domingo, 9 de dezembro de 2012

Construindo a ponte do turismo literário brasileiro na paisagem cultural do Extremo-Norte




Criaturada grande de Dalcídio não quer agradinho, masporém papo firme e participar pra valer do negócio do turismo:
pode ser ou está difícil?


Diz-que, deu na Rádio Marajoara e o povo ouviu desde a feira do açaí e Solar da Beira no Ver O Peso até as ilhas de fora Caviana e Mexiana; o turismo literário na maior ilha fluviomarinha do planeta ainda não bombou que nem a festa literária de Paraty do Rio de Janeiro, mas se Deus quiser, São Benedito da Praia e o Glorioso São Sebastião da Cachoeira ajudarem com seus milagres a coisa vai dar certo pra gente tirar barriga da miséria no festival do tamuatá no Lago Arari, lá em Santa Cruz, assim que na festa do Bastião em Cachoeira, círio de Ponta de Pedras, festival do camarão de Muaná. Ecoturismo de base na comunidade na Costa do Sol, antiga costa-fronteira do Pará. 

Nunca ouviu falar? Pudera, quem sabia já morreu e quem devia saber pra ensinar a gente não aprendeu. Agora, toma-te feriado da data magna com esquecimento total dos heróis de Muaná e búfalo como símbolo maior da velha cultura marajoara... Mas todo mundo 'ama' a "ilha" do Marajó, só que não conhece nenhuma das 1700 ilhas dos bravos marajós (chamados Nheengaíbas, falantes da "língua ruim" nuaruaque e malvados combatentes da resistência marajoara) nem sabe do que se está falando.

Me aguarde, esta gente! Alô, alô Gurupá, Afuá, Breves... "Psiu, psiu... - major Alberto adverte - falta saber, minha senhora, quem vai ganhar dinheiro com esta lorota boa e ficar depois com os louros da vitória". O tipógrafo Rodolfo movimenta a impressora manual do folhetim "O Arary", frescas novidades cheirando à tinta reportadas pelo major entre tiragens do programa do círio de Nossa Senhora da Conceição (cada um com a sua fé reza como pode, sem dispensa dos pajés em todo caso). Tio Sebastião informa que já dá pra enxergar uma luz no fim do estirão, com certeza, barco cheio de  turista à vista... Tomara, diz dona Amélia, distraída dos males desta vida olhando pela janela do chalé a chuva cair nos campos de Cachoeira. Verde que te quero como prados da Holanda fechando a porteira do verão apagando a escuridão que vem do antro das queimadas. 

E Andreza que não chega com restos de sol nos cabelos e paneiro cheio de tucumãs na cabeça pra fazer canhapira. Alfredo por necessidade de distração joga o caroço na palma da mão, por acaso como se fossem búzios decifrando o destino como qualquer outro menino destas vilas-ilhas. Ele brinca sozinho debaixo da árvore Folha-Miúda onde passarinhos fazem ninho que nem estrelas do céu tecem a lenda da primeira noite do mundo... 

Diacho! Agora quero ver como turista sulista ou estrangeiro vai entender a fala estúrdia desta gente do extremo-norte habitante do romanceiro dalcidiano, ilhas e subúrbios da grande Belém do Grão-Pará. Carece primeiro abrir curso intensivo de língua marajoara lá no Sul maravilha, que nem pessoal bacana de Copacabana aprende inglês rapidinho pra ir às comprar em Miami, nos States ou sendo mais baludo ir no outro lado do mundo ver a muralha da China? Besteira, resmunga Eutanazio na rede ao canto da sala com sua dor sem cura à espera de Irene que nem Dom Quixote amaria Dulcineia loucamente... "Missunga... Ó Missunga!"... O inconsciente grito do tempo tem magia de preteridades da Guiné inventando caminhos no mundo, atravessa o Mar-Oceano com os turcos encantados a bordo da frota invisível para morar para sempre no Maranhão e Pará em casa de Mina. Acorda os índios na eternidade dos tesos no sem fim indo se perder pelas trilhas da silenciosa mata do Paricatuba tão só pra ver a dança dos tangarás no cair da tarde... Saramago poderia descrever melhor a dormência da terra, se acaso soubesse a história do casamento luso-amazônico do pacífico português tio Felipe e a índia espoletada tia Serafina; patrocinado pelo Marquês de Pombal, através do diretório dos índios, num plano geopolítico de caboquização preparatório à vinda da Família Real portuguesa ao Pará meio século antes da invasão de Portugal pelas tropas de Napoleão. Senta que lá vem história! Depois do furto do café pelo comandante Palheta no encalço do cacique bandoleiro da ilha do Marajó, chegou o dia de Dom João VI, no Rio de Janeiro, mandar tropas do Pará ocupar a Guiana francesa sob comando militar anglo-português... Convite ao turista exigente para viajar na história da fronteira do Cabo Norte (Amapá). E já que chegamos aqui, que tal descobrir Mazagão importada do Marrocos e ir meditar na fortaleza de São José de Macapá? Imaginar combates dos séculos nas águas das Amazonas com a tomada do Xingu e Gurupá... Até aqui chegou a Nação Tupinambá seja pelo caminho do Maranhão a pé ou através do Pantanal e Guaporé abrindo os caminhos do sertão ao antigo inimigo bandeirante e depois "cunhado" até virar tudo povo brasileiro.

