sábado, 27 de fevereiro de 2016

INDIOS URBANOS SÃO CABANOS


Tal qual elevada estátua do primeiro cabano, o cacique tupinambá Guaimiaba (... ? -- 07/01/1619); o Índio da Praça Brasil em Belém do Pará é marco da presença ancestral dos povos indígenas na fundação da primeira Cidade ribeirinha amazônica em aliança com soldados lusitanos da tomada do Maranhão na União Ibérica, a fim de expulsar invasores da terra Tapuia conquistada por arcos e remos Tupinambás em busca da Terra sem mal. Por significativo acaso, a praça do índio do Umarizal se insere dentre ruas e travessas da memória do movimento paraense 14 de Abril de Adesão à independência do Brasil. Sem índios, com certeza, não existiriam Belém, Pará, Amazônia brasileira: é a mensagem histórica dos índios urbanos de Belém do Grão-Pará. Já pensou quem são eles? Mire-se ao espelho, por exemplo. 


ENTRE CHUVAS E ESQUECIMENTOS
 
Nos inícios da colonização, os europeus abordavam índios com boas falas e eram por eles recebidos de boa vontade. Depois é que eram elas: começavam os brancos por vir solteiros, castigados de longas e tormentosas viagens pelo mar... logo, por bem ou por mal, queriam se deitar com as índias para aliviar seus medos do Outro que habita em cada um de nós: não era problema para índios poligâmicos acostumados a trocar mulheres com aliados e até podia dar um cunhado valente para defender a aldeia com "pau de fogo" (arcabuz). O diabo porém era o abuso dos brancos aos costumes da terra e violência do hóspede que logo queria se tornar dono da terra e da oca; senhor das mulheres e filhas dos índios já feitos escravos. 

Aí, então, regra geral o pau chinchava!... Isto é, nas mãos dos guerreiros o tacape e o porantim vingavam as ofensas sofridas pelos indígenas.

As boas falas não foram diferentes na chegada dos lusos ao Pará-Uaçu (Grão-Pará) nos três caravelãos comandados pelo capitão-mor Francisco Caldeira de Castelo Branco, guiados na jornada do Maranhão pelo piloto francês Charles des Vaux com ajuda de outro gaulês intérprete da língua dos tupinambás. Em São Luís do Maranhão, La Ravardière estava refém à espera de notícias, para ser libertado e mandado para Europa, sobre o acordo dos índios em receber os novos senhores da já extinta colônia a França Equinocial pela Feliz Lusitânia prestes a se estabelecer no Pará. Pernoitaram na aldeia de Tenoné (Tenondé?), hoje Icoaraci; o capitão-mor, alguns oficiais e os dois franceses intérpretes, que há coisa de um ano apenas haviam acompanhado La Ravardière em viagem até Cametá, no rio Tocantins.

Que se saiba, os Tupinambás sempre interessados em vencer a barreira humana oposta dos Nheengaíbas (marãyu, marajós malvados falantes da "língua ruim", Aruak) para subir francamente o Paraná-Uaçu ("rio grande", Amazonas) até aos confins; de boa fé o tuxaua do Tenoné não fez objeção ao projeto português de levantar o Forte do Presépio às proximidades da aldeia onde os franceses haviam acampado outrora, chamada Mayri  (de mayr, louro como os índios chamavam aos franceses); cerca da boca do Igarapé do Piry onde a ponta alta na margem esquerda veio a servir para assentar o forte português. Na verdade, menos que um fortim o famoso Presépio berço da Feliz Lusitânia era uma paliçada ao modo tupi, apenas reforçada de taipa onde se instalaram uns canhões tirados dos navios. Reza a história deixada pelos colonizadores que a construção do forte por índios e lusos teve início no dia 12 de janeiro de 1616. Por cerca de dois anos apenas, viveram em paz índios e portugueses no Pará até começar os costumeiros abusos dos brancos, com que revoltou os próprios soldados que se amotinaram no Presépio sob comando do capelão frei Antônio de Merciana prendendo o capitão-mor Castelo Brando mandado a ferros para Portugal.

 No Maranhão as ofensas de enganados casais dos Açores roubando roças e escravizando índios para atamancar suas pobrezas não eram menores que no Pará. O resultado não demorou com a revolta de Pacamão, cacique e pajé de Cumã, donde quase uma centena de colonos foram mortos. Pelo célebre Caminho do Maranhão a revolta chegou ao Pará onde, no amanhecer do dia 7 de Janeiro de 1619 ocorreu a primeira Cabanagem no ataque suicida dos tupinambás do cacique Guaimiaba ("Cabelo de Velha") ao Forte do Presépio. 

O primeiro líder cabano tombou morto em combate sobre o muro do forte. Seguiu-se um desconforme banho de sangue com enorme massacre dos tupinambás encurralados entre o Alto Guamá e o Gurupi, sob as ordens do genocida Bento Maciel Parente e Pedro Teixeira. Em vão o capitão-mor do Pará na ocasião deu ordens para parar a guerra e o mercador Simão Estácio da Silveira que fora o propagandista das maravilhas do Maranhão para iludir os pobres de Portugal (leia-se, casais de lavradores das ilhas dos Açores) deplorou a matança que desfalcava braços (evidentemente escravos) para a exploração da nova colônia. Cumpre observar que a Amazônia lusitana (Maranhão e Grão-Pará) era colônia separada do Brasil cuja capital estava em Salvador da Bahia. Enfim, coberto de sangue Bento Maciel só se saciou quando entrou em Belém para assumir o cargo de capitão-mor. Por ironia da história ao morrer foi sepultado na igreja do Carmo, que fica em frente à praça onde foi cemitério indígena, provavelmente, da aldeia Mayri, na Cidade Velha. Para recompor o passado a fim de reconstruir um futuro melhor para todos vivemos nós catando cacos da História...

Victor Leonardi, em sua excelente obra "Entre árvores e esquecimentos: história social nos sertões do Brasil", aborda o primeiro encontro entre Pataxós donos da terra "descoberta" e portugueses recém chegados a Bahia na frota de Pedro Álvares Cabral, segundo a famosa carta do escrivão Pero Vaz de Caminha ao rei de Portugal. Dez dias aparentemente felizes para as duas nações por acaso encontradas nas declaradas terras de Portugal no ultramar e que ainda viriam ser a Nova Lusitânia no novo mundo achado e por achar. 

Corria abril no ano de 1500 Cabral estava a caminho das Índias Orientais, posto que Colombo em 1492 havia chegado às Índias Ocidentais e para evitar a guerra entre as duas coroas em Tordesilhas (Espanha) assinaram o tratado de 1494, repartindo o mundo achado e por achar, mediante um meridiano de polo a polo, a 370 léguas a oeste de Cabo Verde. Juridicamente, para a civilizada Europa não existiam direitos para índios e negros selvagens considerados bichos: esta longa peleja dos direitos humanos universais precisou de duas grandes guerras mundiais e ainda está longe de findar nas próximas décadas do século corrente, tendo em vista os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU, até 2030.

