sábado, 4 de março de 2017

uma pequena semente a germinar na terra de Dalcídio e se transformar numa grande árvore.

A imagem pode conter: céu, nuvem, atividades ao ar livre, natureza e água
Vila Mangabeira à margem esquerda da baía do Marajó, costa-fronteira do Pará - berço do município de Ponta de Pedras: antiga aldeia das Mangabeiras fundada pelos padres jesuítas e índios catequizados na aldeia Munguba (Barcarena) na primeira sesmaria e fazenda da Companhia de Jesus (São Francisco, em 1686, atual Malato) no rio Marajó-Açu. Distante meia légua acima da aldeia dos índios 'Guaianases' [Guaianá], etnia "nheengaíba" (Nuaruaque); hoje a agrovila Antônio Vieira. 

No ano de 1758, por determinação do Marquês de Pombal em luta contra a Companhia de Jesus, que seria expulsa do Grão-Pará no ano seguinte, todas aldeias teriam seus nomes mudados para toponímia lusitana> A língua geral Nheengatu seria proibida para dar lugar ao ensino do português como língua oficial no Diretório dos Índios (1757-1798). Deste modo entre outras, a aldeia das Mangabeiras chamou-se Lugar de Ponta de Pedras  sob orago de Nossa Senhora da Conceição; e a dos Guaianases virou Lugar de Vilar. tendo São Francisco Xavier como padroeiro.




Nas trilhas do payaçu

"Paris bem vale uma missa", célebre frase do evangélico Henrique de Navarra ao se converter católico, fazendo as pazes entre protestantes e católicos para, finalmente, ser coroado e aceito rei de todos franceses como Henrique IV. O dito nos serve de expectativa a gregos e troianos para assistir missa do Papa Francisco a ser celebrada em visita pastoral ao Marajó se Deus quiser. 

Mais especialmente à gente de Ponta de Pedras no sentido de comungar do ideal de congregação deixado por madre Olvídia Dias como divisa paroquial no frontispício da antiga igreja matriz de Nossa Senhora da Conceição de Ponta de Pedras:"Bem-vindos e vejam que as pedras que somos não estão de ponta mas ligadas entre si". Oxalá assim seja!

Reza a tradição que as tais "pedras" que nós somos de fato estavam de ponta umas com as outras, quando por voltas do ano de 1737, moradores do vilarejo Itaguari sito à margem esquerda do Marajó-Açu e ribeirinhos rio acima com engenhos de aguardente e seus canaviais e escravos, juntaram-se para erguer a nova igreja em pedra e cal. A fim de obter autorização do bispo diocesano de Belém, dom Guilherme de São José; mudando a sede da freguesia da aldeia da Mangabeira, com sua velha capela em taipa de pilão coberta de palhas e deficiência de porto para canoas, para o Itaguari levando a santa imagem da padroeira para o altar-mor da nova igreja, cujo primeiro vigário de acordo com antigos moradores teria sido o padre Navegantes.

Contavam os mais antigos da aldeia velha da beira da baia que, de fato, a dificuldade de porto sempre foi grande obstáculo ao desenvolvimento da Mangabeira. Porém, com a mudança da sede da freguesia para o Itaguari ficaram os pescadores desolados longe de sua santa padroeira. 

Foi assim que nasceu a lenda dos passeios noturnos de Nossa Senhora entre a igreja matriz da beira do rio e a capela junto a praia da Mangabeira. Diziam, antigamente, que certas noites de luar viam passar um vulto branco pela estrada do Campinho rumo ao Santo Lenço que foi o primitivo caminho para a praia muito antes da rodovia que hoje existe. 

Pelas manhãs, diz-que, quando o sacristão ia abrir a igreja da vila de Ponta de Pedras ele observava a barra do manto de Nossa Senhora úmida de sereno da relva e areia da praia nos santos pés da imagem. Um singelo prodígio. A poesia então habitava aquele antigo chão que o romancista Dalcídio Jurandir (Ponta de Pedras, 10/01/1909 - Rio de Janeiro, 16/06/1979) retratou. O pai do escritor, capitão Alfredo Nascimento Pereira, devoto de Santa Rita de Cássia e dono de uma pequena impressora manual; teria escrito relato sobre essa lenda que se perdeu entre outros casos da antiga vila.

