigia um pé de cajuúna ou cajuí (Anacardium giganteum) remetida pelo prefeito Ildone Favacho ao seu colega Mário Noronha como simbolo de amizade entre as duas municipalidades, respectivamente, do Salgado e do Marajó. 

A escolha do lugar para plantar a árvore foi a beira da praia da Mangabeira em frente da casa de Brasilino Rodrigues, um dos mais antigos moradores da comunidade. Coube a Giseldo Fontes filho do prefeito Fango, que fundou a colônia da Mangabeira com migrantes nordestinos da agricultura familiar; plantar o pé de cajuí ou cajuúna. E tudo transcorreu em harmonia e alegria o povo aplaudindo. 

Mas, infelizmente, no mesmo ano sob rigor do sol e do vento aquela muda feneceu sem tempo de esperar pelas chuvas, entretanto nas lembranças o Anacardium giganteum cresceu e deu muitos frutos: um gesto simbólico daquele Centenário que hoje aponta a novas florações da memória da velha aldeia fundada pelos padres jesuítas em 1686 (apud Serafim Leite, História da Companhia de Jesus no Brasil).

Maracanã no Pará e Sintra em Portugal: uma história colonial que poderá ainda ter final feliz,

Resultado de imagem para imagem dunas de algodoal
Monumento Natural Dunas de Algodoal - Área de Proteção Ambiental Algodoal-Maiandeua no município de Maracanã (antiga Sintra), Amazônia atlântica paraense.




Nem todos sabem como se fazem salsichas e leis. A frase do chanceler alemão Otto Von Bismarck (1815-1898), "leis são como salsichas, melhor não saber como são feitas". Em certos casos, também melhor não saber como foram dados nomes a cidades brasileiras durante a época colonial ou feitas coleções de grandes museus mundo afora. 

Hoje ainda para compreender a maçada e se tornar apto a ensinar sobre o assunto carece fazer universidade, passar em curso de mestrado e terminar doutorado nesse tipo de maçonaria que é a academia para saber como corporações de ofício evoluíram e a pilhagem prevaleceu na formação dos impérios. A revolução francesa de 1789, por exemplo, prometeu jogar por terra a nobreza imperial e abolir o modo corsário das pilhagens para o enriquecimento da nação. 

Mas, ela derivou no império de Napoleão a prover museus de França da mesma maneira dos monarcas do passado. O império britânico por sua vez, sem repudiar a pirataria do passado, não pôde dar lição aos franceses. E o Grão-Pará não é nem nunca foi o Egito embora o rio Amazonas e o Nilo, afinal de contas, tenham tantas coisas bem semelhantes. Quem quiser saber onde foram parar lindas peças de cerâmica marajoara arrancadas de sítios arqueológicos saqueados na ilha do Marajó de povo pobre, deve tirar um tempinho para ler o livro Cultura Marajoara, de Denise Shaan, gaúcha, que com as suas pesquisas fez mais pelo nosso esquecido patrimônio que todos nós juntos ou tantos quantos doutores nascidos na Amazônia.

Pena que, no que diz respeito ao Marajó velho de guerra, metade dos mais de 500 mil habitantes sejam completamente analfabetos e noutra parte predominam analfabetos funcionais. Enfim dos poucos letrados falta contar ainda analfabetos políticos com os quais o povo não pode contar. Assim, vamos ao ponto a fim de explicar como se fez e continua a fabricar a leseira amazônica, passando do caso da alienação do Marajó ao vizinho Salgado. Nesta região paraense que foi a primeira tocada pelo colonialismo, o caso é saber: 

Como foi que a velha e orgulhosa vila portuguesa de Sintra veio parar ao Grão-Pará apagar o nome original da aldeia indígena Maracanã. E, depois, como esta última bafejada pelo espírito da revolta popular de 1835 contra o império brasileiro, terminou por retomar sua toponímia nativa dando exemplo de descolonização histórica e cultural às mais vilas e lugares aportuguesados à força sob a ditadura do célebre déspota esclarecido Marquês de Pombal. 

