domingo, 14 de fevereiro de 2016

A FACE OCULTA DO VER O PESO





Vão destruir o Ver-o-Peso
Pra construir um Shopping Center
Vão derrubar o Palacete Pinho
Pra fazer um Condomínio
Coitada da Cidade Velha,
que foi vendida pra Hollywood,
pra se usada como albergue
no novo filme do Spielberg

Quem quiser venha ver...


(Belém Pará Brasil / Mosaico de Ravena).




Lá pelos anos 60 escrevi no "Jornal do Dia" uma série de crônicas intituladas "A face oculta do Ver O Peso" que era um tipo de folhetim da cidade morena na ingênua tentativa de imitar Nelson Rodrigues na célebre "A vida como a vida é" reproduzida todos dias nos principais jornais do país. Eu era apenas um rapaz marajoara querendo se dar bem na cidade grande de Belém.

Havia e há ainda o outro lado do Ver O Peso que vem da margem oposta e terceira margem do rio, com sua encantaria, histórias mil, entre frutas e ervas, peixes e carne verde junto a dramas e comédias de outras gentes distantes. As quais estando às vezes na feira ou no mercado ou lá atrás da cortina ribeirinha das ilhas são como invisíveis aos olhos da cidade. Parece mentira para quem não me conhece de verdade. Mas eu sei o que é necessidade de passar a noite em riba de tolda de igarité chapada de açaí na Doca, embrulhado na vela encharcada de chuva depois de esperar maré para atravessar. Atravessador, assim se chamava a quem vinha de canoa vender os gêneros da terra na cidade. Praticar a marretagem na feira por falta de emprego fixo. Todas aquelas misérias, esperanças e pequenas alegrias que vem de longe tentar a sorte na feira da beira da baía do Guajará.

Minha avó era índia da aldeia da Mangabeira (Ponta de Pedras), se chamava Antônia de batismo. Ela morreu de parto de gêmeos dos quais só meu pai sobreviveu e meu avô Alfredo deu nome a ele de Rodolpho Antonio, para lembrar o padrinho alemão e a índia falecida. Então, sua irmã mais velha, Sophia; foi a mãe de criação de meu pai e para mim a avó postiça que me ensinou muitas histórias. O Ver O Peso morava no Itaguari (Ponta de Pedras) como também em Muaná, Abaeté, Cachoeira, Barcarena e tantos outros lugares destas eiras e beiras dos arredores da Cidade.

Minha avó Sophia dizendo que a avó dela, paresque, diversas vezes veio a Belém e saltou na Praia com maré seca pisando estiva de troncos de miritizeiro. A velha quando queria dizer que uma coisa era muito antiga, diz-que, falava assim: "do tempo da vela de jupati"... Como assim, vela de jupati? Pois é verdade. Antes de fazerem velas de canoa em tecido de algodão os "nossos" índios navegaram rio e mar levados por maré e vento com a antiga vela quadrada feita como sanefa (veneziana) de ripas de jupati...

Essa gente que o mundo esqueceu hoje tem muitos descendentes trabalhando ainda no Ver O Peso, nas geleiras, ralando mandioca para o pato no tucupi do Círio, pescando e fritando o peixe nosso de cada dia, 'apanhando', 'batendo' e servindo açaí. Na Pedra a vender pescado "fresco" pitiú; prestes a ir aos urubus, à margem da fiscalização e outras mercadorias fora da lei. Sim, é verdade, perdemos a memória. O mal de Alzheimer coletivo nos pegou feio...

Por isto, os nobres representantes que nada sabem deste povo, para dizer a verdade só podem falar do imaginário. "Modernizar" a invenção dos 400 danos... Prometer o reino da lua, tapar o vento geral e esconder o sol; vender ar refrigerado para vencer o calor e lâmpadas elétricas dia e noite para alumiar as ideias.

São Benedito da Praia, valei-nos!

3 comentários:

  1. Lindo o texto! Valeu, José Varella Pereira!

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  2. Varella você é um monumento vivo! Obrigado por nos lembrar de quem somos e de onde viemos!
    Nádia Brasil

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  3. ÓTIMO TEXTO! APRENDI ...."DO TEMPO DA VELA DE JUPATI"...(COISA MUITO ANTIGA) VALEU! PARABÉNS!

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