Quem primeiro me falou sobre isto foi o prefeito Wolfando Fontes da Silva (Fango), dizendo ele pelo ano de 1962, aproximadamente, que teria quando gestor encomendado a impressão da lenda pelo capitão Alfredo, mas que a edição fora de poucos exemplares que se perderam com o tempo. Resta-nos agora a memória de alguns que morreram mas deixaram livros, como o filho do capitão e o Bernardes (Bernardino Ferreira dos Santos Filho, autor do livro de memórias "Nas margens do Marajó-Açu").

Bom trabalho de preservação do patrimônio histórico e cultural de Ponta de Pedras esta fazendo a Rádio Itaguary, através do programa semanal Café Cultural com o trio bacana Rony Noronha, Sércio Pereira e Ednelson Castro. Um exemplo de boa vontade e trabalho educativo com a comunidade afin com a invenção dos ecomuseus no mundo inteiro. Embora a Radio Itaguary não ouse dizer o nome o que ela faz já é meio caminho andado para algo a ser assumido pela comunidade como futuro Ecomuseu Itaguari, quem sabe. 

Eu tenho convicção de ter plantado boa semente na terra de Dalcídio e que, no devido tempo, essa semente vai germinar e dar uma grande árvore com sombra e bons frutos para todos. Sonho que muitos outros Bernardes contarão suas/nossas memórias, que se propagarão como sementes de samaúma que as mãos do vento semeiam pelas margens da Mangabeira, do Marajó-Açu, rio da Campininha, Paruru-açu, Anabiju, Caramujal, Araraiana, Urinduba, Pacoval, Paricatuba, Curral Panema, Arari e tantas mais comunidades ribeirinhas e nos campos mais distantes da cidade até.

Para encerrar, direi mais que no Centenário do Município (30/04/1978) não tínhamos documento que provasse a data de emancipação política de Ponta de Pedras. O prefeito Antonico Malato havia falecido no cargo e o vice-prefeito Mário Noronha assumiu em condições dramáticas. Um grupo de voluntários se formou em torno do novo prefeito para auxiliar naquela transição, dentre ao qual eu me encontrava no serviço ativo do Itamaraty na Comissão Brasileira de Limites, em Belém. Foi quando o documentarista Jessé Dantas de Feitosa entrou em contato com Ernesto Teixeira para informar que a Fundação Cultural Abaetetubense dispunha de cópia autêntica da Ata de Instalação da nova Vila de Ponta de Pedras. 

Foi então que soubemos que o Centenário havia transcorrido em brancas nuvens, por falta de informação fidedigna. Reunidos com o novo prefeito ponderamos que talvez o Centenário ainda pudesse ser comemorado postumamente levando em conta as circunstâncias. Fomos nos aconselhar com mestre Camilo Viana, da UFPA e SOPREN. Que ele achava? Mário Noronha baixou portaria constituindo a comissão do Centenário e Jessé Dantas de Feitosa ficou encarregado de solicitar da Empresa Brasileira de Correios (EBC) confecção de Selo Comemorativo e impressão de fac-símile da dita Ata. Tudo feito. O documento, segundo Dantas de Feitosa, lhe teria sido confiado pelo prefeito Pedro Boulhosa Sobrinho na esperança de que um dia tivesse, como teve, bom uso sem se extraviar e se perder.

Assim, no dia 30 de Abril de 1980 comemorou-se oficialmente o Centenário transcorrido dois anos antes. Entre as cerimônias o dr. Camilo trouxe da cidade da Vigia um pé de cajuúna ou cajuí (Anacardium giganteum) remetida pelo prefeito Ildone Favacho ao seu colega Mário Noronha como simbolo de amizade entre as duas municipalidades, respectivamente, do Salgado e do Marajó. 

A escolha do lugar para plantar a árvore foi a beira da praia da Mangabeira em frente da casa de Brasilino Rodrigues, um dos mais antigos moradores da comunidade. Coube a Giseldo Fontes filho do prefeito Fango, que fundou a colônia da Mangabeira com migrantes nordestinos da agricultura familiar; plantar o pé de cajuí ou cajuúna. E tudo transcorreu em harmonia e alegria o povo aplaudindo. 

Mas, infelizmente, no mesmo ano sob rigor do sol e do vento aquela muda feneceu sem tempo de esperar pelas chuvas, entretanto nas lembranças o Anacardium giganteum cresceu e deu muitos frutos: um gesto simbólico daquele Centenário que hoje aponta a novas florações da memória da velha aldeia fundada pelos padres jesuítas em 1686 (apud Serafim Leite, História da Companhia de Jesus no Brasil).

