sexta-feira, 27 de junho de 2014

Auto dos 400 Anos: FELIZ LUSITÂNIA 2016


a cidade de Belém vista das ilhas na margem esquerda do maior rio do mundo.



SE A GUERRA NÃO EXISTISSE PRECISAVA SER INVENTADA.

Digamos logo, sem rodeios, não fosse o tremendão Tupinambá
canibal, carcará sanguinolento,
guerreiro indomável da utópica Terra sem mal
de infinitos males
o gigante Brasil não existia, 
não me venham com inglesias,
ainda que São José de Anchieta pregasse lá todas suas rezas
pelas das almas do Purgatório 
e a conversão dos caraíbas barra pesada.

Vista a coisa por outro ângulo:
por necessidade e acaso,
fazendo cara de santo de pau oco
o antropófago cristianizado
fez bom negócio na troca da legenda do bon sauvage,
carne e sangue do herói invejado
pelo pão e vinho consagrados pelo padre
na hóstia santa do Cordeiro divino.

Claro, é o que diz o marquetingue oficial...
Porém, há quinhentos e tantos anos,
havia coisa melhor ao puro e simples 
extermínio dos bárbaros?
a não ser fugir e se esconder no mato grosso 
até o fim dos tempos da grande noite colonial.

Que nem aqueles antigos príncipes cristãos
querendo em vida indulgência plena pra matar sem culpa
a seus inimigos 
mediante compra antecipada do caríssimo perdão litúrgico
de Sua Santidade;
os antigos caciques dos Brasis pagãos,
convertidos da boca pra fora, 
comeram a paca geopolítica no banquete tribal
acompanhados de suas sonsas mulheres da rede rasgada.

Ou seja, fingindo santidade
se aportuguesaram geral através do cunhadismo
que pariu a mina de mamelucos danados,
masporém batizados que deus o livre,
com os quais os Brasis conquistaram Nova Lusitânia
de tal modo que até hoje
cerca de quinhentos de tantos anos
vão por acabar de abrasileirar Portugal
e toda mais lusitanidade daquém e além mar. 

É claro que um tamanho prodígio mundial
do chamado país do Futuro
além de não poder acontecer de caso pensado,
também não podia ser
feito exclusivo de pajés-açus ou caraíbas
do Cruzeiro do Sul...

Mais de dez mil anos contemplavam esta gente
antes do fidalgo Cabral, diz-que, descobrir o Brasil
a caminho das Índias orientais. A África mãe da humanidade já havia chegado aqui
também
como em toda parte do velho mundo
na primitiva Dispersão planetária...

E duzentos anos antes de Colombo
o viajante negro Abu Bakari, rei do Mali, chegou aqui 
pelas bocas do Amazonas e foi morar
lá no Hayti 
onde seus canoeiros oceânicos
se ajuntaram a índias ocidentais
e por necessidade humana criaram
os índios-pretos do Caribe 
que mais tarde povoaram as três Américas
com força genética da mestiçagem avassaladora
que levou de arrancada pro beleleu
as tais "raças" puras.


NA ROTA DO POENTE A INVENÇÃO DA AMAZÔNIA

Em todo relato de frei Gaspar de Carvajal,
guardado a sete chaves até recentemente,
sobre a aventura de Orellana
não há uma só linha sobre mulheres guerreiras
amazonas da lenda da Capadócia...

Até por que o cavalo é um animal
trazido pelos espanhóis só muito tempo depois
amestrado pelos índios americanos.
Breve, sem cavalo não há amazona.

A lenda colonial hispânica houve outra fonte:
as "virgens do Sol"
monjas do serviço sagrado do Inca, filho de Inti,
ele mesmo um encarnação do astro do dia.
Com a morte de Atahualpa 
assassinado pelo conquistador Francisco Pizarro,
correu a lenda segundo a qual as sacerdotisas incas
foram à selva esconder o tesouro do Inca
muito além das cordilheiras.

Orellana era primo de Pizarro e foi alcaide de Puerto Viejo,
no golfo de Guayaquil, ele ouviu dizer
que seu primo Gonzalo Pizarro iria fazer uma grande entrada ao país da canela, na selva peruviana.
Arranjou homens, cavalos e víveres para se juntar
à expedição.
Chegou a Quito depois da partida de Gonzalo
e sem demora seguiu-lhe as pegadas...
Passadas a montanhas nevadas entrou na selva
para logo encontrar o acampamento com os castelhanos
em apuros.