Segundo Jaime Cortesão, com a teoria do segredo dos descobrimentos portugueses, fechado a sete chaves já se sabiam do Brasil na corte portuguesa: daí o sentido geopolítico da palavra "descobrimento" antecedido pelo indispensável "achamento": este criava expectativa de direito e aquele concretamente garantia o tal direito nos termos imperiais do século XVI na Europa. Não se podia descobrir o que não fosse antes achado e mantido em segredo.

Por isto, o cartógrafo do rei Duarte Pacheco Pereira foi mandado às raias do tratado de Tordesilhas, no ano de 1498, em viagem secreta ao grande rio Pará para medir as coordenadas geográficas da linha de limites entre as supostas posses de Espanha e Portugal. A linha de Tordesilhas passaria sobre Belém do Pará ao norte e Laguna (Santa Catarina) no Sul do Brasil. O piloto de Colombo, Vicente Yañez Pinzón, dois anos depois de Duarte Pacheco e meses antes de Cabral chegou à altura do Ceará e rumou para norte onde achou a foz do rio Santa Maria de La Mar Dulce (Amazonas) e assaltou a ilha de Marinatambalo (Marajó) levando daí os primeiros 36 "negros da terra" (escravos indígenas) para a ilha Hispaniola (Haiti e República Dominicana), onde os tainos escravizados garimpavam ouro a fim de servir à cobiça dos espanhóis e se revoltaram sob comando do bravo Hatuey -- o Primeiro Rebelde da América --, por voltas de 1515, para ir à ilha de Cuba dar a guerra de guerrilha aos conquistadores. 

Todos estes acontecimentos foram guardados por séculos até a independência das colônias... Antropólogos escreveram pilhas de livros explicando a religião dos tupinambás, porém os historiadores não parecem se perguntar até hoje o que de fato trouxe de tão longe até o Maranhão índios messiânicos da Yby Marãey (terra sem mal) para ter seu demiurgo Jurupari diabolizado pelos padres da França Equinocial. Estes historiadores esquecem de cogitar como seria a história ocidental se, por acaso, Cleópatra tivesse o nariz torto. E, no caso dos índios cabanos, que seria a Amazônia sem a utopia selvagem da Terra sem males?

Do ponto de vista nativo a história é outra... Mas, com o poderio técnico e econômico os reis da Europa davam ao mundo o império de seus ditames. Só a contradição da colonialidade deixaria filtrar na Babel a resistência ameríndia, como por exemplo a obra do frade dominicano Bartolomeu de Las Casas, primeiro bispo de Chiapas (México) sobre a destruição de povos e culturas indígenas das Américas. Na Amazônia, o payaçu dos índios padre Antonio Vieira, entre 1652 e 1661, em sermões e livros deixou testemunho da tragédia amazônica, que o historiador e linguista José Ribamar Bessa Freire descreve na obra fundamental Rio Babel: a história das línguas na Amazônia.

 O primeiro documento escrito da brasilidade pinta com tintas românticas um encontro primaveril entre lusos e brasílicos num paraíso tropical, onde os naturais viviam nus e orgulhosos sem esconder suas "vergonhas" (genitália). A coisa das índias era tão certa que, escreveu o escrivão da frota, que faria esquecer as raparigas de Europa. Ao contrário da cobiça de ouro hispânica na primeira notícia dada por Colombo aos Reis Católicos, Sua Majestade Fidelíssima foi servida em saber que no Brasil em se plantando tudo dá. Aqueles dez dias de Abril na carta do Descobrimento deveriam ser talvez o manifesto do país do Futuro... Mas, desde 1530, na América do Sul seja no Brasil ou Peru a tragédia foi posta com a escravidão dos índios e o saque das suas riquezas.

Foi assim, que no Pará ao primeiro eco distante do grito do Ipiranga os paraenses logo quiseram se separar de Portugal e imediatamente integrar o Grão-Pará ao Brasil independente. Quando os independentistas foram às ruas proclamar a Adesão o povo todo estava ligado ao mesmo sentimento. Todavia, no dia 14 de Abril de 1823 a força colonial portuguesa foi mais forte que os militantes paraenses que relutaram em derramar sangue e viram-se desarmados e presos. Foi quando o movimento independentista atravessou a baía e foi se rearticular na vila de Muaná, na ilha do Marajó, ali proclamada com solenidade a Adesão do Pará à Independência do Brasil, no dia 23 de Maio de 1823.


A força colonial portuguesa foi ao encalço dos nacionalistas e, cercando a pequena ilha de Muaná, onde se assentava a vila e hoje a histórica cidade da Adesão do Pará ao Brasil independente, deram fogo de combate recebida com igual intensidade pelos moradores. Afinal rendidos por falta de munição, todos presos e trazidos à capital encheram as cadeias e logo em juízo sumário todos, inclusive os presos de 14 de abril, foram condenados à pena de morte por rebeldia e traição ao rei de Portugal. O bispo do Pará dom Romualdo Coelho pediu pela vida dos prisioneiros e assim tiveram eles comutadas suas penas em prisão perpétua.

O mais trágico desta história neocolonial é que enquanto os independentistas paraenses de 14 de Abril estavam sendo levados presos para o horroroso cárcere de São Julião da Barra do Tejo, (Portugal) a bordo da nau Andorinha do Tejo, o mercenário inglês John Pascoe Greenfell com falsidade a mando de seu chefe militar Thomas Cockhane alugado a dom Pedro I, chegava ao Pará para executar sob ameaça de canhão a tal "adesão" que a elite até hoje festeja com o pífio feriado estadual de 15 de agosto.

Mas, que papelão, cara pálida! Se a Adesão do Pará estava, sim, de verdade e de fato manifesta e proclamada pelas lideranças patrióticas da província e o povo paraense apoiava inegavelmente esta decisão histórica. O agente imperial o que havia de realizar -- e de fato fez -- era intimar os chefes militares da colônia portuguesa a entregar as armas e se render ao Império brasileiro.

Até aí foi o que de fato aconteceu nas tratativas no Palácio do Governo (hoje Museu Histórico do Estado do Pará). Noves fora a farsa que dali em diante prevaleceu entre mercenários ingleses e coloniais portugueses para manter os patriotas paraenses afastados do governo da província antes de Portugal e ato contínuo do Brasil supostamente independente sob as asas tutelares da Inglaterra. 

No palácio e embarcações no porto já não tremulava mais o pavilhão luso, porém nada fazia notar a independência brasileira. À boca pequena circulam notícias vindas de Portugal por navios veleiros que havia mortos entre os prisioneiros paraenses em São Julião vítimas de um surto de bexiga (varíola). Uns diziam que isto sucedeu a bordo da nau Andorinha do Tejo, outros que aconteceu no cárcere. 

