sexta-feira, 27 de junho de 2014

Auto dos 400 Anos: FELIZ LUSITÂNIA 2016


a cidade de Belém vista das ilhas na margem esquerda do maior rio do mundo.



SE A GUERRA NÃO EXISTISSE PRECISAVA SER INVENTADA.

Digamos logo, sem rodeios, não fosse o tremendão Tupinambá
canibal, carcará sanguinolento,
guerreiro indomável da utópica Terra sem mal
de infinitos males
o gigante Brasil não existia, 
não me venham com inglesias,
ainda que São José de Anchieta pregasse lá todas suas rezas
pelas das almas do Purgatório 
e a conversão dos caraíbas barra pesada.

Vista a coisa por outro ângulo:
por necessidade e acaso,
fazendo cara de santo de pau oco
o antropófago cristianizado
fez bom negócio na troca da legenda do bon sauvage,
carne e sangue do herói invejado
pelo pão e vinho consagrados pelo padre
na hóstia santa do Cordeiro divino.

Claro, é o que diz o marquetingue oficial...
Porém, há quinhentos e tantos anos,
havia coisa melhor ao puro e simples 
extermínio dos bárbaros?
a não ser fugir e se esconder no mato grosso 
até o fim dos tempos da grande noite colonial.

Que nem aqueles antigos príncipes cristãos
querendo em vida indulgência plena pra matar sem culpa
a seus inimigos 
mediante compra antecipada do caríssimo perdão litúrgico
de Sua Santidade;
os antigos caciques dos Brasis pagãos,
convertidos da boca pra fora, 
comeram a paca geopolítica no banquete tribal
acompanhados de suas sonsas mulheres da rede rasgada.

Ou seja, fingindo santidade
se aportuguesaram geral através do cunhadismo
que pariu a mina de mamelucos danados,
masporém batizados que deus o livre,
com os quais os Brasis conquistaram Nova Lusitânia
de tal modo que até hoje
cerca de quinhentos de tantos anos
vão por acabar de abrasileirar Portugal
e toda mais lusitanidade daquém e além mar. 

É claro que um tamanho prodígio mundial
do chamado país do Futuro
além de não poder acontecer de caso pensado,
também não podia ser
feito exclusivo de pajés-açus ou caraíbas
do Cruzeiro do Sul...

Mais de dez mil anos contemplavam esta gente
antes do fidalgo Cabral, diz-que, descobrir o Brasil
a caminho das Índias orientais. A África mãe da humanidade já havia chegado aqui
também
como em toda parte do velho mundo
na primitiva Dispersão planetária...

E duzentos anos antes de Colombo
o viajante negro Abu Bakari, rei do Mali, chegou aqui 
pelas bocas do Amazonas e foi morar
lá no Hayti 
onde seus canoeiros oceânicos
se ajuntaram a índias ocidentais
e por necessidade humana criaram
os índios-pretos do Caribe 
que mais tarde povoaram as três Américas
com força genética da mestiçagem avassaladora
que levou de arrancada pro beleleu
as tais "raças" puras.


NA ROTA DO POENTE A INVENÇÃO DA AMAZÔNIA

Em todo relato de frei Gaspar de Carvajal,
guardado a sete chaves até recentemente,
sobre a aventura de Orellana
não há uma só linha sobre mulheres guerreiras
amazonas da lenda da Capadócia...

Até por que o cavalo é um animal
trazido pelos espanhóis só muito tempo depois
amestrado pelos índios americanos.
Breve, sem cavalo não há amazona.

A lenda colonial hispânica houve outra fonte:
as "virgens do Sol"
monjas do serviço sagrado do Inca, filho de Inti,
ele mesmo um encarnação do astro do dia.
Com a morte de Atahualpa 
assassinado pelo conquistador Francisco Pizarro,
correu a lenda segundo a qual as sacerdotisas incas
foram à selva esconder o tesouro do Inca
muito além das cordilheiras.

Orellana era primo de Pizarro e foi alcaide de Puerto Viejo,
no golfo de Guayaquil, ele ouviu dizer
que seu primo Gonzalo Pizarro iria fazer uma grande entrada ao país da canela, na selva peruviana.
Arranjou homens, cavalos e víveres para se juntar
à expedição.
Chegou a Quito depois da partida de Gonzalo
e sem demora seguiu-lhe as pegadas...
Passadas a montanhas nevadas entrou na selva
para logo encontrar o acampamento com os castelhanos
em apuros.

Os índios obrigados a mostrar o caminho do suposto tesouro
levaram os espanhóis a se perder e errar o caminho...
Com a habitual brutalidade dos conquistadores
os índios desertaram deixando-os entregues à própria sorte,
perdidos, esgotados e famintos.

Viram assim os conquistadores os sonhos do saque se transformar em medo:
depois de comer porcos, bois e vacas, lhamas e cavalos
que levaram, foram obrigados a comer literalmente
a sola dos sapatos... 
Alguns morreram ao comer ervas e frutos selvagens.

Outra expedições igualmente funestas marcaram
época da busca aos tesouros jamais encontrados,
mas nenhuma outra com a grandiosidade de terror e loucura
igual a do país da Canela
que fica sendo até hoje a grande lição da Floresta Amazônica em não se deixar vencer pela insanidade humana.

Foi assim que para sair de seu labirinto na selva
Gonzalo Pizarro mandou fazer, com o resto de ferro
e madeira tirada da floresta,
dois bergantins para descer o rio em busca de comida.
Orellana acompanhado de frei Gaspar e mais uma centena
de castelhanos seguiram pelo rio desconhecido.
Atingiram a confluência do Coca com o Napo
e por que a corrente fosse impetuosa 
ou por que dessem já os companheiros por condenados
à morte
fizeram assembleia a saber o que fazer: desertaram...