Vai ver, este caminho da imaginação saindo agora da terceira margem do rio Marajó-Açu confronte ao Fim do Mundo, no Itaguari, onde o Marajó velho de guerra começa na ilhinha da cobragrande Boiúna em sua morada invisível; vai direto a Angola a bordo do navio encantado dar voltas ao mundo, se transforma em caruana-guará, voa pelo alto do Pão de Açúcar e da mansarda do escritor Dalcídio Jurandir em Laranjeiras, no Rio, vizinho paresque do arquiteto camarada Niemeyer. Atravessa a baía da Guanabara para saudar Arariboia com lembranças do "índio sutil" da ilha do Marajó. Daí no rumo norte visitar a Bahia de Jorge Amado, passear pelo sertão de Graciliano, fazer curso de educação poética pela pedra com João Cabral de Melo Neto; de novo em busca do verdadeiro tesouro das mulheres guerreiras icamiabas ou amazonas no poente como o pássaro do sol fatigado de distâncias se acomodar na rede encarnada do crepúsculo e dormir no Araquiçaua, ilha do Marajó, gestando outras manhãs e outras histórias.


Claro está que se acaba de inventar estas mal traçadas pra tentar, devagar e sempre, a libertação da criaturada vítima da fome e das regulamentações tecnocráticas dos dragões da incompetência combinadas por acaso com a ditadura extemporânea dos barões arruinados. Dizer a uns e outros, mesmo não tendo fé que hão de prestar atenção a uma reles presepada destas quando ainda nem entenderam a lição do padre grande Vieira, no Sermão aos Peixes, em mais de trezentos anos; a verdadeira verdade. Não há nada mais renovável e sustentável para erradicar a pobreza com seus males acompanhantes que o desenvolvimento humano através da educação e cultura. "O resto é o peixe frito"..., como diria o autor de "Primeira Manhã" em seu memorável libelo contra o engessamento acadêmico da educação nacional.

"Vender" a paisagem sem alienar o homem dá mais dinheiro e dividendo social do que, no passado, deu a seringueira com a escravatura "branda" dos seringueiros em longínquos seringais em altos rios na Belle Époque. Ora, é preciso olhar os problemas de frente! O Brasil descobre o bravo povo brasileiro, ou as veias abertas vão produzir mais hemorragia de divisas duramente amealhadas pelo acúmulo de baixos salários, altos impostos e colonização cultural. Único setor da economia no qual o consumidor, em vez de importar o produto em seu próprio país, atravessa fronteiras para o consumir no local de produção, o turismo é cantado e decantado em prosa e verso como sendo a galinha dos ovos de ouro.

Não por acaso, da noite para o dia, brasileiros outrora maltratados no estrangeiro passaram a ser recebidos com tapete vermelho. São muitos milhões de reais que são convertidos em dólares e euros para gastar lá fora. Reciprocamente, espera-se que o turismo receptivo dê conta do recado para equilibrar a balança do setor. Os esforços brasileiro não tem sido pequenos, computando-se aí a captação do turismo esportivo com dois megas eventos de impacto mundial, Copa das Confederações (2013), Copa mundial de futebol (2014) e Olimpíadas (2016). Isto é muito bom.

Entretanto, sem querer nem poder impedir o derrame de divisas no exterior seria importante que os Ministérios do Turismo e da Cultura além do que já vem fazendo cuidassem ainda mais em incentivar nichos e fronteiras internas das culturas brasileiras. É aí que as regiões com seus festivais ou festividades tradicionais precisariam ser contempladas com um outro olhar capaz de revelar o Brasil profundo que os brasileiros não conhecem.