Deste assunto eu tratei, em 1999, em minha história atrevida chamada Novíssima Viagem Filosófica, na REVISTA IBERIANA. Para que as populações saibam que nem tudo são flores no domínio da língua portuguesa afinal tão cara para a história do povo brasileiro, como conta José Ribamar Bessa Freire na obra Rio Babel - a história das línguas na Amazônia. A revolução dos cravos em Portugal ainda precisa repercutir no Brasil a fim de clarear os fatos da história comum. 

O passado não se pode remediar, todavia as presentes e futuras gerações ao melhor compreendê-lo - para isto servem os museus - podem se reconciliar e trabalhar juntas pela justiça e a paz a fim de que a velha história não se repita nunca mais. Portanto, as cidades da Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP) que tiveram suas toponímias enlaçadas pelo colonialismo poderiam do limão imperial fazer uma boa limonada. Isto é, inventar um turismo educativo inovador com base nas geminações de cidades e intercâmbio de museus municipais.

Recordar como, depois de 256 anos do tratado de Tordesilhas (1494), o tratado de limites de Madri (1750) foi o pomo de discórdia entre monarcas ibéricos e a Companhia de Jesus na colonial América do Sul e o quanto isto implicou na história dos povos ibero-americanos. No curso do conflito ideológico entre a escolástica católica e o iluminismo europeu triunfante, podemos dizer que infelizmente povos indígenas e afro escravizados pagaram o pato. 

Foi assim, então, que na Amazônia portuguesa o meio irmão do Marquês de Pombal, Francisco Xavier de Mendonça Furtado, capitão-geral e governador do estado do Grão-Pará e Maranhão decretou, sem mais nem menos, uma mudança toponímica no Grão-Pará e Maranhão com que vilas e lugares de Portugal terminaram como exilados no rio das Amazonas.

No caso da deportação, por assim dizer, da vila de Sintra cumpre saber que a pré-história desta façanha pombalina no Pará contempla a luta entre lusos e franceses pelo território amazônico. Durante a França Equinocial (1612-1615), no Maranhão; no rio Maracanã entre 1613 e 1614, franceses estabeleceram-se na aldeia dos Maracanãs, índios de nação Tupinambá seus camaradas, onde construíram embarcações para explorar o Pará até o rio dos Tocantins, como de fato fizeram expandindo seus domínios. O próprio Daniel de La Touche, senhor de La Ravardière, comandou a entrada indo ele até Camutá-Tapera (Cametá-PA) donde retornou a São Luis diante da avançada dos portugueses que, em 1615, tomaram o forte francês de São Luís.


Em 12 de janeiro de 1616, o capitão-mor Francisco Caldeira Castelo Branco em acordo com os Tupinambás da região funda o forte do Presépio, berço de Belém do Grão-Pará, dando início à ocupação portuguesa da Amazônia. Desde então, o choque colonial foi violento: Simão Estácio da Silveira, dono de navios, escreve um panfleto dirigido aos pobres de Portugal (leia-se, casais dos Açores) lhes prometendo o paraíso no Maranhão. O aliciamento dos primeiros colonos teve resultado trágico.

A soldadesca das guarnições dos dois fortes, São Luís do Maranhão e Presépio no Pará, cometiam graves abusos contra índias e índios a ponto de revoltar os próprios oficiais portugueses, como no caso do Pará, onde o estupro de uma jovem índia pelo capitão Antônio Cabral, sobrinho do capitão-mor, provocou reação do capitão Paulo Rocha terminando com o assassinato deste último pelo primeiro. Fato que determinou motim no Presépio liderado pelo capelão frei Antônio de Merciana, diante da leniência de Castelo Branco para não castigar o sobrinho. Postos a ferro o capitão-mor e Antonio Cabral foram mandados diretamente a Portugal, onde foram soltos e os militares no Pará repreendidos por insubordinação... 