Desceram o rio roubando comida e fugindo dos índios
em cólera, 
passaram o Rio Negro abaixo e pela altura
do Nhamundá e Trombetas onde sofreram forte ataque
dos índios da região e viram pela primeira vez
mulheres em guerra auxiliando a reabastecer os guerreiros
de flechas...

Aí a imaginação fundiu a lenda das "virgens do Sol"
com a lenda indígena das Icamiabas, mulheres sem marido
que moravam na lagoa Espelho da Lua donde provém
a estória do Muiraquitã...
Passaram pelas ilhas do Marajó sob nuvem de flechas
quando Carvajal teve um olho arrancado por flechada
antes de, finalmente, saírem ao Oceano
e foi o frade se recuperar na ilha Hispaniola onde escreveu
o relato da viagem, certo de que Orellana precisava
de boa desculpa para escapar à forca: 
de fato Gonzalo Pizarro tendo conseguido escapar com vida
apresentou acusação ao primo por roubo e deserção.

Mas Orellana havia um tio cristão-novo e depois sogro
pronto a defendê-lo na corte, 
assim o descobridor do grande rio
chamado de Orellana ou Marañon pelos hispânicos,
Amazonas dos portugueses, Paraná-Uaçu dos tupis,
simplesmente Rio, uêne dos aruacos;
não morreu na forca, mas com título de Adelantado del Río
e governador de Nova Andaluzia (Guiana espanhola)
veio misteriosamente a desaparecer no Pará, ano de 1544.

Cinco anos antes do famoso descobrimento
do "rios das Amazonas"
o mameluco português Diogo Nunes saído de São Paulo
através do Peabiru chegou ao Peru e serviu ao espanhol
Mercadillo 
numa entrada maluca em busca do tesouro do Inca
tendo retornado do rio Solimões de mãos abanando
e o espanhol levado amarrado para controlar a loucura...

Disse o mameluco ter encontrado no Peru cerca de 300
parentes Tupinambás feito escravos dos espanhóis,
últimos duma grande imigração de 14 mil índios
de Pernambuco
que durante doze anos pelo sertão e, provavelmente,
o rio dos Tocantins abaixo até o Grão-Pará
para seguir o por do sol Paraná-Uaçu acima até o fim.

Que diabo faziam lá em riba esses uns tão longe?
Conhecendo a religião dos Tupinambás 
e o espírito belicoso
dos Aruãs e seus próximos parentes Anajás, Mocoões,
Mapuás e outros tantos "nheengaíbas" velhos de guerra,
dá pra acreditar que a passagem pelas ilhas do Pará
adentro do Amazonas foi pacífica?


Yby marãey: 
a Terra sem males novamente procurada
 no rio das Amazonas

Já o príncipe português Dom Pedro I havia dado o tal grito do Ipiranga, fazia quase cem anos...
quando o alemão Curt Unkler movido por estranha compulsão veio a se naturalizar sob o conhecido nome
de Curt Nimuendajú: 

depois deste extraordinário caso
aclarou-se o mistério mais obscuro das migrações
dos povos Guarani, dentre os quais os inigualáveis Tupinambás.

Já se sabe com Florestan Fernandes e muitos outros
o mito formidável que trouxe dos contrafortes dos Andes
esta gente para beiramar em busca do lugar mágico
onde não existe fome, escravidão, doença, velhice e morte.

Por excelência a utopia selvagem do Bom Selvagem...
Sem ela, babau Manoel da Nóbrega, José de Anchieta, todos mais missionários e matabrugres bandeirantes!

O litoral povoou-se das esperanças daquela gente andeja
ao encontro do Sol levante: logo viu-se impossível o sonho
com aquele desconforme sol que nascia em alto mar...

A Paraíba com seu nome revelador nos diz da ruindade
de um mar-limite entre a realidade e utopia de muitas gerações e guerras entre tupi-guaranis e tapuias...

Que se passou àquela altura próxima do choque
entre índios e europeus?
Se os dez dias de abril 1500 foram felizes
1530 foi ano do grande desengano dos bravos antropófagos.
Os caraíbas consultavam Jurupari e a marcha para oeste
começou.

Em 1616 no Grão-Pará já haviam passado espanhóis, portugueses em viagem secreta, holandeses infiltrados
através do Cabo Norte (Amapá).
os franceses da França Equinocial (Maranhão)...

Os Tupinambás eram senhores da antiga terra dos Tapuias,
desde o Maranhão até a margem direita do Tocantins e Pará:
porém os falantes da "língua ruim" (Nheengaíbas) dominavam as margem esquerda e as ilhas
há uns cinco mil anos, mais ou menos.



Sem a pax dos Nheengaíbas (nuaruaques Marajoaras) não teria existido uma Amazônia portuguesa e, por consequência com a adesão do Pará à Independência, uma Amazônia brasileira.

Por outras palavras, sem protagonismo do povo brasileiro os 400 anos de Belém do Pará seriam ainda continuação da farsa da história que se tem feito ao longo de quatro séculos. 

E o Povo Brasileiro, de que falam os historiadores brasileiros desde Capistrano de Abreu com sua obra fundada na investigação das fontes, inclusive de natureza etnográfica ameríndia e arqueológica em contraponto ao pensamento eurocêntrico de Adolfo de Varnhagen, que ainda predomina nas elites do país; é mistura fina de índio, negro, branco, mameluco, tapuio....

