segunda-feira, 16 de junho de 2014

VIVA DALCÍDIO!



Canções de Alinhavo

Chove nos campos de Cachoeira
e Dalcídio Jurandir já morreu.
Chove sobre a campa de Dalcídio Jurandir
e sobre qualquer outra campa, indiferentemente.
A chuva não é um epílogo,
tampouco significa sentença ou esquecimento.
Falei em Dalcídio Jurandir
como poderia falar em Rui Barbosa
ou no preto Benvindo da minha terra
ou em Atahualpa.
Sobre todos os mortos cai a chuva
com esse jeito cinzento de cair.
Confesso que a chuva me dói: ferida,
lei injusta que me atinge a liberdade.
Chover a semana inteira é nunca ter havido sol
nem azul nem carmesim nem esperança.
É eu não ter nascido e sentir
que tudo foi roto para nunca mais.
Nos campos de Cachoeira-vida
chove irremissivelmente.

Carlos Drummond de Andrade. Livro Corpo – 2º edição – Editora Record, 1984.

Falei em Dalcídio Jurandir como poderia falar em Alfredo, sua criatura imortal. Ou em Giovanni Gallo com seu sui generis ecomuseu da comunidade ribeirinha do lago e rio Arari... Confesso que a morte do índio sutil marajoara, na cidade do Rio de Janeiro, nesta mesma data há 35 anos passados, ainda me dói. Esta morte somada a do marajoara que veio de longe, padre Gallo, na cidade de Belém do Pará a 7 de março de 2003; são dessas grandes mortes que ficam doendo no coração da gente pelo resto da vida.
 
 
Porém, a Criaturada grande de Dalcídio sabe que gente fica encantada, nunca morre, tal qual Guimarães Rosa falou. Libertado do mal de Parkinson pela imaginação criativa de seus fiéis leitores; o autor de "Chove nos campos de Cachoeira" vive. Ele chega, todos os anos, com as primeira chuvas para semear o verde nos campos queimados. Assistir com os vaqueiros a festa do Glorioso São Sebastião, rever o chalé e meditar debaixo na árvore Folha-Miúda misturando sonhos, estrelas e passarinhos na beira do rio.

 
Graças à fidelíssima amiga Maria de Belém Menezes, filha do poeta Bruno de Menezes, arquitetou-se a ponte dalcidiana Rio-Pará por onde circulam notícias da Criaturada. Acontecimento metafísfico que acabou aproximando o escritor agnóstico e o padre insubmisso dos pescadores do lago Arari: assim, veio a lume o extraordinário livro-reportagem "Marajó, a ditadura da água", primeiro da trilogia que constitui o fundo memorial da vida e obra de Giovanni Gallo, onde O Nosso Museu do Marajó é a grande figura emblemática de "cacos de índio" transformados num renascimento cultural sem precedentes.
 
 

De modo semelhante, com fragmentos de história oral, hoje poderá ser considerado no próximo futuro o primeiro DIA DE ALFREDO: uma pequena semente simbólica de tucumã (Astrocarium vulgare) extraído do Mito da primeira noite, para nascimento da ideia genial da divina canhapira do Turismo Literário na paisagem cultural Belém-Marajó... 
 
Neste dia também plantou-se no Rio de Janeiro, a par da Casa de Cultura Dalcídio Jurandir (CCDJ) e da Fundação Casa de Rui Barbosa (FCRB), zeladoras da obra do escritor marajoara, a ideia de um modesto núcleo de amigos do Museu do Marajó. Intelectuais sensibilizados da importância de elaboração de projeto de valorização da Cultura Marajoara, podendo a termo levar junto à UNESCO e mais instituições de cooperação para ciência, educação e cultura estudos sobre repatriação de peças e coleções pré-colombianas levadas da ilha do Marajó para o exterior.
 
 
No infinito de nossas lembranças, Dalcídio e Gallo reunidos num eterno abraço fraterno estarão presentes, em Cachoeira do Arari, na grande festa de reinauguração de O Nosso Museu do Marajó e nova Casa de Dalcídio para acolher as primeiras cerâmicas repatriadas na história da brava gente marajoara. 
 
Quem viver verá.

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