segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

2013 #Ocupe Ver O Peso! (2)


    feira do Ver O Peso, Belém do Pará.




A semana começa com o último dia do ano velho e o primeiro de ano novo terá início já numa terça-feira, feriado mundial da Paz quase ao meio da semana. Pra quem vem do apocalypso de 21/12/2012 tá tudo muito bem e o brega agora vai de vento em popa Brasil afora... 

Estas simples coincidências de calendários inventados por necessidade e acaso devem nos lembrar que, de fato, o tempo não para. Somos nós, humanos, que passamos através do espaço em construção contínua e do inexorável tempo... O Ver O Peso de outrora -- bicho de sete cabeças --, não para de se reinventar na costura eterna de tradição e modernidade. Ele é o coração pulsante da cidade e tem calendário natural de acordo com as safras de frutas e o tempo da lua de acordo com as marés trazendo peixes, ervas, feitiços e festas de estação. A flutuação dos preços, tal e qual a força das águas, fala ao bolso dos fregueses no curso continuado da economia popular ao ritmo brega da cidade das mangueiras, capital do Pará que tem porto no Caribe. 

Enquanto isto, em todo Brasil renovam-se esperanças na democracia depois que o Povo perdeu o medo e segue elegendo (certo ou errado) seus prefeitos e vereadores em 5564 municípios, agora a tomar posse neste dia 1º de Janeiro de 2013, em seus respectivos cargos. Dada posse aos eleitos, o voto secreto cobra promessas de campanha e o juramento feito sobre a Constituição.

No que toca a esta ressuscitada academia dos anos 30, anti-acadêmica por excelência; a gente faz votos de que os municípios da área metropolitana de Belém e entorno das ilhas do Guajará com o Acará, Abaetetuba, Barcarena, Moju e o Marajó, inclusive; participem dos encaminhamentos rumo aos 400 anos de invenção da Amazônia mediante uma boa virada de perspectiva. Na qual os 1500 anos da original Cultura Marajoara sejam contemplados e somados à expressão geográfica de Belém do Pará na mesma paisagem cultural cujo foco é Ver O Peso: lugar emblemático de economia criativa onde todas fronteiras da cultura se resumem no Pará.

Que bom será se o senhor prefeito municipal vir se amesendar com vereadores e confrades degustadores de açaí e peixefrito, algumas vezes; em sessão especial desta academia no Solar da Beira, por exemplo. Aí a tribuna popular da feira livre: Boca caboca... Porta-voz oficiosa da Criaturada grande dará recado e quem não houver ouvido de mercador ouvirá com respeito fazendo bom proveito. A cidade morena há de agradecer do fundo do coração sem distinção partidária, de cor, classe, gênero ou religião.

Ocupar o Ver O Peso há de ser como ocupar o próprio Pará do século XXI com inteligência e coração. Que melhor maneira se pode imaginar para comemorar os 400 anos de invenção da Amazônia, com inclusão socioambiental desde já? Da fala caboca desta estúrdia tribuna da feira livre, mais autêntica a amazonidade será e repercutirá no Brasil e no mundo inteiro. Depois, bem entendido, que câmaras e prefeituras da região fizer eco do recado do Ver O Peso para progresso da democracia participativa.


domingo, 23 de dezembro de 2012

2013 #Ocupe Ver O Peso!









BOAS FESTAS amig@s do Ver O Peso.

Pra boa gente de São Benedito da Praia ou Ossain na Academia do Peixe Frito e a Criaturada grande de Dalcídio na feira do Ver O Peso, subúrbios e nas ilhas, o ano de 2013 já começou. 

E começou aprontando o estirão de bom futuro rumo a 2016: embora no calendário gregoriano faltem ainda algumas folhinhas a ser arrancadas, a fim de despedir 2012, que teve até data para o fim do mundo e virou farra de vândalos do apocalypso... Este último, como se sabe, é bandalheira. Carnaval profano das revelações do Fim do Mundo sobre o reino da mãe d'Água dita Boiúna.

A invenção da Amazônia completou 400 anos em São Luís do Maranhão. Masporém a marcha dos acontecimentos históricos do Norte começaram antes, em Olinda (Nova Lusitânia, Pernambuco); passando de virada em Jaguaribe (Ceará) para, em  1615, tomar o Maranhão e vir direto ao Pará fundar Feliz Lusitânia com o forte do Presépio, em 1616; berço desta morena Belém do Pará.

Nasceu, na pisada do caminho do Maranhão rumo à terra dos Tapuyas no rio das Amazonas, o Estado do Maranhão e Grão-Pará (1621) sob pavilhão da União Ibérica (1580-1640) pela "impossível" aliança entre remos e arcos Tupinambás e as armas e barões assinalados da velha Lusitânia: eis em poucas linhas a história da invenção da Amazônia brasileira de nossos dias. 

A melhor parte da história aconteceu à revelia das cortes, era como se o grande rio [Uêne, dos aruacos; Paraná-Uaçu, dos tupis; Marañon, dos hispânicos e Amazonas, dos portugueses] decidisse ele mesmo por conta própria traçar a sua história. Como diria, mais tarde, Abguar Bastos: "o Amazonas tanto embarrigou que pariu o Acre." 

Mas a primeira barrigada do Amazonas, com certeza, foi as ilhas do Marajó... Segundo o tratado de Tordesilhas (1494-1750) entre os reinos de  Castela e Portugal, a linha ultramarina entre as duas coroas passaria supostamente sobre Laguna (SC), no Estado do Brasil; e Belém do Pará, no Estado do Maranhão e Grão-Pará.

Deste modo, as lindes amazônicas entre Espanha e Portugal deveriam ter limites na baía do Marajó: a oeste o maior arquipélago do planeta caia na parte espanhola (donde, em fins de janeiro de 1500; o navegador espanhol Vicente Pinzón arrastou os primeiros "negros da terra"(escravos indígenas) da América do Sul, em número de 36 indivíduos provavelmente de etnia Aruã).

Na margem direita do Pará, em alguma parte entre Colares ou Vigia e Viseu atuais; o cosmógrafo do rei de Portugal; Duarte Pacheco Pereira, esteve em viagem secreta em 1498 (dois anos antes de Pinzón no Marajó) a fim de fazer medições astronômicas capazes de produzir o "descobrimento" oficial do Brasil sem risco da posse de Portugal vir a ser contestada. 