Maracanã no Pará e Sintra em Portugal: uma história colonial que poderá ainda ter final feliz,

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Monumento Natural Dunas de Algodoal - Área de Proteção Ambiental Algodoal-Maiandeua no município de Maracanã (antiga Sintra), Amazônia atlântica paraense.




Nem todos sabem como se fazem salsichas e leis. A frase do chanceler alemão Otto Von Bismarck (1815-1898), "leis são como salsichas, melhor não saber como são feitas". Em certos casos, também melhor não saber como foram dados nomes a cidades brasileiras durante a época colonial ou feitas coleções de grandes museus mundo afora. 

Hoje ainda para compreender a maçada e se tornar apto a ensinar sobre o assunto carece fazer universidade, passar em curso de mestrado e terminar doutorado nesse tipo de maçonaria que é a academia para saber como corporações de ofício evoluíram e a pilhagem prevaleceu na formação dos impérios. A revolução francesa de 1789, por exemplo, prometeu jogar por terra a nobreza imperial e abolir o modo corsário das pilhagens para o enriquecimento da nação. 

Mas, ela derivou no império de Napoleão a prover museus de França da mesma maneira dos monarcas do passado. O império britânico por sua vez, sem repudiar a pirataria do passado, não pôde dar lição aos franceses. E o Grão-Pará não é nem nunca foi o Egito embora o rio Amazonas e o Nilo, afinal de contas, tenham tantas coisas bem semelhantes. Quem quiser saber onde foram parar lindas peças de cerâmica marajoara arrancadas de sítios arqueológicos saqueados na ilha do Marajó de povo pobre, deve tirar um tempinho para ler o livro Cultura Marajoara, de Denise Shaan, gaúcha, que com as suas pesquisas fez mais pelo nosso esquecido patrimônio que todos nós juntos ou tantos quantos doutores nascidos na Amazônia.

Pena que, no que diz respeito ao Marajó velho de guerra, metade dos mais de 500 mil habitantes sejam completamente analfabetos e noutra parte predominam analfabetos funcionais. Enfim dos poucos letrados falta contar ainda analfabetos políticos com os quais o povo não pode contar. Assim, vamos ao ponto a fim de explicar como se fez e continua a fabricar a leseira amazônica, passando do caso da alienação do Marajó ao vizinho Salgado. Nesta região paraense que foi a primeira tocada pelo colonialismo, o caso é saber: 

Como foi que a velha e orgulhosa vila portuguesa de Sintra veio parar ao Grão-Pará apagar o nome original da aldeia indígena Maracanã. E, depois, como esta última bafejada pelo espírito da revolta popular de 1835 contra o império brasileiro, terminou por retomar sua toponímia nativa dando exemplo de descolonização histórica e cultural às mais vilas e lugares aportuguesados à força sob a ditadura do célebre déspota esclarecido Marquês de Pombal. 

Deste assunto eu tratei, em 1999, em minha história atrevida chamada Novíssima Viagem Filosófica, na REVISTA IBERIANA. Para que as populações saibam que nem tudo são flores no domínio da língua portuguesa afinal tão cara para a história do povo brasileiro, como conta José Ribamar Bessa Freire na obra Rio Babel - a história das línguas na Amazônia. A revolução dos cravos em Portugal ainda precisa repercutir no Brasil a fim de clarear os fatos da história comum. 

O passado não se pode remediar, todavia as presentes e futuras gerações ao melhor compreendê-lo - para isto servem os museus - podem se reconciliar e trabalhar juntas pela justiça e a paz a fim de que a velha história não se repita nunca mais. Portanto, as cidades da Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP) que tiveram suas toponímias enlaçadas pelo colonialismo poderiam do limão imperial fazer uma boa limonada. Isto é, inventar um turismo educativo inovador com base nas geminações de cidades e intercâmbio de museus municipais.

Recordar como, depois de 256 anos do tratado de Tordesilhas (1494), o tratado de limites de Madri (1750) foi o pomo de discórdia entre monarcas ibéricos e a Companhia de Jesus na colonial América do Sul e o quanto isto implicou na história dos povos ibero-americanos. No curso do conflito ideológico entre a escolástica católica e o iluminismo europeu triunfante, podemos dizer que infelizmente povos indígenas e afro escravizados pagaram o pato. 