A cidade de Belém do Grão-Pará, em 2016, completará 400 anos. Até o dia 12 de janeiro de 1616, na boca do igarapé do Piry; um longo passado histórico havia decorrido 
desde a ocidental praia lusitana para "achamento" da cobiçada "ilha do Brazyl" (matéria corante mineral) no imaginário país de São Brandão, que mercadores da Irlanda vendiam na Europa continental e o "descobrimento" (no sentido de revelar conhecimento secreto, segundo a teoria do segredo das navegações portuguesas, de Jaime Cortesão) do Brasil em Porto Seguro,
na Bahia de Todos os Santos, em 1500.

Para o senso comum, o capitão-mor da capitania do Rio Grande do Norte, Francisco Roso Caldeira de Castelo Branco, mandado do Maranhão levantar um forte no "rio das Amazonas" escolheu o lugar que mais convinha à missão militar e logo meteu mãos à obra fundando o forte do Presépio. Posse da coroa de Portugal sob a União Ibérica (1580-1640), cognominada Feliz Lusitânia...

Hoje o espaço Feliz Lusitânia é coração e mente do centro histórico de Belém. Convém, pois, que seja teatro da paz amazônica nas comemorações dos 400 anos para escarmento do mundo dilacerado por infinitos conflitos que não acham remédio à intolerância e malquerença congênita. 

Muitas vidas e mortes foram tributárias de nossa felicidade ou infelicidade agora...

O mar Oceano e o Rio-Mar num profundo abraço de vida e morte planetárias continuarão pelos próximos 400 anos a fazer história?
será, para nossos descendentes, o dia 12 de janeiro de 2416 uma futura Feliz Lusitânia? 

Será que até lá -- se o mundo sobreviver às suas próprias loucuras e desafios que hoje nem se podem imaginar -- ainda haverá a velha cidade lusitana junto ao velho Guajará plantada?

AUTO DOS 400 ANOS

Feliz Lusitânia, forte do Presépio teatro amazônico. Desta vez é teatro da paz... Paz 400 anos depois da grande guerra do rio Babel, Almazonas. Que nem fora a paz de Mapuá, ilha do Marajó, ponto final da guerra entre Nheengaíbas e Portugueses 40 anos desde a tomada do Maranhão passando além da linha de Tordesilhas, para expulsão dos Hereges dos domínios de Castela sob pavilhão da União Ibérica até 1640.

Acerca da velha guerra canibal entre Tupinambás e Nheengaíbas sabe Deus quando esta começou de fato e quantos anos levou mato adentro a dar munição e peças ao cativeiro da Babilônia amazônica que o Grão-Pará se tornou...

Com o incrível acordo dos sete caciques rebeldes das ilhas (Mapuá, Aruã, Anajá, Mamaianá, Combocas, Pixi-Pixi, Guaianá), de 27 de Agosto de 1659 no teatro de paz dos Marajós, já a posse da coroa de Portugal se fazia efetiva sobre a pretensão de dilatação das raias do Grão-Pará, desde Belém até o Rio Negro e Alto Amazonas desde a famosa viagem de Pedro Teixeira a Quito (de 1637 a 1639): até aí a aliança histórica de lusos e tupis manifesta no tamanho da ambição sobre o antigo território aruaco, mas sem efetivo consentimento dos reais donos da terra e naturais senhores de lagos e rios, os mapas da região e cartas de sesmaria não valiam nada. É isto que vale rememorar agora a paz de Mapuá...

A usurpação deste uti possidetis aruaco milenar que está na base da Adesão do Pará à Independência do Brasil é roubo e traição à boa fé dos índios com grave perturbação aos direitos humanos de seus herdeiros e descendentes que deu causa a guerra-civil dos sumanos cabanos. Agora urge denunciar, mais uma vez, a histórica exclusão de índios e negros da História do Brasil para inventar o futuro desta brava gente em meio aos 400 anos de Belém do Grão-Pará.

Arcos e remos Tupinambás abriram os caminhos do sertão para ocupar altos rios. Aldeias tapuias das missões fizeram o trabalho da paz: assim se inventou a Amazônia, onde o estado precedeu à sociedade, é justo nesta hora dar cabo ao apartheid historiográfico brasileiro para colocar os antepassados do povo amazônida, finalmente, em lugar de honra da sua própria história...

Masporém, desta vez Feliz Lusitânia à beira rio plantada com mil felicidades para todos Brasis e a Portugália inteira repartida pelo mundo que o português inventou e desta vez pra valer além de Áfricas de safáris, do discurso das horas e dos salvados da traça do tempo na Torre do Tombo!

Desta vez, o cacique tupinambá Cabelo de Velha não precisará mais assaltar a fortaleza, nem pular o muro e tombar morto, outra vez, dentro da praça forte feito ladrão que espreita dentro da noite para atacar e se vingar da injúria dos séculos cometidas contra seu povo... 

Ou que nem um espectro noturno num terreiro distante, no subúrbio pobre de todas cidades que nem Belém do Pará, de Portugal ou Palestina onde os vóduns do mistério vem semear esperança em casa de Mina, cujos tambores e cânticos ecoam na cidade sonâmbula que se volta de costas ao mar profundo e ao grande rio das origens do Homem e do espírito; filho do homem livre e desimpedido das ilusões desta vida passageira.

Guaimiaba, impávido que nem Bruce Lee, entra forte porta adentro do Presépio. O sentinela mulato inzoneiro tal qual índio sutil lhe presta continência. A cerimônia solene dos 400 anos não poderia passar sem o ancestral cacique Tupinambá...

Dentro do recinto no papel de fiel defensor dos índios
o Padre Antonio Vieira espera e se prepara para usar sua poderosa arma oratória.

De pé! Diz um voz de trovão em decibéis apocalípticos.

Eis que chegam delegações tupinambás de Cametá, Mocajuba, Igarapé Mirim, Abaetetuba, Barcarena, Acará, Moju, Guamá, Curuçá, Vigia, Maracanã, Marapanim, Bragança, Viseu... 