Dizem historiadores da teoria do segredo dos descobrimentos ultramarinos, entre eles Jaime Cortesão; que navegadores lusos já conheciam a costa brasileira e a corrente equatorial marítima em suas tentativas de ultrapassar o Cabo das Tormentas (Cabo da Boa Esperança, na África do Sul). Portanto, a escala como viu-se na frota de Pedro Álvares Cabral era vital para reabastecer navios de água, lenha, peixe e alguma caça. Bem como descansar a marinhagem deixando em terra algum degredado ou desertor fugido de bordo para aprender a língua da terra e se amigar com as índias, desde logo; a premeditar o futuro da grande nação mestiça da América do sol.

Temos ainda no escuro o papel histórico da nação Tupinambá, e, sobretudo, do mito da Terra sem Mal (Yvy Marãey) na historiografia brasileira em relação a conquista das regiões Nordeste e Norte até reconhecimento do uti possidetis real de 1750. 

Inimigos dos portugueses e amigos dos franceses os tupinambás abandonaram a estes últimos no Maranhão, talvez desenganados do interesse de La Ravardiére em levar a guerra aos tapuias do extremo norte; chateados da catequese contra os pajés e demonização do espírito Jurupari. Pelo contrário, conduzidos pelo aventureiro cristão-novo Martim Soares Moreno; os guerreiros antropófagos não vacilaram em se juntar ao antigo inimigo "Peró" (papagaio), como eles chamavam aos portugueses; para ir combater juntos no rio das amazonas.


O FIM DO MUNDO: ONDE O MARAJÓ COMEÇA

Não há dúvida de que os Tupinambás guerrearam contra Tapuias no Maranhão e Grão-Pará. Tapui-Tapera ("tapera tapuia", ruína tapuia) hoje é Alcântara-MA e Camutá-Tapera (Cametá-PA) são dois lugares históricos da antiga guerra brasílica do norte. Saindo de Pernambuco pela costa através da Paraíba e pelo sertão para oeste até o rio Tocantins, por onde desceram ao Pará; os tupinambás chegaram antes dos europeus.

Embora, as velhas populações tenham recuado e deixado caminho de passagem aos bravos canibais, teriam formado bolsões de resistência antes de submeterem-se pouco a pouco à tupinização, finalmente através da catequese portuguesa levando a Lingua-Geral ou Nheengatu como língua de conquista (só na metade do século XVIII a língua portuguesa começou a substituir o Nheengatu).

Contando da tomada de São Luís aos franceses, expulsão dos holandeses e britânicos (1623-1647) até a pacificação dos "Nheengaíbas" da ilha do Marajó (1659) foram 44 anos de guerra. O estudo das línguas amazônicas poderá dar as chaves toponímicas e etnográficas do território: aí, provavelmente, podermos ver o peso do espaço na história... O rio de Guamá, por exemplo, esconde a saga do cacique bandoleiro da ilha do Marajó (o "homem malvado", guerrilheiro de zarabatana e flechas envenenadas atiradas de emboscada). O canal do Carnapijó [caraipijó], como a praia do Caripi; oculta rastros dos rebeldes "nheengaíbas" (falantes da "língua ruim", nuaruaque). O Itaguari ("ponta de pedras), na foz do rio Marajó-Açu; era a fronteira para o bravo Tupinambá: ali começava a ilha do inimigo hereditário invencível,  o "malvado" defensor da "Terra sem Mal" proibida, o sítio Araquiçaua (lugar onde o sol ata rede para dormir).

A FACE OCULTA DO VER O PESO

400 anos depois da invenção da Amazônia ainda há muito a ser descoberto. Quem vê cara não vê coração... Minha avó falava que a avó dela quando vinha da ilha do Marajó a Belém, em igarité naturalmente, e calhava da maré estar seca era obrigada a desembarcar sobre estiva de troncos de miritizeiro como em qualquer outro porto de sítio. Esta minha trisavó indígena costumava dizer, segundo a história oral da família; que uma coisa havia muita antiguidade se referindo como algo "do tempo da vela de jupati"...

Não conheci a vela de jupati, mas quem por acaso achar desenhos de Codima na Viagem Philosophica (1783-1792) poderá ver alguma igarité no Amazonas com a velha vela quadrada indígena. A feira do Ver O Peso é de fato um ecomuseu que precisava ter reconhecimento oficial na paisagem cultural da cidade e ilhas.

Seus quatro mil trabalhadores e trabalhadoras, longe do assistencialismo bofó que os políticos e patrões exploradores lhes impõem; podiam eles mesmos se empoderar do espaço econômico e cultural. O Ver O Peso é o umbigo da cidade ligado ao rio (nove fora muambas recentes 'made in China'...): a maniva, açaí, peixe frito, frutas de todos gostos e cores; ervas e feitiços... Todo aquele mundo que se vende ali vem da outra margem e tem outras histórias que não se sabe.




sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

FELIZ NATAL BRASIL, PRÓSPERO ANO NOVO AMAZÔNIA





FELIZ NATAL E RICO 2013
são os votos da
ACADEMIA DO PEIXE FRITO
a todos e a todas.


"fizemos Cristo nascer na Bahia ou em Belém do Pará."
(Oswald de Andrade, "Manifesto Antropofágico", 1928)

domingo, 9 de dezembro de 2012

Construindo a ponte do turismo literário brasileiro na paisagem cultural do Extremo-Norte




Criaturada grande de Dalcídio não quer agradinho, masporém papo firme e participar pra valer do negócio do turismo:
pode ser ou está difícil?


Diz-que, deu na Rádio Marajoara e o povo ouviu desde a feira do açaí e Solar da Beira no Ver O Peso até as ilhas de fora Caviana e Mexiana; o turismo literário na maior ilha fluviomarinha do planeta ainda não bombou que nem a festa literária de Paraty do Rio de Janeiro, mas se Deus quiser, São Benedito da Praia e o Glorioso São Sebastião da Cachoeira ajudarem com seus milagres a coisa vai dar certo pra gente tirar barriga da miséria no festival do tamuatá no Lago Arari, lá em Santa Cruz, assim que na festa do Bastião em Cachoeira, círio de Ponta de Pedras, festival do camarão de Muaná. Ecoturismo de base na comunidade na Costa do Sol, antiga costa-fronteira do Pará. 

