domingo, 31 de outubro de 2010

ajuricabano

Amigos, Companheiros e Camaradas,

Acabou-se de fechar os últimos locais de votação no País. Podemos prever mas não se sabe ainda o resultado final das eleições 2010.


Todavia, qualquer que seja o veredito das urnas já temos um vencedor: o Povo Brasileiro na construção da democracia popular e o Brasil no concerto das nações a caminho do desenvolvimento do estado democrático de direito. Neste momento, carecemos de uma curta trégua na luta dialética entre os que querem conservar o passado e os que buscam consttuir o futuro. Digamos até o Ano Novo. Tempo para repouso e para assimilar as lições dos erros cometidos e acertos alcançados.

Em minha qualidade de Quixote incurável, não tenho mais tempo para querelas inúteis. Todas reservas de energias que me restam devem servir para retransmitir a jovens sonhadores da justiça social o pouco que aprendi ao longo da vida. Por isto, a proposta de revitalização da "Academia do Peixe Frito" como tribuna livre de cultura popular e a teimosia do progresso da "extinta" Cultura Marajoara de 1500 anos de idade para todo Brasil e o mundo inteiro. 


Nós não podemos nos contentar de um "regionalismo" medíocre e ilhado na vastidão do arquipélago nacional. É preciso pensar grande a Amazônia que queremos deixar a nossos filhos e netos: no curto prazo, debater os 400 anos da tomada do Maranhão (1615-2005) e o IV Centenário de Belém do Grão-Pará, em 2016. Que tal?

Convidamos, então, desde já a mobilizar as forças progressistas de centro-esquerda amazônica para um grande "ajuri" (cooperação) cabano, tendo na resistência marajoara e na figura emblemática do herói manau Ajuricaba a maior referência.


Amazônia Brasil: brasileiros construindo um novo mundo possível!

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

a face oculta do Ver O Peso [3]

>
Na casa do tio Xandico ninguém dormiu naquela noite. Parecia que metada da ilha do Marajó tinha vindo passar o Círio na casa do parente, cada um se arranjando como pode. Todos trazendo alguma coisa pra a festa: pato, leitão, galinha, farinha d'água, tucupi, beijus, frutas... Trabalho em mutirão cada um dando uma mão pro serviço sair depressa. A fila para o banho, pirralhos primeiro, as mães sempre atentas, roupa engomada, cheiro cheiroso de priprioca, patchuli, catinga de mulata, mutamba... Corre corre pra ir à Trasladação. Mamãe ficou conversando com tia Albertina e o tio e papai foram a pé até o largo da Sé espiar o movimento.

Enfim, o grande dia chegou. Mal amanheceu tomou-se café com pão e fomos todos pra rua. Tio Xandico sabia o caminho e o melhor lugar para ver a passagem do Círio: debaixo da marquise da associação comercial vinha mesmo a calhar. Os homens fizeram parede pra livrar as crianças e as mulheres do haver de gente que vinha subindo a 15 de Agosto em direção ao largo da Pólvora. Oh, mundão! Nem em sonhos o pirralho do Fim do Mundo tinha imaginado tando mundo reunido assim que nem no Círio de Nazaré...

E lá vinha chegando a Berlinda com o carro dos milagres à frente. Forte coisa! Um carro dos milagres tirado a bois, os primos (paresque) sabiam tudo do que se passava no Cirio. Isto de bois puxadores do carro dos milagres, diziam, fora promessa de um carroceiro... Mas, o que não sabiam era que os bois não estavam lá muito católicos para a devoção. Foi só uma salva de foguetes estrondar no ar que os animais desembestaram na subida da 15 de agosto, que foi um custo para conter o atropelo dos devotos postos em desordenada fuga. Que susto! Finalmente, por milagre, o senhor carroceiro dominou seus bichos e a romaria continuou sem mais carro dos milagres daquela vez.

Vinha outro carro alegórico da romaria e tia Albertina explicava o milagre de Nossa Senhora para salvar a vida de dom Fuas Roupinho, cavaleiro viramundo da Borgonha metido por acaso na fundação do reino de Portugal. O Diabo na borda do precipicio de Alcobaça a atiçar o caçador desocupado em seu cavalo levando para a morte. Lá estavam cavalo e cavaleiro seguindo o Maldito em forma de um inofensivo veado!... Quanta notícia de além mar desfilava no teatro devoto da díáspora nazarena na verde e vaga terra das amazonas amazônicas. O tio era português de Póvoa de Varzim: ao contrário de seus patrícios não tinha ele lá muitas saudades da terrinha... Só pelo Círio e Natal, paresque, se lembrava do bom vinho, leitão assado com batatas e empanadas em quantidade. Bebia-se e comia-se em quantidade no dia do Círio, como a saciar de uma vez todas as fomes dos pobres de Portugal iludidos e enganados a vir colonizar o Maranhão e Grão-Pará. Se bem me lembro foi esta a primeira vez que tomei a primeira bebedeira desta vida de atravessador entre o sítio e a cidade. Mas não dizer se chorei ou se ri da asneira até Chico chegar da roça. Mamãe, coitada, gastou toda água da tina de tia Albertina pra me banhar e botar a dormir.

a face oculta do Ver O Peso [2]

>
caboquinho do sítio cheguei a Cidade pela primeira vez em canoa à vela. A gente saia da ilha pela madrugada e a chegada deu-se pela boca da noite, na Bacia. A igarité "Africana" aproveitou a maré cheia pra entrar no Igarapé das Armas e os barões assinalados repousavam em palacetes da época da borracha na São Jerônimo ou na cidade dos pés juntos no Soledade... Não me peçam pra baratear o preço da travessia e dar de graça o peixe da estória que vos trago ao pé da Pedra, na feira. Decifrem-me, esta gente! Ou devoro vossa santa paciência.

naquele tempo a baía era povoada de gaiolas e vaticanos à vapor pejados de borracha do Acre queimando milhões de achas de lenha da floresta e navios encantados movidos a mil e uma lendas. Mea avó dizia que, muito antigamente, no tempo da vela de jupati; a avó lá dela quando vinha a Cidade carecia saltar por riba de tronco de miritizeiro na maré seca na beira da Praia... Meu pai e mea mãe saltaram da canoa no Reduto pra pegar automóvel de aluguel com "chauffer" a levar a família até a casa do tio Xandico, 16. A gente vinha passar o Círio. Tudo era novidade ao pirralho criado no lugar chamado, mui propriamente, o Fim do Mundo...

A noite fechou como se quisesse esconder do pequeno os segredos da Cidade: pés de benjamins rodavam como piões aos olhos infantis ainda tontos da maresia lá fora. Na avenida Portugal apareceram grandes "automóveis" apinhados de gente!... Gritei admirado. Mamãe me mandou calar a boca e disse que aquilo era ônibus não automóvel. O "chauffer" achou graça... Papai se apressou em me explicar que o carro que ia rodando à frente nos trilhos se chamava bonde. O pior e o melhor estavam por vir no dia seguinte.

a face oculta do Ver O Peso

>
o veu das ilhas filhas da cobragrande esconde na linha do horizonte
o verdadeiro peso da fome mãe de todas histórias das amazonas.
Aqui em terra e além mar.