quarta-feira, 23 de março de 2016

irmão Sol, irmã Lua no cerne da amazonidade.






O poeta da floresta fala sobre o humanismo

Agora sei quem sou.
Sou pouco, mas sei muito,
porque sei o poder imenso
que morava comigo,
mas adormecido como um peixe grande
no fundo escuro e silencioso do rio
e que hoje é como uma árvore
plantada bem alta no meio da minha vida.
Thiago de Mello


BREVE DISCURSO SOBRE A URGÊNCIA DA PAZ, DA EDUCAÇÃO E DA CULTURA NA CRISE PLANETÁRIA.



Amazônia, ultima fronteira da Terra? Pulmões do mundo? Ou coração pulsante da Biosfera? ... Nós, os amazônidas que aqui chegamos desde 10 mil anos atrás pelo caminho das Índias rumo ao Sol Nascente através da Ásia imensa e que da Europa para as Índias Ocidentais não paramos de navegar em busca do País do Futuro, arrastados a ferros do cativeiro africano para o cativeiro americano; só ultimamente nós estamos a começar a nos empoderar da História começada muito antigamente, na mãe África, há cerca de um milhão de anos. 

Que pensamos nós a nosso próprio respeito? Que sabemos nós sobre o maior rio da Terra? Que nós fazemos para impedir a devastação da Floresta Amazônica que enriquece a negociantes distantes e empobrece a gente do lugar? Que significa dizer que Marajó é o maior arquipélago de rio e mar do planeta? Que 20% da água doce superficial da Terra flui constantemente através do golfão marajoara para a Amazônia azul? ... Se por uma tragédia histórica, que nossos pais esqueceram ou nunca lhes informaram, nossos filhos e netos foram despossuídos de nossas terras ancestrais, dos nossos ritos tradicionais, das nossas origens no mundo?  O analfabetismo e mísero IDH estigmatizam a maioria de nossos parentes.

Sem paz, a educação não poderá jamais libertar da pobreza esta antigamente rica gente condenada ao limbo da História; sem ecocultura pouco importa montes de dinheiro e poder insano... A Cultura Marajoara de mil anos de idade contempla nossa triste ignorância a respeito da primeira ecocivilização amazônica.

A Criaturada grande de Dalcídio não sabe que sabe... Porém agora, com o despertar da imperecível vida inata a todo mundo, de que fala o Poeta da Floresta ecumenicamente comungada a todos amazônidas, natos ou por adoção, reunidos pelo Sol e a Lua na universidade da maré, estamos a tomar pé na ribanceira dos acontecimentos locais, nacionais e internacionais. 

Com a infeliz excomunhão do Jurupari, orixás e vóduns encantados; a colonialidade impera onde a inculturação (para não dizer dialética) do Espírito deveria florir por bosques e jardins em eiras e beiras do infinito rio de Heráclito. Em cujo fundo a gente lenda da primeira noite do mundo estava escondida pela cobra grande, dentro de um caroço de tucumã; no fundo do rio. Ali a utopia da Terra sem mal germinava. O romance do índio sutil resgata a metáfora do "Estatuto do Homem"...

Somos vários no vasto mundo como diversas as regiões amazônicas. As Amazônias brasileira, boliviana, peruana, equatoriana, colombiana, venezuelana, guianesa, surinamense e guianense são florão da América do Sul. O Brasil, o maior país amazônico do mundo tornou-se gigante quando atravessou a baía do Marajó rio acima até os contérminos no sopé dos Andes: primeiramente como possessão do reino de Portugal, por que no dia 27 de Agosto de 1659, depois de 44 anos de guerra, desde a tomada da França Equinocial (Maranhão) e da fundação de Belém do Grão-Pará; os rebeldes "nheengaíbas" invencíveis na guerra, numa confederação de caciques liderada por Piyé Mapuá aceitaram a proposta de paz que lhes oferecia a payaçu Antônio Vieira.

Decorridos 164 anos do fim da guerra de conquista do rio das Amazonas, Mapuá (Breves), foi a vez de Muaná em 28 de Maio de 1823; proclamar a Adesão do Pará à independência do Brasil. O Marajó velho de guerra anseia pela Paz, quer mais Educação e Cultura... Desenvolvimento humano sustentável segundo a Agenda 2030 da ONU. O povo marajoara já se queixou ao Bispo e agora convida o Papa Francisco visitar a antiga ilha dos Nheengaíbas e ver a paisagem cultural por onde o Padre grande dos índios passou. Descobrir a obra do irmão Sol no mito da Terra sem males, a arte ancestral da irmã Lua pelas mãos das matriarcas da cerâmica marajoara.

No delta-estuário do Amazonas se encontram inseparáveis os extremos Oriente e Ocidente no espaço curvo do caminho das Índias. No entroncamento geográfico do Paralelo Zero com o histórico Meridiano de Tordesilhas: assim, por um longo percurso no tempo e no espaço através da China e do Japão, a Sutra de Lotus como a Bíblia e os rituais Africanos aqui chegaram entre carregamentos de escravos, vinhos, armas e munições; especiarias, a árvore de fruta pão, mangueiras, jaqueiras, jambo, juta, cana de açúcar, gado zebu e búfalo; para despertar o bem e o mal na Arte e na Filosofia que habita o mito da primeira noite do mundo, no caroço de tucumã (Astrocarium vulgare) e no cerne da Victoria amazonica (Vitória Régia).
 







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