Nunca ouviu falar? Pudera, quem sabia já morreu e quem devia saber pra ensinar a gente não aprendeu. Agora, toma-te feriado da data magna com esquecimento total dos heróis de Muaná e búfalo como símbolo maior da velha cultura marajoara... Mas todo mundo 'ama' a "ilha" do Marajó, só que não conhece nenhuma das 1700 ilhas dos bravos marajós (chamados Nheengaíbas, falantes da "língua ruim" nuaruaque e malvados combatentes da resistência marajoara) nem sabe do que se está falando.

Me aguarde, esta gente! Alô, alô Gurupá, Afuá, Breves... "Psiu, psiu... - major Alberto adverte - falta saber, minha senhora, quem vai ganhar dinheiro com esta lorota boa e ficar depois com os louros da vitória". O tipógrafo Rodolfo movimenta a impressora manual do folhetim "O Arary", frescas novidades cheirando à tinta reportadas pelo major entre tiragens do programa do círio de Nossa Senhora da Conceição (cada um com a sua fé reza como pode, sem dispensa dos pajés em todo caso). Tio Sebastião informa que já dá pra enxergar uma luz no fim do estirão, com certeza, barco cheio de  turista à vista... Tomara, diz dona Amélia, distraída dos males desta vida olhando pela janela do chalé a chuva cair nos campos de Cachoeira. Verde que te quero como prados da Holanda fechando a porteira do verão apagando a escuridão que vem do antro das queimadas. 

E Andreza que não chega com restos de sol nos cabelos e paneiro cheio de tucumãs na cabeça pra fazer canhapira. Alfredo por necessidade de distração joga o caroço na palma da mão, por acaso como se fossem búzios decifrando o destino como qualquer outro menino destas vilas-ilhas. Ele brinca sozinho debaixo da árvore Folha-Miúda onde passarinhos fazem ninho que nem estrelas do céu tecem a lenda da primeira noite do mundo... 

Diacho! Agora quero ver como turista sulista ou estrangeiro vai entender a fala estúrdia desta gente do extremo-norte habitante do romanceiro dalcidiano, ilhas e subúrbios da grande Belém do Grão-Pará. Carece primeiro abrir curso intensivo de língua marajoara lá no Sul maravilha, que nem pessoal bacana de Copacabana aprende inglês rapidinho pra ir às comprar em Miami, nos States ou sendo mais baludo ir no outro lado do mundo ver a muralha da China? Besteira, resmunga Eutanazio na rede ao canto da sala com sua dor sem cura à espera de Irene que nem Dom Quixote amaria Dulcineia loucamente... "Missunga... Ó Missunga!"... O inconsciente grito do tempo tem magia de preteridades da Guiné inventando caminhos no mundo, atravessa o Mar-Oceano com os turcos encantados a bordo da frota invisível para morar para sempre no Maranhão e Pará em casa de Mina. Acorda os índios na eternidade dos tesos no sem fim indo se perder pelas trilhas da silenciosa mata do Paricatuba tão só pra ver a dança dos tangarás no cair da tarde... Saramago poderia descrever melhor a dormência da terra, se acaso soubesse a história do casamento luso-amazônico do pacífico português tio Felipe e a índia espoletada tia Serafina; patrocinado pelo Marquês de Pombal, através do diretório dos índios, num plano geopolítico de caboquização preparatório à vinda da Família Real portuguesa ao Pará meio século antes da invasão de Portugal pelas tropas de Napoleão. Senta que lá vem história! Depois do furto do café pelo comandante Palheta no encalço do cacique bandoleiro da ilha do Marajó, chegou o dia de Dom João VI, no Rio de Janeiro, mandar tropas do Pará ocupar a Guiana francesa sob comando militar anglo-português... Convite ao turista exigente para viajar na história da fronteira do Cabo Norte (Amapá). E já que chegamos aqui, que tal descobrir Mazagão importada do Marrocos e ir meditar na fortaleza de São José de Macapá? Imaginar combates dos séculos nas águas das Amazonas com a tomada do Xingu e Gurupá... Até aqui chegou a Nação Tupinambá seja pelo caminho do Maranhão a pé ou através do Pantanal e Guaporé abrindo os caminhos do sertão ao antigo inimigo bandeirante e depois "cunhado" até virar tudo povo brasileiro.

Vai ver, este caminho da imaginação saindo agora da terceira margem do rio Marajó-Açu confronte ao Fim do Mundo, no Itaguari, onde o Marajó velho de guerra começa na ilhinha da cobragrande Boiúna em sua morada invisível; vai direto a Angola a bordo do navio encantado dar voltas ao mundo, se transforma em caruana-guará, voa pelo alto do Pão de Açúcar e da mansarda do escritor Dalcídio Jurandir em Laranjeiras, no Rio, vizinho paresque do arquiteto camarada Niemeyer. Atravessa a baía da Guanabara para saudar Arariboia com lembranças do "índio sutil" da ilha do Marajó. Daí no rumo norte visitar a Bahia de Jorge Amado, passear pelo sertão de Graciliano, fazer curso de educação poética pela pedra com João Cabral de Melo Neto; de novo em busca do verdadeiro tesouro das mulheres guerreiras icamiabas ou amazonas no poente como o pássaro do sol fatigado de distâncias se acomodar na rede encarnada do crepúsculo e dormir no Araquiçaua, ilha do Marajó, gestando outras manhãs e outras histórias.


Claro está que se acaba de inventar estas mal traçadas pra tentar, devagar e sempre, a libertação da criaturada vítima da fome e das regulamentações tecnocráticas dos dragões da incompetência combinadas por acaso com a ditadura extemporânea dos barões arruinados. Dizer a uns e outros, mesmo não tendo fé que hão de prestar atenção a uma reles presepada destas quando ainda nem entenderam a lição do padre grande Vieira, no Sermão aos Peixes, em mais de trezentos anos; a verdadeira verdade. Não há nada mais renovável e sustentável para erradicar a pobreza com seus males acompanhantes que o desenvolvimento humano através da educação e cultura. "O resto é o peixe frito"..., como diria o autor de "Primeira Manhã" em seu memorável libelo contra o engessamento acadêmico da educação nacional.

