quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

O Índio Marajoara como simbolo de resistência e brasilidade


uma imagem fala por cem discursos: em Brasília, líder indígena ergue a Constituição frente ao Congresso brasileiro e protestar contra a liquidação da FUNAI patrocinada pelo poder econômico do agronegócio e seus sócios estrangeiros para abocanhar terras e destruir as últimas culturas dos índios que resistem aos 500 anos de colonialismo.



TODO DIA É DIA DE ÍNDIO

Agradeço ao parente Miguel da Silva Guimarães convite para fazer uma fala sobre direitos humanos dos povos indígenas, em especial no que se refere aos índios que moram nas cidades longe da aldeia natal e separados da terra ancestral. Tema do primeiro seminário indígena de Belém do Pará, em organização, por acaso no curso dos 400 anos de fundação do Forte do Presépio pela aliança histórica de soldados portugueses e guerreiros tupinambás, ocorrida no dia 12 de janeiro de 1616 sob a bandeira ocasional da União Ibérica (1580-1640) nascida da morte de Dom Sebastião, em batalha no Marrocos, renascido por força da crença e tradição popular no Pará velho de guerra na figura do Rei Sabá, em São João de Pirabas.

Dizem os brancos da Data Magna de 15 de agosto (dia da mentira imperial que pariu a revolta dos Cabanos no Pará) que os índios do Marajó foram todos eles extintos e convertidos em civilizados a mando do famigerado Marquês de Pombal no prepotente "Diretório dos Índios" (1757-1798), ledo engano! Cabanos são índios urbanos.

Na verdade, os cabocos tirados do mato somos índios com amnésia, de baixa resistência cultural e política à colonialidade, acometidos que fomos de estranho mal de Alzheimer coletivo. Extraídos do limbo metafísico pelos padres e as tropas de resgate (caçadores de escravos) com as drogas do sertão para ser deixados à margem da História junto a pretos cativos e brancos quase pretos de tão pobres junto à massa desguiada do lumpemproletariado amazônico.  Criaturada grande do índio sutil chamado Dalcídio Jurandir, que aliás era filho de branco com preta.

Felizmente, apesar do roubo de terras dos Nheengaíbas (nuaruaques ou marajoaras) no Marajó e adjacências inclusive a capital do Pará há a resistência de uns poucos índios urbanos de alma preta, como este nheengaíba velho que vos fala; curiosos em saber quem estragou o mundo e talvez achar remédio para os males desta terra. Onde um dia nossos antepassados caraíbas mataram e morreram em busca da Yby Mãraey, lugar sagrado no qual não existe fome, trabalho escravo, doença, velhice e morte. Utopia mãe de todas utopias da Terra... E assim inventaram a Amazônia que resta a ser reconquistada numa nova aliança aureolada pelos Direitos Humanos e o Meio Ambiente dito sustentável através da qual a Terra sem mal para todos há de ser alcançada, degrau por degrau, para frente e para o alto pela espiral evolutiva da humanidade toda inteira.

É claro que descendentes de índios e negros devem ter os mesmos direitos dos filhos dos colonizadores. Estes últimos jamais poderiam se estabelecer na antiga terra dos Tapuias sem ajuda voluntária ou escravização dos nativos, ainda que a preço de genocídio para roubar a terra dos índios; como prova a escravidão dos negros importados como besta de trabalho a fim de suprir o trabalho indígena esgotado pelas doenças da civilização, guerras de conquista e fadigas da escravidão de "negros da terra".  

A gente deve saber que os primeiros "negros da terra" (escravos indígenas) foram arrancados da ilha do Marajó pelo espanhol Vicente Pinzon, no ano de 1500, antes do "descobrimento do Brasil"... E que dez anos depois, pouco mais, da ilha Hespaniola (Haiti e República Dominicana) para onde os marajoaras foram levados se levantou o parente Hatuey, cacique dos Tainos, contra os conquistadores levando seus querreiros à ilha de Cuba onde deu-se a primeira guerra de guerrilhas das Américas. Os tainos quase extintos hoje como os marajoaras fazem parte do grande povo Aruak que surgiu no Rio Negro e espalhou-se no circum Caribe até o Alto Amazonas e o Pantanal, aqui com os Terena, por exemplo.