Foi assim, então, que na Amazônia portuguesa o meio irmão do Marquês de Pombal, Francisco Xavier de Mendonça Furtado, capitão-geral e governador do estado do Grão-Pará e Maranhão decretou, sem mais nem menos, uma mudança toponímica no Grão-Pará e Maranhão com que vilas e lugares de Portugal terminaram como exilados no rio das Amazonas.

No caso da deportação, por assim dizer, da vila de Sintra cumpre saber que a pré-história desta façanha pombalina no Pará contempla a luta entre lusos e franceses pelo território amazônico. Durante a França Equinocial (1612-1615), no Maranhão; no rio Maracanã entre 1613 e 1614, franceses estabeleceram-se na aldeia dos Maracanãs, índios de nação Tupinambá seus camaradas, onde construíram embarcações para explorar o Pará até o rio dos Tocantins, como de fato fizeram expandindo seus domínios. O próprio Daniel de La Touche, senhor de La Ravardière, comandou a entrada indo ele até Camutá-Tapera (Cametá-PA) donde retornou a São Luis diante da avançada dos portugueses que, em 1615, tomaram o forte francês de São Luís.


Em 12 de janeiro de 1616, o capitão-mor Francisco Caldeira Castelo Branco em acordo com os Tupinambás da região funda o forte do Presépio, berço de Belém do Grão-Pará, dando início à ocupação portuguesa da Amazônia. Desde então, o choque colonial foi violento: Simão Estácio da Silveira, dono de navios, escreve um panfleto dirigido aos pobres de Portugal (leia-se, casais dos Açores) lhes prometendo o paraíso no Maranhão. O aliciamento dos primeiros colonos teve resultado trágico.

A soldadesca das guarnições dos dois fortes, São Luís do Maranhão e Presépio no Pará, cometiam graves abusos contra índias e índios a ponto de revoltar os próprios oficiais portugueses, como no caso do Pará, onde o estupro de uma jovem índia pelo capitão Antônio Cabral, sobrinho do capitão-mor, provocou reação do capitão Paulo Rocha terminando com o assassinato deste último pelo primeiro. Fato que determinou motim no Presépio liderado pelo capelão frei Antônio de Merciana, diante da leniência de Castelo Branco para não castigar o sobrinho. Postos a ferro o capitão-mor e Antonio Cabral foram mandados diretamente a Portugal, onde foram soltos e os militares no Pará repreendidos por insubordinação... 

No Maranhão, as coisas não foram melhor. Além do roubo de roças e captura de índios para escravos dos colonos; os filhos do capitão-mor Jerônimo de Albuquerque raptaram a mulher mais nova do cacique e pajé-açu da aldeia de Cumã, Pacamon, e além disso roubaram-lhe o porantim ou lança cerimonial sagrada na cultura guerreira tupi-guarani. A revolta de Pacamon foi imediata espalhando-se com rastilho de pólvora pela aldeia e vizinhança, Antônio e Maciel Albuquerque viram-se obrigados a fugir pelo mar para salvar a própria pele. 

Porém a revolta dos Tupinambás se alastrou do Maranhão ao Pará através do antigo caminho que ligava a costa do Salgado ao interior do Guamá. E, desta maneira, no dia 7 de janeiro de 1619, o cacique Guaimiaba (Cabelo de Velha) com os seus guerreiros atacou o forte do Presépio sendo morto sobre a muralha. Ato histórico que, certamente, desde então pelas acumulações sucessiva de ódios e mal entendidos recíprocos, teria funestas consequências dois séculos mais tarde, na madrugada de 7 de janeiro de 1835 (a Cabanagem): os tupinambás do século XVII, entretanto, ao ver o cacique Guaimiaba morto estendido no chão desbarataram-se tendo ao encalço soldados armados dispostos a dar um banho de sangue aos índios bravios. 