"Vender" a paisagem sem alienar o homem dá mais dinheiro e dividendo social do que, no passado, deu a seringueira com a escravatura "branda" dos seringueiros em longínquos seringais em altos rios na Belle Époque. Ora, é preciso olhar os problemas de frente! O Brasil descobre o bravo povo brasileiro, ou as veias abertas vão produzir mais hemorragia de divisas duramente amealhadas pelo acúmulo de baixos salários, altos impostos e colonização cultural. Único setor da economia no qual o consumidor, em vez de importar o produto em seu próprio país, atravessa fronteiras para o consumir no local de produção, o turismo é cantado e decantado em prosa e verso como sendo a galinha dos ovos de ouro.

Não por acaso, da noite para o dia, brasileiros outrora maltratados no estrangeiro passaram a ser recebidos com tapete vermelho. São muitos milhões de reais que são convertidos em dólares e euros para gastar lá fora. Reciprocamente, espera-se que o turismo receptivo dê conta do recado para equilibrar a balança do setor. Os esforços brasileiro não tem sido pequenos, computando-se aí a captação do turismo esportivo com dois megas eventos de impacto mundial, Copa das Confederações (2013), Copa mundial de futebol (2014) e Olimpíadas (2016). Isto é muito bom.

Entretanto, sem querer nem poder impedir o derrame de divisas no exterior seria importante que os Ministérios do Turismo e da Cultura além do que já vem fazendo cuidassem ainda mais em incentivar nichos e fronteiras internas das culturas brasileiras. É aí que as regiões com seus festivais ou festividades tradicionais precisariam ser contempladas com um outro olhar capaz de revelar o Brasil profundo que os brasileiros não conhecem.

É justo que uma família de trabalhadores depois de poupar e se endividar no cartão de crédito realize as férias de seus sonhos para conhecer a Europa, a Ásia, as outras Américas com Estados Unidos inclusive. Mas, deve existir maior esforço para depois dessas férias maravilhosas a segunda viagem dessa família de turista inteligente seja dentro do próprio Brasil desconhecido. Para isto é que o turismo literário há de ser alavancado, de tal maneira que o viajante brasileiro ao Rio Grande do Sul em lá chegando já tenha sido guiado previamente pela poesia de Mario Quintana, o romance de Érico Veríssimo, por exemplo. A até queria atravessar a fronteira do extremo-sul cultural para dar uma olhada ao Uruguai com mirada na obra de Galeano, "Memória do Fogo" acima de tudo; ou Juan Carlos Onetti a ver se adivinha onde está a extraordinária "Santa Maria". 

Inversamente, este hipotético turista saberá desde solo gaúcho que o marajoara Dalcídio Jurandir foi a Porto Alegre e Rio Grande conviver com o povo trabalhador farroupilha e de lá saiu com a obra "Linha do Parque", primeiro romance proletário brasileiro, pronta para o prelo. Convite para descobrir que as duas revoluções, a Cabanagem e a Farroupilha são contemporâneas: desta última o roteiro poderia estimular roteiro dos cabanos desde Belém e outras cidades e municípios fazendo parte destes acontecimentos históricos. Em ambas guerras atuaram heróis como Manuel Nogueira Angelim que foi cabano e farroupilha, irmão mais novo do presidente Eduardo Nogueira Angelim da província do Pará; e o famigerado general Andrea Soares, genocida dos paraenses depois condecorado por bravura no Rio Grande do Sul com título de Barão de Caçapava. 

Por roteiros integrados semelhantes, o turista brasileiro poderá conhecer mais e melhor o seu país. Só se ama o que se conhece. Goiás de Cora Coralina, veredas das Gerais com Guimarães Rosa, o Pantanal de Mario Palmério e Manuel de Barros... Quanta coisa para conhecer com o livro turístico de poetas e escritores da paisagem cultural das regiões do gigante Brasil em parceria com universidades e empresas.

Marajó, oh Marajó de encantos e desencantos mil no meu Brasil! Fosses tu outro país serias talvez tão rico quanto o reino de Cingapura, ou melhor que a Costa Rica potência de primeiro mundo em ecoturismo. Todavia, quem poderia falar por ti, Dalcídio, João Viana, Giovanni Gallo estão mortos... Mortos estes ícones? Se matriarcas e caciques de mil anos "falam" no silêncio e no vento dos tesos arqueológicos e "cacos de índio" no Museu do Marajó podem ser lidos com a ponta dos dedos: quanto ainda os livros destes uns...

O extremo-norte - Amazônia Marajoara - tem muito a dizer ao Brasil moderno. Brasília cedo ou tarde terá que saber que as Águas Emendadas também chegam a Amazônia descendo o Tocantins até o Rio Pará, não sem antes transformar corrente fluvial em energia de Tucuruí para iluminar todo Brasil. Claro é uma metáfora. Há abaixo da linha equatorial energia mais preciosa, por isto alguns quixotes querem criar uma universidade com a cara da Criaturada grande de Dalcídio: com tal nau capitânia tudo mais virá a reboque, principalmente a reserva do bioma fluviomarinho onde o Homem marajoara e Biosfera planetária dão-se as mãos.

Seria pedir demais?  Ou continua a valsa, a Criaturada que nem marisco apertada entre dragões da incompetência e barões arruinados a ouvir conversa pra boi dormir. O resto é o peixe frito...

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

ECOCIVILIZAÇÃO ACHADA E ABANDONADA NO RIO DAS AMAZONAS

urna de cerâmica marajoara pré-colombiana: patrimônio histórico e artístico do Brasil



O Pará do Brasil sentinela do Norte

Nem tudo são flores, porém é fato que no mundo contemporâneo a América do Sul, desde o movimento independentista latino-americano de 1810, se destaca como nunca dantes experimentando um profundo processo de descolonização. Mas, espera, devagar com o andor... Primeiro, carece advertir que a oposição entre pares “colonização” versus “descolonização” deste momento histórico é suficientemente ambígua e dialética para deixar ver pelas brechas, por exemplo, que as relações Sul-Sul não são necessariamente negativas ao desenvolvimento das tradicionais relações internacionais Norte-Sul ou até mesmo ao predomínio Norte-Norte na hegemonia mundial. Dito de outra maneira, as relações Sul-Sul são completares às relações internacionais Norte-Sul e não substitutivas a estas últimas.