No Maranhão, as coisas não foram melhor. Além do roubo de roças e captura de índios para escravos dos colonos; os filhos do capitão-mor Jerônimo de Albuquerque raptaram a mulher mais nova do cacique e pajé-açu da aldeia de Cumã, Pacamon, e além disso roubaram-lhe o porantim ou lança cerimonial sagrada na cultura guerreira tupi-guarani. A revolta de Pacamon foi imediata espalhando-se com rastilho de pólvora pela aldeia e vizinhança, Antônio e Maciel Albuquerque viram-se obrigados a fugir pelo mar para salvar a própria pele. 

Porém a revolta dos Tupinambás se alastrou do Maranhão ao Pará através do antigo caminho que ligava a costa do Salgado ao interior do Guamá. E, desta maneira, no dia 7 de janeiro de 1619, o cacique Guaimiaba (Cabelo de Velha) com os seus guerreiros atacou o forte do Presépio sendo morto sobre a muralha. Ato histórico que, certamente, desde então pelas acumulações sucessiva de ódios e mal entendidos recíprocos, teria funestas consequências dois séculos mais tarde, na madrugada de 7 de janeiro de 1835 (a Cabanagem): os tupinambás do século XVII, entretanto, ao ver o cacique Guaimiaba morto estendido no chão desbarataram-se tendo ao encalço soldados armados dispostos a dar um banho de sangue aos índios bravios. 

A represália portuguesa foi dantesca: Bento Maciel Parente e Pedro Teixeira auxiliados pelos irmãos Antônio e Maciel Albuquerque com soldados portugueses e mamelucos, encurralam os tupinambás no rio Gurupi e cometeram um genocídio dizem cronistas da época. Há quem fale em até cem mil índios mortos, número exagerado ao que parece, pois seria mais do que o dobro de mortos na Cabanagem (1835-1840). Diversos cronistas reprovam excessos despropositados do facinoroso Bento Maciel Parente, lamentando inclusive desperdício de braços escravos. Coberto de sangue Bento Maciel entra em Belém e na história para governar a província dentre a galeria dos maiores capitães-mores que o Grão-Pará teve: famoso inclusive como comandante da expulsão dos holandeses e ingleses na Amazônia. Este era, em linhas gerais, o cenário da região amazônica na quadra da União Ibérica (1580-1640), quando Portugal restaurou sua independência 1º de dezembro de 1640) e mais tarde, em 1653, o padre Antônio Vieira chegou ao Pará.

Vieira saiu de Lisboa frente à expedição a bordo da caravela Nossa Senhora das Candeias, em 22 de novembro de 1652, chegando a Belém do Pará em 24 de novembro de 1653, quando apresentou ao Governo Provincial a carta régia que lhe dava poderes especiais de evangelizar, fundar igrejas, instalar missões pelo sertão, baixar índios consigo, etc. Nesta ocasião, na aldeia Maracanã padre Antonio Vieira fundou a primeira igreja do lugar em taipa de pilão e batizou o índio Principal da aldeia de nome Copaúba, o qual recebeu batismo cristão como Lopo de Souza. 

A aldeia Maracanã teve certo progresso no regime das Missões, em 1700, recebeu foros de freguesia e meio século depois, com a expulsão dos Jesuítas, em cumprimento da Lei Pombalina de 6 de junho de 1755, o capitão-geral governador do Pará, Francisco Xavier de Mendonça Furtado, meio-irmão do Marquês de Pombal, determinou a mudança de nome da aldeia Maracanã para "Cintra" [Sintra], dentro da política de extinção de nomes indígenas por topônimos portugueses, tais como Viseu, Bragança, Ourém, Colares, São Caetano de Odivelas, Barcarena, Salvaterra, Soure, Chaves, Beja, Oeiras, Portel, Melgaço, Almeirim, Alenquer, Óbidos, Aveiro, Santarém, Faro e outras vilas e lugares.

