segunda-feira, 11 de outubro de 2010

a face oculta do Ver O Peso [2]

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caboquinho do sítio cheguei a Cidade pela primeira vez em canoa à vela. A gente saia da ilha pela madrugada e a chegada deu-se pela boca da noite, na Bacia. A igarité "Africana" aproveitou a maré cheia pra entrar no Igarapé das Armas e os barões assinalados repousavam em palacetes da época da borracha na São Jerônimo ou na cidade dos pés juntos no Soledade... Não me peçam pra baratear o preço da travessia e dar de graça o peixe da estória que vos trago ao pé da Pedra, na feira. Decifrem-me, esta gente! Ou devoro vossa santa paciência.

naquele tempo a baía era povoada de gaiolas e vaticanos à vapor pejados de borracha do Acre queimando milhões de achas de lenha da floresta e navios encantados movidos a mil e uma lendas. Mea avó dizia que, muito antigamente, no tempo da vela de jupati; a avó lá dela quando vinha a Cidade carecia saltar por riba de tronco de miritizeiro na maré seca na beira da Praia... Meu pai e mea mãe saltaram da canoa no Reduto pra pegar automóvel de aluguel com "chauffer" a levar a família até a casa do tio Xandico, 16. A gente vinha passar o Círio. Tudo era novidade ao pirralho criado no lugar chamado, mui propriamente, o Fim do Mundo...

A noite fechou como se quisesse esconder do pequeno os segredos da Cidade: pés de benjamins rodavam como piões aos olhos infantis ainda tontos da maresia lá fora. Na avenida Portugal apareceram grandes "automóveis" apinhados de gente!... Gritei admirado. Mamãe me mandou calar a boca e disse que aquilo era ônibus não automóvel. O "chauffer" achou graça... Papai se apressou em me explicar que o carro que ia rodando à frente nos trilhos se chamava bonde. O pior e o melhor estavam por vir no dia seguinte.

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