Na verdade – longe de constituir um fenômeno de moto próprio, apesar de inegáveis componentes endógenos tais como fontes de energia, matéria-prima e força de trabalho –, a notável emergência geral do hemisfério Sul que hoje se verifica ainda tem por motor a mesma revolução industrial iniciada na Inglaterra, no século XIX, com todas suas inseparáveis e dinâmicas contradições. Destarte, periferia da Periferia, a Amazônia apresenta diversas singularidades advindas da sua própria biodiversidade e diversidade cultural, com exemplo especial do Pará, estado-chave da Amazônia Oriental marítima.

Todavia, este novo desenvolvimento Sul gera sua própria contradição: em parte devido à insustentável lerdeza tecnológica para responder ao desafio da mudança climática nosTrópicos. Por outra parte, exigências interna e externa ao mesmo tempo a respeito da inclusão social de bilhões de seres humanos deixa claro para as massas a mentira neoliberal do capitalismo para todos. Para fazer redistribuição de renda carece que haja renda, depois a justiça fiscal na Suécia e outros países Norte não é a mesma coisa que se possa fazer num país carente de infraestrutura e de tudo, noves fora a corrupção congênita herdada do Colonialismo, financeiramente dependente do capitalismo central, também este eticamente questionável em suas origens e sustentabilidade do consumo (para o qual embora o proletariado possa teoricamente vir a ser substituído por máquinas-ferramentas e robôs, não há planeta que aguente a demanda dos insumos necessários). De modo que, como diria Bill Clinton com acordo prévio de Karl Marx, o que comanda o espetáculo "é a economia, estúpido!".

Entre o discurso socioambiental escorado nos direitos humanos patrocinados pela ONU e a prática de governos e sociedade nacionais e subnacionais (inclusive no hemisfério Norte) existe um abismo. Não importa que argumentação se levante contra tais evidências, mas é de interesse das populações do mundo e da biodiversidade planetária que o sistema da ONU seja reformado a fim de atualizar e realizar, no complexo século 21, os princípios históricos da Carta das Nações Unidas. Fora da lei internacional haverá choro e ranger de dentes, e a lei internacional será cada vez mais democrática ou ela não se sustentará nem por todos os canhões e ogivas da OTAN. 

A complexidade do mundo pós-colonial dispensa comentários e o “fim da História” com a tentação absolutista travestida de “novo” liberalismo, sob mando do império ianque a substituir o mundo bipolar e a velha Europa aristocrata como matriz da civilização ocidental judeu-cristã, acabou por mostrar que o grande irmão do Norte tem pés de barro: o fundamentalismo seja ele israelita, cristão ou islâmico, se revela perigoso ao ideal laico do estado democrático moderno e ao concerto das nações. Não é dizer que as religiões e divergências ideológicas devam ser abolidas, mas sim toleradas no âmbito dos direitos individuais e garantidas pelo estado laico imparcial. As lições dos horrores da Guerra (todas elas ao longo da história da Humanidade), com o fracasso da Liga das Nações e o grave desafio da ONU em resistir a seu congelamento até final aniquilamento sob égide do totalitarismo seja ele qual seja; parecem esquecidas pelas grandes potências.

Segundo, se da América do Sol (tropical) poderá vir um novo mundo e até boa parte de ajuda para salvação do planeta Água (lembrando que 70% do corpo humano e da Terra, mais ou menos – curiosa coincidência da natureza –, são formados de água), a Organização do Tratado de Cooperação Amazônica (OTCA) deveria deixar de ser patinho feio da diplomacia sul-americana para ser a menina dos olhos da UNASUL contando com maiores atenções da própria ONU. Os recursos aquáticos e a hidrologia deveriam ser centro da cooperação regional e internacional para o desenvolvimento sustentável da Amazônia na busca do novo paradigma civilizacional ambicionado por todo mundo.

Acaba aqui este tosco e "naif" preâmbulo para chegar a furo da situação geocultural da Amazônia Paraense dentre as mais Amazônias na contramão da recolonização intensiva por que passam neste momento as regiões amazônicas. O famoso “celeiro do mundo” cunhado por Humboldt conquistado a ferro e fogo por coloniais sanhudos antepassados das atuais elites nacionais dos ditos países amazônicos. Em desvantagem dos atuais 33 milhões de habitantes do antigo “espaço vazio”, ou melhor, esvaziado pelo pioneirismo da doutrina “índio bom é índio morto”: sabemos, entretanto, como o processo de branqueamento assassinou a alma do bárbaro e lhe cativou o corpo para melhor explorar a força de trabalho na “última fronteira da Terra”.

O NOVO NOME DA LIBERTAÇÃO É ECOCIVILIZAÇÃO

Parece palavrão, é extravagante e tem cheiro futurista de invenção. Mas, quando a gente esmiúça a coisa e fussa pra ver como haveria de ser, descobre por acaso que o fundamento do tal desenvolvimento sustentável da Amazônia é bem mais conhecido como coisa nossa do que se poderia imaginar. Basta olhar pra trás e se dar conta do que era, há mais de mil e tantos anos, na civilização que deixou vestígios nos sítios arqueológicos da ilha do Marajó. Se a gente fizesse releitura do Sermão da Montanha e do Manifesto Comunista daria razão a Hugo Chavez em sua retórica bolivariana quando ele diz que Jesus Cristo foi o primeiro comunista do mundo... Por conseguinte Marx e seu genro anarquista Paul Lafargues não estão tão distantes assim quando um elogia a greve e a resistência operária contra a exploração desumana dos patrões dementados pelo usura do lucro e o outro prega o direito à preguiça. O índio "preguiçoso", o caboco manhoso ou o malandro carioca são parentes na luta contra a exploração do homem pelo homem. O interior da Amazônia reza o ditado "vida boa não quer pressa"...