Fato curioso, a morte de Hatuey por traição queimado vivo amarrado a um poste, deu lugar dez anos depois a um novo cacique guerrilheiro chamado Guamá... Em Cuba este rebelde é lembrado como nome de um bairro e um parque ecológico. No Pará o rio Guamá, segundo o geógrafo e demarcador Armando Levy Cardoso na obra Toponia Brasílica, deve seu nome ao cacique Guamá ou Guamã, cacique dos Aruãs e Mexianas do Marajó; em luta continuada contra os portugueses, já nos inícios do século XVIII, cuja história está ligada à tropa de guarda costa comandanda por Francisco Palheta que na incursão ao cacique bandoleiro Guamá trouxe o café furtado de Caiena. Ou seja, o Brasil imperial deve aos índios até o furto do café da colônia francesa da Guiana, que passou pelo Pará e foi gerar a riqueza dos barões bandeirantes mata bugres em São Paulo.

O Brasil precisa saber que sem arcos e remos tupi não se poderia conquistar o Maranhão e o Grão-Pará, sem sangue, suor e lágrimas tapuias não se romperia nunca a "linha" de Tordesilhas e nem se poderia conservar o território duramente conquistado até a adesão do Pará à independência do Brasil. Portanto, hoje não existiria uma determinada Amazônia Brasileira... Sequer a Cabanagem de 1835 teria sido possível sem a rebeldia e as armas dos "filhos de Ajuricaba e dos Ingaíbas" [Nheengaíbas, marajoaras] convocados ao comando do lavrador cearense Eduardo Angelim contra a opressão imperial. Ademais, os Tupinambás levados à França deram a ideia da Revolução Francesa, segundo os filósofos Montaine e Rousseau. Quando Dom João VI mandou invadir a Guiana francesa para se prevenir de possível ataque de Napoleão ao Pará os oficiais ingleses e portugueses não tiveram outro remédio se não recrutar paraenses para a tropa. E já se sabe que eram soldados mestiços, negros e índios que ao regressar depois da ocupação (1809-1817) trouxeram a subversão do Haiti contra a escravatura com a República. Daí o fermento caribenho no país que se chama Pará deu a Cabanagem. 

E já se sabe que índios urbanos são cabanos...

O parente Miguel é um cabano de etnia Tembé, povo do Alto Guamá remanescente da grande nação Tupinambá que, no século XVII, aliada aos portugueses do Maranhão e Grão-Pará conquistou a antiga terra dos Tapuias, vulgo Amazônia. Como todo índio, nem sob tortura o parente Miguel não revelaria seu nome original dado pelo próprio Nhanderu, através do saber do pajé em cerimônia restrita aos pais do curumim e seus parentes mais idosos da aldeia.  A multiétnica Cultura Brasileira não estará completa enquanto não reconhecer, integrar e desenvolver a herança ameríndia original.

Já se sabe que a palavra "índio" é imposição da colonialidade importada do velho mundo pelo tal de Cristóvão Colombo, que não descobriu coisa nenhuma além do roubo, massacre e destruição das chamadas Índias Ocidentais... Na verdade, dizem historiadores ultimamente, o "descobridor" da América (de Americ, país do vento em língua maya, referente à região montanhosa próxima ao lago Nicarágua; nada a ver com Amerigo Vespucci) foi batizado Salvador Fernandes Zarco, português de nascimento, na vila de Cuba, no Alentejo. O nome da ilha rebelde do Caribe ficou sendo Cuba em recordação da vila de Portugal onde o espião de Dom João III na corte de Castela nasceu. Para ver que essa história de nomes supostos ou verdadeiros vai longe e enrola na volta do tempo. Um erro ou mentira repetida muitas vezes acaba passando por verdade... Portanto, os brasileiros índios ou não já deveriam saber que a colonialidade é pior que o colonialismo.

Quem me conhece sabe o quanto sou orgulhoso do quartilho de sangue indígena marajoara que corre em minhas veias, por parte de minha avó de lado paterno Antonia da Silva, nativa da aldeia da Mangabeira (Ponta de Pedras). Sem renegar o lado materno galego, tenho lutado para resgatar as origens que afinal de contas para todo ser humano vem de fontes de grande antiguidade na África ancestral.

Quando os dois bispos católicos do Marajó, em março de 1999, decidiram denunciar a miséria do IDH da gente marajoara, apesar de eu não ser praticante de nenhuma religião, nem achar que padres e pastores juntos não tem nenhuma parcela de responsabilidade no crime de lesa humanidade cometido contra índios e negros deste país contribuindo à alienação de suas riquezas materiais, culturais e espirituais; não hesitei em aceitar o honroso encargo de apresentação do documento eclesial chamando atenção para o estado de necessidade daquele povo de origem indígena notável. 