O povo do Grão-Pará (Amazônia) entre os séculos XVII -- quando a conquista e colonização teve início -- e XIX, até a Adesão; era basicamente indígena.  Quantos afinal de contas? Noves fora as guerras, as enormes fadigas dos "negros da terra" para sustentar seus senhores "brancos" (mamelucos em maior parte) e as pestes de bexiga, sarampo, gripe que mais matavam naquele tempo, sem esquecer a fome. Bessa Freire informa que antes do colonizador chegar à antiga terra dos Tapuias eram milhões de índios vivendo milhares de culturas diferentes e falando outras tantas línguas diversas. Não por acaso as aldeias das missões também se chamavam Redução onde a babel era reduzida à língua geral amazônica chamada Nheengatu (boa língua). A diversidade combatida pela Civilização ocidental cristã também foi reduzida a um termo negativo: Nheengaíba (língua ruim). A margem esquerda do grande Amazonas ("Calha Norte) era nheengaíba, aruaque, bárbara... Os brancos dependiam do "índio cristão" (tupinambá ou tapuia catequizado falante do nheengatu) para tudo. Não davam um passo sem ter ajuda de "índio manso". A grande barreira à conquista do rio das Amazonas (imaginárias ou icamiabas, cunhantã tecoyma reais) povoada de 'homens malvados' (marãyu, marajo) era a ilha grande dos Nheengaíbas (Marinatambalo, ilha dos Aruans, Joanes, Marajó, aliás Analau Yohynkaku ... em língua aruã.

Em 1652 o padre Antônio Vieira informava que o Pará havia pouco mais de cem moradores, fora os padres, índios e escravos... Ou seja, os habitantes brancos não chegavam a duas centenas. Os negros só tomaram vulto na população paraense depois da segunda metade do século XVIII, com o monopólio escravista da Companhia de Comércio e a suposta abolição do cativeiro dos índios e extinção dos mesmos, por decreto, no famigerado "Diretório dos Índios" (1757-1798): começa aí a caboclização oficial. Ou seja, lavagem cerebral dos índios e a mestiçagem quase compulsória, para não dizer estupro das mulheres indígenas, incentivada pela Coroa.


AOS POBRES DE PORTUGAL NA AMAZÔNIA


Não se compreende a invenção do Brasil sem a história de Portugal, isto é bem verdade. Porém, não se compreende completamente a história do Brasil -- o maior pais amazônico do mundo e também maior pais africano fora da África -- sem a invenção da Amazônia desde o Homo sapiens var. Tapuya da curiosa taxionomia de Alexandre Rodrigues Ferreira (apud "Viagem Philosophica" 1783-1792) de 10 mil anos de idade.

Sobre a arte primeva brasileira e primeira cultura complexa da Amazônia, criada aproximadamente no ano 400 da era cristã com a invenção da aldeia suspensa sobre teso e cerâmica marajoara; a ignorância e desmazelo das autoridades brasileiras federais, estaduais e municipais concernentes não tem mais desculpas, pelo menos, desde a edição em 2010 da obra Cultura Marajoara da arqueóloga brasileira Denise Pahl Shaan pela editora do Serviço Nacional do Comércio (SENAC), São Paulo. 

A fim de se descolonizar por completo e vencer a colonialidade que se enfia sorrateiramente na alma nacional, o Brasil do século XXI precisa mais que nunca do índio e do preto da sua ancestralidade pré-colonial. Sobretudo das atuais populações tradicionais -- Criaturada grande de Dalcídio, no dizer revolucionário da cronista Eneida de Moraes, o índio sutil chamado por Jorge Amado -- alma mater da brava gente brasileira.

Eis que o país do Futuro, gigante da América do Sul, antiga federação indígena do Arapari, constelação do Cruzeiro do Sul, deve sua civilização plural e multiétnica a muitos povos. Como pode no concerto das Nações Unidas esquecer as nações indígenas e povos originários africanos que muito contribuíram à nacionalidade brasileira? 

Nos compêndios oficiais quando se escreve sobre a conquista e criação do estado do Maranhão e Grão-Pará o leitor novato fica sem saber da memorável saga dos Tupinambás, os verdadeiros conquistadores do Maranhão e Grão-Pará (Amazônia)... Sobre os Timbiras mal se sabe além dos versos candoreiros de Gonçalves Dias, do Ceará sabemos de Iracema e Pery através do indigenismo romântico de José de Alencar; todas bocas da noite ouvíamos outrora O Guarany , do maestro Carlos Gomes, pela Voz do Brasil. Mas, não sabemos de verdade a história dos índios de Jaguaribe (Ceará), sem os quais não haveria o amasio do cristão-novo Martim Soares Moreno e da índia Paraguassu, filha do murubixaba Jacuúna. O cunhadismo inaugural que pariu a invenção da Amazônia.

Tomado o Maranhão aos franceses, o armador de navios Simão Estácio da Silveira escreveu um panfleto dedicado Aos Pobres de Portugal lhes prometendo no Maranhão o paraíso na terra... Por portugueses entenda-se açorianos e Maranhão queria dizer naquele tempo toda a enorme imaginação da Amazônia. Deu no que deu, com a revolta dos tupinambás e a primeira Cabanagem (1619), cujo genocídio foi maior que na segunda (1835-1840). 

Índios urbanos são cabanos? As vítimas do Diretório dos Índios foram chamados "caboclos' (caboco, caa bok, saídos do mato), moradores de palafitas ribeirinhas, os primeiros cabanos descendentes do índio Cabelo de Velha ocuparam a Campina e foram trabalhadores urbanos do sustento da Cidade do Pará (mais tarde Cidade Velha): brancos na Cidade, índios e cabocos na Campina... Começava assim o apartheid amazônico ao qual os negros da Guiné reforçaram a mão de obra dos negros da terra.

Quando se deu a invasão e ocupação de Caiena (1809-1817) a tropa paraense composta de tapuios, mulatos, brancaranas e cafuzos  trouxe, além do café furtado de 1723, os ideais republicanos e a notícia incendiária da revolução dos escravos de São Domingos (Haiti): era a semente da Cabanagem de 1835 regada pelo suor dos escravos dos canaviais do Guamá, Acará, Moju, Abaeté e Marajó; o sangue dos paraenses assassinados pelo mercenário inglês da "adesão" de 15 de agosto e lágrimas de mães, mulheres e irmãs dos mártires da Tragédia do brigue Palhaço...

Em 7 de janeiro de 1835, os cabanos invadiram a Cidade... Vieira, em carta de 11/02/1660 ao rei de Portugal, estimava em cerca de 20 mil o número de nheengaíbas vivendo nas ilhas dos ditos cujos. Dizia ser impossível vencê-los pelas armas no labirinto de sua fortaleza natural. Por isto propôs ele aos sete caciques nheengaíbas liderados por Piié dos Mapuá as pazes de 27 de Agosto de 1659 com os portugueses do Pará, que subentende naturalmente os Tupinambás inclusive pela presença deles na celebração na improvisada igreja do Santo Cristo de que fala o supracitado documento hoje fartamente divulgado pela internet.