Os índios obrigados a mostrar o caminho do suposto tesouro
levaram os espanhóis a se perder e errar o caminho...
Com a habitual brutalidade dos conquistadores
os índios desertaram deixando-os entregues à própria sorte,
perdidos, esgotados e famintos.

Viram assim os conquistadores os sonhos do saque se transformar em medo:
depois de comer porcos, bois e vacas, lhamas e cavalos
que levaram, foram obrigados a comer literalmente
a sola dos sapatos... 
Alguns morreram ao comer ervas e frutos selvagens.

Outra expedições igualmente funestas marcaram
época da busca aos tesouros jamais encontrados,
mas nenhuma outra com a grandiosidade de terror e loucura
igual a do país da Canela
que fica sendo até hoje a grande lição da Floresta Amazônica em não se deixar vencer pela insanidade humana.

Foi assim que para sair de seu labirinto na selva
Gonzalo Pizarro mandou fazer, com o resto de ferro
e madeira tirada da floresta,
dois bergantins para descer o rio em busca de comida.
Orellana acompanhado de frei Gaspar e mais uma centena
de castelhanos seguiram pelo rio desconhecido.
Atingiram a confluência do Coca com o Napo
e por que a corrente fosse impetuosa 
ou por que dessem já os companheiros por condenados
à morte
fizeram assembleia a saber o que fazer: desertaram...

Desceram o rio roubando comida e fugindo dos índios
em cólera, 
passaram o Rio Negro abaixo e pela altura
do Nhamundá e Trombetas onde sofreram forte ataque
dos índios da região e viram pela primeira vez
mulheres em guerra auxiliando a reabastecer os guerreiros
de flechas...

Aí a imaginação fundiu a lenda das "virgens do Sol"
com a lenda indígena das Icamiabas, mulheres sem marido
que moravam na lagoa Espelho da Lua donde provém
a estória do Muiraquitã...
Passaram pelas ilhas do Marajó sob nuvem de flechas
quando Carvajal teve um olho arrancado por flechada
antes de, finalmente, saírem ao Oceano
e foi o frade se recuperar na ilha Hispaniola onde escreveu
o relato da viagem, certo de que Orellana precisava
de boa desculpa para escapar à forca: 
de fato Gonzalo Pizarro tendo conseguido escapar com vida
apresentou acusação ao primo por roubo e deserção.

Mas Orellana havia um tio cristão-novo e depois sogro
pronto a defendê-lo na corte, 
assim o descobridor do grande rio
chamado de Orellana ou Marañon pelos hispânicos,
Amazonas dos portugueses, Paraná-Uaçu dos tupis,
simplesmente Rio, uêne dos aruacos;
não morreu na forca, mas com título de Adelantado del Río
e governador de Nova Andaluzia (Guiana espanhola)
veio misteriosamente a desaparecer no Pará, ano de 1544.

Cinco anos antes do famoso descobrimento
do "rios das Amazonas"
o mameluco português Diogo Nunes saído de São Paulo
através do Peabiru chegou ao Peru e serviu ao espanhol
Mercadillo 
numa entrada maluca em busca do tesouro do Inca
tendo retornado do rio Solimões de mãos abanando
e o espanhol levado amarrado para controlar a loucura...

Disse o mameluco ter encontrado no Peru cerca de 300
parentes Tupinambás feito escravos dos espanhóis,
últimos duma grande imigração de 14 mil índios
de Pernambuco
que durante doze anos pelo sertão e, provavelmente,
o rio dos Tocantins abaixo até o Grão-Pará
para seguir o por do sol Paraná-Uaçu acima até o fim.

Que diabo faziam lá em riba esses uns tão longe?
Conhecendo a religião dos Tupinambás 
e o espírito belicoso
dos Aruãs e seus próximos parentes Anajás, Mocoões,
Mapuás e outros tantos "nheengaíbas" velhos de guerra,
dá pra acreditar que a passagem pelas ilhas do Pará
adentro do Amazonas foi pacífica?


