domingo, 27 de dezembro de 2015

Belém da Amazônia 500 Anos (2116): carta do Futuro.

Utrecht
canal da cidade de Utrecht (Holanda), a nos lembrar de que Belém do Grão-Pará poderia no passado, caso o plano Gronfelts tivesse sido realizado, em vez do aterramento do igarapé do Piry; ter sido uma Veneza equatorial. Inspiração para a cidade ribeirinha do futuro se os jovens de hoje quiserem mudar a história preparando-se desde agora a assumir os cargos técnicos de nível universitário e políticos que, necessariamente, hão de conquistar na pólis amazônida do Milênio.





A desconhecida história de uma "Veneza Brasileira", que foi, sem nunca ter sido, na Belém esquecida há mais de 200 anos.

Em 1771, o engenheiro alemão Gaspar Gerardo Gronfelts cogitou aproveitar a existência do igarapé no plano de transformação da cidade. Ao invés de aterrar o extenso alagadiço, como era desejo do governo, Gronfelts imaginou aproveitá-lo, em conjunto com os igarapés do Reduto e das Almas ( Atual Doca de Souza Franco ), para a construção de três enormes entradas de água, que seriam aproveitadas em diferentes canais que dariam a Belém beleza ainda maior que a da cidade de Veneza, na Itália.

Contrariando o plano urbanístico de Gronfelts, o Conde dos Arcos, Governador da Província, então, não quis transformar Belém numa segunda Veneza. Achou melhor eliminar e aterrar o enorme igarapé, encarregando, para isso, o engenheiro João Rafael Nogueira. Assim, aos poucos o grande igarapé foi desaparecendo.

Sobre o aterro novas estradas surgiram, a antiga Bailique ( Ferreira Cantão), à Estrada das Mongubeiras (hoje Avenida Almirante Tamandaré), além é claro, de todos os problemas de drenagem, alagamentos e consequências urbanas da interferência sem respeitar a vocação da região.

Fonte: Memórias do Pará / Mapa: Belém - Gronfelts – 1773 / Haroldo Baleixe

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 " Anteriormente à sua urbanização, a área correspondente era conhecida como Piri, região alagadiça que separava as freguesias da Sé (núcleo original da cidade, 1616) da Campina (estabelecida em 1727 a oeste do sítio fundador). Aterrar era a saída natural para o seu aproveitamento. Em 1771, o major engenheiro alemão Gaspar João Geraldo Gronfelts propôs ao governador Fernando da Costa Ataíde Teive o plano de em vez de empregar trabalhos hidráulicos para obter a exsicação desta lezira era melhor ir com a indicação da natureza, e aperfeiçoar a sua obra, fazendo um lagamar, que as águas da inundação do rio e as ascendentes no fluxo do mar naturalmente ocupassem, segundo a peculiar descrição de Baena em 1839 [p. 258]. O lagamar seria um ambiente organizado para navegação. Se executado, o autor do projeto vislumbrava que a cidade de Belém do Pará ficará sendo mais bela que a adriática Veneza tão celebrada [Baena, 1839, p. 259]."

"Em 1803, no governo do Conde dos Arcos Dom Marcos de Noronha e Brito, o igarapé do Piri foi aterrado para atender aos avanços urbanísticos da Belém que crescia. Todavia, sua antiga foz foi transformada numa doca, tal como existe até hoje, mantendo-se ali as atividades do Ver-o-Peso. Mais tarde, já no final do século XIX, a margem da Baía do Guajará foi aterrada, transformando a paisagem do Ver-o-Peso: saíram os velhos trapiches de madeira, acabou-se a praia e o espaço foi ocupado pelas docas de pedra de lioz."


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 À juventude paraense nos 400 anos da Capital para construção solidária dos 500 janeiros de Belém: uma provocação de fim de ano para um projeto municipal "Este Rio É Minha Rua".



Os recursos humanos de uma nação ou cidade é sua maior riqueza. Diz-me o estado real da educação da população e eu te direi o futuro que aguarda o país ou município. O valor humano da gente é que empresta mais valia aos recursos naturais e à indústria local. Ninguém come nem vende potencial por maior que ele seja: carece transformá-lo em produtos e não se consomem produtos sem renda própria. Não se deve explorar a natureza como se não houvesse amanhã: isto é pirataria, o desenvolvimento para que seja sustentável de verdade precisa de sabedoria da gente do lugar antes que tudo. O Japão é exemplo de país de escassos recursos naturais, sujeito a cataclismos e o único no mundo que até hoje sofreu uma devastadora hecatombe nuclear, mas apesar de tudo ostenta uma civilização de alta tecnologia e desenvolvimento econômico invejável. 