Na ocasião, Cintra foi promovida à categoria de vila. Porém, somente em 1757 foi instalada com o nome oficial de Vila de São Miguel de Cintra, em virtude do achado de uma imagem de São Miguel. Em 11 de novembro de 1885, a lei provincial nº 1.209 elevou Cintra à categoria de cidade, que 10 anos antes já era Comarca (Lei nº 845, de 23 de abril de 1875).
Com a primeira república do Brasil, durante o governo de Paes de Carvalho no Estado do Pará, o cônego Ulisses de Pennafort, deu início com sucesso a campanha para o nome original do município voltar a ser oficialmente adotado. Deste modo, no dia de 28 de maio de 1897, a lei estadual nº 518 sancionada pelo governador, devolvia a Maracanã seu topônimo nativo.
Na história do município destaca-se episódio da Cabanagem, a revolução popular que teve início em Belém do Pará a 7 de janeiro de 1835. No município de Maracanã o sentimento nacionalista da população já se fazia notar cerca de 1824, logo após aos acontecimentos neocoloniais de 1823, que frustaram a adesão do povo paraense ao império de Dom Pedro I. O padre André Fernandes de Souza, com objetivo de pacificar os revoltosos foi mandado para o município de Maracanã.
O movimento rebelde havia começou em Colares e chegou até Bragança. Em Maracanã, cerca de 200 homens armados reagiram ao governo provincial da época juntando-se aos cabanos. Em março de 1835, quando Eduardo Angelim exercia o segundo governo cabano, em frente a Salinas ancorou o veleiro inglês "Clio", carregando armas e munições supostamente destinado aos portugueses contrários aos revoltosos. O navio ficou à espera de um "prático" para prossegui em direção a Belém, como não apareceu nenhum "prático" da barra para orientá-los, a tripulação tentou chegar à praia, quando então cabanos de Maracanã e Salinas informados da carga que estava a bordo, atacaram e trucidaram a tripulação, sequestraram as armas e munições e a embarcação foi incendiada. Este episódio deu lugar a vinda a Belém, em abril de 1836, de três navios da marinha da Inglaterra comandados pelo oficial Charles Strong, para cobrar satisfações a respeito do saque do "Clio". Recentemente foram divulgados documentos ingleses sobre a Cabanagem que esclarecem o assunto, inclusive o pedido secreto do regente Diogo Feijó para Inglaterra e França se juntarem à armada brasileira a fim de combater a revolução paraense, o que não aconteceu. Com a retirada de Eduardo Angelim as forças imperiais ocuparam Belém novamente e no dia 4 de junho de 1836, acusados de Maracanã e Salinas de participar do assalto ao Clio foram presos e depois executados.


No município de Vigia, ocorreram as mais sangrentas lutas da Cabanagem de toda região do Salgado. Foram concentrados na vila da Vigia 200 cabanos de Maracanã, 200 de Curuçá e outros mais vindos de Salinas que se aquartelaram na cabeceira do rio Maú. Na vila da Vigia os cabanos visaram o "trem de guerra" (depósito de armas e munições) travando combate sangrento com mortes de parte a parte. Nos enfrentamentos da Vigia morreu Pedro Antônio Raiol, o pai do historiador da Cabanagem Domingos Antônio Raiol. 

Esta nossa brevíssima incursão à história da Amazônia colonial portuguesa, através da possível geminação da brava Maracanã (Brasil) e da heroica Sintra (Portugal) é um convite a cidades educativas e ao movimento de ecomuseus e museus comunitários da CPLP para embarcar na generosa agenda 2030, dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS), das Nações Unidas, enquanto Antônio Guterres abre as portas ao diálogo para a paz. O futuro não se faz sem a consciência do passado e a coragem do presente.

