segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

DESENVOLVIMENTO PRA QUÊ E PRA QUEM?


poeta Bruno de Menezes, patrono da Academia do Peixe Frito

O TIPITI E OS GADOS DO RIO NA TERRA DO AÇAÍ E DO PATO NO TUCUPI




São diversas regiões do país do Cruzeiro do Sul, o gigante Brasil da América do Sol; dito antigamente o Arapari entre velhos tapuios do extremo-norte brasileiro. Nome indígena do continente cobiçado pelas ilhas do mar Caribe com referência à constelação limite que demarcava a fronteira extremo-sul para as migrações do vasto circum-Caribe até pra lá do Pantanal. Por acaso somos nós amazônicos um outro Brasil de segunda ou terceira categoria? Não pode ser, na verdade somos filhos de um único e diverso Brasil ao mesmo tempo ibero-americano e latino. Posto que a cultura amazônica, apesar de maltratada e dilapidada, é a mais antiga do arquipélago civilizacional brasileiro e aqui o escambo ainda tem lugar. Até a metade do século XVIII peixe moqueado era moeda corrente e toda troca comercial fazia-se em espécie, elas por elas, pagando-se por serviços prestados a aquisição de bens. Economia real que ainda hoje é base econômica da periferia: muitas vezes, viajante de primeira viagem a altos rios passa fome com dinheiro no bolso, enquanto quem sabe trepar em pé de açaizeiro não carece de nenhum dinheiro pra matar a fome.


Agora o fim da História está fazendo água que nem o famoso “Titanic”. E o naufrágio do formidável império traz a reboque o fim do mundo industrial, eis que vem à tona a renascença da ancestralidade e diversidade dos povos da Terra. Dentre estes as raízes fundamentais do Povo Brasileiro – três vezes mais velho que o país descoberto por Cabral, conforme se pode atestar a quem tiver olhos pra ver o peso do tempo e saber a ciência dos trópicos da primeira cultura brasileira complexa nos tesos da ilha do Marajó –, o qual Brasil primogênito foi antigamente esboçado em sonhos nas alturas do céu da terra Tapuia. Terra encantada sem males nenhum que jazia no fundo das águas grandes e da memória da gente: podendo ser vislumbrada através de mitos, ritos, usos e costumes marginalizados e disparatados. Como se esta babel danada os cinco sentidos brasílicos fossem “cacos de índio”, fragmentos de ideias e modos de vida mil, espalhados aqui e acolá, paresque, canga bruta em vias de vir a ser mina ou garimpo.

Aí que a porca torce o rabo: quem não trabalha não come... Mas muita gente faz de conta que trabalha e come por demais, já quem muito trabalha come pouco ou nada. O pescador desta lida fica com o peixe miúdo em casa e o filhote gordo vai parar longe onde o pobre nem imagina, custando os olhos da cara e quando acaba a história não há dinheiro no bolso do pescador nem mais peixe no rio ou no mar. Quem é o condenado do fogão que faz a comida saborosa e quem de fato a come? Que mágica é esta que transforma matéria bruta em capital e mercadoria? Que mistério faz mais valia virar lucro líquido num sistema caduco que está fora de validade e já deveria ser liquidado? Já foi dito que o melhor bocado não é pra quem o prepara... Não existe almoço nem petisco de graça: cada boca depende de dois braços, desde o baixo mata fome local até a alta economia global.

Na Amazônia o estado precedeu a sociedade, virgula, explique-se: o estado colonial e a sociedade colonizadora com pobres portugueses dos Açores, da ilha da Madeira ou norte de Portugal com vizinhos e parentes da Galiza confundidos. Prometeram-se o paraíso no Maranhão e Grão-Pará aos pobres de Portugal: mas não sabiam que os índios Tupinambás chegaram antes aí à procura da mítica Terra sem mal... Antes destes últimos 400 anos tínhamos diversas sociedades indígenas e cacicados, que são na verdade o estado original das regiões da Amerika (“país do vento”, conforme se dizia nas montanhas em torno do lago Nicarágua). Com certeza a Universidade e a Ciência Política aplicada à criaturada grande amazônida não trata disto nem por castigo. Os primeiros rebeldes da Amazônia cedo se manifestaram em armas contra seus conquistadores, notadamente o cacique Pacamão, da aldeia do Cumu no Maranhão; Guamiaba (dito Cabelo de Velha) no Pará; ambos no século XVII; no século seguinte Guamá, cacique dos Aruãs e Mexianas, no Marajó e Ajuricaba, tuxaua dos Manaus, no Amazonas, sustentaram a guerra anti-colonial. No século XIX, a resistência nativa foi estuário de todas vexações da terra Tapuia em transe: guerra-civil revolucionária dita a Cabanagem (única insurreição brasileira na qual o povo tomou o poder), a qual depois da anistia de 1840, continua sua evolução histórica para a democracia popular. Surtando, pouco a pouco, que nem vulcão adormecido que acorda de repente quando a gente menos espera. Aliás, que são essas ondas de violência urbana ou rural, em maior parte; que simples irrupções de força bruta da natureza humana reprimida ou mal dirigida na vida?