A maior desgraça de um povo é o analfabetismo político acompanhado de conformismo com as coisas que não deram certo na sua história: se as passadas gerações nos deixaram um patrimônio que vale a pena conservar, então devemos redobrar esforços para não o perder. Mas, ao contrário, se ao longo do tempo algo precisa de reparo ou correção que seja dito, estudado e comentado a fim de consertar o erro ao quanto antes.

Muitos de meus contemporâneos ouvimos falar que nossa capital havia todas condições naturais para ser uma "Veneza" amazônica. Eu, entretanto, quando vejo a doca do Ver O Peso tendo ao fundo a rua Marquês de Pombal me lembro antes de Amsterdã com seus canais e lastimo muito que o plano urbano de Gronfelts tenha sido preterido pelo aterro do igarapé do Piry e todos, ou quase todos, se conformem com isto. Nada se fala, nada se propõe sempre ocupados por infinitas discussões sobre banalidades clubísticas, moda de imitação estrangeira, fofocas, futebol e novelas. A política, sem exceção de direita à esquerda, salvo um ou dois personagens dignos de nota; se afigura um desastre.

Salvo honrosas exceções, com exemplo geral do grande mestre da amazonidade Eidorfe Moreira, paraibano de berço e paraense por adoção; notadamente em seu estudo pioneiro "O Igapó e seu aproveitamento"; nunca tivemos uma geração belemense (sic) capaz de se rebelar contra a colonialidade de nossa história. Idolatramos a "belle époque" e suspiramos a falta do eterno Intendente Antônio Lemos, um honrado conservador maranhense que fez carreira política no Pará em meio a elites 'educadas' em Paris e Londres mas incapazes de gerir uma terra "imatura" de índios, brancos quase pretos de tão pobres, escravos e mestiços.

Quando nós criticamos o colonialismo logo parece que se está a renegar nossa origem portuguesa. Nada mais equivocado! O que além de impossível seria uma baita estupidez... Mas, de que Portugal estamos nós a falar? Seria bom conhecer melhor o barroco sebastianista do próprio Padre Antônio Vieira que aqui passou quase dez anos de sua vida e deixou traços profundos em nossa história. Um filósofo lusitanista da altura de Agostinho da Silva, o romantismo nacionalista de Almeida Garret, a literatura mal amada de Saramago - único prêmio Nobel da língua portuguesa - e para não ficar só aí a ciência social e política de um Boaventura de Sousa Santos nos dias de hoje e de amanhã. 

Que sabemos nós da revolução dos cravos? E por que com o vizinho Maranhão o Pará não se destaca na Comunidade de Países de Lingua Portuguesa (CPLP), somos junto aos falantes de português em todo mundo com 270 milhões de pessoas. Se não fosse por mais nada, pelo menos o mercado cultural donde Belém da Amazônia faria uma boa praça. Nós, volta e meia, ficamos chateados se alguém faz críticas ao colonialismo português, mas estamos nos lixando aos portugueses que lutaram e lutam ainda contra a colonialidade em toda extensão do mundo que o português inventou. Nosso inesquecível Tiradentes era português, sabiam? No entanto, não são poucos os irmãos portugueses que se quererem livrar das amarras do passado colonial, que levou Portugal a mergulhar numa lamentável guerra colonial em África e a pelejar muitas vezes para acorrentar o gigante da América do Sul.

Pois muito bem, comecemos por nos libertar do passado imperial convidando portugueses com esta visão descolonizadora das relações Brasil-Portugal. Vamos falar, dentre outras coisas, da utopia evangelizadora do padre Vieira no tempo da encíclica "Louvado seja" do Papa Francisco, sobretudo no que tange a nossa Amazônia. Mas não podemos esquecer da mensagem ecumênica da "História do Futuro" nas comemorações dos 400 anos de Belém com a sua grande mensagem de paz e fraternidade a cristão, judeus e mulçulmanos. Nem olvidar a carta a caminho de Cametá, "As Esperanças de Portugal" calcada nas "Esperanças de Israel" de Menassé ben Israel, rabino da comunidade judaica portuguesa de Amsterdã... Menassé achava que os ameríndios eram descendentes das tribos perdidas do cativeiro da Babilônia e Vieira, no Maranhão e Grão-Pará, se tornou o payaçu dos índios. Promoveu as pazes com os índios Nheengaíbas (marajoaras) insubmissos ao rei de Portugal em Mapuá (Breves), a 27 de Agosto de 1659. a cabo de 44 anos de guerra de conquista do rio Babel ou das Amazonas pela aliança de remos e arcos tupinambás e as armas e os barões assinalados. 