Resultado de imagem para imagens de sintra portugal
Castelo dos Mouros - Sintra, Portugal.

quarta-feira, 1 de março de 2017

O teatro da paz em Belém da Amazônia.


Joaquim de Flora (gravura medieval).


Hoje, quarta-feira de Cinzas, entre chuva e esquecimentos, ocasião propícia para relembrar o tempo apocalíptico dos nossos antepassados índios sob o peso da cruz acidental evangelizadora. Ou seja, cativeiro e extinção em nome de Deus e de El-Rei católico apostólico romano.

No meio do caminho para o inferno verde nessa selva escura que Dante na Divina Comédia nem sonhou; por sorte ou dom do Espírito santo uma mente brilhante forjada pelos jesuítas da Bahia de Todos os Santos apareceu no caminho de Belém do grão Pará a pregar justiça aos lesados da terra e paz para o mundo todo: unindo judeus, cristãos e muçulmanos sob a mesma Terra-Pátria como diz atualmente o profeta da complexidade Edgar Morin, crente como eu do deus de Espinosa.

O que salvou os negros da terra do genocídio total, apesar dos pesares, foi a utopia do Quinto Império profetizado pelo padre grande Antônio Vieira entre colonos encapetados e índios ocidentais destruídos pela Conquista europeia. O Quinto Império ou idade do Espírito santo vem da filosofia da História, do espírito libertário do monge medieval Joaquim de Flora para desaguar na filosofia pós-moderna da inteligência coletiva ou a idade cibernética de um mago chamado Pierre Levy, por exemplo. E eu, caboquinho do Fim do Mundo (Itaguari de Ponta de Pedras, Marajó-Pará), que tanto queria saber quem inventou o mundo...

A utopia evangelizadora do padre grande vem de muita preteridade para chegar aqui e agora sempre a reinventar o futuro da humanidade. Por isto é Utopia e ainda não sabemos o que a utopia significa para a História... Vem da "voz que clama no deserto" (o iracundo dissidente judeu João Batista, terapeuta ou pajé que curava pela água no primeiro SPA - sano per acqua - do mundo), vem da fonte espiritual da noosfera nas águas do Jordão batizar as grandes águas do Rio Babel (Uêne aruaco, Paraná-Uaçu tupi, Marañon castelhano, Amazonas galego-português); vem do Sermão da Montanha com as boas notícias do rabi da Galileia a proclamar o primeiro manifesto comunista do mundo... 

A utopia sebastiana vem das flechas imperiais assassinas, vem do milagre da fé humana, vem do martírio dos crentes atirados às feras no circo de Roma para distrair a impiedade pagã... O Quinto Império do mundo vem do gemido sufocado dos guetos da história censurada pelo Santo Ofício, vem da dialética malvada entre a ortodoxia cristã e o antissemitismo, vai além da eterna acusação da Inquisição e da demência hedionda do Nazismo para nos mostrar o caminho para a história do futuro desde o antigo sonho dos profetas do Cativeiro da Babilônia.

Na Quaresma, diz Vieira em carta de 29/11/1659 (publicada em Lisboa a 11/02/1660) inverossímil porém compreensível no realismo mágico do tempo intermédio entre as trevas da Idade Média e as tímidas luzes da Modernidade amanhecente (que se chamou século XVII); quando no convento dos padres de Santo Alexandre não se acreditava mais no regresso com sucesso dos dois nheengaíbas escravos mandados em missão de paz na distante e terrível Ilha dos Nheengaíbas (Marajó). Os dois negros da terra promovidos a embaixadores foram levar a mensagem de paz a seus parentes rebeldes guerrilheiros acusados de pirataria e condenados ao genocídio pela "guerra justa": já três tentativas militares de ocupar a ilha grande dos Nheengaíbas tinham terminado em desastre de parte a parte. A primeira tentativa de paz, em 1656, levada pelo padre João de Souto Maior voltou a Belém com feridos e a notícia de mortos enterrados na beira do rio na retirada precipitada frente ao ataque dos bárbaros... 