Angelim no átrio da igreja de São João Batista, em Vila do Conde (antiga aldeia de Murtigura, redução de índios para escravos da Cidade) convocou para invasão de Belém os 'filhos de Ajuricaba e dos Ingaíbas [Nheengaíba]' e eles prontamente atenderam ao chamado. Eram cabocos que se indianizaram outra vez. Hoje a área metropolitana de Belém conta com cerca de 20 mil índios urbanos. Todos eles índios sutis que nem Dalcídio Jurandir, cabanos tal tal o cacique bandoleiro Guamá, cacique dos Aruã e Mexiana.

Há muito a procurar entre chuvas e esquecimentos para revelar ao nosso Brasil brasileiro sua verdadeira alma amazônica. 



quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

O Índio Marajoara como simbolo de resistência e brasilidade


uma imagem fala por cem discursos: em Brasília, líder indígena ergue a Constituição frente ao Congresso brasileiro e protestar contra a liquidação da FUNAI patrocinada pelo poder econômico do agronegócio e seus sócios estrangeiros para abocanhar terras e destruir as últimas culturas dos índios que resistem aos 500 anos de colonialismo.



TODO DIA É DIA DE ÍNDIO

Agradeço ao parente Miguel da Silva Guimarães convite para fazer uma fala sobre direitos humanos dos povos indígenas, em especial no que se refere aos índios que moram nas cidades longe da aldeia natal e separados da terra ancestral. Tema do primeiro seminário indígena de Belém do Pará, em organização, por acaso no curso dos 400 anos de fundação do Forte do Presépio pela aliança histórica de soldados portugueses e guerreiros tupinambás, ocorrida no dia 12 de janeiro de 1616 sob a bandeira ocasional da União Ibérica (1580-1640) nascida da morte de Dom Sebastião, em batalha no Marrocos, renascido por força da crença e tradição popular no Pará velho de guerra na figura do Rei Sabá, em São João de Pirabas.

Dizem os brancos da Data Magna de 15 de agosto (dia da mentira imperial que pariu a revolta dos Cabanos no Pará) que os índios do Marajó foram todos eles extintos e convertidos em civilizados a mando do famigerado Marquês de Pombal no prepotente "Diretório dos Índios" (1757-1798), ledo engano! Cabanos são índios urbanos.

Na verdade, os cabocos tirados do mato somos índios com amnésia, de baixa resistência cultural e política à colonialidade, acometidos que fomos de estranho mal de Alzheimer coletivo. Extraídos do limbo metafísico pelos padres e as tropas de resgate (caçadores de escravos) com as drogas do sertão para ser deixados à margem da História junto a pretos cativos e brancos quase pretos de tão pobres junto à massa desguiada do lumpemproletariado amazônico.  Criaturada grande do índio sutil chamado Dalcídio Jurandir, que aliás era filho de branco com preta.

Felizmente, apesar do roubo de terras dos Nheengaíbas (nuaruaques ou marajoaras) no Marajó e adjacências inclusive a capital do Pará há a resistência de uns poucos índios urbanos de alma preta, como este nheengaíba velho que vos fala; curiosos em saber quem estragou o mundo e talvez achar remédio para os males desta terra. Onde um dia nossos antepassados caraíbas mataram e morreram em busca da Yby Mãraey, lugar sagrado no qual não existe fome, trabalho escravo, doença, velhice e morte. Utopia mãe de todas utopias da Terra... E assim inventaram a Amazônia que resta a ser reconquistada numa nova aliança aureolada pelos Direitos Humanos e o Meio Ambiente dito sustentável através da qual a Terra sem mal para todos há de ser alcançada, degrau por degrau, para frente e para o alto pela espiral evolutiva da humanidade toda inteira.

É claro que descendentes de índios e negros devem ter os mesmos direitos dos filhos dos colonizadores. Estes últimos jamais poderiam se estabelecer na antiga terra dos Tapuias sem ajuda voluntária ou escravização dos nativos, ainda que a preço de genocídio para roubar a terra dos índios; como prova a escravidão dos negros importados como besta de trabalho a fim de suprir o trabalho indígena esgotado pelas doenças da civilização, guerras de conquista e fadigas da escravidão de "negros da terra".  

A gente deve saber que os primeiros "negros da terra" (escravos indígenas) foram arrancados da ilha do Marajó pelo espanhol Vicente Pinzon, no ano de 1500, antes do "descobrimento do Brasil"... E que dez anos depois, pouco mais, da ilha Hespaniola (Haiti e República Dominicana) para onde os marajoaras foram levados se levantou o parente Hatuey, cacique dos Tainos, contra os conquistadores levando seus querreiros à ilha de Cuba onde deu-se a primeira guerra de guerrilhas das Américas. Os tainos quase extintos hoje como os marajoaras fazem parte do grande povo Aruak que surgiu no Rio Negro e espalhou-se no circum Caribe até o Alto Amazonas e o Pantanal, aqui com os Terena, por exemplo.

Fato curioso, a morte de Hatuey por traição queimado vivo amarrado a um poste, deu lugar dez anos depois a um novo cacique guerrilheiro chamado Guamá... Em Cuba este rebelde é lembrado como nome de um bairro e um parque ecológico. No Pará o rio Guamá, segundo o geógrafo e demarcador Armando Levy Cardoso na obra Toponia Brasílica, deve seu nome ao cacique Guamá ou Guamã, cacique dos Aruãs e Mexianas do Marajó; em luta continuada contra os portugueses, já nos inícios do século XVIII, cuja história está ligada à tropa de guarda costa comandanda por Francisco Palheta que na incursão ao cacique bandoleiro Guamá trouxe o café furtado de Caiena. Ou seja, o Brasil imperial deve aos índios até o furto do café da colônia francesa da Guiana, que passou pelo Pará e foi gerar a riqueza dos barões bandeirantes mata bugres em São Paulo.

O Brasil precisa saber que sem arcos e remos tupi não se poderia conquistar o Maranhão e o Grão-Pará, sem sangue, suor e lágrimas tapuias não se romperia nunca a "linha" de Tordesilhas e nem se poderia conservar o território duramente conquistado até a adesão do Pará à independência do Brasil. Portanto, hoje não existiria uma determinada Amazônia Brasileira... Sequer a Cabanagem de 1835 teria sido possível sem a rebeldia e as armas dos "filhos de Ajuricaba e dos Ingaíbas" [Nheengaíbas, marajoaras] convocados ao comando do lavrador cearense Eduardo Angelim contra a opressão imperial. Ademais, os Tupinambás levados à França deram a ideia da Revolução Francesa, segundo os filósofos Montaine e Rousseau. Quando Dom João VI mandou invadir a Guiana francesa para se prevenir de possível ataque de Napoleão ao Pará os oficiais ingleses e portugueses não tiveram outro remédio se não recrutar paraenses para a tropa. E já se sabe que eram soldados mestiços, negros e índios que ao regressar depois da ocupação (1809-1817) trouxeram a subversão do Haiti contra a escravatura com a República. Daí o fermento caribenho no país que se chama Pará deu a Cabanagem. 