O documento conjunto da Diocese de Ponta de Pedras e Prelazia do Marajó de 1999 veio a ser base da demanda popular à Presidência da República por intermédio da mesma igreja, que resultou na instalação do Grupo Executivo Interministerial de Acompanhamento de políticas públicas no Arquipélago do Marajó (GEI Marajó), em 2006, destinado a tomar providências urgentes contra a malária, obras de infraestrutura de emergência e elaboração do Plano de Desenvolvimento Territorial Sustentável do Arquipélago do Marajó (PLANO MARAJÓ) lançado com solenidade e circunstância pelo Presidente Lula e a Governadora Ana Júlia, na cidade de Breves, em 2007. Imediatamente, o Plano trazia em seu bojo o Projeto Nossa Várzea de regularização fundiária de terras de marinha, uma ação a cargo da Secretaria do Patrimônio da União (SPU) que atualmente beneficia algo em torno de cinquenta mil famílias ribeirinhas. No ano seguinte, 2008, o dito Plano integrou também o programa federal Territórios da Cidadania - Marajó, e mal ou bem vai mantendo acesa a chama da esperança dessa gente antigamente espoliada.

Em conversas particulares com meu saudoso camarada Neuton Miranda, inclusive em viagens ao Marajó para entrega de Título de Autorização de Uso (TAU), ouvi dele a verdade de que dentre as grandes carências das populações tradicionais; a FUNAI cuida dos indígenas e a Fundação Palmares dedica-se aos quilombolas e comunidades afrodescendentes. Porém, os cabocos ribeirinhos e outras gentes podendo ser vistas como novas etnias restam ao deus dará. A regularização fundiária para esta gente vem a ser o primeiro passo indispensável, mas não suficiente.

Foi assim que me tornei voluntário na força-tarefa da SPU-PA para início do Nossa Várzea no Marajó. Que tarefa tinha eu para fazer na força-tarefa? Uma breve fala à equipe lhes dizendo um pouco das peculiaridades operacionais que iam encontrar nas paragens marajoaras. Sobretudo usos e costumes daquela gente em maioria analfabeta de pai e mãe, a servidão da gleba, o clientelismo e todos mais vícios de uma tão longa espoliação desde o tempo da pacificação dos Nheengaíbas rebeldes, na segunda metade do século XVII até o Diretório dos Índios (1757-1798): não foi fácil tirar o índio do mato para inventar o caboco...

Numa daquelas reuniões preliminares para elaboração do tal PLANO MARAJÓ o vigilante bispo dom Luís Azcona deu-se conta de que uma certa Terra Indígena figurava na mesorregião Marajó e ninguém sabia informar onde ela, exatamente, se localizava. Ele, então, em alta voz se dirigiu a mim indagando se por acaso ainda existiam índios no Marajó... Sem pestanejar lhe respondi positivamente: "Sim, senhor; existem índios no Marajó mas eles próprios não sabem" [que são índios]..... Nada mais disse nem me foi perguntado. Tive impressão, entretanto, de ter revelado um segredo de Polichinelo que o grave silêncio dos presentes detesta escutar. Antes em outras oportunidades eu já tivera ocasião de dizer que o célebre caboco é índio com amnésia. Sobretudo aqueles mais saliente que se vangloriam de ser "caboclos"... Diz-que, índios não haviam F (fé), L (lei) e R (rei) em suas milhares de línguas nativas antes de ser cristãmente catequizados.

Uma deliciosa anedota pronta, então, me sucedeu quando fui a São Sebastião da Boa Vista participar de reunião preliminar à audiência pública para aprovação do PLANO MARAJÓ. Falei tudo que tinha direito, por mais de meia hora, no fim diante da plateia atenta perguntei. Querem fazer alguma pergunta? Um breve silêncio se estabeleceu e por fim uma senhora sentada à primeira fila, indagou: O senhor é parente do doutor Dráuziu Varella? Terminei minha fala dizendo ser neto de índia marajoara. Duas mocinhas cujas feições não renegariam a origem indígena riram e uma delas disse a outra, "com esta cara, hen mana!"... Cara pálida, melhor dizendo. Mas as duas simpáticas tapuias cor de jenipapo gostariam de saber que seus antepassados foram índios? Espero que sim.

Alguma vez na aldeia da Mangabeira (Ponta de Pedras) onde minha avó Antônia nasceu, num fim de tarde na beira da baía tomando cerveja com parentes dei a lição de sempre para levantar o orgulho do índio marajoara que reside em nossa alma panema. À altura da terceira garrafa, disse-me um parente chateado da conversa: "Zé, tempo de índio já acabou. Agora somos todos civilizados"... Taticamente, enfiei a viola no saco: nunca se sabe o que um 'caboclo' pode fazer quando fica possesso.