Como assim? E por que não se pesquisa mais a Amazonidade como deveria e nem mesmo se conserva o que aquela gente do passado deixou na região? Por acaso, na ilha do Marajó há mais de mil anos, o manejo incipiente da antiga aquicultura, a agroecologia por andares e construção de aldeias suspensas com necrópoles cerimoniais e agricultura familiar não poderia ser a base da economia solidária hoje em dia nas comunidades e populações tradicionais da Amazônia? Por que não? A culpa é da mentalidade, como diz a canção. Esta mentalidade culposa, apesar do discurso da modernidade conservadora, é colonialista. Não mais usos e costumes do velho português desterrado que se amasiou com a escrava indígena ou africada e deu ao Brasil colonial a mistura fina crioula do país do Futuro, mas o racismo fracassante importado do que há de pior da velha Europa e reproduzido em larga escala pelos donos do poder nos Estados Unidos, Canadá, Brasil, Argentina e alhures (do Alasca até a Patagônia acham-se racistas prontos a brigar pela supremacia da “raça superior” e seu modelo industrial predador): não se trata de vencer uma guerra geopolítica, porém de superar o conflito geocultural que já dura mais de 500 anos. 

Nisto, a unidade dos povos reclamada se encontra mais depressa na juventude estudantil e na solidariedade das mulheres mais sensíveis para a vida do que os homens; pois elas são naturalmente tocadas pela paz e a segurança das crianças (por consequência da sociedade humana inteira nesta e nas futuras gerações). Então, uma região onde o matriarcado teve seu esplendor, o rio das mulheres guerreiras (amazonas) deveria ser algo mais que uma lenda importada da Capadócia com os turcos encantados e talvez uma metáfora.

O MAIOR PAÍS AMAZÔNICO QUE FALTA DESCOBRIR

Nós estamos prontos a defender a Amazônia, mas não conhecemos as regiões amazônicas e a diversidade de suas gentes. Não prestamos atenção em ser o Brasil, de direito e de fato, o maior país amazônico do mundo. Além disto só uns poucos eruditos sabem que o país do “Brazyl” existia muito antes do descobrimento do Brasil. Guardadas a sete chaves na imensidão do Atlântico jazidas do corante mineral vermelho fornecido por mercadores da Irlanda ao continente europeu, pouco a pouco, habitou a imaginação do velho mundo sempre ávido de riquezas achadas e extraídas de regiões longínquas e misteriosas.

A saga dos Fenícios, Gregos e Romanos colaborou no desenho do velho mapa fantástico onde o futuro “país do pau-brasil” morava em companhia das ilhas Afortunadas, país de São Brandão, Antilha e outras paragens cartografadas pela imaginação. Um belo dia, navegadores lusíadas saindo da ilha da Madeira toparam com a “ilha do Brasil” em alto mar. Foram ver de perto para contar de certo e, afinal de contas, ali não existia o tal pigmento encarnado deveras procurado. Em vez de uma ilha era arquipélago que ficou sendo os Açores, devido a quantidade de aves da família dos falcões.

De toda maneira, nos Açores ficou o Monte Brasil como primeiro marco rumo ao país do Arapari (constelação do Cruzeiro do Sul) achado inicialmente no Grão-Pará (viagem secreta do cartógrafo do rei Duarte Pacheco Pereira, em 1498) e depois descoberto por Cabral (1500) com nome de Monte Pascoal e depois ilha da Vera Cruz, finalmente Brasil... Quando, enfim, o pau brasil contentou o comércio marítimo poderia até ter lhe tingido a bandeira com a mesma cor da riqueza dos mantos reais. Mas, então, o ouro como símbolo maior de poder inflamava os espíritos e por causa do metal começou a destruição das Índias, desde as Antilhas até a Terra-Firme adentro.

O verde do pendão brasileiro foi ocupado por canaviais e cafezais enormes regados pelo suor e fertilizado pelo sangue dos escravos. Só 500 anos depois começamos a ver se perder o verde da Amazônia como a melhor parte deste Brasil continente de tesouros procurados. Agora de volta ao mar profundo com o pré-sal acabamos por descobrir que a Amazônia azul promete outro tanto ou mais que todo ouro já achado no vasto mundo...

NOSSOS IRMÃOS INDÍGENAS DA AMÉRICA DO NORTE DORMIRAM SOBRE MONTANHAS DE FERRO E RIOS DE PETRÓLEO...

Então os bons cristãos chegaram, recebidos com afeto como era costume em todo Novo Mundo antes da Conquista, e logo os peregrinos acharam-se no dever de civilizar os índios. Inútil falar novamente o que aconteceu e do motivo do feriado nacional do dia de Ação de Graças nos Estados Unidos. Agora uma perguntinha ao bravo povo brasileiro: será que “O Pará do Brasil sentinela do Norte terá cacife para guardar ou explorar de modo justo e sustentável as riquezas da Amazônia azul ou vai precisar ser mais ocupado e recolonizado do que já está? E assim mesmo claudicou na Amazônia da "belle époque" transformada a duras penas em inferno verde. Não poderia o Brasil amazônico fazer diferente do que está fazendo na região? Deixemos as crianças responder a pergunta na nova escola de tempo integral financiada pelos ‘royalties’ do pré-sal... Afinal de contas elas é que deverão ser as herdeiras da história brasileira, desde a idade do barro dos começos do mundo até a era das comunicações aeroespaciais.

Na baía da Guanabara, no século XVI, tupinambás e tamoios faziam a guerra uns aos outros quando os franceses chegaram para inventar a França Antártica; Estácio de Sá foi lá e graças ao milagre do glorioso São Sebastião temos hoje o melhor carnaval do mundo na cidade maravilhosa do Rio de Janeiro e muitas coisas mais. No intervalo do segundo tempo o calvinista Gaspar de Colygne levou embaixada de índios tupinambás à corte de Ruão. Ora, para agradar os ditos embaixadores de Pindorama, segundo chegou ao conhecimento de Montaigne; mandaram os cariocas fazer ‘citytour’ e quando acaba quiseram saber o que os bárbaros teriam achado da civilização francesa.

Disse um índio, em sua própria língua e com costumeira franqueza de sua nação o que pressupõe problema de tradução, ter ficado chocado ao ver pela primeira vez na vida mendigos à porta de catedral estender as mãos aos burgueses... Acrescentou o índio: “não entendo por que os miseráveis não saltam ao pescoço dos endinheirados e incendeiam esta cidade”. Teria Montaigne exclamado ao saber do “causo”: “vejam só, uns selvagens da América vem nos ensinar o que deveríamos ter feito há tempo...”. Estava criada a legenda do Bom Selvagem.