A represália portuguesa foi dantesca: Bento Maciel Parente e Pedro Teixeira auxiliados pelos irmãos Antônio e Maciel Albuquerque com soldados portugueses e mamelucos, encurralam os tupinambás no rio Gurupi e cometeram um genocídio dizem cronistas da época. Há quem fale em até cem mil índios mortos, número exagerado ao que parece, pois seria mais do que o dobro de mortos na Cabanagem (1835-1840). Diversos cronistas reprovam excessos despropositados do facinoroso Bento Maciel Parente, lamentando inclusive desperdício de braços escravos. Coberto de sangue Bento Maciel entra em Belém e na história para governar a província dentre a galeria dos maiores capitães-mores que o Grão-Pará teve: famoso inclusive como comandante da expulsão dos holandeses e ingleses na Amazônia. Este era, em linhas gerais, o cenário da região amazônica na quadra da União Ibérica (1580-1640), quando Portugal restaurou sua independência 1º de dezembro de 1640) e mais tarde, em 1653, o padre Antônio Vieira chegou ao Pará.

Vieira saiu de Lisboa frente à expedição a bordo da caravela Nossa Senhora das Candeias, em 22 de novembro de 1652, chegando a Belém do Pará em 24 de novembro de 1653, quando apresentou ao Governo Provincial a carta régia que lhe dava poderes especiais de evangelizar, fundar igrejas, instalar missões pelo sertão, baixar índios consigo, etc. Nesta ocasião, na aldeia Maracanã padre Antonio Vieira fundou a primeira igreja do lugar em taipa de pilão e batizou o índio Principal da aldeia de nome Copaúba, o qual recebeu batismo cristão como Lopo de Souza. 

A aldeia Maracanã teve certo progresso no regime das Missões, em 1700, recebeu foros de freguesia e meio século depois, com a expulsão dos Jesuítas, em cumprimento da Lei Pombalina de 6 de junho de 1755, o capitão-geral governador do Pará, Francisco Xavier de Mendonça Furtado, meio-irmão do Marquês de Pombal, determinou a mudança de nome da aldeia Maracanã para "Cintra" [Sintra], dentro da política de extinção de nomes indígenas por topônimos portugueses, tais como Viseu, Bragança, Ourém, Colares, São Caetano de Odivelas, Barcarena, Salvaterra, Soure, Chaves, Beja, Oeiras, Portel, Melgaço, Almeirim, Alenquer, Óbidos, Aveiro, Santarém, Faro e outras vilas e lugares.

Na ocasião, Cintra foi promovida à categoria de vila. Porém, somente em 1757 foi instalada com o nome oficial de Vila de São Miguel de Cintra, em virtude do achado de uma imagem de São Miguel. Em 11 de novembro de 1885, a lei provincial nº 1.209 elevou Cintra à categoria de cidade, que 10 anos antes já era Comarca (Lei nº 845, de 23 de abril de 1875).
Com a primeira república do Brasil, durante o governo de Paes de Carvalho no Estado do Pará, o cônego Ulisses de Pennafort, deu início com sucesso a campanha para o nome original do município voltar a ser oficialmente adotado. Deste modo, no dia de 28 de maio de 1897, a lei estadual nº 518 sancionada pelo governador, devolvia a Maracanã seu topônimo nativo.
Na história do município destaca-se episódio da Cabanagem, a revolução popular que teve início em Belém do Pará a 7 de janeiro de 1835. No município de Maracanã o sentimento nacionalista da população já se fazia notar cerca de 1824, logo após aos acontecimentos neocoloniais de 1823, que frustaram a adesão do povo paraense ao império de Dom Pedro I. O padre André Fernandes de Souza, com objetivo de pacificar os revoltosos foi mandado para o município de Maracanã.
O movimento rebelde havia começou em Colares e chegou até Bragança. Em Maracanã, cerca de 200 homens armados reagiram ao governo provincial da época juntando-se aos cabanos. Em março de 1835, quando Eduardo Angelim exercia o segundo governo cabano, em frente a Salinas ancorou o veleiro inglês "Clio", carregando armas e munições supostamente destinado aos portugueses contrários aos revoltosos. O navio ficou à espera de um "prático" para prossegui em direção a Belém, como não apareceu nenhum "prático" da barra para orientá-los, a tripulação tentou chegar à praia, quando então cabanos de Maracanã e Salinas informados da carga que estava a bordo, atacaram e trucidaram a tripulação, sequestraram as armas e munições e a embarcação foi incendiada. Este episódio deu lugar a vinda a Belém, em abril de 1836, de três navios da marinha da Inglaterra comandados pelo oficial Charles Strong, para cobrar satisfações a respeito do saque do "Clio". Recentemente foram divulgados documentos ingleses sobre a Cabanagem que esclarecem o assunto, inclusive o pedido secreto do regente Diogo Feijó para Inglaterra e França se juntarem à armada brasileira a fim de combater a revolução paraense, o que não aconteceu. Com a retirada de Eduardo Angelim as forças imperiais ocuparam Belém novamente e no dia 4 de junho de 1836, acusados de Maracanã e Salinas de participar do assalto ao Clio foram presos e depois executados.