Mas, eis que batem a porta e quando os desesperançados padres vão atender, entram ao convento animosos e de boa fé os ditos embaixadores da carta risível escrita em português ou nheengatu talvez a um povo de analfabetos selvagens; acompanhados de sete caciques pagãos que, ousadamente, vinham se meter debaixo dos canhões portugueses confiados tão só na palavra do payaçu dos índios que fora além mar buscar a lei de liberdade dos cativos (alvará de 1655). 

Dos tais caciques ficou sendo interlocutor do superior das Missões (este último em posição de delegado real para assuntos indígenas, papel que hoje corresponderia à célebre FUNAI) o mais ladino de todos, na pena do payaçu, um certo Piyé nomeado cacique dos Mapuaises (Mapuás)... Curiosa semelhança com o nome do faraó negro Piie na história do antigo Egito. Coincidência? O Piie negro entrou na história por descer do Alto Nilo com seu exército para combater a corrupção dos faraós. Sintomático. Além do estalo, o nosso padre Vieira ficou famoso pela lábia...

Aquilo na Amazônia colonial portuguesa era, com certeza, um teatro da paz universal por necessidade e acaso retratada daquela maneira. Mas, os idiotas da objetividade, como diria o anjo pornográfico Nelson Rodrigues, não conseguem ver com os quatro olhos do peixinho tralhoto, que o padre grande falou no Sermão aos Peixes (São Luís do Maranhão, 1654, a caminho de Lisboa para levar as queixas dos índios do Pará a Dom João IV). A pax dos Nheengaíbas foi feita na Igreja do Santo Cristo do rio Mapuá (ilha do Marajó) em 27 de Agosto de 1659. Ou, pelo menos, plantada a semente da paz amazônica na verde várzea que, 346 anos depois, veio a se chamar Reserva Extrativista Mapuá, a 25 de maio de 2005.

Pelos caminhos da História planetária, que conexões podem existir entre a inteligência coletiva do filósofo da internet Pierre Levy e a idade do Espírito Santo anunciada por Joaquim de Flora separados por sete séculos? O que o payaçu dos índios padre Antônio Vieira, condenado por heresia judaizante pelo Santo Ofício; poderia inspirar agora, por exemplo, o Papa Francisco a respeito da Amazônia focalizada expressamente a par da bacia do Congo na bula Louvado Seja?

Talvez seja Edgar Morin entre todos pensadores da atualidade quem está mais perto da melhor resposta quando a filosofia da complexidade contempla o Homo sapiens demens. A humanidade filha da animalidade, dotada de razão e consciência, nasceu e cresceu no seio da bio-noosfera (corpo-e-mente do Cosmo). Cérebro que cria a mente, mente que concebe o cérebro e tudo mais quanto ele compreende. Ainda vão beatificar Charles Darwin e seu acólito principal Alfred Russel Wallace - louvado seja o jesuíta paleontólogo evolucionista Pierre Teillard de Chardin! - que, por sinal, visitou Marajó mas nada disse de Vieira nem dos índios arquitetos que fizeram as aldeias suspensas da ecocivilização marajoara de mais de mil anos de idade. Ainda assim, Wallace sentenciou: "o caboclo marajoara é tremendo" (despistador). 

Com isto, o naturalista inglês queria dizer que a lenda das amazonas foi, sutilmente, plantada na cabeça dos espanhóis pelos índios que respondiam às perguntas dos civilizado de modo a induzir aquilo mesmo que os brancos gostariam de acreditar. Não foi sem razão que o baiano Jorge Amado apelidou de "índio sutil" a seu colega marajoara Dalcídio Jurandir.