O antissemitismo, Vieira percebeu desde o primeiro instante, era a causa da ruína de Portugal e desgraça da Espanha: mas a Holanda acolhedora dos judeus perseguidos no resto da Europa e antagonista do colonialismo ibérico pelo motivo antes dito, era sem dúvida uma interlocutora indispensável para o reconhecimento da independência de Portugal (1640) ao mesmo tempo que, ao invadir o Brasil; deu azo à consciência de pátria ao povo brasileiro donde a semente da independência foi plantada nas lutas de Pernambuco, unindo lusos, negros e índios. Mas, devagar com o andor que o santo é de barro: a Holanda liberal e progressista que andou plantando feitorias no rio Amazonas e saiu sob flechadas de índios tupinambás e tiros de arcabuz português foi a mesma promotora do abominável regime de apartheid na África do Sul.

Não podemos nos esquecer da nação Tupinambá nos 400 anos de Feliz Lusitânia (Belém do Grão-Pará): sem índios da utopia selvagem a Terra sem males, não estaríamos aqui para contar história. O Pará teria sido holandês ou francês, mas agora além de brasileiro somos cidadãos do mundo. O Igarapé do Piry, certamente, se referia ao cacique cuja aldeia hospedou Daniel de La Touche e sua expedição a Cametá, chamada "Mairi" (de mair, louro, francês). Foi no outeiro junto à boca deste igarapé que os tupinambás contatados pelo piloto Charles des Vaux para receber o capitão-mor português Francisco Caldeira Castelo Branco, que índios e brancos juntos levantaram o forte do Presépio, a 12 de janeiro de 1616. Três anos mais tarde, em 7 de janeiro de 1619: entraram em guerra uns com os outros, precisamente pelos abusos cometidos pelos lusos...

Além do outeiro à margem esquerda da foz do Igarapé desaguando na baía do Guajará, onde se levantou o forte; o comprido curso d'água se comunicava com o Igarapé Juçara (no cruzamento hoje da avenida 16 de Novembro com o Canal Tamandaré). Ambos tinham cabeceiras no Lago do Piry (além da travessa Padre Eutíquio em direção ao Largo da Trindade). Este trecho à ilharga da cidade nascente era parte do chamado Caminho do Maranhão levando ao Utinga e rio Guamá, até o varadouro do rio Caeté (Bragança) que o capitão Pedro Teixeira com escolta e guias indígenas tomou para levar a notícia de fundação de Belém a São Luís do Maranhão.

Esta mensagem aos jovens paraenses nos 400 anos da capital do Pará os convida a amar e defender esta singular cidade amazônica, estudando e compreendendo tudo quanto ela significa para a Amazônia, o Brasil e o mundo. Não tenho dúvida do poder da juventude. Destes meninos e meninas há de vir novos urbanistas, arquitetos, economistas e outras profissões; futuros vereadores, prefeitos, diplomatas donde uma reabertura dos caminhos d'água de Belém em cooperação internacional, notadamente com Portugal e Holanda nos dará ainda chance de realização do plano Gronfelts nos 500 anos.


sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

EU VOU PRA QUATIPURU.


Distrito de Bento Rodrigues, em Mariana (MG), depois do rompimento das barragens - Daniel Marenco / Agência O Globo



na era do Apocalypso uma desgraça 
nunca vem desacompanhada de outra.


O pobre morador de rua estava caidão num canto de calçada, perto da sarjeta numa feira ratuína de periferia. O sol já alto e gente  à beça passando, cachorro vadio quase mijando em cima da ressaca braba da criatura. Na noite passada, o malandro tomou todas e também puxou fumo. Estava um bagaço humano quando entre os passante adentra à feira em altos brados um pastor evangélico noviço, abraçado à Bíblia para anunciar o fim dos tempos. Jesus Cristo estava de volta à terra e o mundo sim, desta vez sem falta, ia se acabar.