E das ilhas em dezesseis igarités grandes
trazendo como legenda o nome do respectivo povo nuaruaque insulano:

em movimento anti-horário do relógio solar da ilha do Marajó -- "Guaianá", "Arariúna", "Sakaka", "Arari", "Maruaná", "Aruã", "Anajá", "Charapucu", "Mapuá", "Mariocai", "Aricará", "Aracaru", "Araticum", "Muaná", "Samanajá" e "Maruaru".

Na plateia, poucos percebem ainda que as delegações das ilhas correspondem pela ordem de chegada aos municípios da Costa-Fronteira do Pará, a partir do rio Marajó-Açu que dá nome a toda ilha grande do estuário do Amazonas: Ponta de Pedras, Cachoeira do Arari, Salvaterra, Santa Cruz do Arari, Soure, Chaves, Anajás, Afuá, Breves, Gurupá, Melgaço, Portel, Bagre, Muaná, São Sebastião da Boa Vista e Curralinho. 

Não podiam faltar os Tucujus em nome do povo do Amapá, mais os mais velhos mocambos, já chamados de quilombos; desde o Trombetas e Curuá pra baixo.

Aí, paresque, sem outro aviso se não o Sermão aos Peixes, proferido pelo dito padre grande Antonio Vieira, no ano de 1654, na cidade de São Luís do Maranhão; de repente vai se passar o juízo final do rio Babel... 

Quem foi avisado que tal dia seria convidado?

O público é pego de surpresa. Já está visto que se o padre Vieira é advogado dos índios ele não poderá, ao mesmo tempo, servir de promotor... E o juiz quem há de ser neste júri extraordinário e inesperado em plena festa de aniversário belenense? Uma voz fria anuncia: frei Bartolomeu de Las Casas a fazer acusação aos réus...

Réus? Oh, céus! Todos se entreolham. Até os índios que poderiam ser as vítimas principais em julgamento e os negros ali presentes pelas mesmas vexações, uns e outros sempre acusados de paganismo e feitiçaria pelo tribunal do Santo Ofício, não deixam eles de se preocupar em sair dali mais uma vez tendo que pagar o pato e trabalhar dobrado de castigo pelos malfeitos da história da acidental civilização. 

Um movimento involuntário faz a plateia olhar atrás onde certas figuras à caráter fariam lembrar velhos coloniais em seus melhores trajes de missa domingueira. Já uma expressão de medo, rostos tristes e empoados, desfigurados pela culpa de tontos séculos que não permite mais adivinhar a antiga arrogância e impiedade senhorial de outrora.

Meu Deus! Meu Deus! Geme uma velha beata senhora de engenho, dizendo ela com ar caduco: "que está a acontecer?"... A Igreja comparece em peso do alto clero episcopal da capital ao baixo oratório nas paróquias mais perdidas do sertão verdevagomundo de Bené Monteiro. Sinos anunciam o início solene da sessão e a voz anuncia a chegada da Advogada, Senhora Maria de Nazaré... 

Quem a conhece? Uma mulher de feições tapuias, seria ela preparada a contra-argumentar às pesadas acusações esperadas? Ao mesmo tempo a senhora aparentava ser uma pessoa distinta e popular, ela entra acompanhada por um senhor idoso com de ar devoto do Círio, chamado paresque 'seu' José Português, compadre do caboco Plácido.

Atenção, muita atenção! repete a voz que parece vir com o vento trazendo chuva e tempestade sobre a cidade das mangueiras. 

Levantem-se todos, o Juiz supremo se apresenta!

Quando os olhares procuram pela altíssima majestade da Justiça, eis que surge um menino moreno de uns doze anos de idade, aproximadamente. Com sorriso nos lábios o menino se encaminha a um tipo de trono aveludado disposto sobre o tablado.

Frei Bartolomeu deixa escapar sua surpresa, dizendo ele de queixo caído: "Ah, mas é uma criança!"... E mesmo o astuto padre Vieira não esconde seu espanto. Um velho que parecia ser a cara cuspida e escarrada do cruel Bento Maciel Parente há três séculos pensou em protestar contra a menoridade do meritíssimo, mas já estava ele a sentir pesar sobre a cabeça a mão da justiça divina e calou-se.

"Mas, que é isto?" Quis saber um bispo da Cúria... A Advogada dativa Senhora Maria de Nazaré respondeu, "Vossa Reverendíssima deve saber que é o Menino Deus". Então se fez silêncio profundo como no antepenúltimo minuto que antecedeu a primeira noite do mundo. Um minuto de silêncio. Mas tão intenso como a eternidade... O Menino sorri e seu sorriso era como uma música para acalentar o mundo de todas inocências perdidas. E o mundo sorria com alegria infantil do Menino Deus, imperador do Quinto Império: diante da graça os ímpios tremiam e o tristes cantavam plenos de felicidade.

A voz oculta voltou a falar. "Tomem seus lugares. Que fale a acusação, frei Bartolomeu..."

"Meu senhor Jesus, perdão... Por minhas culpas. Já não sei dizer se os maus cristãos são mais pecadores que eu, que na minha penitência não fui capaz de converter o duro coração daquele pobre castrado e empedernido jurisconsulto Ginés de Sepulveda em sua tese polêmica contra os direitos humanos dos índios... Nem soube eu convencer a El-Rei que todos somos igualmente filhos de Deus ou Natureza com certeza... Sim os lobos matam e decepam os cordeiros para alimentar cães ferozes, mas nossa voz apostólica não foi forte o bastante para defender os fracos e oprimidos a enfrentar os potentados dementados pela febre do ouro. Confio em vossa Justiça, amém".