É preciso concertar nossas raízes e reavivar esperanças na braçagem de uma paz vermelha e contraditória como a própria vida, negra como a primeira noite do mundo; misteriosa que nem a morte e renascença no Kuarup sem fim. Acredito, a primeira tarefa do indivíduo que deseja se achar no mundo é descobrir que todos somos diversos e únicos ao mesmo tempo. 

A vida é perpétua evolução. Isto é, dança da Mãe natureza no seio da qual todos somos irmãos: seres humanos parentes de plantas e bichos naturais ou encantados. Filhos da estrela Guaraci (Sol), mãe dos viventes... Jaci (Lua), nossa mãe também... Índios são pós-doutores na universidade da via.

No fim da passagem deste mundo, na verdade, atravessamos a fronteira entre a dura realidade da vida e o sonho da Terra sem males procurada: já não haverá mais fome, escravidão, doença, velhice e morte... Quem conquistar a utopia selvagem da Yby Mãraey não morrerá, mas ficará encantado junto às estrelas do infinito. Eu sei por que vi no alto céu estrelas faiscando e um mestre índio me guiando na leitura daquele livro aberto na amplidão, onde com as tintas da memória se escreveram os nomes dos heróis naquele panteão indestrutível.

Os velhos parentes sábios, antes dos brancos chegar; já sabiam destas coisas que agora os jovens carecem descobrir agarrando-se às crinas do vento com grande força de vontade e determinação na luta contra o império da maldade e do esquecimento.




POR QUE MARAJÓ?
  
1 - Porque a "ilha" do Marajó guarda a ancestralidade da ecocivilização amazônica e a Arte primeva brasileira. 

2 - Porque no Golfão Marajoara, cinco mil anos de humanidade no maior arquipélago de rio e mar do planeta; acusam nossa ignorância da destruição das Índias Ocidentais: testemunho mudo de mais de mil anos de ruína da arte e religião dos antigos marajoaras nos tesos (sítios arqueológicos que foram aldeias suspensas sobre campos alagados), que humildemente diante da vaidosa monumentalidade de grandes museus nacionais e estrangeiros detentores de Cerâmica Marajoara, o Museu do Marajó insiste ainda diante da indiferença do governo da República Federativa em abrir aos olhos do povo àquilo que é seu por direito hereditário.

3 - Porque Marajó é portal físico e imaginário do maior rio da Terra, elo ecocultural entre a Amazônia azul com o conhecimento profundo das populações tradicionais costeiras e a Amazônia verde antigamente habitada pelo homem amazônico de mais de dez mil anos de idade falando mil e tantas línguas. criando e praticando outras tantas culturais locais.

4 - Porque no Novo Mundo a ilha-símbolo da amazonidade original abre novas páginas de velhas civilizações que um dia, no passado longínquo, da África profunda percorreram o Nilo ancestral para desaguar no mar Mediterrâneo antes de mitos e lendas da Antiguidade atravessar o Atlântico para inventar o rio Babel ou das Amazonas.

5 - Porque sem a fecunda paz entre índios marajoaras e tupinambás o Grão-Pará não poderia se estabelecer. Quanto mais evitar as invasões estrangeiras que suportou, por mais de quarenta anos de bárbaras batalhas, desde a tomada do Maranhão: sem o acordo do rio Mapuá desconsiderado pelo rei de Portugal (carta do pe. Antonio Vieira, de 11/02/1660) em prejuízo dos índios do Marajó com a doação da capitania da Ilha Grande de Joanes (1665), a viagem de Pedro Teixeira de Belém a Quito (1637-1639) teria sido em vão, apesar do hercúleo feito de 1.200 índios tupinambás de arco e remo comandados pelo mameluco Bento de Oliveira, não seria hoje mais que uma curiosidade histórica. Em vez do primeiro passo dos direitos territoriais de Portugal na região amazônica (tratado de Madi de 1750) transferidos ao império do Brasil, em 1823, pela vontade política da brava gente brasileira junta e misturada.

6 - Porque agora a inclusão socioambiental desta gente despossuída outrora, passa pela reconquista da Memória. Deste modo, índios urbanos são cabanos em busca da Cidadania sonegada - urge indianizar os cabocos desta terra devastada.

7 - Porque no Marajó por mátria e fátria ancestral, a cobra grande com o ovo na boca do grande rio; o Índio imortal há sempre de ser guardião do país do Cruzeiro do Sul, Brasil brasileiro país do futuro que não trairá nem esquecerá jamais o longo passado pré-americano. 

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