E já se sabe que índios urbanos são cabanos...

O parente Miguel é um cabano de etnia Tembé, povo do Alto Guamá remanescente da grande nação Tupinambá que, no século XVII, aliada aos portugueses do Maranhão e Grão-Pará conquistou a antiga terra dos Tapuias, vulgo Amazônia. Como todo índio, nem sob tortura o parente Miguel não revelaria seu nome original dado pelo próprio Nhanderu, através do saber do pajé em cerimônia restrita aos pais do curumim e seus parentes mais idosos da aldeia.  A multiétnica Cultura Brasileira não estará completa enquanto não reconhecer, integrar e desenvolver a herança ameríndia original.

Já se sabe que a palavra "índio" é imposição da colonialidade importada do velho mundo pelo tal de Cristóvão Colombo, que não descobriu coisa nenhuma além do roubo, massacre e destruição das chamadas Índias Ocidentais... Na verdade, dizem historiadores ultimamente, o "descobridor" da América (de Americ, país do vento em língua maya, referente à região montanhosa próxima ao lago Nicarágua; nada a ver com Amerigo Vespucci) foi batizado Salvador Fernandes Zarco, português de nascimento, na vila de Cuba, no Alentejo. O nome da ilha rebelde do Caribe ficou sendo Cuba em recordação da vila de Portugal onde o espião de Dom João III na corte de Castela nasceu. Para ver que essa história de nomes supostos ou verdadeiros vai longe e enrola na volta do tempo. Um erro ou mentira repetida muitas vezes acaba passando por verdade... Portanto, os brasileiros índios ou não já deveriam saber que a colonialidade é pior que o colonialismo.

Quem me conhece sabe o quanto sou orgulhoso do quartilho de sangue indígena marajoara que corre em minhas veias, por parte de minha avó de lado paterno Antonia da Silva, nativa da aldeia da Mangabeira (Ponta de Pedras). Sem renegar o lado materno galego, tenho lutado para resgatar as origens que afinal de contas para todo ser humano vem de fontes de grande antiguidade na África ancestral.

Quando os dois bispos católicos do Marajó, em março de 1999, decidiram denunciar a miséria do IDH da gente marajoara, apesar de eu não ser praticante de nenhuma religião, nem achar que padres e pastores juntos não tem nenhuma parcela de responsabilidade no crime de lesa humanidade cometido contra índios e negros deste país contribuindo à alienação de suas riquezas materiais, culturais e espirituais; não hesitei em aceitar o honroso encargo de apresentação do documento eclesial chamando atenção para o estado de necessidade daquele povo de origem indígena notável. 

O documento conjunto da Diocese de Ponta de Pedras e Prelazia do Marajó de 1999 veio a ser base da demanda popular à Presidência da República por intermédio da mesma igreja, que resultou na instalação do Grupo Executivo Interministerial de Acompanhamento de políticas públicas no Arquipélago do Marajó (GEI Marajó), em 2006, destinado a tomar providências urgentes contra a malária, obras de infraestrutura de emergência e elaboração do Plano de Desenvolvimento Territorial Sustentável do Arquipélago do Marajó (PLANO MARAJÓ) lançado com solenidade e circunstância pelo Presidente Lula e a Governadora Ana Júlia, na cidade de Breves, em 2007. Imediatamente, o Plano trazia em seu bojo o Projeto Nossa Várzea de regularização fundiária de terras de marinha, uma ação a cargo da Secretaria do Patrimônio da União (SPU) que atualmente beneficia algo em torno de cinquenta mil famílias ribeirinhas. No ano seguinte, 2008, o dito Plano integrou também o programa federal Territórios da Cidadania - Marajó, e mal ou bem vai mantendo acesa a chama da esperança dessa gente antigamente espoliada.

Em conversas particulares com meu saudoso camarada Neuton Miranda, inclusive em viagens ao Marajó para entrega de Título de Autorização de Uso (TAU), ouvi dele a verdade de que dentre as grandes carências das populações tradicionais; a FUNAI cuida dos indígenas e a Fundação Palmares dedica-se aos quilombolas e comunidades afrodescendentes. Porém, os cabocos ribeirinhos e outras gentes podendo ser vistas como novas etnias restam ao deus dará. A regularização fundiária para esta gente vem a ser o primeiro passo indispensável, mas não suficiente.

Foi assim que me tornei voluntário na força-tarefa da SPU-PA para início do Nossa Várzea no Marajó. Que tarefa tinha eu para fazer na força-tarefa? Uma breve fala à equipe lhes dizendo um pouco das peculiaridades operacionais que iam encontrar nas paragens marajoaras. Sobretudo usos e costumes daquela gente em maioria analfabeta de pai e mãe, a servidão da gleba, o clientelismo e todos mais vícios de uma tão longa espoliação desde o tempo da pacificação dos Nheengaíbas rebeldes, na segunda metade do século XVII até o Diretório dos Índios (1757-1798): não foi fácil tirar o índio do mato para inventar o caboco...

Numa daquelas reuniões preliminares para elaboração do tal PLANO MARAJÓ o vigilante bispo dom Luís Azcona deu-se conta de que uma certa Terra Indígena figurava na mesorregião Marajó e ninguém sabia informar onde ela, exatamente, se localizava. Ele, então, em alta voz se dirigiu a mim indagando se por acaso ainda existiam índios no Marajó... Sem pestanejar lhe respondi positivamente: "Sim, senhor; existem índios no Marajó mas eles próprios não sabem" [que são índios]..... Nada mais disse nem me foi perguntado. Tive impressão, entretanto, de ter revelado um segredo de Polichinelo que o grave silêncio dos presentes detesta escutar. Antes em outras oportunidades eu já tivera ocasião de dizer que o célebre caboco é índio com amnésia. Sobretudo aqueles mais saliente que se vangloriam de ser "caboclos"... Diz-que, índios não haviam F (fé), L (lei) e R (rei) em suas milhares de línguas nativas antes de ser cristãmente catequizados.