O Menino parecia distraído naquele júri da Terra imatura e a Advogada Senhora Maria de Nazaré deixava de lado os autos do processo para contemplar o Menino. A velha fortaleza desfazia sua sina de masmorra, pintava os canhões frios e silenciosos com as cores mais risonhas do arco-íris, plantava roseiras sobre a muralha e fazia o verde rebrotar sobre as pedras para se converter em verdadeiro presépio.

José saiu um pouco para tomar ar novo e olhar o tempo lá fora sobre a baía escumando sob vento geral, viu que a terra era boa e a gente da terra amável como seus vizinhos na Galileia. Uns índios vindos da feira do Açaí, no Ver O Peso; seguidos de perto pelos três Reis Magos em altos papos com pajés e babalorixás se aproximaram para conversar mais por gestos que por palavras mui estranhas.

Era chegada a hora do padre Antonio Vieira fazer a defesa dos índios Nheengaíbas das ilhas, acusados de pirataria e rebeldia à santa madre religião. O vereadores da Câmara temiam o pior: que o povo fosse lembrado de que os representantes da Cidade requereram o cativeiro e extinção de todos Marajós... Mas, grande comoção, o grande tribuno do Quinto Império do mundo estava mudo. Mudo que nem passarinho na muda, como Zacarias na Bíblia que não acreditou ser possível na sua velhice e de sua mulher Isabel ainda pudesse o casal, velha oliveira, gerar brotos iguais a João Batista. Voz que clama no deserto... E o payaçu dos índios, daquela vez, não clamou coisa nenhuma: tudo que ele disse antes e poderia dizer depois já era pleno entendimento do coração de Jesus. Tampouco falou Maria, por desnecessário.

A sentença estava lavrada na consciência de cada um. O Menino por que é Deus, masporém não deixa de ser sempre menino ribeirinho, foi brincar na outra margem do rio passando pelo furo da Paciência ao grande rio-mar de água doce caminhando sobre as águas, seguido por Maria de Nazaré e "seu" José a bordo de canoa montaria os anjinhos a remar. 

Os negros quilombolas foram embora felizes da vida a festejar a liberdade como nunca dantes. E os índios seus parentes e aderentes em suas canoas boas fizeram velas com alma nova rumo ao futuro. Enquanto isto, velhos matabugres dementes subitamente libertados do Mal acharam melhor ir a pé descalços acompanhar o Círio na corda, como qualquer outros pagador de promessa pela grande graça alcançada em perdão e sincero arrependimento de suas vidas tortas.

segunda-feira, 16 de junho de 2014

VIVA DALCÍDIO!



Canções de Alinhavo

Chove nos campos de Cachoeira
e Dalcídio Jurandir já morreu.
Chove sobre a campa de Dalcídio Jurandir
e sobre qualquer outra campa, indiferentemente.
A chuva não é um epílogo,
tampouco significa sentença ou esquecimento.
Falei em Dalcídio Jurandir
como poderia falar em Rui Barbosa
ou no preto Benvindo da minha terra
ou em Atahualpa.
Sobre todos os mortos cai a chuva
com esse jeito cinzento de cair.
Confesso que a chuva me dói: ferida,
lei injusta que me atinge a liberdade.
Chover a semana inteira é nunca ter havido sol
nem azul nem carmesim nem esperança.
É eu não ter nascido e sentir
que tudo foi roto para nunca mais.
Nos campos de Cachoeira-vida
chove irremissivelmente.

Carlos Drummond de Andrade. Livro Corpo – 2º edição – Editora Record, 1984.

Falei em Dalcídio Jurandir como poderia falar em Alfredo, sua criatura imortal. Ou em Giovanni Gallo com seu sui generis ecomuseu da comunidade ribeirinha do lago e rio Arari... Confesso que a morte do índio sutil marajoara, na cidade do Rio de Janeiro, nesta mesma data há 35 anos passados, ainda me dói. Esta morte somada a do marajoara que veio de longe, padre Gallo, na cidade de Belém do Pará a 7 de março de 2003; são dessas grandes mortes que ficam doendo no coração da gente pelo resto da vida.
 
 
Porém, a Criaturada grande de Dalcídio sabe que gente fica encantada, nunca morre, tal qual Guimarães Rosa falou. Libertado do mal de Parkinson pela imaginação criativa de seus fiéis leitores; o autor de "Chove nos campos de Cachoeira" vive. Ele chega, todos os anos, com as primeira chuvas para semear o verde nos campos queimados. Assistir com os vaqueiros a festa do Glorioso São Sebastião, rever o chalé e meditar debaixo na árvore Folha-Miúda misturando sonhos, estrelas e passarinhos na beira do rio.

 
Graças à fidelíssima amiga Maria de Belém Menezes, filha do poeta Bruno de Menezes, arquitetou-se a ponte dalcidiana Rio-Pará por onde circulam notícias da Criaturada. Acontecimento metafísfico que acabou aproximando o escritor agnóstico e o padre insubmisso dos pescadores do lago Arari: assim, veio a lume o extraordinário livro-reportagem "Marajó, a ditadura da água", primeiro da trilogia que constitui o fundo memorial da vida e obra de Giovanni Gallo, onde O Nosso Museu do Marajó é a grande figura emblemática de "cacos de índio" transformados num renascimento cultural sem precedentes.
 
 

De modo semelhante, com fragmentos de história oral, hoje poderá ser considerado no próximo futuro o primeiro DIA DE ALFREDO: uma pequena semente simbólica de tucumã (Astrocarium vulgare) extraído do Mito da primeira noite, para nascimento da ideia genial da divina canhapira do Turismo Literário na paisagem cultural Belém-Marajó... 
 