Já faz tempo que Belém e Manaus, cada qual em sua ilha de fantasia saudosa da "belle époque" da Borracha desperdiçando fortunas extraídas do inferno verde de seringais onde Judas perdeu as botas; brigam como cão e gato para ser a super infartada metrópole da Amazônia. Deveriam saber que vida de aldeia e roça agroecológica seria mais lógica para o melhor IDH desta gente extraída do mato (kaa bok, caboca). E que, de fato dentro do mato, a peleja da Aldeia Global não é nossa. 

Dantes, no rescaldo do Diretório dos Índios (esta lorota iluminista das Arábias plantada experimentalmente na Amazônia pra branquização total do Brasil 'inzoneiro' depois, tal qual o café furtado de Caiena foi aclimatado no Pará antes de ir parar nos cafezais dos atuais barões da Avenida Paulista); a porrada global era só pra atrelar o resto do mundo ao império de Sua Majestade ou à super república latina de Napoleão Bonaparte: deu-se, então, na esteira do bloqueio continental gaulês para isolar a Grã-Bretanha a apressada vinda da Família Real (D. Maria I, chamada a Louca; ajuizadamente a reclamar, "se não estamos fugindo, por que vamos com tanta pressa?...) e terminou esta afobada história com o império paulistano do Rio de Janeiro a galope de cavalo com o inventado Grito do Ipiranga (diz-que, na verdade, estava o príncipe de Portugal em cólicas com algo que ele comeu e lhe fez mal na casa da amante marquesa de Santos, e portanto a grande decisão pátria ocorreu logo após nosso Pedro I despejar suas reais fezes às margens plácidas do riacho de nossa fictícia independência). Era, dizem, contra-golpe aos republicanos que, tardia e secretamente em loja maçônica na saga de Tiradentes e estandarte da Inconfidência Mineira; já haviam decidido pela Independência vinte e oito dias antes do dito Grito.

Mais tardiamente que o 7 de Setembro, a independência das letras nacionais chegou cem anos depois na Pauliceia desvairada, Semana de Arte Moderna de 1922. Dez anos mais tarde, pelo Ita do Norte, Raul Bopp bordejou o Ver O Peso em camaradagem com ictiófagos da Academia do Peixe Frito e retornou do Xingu levando Cobra Norato na bagagem a fim de sentar praça na Marinha como marinheiro no Rio de Janeiro. Manuel Bandeira também veio e hasteou versos de bem querer a cidade das mangueiras. Mario de Andrade passou ao largo da academia da feira ida e volta...

Bruno de Menezes, nosso babalorixá de Ossain ou poeta de São Benedito da Praia, subiu o curso do Amazonas e fez por mágica antropoética a ponte cultural Belém-Manaus: era (sem que a gente soubesse) o ajuri cabano: mutirão das letras ou altas costuras das línguas e culturas amazônicas. Coisa supimpa, que paresque hoje em dia somente um catedrático que nem José Ribamar Bessa Freire poderia concorrer. Qual seja, a união (ajuri) dos sumanos cabanos que nem as revolucionárias “cabas” do Rio Negro (taquaras pensantes e envenenadas de ira e curare) outrora, a fim de repelir caçadores de escravos e piratas intrusos, na histórica resistência de Ajuricaba contra a escravidão de negros da terra.

O carimbó de Marapanim, com mestre Lucindo, talvez cantou primeiro a inteligência do papagaio parauara falante até da língua paraense. Não importa se foi primeiro o papagaio manauara a falar a língua amazonense. O que interessa é o nosso Brasil se empoderar do rio Babel com bom tipiti de tirar tucupi, açaí papa e os gados do rio sendo principal atração da gastronomia amazônica de renome turístico no Ver O Peso com a academia do peixe frito e no Galo Carijó, com o Clube da Madrugada, em Manaus. Sem esquecer o capital cultural de outras capitais da amazonidade, tais como o marabaixo no Amapá e manifestações várias nos mais estados brasileiros amazônicos.

Estamos nós agora a nos lembrar que o antropólogo Nunes Pereira, do Maranhão, descobriu o reino da encantaria na Amazônia paraense e que o doutor Ritacínio Pereira, marajoara de Cachoeira do Arari; seguindo as trilhas de Nunes Pereira foi buscar os hábitos do de comer da Criaturada grande de Dalcídio. Assim ele, grande admirador da canhapira cachoeirense; fez inventário da gastronomia popular amazônica, no livro inédito (talvez perdido) “O tipiti e os gados do rio”. Infelizmente, apesar de parecer altamente favorável do Conselho Estadual de Cultura do Pará, com Anunciada Chaves e aprovação unânime do colegiado presidido pelo arcebispo dom Alberto Ramos; jamais a obra inovadora foi publicada. Obras deste quilate não se acham pelos cursos de turismo e similares. A gente do Marajó quer, paresque, que o MEC lhe faça uma universidade tendo a cara da antiga universidade pés descalços que inventou aldeias suspensas e aquicultura com gados do rio. O mundo está clamando contra a sede e a fome. E nós aqui cansados de pregar aos peixes, que nem o padre Antônio Vieira, emprestando do peixinho do mar chamado quatro-olhos (tralhoto); sua metáfora até hoje não entendida nos planos de desenvolvimento da Amazônia. Haja, no ajuricabano, reunindo intelectuais e pesquisadores do Brasil a resistência fora de série do bodó e do tamuatá até Chico chegar da roça (pra não dizer o doutor José Graziano da Silva, da FAO).

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