 Ao ouvir a notícia, o cara fez um esforço danado para acordar e se levantar do chão. Passou a mão suja sobre os olhos remelentos talvez a se certificar se não era efeito do delirium tremens e olhando de perto ao homem de Deus protestou no mesmo tom: "Ah é? O mundo vai se acabar, será? Eu choro!... Amanhã vou pra Quatipuru". E mais não disse nem lhe foi perguntado a respeito donde ficará esse tal Quatipuru encantado. Na rica Amazônia imaginária há diversos lugarejos deste mesmo nome, todos eles onde os refugiados da revolução industrial adorariam descansar e passar seus últimos dias. 

Me lembrei desta estória gaiata quando, às vésperas da conferência do clima em Paris; estouraram as barragens da mineradora Samarco, em Mariana (Minas Gerais), fruto do ambicioso casamento tecnocrático da gigante anglo-australiana BHP Billiton com a multinacional brasileira companhia Vale. Era, paresque, o Apocalypso em meio às ingentes negociações da COP-21. E nós com isto? Quem fosse pra Quatipuru talvez ficasse fora do rio de lama envenenada a ser despejada pelo rio que era Doce ao mar-Oceano. Mas, assim mesmo, o lugarejo da salvação há de escapar das marés altas que o aquecimento global promete? Ora, pensei, se Quatipuru for ao fundo nem Miami escapa. A palavra "fundo" me faz lembrar do Banco Mundial e do FMI e já se sabe que todos estamos fritos indo para o buraco do apocalypso, com ou sem mudanças do climas. Quem rirá por último? O magnata cercado de muralhas anti-imigrantes por todos os lados? O matuto no mato sem cachorro? O morador de rua que não tem mais nada a perder? Então, sim, era caso de começar logo às margens do Sena, contemplando as ruínas das primevas civilizações do mundo no Quai de Branly, um vigoroso "salvem Quatipuru". Caso contrário, não vai ter peixe frito e açaí pra ninguém. O lugarejo mítico é como o sítio Ideal, de meu pai, que existia de fato mas nunca jamais foi ocupado nem vendido ou comprado na bolsa. Era uma espécie de ilha de Barataria prometida por Dom Quixote a Sancho Pança.


Sobre a conferência de Paris, dizem que o evento global em comparação com o que poderia ter ocorrido, foi um milagre de acordo. Todavia, comparado ao que deveria ser, estaria mais para desastre. Logo, urge providenciar para o caso de emergência climática pós-COP21, não apenas um Quatipuru da sorte, mas milhares de lugarejos de refúgio tipo Quatipuru. Precisa desenhar?
Muitos festejam Paris ressabiados ainda do fiasco de Copenhague, cheios de esperança de que as coisas aconteçam de fato conforme o combinado. Todavia convém ficar com as barbas de molho e deixar Quatipuru de sobreaviso. Ainda não está realmente afastada uma crise climática perigosa a todos e letal para muitos. Os governos falam em não sacrificar as gerações futuras, mas a herança dos combustíveis fósseis ninguém sabe como de fato se livrar dela. Um aquecimento de 2ºC a longo prazo irá deixar grandes áreas do planeta praticamente inabitáveis. Os cientistas, já não mais apenas profetas do caos; prevêm secas extremas em alguns lugares, graves inundações em outros, tormentas intensas e drásticas reduções de alimentos. Ilhas como as do arquipélago do Marajó e regiões da costa marítima correm o perigo de desaparecer debaixo da água. Acidificação da água do mar, morte de corais e derretimento do gelo do Ártico fariam o colapso das cadeias tróficas marinhas. Na terra, as matas tropicais retrocederiam, os rios secariam e aumentaria a desertificação. Nossa época ficaria sendo o tempo da extinção das espécies. 

Desde 1995, na primeira conferência do clima das Nações Unidas, em Berlim, se passaram 20 anos de jogo de empurra provocado por lobby das corporações de combustíveis fósseis. As conversações de Paris foram as melhores até agora, mas os delegados combinaram somente a diminuição da demanda destes combustíveis, sendo que cada um dos países produtores procura maximizar seu fornecimento. Inclusive, o Reino Unido se impôs “maximizar a reativação econômica” do setor de petróleo e gás do Reino Unido. Para os Estado Unidos, o acordo é muito bom e o made in Brazil precisa da energia do pré-sal com o sonho dourado da Educação. Educação para quem, perguntaria Paulo Freire se ele estivesse vivo. Mas se nada disso der certo, nem mesmo Quatipuru salvará a nossos filhos e netos do apocalypso.