Yby marãey: 
a Terra sem males novamente procurada
 no rio das Amazonas

Já o príncipe português Dom Pedro I havia dado o tal grito do Ipiranga, fazia quase cem anos...
quando o alemão Curt Unkler movido por estranha compulsão veio a se naturalizar sob o conhecido nome
de Curt Nimuendajú: 

depois deste extraordinário caso
aclarou-se o mistério mais obscuro das migrações
dos povos Guarani, dentre os quais os inigualáveis Tupinambás.

Já se sabe com Florestan Fernandes e muitos outros
o mito formidável que trouxe dos contrafortes dos Andes
esta gente para beiramar em busca do lugar mágico
onde não existe fome, escravidão, doença, velhice e morte.

Por excelência a utopia selvagem do Bom Selvagem...
Sem ela, babau Manoel da Nóbrega, José de Anchieta, todos mais missionários e matabrugres bandeirantes!

O litoral povoou-se das esperanças daquela gente andeja
ao encontro do Sol levante: logo viu-se impossível o sonho
com aquele desconforme sol que nascia em alto mar...

A Paraíba com seu nome revelador nos diz da ruindade
de um mar-limite entre a realidade e utopia de muitas gerações e guerras entre tupi-guaranis e tapuias...

Que se passou àquela altura próxima do choque
entre índios e europeus?
Se os dez dias de abril 1500 foram felizes
1530 foi ano do grande desengano dos bravos antropófagos.
Os caraíbas consultavam Jurupari e a marcha para oeste
começou.

Em 1616 no Grão-Pará já haviam passado espanhóis, portugueses em viagem secreta, holandeses infiltrados
através do Cabo Norte (Amapá).
os franceses da França Equinocial (Maranhão)...

Os Tupinambás eram senhores da antiga terra dos Tapuias,
desde o Maranhão até a margem direita do Tocantins e Pará:
porém os falantes da "língua ruim" (Nheengaíbas) dominavam as margem esquerda e as ilhas
há uns cinco mil anos, mais ou menos.



Sem a pax dos Nheengaíbas (nuaruaques Marajoaras) não teria existido uma Amazônia portuguesa e, por consequência com a adesão do Pará à Independência, uma Amazônia brasileira.

Por outras palavras, sem protagonismo do povo brasileiro os 400 anos de Belém do Pará seriam ainda continuação da farsa da história que se tem feito ao longo de quatro séculos. 

E o Povo Brasileiro, de que falam os historiadores brasileiros desde Capistrano de Abreu com sua obra fundada na investigação das fontes, inclusive de natureza etnográfica ameríndia e arqueológica em contraponto ao pensamento eurocêntrico de Adolfo de Varnhagen, que ainda predomina nas elites do país; é mistura fina de índio, negro, branco, mameluco, tapuio....

A cidade de Belém do Grão-Pará, em 2016, completará 400 anos. Até o dia 12 de janeiro de 1616, na boca do igarapé do Piry; um longo passado histórico havia decorrido 
desde a ocidental praia lusitana para "achamento" da cobiçada "ilha do Brazyl" (matéria corante mineral) no imaginário país de São Brandão, que mercadores da Irlanda vendiam na Europa continental e o "descobrimento" (no sentido de revelar conhecimento secreto, segundo a teoria do segredo das navegações portuguesas, de Jaime Cortesão) do Brasil em Porto Seguro,
na Bahia de Todos os Santos, em 1500.

Para o senso comum, o capitão-mor da capitania do Rio Grande do Norte, Francisco Roso Caldeira de Castelo Branco, mandado do Maranhão levantar um forte no "rio das Amazonas" escolheu o lugar que mais convinha à missão militar e logo meteu mãos à obra fundando o forte do Presépio. Posse da coroa de Portugal sob a União Ibérica (1580-1640), cognominada Feliz Lusitânia...

Hoje o espaço Feliz Lusitânia é coração e mente do centro histórico de Belém. Convém, pois, que seja teatro da paz amazônica nas comemorações dos 400 anos para escarmento do mundo dilacerado por infinitos conflitos que não acham remédio à intolerância e malquerença congênita. 

Muitas vidas e mortes foram tributárias de nossa felicidade ou infelicidade agora...