Neste dia também plantou-se no Rio de Janeiro, a par da Casa de Cultura Dalcídio Jurandir (CCDJ) e da Fundação Casa de Rui Barbosa (FCRB), zeladoras da obra do escritor marajoara, a ideia de um modesto núcleo de amigos do Museu do Marajó. Intelectuais sensibilizados da importância de elaboração de projeto de valorização da Cultura Marajoara, podendo a termo levar junto à UNESCO e mais instituições de cooperação para ciência, educação e cultura estudos sobre repatriação de peças e coleções pré-colombianas levadas da ilha do Marajó para o exterior.
 
 
No infinito de nossas lembranças, Dalcídio e Gallo reunidos num eterno abraço fraterno estarão presentes, em Cachoeira do Arari, na grande festa de reinauguração de O Nosso Museu do Marajó e nova Casa de Dalcídio para acolher as primeiras cerâmicas repatriadas na história da brava gente marajoara. 
 
Quem viver verá.

    terça-feira, 3 de junho de 2014

    Cultura Marajoara, Belém do Grão-Pará, usos e abusos do Patrimômio Histórico.

    QUATRO ESTAMPAS E UMA HISTÓRIA DO MAIOR RIO DA TERRA







    Não à Construção do Shopping Bechara Mattar Diamond no Centro Histórico sem Estudo de Impacto de Vizinhança (EIV)!


    Uma imagem vale por cem discursos. Logo, quatro imagens valem por quatrocentos discursos sobre os 400 Anos da Amazônia. 

    400 anos da Amazônia sim, embora o país que se chama Pará com seu porto Caribe seja muito mais velho que todos descobrimentos do caminho marítimo das Índias. 

    Perto da Tapuirama ou Tapuya tetama (terra Tapuia) a Amazônia lusitana é uma criança. A velha Cultura Marajoara no bojo do circum-Caribe, por exemplo, teve inícios cerca do ano 400 da era cristã: 

    com apoio na Arqueologia americana, trata-se da primeira cultura complexa da Amazônia. Arte primeva do Brasil, sim senhor. Ou Marajó não é Amazônia brasileira?

    Logo, se a fundação de Belém do Grão-Pará deve ser a data do começo da Amazônia portuguesa, pelo mesmo princípio - "tu te tornas responsável por aquele que cativas" (Aristóteles) e que formidável cativeiro dos povos aruaques e caribenhos desde a chegada dos primeiros cristãos nas Bahamas (aliás, ilha Guaanani) até a conquista do rio das Amazonas!... -, os paraenses que, no passado distante, por seus antepassados optaram pela soberania portuguesa e depois brasileira deixaram esta terra a seus herdeiros e sucessores: sendo agora, por causa desta herança histórica, coletivamente responsáveis pela conquista do rio das Amazonas com suas boas e más consequências até as futuras gerações. 

    Quem, individualmente, fazendo uso da sua liberdade quiser abdicar da amazonidade poderá fazê-lo com toda responsabilidade. Sabendo já que há de encontrar no povo paraense forte resistência e oposição, com fundamento na bravura dos antigos Nheengaíbas contra todos invasores da Terra Tapuia, como se comprova ao longo de nossa história de mais de mil anos de busca do "Arapari" (pais do Cruzeiro do Sul), para não dizer a Pátria Grande latino-americana e caribenha.

    Está claro que o "uti possidetis" de 1750 não foi sobre um verde e vago território desabitado, terra de ninguém na jurisprudência colonialista de Gínes Sepulveda na célebre polêmica com Bartolomeu de Las Casas, na corte de Valladolid. Mas, no que concerne à construção territorial da Amazônia, como o termo de direito romano diz, território ocupado e possuído continuamente por diferentes povos de diversas culturas e línguas desde tempos pretéritos.

    Precisava a calamidade universal de duas grades guerras mundiais com o abominável Holocausto e a hecatombe atômica de Nagazaki e Hiroxima para dos funerais da Liga das Nações nascer a Organização das Nações Unidas (ONU), testada duramente na Guerra Fria até a virada do século XXI com suas esperanças e angústias onde irão decorrer, em muito breve, os 400 anos da Amazônia.

    PRA NÃO DIZER QUE SE ESQUECEU DO "BON SAUVAGE" NA "BELLE ÉPOQUE".

    Nossos índios não comem ninguém. E onde estão os "nossos índios"? Muitas vezes basta se olhar no espelho. A maioria mora no bairro do Jurunas, na Condor, Terra Firme, Guamá, Marambaia, na Pratinha, Paracuri, Icoaraci, Tapanã, Barreiro... Anda de ônibus, mas também é gente boa em partamento de cobertura, carrão importado e viaja muito para o Sul maravilha e ao exterior: o problema é que estes filhos de Ajuricaba e dos Ingaíbas se esqueceram que seus avós e pais foram índios, tem vergonha de suas origens indígenas e não gostam de índio. Em geral, preto não querem ser ainda que o cabelo e a cor da pele não neguem...

    Todo mundo, graças a Deus, que tem uma gota de sangue europeu quer logo ostentar alguma antiga nobreza genealógica. O avozinho degredado ou deportado, o imigrante camponês nem bem cruzavam a linha no equador em alto mal e já ganhavam ares de sangue azul prontos a civilizar os trópicos e a povoar as terras incultas a procriar uma barbaridade contra mulheres indígenas e negras africanas escravizadas. 

    Mas a pergunta que não quer calar: como pouco mais de uma centena de portugueses moradores de Belém (no dizer do padre Antonio Vieira, na segunda metade do século XVII), fora os padres, os escravos e os índios; puderam "ocupar" o Grão-Pará ou Amazônia portuguesa? 


