quarta-feira, 24 de agosto de 2016

FOLCLORE MARAJOARA: O DIA QUE A SAFRA DE AÇAÍ PRETEJA.

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Céu e inferno

Omar Kháyyám 

(poeta, matemático e astrônomo persa dos séculos XI e XII). 



"Além da terra, além do infinito, eu procurava em vão o céu e o inferno. Mas uma voz interior me disse: O céu e o inferno estão em ti mesmo."

Diz-que, no dia 24 de agosto o Berto está solto pela mata e vem mijar nos pés de açaizeiros na varja para o açaí pretejar por igual no açaizal. É uma lenda antiga que até hoje se repeita.

Ai de quem desrespeitar o velho costume! Pois, neste caso, o tal de Berto é o Diabo, o Cramunhão, o coisa ruim... Que Deus nos livre, cruz credo. Caboco fica em casa metido na rede, a mulher esconde faca, machado, terçado ou todo outro objeto cortante de alcance dos curumins... No dia no Berto não se trabalha de maneira nenhuma: a espingarda panema fica guardada longe dos cartuchos. Tudo isto para evitar acidentes fatais.

Em compensação o Tinhoso vagueia pelo açaizal mijando nas touças de açaizeiro (Euterpe oleracea). Deste dia em diante até dezembro a safra fica com açaí nos cachos, pretinho pretinho... Sinal de que está tuíra, no ponto. Eu acho esperta uma gente que encende uma vela a Deus, tira folga do serviço e bota o Diabo pra trabalhar.

terça-feira, 23 de agosto de 2016

ESPANTO NO PLANETA ÁGUA: CONQUISTADO POR PORTUGAL PAÍS TROPICAL ABENÇOADO POR DEUS E BONITO POR NATUREZA, APÓS 500 ANOS NO RIO DE JANEIRO; DESCOBRE A CANOAGEM.

A final foi disputada no ribeirão Taquaruçu

I Jogos Mundiais dos Povos Indígenas, en Palmas, capital do Estado do Tocantins, 2015. Foto da prova de Canoagem no ribeirão Taquaruçu com canoístas do Panamá, vencedores em primeiro e segundo lugares. O Brasil ficou em terceiro na Canoagem que antecedeu a das Olimpíadas no Rio de Janeiro. Nos Jogos Indígenas vale, sobretudo, o espírito de celebração à vida e não a competição. Como, aliás, a tradição original olímpica. Desta feita, se a antiga Grécia guarda o fogo simbólico das Olimpíadas; as águas sagradas da Amazônia no Brasil do futuro hão de ser celebradas em memória dos I Jogos Mundiais dos Povos Indígenas, assinalados pelo fato vital de que o Planeta é casa comum de todos povos do mundo e homens, animais e plantas somos todos, principalmente, filhos das águas.



Nas Olimpíadas Rio 2016, a Canoagem foi grande novidade desta que foi a primeira da América Latina e Caribe, com o herói brasileiro Isaquias Queiroz três vezes no pódio, duas medalhas de prata e uma de bonze, perdendo o ouro para seu maior rival, o alemão Sebastian Brendel, na categoria 1000 metros na lagoa Rodrigo de Freitas.
As medalhas olímpicas do moço baiano Isaquias, 22 anos de idade, filho de Ubaitaba ("aldeia das canoas", em língua tupi) é o primeiro feito brasileiro na canoagem olímpica e suscita uma profunda questão sobre a colonialidade que habita a alma de nossas elites dirigentes. Não adianta botar panos quentes, a bronca e livre e geral quando se observam os heroicos medalistas confrontados ao ideal olímpico e a diferença de patrocínio, na maratona por exemplo:

Como pode o gigante Brasil, o maior país amazônico do mundo, negligenciar a canoagem onde se acha o maior rio da Terra?
Não fossem as três medalhas da Canoagem salvadora da pátria, o gigante da América do Sul ficaria abaixo da pequena e superpovoada ilha da Jamaica com o fantástico homem-relâmpago chamado Usain Bolt e seus companheiros do atletismo. Quando a gente fala na prodigiosa Jamaica da música popular e dos esportes olímpicos, devíamos nos lembrar da ilha do Marajó, quatro vezes maior no delta-estuário da maior bacia fluvial da Terra com uma população cinco vezes menor; metade da qual analfabeta e tão pobre quanto a outra. 