O mar Oceano e o Rio-Mar num profundo abraço de vida e morte planetárias continuarão pelos próximos 400 anos a fazer história?
será, para nossos descendentes, o dia 12 de janeiro de 2416 uma futura Feliz Lusitânia? 

Será que até lá -- se o mundo sobreviver às suas próprias loucuras e desafios que hoje nem se podem imaginar -- ainda haverá a velha cidade lusitana junto ao velho Guajará plantada?

AUTO DOS 400 ANOS

Feliz Lusitânia, forte do Presépio teatro amazônico. Desta vez é teatro da paz... Paz 400 anos depois da grande guerra do rio Babel, Almazonas. Que nem fora a paz de Mapuá, ilha do Marajó, ponto final da guerra entre Nheengaíbas e Portugueses 40 anos desde a tomada do Maranhão passando além da linha de Tordesilhas, para expulsão dos Hereges dos domínios de Castela sob pavilhão da União Ibérica até 1640.

Acerca da velha guerra canibal entre Tupinambás e Nheengaíbas sabe Deus quando esta começou de fato e quantos anos levou mato adentro a dar munição e peças ao cativeiro da Babilônia amazônica que o Grão-Pará se tornou...

Com o incrível acordo dos sete caciques rebeldes das ilhas (Mapuá, Aruã, Anajá, Mamaianá, Combocas, Pixi-Pixi, Guaianá), de 27 de Agosto de 1659 no teatro de paz dos Marajós, já a posse da coroa de Portugal se fazia efetiva sobre a pretensão de dilatação das raias do Grão-Pará, desde Belém até o Rio Negro e Alto Amazonas desde a famosa viagem de Pedro Teixeira a Quito (de 1637 a 1639): até aí a aliança histórica de lusos e tupis manifesta no tamanho da ambição sobre o antigo território aruaco, mas sem efetivo consentimento dos reais donos da terra e naturais senhores de lagos e rios, os mapas da região e cartas de sesmaria não valiam nada. É isto que vale rememorar agora a paz de Mapuá...

A usurpação deste uti possidetis aruaco milenar que está na base da Adesão do Pará à Independência do Brasil é roubo e traição à boa fé dos índios com grave perturbação aos direitos humanos de seus herdeiros e descendentes que deu causa a guerra-civil dos sumanos cabanos. Agora urge denunciar, mais uma vez, a histórica exclusão de índios e negros da História do Brasil para inventar o futuro desta brava gente em meio aos 400 anos de Belém do Grão-Pará.

Arcos e remos Tupinambás abriram os caminhos do sertão para ocupar altos rios. Aldeias tapuias das missões fizeram o trabalho da paz: assim se inventou a Amazônia, onde o estado precedeu à sociedade, é justo nesta hora dar cabo ao apartheid historiográfico brasileiro para colocar os antepassados do povo amazônida, finalmente, em lugar de honra da sua própria história...

Masporém, desta vez Feliz Lusitânia à beira rio plantada com mil felicidades para todos Brasis e a Portugália inteira repartida pelo mundo que o português inventou e desta vez pra valer além de Áfricas de safáris, do discurso das horas e dos salvados da traça do tempo na Torre do Tombo!

Desta vez, o cacique tupinambá Cabelo de Velha não precisará mais assaltar a fortaleza, nem pular o muro e tombar morto, outra vez, dentro da praça forte feito ladrão que espreita dentro da noite para atacar e se vingar da injúria dos séculos cometidas contra seu povo... 

Ou que nem um espectro noturno num terreiro distante, no subúrbio pobre de todas cidades que nem Belém do Pará, de Portugal ou Palestina onde os vóduns do mistério vem semear esperança em casa de Mina, cujos tambores e cânticos ecoam na cidade sonâmbula que se volta de costas ao mar profundo e ao grande rio das origens do Homem e do espírito; filho do homem livre e desimpedido das ilusões desta vida passageira.

Guaimiaba, impávido que nem Bruce Lee, entra forte porta adentro do Presépio. O sentinela mulato inzoneiro tal qual índio sutil lhe presta continência. A cerimônia solene dos 400 anos não poderia passar sem o ancestral cacique Tupinambá...

Dentro do recinto no papel de fiel defensor dos índios
o Padre Antonio Vieira espera e se prepara para usar sua poderosa arma oratória.