No município de Vigia, ocorreram as mais sangrentas lutas da Cabanagem de toda região do Salgado. Foram concentrados na vila da Vigia 200 cabanos de Maracanã, 200 de Curuçá e outros mais vindos de Salinas que se aquartelaram na cabeceira do rio Maú. Na vila da Vigia os cabanos visaram o "trem de guerra" (depósito de armas e munições) travando combate sangrento com mortes de parte a parte. Nos enfrentamentos da Vigia morreu Pedro Antônio Raiol, o pai do historiador da Cabanagem Domingos Antônio Raiol. 

Esta nossa brevíssima incursão à história da Amazônia colonial portuguesa, através da possível geminação da brava Maracanã (Brasil) e da heroica Sintra (Portugal) é um convite a cidades educativas e ao movimento de ecomuseus e museus comunitários da CPLP para embarcar na generosa agenda 2030, dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS), das Nações Unidas, enquanto Antônio Guterres abre as portas ao diálogo para a paz. O futuro não se faz sem a consciência do passado e a coragem do presente.

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Castelo dos Mouros - Sintra, Portugal.

quarta-feira, 1 de março de 2017

O teatro da paz em Belém da Amazônia.


Joaquim de Flora (gravura medieval).


Hoje, quarta-feira de Cinzas, entre chuva e esquecimentos, ocasião propícia para relembrar o tempo apocalíptico dos nossos antepassados índios sob o peso da cruz acidental evangelizadora. Ou seja, cativeiro e extinção em nome de Deus e de El-Rei católico apostólico romano.

No meio do caminho para o inferno verde nessa selva escura que Dante na Divina Comédia nem sonhou; por sorte ou dom do Espírito santo uma mente brilhante forjada pelos jesuítas da Bahia de Todos os Santos apareceu no caminho de Belém do grão Pará a pregar justiça aos lesados da terra e paz para o mundo todo: unindo judeus, cristãos e muçulmanos sob a mesma Terra-Pátria como diz atualmente o profeta da complexidade Edgar Morin, crente como eu do deus de Espinosa.

O que salvou os negros da terra do genocídio total, apesar dos pesares, foi a utopia do Quinto Império profetizado pelo padre grande Antônio Vieira entre colonos encapetados e índios ocidentais destruídos pela Conquista europeia. O Quinto Império ou idade do Espírito santo vem da filosofia da História, do espírito libertário do monge medieval Joaquim de Flora para desaguar na filosofia pós-moderna da inteligência coletiva ou a idade cibernética de um mago chamado Pierre Levy, por exemplo. E eu, caboquinho do Fim do Mundo (Itaguari de Ponta de Pedras, Marajó-Pará), que tanto queria saber quem inventou o mundo...

A utopia evangelizadora do padre grande vem de muita preteridade para chegar aqui e agora sempre a reinventar o futuro da humanidade. Por isto é Utopia e ainda não sabemos o que a utopia significa para a História... Vem da "voz que clama no deserto" (o iracundo dissidente judeu João Batista, terapeuta ou pajé que curava pela água no primeiro SPA - sano per acqua - do mundo), vem da fonte espiritual da noosfera nas águas do Jordão batizar as grandes águas do Rio Babel (Uêne aruaco, Paraná-Uaçu tupi, Marañon castelhano, Amazonas galego-português); vem do Sermão da Montanha com as boas notícias do rabi da Galileia a proclamar o primeiro manifesto comunista do mundo... 

A utopia sebastiana vem das flechas imperiais assassinas, vem do milagre da fé humana, vem do martírio dos crentes atirados às feras no circo de Roma para distrair a impiedade pagã... O Quinto Império do mundo vem do gemido sufocado dos guetos da história censurada pelo Santo Ofício, vem da dialética malvada entre a ortodoxia cristã e o antissemitismo, vai além da eterna acusação da Inquisição e da demência hedionda do Nazismo para nos mostrar o caminho para a história do futuro desde o antigo sonho dos profetas do Cativeiro da Babilônia.