Diz a canção "Porto Caribe" de um país que se chama Pará e tem porto de mar nas Antilhas e Guianas. Trata-se, sim, de um país clandestino que o Brasil não sabe e nem mesmo os paraenses conhecem. Só os mestres das águas profundas da ancestralidade sabem navegar em mar aberto...

Primeiro o Brasil foi achado no Pará para ser descoberto, dois anos depois, na Bahia. Até lá, a massagada aruaque a bordo de uma cobra-canoa havia inventado o circum Caribe ida e volta, varando do Rio Negro ao Orenoco, através do canal de Cassiquiare, até o mar do Caribe afora para esperar as caravelas do cristão-novo Cristóvão Colombo na ilha de Guaanani (Bahamas). O resto já se sabe. Mas nos esquecemos da Pirapuraceia (a dança do peixe), com que esta gente andeja em guerra com os bravos Kalina; sempre pronta com zarabatana, curare, remos e canoas a desvendar mundos nunca dantes, chegou aos confins da Amazônia nos contrafortes dos Andes, Pantanal até o Maranhão.

Por outra parte, da Bolívia e Paraguai os guerreiros da Terra sem males desciam em ondas sucessivas. em guerra de conquista com os Tapuias, desciam os Tupinambás para o litoral marítimo até topar a beira mar do Pará e as barrancas do Tocantins desfeitas em rios de sangue. Canoagem guerreira sublimada pelos Jogos dos Povos Indígenas e logo mais pelas Olimpíadas em rios de paz. Uma utopia marajoara a mais...
Disse o herói brasileiro Isaquias Queiroz dos Santos "Acho que é muito difícil remar com o alemão, que é muito bom, mas eu remei muito bem e estou com a medalha de prata. Agora é esperar as outras". Sua melhor conquista foram três medalhas nos Jogos Olímpicos de 2016, no Rio de Janeiro: Prata na Canoa Individual de 1.000 metros, Bronze na Canoa Individual de 200 metros e Prata na Canoa de Dupla de 1.000 metros, com Erlon de Sousa Silva. Queiroz se tornou o primeiro atleta brasileiro a conquistar três medalhas em uma única edição dos Jogos Olímpicos.

A Canoagem de velocidade não é novidade em Jogos Olímpicos; ela foi a primeira a integrar o programa Olímpico. A disciplina participou com o status de demonstração dos Jogos Paris 1924 mas só passou a fazer parte do programa oficial três edições depois, em Berlim 1936, apenas com provas masculinas. Já as mulheres passaram a competir 12 anos depois, em Londres 1948. 

O objetivo é completar em linha reta o percurso, disputado em águas calmas no menor tempo possível. A diferenciação das provas se dá pelo tipo de barco – canoa ou caiaque -, pelo número de atletas nas embarcações – uma, duas ou quatro – e pela distância percorrida – 200, 500 ou 1.000 metros. Já a canoagem slalom estreou um pouco mais tarde, nos Jogos de Munique 1972; porém ficou fora por 20 anos até retornar em Barcelona 1992.

Também disputadas com canoas e caiaques, as provas inspiradas no esqui slalom, são realizadas em pistas artificiais ou semiartificiais. Ao longo dos 300 metros de percurso e as embarcações devem concluir, duas vezes, o trajeto indicado por números e sentidos colocados em pórticos ao longo da pista, muitas vezes remando contra a correnteza. 

Aqui, no blogue caboco, quero render homenagem aos amigos da MARENTEZA CANOAGEM uma turma maravilhosa de canoistas do Pará que ama a cultura e natureza ribeirinhas da Amazônia e merece atenção especial e respeito de todo mundo. Fortes guerreiros e guerreiras amazônicas com seus caiaques e remos, a interagir com populações locais e a paisagem que vão captando em suas fotografias compartilhas com as redes sociais, não buscam medalhas nem glórias, mas uma profunda imersão na amazonidade. 

O velho canoeiro vos saúda, sumanos!

domingo, 7 de agosto de 2016

AJURICABANO: revitalizar o patrimônio pelo casamento da cidade com o rio.


Chalé Tavares Cardoso, na Vila do Pinheiro (Icoaraci)



A BOA NOVA DA MANHÃ


Pelo Facebook fiquei sabendo que já começaram trabalhos de restauro do Chalé Tavares Cardoso, de Icoaraci - Belém - Pará [ver http://uruatapera.blogspot.com.br/2016/08/chale-tavares-cardoso-em-restauro.html ]. Bom dia, deveras. 