De pé! Diz um voz de trovão em decibéis apocalípticos.

Eis que chegam delegações tupinambás de Cametá, Mocajuba, Igarapé Mirim, Abaetetuba, Barcarena, Acará, Moju, Guamá, Curuçá, Vigia, Maracanã, Marapanim, Bragança, Viseu... 

E das ilhas em dezesseis igarités grandes
trazendo como legenda o nome do respectivo povo nuaruaque insulano:

em movimento anti-horário do relógio solar da ilha do Marajó -- "Guaianá", "Arariúna", "Sakaka", "Arari", "Maruaná", "Aruã", "Anajá", "Charapucu", "Mapuá", "Mariocai", "Aricará", "Aracaru", "Araticum", "Muaná", "Samanajá" e "Maruaru".

Na plateia, poucos percebem ainda que as delegações das ilhas correspondem pela ordem de chegada aos municípios da Costa-Fronteira do Pará, a partir do rio Marajó-Açu que dá nome a toda ilha grande do estuário do Amazonas: Ponta de Pedras, Cachoeira do Arari, Salvaterra, Santa Cruz do Arari, Soure, Chaves, Anajás, Afuá, Breves, Gurupá, Melgaço, Portel, Bagre, Muaná, São Sebastião da Boa Vista e Curralinho. 

Não podiam faltar os Tucujus em nome do povo do Amapá, mais os mais velhos mocambos, já chamados de quilombos; desde o Trombetas e Curuá pra baixo.

Aí, paresque, sem outro aviso se não o Sermão aos Peixes, proferido pelo dito padre grande Antonio Vieira, no ano de 1654, na cidade de São Luís do Maranhão; de repente vai se passar o juízo final do rio Babel... 

Quem foi avisado que tal dia seria convidado?

O público é pego de surpresa. Já está visto que se o padre Vieira é advogado dos índios ele não poderá, ao mesmo tempo, servir de promotor... E o juiz quem há de ser neste júri extraordinário e inesperado em plena festa de aniversário belenense? Uma voz fria anuncia: frei Bartolomeu de Las Casas a fazer acusação aos réus...

Réus? Oh, céus! Todos se entreolham. Até os índios que poderiam ser as vítimas principais em julgamento e os negros ali presentes pelas mesmas vexações, uns e outros sempre acusados de paganismo e feitiçaria pelo tribunal do Santo Ofício, não deixam eles de se preocupar em sair dali mais uma vez tendo que pagar o pato e trabalhar dobrado de castigo pelos malfeitos da história da acidental civilização. 

Um movimento involuntário faz a plateia olhar atrás onde certas figuras à caráter fariam lembrar velhos coloniais em seus melhores trajes de missa domingueira. Já uma expressão de medo, rostos tristes e empoados, desfigurados pela culpa de tontos séculos que não permite mais adivinhar a antiga arrogância e impiedade senhorial de outrora.

Meu Deus! Meu Deus! Geme uma velha beata senhora de engenho, dizendo ela com ar caduco: "que está a acontecer?"... A Igreja comparece em peso do alto clero episcopal da capital ao baixo oratório nas paróquias mais perdidas do sertão verdevagomundo de Bené Monteiro. Sinos anunciam o início solene da sessão e a voz anuncia a chegada da Advogada, Senhora Maria de Nazaré... 

Quem a conhece? Uma mulher de feições tapuias, seria ela preparada a contra-argumentar às pesadas acusações esperadas? Ao mesmo tempo a senhora aparentava ser uma pessoa distinta e popular, ela entra acompanhada por um senhor idoso com de ar devoto do Círio, chamado paresque 'seu' José Português, compadre do caboco Plácido.

Atenção, muita atenção! repete a voz que parece vir com o vento trazendo chuva e tempestade sobre a cidade das mangueiras. 

Levantem-se todos, o Juiz supremo se apresenta!

Quando os olhares procuram pela altíssima majestade da Justiça, eis que surge um menino moreno de uns doze anos de idade, aproximadamente. Com sorriso nos lábios o menino se encaminha a um tipo de trono aveludado disposto sobre o tablado.