Mais tarde, Rousseau recuperou esta história mais inacreditável do que as tratativas de paz do Padre Antônio Vieira com os sete caciques Nheengaíbas da ilha do Marajó e com o discurso do Bom Selvagem em mente tocou fogo às preconcebidas ideias da época e levou multidões de “sans-coullotes” às ruas: cai a Bastilha, estava feita a Revolução de 1789... No mesmo ano a Inconfidência Mineira e por conseguinte o esquartejamento de Tiradentes por ordem de Dona Maria I, a Louca. Por acaso, esta pobre senhora veio às pressas para o Brasil com a Família Real, em 1808, fugindo às tropas de Napoleão...  A Comuna de Paris (1871) entra para história como primeiro governo do povo no mundo e Marx desenvolve grande parte de sua teoria revolucionária sobre este acontecimento histórico. No entanto, antes mesmo do Manifesto Comunista a cidade de Belém do Pará havia tido sua comuna, entre 1835 e 1836, faltando ainda estudiosos à altura teorizar sobre os fatos da Cabanagem de suas raízes no século XVII até as lutas políticas atuais para fazer valer a cidadania em todos recantos da Amazônia.

Ah, mas espera aí! Volta o filme... O Brasil brasileiro não começou na Bahia com a chegada da frota de Pedro Álvares Cabral de passagem para a Índia. Também não foram apenas os tupi-guarani que inauguraram a cultura brasileira em São Paulo de Piratininga ou na Guanabara. Para, para! Aí já viviam os Tamoios (de ‘tamuya’, avô; que passou a “tapuya”, inimigo). E ao Norte então? Já tínhamos a maior civilização tropical das terras baixas da América do Sul, a Cultura Marajoara. 

Nossa ecocivilização amazônica resiste, apesar de tudo. Com o fim do mundo ou da História só temos a perder nossas misérias.

Viva o Brasil! Viva a Amazônia, Viva a América do Sol!





segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

DESENVOLVIMENTO PRA QUÊ E PRA QUEM?


poeta Bruno de Menezes, patrono da Academia do Peixe Frito

O TIPITI E OS GADOS DO RIO NA TERRA DO AÇAÍ E DO PATO NO TUCUPI




São diversas regiões do país do Cruzeiro do Sul, o gigante Brasil da América do Sol; dito antigamente o Arapari entre velhos tapuios do extremo-norte brasileiro. Nome indígena do continente cobiçado pelas ilhas do mar Caribe com referência à constelação limite que demarcava a fronteira extremo-sul para as migrações do vasto circum-Caribe até pra lá do Pantanal. Por acaso somos nós amazônicos um outro Brasil de segunda ou terceira categoria? Não pode ser, na verdade somos filhos de um único e diverso Brasil ao mesmo tempo ibero-americano e latino. Posto que a cultura amazônica, apesar de maltratada e dilapidada, é a mais antiga do arquipélago civilizacional brasileiro e aqui o escambo ainda tem lugar. Até a metade do século XVIII peixe moqueado era moeda corrente e toda troca comercial fazia-se em espécie, elas por elas, pagando-se por serviços prestados a aquisição de bens. Economia real que ainda hoje é base econômica da periferia: muitas vezes, viajante de primeira viagem a altos rios passa fome com dinheiro no bolso, enquanto quem sabe trepar em pé de açaizeiro não carece de nenhum dinheiro pra matar a fome.


Agora o fim da História está fazendo água que nem o famoso “Titanic”. E o naufrágio do formidável império traz a reboque o fim do mundo industrial, eis que vem à tona a renascença da ancestralidade e diversidade dos povos da Terra. Dentre estes as raízes fundamentais do Povo Brasileiro – três vezes mais velho que o país descoberto por Cabral, conforme se pode atestar a quem tiver olhos pra ver o peso do tempo e saber a ciência dos trópicos da primeira cultura brasileira complexa nos tesos da ilha do Marajó –, o qual Brasil primogênito foi antigamente esboçado em sonhos nas alturas do céu da terra Tapuia. Terra encantada sem males nenhum que jazia no fundo das águas grandes e da memória da gente: podendo ser vislumbrada através de mitos, ritos, usos e costumes marginalizados e disparatados. Como se esta babel danada os cinco sentidos brasílicos fossem “cacos de índio”, fragmentos de ideias e modos de vida mil, espalhados aqui e acolá, paresque, canga bruta em vias de vir a ser mina ou garimpo.

Aí que a porca torce o rabo: quem não trabalha não come... Mas muita gente faz de conta que trabalha e come por demais, já quem muito trabalha come pouco ou nada. O pescador desta lida fica com o peixe miúdo em casa e o filhote gordo vai parar longe onde o pobre nem imagina, custando os olhos da cara e quando acaba a história não há dinheiro no bolso do pescador nem mais peixe no rio ou no mar. Quem é o condenado do fogão que faz a comida saborosa e quem de fato a come? Que mágica é esta que transforma matéria bruta em capital e mercadoria? Que mistério faz mais valia virar lucro líquido num sistema caduco que está fora de validade e já deveria ser liquidado? Já foi dito que o melhor bocado não é pra quem o prepara... Não existe almoço nem petisco de graça: cada boca depende de dois braços, desde o baixo mata fome local até a alta economia global.

Na Amazônia o estado precedeu a sociedade, virgula, explique-se: o estado colonial e a sociedade colonizadora com pobres portugueses dos Açores, da ilha da Madeira ou norte de Portugal com vizinhos e parentes da Galiza confundidos. Prometeram-se o paraíso no Maranhão e Grão-Pará aos pobres de Portugal: mas não sabiam que os índios Tupinambás chegaram antes aí à procura da mítica Terra sem mal... Antes destes últimos 400 anos tínhamos diversas sociedades indígenas e cacicados, que são na verdade o estado original das regiões da Amerika (“país do vento”, conforme se dizia nas montanhas em torno do lago Nicarágua). Com certeza a Universidade e a Ciência Política aplicada à criaturada grande amazônida não trata disto nem por castigo. Os primeiros rebeldes da Amazônia cedo se manifestaram em armas contra seus conquistadores, notadamente o cacique Pacamão, da aldeia do Cumu no Maranhão; Guamiaba (dito Cabelo de Velha) no Pará; ambos no século XVII; no século seguinte Guamá, cacique dos Aruãs e Mexianas, no Marajó e Ajuricaba, tuxaua dos Manaus, no Amazonas, sustentaram a guerra anti-colonial. No século XIX, a resistência nativa foi estuário de todas vexações da terra Tapuia em transe: guerra-civil revolucionária dita a Cabanagem (única insurreição brasileira na qual o povo tomou o poder), a qual depois da anistia de 1840, continua sua evolução histórica para a democracia popular. Surtando, pouco a pouco, que nem vulcão adormecido que acorda de repente quando a gente menos espera. Aliás, que são essas ondas de violência urbana ou rural, em maior parte; que simples irrupções de força bruta da natureza humana reprimida ou mal dirigida na vida?

