segunda-feira, 11 de outubro de 2010

a face oculta do Ver O Peso [3]

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Na casa do tio Xandico ninguém dormiu naquela noite. Parecia que metada da ilha do Marajó tinha vindo passar o Círio na casa do parente, cada um se arranjando como pode. Todos trazendo alguma coisa pra a festa: pato, leitão, galinha, farinha d'água, tucupi, beijus, frutas... Trabalho em mutirão cada um dando uma mão pro serviço sair depressa. A fila para o banho, pirralhos primeiro, as mães sempre atentas, roupa engomada, cheiro cheiroso de priprioca, patchuli, catinga de mulata, mutamba... Corre corre pra ir à Trasladação. Mamãe ficou conversando com tia Albertina e o tio e papai foram a pé até o largo da Sé espiar o movimento.

Enfim, o grande dia chegou. Mal amanheceu tomou-se café com pão e fomos todos pra rua. Tio Xandico sabia o caminho e o melhor lugar para ver a passagem do Círio: debaixo da marquise da associação comercial vinha mesmo a calhar. Os homens fizeram parede pra livrar as crianças e as mulheres do haver de gente que vinha subindo a 15 de Agosto em direção ao largo da Pólvora. Oh, mundão! Nem em sonhos o pirralho do Fim do Mundo tinha imaginado tando mundo reunido assim que nem no Círio de Nazaré...

E lá vinha chegando a Berlinda com o carro dos milagres à frente. Forte coisa! Um carro dos milagres tirado a bois, os primos (paresque) sabiam tudo do que se passava no Cirio. Isto de bois puxadores do carro dos milagres, diziam, fora promessa de um carroceiro... Mas, o que não sabiam era que os bois não estavam lá muito católicos para a devoção. Foi só uma salva de foguetes estrondar no ar que os animais desembestaram na subida da 15 de agosto, que foi um custo para conter o atropelo dos devotos postos em desordenada fuga. Que susto! Finalmente, por milagre, o senhor carroceiro dominou seus bichos e a romaria continuou sem mais carro dos milagres daquela vez.

Vinha outro carro alegórico da romaria e tia Albertina explicava o milagre de Nossa Senhora para salvar a vida de dom Fuas Roupinho, cavaleiro viramundo da Borgonha metido por acaso na fundação do reino de Portugal. O Diabo na borda do precipicio de Alcobaça a atiçar o caçador desocupado em seu cavalo levando para a morte. Lá estavam cavalo e cavaleiro seguindo o Maldito em forma de um inofensivo veado!... Quanta notícia de além mar desfilava no teatro devoto da díáspora nazarena na verde e vaga terra das amazonas amazônicas. O tio era português de Póvoa de Varzim: ao contrário de seus patrícios não tinha ele lá muitas saudades da terrinha... Só pelo Círio e Natal, paresque, se lembrava do bom vinho, leitão assado com batatas e empanadas em quantidade. Bebia-se e comia-se em quantidade no dia do Círio, como a saciar de uma vez todas as fomes dos pobres de Portugal iludidos e enganados a vir colonizar o Maranhão e Grão-Pará. Se bem me lembro foi esta a primeira vez que tomei a primeira bebedeira desta vida de atravessador entre o sítio e a cidade. Mas não dizer se chorei ou se ri da asneira até Chico chegar da roça. Mamãe, coitada, gastou toda água da tina de tia Albertina pra me banhar e botar a dormir.

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