sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

EU VOU PRA QUATIPURU.


Distrito de Bento Rodrigues, em Mariana (MG), depois do rompimento das barragens - Daniel Marenco / Agência O Globo



na era do Apocalypso uma desgraça 
nunca vem desacompanhada de outra.


O pobre morador de rua estava caidão num canto de calçada, perto da sarjeta numa feira ratuína de periferia. O sol já alto e gente  à beça passando, cachorro vadio quase mijando em cima da ressaca braba da criatura. Na noite passada, o malandro tomou todas e também puxou fumo. Estava um bagaço humano quando entre os passante adentra à feira em altos brados um pastor evangélico noviço, abraçado à Bíblia para anunciar o fim dos tempos. Jesus Cristo estava de volta à terra e o mundo sim, desta vez sem falta, ia se acabar.

 Ao ouvir a notícia, o cara fez um esforço danado para acordar e se levantar do chão. Passou a mão suja sobre os olhos remelentos talvez a se certificar se não era efeito do delirium tremens e olhando de perto ao homem de Deus protestou no mesmo tom: "Ah é? O mundo vai se acabar, será? Eu choro!... Amanhã vou pra Quatipuru". E mais não disse nem lhe foi perguntado a respeito donde ficará esse tal Quatipuru encantado. Na rica Amazônia imaginária há diversos lugarejos deste mesmo nome, todos eles onde os refugiados da revolução industrial adorariam descansar e passar seus últimos dias. 

Me lembrei desta estória gaiata quando, às vésperas da conferência do clima em Paris; estouraram as barragens da mineradora Samarco, em Mariana (Minas Gerais), fruto do ambicioso casamento tecnocrático da gigante anglo-australiana BHP Billiton com a multinacional brasileira companhia Vale. Era, paresque, o Apocalypso em meio às ingentes negociações da COP-21. E nós com isto? Quem fosse pra Quatipuru talvez ficasse fora do rio de lama envenenada a ser despejada pelo rio que era Doce ao mar-Oceano. Mas, assim mesmo, o lugarejo da salvação há de escapar das marés altas que o aquecimento global promete? Ora, pensei, se Quatipuru for ao fundo nem Miami escapa. A palavra "fundo" me faz lembrar do Banco Mundial e do FMI e já se sabe que todos estamos fritos indo para o buraco do apocalypso, com ou sem mudanças do climas. Quem rirá por último? O magnata cercado de muralhas anti-imigrantes por todos os lados? O matuto no mato sem cachorro? O morador de rua que não tem mais nada a perder? Então, sim, era caso de começar logo às margens do Sena, contemplando as ruínas das primevas civilizações do mundo no Quai de Branly, um vigoroso "salvem Quatipuru". Caso contrário, não vai ter peixe frito e açaí pra ninguém. O lugarejo mítico é como o sítio Ideal, de meu pai, que existia de fato mas nunca jamais foi ocupado nem vendido ou comprado na bolsa. Era uma espécie de ilha de Barataria prometida por Dom Quixote a Sancho Pança.


Sobre a conferência de Paris, dizem que o evento global em comparação com o que poderia ter ocorrido, foi um milagre de acordo. Todavia, comparado ao que deveria ser, estaria mais para desastre. Logo, urge providenciar para o caso de emergência climática pós-COP21, não apenas um Quatipuru da sorte, mas milhares de lugarejos de refúgio tipo Quatipuru. Precisa desenhar?
Muitos festejam Paris ressabiados ainda do fiasco de Copenhague, cheios de esperança de que as coisas aconteçam de fato conforme o combinado. Todavia convém ficar com as barbas de molho e deixar Quatipuru de sobreaviso. Ainda não está realmente afastada uma crise climática perigosa a todos e letal para muitos. Os governos falam em não sacrificar as gerações futuras, mas a herança dos combustíveis fósseis ninguém sabe como de fato se livrar dela. Um aquecimento de 2ºC a longo prazo irá deixar grandes áreas do planeta praticamente inabitáveis. Os cientistas, já não mais apenas profetas do caos; prevêm secas extremas em alguns lugares, graves inundações em outros, tormentas intensas e drásticas reduções de alimentos. Ilhas como as do arquipélago do Marajó e regiões da costa marítima correm o perigo de desaparecer debaixo da água. Acidificação da água do mar, morte de corais e derretimento do gelo do Ártico fariam o colapso das cadeias tróficas marinhas. Na terra, as matas tropicais retrocederiam, os rios secariam e aumentaria a desertificação. Nossa época ficaria sendo o tempo da extinção das espécies. 

Desde 1995, na primeira conferência do clima das Nações Unidas, em Berlim, se passaram 20 anos de jogo de empurra provocado por lobby das corporações de combustíveis fósseis. As conversações de Paris foram as melhores até agora, mas os delegados combinaram somente a diminuição da demanda destes combustíveis, sendo que cada um dos países produtores procura maximizar seu fornecimento. Inclusive, o Reino Unido se impôs “maximizar a reativação econômica” do setor de petróleo e gás do Reino Unido. Para os Estado Unidos, o acordo é muito bom e o made in Brazil precisa da energia do pré-sal com o sonho dourado da Educação. Educação para quem, perguntaria Paulo Freire se ele estivesse vivo. Mas se nada disso der certo, nem mesmo Quatipuru salvará a nossos filhos e netos do apocalypso.

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