Já faz tempo que Belém e Manaus, cada qual em sua ilha de fantasia saudosa da "belle époque" da Borracha desperdiçando fortunas extraídas do inferno verde de seringais onde Judas perdeu as botas; brigam como cão e gato para ser a super infartada metrópole da Amazônia. Deveriam saber que vida de aldeia e roça agroecológica seria mais lógica para o melhor IDH desta gente extraída do mato (kaa bok, caboca). E que, de fato dentro do mato, a peleja da Aldeia Global não é nossa. 

Dantes, no rescaldo do Diretório dos Índios (esta lorota iluminista das Arábias plantada experimentalmente na Amazônia pra branquização total do Brasil 'inzoneiro' depois, tal qual o café furtado de Caiena foi aclimatado no Pará antes de ir parar nos cafezais dos atuais barões da Avenida Paulista); a porrada global era só pra atrelar o resto do mundo ao império de Sua Majestade ou à super república latina de Napoleão Bonaparte: deu-se, então, na esteira do bloqueio continental gaulês para isolar a Grã-Bretanha a apressada vinda da Família Real (D. Maria I, chamada a Louca; ajuizadamente a reclamar, "se não estamos fugindo, por que vamos com tanta pressa?...) e terminou esta afobada história com o império paulistano do Rio de Janeiro a galope de cavalo com o inventado Grito do Ipiranga (diz-que, na verdade, estava o príncipe de Portugal em cólicas com algo que ele comeu e lhe fez mal na casa da amante marquesa de Santos, e portanto a grande decisão pátria ocorreu logo após nosso Pedro I despejar suas reais fezes às margens plácidas do riacho de nossa fictícia independência). Era, dizem, contra-golpe aos republicanos que, tardia e secretamente em loja maçônica na saga de Tiradentes e estandarte da Inconfidência Mineira; já haviam decidido pela Independência vinte e oito dias antes do dito Grito.

Mais tardiamente que o 7 de Setembro, a independência das letras nacionais chegou cem anos depois na Pauliceia desvairada, Semana de Arte Moderna de 1922. Dez anos mais tarde, pelo Ita do Norte, Raul Bopp bordejou o Ver O Peso em camaradagem com ictiófagos da Academia do Peixe Frito e retornou do Xingu levando Cobra Norato na bagagem a fim de sentar praça na Marinha como marinheiro no Rio de Janeiro. Manuel Bandeira também veio e hasteou versos de bem querer a cidade das mangueiras. Mario de Andrade passou ao largo da academia da feira ida e volta...

Bruno de Menezes, nosso babalorixá de Ossain ou poeta de São Benedito da Praia, subiu o curso do Amazonas e fez por mágica antropoética a ponte cultural Belém-Manaus: era (sem que a gente soubesse) o ajuri cabano: mutirão das letras ou altas costuras das línguas e culturas amazônicas. Coisa supimpa, que paresque hoje em dia somente um catedrático que nem José Ribamar Bessa Freire poderia concorrer. Qual seja, a união (ajuri) dos sumanos cabanos que nem as revolucionárias “cabas” do Rio Negro (taquaras pensantes e envenenadas de ira e curare) outrora, a fim de repelir caçadores de escravos e piratas intrusos, na histórica resistência de Ajuricaba contra a escravidão de negros da terra.

O carimbó de Marapanim, com mestre Lucindo, talvez cantou primeiro a inteligência do papagaio parauara falante até da língua paraense. Não importa se foi primeiro o papagaio manauara a falar a língua amazonense. O que interessa é o nosso Brasil se empoderar do rio Babel com bom tipiti de tirar tucupi, açaí papa e os gados do rio sendo principal atração da gastronomia amazônica de renome turístico no Ver O Peso com a academia do peixe frito e no Galo Carijó, com o Clube da Madrugada, em Manaus. Sem esquecer o capital cultural de outras capitais da amazonidade, tais como o marabaixo no Amapá e manifestações várias nos mais estados brasileiros amazônicos.

Estamos nós agora a nos lembrar que o antropólogo Nunes Pereira, do Maranhão, descobriu o reino da encantaria na Amazônia paraense e que o doutor Ritacínio Pereira, marajoara de Cachoeira do Arari; seguindo as trilhas de Nunes Pereira foi buscar os hábitos do de comer da Criaturada grande de Dalcídio. Assim ele, grande admirador da canhapira cachoeirense; fez inventário da gastronomia popular amazônica, no livro inédito (talvez perdido) “O tipiti e os gados do rio”. Infelizmente, apesar de parecer altamente favorável do Conselho Estadual de Cultura do Pará, com Anunciada Chaves e aprovação unânime do colegiado presidido pelo arcebispo dom Alberto Ramos; jamais a obra inovadora foi publicada. Obras deste quilate não se acham pelos cursos de turismo e similares. A gente do Marajó quer, paresque, que o MEC lhe faça uma universidade tendo a cara da antiga universidade pés descalços que inventou aldeias suspensas e aquicultura com gados do rio. O mundo está clamando contra a sede e a fome. E nós aqui cansados de pregar aos peixes, que nem o padre Antônio Vieira, emprestando do peixinho do mar chamado quatro-olhos (tralhoto); sua metáfora até hoje não entendida nos planos de desenvolvimento da Amazônia. Haja, no ajuricabano, reunindo intelectuais e pesquisadores do Brasil a resistência fora de série do bodó e do tamuatá até Chico chegar da roça (pra não dizer o doutor José Graziano da Silva, da FAO).