É justo que uma família de trabalhadores depois de poupar e se endividar no cartão de crédito realize as férias de seus sonhos para conhecer a Europa, a Ásia, as outras Américas com Estados Unidos inclusive. Mas, deve existir maior esforço para depois dessas férias maravilhosas a segunda viagem dessa família de turista inteligente seja dentro do próprio Brasil desconhecido. Para isto é que o turismo literário há de ser alavancado, de tal maneira que o viajante brasileiro ao Rio Grande do Sul em lá chegando já tenha sido guiado previamente pela poesia de Mario Quintana, o romance de Érico Veríssimo, por exemplo. A até queria atravessar a fronteira do extremo-sul cultural para dar uma olhada ao Uruguai com mirada na obra de Galeano, "Memória do Fogo" acima de tudo; ou Juan Carlos Onetti a ver se adivinha onde está a extraordinária "Santa Maria". 

Inversamente, este hipotético turista saberá desde solo gaúcho que o marajoara Dalcídio Jurandir foi a Porto Alegre e Rio Grande conviver com o povo trabalhador farroupilha e de lá saiu com a obra "Linha do Parque", primeiro romance proletário brasileiro, pronta para o prelo. Convite para descobrir que as duas revoluções, a Cabanagem e a Farroupilha são contemporâneas: desta última o roteiro poderia estimular roteiro dos cabanos desde Belém e outras cidades e municípios fazendo parte destes acontecimentos históricos. Em ambas guerras atuaram heróis como Manuel Nogueira Angelim que foi cabano e farroupilha, irmão mais novo do presidente Eduardo Nogueira Angelim da província do Pará; e o famigerado general Andrea Soares, genocida dos paraenses depois condecorado por bravura no Rio Grande do Sul com título de Barão de Caçapava. 

Por roteiros integrados semelhantes, o turista brasileiro poderá conhecer mais e melhor o seu país. Só se ama o que se conhece. Goiás de Cora Coralina, veredas das Gerais com Guimarães Rosa, o Pantanal de Mario Palmério e Manuel de Barros... Quanta coisa para conhecer com o livro turístico de poetas e escritores da paisagem cultural das regiões do gigante Brasil em parceria com universidades e empresas.

Marajó, oh Marajó de encantos e desencantos mil no meu Brasil! Fosses tu outro país serias talvez tão rico quanto o reino de Cingapura, ou melhor que a Costa Rica potência de primeiro mundo em ecoturismo. Todavia, quem poderia falar por ti, Dalcídio, João Viana, Giovanni Gallo estão mortos... Mortos estes ícones? Se matriarcas e caciques de mil anos "falam" no silêncio e no vento dos tesos arqueológicos e "cacos de índio" no Museu do Marajó podem ser lidos com a ponta dos dedos: quanto ainda os livros destes uns...

O extremo-norte - Amazônia Marajoara - tem muito a dizer ao Brasil moderno. Brasília cedo ou tarde terá que saber que as Águas Emendadas também chegam a Amazônia descendo o Tocantins até o Rio Pará, não sem antes transformar corrente fluvial em energia de Tucuruí para iluminar todo Brasil. Claro é uma metáfora. Há abaixo da linha equatorial energia mais preciosa, por isto alguns quixotes querem criar uma universidade com a cara da Criaturada grande de Dalcídio: com tal nau capitânia tudo mais virá a reboque, principalmente a reserva do bioma fluviomarinho onde o Homem marajoara e Biosfera planetária dão-se as mãos.

Seria pedir demais?  Ou continua a valsa, a Criaturada que nem marisco apertada entre dragões da incompetência e barões arruinados a ouvir conversa pra boi dormir. O resto é o peixe frito...

Um comentário:

  1. Turismo literário... proposta interessante ao estremo. Penso que realmente atingiria seu intuito de "'Vender' a paisagem sem alienar o homem". Como não conheço os meandros da ideia, acho que poderia começar com a simples implantação de projetos como o "embarcando na leitura" Muito estratégico se o turista, ao invés de ter só o inebriante carimbó como distração, fosse convidado a fazer um "curso intensivo de língua marajoara" [já na viagem para a "ilha"] e, além disso, conhecer nossos cabocos talentosos. Égua sumano! Já pensaste? Um caruana-guará acaba de ser parido na terra de Araribóia. Vamos, por aqui, implantar o Dalcídio no "embarcando na leitura" (na barca de Paquetá). Ta pai d'égua essa nossa presepada. Borimbora, que mesmo de pô-pô-pô a gente chega!

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