Na Quaresma, diz Vieira em carta de 29/11/1659 (publicada em Lisboa a 11/02/1660) inverossímil porém compreensível no realismo mágico do tempo intermédio entre as trevas da Idade Média e as tímidas luzes da Modernidade amanhecente (que se chamou século XVII); quando no convento dos padres de Santo Alexandre não se acreditava mais no regresso com sucesso dos dois nheengaíbas escravos mandados em missão de paz na distante e terrível Ilha dos Nheengaíbas (Marajó). Os dois negros da terra promovidos a embaixadores foram levar a mensagem de paz a seus parentes rebeldes guerrilheiros acusados de pirataria e condenados ao genocídio pela "guerra justa": já três tentativas militares de ocupar a ilha grande dos Nheengaíbas tinham terminado em desastre de parte a parte. A primeira tentativa de paz, em 1656, levada pelo padre João de Souto Maior voltou a Belém com feridos e a notícia de mortos enterrados na beira do rio na retirada precipitada frente ao ataque dos bárbaros... 

Mas, eis que batem a porta e quando os desesperançados padres vão atender, entram ao convento animosos e de boa fé os ditos embaixadores da carta risível escrita em português ou nheengatu talvez a um povo de analfabetos selvagens; acompanhados de sete caciques pagãos que, ousadamente, vinham se meter debaixo dos canhões portugueses confiados tão só na palavra do payaçu dos índios que fora além mar buscar a lei de liberdade dos cativos (alvará de 1655). 

Dos tais caciques ficou sendo interlocutor do superior das Missões (este último em posição de delegado real para assuntos indígenas, papel que hoje corresponderia à célebre FUNAI) o mais ladino de todos, na pena do payaçu, um certo Piyé nomeado cacique dos Mapuaises (Mapuás)... Curiosa semelhança com o nome do faraó negro Piie na história do antigo Egito. Coincidência? O Piie negro entrou na história por descer do Alto Nilo com seu exército para combater a corrupção dos faraós. Sintomático. Além do estalo, o nosso padre Vieira ficou famoso pela lábia...

Aquilo na Amazônia colonial portuguesa era, com certeza, um teatro da paz universal por necessidade e acaso retratada daquela maneira. Mas, os idiotas da objetividade, como diria o anjo pornográfico Nelson Rodrigues, não conseguem ver com os quatro olhos do peixinho tralhoto, que o padre grande falou no Sermão aos Peixes (São Luís do Maranhão, 1654, a caminho de Lisboa para levar as queixas dos índios do Pará a Dom João IV). A pax dos Nheengaíbas foi feita na Igreja do Santo Cristo do rio Mapuá (ilha do Marajó) em 27 de Agosto de 1659. Ou, pelo menos, plantada a semente da paz amazônica na verde várzea que, 346 anos depois, veio a se chamar Reserva Extrativista Mapuá, a 25 de maio de 2005.

Pelos caminhos da História planetária, que conexões podem existir entre a inteligência coletiva do filósofo da internet Pierre Levy e a idade do Espírito Santo anunciada por Joaquim de Flora separados por sete séculos? O que o payaçu dos índios padre Antônio Vieira, condenado por heresia judaizante pelo Santo Ofício; poderia inspirar agora, por exemplo, o Papa Francisco a respeito da Amazônia focalizada expressamente a par da bacia do Congo na bula Louvado Seja?

Talvez seja Edgar Morin entre todos pensadores da atualidade quem está mais perto da melhor resposta quando a filosofia da complexidade contempla o Homo sapiens demens. A humanidade filha da animalidade, dotada de razão e consciência, nasceu e cresceu no seio da bio-noosfera (corpo-e-mente do Cosmo). Cérebro que cria a mente, mente que concebe o cérebro e tudo mais quanto ele compreende. Ainda vão beatificar Charles Darwin e seu acólito principal Alfred Russel Wallace - louvado seja o jesuíta paleontólogo evolucionista Pierre Teillard de Chardin! - que, por sinal, visitou Marajó mas nada disse de Vieira nem dos índios arquitetos que fizeram as aldeias suspensas da ecocivilização marajoara de mais de mil anos de idade. Ainda assim, Wallace sentenciou: "o caboclo marajoara é tremendo" (despistador). 