Rápido no teclado, provoquei o ajuricabano -- coletivo de ajuricabas e novos cabanos -- sobre o que se poderia fazer com o Chalé se e quando as obras ficarem prontas. Amigos e amigas do patrimônio do Pará andam desanimados com o clima de decepção que restou dos 400 anos de Belém do Grão-Pará: se para sempre é horrível lembrar o triste fim do Grande Hotel, ver prédios históricos virar ruína a cada dia que passa só faz aumentar a tristeza da belle époque perdida. Pior, entretanto, são casos como o do Palacete Pinho que restaurado depois de muito tempo e dinheiro gasto voltou a se deteriorar sem uso e já foi roubado em seus ornamentos.

Como prevenir que a obra anunciada não venha a sofrer a síndrome do Palacete Pinho ou, pior, morrer na beira da praia como sucedeu ao Solar da Beira? Pensei, então, de alinhavar ideias servindo para esboço compartilhado com amigos que queiram aprofundar o debate. 

O Distrito de Icoaraci, no Município de Belém, é como se fosse de fato o 17º município marajoara (ou talvez 18º, se levarmos em conta que, apesar do IBGE excluir Oeiras do Pará da mesorregião Marajó, este é um município histórico tão marajoara como qualquer outro da microrregião de Portel), não só pelo expressivo número de habitantes egressos das ilhas do Marajó residentes na "Vila Sorriso", como principalmente pela relação histórico-geográfica existente entre as duas margens da baía. E, sobretudo, a indústria de artesanato e arte marajoara que se instalou neste distrito ribeirinho da Capital interligado às ilhas do delta-estuário do Rio Pará.

Diante disto, parece oportuno adotar o projeto de revitalização do Chalé Tavares Cardoso para experimentar uma nova abordagem de participação comunitária sobre o uso de obras de restauro patrimonial. Deste modo, um chamado público da autoridade competente daria publicidade à obra licitada convidando parceiros a colaborar na futura utilização do bem. 

Uma sugestão especial em direção aos próximos gestores eleitos em Belém e no Marajó, estes últimos através da Associação dos Municípios do Marajó, prevendo possibilidade do novo Chalé Tavares Cardoso vir a dar espaço a atividades educativas socioambientais integradas em matéria patrimonial, biodiversidade e cultura popular. 

A atuação do Ecomuseu da Amazônia, com sua base vizinha a Icoaraci na Escola Bosque Eidorfe Moreira, na ilha de Caratateua; envolve Icoaraci, ilhas do Mosqueiro, Cotijuba, Jutuba e outras. Com a supracitada parceria, aqui sugerida, poderia emprestar experiência internacional e nacional ao projeto inaugurando extensão da Fundação Escola Bosque Eidorfe Moreira para todas 39 ilhas do arquipélago do Guajará (pertencentes aos municípios do Acará, Barcarena e Belém), inclusive a Área de Proteção Ambiental Ilha do Combu. 

Além das populações insulares do Guajará, cerca de 500 comunidades ribeirinhas do maior arquipélago fluviomarinho do planeta, através dos respectivos municípios, poderiam ser beneficiadas pelo serviço extensionista aventado do novo Chalé. O Museu do Marajó, em Cachoeira do Arari, seria em meu ponto de vista, parceiro prioritário. Uma amostra permanente deste museu poderia ser instalada no Chalé Tavares Cardoso e, reciprocamente, o Ecomuseu da Amazônia poderia levar algumas de suas atividades à ilha do Marajó em parceria com o museu de Cachoeira do Arari. 



O MUSEU DO MARAJÓ fundado em 1972 por Giovanni Gallo: primeiro ecomuseu amazônico (cf. Revière e Verine) -- Exposição fotográfica de Luiz Braga (julho 2016), anexo Fazendola, Cachoeira do Arari - Marajó - Pará.



Destarte, o novo Chalé retomando antigas funções acrescentaria novas. Como, por exemplo, oferecer cursos livres específicos para sua área de atuação podendo conveniar-se com terceiras instituições públicas e privadas, nacionais ou internacionais. Os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) me parecem óbvios para uma programação conjunta relativa ao espaço urbano e fluvial. 

Metodologia de ensino à distância adaptada às populações ribeirinhas do estuário amazônico poderão ser a grande meta do projeto de revitalização do Chalé Tavares Cardoso. A ver os candidatos dispostos a assumir compromisso a respeito do assunto.




Escola Bosque Eidorfe Moreira (ilha Caratateua), ECOMUSEU DA AMAZÔNIA