Uma deliciosa anedota pronta, então, me sucedeu quando fui a São Sebastião da Boa Vista participar de reunião preliminar à audiência pública para aprovação do PLANO MARAJÓ. Falei tudo que tinha direito, por mais de meia hora, no fim diante da plateia atenta perguntei. Querem fazer alguma pergunta? Um breve silêncio se estabeleceu e por fim uma senhora sentada à primeira fila, indagou: O senhor é parente do doutor Dráuziu Varella? Terminei minha fala dizendo ser neto de índia marajoara. Duas mocinhas cujas feições não renegariam a origem indígena riram e uma delas disse a outra, "com esta cara, hen mana!"... Cara pálida, melhor dizendo. Mas as duas simpáticas tapuias cor de jenipapo gostariam de saber que seus antepassados foram índios? Espero que sim.

Alguma vez na aldeia da Mangabeira (Ponta de Pedras) onde minha avó Antônia nasceu, num fim de tarde na beira da baía tomando cerveja com parentes dei a lição de sempre para levantar o orgulho do índio marajoara que reside em nossa alma panema. À altura da terceira garrafa, disse-me um parente chateado da conversa: "Zé, tempo de índio já acabou. Agora somos todos civilizados"... Taticamente, enfiei a viola no saco: nunca se sabe o que um 'caboclo' pode fazer quando fica possesso.

É preciso concertar nossas raízes e reavivar esperanças na braçagem de uma paz vermelha e contraditória como a própria vida, negra como a primeira noite do mundo; misteriosa que nem a morte e renascença no Kuarup sem fim. Acredito, a primeira tarefa do indivíduo que deseja se achar no mundo é descobrir que todos somos diversos e únicos ao mesmo tempo. 

A vida é perpétua evolução. Isto é, dança da Mãe natureza no seio da qual todos somos irmãos: seres humanos parentes de plantas e bichos naturais ou encantados. Filhos da estrela Guaraci (Sol), mãe dos viventes... Jaci (Lua), nossa mãe também... Índios são pós-doutores na universidade da via.

No fim da passagem deste mundo, na verdade, atravessamos a fronteira entre a dura realidade da vida e o sonho da Terra sem males procurada: já não haverá mais fome, escravidão, doença, velhice e morte... Quem conquistar a utopia selvagem da Yby Mãraey não morrerá, mas ficará encantado junto às estrelas do infinito. Eu sei por que vi no alto céu estrelas faiscando e um mestre índio me guiando na leitura daquele livro aberto na amplidão, onde com as tintas da memória se escreveram os nomes dos heróis naquele panteão indestrutível.

Os velhos parentes sábios, antes dos brancos chegar; já sabiam destas coisas que agora os jovens carecem descobrir agarrando-se às crinas do vento com grande força de vontade e determinação na luta contra o império da maldade e do esquecimento.




POR QUE MARAJÓ?
  
1 - Porque a "ilha" do Marajó guarda a ancestralidade da ecocivilização amazônica e a Arte primeva brasileira. 

2 - Porque no Golfão Marajoara, cinco mil anos de humanidade no maior arquipélago de rio e mar do planeta; acusam nossa ignorância da destruição das Índias Ocidentais: testemunho mudo de mais de mil anos de ruína da arte e religião dos antigos marajoaras nos tesos (sítios arqueológicos que foram aldeias suspensas sobre campos alagados), que humildemente diante da vaidosa monumentalidade de grandes museus nacionais e estrangeiros detentores de Cerâmica Marajoara, o Museu do Marajó insiste ainda diante da indiferença do governo da República Federativa em abrir aos olhos do povo àquilo que é seu por direito hereditário.

3 - Porque Marajó é portal físico e imaginário do maior rio da Terra, elo ecocultural entre a Amazônia azul com o conhecimento profundo das populações tradicionais costeiras e a Amazônia verde antigamente habitada pelo homem amazônico de mais de dez mil anos de idade falando mil e tantas línguas. criando e praticando outras tantas culturais locais.

4 - Porque no Novo Mundo a ilha-símbolo da amazonidade original abre novas páginas de velhas civilizações que um dia, no passado longínquo, da África profunda percorreram o Nilo ancestral para desaguar no mar Mediterrâneo antes de mitos e lendas da Antiguidade atravessar o Atlântico para inventar o rio Babel ou das Amazonas.

5 - Porque sem a fecunda paz entre índios marajoaras e tupinambás o Grão-Pará não poderia se estabelecer. Quanto mais evitar as invasões estrangeiras que suportou, por mais de quarenta anos de bárbaras batalhas, desde a tomada do Maranhão: sem o acordo do rio Mapuá desconsiderado pelo rei de Portugal (carta do pe. Antonio Vieira, de 11/02/1660) em prejuízo dos índios do Marajó com a doação da capitania da Ilha Grande de Joanes (1665), a viagem de Pedro Teixeira de Belém a Quito (1637-1639) teria sido em vão, apesar do hercúleo feito de 1.200 índios tupinambás de arco e remo comandados pelo mameluco Bento de Oliveira, não seria hoje mais que uma curiosidade histórica. Em vez do primeiro passo dos direitos territoriais de Portugal na região amazônica (tratado de Madi de 1750) transferidos ao império do Brasil, em 1823, pela vontade política da brava gente brasileira junta e misturada.

6 - Porque agora a inclusão socioambiental desta gente despossuída outrora, passa pela reconquista da Memória. Deste modo, índios urbanos são cabanos em busca da Cidadania sonegada - urge indianizar os cabocos desta terra devastada.

7 - Porque no Marajó por mátria e fátria ancestral, a cobra grande com o ovo na boca do grande rio; o Índio imortal há sempre de ser guardião do país do Cruzeiro do Sul, Brasil brasileiro país do futuro que não trairá nem esquecerá jamais o longo passado pré-americano. 

domingo, 21 de fevereiro de 2016

ilhas do mundo, DIA DE ALFREDO: o "bloomsday" da Amazônia

Dalcídio Jurandir
(Ponta de Pedras, 10/01/1909 - Rio de Janeiro, 16/06/1979)








LEI Nº 9.164 DE 18 DE DEZEMBRO DE 2015. 

Institui o Dia de Alfredo (data de falecimento do escritor Dalcídio Jurandir) no Calendário Municipal, e dá outras providências. 

O PREFEITO MUNICIPAL DE BELÉM, Faço saber que a CÂMARA MUNICIPAL DE BELÉM, estatui e eu sanciono a seguinte Lei: 

 Art. 1º Fica instituído o dia 16 de junho como o “Dia de Alfredo”, data de falecimento do escritor e romancista Dalcídio Jurandir. 

Art. 2º Esta Lei entra em vigor na data da sua publicação. 

PALÁCIO ANTONIO LEMOS, 18 DE DEZEMBRO DE 2015 

ZENALDO RODRIGUES COUTINHO JÚNIOR 
Prefeito Municipal de Belém





Atores caracterizados como personagens de Ulisses, durante o Bloomsday, em Dublin.
A partir de 16 de junho de 2016, na Amazônia, Belém do Pará terá também a chance
de festejar o personagem de "Belém do Grão-Pará" - no DIA DE ALFREDO - lembrando
as aproximações literárias entre Dalcídio Jurandir e James Joyce.