Frei Bartolomeu deixa escapar sua surpresa, dizendo ele de queixo caído: "Ah, mas é uma criança!"... E mesmo o astuto padre Vieira não esconde seu espanto. Um velho que parecia ser a cara cuspida e escarrada do cruel Bento Maciel Parente há três séculos pensou em protestar contra a menoridade do meritíssimo, mas já estava ele a sentir pesar sobre a cabeça a mão da justiça divina e calou-se.

"Mas, que é isto?" Quis saber um bispo da Cúria... A Advogada dativa Senhora Maria de Nazaré respondeu, "Vossa Reverendíssima deve saber que é o Menino Deus". Então se fez silêncio profundo como no antepenúltimo minuto que antecedeu a primeira noite do mundo. Um minuto de silêncio. Mas tão intenso como a eternidade... O Menino sorri e seu sorriso era como uma música para acalentar o mundo de todas inocências perdidas. E o mundo sorria com alegria infantil do Menino Deus, imperador do Quinto Império: diante da graça os ímpios tremiam e o tristes cantavam plenos de felicidade.

A voz oculta voltou a falar. "Tomem seus lugares. Que fale a acusação, frei Bartolomeu..."

"Meu senhor Jesus, perdão... Por minhas culpas. Já não sei dizer se os maus cristãos são mais pecadores que eu, que na minha penitência não fui capaz de converter o duro coração daquele pobre castrado e empedernido jurisconsulto Ginés de Sepulveda em sua tese polêmica contra os direitos humanos dos índios... Nem soube eu convencer a El-Rei que todos somos igualmente filhos de Deus ou Natureza com certeza... Sim os lobos matam e decepam os cordeiros para alimentar cães ferozes, mas nossa voz apostólica não foi forte o bastante para defender os fracos e oprimidos a enfrentar os potentados dementados pela febre do ouro. Confio em vossa Justiça, amém".

O Menino parecia distraído naquele júri da Terra imatura e a Advogada Senhora Maria de Nazaré deixava de lado os autos do processo para contemplar o Menino. A velha fortaleza desfazia sua sina de masmorra, pintava os canhões frios e silenciosos com as cores mais risonhas do arco-íris, plantava roseiras sobre a muralha e fazia o verde rebrotar sobre as pedras para se converter em verdadeiro presépio.

José saiu um pouco para tomar ar novo e olhar o tempo lá fora sobre a baía escumando sob vento geral, viu que a terra era boa e a gente da terra amável como seus vizinhos na Galileia. Uns índios vindos da feira do Açaí, no Ver O Peso; seguidos de perto pelos três Reis Magos em altos papos com pajés e babalorixás se aproximaram para conversar mais por gestos que por palavras mui estranhas.

Era chegada a hora do padre Antonio Vieira fazer a defesa dos índios Nheengaíbas das ilhas, acusados de pirataria e rebeldia à santa madre religião. O vereadores da Câmara temiam o pior: que o povo fosse lembrado de que os representantes da Cidade requereram o cativeiro e extinção de todos Marajós... Mas, grande comoção, o grande tribuno do Quinto Império do mundo estava mudo. Mudo que nem passarinho na muda, como Zacarias na Bíblia que não acreditou ser possível na sua velhice e de sua mulher Isabel ainda pudesse o casal, velha oliveira, gerar brotos iguais a João Batista. Voz que clama no deserto... E o payaçu dos índios, daquela vez, não clamou coisa nenhuma: tudo que ele disse antes e poderia dizer depois já era pleno entendimento do coração de Jesus. Tampouco falou Maria, por desnecessário.

A sentença estava lavrada na consciência de cada um. O Menino por que é Deus, masporém não deixa de ser sempre menino ribeirinho, foi brincar na outra margem do rio passando pelo furo da Paciência ao grande rio-mar de água doce caminhando sobre as águas, seguido por Maria de Nazaré e "seu" José a bordo de canoa montaria os anjinhos a remar. 

Os negros quilombolas foram embora felizes da vida a festejar a liberdade como nunca dantes. E os índios seus parentes e aderentes em suas canoas boas fizeram velas com alma nova rumo ao futuro. Enquanto isto, velhos matabugres dementes subitamente libertados do Mal acharam melhor ir a pé descalços acompanhar o Círio na corda, como qualquer outros pagador de promessa pela grande graça alcançada em perdão e sincero arrependimento de suas vidas tortas.

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