Com isto, o naturalista inglês queria dizer que a lenda das amazonas foi, sutilmente, plantada na cabeça dos espanhóis pelos índios que respondiam às perguntas dos civilizado de modo a induzir aquilo mesmo que os brancos gostariam de acreditar. Não foi sem razão que o baiano Jorge Amado apelidou de "índio sutil" a seu colega marajoara Dalcídio Jurandir.

O conceito de inteligência coletiva apresentado por Levy configura uma antropologia do ciberespaço. Até aí um longo caminho percorrido pela evolução da vida desde a poeira das estrelas até a complexidade da matéria orgânica para se transformar em espírito (mente) e habitar vários meios de comunicação. No Homem (corpo/mente), o demens sente e sonha, o sapiens indaga e explana a "verdade". 

Na realidade, isto é abstração. Cada indivíduo é uma unidade biológica-econômica-social-psíquica). O longo século XIX, depois de uma longevidade prodigiosa e infernal, finalmente está morto como o deus de Nietzsche. Porém o sonhado e esperado Terceiro Milênio ainda não nasceu... Para os crentes, entre o passado recente e o futuro que tarda, entre o inferno de duas grandes guerras mundiais mais o terror da Guerra Fria; e as esperanças da paz universal prometida pelos profetas, resta por hora uma espécie de purgatório. Apesar de tudo, poetas, filósofos, cientistas humanistas, diplomatas criativos, religiosos ecumênicos e estadistas democratas parecem ver uma pequena luz no fim do túnel.

Lévy defende que todos indivíduos tem inteligência própria herdada e acumulada em suas vivências pessoais em interação social evoluindo para o ciberespaço. Este espaço virtual, muito mais que um meio de comunicação ou mídia, trata-se de um espaço de integração e síntese de infinidade de mídias e interfaces, que podem ser encontradas tanto nas mídias como: jornal, revista, rádio, cinema, tv, bem como mais diferentes interfaces que permitem a interação ao mesmo tempo ou não, como os chats, os fóruns de discussão, os blogs, entre outros.

O ciberespaço apresenta-se como local difuso onde a inteligência coletiva se forma por conta da interação entre pessoas que, como sujeitos individuais que são, promovem intercâmbio de ideias por meio de comunidades virtuais, cujo objetivo maior está em promover amplas conexões entre seus participantes. O resultado é a transmissão e construção de ideias que acabam por criar a cibercultura: movimento social e cultural estabelecendo pontes para novas relações com o conhecimento e o saber coletivo na Polis virtual (cibercidade). Será isto alienação ou real?


A inteligência coletiva é a capacidade de reconhecer o outro como sujeito dotado de inteligência, um ser de conhecimento potencializado. Os mais diferentes saberes buscam-se em complementaridades, na complexidade global cada indivíduo é parte integrante do mesmo processo que admite seus conhecimentos e saberes individuais como resultado de sua própria formação socioambiental. Identidades territoriais e direitos se manifestam em rede. Desta maneira, a prática da inteligência coletiva reduz a ilusão e o engano podendo levar a uma melhor comunicação entre indivíduos, bem como a uma maior compreensão do outro enquanto ser inteligente, porque cada um possui savoir-faire (saber fazer): um conhecimento seu que, compartilhado, beneficia diferentes áreas da vida. Uma forma de valorizar o outro e valorizar a si mesmo para juntos promoverem o crescimento do todo.

Todas utopias valem a pena se levam a humanidade a sonhar o Futuro e a lutar pela conquista da justiça e da paz na inspiração igualitária da mítica Terra sem males (paraíso terreno Tupi-Guarani onde não há fome, trabalho escravo, doença, velhice e morte) confundido com o Quinto Império (isto é, a Terra-Pátria), na visão das Nações Unidas para os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS).

Vieira é verdadeiro profeta! 

Parodiando a frase: "Bandarra é verdadeiro profeta!"(carta As Esperanças de Portugal, que levou Vieira à condenação por heresia judaizante pelo tribunal da Inquisição). Quando o padre grande na solidão do rio dos Tocantins levado de canoa a remo por "índios cristãos" (obrigados ao batismo como os mais cristãos-novos do Brasil) a caminho de Camutá-Tapera (Cametá-Pará) escreveu a famosa carta secreta inspirada nas Esperanças de Israel, do rabino sefardita de Amsterdã Menassé ben Israel.