CONEXÃO GEOCULTURAL PELO TURISMO LITERÁRIO



Graças à lúcida iniciativa do jovem vereador Moa Moraes, atendendo à aspiração do distinto leitorado de Dalcídio Jurandir manifestado durante seu Centenário de nascimento (2009), doravante a cidade de Belém do Pará todos anos terá o Dia de Alfredo oficial, a par do famoso Bloomsday de Dublin (Irlanda), comemorado em 16 de junho. 

Ótima oportunidade para intensificar o turismo literário firmando-o como arauto da cultura amazônica junto à peculiar gastronomia regional, manifestações religiosas tradicionais como Círio de Nazaré e, sem dúvida, desencantar a Criaturada grande de Dalcídio (populações tradicionais), de direito e de fato, como cidadã brasileira e do mundo na paisagem cultural do Ver O Peso e Ilhas do golfão marajoara. Dispensado repetir que o 'índio sutil" (tal qual Jorge Amado chamou a seu companheiro amigo Dalcídio Jurandir) é porta-voz da milenar Cultura Marajoara, portadora da arte primeva do Brasil espalhada em, aproximadamente, dez grandes museus no mundo. Desgraçadamente, autoridades e promotores brasileiras não dão demonstração de saber estas coisas. Belém agora irá tocar sinos e soltar rojões para despertar o Brasil a respeito da Criaturada à margem da história? 2030 está no horizonte planetário como meta da ONU para virar o jogo da exclusão socioambiental.

O Bloom's Day na Irlanda é o dia instituído para homenagear o personagem Leopold Bloom, protagonista do célebre romance Ulisses, de James Joyce. Até 18 de dezembro de 2015 quando a cidade de Belém do Pará tornou lei o Dia de Alfredo, em todo o mundo o Bloom's Day era o único dia dedicado a personagem de um livro. Agora a literatura amazônica com seu notório atrativo turístico se coloca para dialogar com a cultura irlandesa. Admiradores de James Joyce não se interessariam em vir a Amazônia ver esta invenção?

A Amazônia continua misteriosa e desconhecida, apesar do tanto que dela se fala no mundo todo e as mais diversas críticas sobre o Brasil a respeito da floresta amazônica e dos povos das águas e da floresta. O personagem Alfredo - alterego do romancista Dalcídio Jurandir - ao longo de nove dos onze romances que o autor escreveu faz uma odisseia viajando pelas ilhas do maior arquipélago de rio mar do planeta e a cidade grande de Belém. O Bloomsday é comemorado na Irlanda pelos amantes da literatura com diversos eventos oficiais e não oficiais. Também é comemorado todos os anos em vários lugares e países em várias línguas. 

Em comum, entre dedicados entusiastas e simpatizantes de James Joyce envolvidos nas comemorações, há atividades para lembrar acontecimentos vividos pelos personagens de Ulisses nas ruas de Dublin. Ulisses narra acontecimentos vividos pelo personagem Leopold Bloom durante o dia 16 de Junho de 1904. Por rara coincidência, no dia de Bloom de 1979, falecia na cidade do Rio de Janeiro o romancista Dalcídio Jurandir nascido na vila de Ponta de Pedras, ilha do Marajó, a 10 de janeiro de 1909... Dalcídio é o único romancista amazônida. até hoje, distinguido pelo Prêmio Machado de Assis (1972), da Academia Brasileira de Letras (ABL). 

Joyce estabelece uma série de correspondências com a Odisseia de Homero entre personagens e acontecimentos. Ulisses de Joice é considerado um marco da literatura contemporânea. Por sua vez, apesar de mal editado e pior divulgado ainda, o ciclo Extremo Norte de Dalcidio Jurandir fazendo parte da geração modernista brasileira de 1930, coloca a Amazônia no panorama do romance moderno. Segundo Vicente Salles, o romance Marajó considerado o primeiro romance sociológico brasileiro tem raízes no romance medieval ibérico Dona Silvana. Com exceção da edição portuguesa do romance Belém do Grão-Pará, prefaciada pelo escritor Ferreira de Castro, não há tradução da obra dalcidiana no exterior, exceto as edições russa e chinesa do romance proletário Linha do Parque, com tema do Rio Grande do Sul.

Há controvérsia sobre o ano em que o Bloomsday começou a ser comemorado. Alguns indicam 1925 três anos após o lançamento do livro; outros afirmam que foi na década de 1940, logo após a morte de Joyce, enquanto a hipótese mais aceita indica 1954, data do quinquagésimo aniversário do dia retratado em Ulisses. Hoje o Bloomsday é uma efeméride do calendário cultural de vários países, inclusive Brasil; e não se restringe ao círculo de leitores da obra, servindo evidentemente a produtos de turismo literário, que como se sabe é segmento socioeconômico formador de destinos turísticos consagrados.

O Dia de Alfredo - na sequência das comemorações dos 400 anos de Belém da Amazônia - 37 anos depois da morte de Dalcídio Jurandir e 7 anos após o Centenário de nascimento do escritor marajoara, quando foi cogitada a ideia do mesmo; vem se somar aos títulos de reconhecimento da Academia do Peixe Frito no patrimônio cultural imaterial da cidade de Belém; o Círio de Nazaré e a gastronomia paraense protegidos pela UNESCO. A configuração do turismo literário na rota turística Belém-Marajó, então, se impõe: longo caminho gestado, finalmente em 1939, na vila de pescadores de Salvaterra a cabo da odisseia do romancista marajoara pelas ilhas e a cidade grande com o palimpsesto manuscrito do romance seminal Chove nos campos de Cachoeira, na bagagem; publicado em 1941 após odisseia literária iniciada cerca de 1929. Um bem notável na expressão geográfica de Belém do Pará.

domingo, 14 de fevereiro de 2016

A FACE OCULTA DO VER O PESO





Vão destruir o Ver-o-Peso
Pra construir um Shopping Center
Vão derrubar o Palacete Pinho
Pra fazer um Condomínio
Coitada da Cidade Velha,
que foi vendida pra Hollywood,
pra se usada como albergue
no novo filme do Spielberg

Quem quiser venha ver...


(Belém Pará Brasil / Mosaico de Ravena).




Lá pelos anos 60 escrevi no "Jornal do Dia" uma série de crônicas intituladas "A face oculta do Ver O Peso" que era um tipo de folhetim da cidade morena na ingênua tentativa de imitar Nelson Rodrigues na célebre "A vida como a vida é" reproduzida todos dias nos principais jornais do país. Eu era apenas um rapaz marajoara querendo se dar bem na cidade grande de Belém.