    Como foi possível que, contrariando tudo que se sabe sobre a religião vingativa de milhares e milhares de tupinambás, antropófagos convictos e guerreiros destemidos; mal saídos de um enorme massacre desde o Gurupi até o Guamá, na temerária represália dos portugueses comandados por Pedro Teixeira, Bento Maciel Parente, Pedro Favella e outros façanhudos; ao assalto dos guerreiros de Guaimiaba (Cabelo de Velha) ao forte do Presépio, em 7 de janeiro de 1619, a cabo de violências e injúrias mil dos brancos contra os índios; passados quatro anos apenas esses índios se apresentassem animosos ao primeiro chamado de um frade prontos a ser comandados pelos mesmos portugueses em ataque aos estrangeiros no Marajó, Xingu, Baixo Amazonas e Amapá botando-lhes rio afora até o Cabo do Norte?

    A menos que os caciques e pajés desses índios fossem estúpidos (o que seguramente não eram). E como o "malvado" capitão Pedro Teixeira foi convertido em "branco bom" com poucos soldados e 1200 Tupinambás numa incrível viagem, de Belém a Quito (Equador) durante dois anos, ida e volta, numa odisseia que ainda causa assombro até hoje? Não é extraordinária que a "teoria do milagre" sustente a historiografia oficial luso-brasileira dos compêndios mais citados?

    Por que, na verdade, a chamada Feliz Lusitânia (projeção histórica da Nova Lusitânia (Olinda, Pernambuco), que foi transplantação da velha Lusitânia ibérica)se refere ao forte do Presépio erigido num teso à beira do Igarapé do Piry com ânimo bélico conquistador por lusos e tupis frescamente conciliados às margens do Grão-Pará (aliás, Paraná-Uaçu dos Tupinambás, ao qual correntemente cabocos do Marajó chamam Parauaú ou mais particularmente rio de Breves).

    Antes de 12 de janeiro de 1616 nem se falava em "rio das Amazonas",mas - muito vagamente -, de um incerto rio grande de Orellana, supostamente descoberto por acaso nos domínios coloniais dos Reis Católicos (reino de Espanha) nos termos do Tratado de Tordesilhas de 1494, entre os reis de Espanha e Portugal, à beira da guerra por causa do descobrimento da América (que ainda América não se chamava, mas de Novo Mundo).

    O relato de viagem do navegador espanhol Vicente Pinzón (1500) estava trancado a sete chaves, como a notícia da aventura de Orellana, em 1542, e 1544 com sua morte no Pará. A comunicação fluvial do Amazonas com os Andes era segredo de estado. Por isto, a presenças de holandeses, ingleses e franceses foi tolerada pela União Ibérica até se constituir uma ameaça verdadeira. Enquanto Portugal, submetida à Castela, procurava no Brasil pretextos e meios para penetrar no cobiçado rio com as promessas de ouro e lendas que ocupavam as mentes do velhos mundo.


    A QUESTÃO DA AMAZÔNIA É A COLONIALIDADE DOS PAÍSES AMAZÔNICOS

    O espaço esconde as consequências: e já se sabe que a colonialidade é pior que o colonialismo. O Brasil é o maior pais amazônico do mundo, graças à adesão do Pará à Independência (1823). Desgraçadamente, a troca do colonialismo português pelo neocolonismo brasileiro produziu a tragédia que atende pelo título de Cabanagem onde até o nome de cabanos é um impostura de Basilio de Magalhães, do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB), quando o combatente paraense nunca se tratou por tal nome. Eram paraenses e ponto final.

    No próximo dia 15 de agosto o Estado do Pará vai se deliciar com mais um feriado da "data magna" paraense. Na verdade esta data é uma vergonha na memória dos mártires da adesão do Pará no movimento patriótico de 14 de Abril cujo máximo momento de autêntica brasilidade aconteceu na heróica vila de Muaná, na ilha do Marajó, em 28 de Maio de 1823. Miseralmente traído, vilipendiado e esquecido pelos feitores oficiais da historiografia amazônica.

    E a verdadeira história do Norte brasileiro avisa aos navegantes do Amazonas o fato incontornável de que, sem caraíbas ou pajés-açus da nação Tupinambá, não teria o Brasil o território que tem. E sem a massagada Tapuia, notadamente no tal "rio Babel" ou das "Amazonas"; não se poderia jamais alegar perante a História Mundial os direitos preliminares de Portugal e depois do Brasil independente.

    Portanto, o melhor a fazer nos 400 anos de Belém, além do famoso bolo de aniversário com que os políticos adoram fazer declarações de amor à cidade de Castelo Branco e anunciar projeto futurosos para a população do saudoso burgo Paris n'América; penso eu que seria dar motivos um bom mergulho no rio do tempo. Fazer uma história da história do Pará, onde de hoje em diante os primeiros capítulos começassem a ser escritos em trabalhos escolares com os futuros cidadãos a dizer não só a cidade de seus sonhos, mas também a descobrir as raízes do passado deste mesmo espaço.

    Que as crianças de Belém, habitando o tempo de seus antepassados; amanhã ao fazer o roteiro geográfico da cidade possam, corretamente, decodificar em cada monumento um ícone que remete a novas descobertas: uma Feliz Lusitânia do século XXI, que não se envergonhe nem esconda as infelicidades, loucuras e crimes até; cometidos em nome da fé ou ambição de tesouros imaginados e nunca encontrados para glória do humilhado Portugal na União Ibérica (1580-1640).