O conceito de inteligência coletiva apresentado por Levy configura uma antropologia do ciberespaço. Até aí um longo caminho percorrido pela evolução da vida desde a poeira das estrelas até a complexidade da matéria orgânica para se transformar em espírito (mente) e habitar vários meios de comunicação. No Homem (corpo/mente), o demens sente e sonha, o sapiens indaga e explana a "verdade". 

Na realidade, isto é abstração. Cada indivíduo é uma unidade biológica-econômica-social-psíquica). O longo século XIX, depois de uma longevidade prodigiosa e infernal, finalmente está morto como o deus de Nietzsche. Porém o sonhado e esperado Terceiro Milênio ainda não nasceu... Para os crentes, entre o passado recente e o futuro que tarda, entre o inferno de duas grandes guerras mundiais mais o terror da Guerra Fria; e as esperanças da paz universal prometida pelos profetas, resta por hora uma espécie de purgatório. Apesar de tudo, poetas, filósofos, cientistas humanistas, diplomatas criativos, religiosos ecumênicos e estadistas democratas parecem ver uma pequena luz no fim do túnel.

Lévy defende que todos indivíduos tem inteligência própria herdada e acumulada em suas vivências pessoais em interação social evoluindo para o ciberespaço. Este espaço virtual, muito mais que um meio de comunicação ou mídia, trata-se de um espaço de integração e síntese de infinidade de mídias e interfaces, que podem ser encontradas tanto nas mídias como: jornal, revista, rádio, cinema, tv, bem como mais diferentes interfaces que permitem a interação ao mesmo tempo ou não, como os chats, os fóruns de discussão, os blogs, entre outros.

O ciberespaço apresenta-se como local difuso onde a inteligência coletiva se forma por conta da interação entre pessoas que, como sujeitos individuais que são, promovem intercâmbio de ideias por meio de comunidades virtuais, cujo objetivo maior está em promover amplas conexões entre seus participantes. O resultado é a transmissão e construção de ideias que acabam por criar a cibercultura: movimento social e cultural estabelecendo pontes para novas relações com o conhecimento e o saber coletivo na Polis virtual (cibercidade). Será isto alienação ou real?


A inteligência coletiva é a capacidade de reconhecer o outro como sujeito dotado de inteligência, um ser de conhecimento potencializado. Os mais diferentes saberes buscam-se em complementaridades, na complexidade global cada indivíduo é parte integrante do mesmo processo que admite seus conhecimentos e saberes individuais como resultado de sua própria formação socioambiental. Identidades territoriais e direitos se manifestam em rede. Desta maneira, a prática da inteligência coletiva reduz a ilusão e o engano podendo levar a uma melhor comunicação entre indivíduos, bem como a uma maior compreensão do outro enquanto ser inteligente, porque cada um possui savoir-faire (saber fazer): um conhecimento seu que, compartilhado, beneficia diferentes áreas da vida. Uma forma de valorizar o outro e valorizar a si mesmo para juntos promoverem o crescimento do todo.

Todas utopias valem a pena se levam a humanidade a sonhar o Futuro e a lutar pela conquista da justiça e da paz na inspiração igualitária da mítica Terra sem males (paraíso terreno Tupi-Guarani onde não há fome, trabalho escravo, doença, velhice e morte) confundido com o Quinto Império (isto é, a Terra-Pátria), na visão das Nações Unidas para os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS).

Vieira é verdadeiro profeta! 

Parodiando a frase: "Bandarra é verdadeiro profeta!"(carta As Esperanças de Portugal, que levou Vieira à condenação por heresia judaizante pelo tribunal da Inquisição). Quando o padre grande na solidão do rio dos Tocantins levado de canoa a remo por "índios cristãos" (obrigados ao batismo como os mais cristãos-novos do Brasil) a caminho de Camutá-Tapera (Cametá-Pará) escreveu a famosa carta secreta inspirada nas Esperanças de Israel, do rabino sefardita de Amsterdã Menassé ben Israel.