Havia e há ainda o outro lado do Ver O Peso que vem da margem oposta e terceira margem do rio, com sua encantaria, histórias mil, entre frutas e ervas, peixes e carne verde junto a dramas e comédias de outras gentes distantes. As quais estando às vezes na feira ou no mercado ou lá atrás da cortina ribeirinha das ilhas são como invisíveis aos olhos da cidade. Parece mentira para quem não me conhece de verdade. Mas eu sei o que é necessidade de passar a noite em riba de tolda de igarité chapada de açaí na Doca, embrulhado na vela encharcada de chuva depois de esperar maré para atravessar. Atravessador, assim se chamava a quem vinha de canoa vender os gêneros da terra na cidade. Praticar a marretagem na feira por falta de emprego fixo. Todas aquelas misérias, esperanças e pequenas alegrias que vem de longe tentar a sorte na feira da beira da baía do Guajará.

Minha avó era índia da aldeia da Mangabeira (Ponta de Pedras), se chamava Antônia de batismo. Ela morreu de parto de gêmeos dos quais só meu pai sobreviveu e meu avô Alfredo deu nome a ele de Rodolpho Antonio, para lembrar o padrinho alemão e a índia falecida. Então, sua irmã mais velha, Sophia; foi a mãe de criação de meu pai e para mim a avó postiça que me ensinou muitas histórias. O Ver O Peso morava no Itaguari (Ponta de Pedras) como também em Muaná, Abaeté, Cachoeira, Barcarena e tantos outros lugares destas eiras e beiras dos arredores da Cidade.

Minha avó Sophia dizendo que a avó dela, paresque, diversas vezes veio a Belém e saltou na Praia com maré seca pisando estiva de troncos de miritizeiro. A velha quando queria dizer que uma coisa era muito antiga, diz-que, falava assim: "do tempo da vela de jupati"... Como assim, vela de jupati? Pois é verdade. Antes de fazerem velas de canoa em tecido de algodão os "nossos" índios navegaram rio e mar levados por maré e vento com a antiga vela quadrada feita como sanefa (veneziana) de ripas de jupati...

Essa gente que o mundo esqueceu hoje tem muitos descendentes trabalhando ainda no Ver O Peso, nas geleiras, ralando mandioca para o pato no tucupi do Círio, pescando e fritando o peixe nosso de cada dia, 'apanhando', 'batendo' e servindo açaí. Na Pedra a vender pescado "fresco" pitiú; prestes a ir aos urubus, à margem da fiscalização e outras mercadorias fora da lei. Sim, é verdade, perdemos a memória. O mal de Alzheimer coletivo nos pegou feio...

Por isto, os nobres representantes que nada sabem deste povo, para dizer a verdade só podem falar do imaginário. "Modernizar" a invenção dos 400 danos... Prometer o reino da lua, tapar o vento geral e esconder o sol; vender ar refrigerado para vencer o calor e lâmpadas elétricas dia e noite para alumiar as ideias.

São Benedito da Praia, valei-nos!

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

A MULHER VESTIDA DE SOL COM OS PÉS SOBRE OS CORNOS DA LUA

guadalupe_changes
estampa original sincrética da Virgem de Guadalupe e retocada (México).




Que mistério tem a Mulher nesta vida nossa?
Eterno feminino mãe de todos viventes.
Será que a amazonidade do gigante Brasil
e do vasto mundo revelará o profundo
Mistério da primeira noite do mundo,
nigredo liberado do Medo pânico
que habita o inconsciente de gentes e bichos?

Enigma encerrado nas fontes do Nilo na Etiópia
onde a civilização nasceu antes dos faraós
ou no fundo do rio das Amazonas importadas
do lendário Mar Negro para ocupar o Rio Babel
dentro de um caroço de tucumã pequeninho
onde se aninham mitos e lendas da Criação
fruto dourado de uma palmeira espinhosa Astrocarium?

Parto da primeira manhã após o Fim do Mundo
a física quântica não poderá desdenhar
da inventiva dos pajés e profetas da idade da pedra. 
A filha da cobragrande Boiúna ia se casar...
Casar com quem, seu Raimundo?
Só podia ser com o Homem 
da beira do rio de Heráclito...
A tal moça era a Cultura ribeirinha portanto
(o resto da história já se sabe).

Até que no dia 12 de fevereiro nasceu
nas ilhas Britânicas no seio de nobre família
temente a Deus
um menino batizado com nome Carlos
fadado a provocar a morte de Zeus
e de todos deuses filhos seus: pobre Darwin!
Nas Galápagos distantes esperado pelo acaso
há milhões de anos através do arco das gerações
da Real Sociedade...
Vinte anos temendo dar a tremenda notícia.
Para o bem e o mal um certo Wallace em viagem
na Amazônia libertaria Darwin de seu dilema.
Nietzsche um tanto atrasado não hesitou porém
em largar a bomba: "Deus está morto!".

Coitado do finado Nietzche morto e sepultado
sob triunfo monumental não sei de que quantas
Igrejas, seitas e cultos religiosos...
Na Amazônia o diabo da aculturação
trouxe de Paris
a noite de São Bartolomeu na bagagem medieval
dos frades franciscanos da missão da França
equinocial
quando o espírito Jurupari do bom selvagem
Tupinambá serviu de bode expiatório
à destruição das Índias Ocidentais
pelos bons cristãos.
Cortez tocou fogo no México e Pizarro arruinou
os Incas no Peru:
tudo em nome de Deus e de El-Rey.

Cruz credo! Constantino não me deixa mentir
Santa Helena em peregrinação à Terra Santa
em busca da vera Cruz e do Presépio
Santa Maria e todas aquelas mulheres da Galileia
a alimentar a maior revolução da Terra.
Maria de Nazaré poderia ser matriarca
do primeiro cristianismo de Jesus Cristo
se os patriarcas estivessem mais atentos
à língua "morta" que o Rabi falou no Sermão da Montanha.

Homens fazem a guerra, Mulheres preparam a paz.
Quando a peste devastou Roma o papa
pediu ao filho do Homem a salvação do povo
por intermédio da Virgem do Apocalípse,
que socorreu os cristãos de Hispania
numa gruta de montanha no Rio dos Lobos,
frente à invasão dos Mouros,
já sob invocação de Nossa Senhora
De Guadalupe
Isto é Virgem do rio dos lobos...

Que chegou em Cuba a socorrer os filhos seus
assassinados e decepados por lobos da cristandade
a fim de alimentar cães danados
trazidos do velho continente para aperrear os índios
no Novo Mundo.
De Cuba ao México foi breve escala da Mãe de Deus
que nem hoje o Papa para abraçar o Patriarca ortodoxo,
onde a Mulher vestida de sol assumiu antigo lugar
da deusa asteca do lago da Lua.

Mas que a teoria da Evolução tem a ver com isto?
Talvez o padre Chardin pudesse responder
Se não estivesse morto
depois de ser obrigado ao silêncio pelo Santo Ofício.
A genética mãe da biologia terá parido a memória
Mãe da história e avó do Livro sagrado
(o resto já se sabe).

cultura marajoara


cultura asteca