    Está faltando ao pé do monumento a Pedro Teixeira no porto do Pará, pelo menos, duas memórias ao alcance do entendimento do povo brasileiro: 

    primeiro, clara referência à utopia selvagem dos Tupinambás, sem a qual o bom selvagem jamais faria pazes com o odiado inimigo português (na lição de Florestan Fernandes e muitos outros que revelaram a religião dos tupi-guarani e o fado das suas intermináveis migrações em busca da Terra sem Mal); segundo, a "linha" de Tordesilhas (1494-1750), tirante de polo a polo que passava sobre Belém (Pará) e Laguna (Santa Catarina)fazendo a Costa-Fronteira do Pará cortar a baía do Marajó entre Espanha a oeste e Portugal a leste...

    Aqui o Quinto Império com a utopia sebastianista do payaçu dos índios, Padre Antonio Vieira, teve seu magno teatro. E, sem saber, mesclou-se aos mitos fundadores da saga dos Tupinambás, remanescentes na Amazônia nos ritos populares das religiões afroameríndias que explodem em ritmos tropicais na cultura popular vinda de diversos horizontes. E enriquecem a diversidade cultural do Carnaval Devoto que, inseparável e dialeticamente, acompanha o Círio de Nazaré em conexões mil com o velho mundo desde origens ancestrais da lenda da Nazaré, em Portugal, com o culto da Virgem céltica e do cristianismo virgem, oriundo do oriente desde a Galileia.

    Não chorar nem rir, como diria Espinoza, mas compreender. Compreender como o passado se faz presente e, cavilosamente, represa o rio da história. Perpetua-se em espaços que eram públicos desde os começos do mundo... A privatização em si mesma não é um mal se o particular não se torna dogma e prepondera absolutamente sobre o social e por força ou astúcia corrompe e avilta o interesse público. Tal é a essência da República pela evolução do tempo coletivo.

    UM PEQUENO GRANDE PASSO NA RECONSTRUÇÃO DA MEMÓRIA DA CIDADE

    Ontem, dia 2 de junho de 2014, a Câmara Municipal de Belém, capital do Estado do Pará; abriu suas portas para a sociedade civil discutir a construção de um polêmico projeto comercial na área nobre do centro histórico. Não foi esta a primeira vez nem será a última que a casa do povo deu espaço político para a sociedade manifestar-se livremente. A salvação da democracia representativa, cada vez se constata, vem com o progresso da democracia participativa... E o dia 2 de junho último foi mais um passo nesta direção.

    Para não cometer injustiça de omitir o nome de pessoas que lá estiveram conforme o chamado, direi apenas as entidades e instituições que compareceram, e destacar as falas que mais me chamaram atenção e motivaram-se a fazer este registro, não necessariamente na ordem dos pronunciamentos.

    Começa que a sessão especial programada não ocorreu devido à insuficiência de público... Isto mesmo. Mais de mil convidados, que certamente não receberam convites impressos de costume, por que o cerimonial da Casa ou por qualquer outro motivo não enviou, foram substituídos por poucos interessados... Mesmo assim, o correio eletrônico e o facebook passaram avisando por mais de uma semana. Não foi quem não pôde ou não quis. Mas acho que os que foram não perderam a viagem. Muito pelo contrário. Em vez do costumeiro exibicionismo de tribunos exaltados viu-se uma atenciosa troca de informações e manifestações sinceras que transformaram o plenário da Câmara num interessante colóquio.

    Iniciativa conjunta da associação Cidade Velha-Cidade Viva (CiVViva) e da Academia do Peixe Frito (APF)o evento teve patrocínio do mandato de vereador do PCdoB abrindo seu gabinete aos movimentos da sociedade civil. Uma participação didática do MPF sobre a questão de licenciamento do suposto "shopping" Bechara Mattar Diamond em área tombada pelo IPHAN, que se tornou 'leitmotiv' das discussões sobre preservação do patrimônio do centro histórico de Belém.

    Tive grata surpresa de reencontrar amiga há muitos anos residente em Portugal, parceira alguma vez de estudos sobre Pedro Teixeira; ela também fã das geminações entre cidades amazônicas e portuguesas homônimas. Feliz coincidência do despretensioso encontro na Câmara Municipal de Belém com o voo inaugural da nova linha circular transatlântica Lisboa-Manaus-Belém-Lisboa rumo à Copa, primeiro Círio de Nazaré sob label de patrimônio da humanidade e quiçá neste mês em Doha (Catar, país árabe homenageado na Feira Pan-Amazônica do Livro, em Belém do Pará) o Ver O Peso patrimônio mundial ambos títulos conferidos pela UNESCO e tudo isto em curso aos 400 ANOS DA AMAZÔNIA.

    Por isto considero a reunião de ontem um pequeno grande passo para invenção do futuro que queremos, resgatando o passado que temos. A democracia participativa, timidamente, avança. O Marajó pode separar-se do Pará como está separado do Amapá... Mas, as duas margens do golfão marajoara são inseparáveis como no Mediterrâeno oriente e ocidente não se separam.

    O Museu do Marajó é ecomuseu do homem marajoara: como tal ele está no Ver O Peso ou em Macapá, e não foi por acaso que numa numerosa delegação de prefeitos e vereadores do Marajó, o fundador do Museu do Marajó, Giovanni Gallo, em 1996, foi convidado a passar uma semana de intensas atividades acompanhado do coordenador do campus da UFPA em Soure, do superintendente regional do IPHAN, de arquólogo representante do Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG) e do presidente a AMAM.

    Pena que no fim da viagem havia participante que não entendeu o que foram lá fazer tanta gente. E passado tempo não se encontre, praticamente, nenhum registro sobre isto. Agora foi a vez da Martinica fazer um gesto de aproximação com o Pará. Por que será? E a UNESCO começa, aos poucos, a enxergar nossa região. Avante! Água mole em pedra dura...